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23 de novembro de 2006

Um Passeio Inocente

O governo continua irredutível ao considerar como manifestação, um simples e inocente passeio de militares, os quais, por casualidade, pretendem confluir em ajuntamento para o Terreiro do Paço (um local, de resto, aprazível).
Não haverão cartazes, palavras de ordem ou a necessidade de interditar a via pública. Mas Sócrates insiste na cooptação de direitos constitucionalmente consagrados.
Compreende-se o receio do governo. A generalização de expressões públicas de descontentamento no seio das forças armadas poderá conter em si o germe da indisciplina, da desordem e do afrontamento a um poder democrático.
Contudo, o subterfúgio semântico a que os militares recorreram é perfeitamente legal, mesmo se a iniciativa se reveste claramente de um carácter de intervenção política.
Não há nada que impeça os militares ou qualquer outro grupo socio-profissional de se passear alegremente junto ao rio ou num descampado em trás-os-montes. Actualmente não... A impossibilidade de ajuntamentos [que não para fins lúdicos ou de apoio à União Nacional] terminou supostamente em 25 de Abril de 1974.
Ou será que não terminou?!...

17 de novembro de 2006

Alisares Político-Sociais

A satisfação do Presidente da República com a performance do Governo não surpreende, apesar das supostamente divergentes famílias partidárias: um começou no PSD e acabou supra-partidário e o outro também começou no PSD e acabou numa espécie de ala esquerda do PSD ou revigorou ala direita do PS. Para já!...

Mas há mais casos destes em que as derivas ideológicas sucumbem ao utilitarismo ou até, a uma nova interpretação da realidade. Com o avanço da idade e desencantamento do mundo, Mário Soares e Freitas do Amaral reposicionaram o seu discurso ao nível da esquerda radical, tendo o segundo protagonizado uma transformação só ultrapassável pela metamorfose da Roberta Close. Mais radical, só se a Igreja defendesse a interrupção voluntária da gravidez.

Zita Seabra indispôs-se com PCP e passou a alinhar com o PSD. José Luís Judas fez o mesmo mas não foi tão longe. Foi moderado, quedando-se pelo grupo dos marxistas não ortodoxos, no vulgo, social-democracia europeia ou socialismo português.
De maoista, Durão Barroso, não só se converteu ao liberalismo económico, como hoje é um euro-convicto e proeminente Presidente da Comissão Europeia. O que dirão os seus antigos comparsas revolucionários ainda no activo? Manuel Monteiro, titubeante, começou na direita, passou por um período circunstancial de genuína crise de identidade, para se afirmar agora como o esteio da direita em Portugal.

Só Alberto João Jardim e mais alguns indefectíveis se mantêm resolutamente leais a princípios, interesses ou a si próprios. O Scolari também.

Estes ajustamentos posicionais [mais ou menos brusco] são todavia, necessários e positivos na vida de um homem. Podem representar o grau de inteligência do protagonismo, ou em contrapartida, a capacidade de sobrevivência política. E [esses reposicionamentos], afirmam-se cada vez mais como um sinal dos nossos tempos, em virtude da aceleração inaudita do ritmo a que as sociedades contemporâneas se movem. Nunca, até hoje, a mudança social foi tão impetuosa, incisiva e até fracturante, nomeadamente nos seus pilares de sustentação axiológica e cultural. Nalguns casos, fugaz e geradora de verdadeiras perturbações e indefinições sociais. Confusões. Em muitos casos, exclusiva, potenciando desenvolvimentos assimétricos e capacidades assimétricas de se confrontar com a mudança e connosco próprios na solução de problemas.

É enquadrada nesta ordem que a volatilidade eleitoral (característica das democracias consolidadas e estáveis) vem ganhando terreno ao campo das convicções ideológicas inabaláveis. Estas têm particular alimento em circunstâncias de convulsões sociais, instabilidade económica e política, intolerância cultural ou excessivo relativismo cultural, etc. Nessas circunstâncias existe a necessidade da definição concreta do posicionamento ideológico. É aí que as ideologias são fracturantes e definidoras de segmentos sociais e grupais, constituindo uma barreira defensiva, normalmente apoiada em não-lugares como são as utopias (de esquerda e de direita).

Inversamente, em sociedades imediatistas e confortáveis [a sensação das grandes e basilares conquistas ser um achievement inquestionável], as ideologias esbatem-se e cedem à volatilidade. Cedem sobretudo ao pragmatismo racional da estandardização política e à uniformização cultural e política de uma sociedade, rompendo as paredes estanques dos principais compartimentos sociais.

É aqui que reside o centrão de Sócrates e Cavaco. Numa anestesia geral assente na inevitabilidade das coisas. O realismo pragmático das reacções a demandas de solução imediata, sobrepõe-se às concepções idealistas com espectro de acção a longo prazo.

13 de novembro de 2006

Duas Opções: Ou Ganhas ou... Ganhas!

Este tipo de assembleia geral que os partidos políticos, da esquerda à direita baptizaram com o ambicioso termo «congresso», conjuga frequentemente alguns atributos de inquestionável utilidade. Se, por um lado, à sua realização não está alheia a ideia de debate horizontal de ideias entre os militantes, por outro lado, permite que os partidos políticos não percam de vista o rumo definido nas principais linhas programáticas ou que, eventualmente o alterem, se assim for a vontade expressa pelos militantes. De qualquer modo, um rumo traçado pela aprovação das moções pela maioria.

Como se sabe, o princípio do debate de ideias (ao qual é inerente o esgrimir de argumentos, a superação de obstáculos e a definição ou confirmação de estratégias políticas), pode ser mais ou menos intenso e mais ou menos profícuo, consoante a conjuntura, as circunstâncias, a força e convicção da oposição.

O congresso do PS resultou, como aliás se esperava, num unanimismo enfadonho em torno do discurso em tom paroquial do chefe, o culto do chefe… Ausência de oposição? Inevitabilidade carismática? Incontestabilidade do trabalho desenvolvido?

Certo é que, a dado momento, se ficou com a sensação que o debate [que se pretendia rico, transversal, alargado] se circunscreveu a dois personagens (Sócrates e Helena Roseta) e a um tema: referendo à interrupção voluntária da gravidez.

Absorta e de algum modo obcecada com o tema, Roseta foi peremptória: que o governo tenha a coragem de, caso não vença este referendo, tomar a iniciativa de fazer aprovar a lei na Assembleia da República, quand même. Não podia ter sido mais amiga a preparar a defesa do Secretário-Geral, que não teve dificuldades em repelir o «ataque» com a lógica mais simples das coisas. Não se convoca um referendo à população para de seguida trair a vontade expressa pela mesma. Agrade o resultado ou não.

Ao propor tal cenário, Helena Roseta apelou inequivocamente à discricionariedade anti-democrática própria de governações despóticas. Então um referendo só é válido se alinhar pelo mesmo diapasão dos detentores do poder? Para os lados da arquitecta, a democracia directa que tão aguerridamente defende, será afinal um proforma de validação das suas próprias concepções, ideais e interesses?

No final, um tão pobre congresso só serviu para reforçar o ascendente de Sócrates, contribuindo para o legitimar ainda mais nos rumos mais ou menos erráticos que ele mesmo define «contra [alguns dos mesmos] ventos e marés» a que Santana Lopes sucumbiu.

6 de novembro de 2006

Persuasão ou Incitamento?

A fronteira é ténue entre o campo da campanha eleitoral e o da opinião. Ainda assim, parece-me pouco razoável que programas públicos de televisão adoptem uma posição formal sobre matérias a referendar brevemente (interrupção voluntária da gravidez – IVG) e apelem a um determinado sentido de voto, sem que esses mesmos programas tenham sido arquitectados como espaços de propaganda política como os consagrados constitucionalmente «Tempo de Antena».

É legítimo que a Igreja ou outra instituição defenda os seus valores e princípios, felizmente. Contudo, é excessivo colocar o economista João César das Neves, no programa 70 x 7, a incitar explicitamente ao «não».

Será conveniente relembrar, quiçá, que as tomadas de posição sobre quaisquer matérias de natureza política ou ideológica têm espaços concretos para o efeito, onde a responsabilidade das posições assumidas cabe inequivocamente e objectivamente a quem as profere.

Não se tratando de um programa de debate de ideias no qual é assegurado o exercício do contraditório (como o «Prós & Contras), verifica-se um aproveitamento abusivo das benesses que um Estado supostamente laico concede de forma exclusiva a uma religião. De modo idêntico, seria perfeitamente ilegítimo que no programa do «Gato Fedorento», Ricardo Araújo Pereira, incitasse a votar ao «sim».

A fronteira é de facto ténue. Não obstante, algumas considerações não devem escapar ao campo da mera opinião e de preferência em espaços onde seja garantido o contraditório.

4 de outubro de 2006

A Particularização do Interesse Público

A revelação sobre as estimadas «perdas» na participação das receitas do Estado a transferir para as autarquias locais (Fundo Geral Municipal, Fundo de Base Municipal e Fundo de Coesão Municipal), mantida a «marinar» pelo Ministro da Administração Interna António Costa até um dia antes da realização do congresso extraordinário da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses), tem como aparentemente primeiro objectivo lançar a confusão e o desnorte no seio dos autarcas em congresso.

Revela, antes de mais, uma noção deturpada do que é o Estado. Concepção aliás partilhada pela generalidade dos autarcas. De resto, se há característica que parece transpirar da política portuguesa, é a inversão da ordem de prioridades na definição do interesse público, sendo os cidadãos obviamente, o derradeiro elo da cadeia na referida ordem de prioridades.

O Estado é, ocabiorresto, uma arena onde se digladiam clãs, senhores feudais e parvos, revelando duas dimensões muito importantes: a arregimentação de parvos e a sua instrumentalização pelos clãs e senhores feudais. É muito simples, não é?

À falta de melhor, fica esta definição.

14 de setembro de 2006

Tirania da Maioria

Ainda com respeito ao Pacto da Justiça – aqui tratado em à tout propos (231) – cozinhado na semana passada entre PS e PSD, Octávio Teixeira (ex-deputado do PCP), reflectia hoje sobre as perversidades dessas negociatas na Antena 1. Como foi dito, a assunção de um regime parlamentar democrático não se pode coadunar com este tipo de arranjos que se alcançam sem debate, sem a intervenção parlamentar, sem que os restantes representantes do povo com assento parlamentar possam rejeitar, apoiar, discutir e votar. Trata-se, em suma, de um óbvio mecanismo de «legitimação» paralela à que está consagrada na Constituição da República Portuguesa. E por isso mesmo a sua generalização tem riscos para a própria democracia.

Todos sabemos que o modelo democrático, de pureza variável no contexto mundial, incorre num processo de eliminação de erros daquilo que são os seus procedimentos, normas e disseminação de valores e princípios entre as administrações e a sociedade civil. Por isso, oficiosamente, não podemos senão falar do conceito de democracia tout court… embora com muito boa vontade, o desejemos muito. Os que o desejam, naturalmente… E os que desejam ardentemente, levando-a empacotada a toda a parte do mundo.

Ora, uma ideia de democracia representativa de pendor parlamentar, não tem qualquer cabimento quando se fazem arranjinhos entre os que detêm o poder (outorgado pela conversão de votos em mandatos), excluído todos as outras sensibilidades. Por isso mesmo, o sistema representativo português não apresenta um sistema eleitoral maioritário, sendo certo que, este tipo de arranjos encontraria ainda assim, mais legitimidade em países como os EUA ou a Inglaterra. Este, como outros pactos, representa em bom rigor, o que pode ser definido como uma tirania da maioria, tanto receada por Tocqueville. O que mais assusta é que isto é prática comum e os argumentos, medíocres, convencem toda a gente.

1 de setembro de 2006

David - Golias (início da partida)

Tenha ou não a razão do seu lado, o clube de futebol Gil Vicente tem o mérito de romper com a ingerência legal imposta por multinacionais às leis de um país.

Não é admissível que um Estado de Direito fique refém de regras feitas à sua revelia por tais multinacionais (com fins lucrativos, de resto), e assim reine a impunidade e a arbitrariedade decretada por um sistema que se sobrepõe em matéria de regras e orientações gerais, a Estados soberanos.

As «leis» do mundo desportivo, encontram validade até esbarrarem com as leis emanadas da Assembleia da República.

Caso as restantes equipas nacionais de futebol venham a sofrer represálias infantis e irresponsáveis da FIFA, só nos podemos congratular por não abdicar do exercício de cidadania na defesa dos interesses nacionais.

O Gil Vicente fará jurisprudência – de um modo ou de outro – como o caso Bosman na década de 90. Pode ser que assim seja reposta alguma da democraticidade e legalidade demasiadas vezes arredada desse mundo promíscuo.

8 de agosto de 2006

Um Dever Moral Enquadrado na Ética da Responsabilidade Perante a Barbárie

Se em alguma ocasião no futuro, Portugal ou outro país da «velha Europa» vier a ser flagelado ou hostilizado por alguma outra nação sofrendo agressões de qualquer natureza, justificada ou injustificadamente, as suas populações têm o dever moral de não solicitar intervenção externa – diplomática ou militar – em ordem a repor a soberania do país, a não ser as ajudas humanitárias e o «campinho» de refugiados.

Este será o preço a pagar pela vista grossa que a Europa faz aos actos perpetrados por carniceiros apostados em fazer da sua bandeira, a bandeira do retorno à barbárie, ao far west, à imposição teológica (seja da coca-cola, seja da burka).

Nunca é demais recordar que há um ano atrás, o Líbano era considerado um exemplo em matéria de consolidação democrática no médio oriente, apesar de dar guarida ao Hezbollah, primos afastados do PNR…

A incapacidade da Europa em fazer valer os seus princípios e valores democráticos, humanitários e de rejeição da violência, tem-se revelado estrutural e extenuante. Nesse caso, para as populações civis que são chacinadas e estropiadas no Iraque, em Israel, no Líbano e em muitos outros cenários de guerra ou conflitos armados, a esperança de paz não poderá jamais residir nas pretensas boas intenções da Europa e da ONU. A diplomacia não resolve, a não ser a diplomacia armada, condicionada pela vontade e interesse de países como os EUA e dos que giram salivantes na órbita anal deste Golias.

26 de abril de 2006

25 de Abril

De há 1 ano para cá pouco mudou, pelo que as palavras dessa altura valem para a actualidade. Pecam por escassas. Mas esgotar o âmbito da observação e análise com palavras seria uma tarefa tão árdua quanto lunática. Há sempre espaço para aditamentos. E, passados 32 anos, dá efectivamente a sensação que houve pouca bulha, pouco sangue. Não são assim as revoluções, nem no país dos estrumpfes... É tudo tão sensaborão, tão maçadoramente português…
Passados 32 anos, tal como hoje, a responsabilidade foi esfumada, ninguém foi responsabilizado, ninguém foi tido nem achado. Temos a incrível faculdade de exorcizar a toda a merda feita ao mais alto nível, «assim governamo-nos a todos»... As elites de ontem são as elites de hoje. Foram objecto de uma reciclagem higiénica. Vira-casacas, um bigode a menos e uma alteração de residência. Uns tempos no Brasil, nos casos mais bicudos. Entretanto, passados 32 anos (e 40 e 60 e 150 e 300), aqui a chusma continua inerte a contemplar as diabrites que os mariolas fazem, promovendo-as posteriormente entre si a um nível mais medíocre e imensamente mais néscio. Raiosnospartam a todos!

11 de abril de 2006

Na Corda Bamba da Ilusão

A Romano Prodi depara-se-lhe agora a hercúlea tarefa de relançar a economia italiana, devolver-lhe [alguma] credibilidade, pacificar o saco de gatos que integram a sua coligação (e futuro governo) e alcançar uma boa relação institucional com o Senado, a câmara alta. Parece muito para um só governo, sobretudo quando é da Itália que se fala.
Mas pelo menos, ficamos com o consolo de nestas eleições, terem sido a maioria, os coglioni que não votaram no cappo Berlusconi.

10 de abril de 2006

Na Corda Bamba da Des-Ilusão

O Primeiro-Ministro francês tem um duro desafio pela frente: como minorar a humilhação que ele próprio cava, em cada dia que insiste em ignaramente manter o CPE (Contrato do Primeiro Emprego). Esperemos que a população francesa também seja «coglioni» como os partidários de Prodi e não se deslumbrem com essas migalhas de Villepin, agora retocadas esteticamente.

Por falar em italianos, será mais um desastre para a sua credibilidade colectiva caso o conceito tradicional de «coglioni» – vituperado por Berlusconi para qualificar os eleitores da esquerda – se venha a apurar no final da contagem dos votos (hoje). Por coincidência, os cinco anos del cappo della famiglia, são os que mais produziram intenções de blindagem do poder político às incursões da justiça. Por outro lado, defeito auditivo ou mero preconceito, nunca mais se ouviu falar daquelas mediáticas operações dos carabinieri nos limos baluartes da cosa nostra... Imbecil é que não é.

3 de abril de 2006

Nem Matam Nem Moem

Ao que parece, a conspiração de que terá sido vítima o autocrata (parauns) e benemérito (paraoutros) angolano traduz-se num: «metes-te na merda se não fizeres o que eu mando». Curiosa, essa noção de independência entre as instituições. Naquelas bandas, uma charada, que algumas «rolhas» parecem compreender muito bem. Já outras, revelam uma especial atracção pelas suas próprias fezes ao não solucionarem enigmas de crianças.
Os engulhos da história nunca esconderam alguns dos seus cancros. Uns mais malignos do que outros, partilham no entanto essa característica maníaco-obsessiva da visão periférica de 360º. Eles lá sabem porque raio há tanta gente a pensar em lhes fazer maldades e mesmo que não haja [o que eu duvido] haverá sempre alguém que dê a cara, mesmo que a não tenha... A chamada palmada pedagógica.

30 de março de 2006

Dúvidas Existenciais




James Nachtwey, Afeganistão, 1996
Talvez o melhor repórter de guerra de todos os tempos, James Nachtwey encontra-se em Portugal para integrar o júri do Prémio Fotojornalismo Visão/BES. Mais de 30 anos a denunciar uma das dimensões mais hediondas da natureza humana. E da civilização.

A máxima atribuída a Karl Von Klausewitz, segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios, parece ser honrada pelo calibre dos políticos que ao longo da história, mais poder dispuseram para o que lhes desse na mona. O mal não está naturalmente na política porque a guerra não é mais do que um apêndice alimentado por líderes políticos depravados e perversos, incapazes de o remover a não ser pela via da reprodução do sofrimento alheio. E da sua engorda…

Mas também se diz que as sociedades pacíficas geram frouxos. Serão afinal os políticos, historicamente, bons pastores de rebanhos
?

22 de março de 2006

Too Much Love Will Kill You

A doxa fervorosa dos que militam e a convicção exacerbada podem obscurecer a análise. A observação lúcida de uma tão preocupante evidência, deixa os mais inquietos em permanente sobressalto, senão depressão. É caso para dizer que too much love will kill you… Ou, pela boca morre o peixe.

17 de março de 2006

Democracia, Democracias

Implementar de estaca, a democracia contemporânea à imagem sacralizada do Ocidente em locais a atravessar um tempo histórico discordante, é uma ilusão colectiva. Uma coerção cultural eivada da inevitável hostilidade simbólica. Em locais a reviver neste tempo histórico os nacionalismos exacerbados, imbuídos da verve medieval. Locais onde as luzes não chegaram, locais que enfim, queimaram uma série de etapas para manusear artefactos e tecnologia contemporânea. Não é determinismo desenvolvimentista. É a assunção de um caminho coxo para alcançar um sistema político com uma orientação muito específica no domínio dos princípios de igualdade, liberdade na afirmação dos direitos humanos, sociais e políticos. Veja-se o Iraque, Angola, a Birmânia ou a Madeira. Sobeja a diacronia perfilhada num único tempo histórico.

13 de março de 2006

Cidadania Activa - Utopia?

Considerar a interposição de uma eventual providência cautelar ao negócio do «pombal» – também conhecido por praça de touros – em Évora, tem em conta um princípio inalienável: a prossecução do interesse público. E esse, não posso ser eu a defini-lo, nem o Presidente da Câmara, nem o líder da oposição, aparentemente personificado na figura do Manoelinho. Somos todos e, para isso, não chega a legitimidade de um mandato. Já de si, é o que é...

Um tal negócio, resultante de um investimento exclusivamente público (até prova em contrário) numa estrutura-infra, em ruínas portanto, a envolver uma concessão de utilização de 25 anos é no mínimo, alarmante. Põe em polvorosa os espíritos mais desatentos. Findo esse período, a referida estrutura-infra – recuperada de raiz – regressa sem mais encargos às famílias proprietárias. Atente-se que não estamos a falar de um imóvel com valor patrimonial especial, porque de facto, do ponto de vista arquitectónico, é a antítese de um Campo Pequeno, por exemplo. Quanto muito, algum valor simbólico, para os marialvas, para um ou outro aficionado e para alguns estudantes universitários, que ali concluíam o triste cortejo anual com uma decadente garraiada. Em todo o caso, o seu valor simbólico encontra-se desde logo, indexado à prática tauromáquica, finalidade para a qual o equipamento só estará parcialmente vocacionado. Os aficionados merecem algo melhor… Tal como os eborenses.

A questão que se coloca é apenas esta: este processo foi objecto de algum estudo de viabilidade, que considerasse a construção em terrenos municipais, de um equipamento municipal similar e com retorno público? Não me parece. Não há conhecimento de qualquer tipo de estudo com respectivo caderno de encargos. Ou seja, tanto quanto se sabe, a decisão foi apriorística. Alguém se lembrou disso, vá-se lá saber em que canto da casa, numa bela manhã de primavera.

A construção de um equipamento similar, de raiz, em terrenos municipais, significaria de algum modo, um encargo mais oneroso para a coisa pública?

Ninguém sabe. É exactamente por haver uma necessidade de clarificação de forma a perceber se a construção nestes moldes é a mais razoável, que surge a figura da providência cautelar. Que seria perfeitamente dispensável se fosse objecto de uma discussão pública. Porque apesar de o sufrágio mandatar políticamente os eleitos, legítimos representantes do povo, não pode todavia significar um cheque em branco.

Independentemente das ligações ou simpatias partidárias, esperar-se-ia um pouco mais dessa elite intelectual eborense que passa a vida em bicos dos pés, aguardando por uma possível migalha, uma eventual palmadinha nas costas. São assuntos da mais elementar cidadania, portanto, transcendem a órbita mesquinha e irracional em que circulam algumas pessoas nos partidos políticos.

Uma maioria na Assembleia Municipal não é, de per si, conditio sine qua non, que legitime toda e qualquer deliberação. Onde estão os grupos de cidadãos, onde estão os vereadores e membros da Assembleia Municipal da oposição? E os que não sendo e não se revêm num determinado modus operandi que não é exclusivo nem do PS nem de qualquer outra força partidária?
Isto é o que o vulgo costuma designar de «fazer filhos em barriga alheia». Feito o filho, não nos restará outra alternativa senão acarinhá-lo e dar-lhe as melhores condições para que desenvolva com saúde e seja motivo de orgulho de todos, que somos nós. Mas que se podia ter evitado, lá isso podia.

1 de março de 2006

Escola a Tempo Inteiro

Na habitual crónica de Vital Moreira no jornal Público (28 Fevereiro), o constitucionalista exalta o caminho seguido pelo governo [reforçando-lhe a actuação com uma dose de coragem], enaltecendo por sua vez o conceito de Escola a Tempo Inteiro. Este modelo é integrado numa reforma mais ampla do sistema educativo, a qual “compreende várias dimensões: o alargamento do horário de abertura das escolas; o preenchimento dos hiatos criados pelas faltas dos professores, mediante actividades de substituição; a ampliação das valências não lectivas (culturais, desportivas, etc.); a estabilidade do corpo docente (…)”.

Na generalidade, esta será uma medida acertada, ainda que os interesses corporativistas e os sindicatos se oponham. É natural e legítimo que o façam, embora demonstrem em toda a linha a mesquinhez utilitarista e se distanciem do princípio de realidade que em tese deverá ser consubstanciada na prioridade dada aos alunos, aos utentes. E neste campo, só um governo forte, determinado e com uma certa dose de cinismo, poderá velar pelo interesse geral em detrimento do interesse particular.

Contudo, há o reverso da medalha, meramente ideológico. Puramente teórico, nos dias que correm.

A «Escola a Tempo Inteiro» significa um caminho inverso àquele que tem vindo a ser conquistado a partir de inúmeras lutas travadas pelo tecido social e até pelos sindicatos; fruto das teses liberais e conquistas democráticas.

Tal como uma série de direitos conquistados e aplicados na Administração Pública, que infelizmente não foram objecto de um acompanhamento no sector privado (é deste lado da barricada que está a deficiência que, por uma questão de equidade e solidariedade, vai ser estendida à Administração Pública, com a perda de direitos e garantias assumidos, contratualizados, conquistados), seria suposto caminhar em sentido inverso, isto é, libertar os jovens e os pais, para lhes restituir a dimensão dos laços familiares consolidados, da socialização primária e de uma aprendizagem alternativa fundada na multiplicidade de interacções com diversos ambientes [que não se esgotam naturalmente pela circunscrição física da escola]. Favorecer os contactos face-a-face e aumentar a qualidade de vida com a redução do tempo de trabalho e da doutrinação mecânica e indiferenciada das crianças. Os pais não conhecem os filhos e vice-versa. Nem há pachorra para isso ao fim de um dia desgastante e vivido para os outros.

Por outro lado, a quantidade de horas de trabalho e de aulas não significam o seu equivalente em produtividade, seja no trabalho, seja nos bancos de escola. Parece pacífico. Mas por seu turno, um acréscimo de duas ou três horas do dia para fruir as relações interpessoais ou simplesmente para ter tempo para se «ver ao espelho», podem ser determinantes. Mais tempo livre, mais tempo para as pessoas e sobretudo diversificar as actividades e os afazeres. Sem que isso implique, obviamente, o vagueamento colectivo de crianças e adolescentes. Contudo, permanecer 10 horas por dia numa escola também não é particularmente saudável... Ainda que sejam frequentes as actividades extra-curriculares.

Esta medida [sem querer minimamente melindrar ou contestar a sua bondade], vem contribuir no longo prazo para cimentar e incrementar de algum modo, o conceito de homem-autómato, funcional para a sociedade, disfuncional para si próprio.
Mas essa reforma do tempo era o que deveria ser, não o que pode ser. Por isso, a medida tem que ser benvinda.