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8 de abril de 2011

O FMI está aí, mas como o sol, não é igual para todos


Em quatro décadas (em 32 anos, para ser mais preciso), esta é a terceira vez que Portugal recorre à «ajuda» do Fundo Monetário Internacional. No mínimo, é impressionante, para não dizer confrangedor. Por demais debatido, pouco adianta agora avaliar as habituais consequências - invariavelmente nefastas - que tal intervenção terá na economia portuguesa (como teve no passado e como tem no presente na Grécia e Irlanda). Mas numa coisa é difícil discordar do primeiro-ministro: é um «desprestígio» para a imagem do país... Particularmente numa altura em que a imagem é aparentemente tão sobrevalorizada. Desnecessária ironia. Mas o Partido Socialista, a partir de hoje em congresso, tem que lhe explicar que a imagem não é tudo (mesmo para os países de «tanga») e essa ideia do status estar indexado exclusivamente à imagem é coisa do passado. Por um lado, não foi a imagem de «um país moderno e sofisticado» que conduziu a esta escalada nos juros da dívida pública mas sim o conhecimento dos credores sobre os problemas estruturais do país, tantas vezes diagnosticados e tantas vezes varridos para debaixo do tapete pelos governantes. Por outro lado, não é na imagem dos portugueses que vai doer especialmente mas sim nos seus estômagos.

Em quase quatro décadas, Portugal tem sido invariavelmente governado pelo chamado «arco do poder», constituído por PS, PSD e CDS-PP. Houve conquistas e avanços, é certo. E muito desperdício, próprio do novo-riquismo de um país acabado de sair de um longo mergulho de 48 anos. Todavia, nenhum se incomodou com a solução efectiva para os problemas estruturais e, quando o procuraram fazer, ou foi ao arrepio de decisões sérias ou foi a coberto de efémeros interesses económico-partidários. Esta situação configurou bolsas de autêntico retrocesso. A começar pela vergonha dos mais baixos níveis de escolarização da OCDE, recente e timidamente mascarados pela ainda maior vergonha em que se tornou o programa das Novas Oportunidades, as quais mereceram um particular empenho do primeiro-ministro. Acabando no enterro da produção agro-industrial e no eterno problema da competitividade da economia portuguesa, assente na precariedade, desqualificação e baixos salários. Além disso, em quatro décadas, o esteio e reconhecimento que deveriam merecer os políticos e os partidos políticos deteriorou-se inapelavelmente na sequência de casos e casos e casos de absoluta irresponsabilidade política, despesismo, corrupção, clientelismo e singular miopia. Saldanha Sanches não se cansou de acusar as metástases do Estado, não obstante ter merecido da parte dos portugueses pouco mais do que desprezo.

A vinda do FMI estava anunciada, era desejada.
1) Desejada fortemente pelos bancos portugueses que, do alto do pedestal, não se coibiram de fazer ultimatos ao Estado, mesmo sabendo que dele comeram a carne e os ossos com alto sentido de patriotismo. Mesmo sabendo que uma fatia de campeão da responsabilidade moral pelo sobreendividamento das famílias lhes cabe integralmente. Imorais para exigir seja o que for daqueles que não podem continuar a cumprir as suas obrigações;
2) Desejada fortemente pelo governo, incapaz de resolver os problemas do país, incapaz de conservar uma preciosa maioria absoluta no Parlamento, incapaz de construir uma imagem suficientemente atractiva para os credores como para lhes saciar o monstruoso apetite, incapaz de reconhecer as suas próprias fragilidades; 
3) Desejada fortemente pelo PSD que, na ganância do poder, predispôs-se a chumbar irresponsavelmente o PEC IV mesmo sabendo que não havia alternativa naquele preciso espaço-tempo. É sobejamente mais confortável instrumentalizar a vinda do FMI como meio de cobertura política para, enquanto governo, implementar as medidas difíceis que, de outra forma, não teria tomates para executar.

Não vale a pena perder muito mais tempo com a conversa das responsabilidades dos partidos políticos. Todos têm as suas relativas e proporcionais responsabilidades, na medida em que fazem parte do sistema e têm eleitos em órgãos executivos e deliberativos, seja a nível nacional, regional ou local. Todos contribuem para a despesa, seja ela mais ou menos racional. Todos têm a sua quota-parte, apesar da flexibilidade de alguns em conviver com situações internas de grande controvérsia. Em alguns casos, em clara demonstração de impunidade; imunes à justiça dos comuns, à justiça capturada e colonizada pelos poderes político e económico. Esses quantos não têm medo de perder empregos, de perder salários, de se alimentar gulosamente do erário público. E continuarão assim porque têm a consciência que aí não mexe o FMI nem a carneirada que lhes enche a pança, nalguns casos à custa da sua própria. Contudo, é fundamental que neste jogo de responsabilidades, a culpa não morra solteira nem se case com todos: há responsabilidades criminais que vão além da fugidia responsabilidade política!

PCP e BE deram um interessante sinal de convergência na reunião de hoje. Por seu turno, os socialistas têm, a partir de hoje, uma excelente oportunidade de aprender outra valiosa lição e retornar aos valores e aos princípios do socialismo.
Mas todos sem excepção devem reflectir sobre a necessidade de moralizar a vida política, sobre a responsabilidade exemplar que têm perante os representados e perceber que há limites cujo desrespeito não pode ser de modo nenhum tolerado pelos cidadãos. É assim que deve ser, em democracia.


1 de abril de 2011

Contra a inevitabilidade do pensamento único


O presidente da república anunciou ontem ao país que aceitou o pedido de demissão do governo, procedeu à dissolução da Assembleia da República e convocou eleições antecipadas para 5 de Junho. Retirou o governo do atoleiro e prepara-se para o devolver ao atoleiro em conjunto com PSD e CDS-PP (a menos que dois consigam chegar aos 50%). Partilhamos a sua preocupação com o estado do país mas eram escusados os apelos à conformidade com o pensamento ideológico dominante («não é tempo» de «utopias», «demagogias» e «populismos». Pode-se eventualmente concordar, embora sejam discutíveis as fronteiras.), ao qual não podemos deixar de imputar todas as responsabilidades. Pelo bem e pelo mal. Porque, como o sr. Cavaco Silva bem sabe, a democracia autoriza os cidadãos a pensarem e expressarem-se livremente. Logo, não é apropriado negar-lhes o direito de se manifestarem, de se indignarem e, se for caso disso, escolherem um rumo alternativo para as suas vidas. O sr. Cavaco Silva não é pai de 10 milhões de pessoas.

Pai, pai... parece ser a Europa, a União Europeia. Mas um daqueles pais ausentes que não hesitam em comprar os afectos das crianças em troca da sua ausência e de todas as expectativas que vão defraudando sempre que os seus superiores interesses o justifiquem. Raciocínio utilitarista. É nisso que consiste o euro. É nisso que consiste a solidariedade da União Europeia. De que outra forma a podemos entender hoje, esquecidas as ameaças fundadoras e alguns dos princípios de Schuman? Não podemos esquecer que foi parida pela Comunidade Económica Europeia que, por sua vez brotou da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Os fundos comunitários são trocados no mercado pelo estímulo ao consumo de bens importados da União Europeia, os quais até são estimulados pela venda de dinheiro pelos bancos alemães a taxas de juro baixas que inutilmente compensam o abandono da produção agrícola e industrial do país. Um tropeção encorajado pelas economias mais fortes. Até ao dia em que deu galo e a solidariedade se revela afinal uma medida objectivamente mensurável. Com um pé dentro da Europa e com outro pé fora dela, não resta outra alternativa nesta encruzilhada senão optar por sair ou «federalizá-la». Optar por retornar à soberania dos estados-nação ou transferi-la definitivamente para uma comunidade alargada. Estar no limbo é que não...

A culpa nunca morre solteira. Não são apenas os políticos portugueses os responsáveis por se terem deslumbrado com a possibilidade imediata de se perpetuarem no poder à custa de benefícios efémeros. Nem a população, por ter pensado que poderia confiar na moralidade ausente dos bancos (sempre que estes vendiam ferozmente sonhos mais ou menos legítimos), na competência do sistema político e na estabilidade económica. Os países europeus também têm grande responsabilidade. Antes de mais, por terem em Portugal (e nos países periféricos) um bom local para escoamento de produtos (e mão-de-obra barata, enquanto não apareceu a China) e, em segundo lugar, porque lhe devem a solidariedade proporcional à confiança que neles depositámos quando adoptámos o euro como moeda corrente. Uma ideia por muitos considerada descabida num cenário em que a complexidade política e administrativa é enorme.

Quanto à política caseira, não lhe resta outra alternativa senão moralizar-se. O governo pode começar por nomear para os cargos de direcção da Administração Pública quem tem mérito e competência. E dispensar os apparatchik cuja única função conhecida é a de controlar a posse e exercício de poder. Os partidos têm aqui uma boa oportunidade para se livrarem dos clientelismos que alimentaram durante décadas. E a justiça, uma boa oportunidade para ser efectivamente independente. Há esperança no espaço das alternativas que restam, nas zonas de incerteza. E essa só pode ser reificada pelos portugueses, desde logo, rejeitando a inevitabilidade do pensamento único.



PS: na impossibilidade de identificar o nome do autor da fotografia, não se pode deixar de aqui lhe expressar uma justa homenagem.

11 de março de 2011

Nervoso miudinho

Depois de uma entusiasmante moção de censura preparada para «clarificar» posições e ali morrer, depois de um agitado vai-vem do primeiro-ministro entre Lisboa e Berlim com o intuito de prestar provas da nossa correcta aprendizagem, depois de um discurso de tomada de posse presidencial hipocritamente correcto e da imaturidade de um governo cego, incapaz de assumir responsabilidades pela governação e se comportar convenientemente (anedótica, aquela infantilidade teimosa do primeiro-ministro quando decide não ser o primeiro a saudar o presidente eleito, quebrando insidiosamente o protocolo e a lealdade simbólica reificada pelo acto), temos amanhã um protesto por todo o país, marcado por aqueles que vão pagar a factura das extravagâncias da última geração do bigode. E temos também um presidente da república a recuar naquilo que disse, alegando ter sido mal interpretado por pessoas mal-intencionadas. Estará a chamar mal-intencionados também aos que lhe vão pagar a pensão, os cuidados de saúde e as mordomias? Aos que sentem na pele os problemas que as viperinas línguas tanto papagueiam directamente para o alçapão do esquecimento?

Destes acontecimentos também relevam alguns indícios preocupantes sobre a nossa política e que se podem resumir em quatro ideias: esvaziamento ideológico (e axiológico?), ingerência causada pela dependência económica, mediocridade das lideranças, gap entre o parlamento e a realidade (material?). Nenhum é novo e alguns até são sistematicamente estudados, somando-se a tantos outros indícios tão profusamente disparados. Mas o que é particularmente interessante é a fulgurante capacidade da crise em estalar o verniz. Estamos a ficar nervosos?

1 de julho de 2010

Naufrágio adiado

Nesta altura da ida a banhos – «cá dentro», conforme a «especializada» e protectora sugestão do Presidente da República, Aníbal Silva – o interior do país assume definitivamente o estatuto de quintal das traseiras, só contrariado por uma ou outra calorosa festa do emigrante. Em contrapartida, o litoral fica irrespirável, intransitável e intratável.

Para além das consequências reais sofridas pelas regiões do interior do país, a litoralização do território português poderia representar uma espécie de fuga simbólica da Europa - que até podia ser real se não estivéssemos profundamente comprometidos com o «projecto europeu», pelo menos enquanto este nos continuar a sustentar. Caso Espanha não fosse um paradigma no desenvolvimento de novas centralidades e autonomias regionais, até podíamos pensar mais seriamente a Península Ibérica inspirada na metáfora de Saramago em Jangada de Pedra. De regresso à fuga simbólica da Europa (representada pela desconvergência em quase todos os índices, que vão do PIB per capita ao número de licenciados), é como se estivéssemos ensanduichados entre a espada – a ameaça continental – e a parede – o des-conhecido mar. Mar de esperanças e ousadias mas também de perigos suficientemente dissuasores e comprometedores do conforto da orla costeira.

E até podíamos pensar, simbolicamente também, que a «parede» funciona como um meio indutor da fuga, tipo grinder que esmaga lentamente e tritura este naco de carne: fuga da espada (como aconteceu com as invasões napoleónicas e a saída estratégica da corte para o Brasil); e fuga de nós próprios (a nossa vocação marítima e a atracção pela fartura que prometia o além-mar mas, também, a habitual projecção do sentimento da gloriosa nacionalidade nos «embaixadores» do sucesso como José Mourinho, Cristiano Ronaldo, António Damásio, José Saramago, a selecção de futebol, o pastel de nata numa cafetaria de Nova Iorque e a opção ocasional de um qualquer «artista» de Hollywood por um par de sapatos made in portugal), embora hoje já ninguém se lance às cegas no desconhecido... a não ser os outros, os quem vêm do Hemisfério Sul que, como se sabe, começa ali logo no Norte de África…

As preocupações políticas com o recuo do interior são públicas e, de tempos a tempos, regressa a conversa da regionalização, prometem-se medidas de discriminação positiva, ensaiam-se truques de atractividade no interior (como essa coisa fastidiosa do turismo de qualidade para ricaços sem tempo para safaris no Quénia). Porém, a situação não se inverte e, pese embora as assimetrias cavadas entre as populações, temos uma nação inteira acotovelada ao longo da folha de alface que constitui o litoral.

Prestes a naufragar a bombordo, de barriga vazia mas vestidos com fato de banho e caipirinha (nos anos 60 era o uísque, bebida sofisticada de gente fina...).

12 de janeiro de 2010

Não fazem bem nem mal, são bem mandados, são baratos, são... portugueses!

As provas de grande competência dadas em território nacional devem ter repercussões excepcionais fora de Portugal, a avaliar pelo recrutamento de «cérebros» portugueses pelas instituições internacionais. Além dessas invulgares competências, as características individuais também deverão pesar fortemente nesse apetite por simpáticos portugueses. A impressionante gestão dos tempos mortos praticada por António Guterres, por exemplo, valeu-lhe o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. No caso de Durão Barroso foi certamente valorizada a forma desprendida como largou um cargo de projecção como o de primeiro ministro.

Caso Vítor Constâncio venha a ser nomeado vice-presidente do Banco Central Europeu, é aceitável que se esteja a premiar a brilhante capacidade de previsão a jusante, uma espécie de astrolábio interno mas ao contrário.


6 de novembro de 2009

Modelo da mão-de-obra barata ainda faz sentido... no Lesoto

Ludgero Marques (Associação Empresarial de Portugal), Francisco Van Zeller (Confederação Industrial Portuguesa) e outros comparsas representantes dos patrões portugueses, andaram décadas a defender um modelo de atracção de investimento estrangeiro assente na mão-de-obra barata e, consequentemente, desqualificada.
Talvez os ávidos horizontes dos patrões à portuguesa ajudem a explicar por que razão tem Portugal uma das mais fracas taxas de investimento estrangeiro da Europa. É que, neste restrito círculo de países, a competitividade assenta na qualificação, na diferenciação associada a medidas de alto valor tecnológico e científico que acrescentam valor. Assenta também num sistema de gestão profissional, no qual não cabe o patrão obeso e patético que gere a grande maioria das empresas portuguesas.

20 de outubro de 2009

Futebol dá de comer a muito mais gente do que o vinho

No início deste Milénio, uma trupe de gente «mesquinha, pesarosa, provinciana e certamente mal intencionada», incapaz de ver para além da porta do quintal, criticou a construção de vários estádios de futebol. Uns velhos do Restelo... Para além dos custos exorbitantes, do investimento com retorno por apurar, da existência de outras prioridades quer na área do desporto quer na área do turismo, toda aquela contestação também tinha em vista defender de algum modo a dignidade da Federação Portuguesa de Futebol, frequentemente enxovalhada pelo comportamento servil do seu presidente perante a FIFA.

Hoje, o retorno do investimento ficou obviamente por explicar, incluindo nessa vertente turística em que a imagem de Portugal projectada por um miserável campeonato de futebol passaria a funcionar como chamariz de hordas de turistas. Um Portugal moderno, atraente e sofisticado mas que varre o lixo para debaixo dos móveis. Os milhões que foram gastos davam para vinte anos de promoção institucional do Galo de Barcelos no mundo inteiro. Mas isso não chega.

Admite-se que o crescimento do turismo (que já vinha de trás) possa ter sido impulsionado por grandes eventos como o Euro 2004 ou a Expo 98, Porto Capital da Cultura, etc., porém, há factores que não podem ser ignorados como o aumento do turismo interno, o sentimento de segurança num mundo fustigado pelo terrorismo internacional ou as próprias operadoras de Low Cost. Além disso, o abrandamento de entradas registado em 2005 (INE) sugere que o efeito futebol tenha realmente funcionado... em 2004, porque no ano seguinte, desvanece-se. Esta hipótese vem repor alguma justiça no trabalho contínuo que muitos operadores  turísticos e agentes do sector têm vindo a desenvolver desde a década de 80. Por outro lado, o investimento estrangeiro associado ao Euro 2004 também é um argumento que carece de algum realismo. No mínimo. A não ser que as fábricas de bolas na Índia se tenham deslocalizado para o Vale do Ave...

Enfim, hoje, as autarquias de Aveiro, Coimbra, Leiria, Faro, Guimarães e Braga estão endividadas e sem saber o que fazer aos estádios. Apesar de ser um cenário longínquo, em Aveiro admite-se a demolição. Em suma. à excepção do Boavista - praticamente defunto - os únicos que lucraram com o negócio foram Benfica, Sporting, Porto e Gilberto Madaíl.

Em contrapartida. continuam por construir equipamentos desportivos para apoio de clubes, associações e escolas por todo o país. Os praticantes de outras modalidades continuam a ser ignorados e a trabalhar em condições risíveis, o país continua na cauda da Europa em desempenho económico e no índice de desenvolvimento humano.

Mas Madaíl e estes arautos da «modernidade» não cedem na prepotência e preparam-se para entregar nova candidatura, agora em parceria com a Espanha, para realização de um Campeonato do Mundo que há-de ser, seguramente, o melhor de todos os tempos (segundo a bitola portuguesa).

29 de setembro de 2009

Uma no cravo, outra na ferradura


Se especialistas norte-americanos na área da toxicodependência apresentam Portugal como um modelo de sucesso após a introdução de medidas como a descriminalização do consumo ou o programa de troca de seringas, já no caso da saúde, talvez seja prudente que Barack Obama se inspire no modelo holandês. Porque, neste último caso, parecem ter sido os recentes governos portugueses quem se inspirou no modelo norte-americano. 

17 de setembro de 2009

Ingerências

Ao contrário da falta de entendimento entre os «partidos de poder» sobre estratégias estruturais para o país, em Espanha (da má memória para os espíritos mais tacanhos), socialistas e populares convergem e consentem na compreensão extra-terrestre do interesse nacional estar à frente dos mais mundanos interesses partidários. Sem pretender imiscuir-se nos assuntos internos portugueses e ao contrário da família ideológica portuguesa, Mariano Rajoy (presidente do PP e líder da oposição) lá foi atirando que o transporte em alta velocidade é prioritário. 
Nota minha: essa integração estratégica espanhola em torno das grandes obras é assinalável. Porém, o senhor Rajoy devia compreender definitivamente que a emancipação de mil cento e quarenta e três não foi uma casualidade. - Por isso, senhor Rajoy, não nos venha dar lições porque os nossos dirigentes estão formatados para «dispensar às aulas»...

19 de agosto de 2009

Mutatis mutandis

Uma notícia do jornal Público dá conta das condições precárias em que metade dos emigrantes portugueses se encontram. Já estou a ver a revolta entre os crentes na superioridade lusa. Sem contrariar a solidariedade, esses pategos haviam de ver as condições precárias em que se encontram os imigrantes no nosso querido país. Pelo menos, antes de os condenarem à indigência eterna por «roubarem» empregos, produzirem riqueza, procriarem sem regra e, nalguns casos, fornicarem indecentemente com os nossos melhores baios...

3 de abril de 2009

Este país não é para velhos

Este país é um fardo difícil para os competentes, ajuizados e honestos.
Só isso explica a nomeação de Domingos Névoa (recentemente condenado por tentativa de corrupção do vereador José Sá Fernandes no caso Braga Parques) para a administração de uma empresa intermunicipal.
Como é evidente, não é lapso ou descuido. É o mesmo fartar vilanagem que tolera coimas de 5000 euros num convite amistoso à corrupção.

6 de fevereiro de 2009

«Se eu fosse rei...»

Ainda hei-de escrever uma tese sobre a democracia. Talvez quando for velhinho e já não houver tal coisa. É de tal forma complexa que é o único sistema de governação que assenta teórica e aproximadamente a base da decisão colectiva em milhões de pessoas. Nenhum outro foi tão longe. Há sessenta e cinco anos, os nazis exerciam o domínio total, eliminando milhões, de acordo com critérios étnicos (e uma dose de falência cerebral colectiva). Pela mesma altura, os soviéticos exerciam o domínio total, condenando milhões, de acordo com os seus critérios políticos (e uma dose de sociopatia). Há quinze anos, os hutus exerciam o terror total (máquina sem controlo nem organização), dizimando milhões de tutsis, de acordo com os seus critérios étnicos (e uma boa dose de livre arbitrio).
Dentro de uns anos, a democracia será realmente um bom tema. Sobretudo para explicar que, tal como em outros casos, também se trata de uma utopia. Menos espinhosa e mais proveitosa para uma larga maioria. Mas utopia.
...Como não sou rei e como não me dou bem com mandões...
PS: há um texto que quero apresentar aqui mas que, por circunstâncias adversas, ainda não foi possível apresentar. O título é «Eu Burguês!». Dedicado a todos nós que vivemos confortavelmente e que piramos se nos faltar a água canalizada durante dois dias seguidos.

2 de dezembro de 2008

Fare il portoghese

Um dos grandes enigmas da confiança refere-se aos que, não confiando em si próprios, confiam nos outros. Ou seja, atribuem aos outros, qualidades que não identificam em si próprios enquanto grupo ou indivíduo.

Por vezes, aspectos desse enigma podem revelar-se falaciosos. Há uma expressão italiana usada para classificar algumas classes de burlas, como o clássico «entrar à borla», oportunamente invocado por um transeunte alegadamente habitué de In Tenui Labor e, ainda mais preocupante, masoquista sem rumo. A expressão fare il portoghese nasceu quando, na sequência de uma embaixada enviada por D. João V a Roma com o fito de exibir as conquistas africanas ao Papa Clemente XI, os romanos se fizerem passar por portugueses para poder aceder a eventos reservados aos lusos.

No decorrer dos séculos, esta expressão foi adquirindo contornos pejorativos que, gradualmente, se foram colando à idiossincrasia portuguesa. Hoje, o italiano médio terá exorcizado totalmente essa conduta condenável da sua própria história, contribuindo para reforçar a nossa tese do «chico-espertismo» lusitano.
Isto significa que, generosos, por vezes não só assumimos os nossos defeitos como também os dos outros.

Uma grande família

No dia em que se comemora a restauração da independência nacional ocorrida em 1640, é hábito do pretendente ao trono português, vago desde 1910, comunicar qualquer coisita ao povo. Nessa condição, D. Duarte de Bragança trata de legitimar a sua causa, enumerando a incontável série de virtudes da monarquia e lamentando os erros crassos da nossa história recente. Nada de novo.

Uma das novidades diz respeito à sua singular capacidade para estabelecer consensos e pontes entre os povos. De acordo com a sua complexa teia de parentesco, simultaneamente agnática e uterina, o homem diz-se descendente de Maomé (pela rainha Santa Isabel) e de David (pelo rei Afonso Henriques) conforme viaje para a Arábia Saudita ou para Israel. Isso traz-lhe óbvios benefícios, já para não falar da magnífica sala de troféus. Nesse campo, o ascendente monárquico é evidente pois não acredito que os presidentes da república tragam das suas viagens muito mais do que os tradicionais sapos.

Além disso, o facto de nunca se ter sujeitado a ser empregado de alguém, alega, é um garante de independência e liberdade de pensamento. Felizmente para ele porque, para a maioria, é uma garantia de definhamento, fome e exclusão social.

Mas, o mais sensacional é, naquela apologia frenética que faz ao feudalismo de subsistência pontificado por uma figura tutelar – o Rei – D. Duarte de Bragança coloca a causa monárquica e o PCP no mesmo patamar de patriotismo.

Um peculiar patriotismo pois, se o PCP é uma peça da engrenagem internacional que visa a adopção do comunismo sem fronteiras, a causa monárquica não prescinde daquela exogamia estratégica que sempre serviu para fortalecer casas reais e que, ele próprio confirma quando admite que as famílias reais existentes no mundo são "uma grande família".

Essa exogamia de pendor internacional é a mesma a que os judeus se sujeitaram durante séculos (por motivos ligeiramente diferentes) e que, com o advento do Estado-nação, foi particularmente posta em evidência: sem nação, os judeus só podiam ter como pátria a sua própria condição social e religiosa, à qual deveriam simultaneamente «enfatizar e renunciar» (Hannah Arendt).
Ora, famílias que sempre misturaram sangue em prol de vantagens políticas, refinações genéticas e sociais, gerando estruturas de consanguinidade exóticas, não deveriam resignar-se a reclamar uma pátria específica que coincida com uma só nação. A pátria do insigne pretendente é muito mais do que Portugal e pouco menos do que o Mundo. Portugal é apenas o pedaço de território onde o homem nasceu. Afinal, não são "uma grande família"?

23 de novembro de 2008

Conspiracy, she wrote

Quando o deputado socialista Paulo Pedroso foi libertado e recebido em apoteose na Assembleia da República, a democracia portuguesa protagonizou então um dos episódios mais degradantes da sua curta existência. A presunção de inocência não podia legitimar a clara tentativa de colagem da suspeita que recaía sobre Pedroso, à suposta cabala política que só as mentes mais engenhosas organizadas em loja maçónica poderiam ter levado a cabo. Naquela ocasião, Pedroso foi transformado em preso político libertado dos grilhões da ditadura e mostrado à populaça como demonstração da virtude e da reposição da justiça.
Não satisfeita, a democracia portuguesa está prestes a repetir o feito. Em Portugal, a separação de poderes é uma ficção de terceira categoria só comparável aos piores programas da TVI. Paulo Pedroso recebeu uma indemnização por «prisão ilegal» e, porque somos gentis, equidistantes e atenciosos, as vítimas também.

aggiornamento democrático

Normalmente, depois de constituídos e reconhecidos pelas instâncias internacionais, muitos países – normalmente assentes em nações, embora nem sempre coincidentes – adoptam formalmente a democracia e os seus princípios legais. Elaboram afinadas constituições, criam sistemas eleitorais virtuosos, instauram instituições exemplares, apelam à laicização do Estado e à separação de poderes. Enfim, dizem-se saídos da barbárie e totalmente comprometidos com o progresso, as liberdades e as garantias da democracia e o desenvolvimento económico. Papagueiam aos quatro ventos a sua nova condição mas, debalde, confirmam por que razão insistem os politólogos na ideia de democracia como um modelo em constante aggiornamento e não numa obra feita, acabada. Essa constante actualização expressa-se numa fase de consolidação democrática observável quando a cultura política de participação (suportada por normas, valores e princípios democráticos) é uma realidade concreta entre a maioria da população.

Hoje, no rescaldo das eleições guineenses, os partidários dos vencidos demonstraram cabalmente a dimensão da sua cultura democrática procurando afirmá-la em toda a sua plenitude através da tentativa de decapitação do poder em que consistiu o ataque à residência oficial do Presidente da República. Não é pelo Nino Vieira... mas em respeito pela vontade do povo. Na Guiné, tal como em Angola ou na Madeira, a consolidação democrática é fetal.

Em Portugal (continente e açores), a consolidação democrática tem dias. É como os adolescentes.

18 de novembro de 2008

Diferenças?!




Manuela Ferreira Leite propõe-se fazer em seis meses o que Salazar demorou anos a conseguir.
No fundo, criar um regime onde os inúteis, crápulas, incompetentes, falhados e estafermos possam coabitar no poder.
As declarações da líder do PSD não são infelizes: expressam apenas um desejo sincero recalcado durante anos a ter que tolerar as ideias dos outros.
Para memória futura, ficam as palavras da líder do principal partido da oposição, as quais, ao contrário do que foi dito em sua defesa por Marques Guedes, não foram produzidas com ironia: "e até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia".
taqueapariueaocabraodovelhoqueenterrouestamerdatodaaindamaisdoquejáestava!


6 de outubro de 2008

Por via das dúvidas, PS impõe disciplina de voto

Em Portugal, assim como na maioria dos países do mundo, o casamento entre casais homossexuais é um tabu. E a razão não é, certamente, de ordem moral (cultural). Se fosse, o valor objectivado da justiça social teria certamente prioridade sobre o repúdio de aspectos da natureza humana, ciclicamente aceitáveis pela cultura dominante. Ou será que se julga que o que a Igreja financiou no período da renascença era a mais ingénua arte sacra? Pois… os actores bíblicos todos de pelota…

Francamente, confesso que não acho muita piada quando o meu cão salta freneticamente para cima de outros cães, de língua caída e ar estouvado pelas convulsões ritmadas dos quadris. E não acho grande piada porque os outros cães podem ter donos desejosos de meter conversa comigo. E também não é lá grande piada porque raramente acerta no alvo e acaba por regressar a casa com os tintins a rojar no chão. Enfim, são coisas lá deles e eu não tenho nada a ver com isso.

É que a moral e a sexualidade confluem violentamente, de acordo com a doutrina da Igreja, nessa coisa hedionda que representa o hedonismo, o puro prazer instigado por Lúcifer e que dá, normalmente, em maravilhosas playmates mensais capazes de levantar a moral de um grupo de calceteiros marítimos. Adaptado à vida real, esse hedonismo é mais ou menos o mesmo que comprar um LCD, cervejas e um jogo de futebol com os amigos. Imoral!

A grande questão do casamento homossexual é saber se se pega.
Sim, pode ser uma doença transmissível por agentes aéreos. Não se sabe.

Desconfiado do cenário de contágio epidémico, o PS mostrou-se mais conservador do que o PSD e decidiu impor a disciplina de voto aos seus deputados sobre uma matéria que deveria, de acordo com os ideais liberais alardeados, ser do foro íntimo de cada um.

E é capaz de existir um fundamento científico, como aquele que foi ontem apresentado na televisão a respeito da diferente resistência à dor de crentes e não crentes [podiam muito simplesmente ter testado comunistas ortodoxos e católicos ortodoxos para chegar à conclusão que tanto uns como outros toleram a dor muito mais do que eu. Por isso é que fiquei durante muito tempo sem ver jogos do Benfica].

O fundamento é inquestionável: os sociais-democratas são incomparavelmente mais machos do que os socialistas. Um facto provado empiricamente: eles é que são forcados, não se emocionam com a pobreza social, acham que a mulher é para estar em casa a cuidar da prole e, por eles, a salvação da sociedade portuguesa consiste em evoluir para a poligamia marialva (sob a forma de poliginia livre, em que um homem tem direito a duas mulheres e quatro éguas).

A conclusão é simples: sendo mais machos que os socialistas, estão consequentemente mais imunes ao contágio de virem a casar com uma pessoa do mesmo sexo. Em contrapartida, as mulheres laranjas são muito mais femininas e não se armam em fufas. Pensemos na Manuela Ferreira Leite. É ou não é o lado feminino do Cavaco?

Os socialistas, com receio de que se pegue e se difunda pelo seu grupo parlamentar, impõem a disciplina de voto. E compreende-se. Seria realmente imoral e repugnante ver o Almeida Santos de fato de couro aos pulinhos na Assembleia da República, louca para depositar alguns bagos de uva nos grandes lábios do Teixeira dos Santos. Ou o Augusto Santos Silva a discursar para um bando de malucas, envolvendo delicadamente o microfone com uma das mãos, enquanto via os seus shorts curtíssimos serem sovados de tempos a tempos pela máscula mas carinhosa mão do Alberto Martins.

Assim, também nesta matéria, a próxima sexta-feira ficará marcada pela confirmação do «atraso» português. Embora não seja tão grave porque só 6 países no mundo consagraram esse direito aos – nas palavras de Zapatero, primeiro-ministro socialista da monarquia constitucional espanhola – «nossos vizinhos, colegas, familiares e amigos». Porque, adianta, não quer apenas uma Espanha «mais justa» mas também «mais feliz». Exactamente o mesmo que nós.

7 de junho de 2008

Português de gema


A nacionalidade portuguesa do herdeiro da coroa portuguesa, D. Duagte Pio João Miguel Gabgiel Gafael de Bgagança, foi posta em causa por um sujeito - Rosário Poidimani - que diz ser ele o legitimo herdeiro depois de encerrado durante décadas numa masmorra na Baixa da Banheira com uma máscara de ferro cravada no crânio. Esta reivindicação é absurda e a prova da nacionalidade é irrefutável porque, conforme se pode ver na imagem, D. Duarte ostenta um bigode.


13 de maio de 2008

Especialistas portugueses em catástrofes




Portugal vai enviar duas equipas de especialistas em catástrofes para a antiga Birmânia (Myanmar, em ditatorês) e para Sichuan, na China. A primeira equipa será liderada por Pedro Santana Lopes, acompanhado por Manuela Moura Guedes, Maria José Morgado, Catalina Pestana e Lili Caneças. A segunda equipa, que partirá ainda esta noite da base militar de Figo Maduro, é constituída por Valentim Loureiro, Avelino Ferreira Torres, Alberto João Jardim, Francisco George e pelo médico do Benfica.




A coordenação destas duas equipas é assegurada directamente a partir de S. Bento e abençoada pelos três pastorinhos.




A Junta Militar que desgoverna a antiga Birmânia já congratulou o povo português pela impagável amabilidade, ao permitir que os generais contactem in loco com Avelino Ferreira Torres, um verdadeiro ícone cujas camisolas vendem mais do que as do Cristiano Ronaldo.




O COPCOM também já emitiu um comunicado, no qual é indisfarçável a comoção expressa pelo MFA, na sequência da saída definitiva do país anunciada ontem à noite por Lili Caneças, de beiço literalmente caído por Hu Jintao.




É claro que, domesticamente, teremos que começar a pensar em resolver os problemas do país.