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11 de julho de 2007

De-Talhes (SÍSTOLE - DIÁSTOLE - SÍNCOPE?)


… para se entregarem de novo, rotineira e quotidianamente, às solicitações de uma sociedade dinâmica e altamente estruturada. Para que o sistema seja retroalimentado e não recue, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos e refluxos. Num vai e num vem, nalgum momento da vida, incompreendido e absurdo pelo ser imperfeito. Tal como as peças de Ionescu, embora aqui, são raras as vezes em que o pano encerra o último acto, resguardando os humanos de uma existência paradoxal.

De-Talhes (DO TRABALHO AO LAZER)


Os tempos são de progresso a um ritmo inaudito, criam-se estruturas para acolher os novos nómadas, cuja bagagem já não consiste nos artefactos de caça, recolecção, montagem e desmontagem de acampamentos. Multidões de pessoas movimentam-se constantemente para destinos longínquos, agora em busca do pão espiritual. Pontos de fuga de uma existência marcada pela complexidade quotidiana e pela necessidade de iludir a aborrecida norma.

De-Talhes (A SUPERIORIDADE DA CIÊNCIA)


E as crescentes necessidades do homem ordenam que, para sua comodidade, se façam alquimias, se levantem prédios, se cruzem rios e se desafiem as leis da natureza. Pasmado com tão assinaláveis conquistas, o homem anuncia a sua omnipotência, festejando-a com o domínio pela técnica e ciência, entrincheirando os instintos e os sentidos na imensa realização que são as civilizações humanas.

10 de julho de 2007

De-Talhes (TERRA - o pão não cai das árvores)


… para se deter numa qualquer pradaria complacente, olhar o horizonte e perceber que a mãe terra, não só é sua deusa e juiz mas também amante, fecundando-a na expectativa de daí retirar o seu pão. Agora, é a cultura que esgravata o chão, operando-lhe transformações ao ritmo dos desejos dos homens e não, como outrora, durante os ciclos e quantidades estipulados pela natureza que até aí votara as comunidades à caça e recolecção de alimentos.

9 de julho de 2007

De-Talhes (ATÉ AO FIM DO MUNDO)


… um caminho, ainda que por entre abissais gargantas de terra e vertiginosas cordilheiras, capaz de traçar estradas, romper barreiras e estender salpicos de civilização até aos píncaros mais inacessíveis e aos ermos mais trogloditas e desolados, só revelados pela intransigência humana.

De-Talhes (UM RUMO)


… guiando-os com mais ou menos acerto, rumo ao acolhedor regaço de um porto de abrigo. Como uma luz sinalizadora que lhes indica o melhor caminho a seguir. Esta busca de águas calmas, de compreender e domar o meio, pertence ao imaginário ancestral dos homens que ontem como hoje, lutam pela sobrevivência e reivindicam um percurso em permanente construção.

8 de julho de 2007

De-Talhes (À CONQUISTA)


Desde tempos imemoriais, a necessidade e o medo e a crença, moldaram homens intrépidos, dispostos a arriscar a vida em aventuras contra o destino, as agruras e a – por vezes fatal – hostilidade do meio. Lançando-se temerariamente no desconhecido, a essas hordas de homens, sempre valeram o engenho, o sacrifício e a razão que os acostumaram a enfrentar e superar, permanentemente, o inevitável e decisivo desafio da sobrevivência.

7 de julho de 2007

De-Talhes (UM CAPRICHO?)



Ao contrário dos outros animais, o cérebro do ser humano está equipado com ferramentas racionais e sensíveis que lhe permitem transpor um cenário imaginado para uma dada realidade. Tais faculdades, permitem que um pintor cubra com neve uma qualquer paisagem desértica. Contudo, à semelhança de um estímulo sensorial que fornece uma informação errada ao cérebro (caso das visões no deserto), assim as alterações climáticas lançam a confusão meteorológica no planeta, invertendo a ordem natural das coisas.

6 de julho de 2007

De-Talhes (ÁGUA)


A alta montanha, os pólos e as zonas glaciares são importantíssimos reservatórios naturais de água. Aos primeiros raios de luz primaveril, os fios de água cristalina e fresca correm montanha abaixo em agitado frenesim, engrossando as ribeiras, rios e lagos, cuja biodiversidade conhece, nesses tempos, cíclicos rejuvenescimentos. Os degelos são fenómenos naturais desencadeados fundamentalmente pelo simples movimento de translação do planeta, o qual está na origem das estações do ano. Porém, têm vindo a agudizar-se nos últimos séculos, na medida da intensificação da intervenção humana, em quantidades e períodos substancialmente maiores.

5 de julho de 2007

De-Talhes (MUSA)


A natureza é generosa: dá alimento, segurança e bem-estar ao homem. Esse bem-estar indiciador de uma identidade [ab origine], que é consecutivamente reificada nos nossos jardins, no quadro de um pintor famoso ou no deleite proporcionado ao contemplar a sublime paisagem a partir de um miradouro. Mas sob o manto colorido e delicado, fonte de inspiração e confessor de amantes e artistas, homens e mulheres, oculta-se uma profusão de proveniências, denunciando as profundas transformações operadas pela cultura humana.

De-Talhes (MURALHA)


Qual poderoso exército de gigantes glaciais posicionados na linha da frente, o intransponível muro arruma a humanidade e a natureza nos respectivos compartimentos. Uma divisória. Contudo, o simples manuseamento de um utensílio de caça e os desenvolvimentos tecnológicos que se seguiram, viriam a criar pontes de diálogo entre aqueles dois mundos inicialmente apartados, posicionando-os numa relação de permanente e tensa interacção; por vezes destabilizadora dos equilíbrios estabelecidos.

4 de julho de 2007

De-Talhes (SÁBADO)


Madrugada. O sexto dia; aquele que Deus definiu para dar ao mundo quem o substituísse na criação de algumas coisas. Neste dia, Deus não foi sensível às queixas de Vinicius de Moraes, expressas no poema “O Dia da Criação” e acabou mesmo por agir como agiu. O mundo não mais seria o mesmo e, naquela madrugada, os céus agitaram-se revoltosamente por isso. Ao sexto dia, Deus brindou o mundo natural com um seu Alter-ego, capacitando-o como demiurgo do mundo cultural: o homem… e a mulher.

2 de julho de 2007

De-Talhes


A natureza e a cultura humana convivem em permanente dialéctica reconstrutiva, nem sempre sendo clara a destrinça destes dois mundos. De-Talhes propõe um olhar sobre este contínuo compromisso, procurando mostrar alguns talhes na natureza, tidos como inalterados e, outros, quotidianos, que suportam estilos de vida tal como os conhecemos hoje, profundamente alterados pelas trocas e enxertias da paisagem, das pessoas e dos hábitos. Da ideia de natureza aparentemente intacta, à representação de uma sociedade emancipada do mundo natural, De-Talhes sugere antes de mais, uma visita a algumas coisas simples que nos rodeiam e aos seus significados, sempre variáveis, sempre humanos…
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De-Talhes
Exposição de fotografia (2 a 23 de Julho)
Foyer do Centro Cultural de Redondo
... e aqui
Todas as fotos a apresentar aqui não reflectem inteiramente as fotos expostas no CCR: nem em resolução nem no corte.

26 de novembro de 2006

Mário Cesariny (1923-2006)


Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

14 de março de 2006

Invocação



Mark Rohko, Red and Orange, 1955



A MORTA


Se de repente deixares de existir,
se de repente não viveres,
eu continuarei a viver.
Não me atrevo,
não me atrevo a escrever,
se tu morreres.
Eu continuarei a viver.
Porque onde houver um homem sem voz,
ali estará a minha voz.
Onde os negros forem espancados,
eu não posso estar morto.
Quando os meus irmãos entrarem no cárcere,
eu entrarei com eles.
Quando a vitória,
não a minha vitória,
mas a grande vitória
chegar,
ainda que esteja mudo, hei-de falar:
hei-de vê-la chegar, ainda que esteja cego.
Não, perdoa-me.
Se não estiveres viva,
se tu, querida, meu amor,
se tu morreres,
todas as folhas cairão no meu peito,
sobre a minha alma choverá noite e dia,
a neve queimará meu coração,
sentirei frio e fogo e morte e neve,
meus pés hão-de querer levar-me para onde tu descansas,
mas
continuarei vivo,
porque tu me quiseste acima de tudo
indomável,
e, amor, porque tu sabes que não sou apenas um homem,
mas todos os homens.


Neruda, Pablo (1999): Os Versos do Capitão, Porto, Campo das Letras, 105.

13 de março de 2006

"Lugar, Lugares"




"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído"


Helder, Herberto (2001): Os Passos em Volta, Lisboa, Assírio & Alvim, 53.

8 de março de 2006

Mulher



Ângela Ferreira, Catarina, oil on canvas, s.d.


"A princess dreams of unicorns and dark fairies. A beautiful angel will protect and provide company in the dark, lonely nights."
RECEITA DE MULHER

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, Qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; Que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. É aconselhavel na axila uma doce
Relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos.
A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e,
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo,
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; E destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.
Vinicius de Moraes

3 de março de 2006

Male S'tar



Wassily Kandinsky, Small Words, 1922


VÉNUS (soneto seis)

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos…

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.


Pessanha, Camilo (1996): Clepsidra, Lisboa, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, p. 59.