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7 de outubro de 2006

Artistas da Arte e Outra Fauna de Combate


A única responsabilidade de um artista é fazer arte, e o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e – isto é essencial – ofender-nos. (…) A arte deve ter a liberdade de nos ofender e, o público de se sentir ofendido, desde que de forma não-violenta”.

Rui Tavares, in jornal Público, 30 de Setembro de 2006-10-07, sobre a proibição da realização da ópera Idomeneo, de Mozart em Berlim.


Aquela dimensão da ofensa é justamente a que é tendencialmente excomungada e censurada pela ideologia dominante, cuja padronização cultural de rebanho é só remotamente discernível e no seio da qual, a arte se ameaça converter em elemento de puro e alienante entretenimento, mera distracção da malta.

E o mais curioso é que tal faceta é reproduzida constante e alegremente, de forma irracional, por alguns dos próprios fazedores de arte, convencidos que estão do seu trabalho crítico e de estonteante intervenção. Uii...

A malta, ávida de «cultura» e consumidora compulsiva dos mais complexos e inacessíveis criadores ri-se sarcasticamente [mesmo os que se pensam mais intelectualóides], aplaude, suspira aqueles «ai, aii» de indignação com odor a conformismo, e regressa finalmente a casa para o conforto de uma noite descansada e com a sensação de dever cumprido.

Caro Rui, a malta de que falas já não se ofende pois interiorizou o espectáculo. Não se escandaliza se no vernissage de uma exposição, o pintor mija para o seu próprio quadro. A reacção geral é de uma arrepiante normalidade, não vão os outros comentar a falta de sensibilidade para as questões da arte...

Só se sentem ofendidos os fundamentalistas religiosos, as beatas, a realeza e os néscios «incultos» como eu. Sobretudo quando me vejo [ou a minha comunidade] confrontado com os nossos próprios engulhos e perversões ou quando vejo esbanjar rios de dinheiros públicos com verdadeira merda, mas merda da fina...


Desculpem lá… às vezes dá-me para isto…

27 de setembro de 2006

Patinho Feio, o Funcionário

Sendo o Alentejo e os Açores duas das regiões mais pobres da Europa, com PIB’s baixos, mão-de-obra barata e desqualificada, porque raio não deslocalizam as multinacionais para estas duas regiões?

Em vez disso, a fábrica da Opel na Azambuja «emigrou» para Espanha [onde a mão-de-obra é mais cara e qualificada] e os países de Leste estão frequentemente na mira dos empresários estrangeiros e nacionais [mão-de-obra barata mas qualificada]. Apesar de aparentemente não haver um padrão perfeitamente descodificável, que terão eles descoberto que nós ainda não descobrimos? Sabendo igualmente que a mão-de-obra portuguesa no estrangeiro não raras vezes é distinguida e reconhecidamente apreciada…

Haverão aqui forças impronunciáveis e insondáveis que se movimentam entre vórtices e que aniquilam a emancipação do português, cotando-o a um nível de desenvolvimento característico do século XIX?

E se o país inteiro se deslocalizasse para outro lado qualquer? Será que faria diferença?

Ou bastará continuar a bater no ceguinho, nesse elo dispensável que é a Administração Pública, fonte de todos os embaraços e ineficiências coniventemente perpetrados por uma corja de patrões medíocres?

A este respeito, o relatório do Fórum Económico Mundial parece ser particularmente duro para o sector privado português…

22 de setembro de 2006

Compromisso Portugal

Quando o ambiente, a educação, a saúde, a justiça, a segurança social, os transportes, os serviços de segurança, a defesa nacional, as finanças, a cultura e a agricultura forem privatizadas, então, nesse caso, poderemos ambicionar reduzir em 200 mil e num prazo de 5 anos, o número de funcionários públicos. Só na educação e saúde estão metade…

É inquestionável que a administração pública carece de uma reorganização estrutural. É inquestionável que há funcionários públicos a mais, bem como uma deficiente afectação dos recursos humanos. Mas nunca ninguém elaborou um diagnóstico credível e exaustivo que clarifique onde se encontram as necessidades de pessoal, onde se encontram os excedentários e quais os serviços cuja existência merece ser seriamente ponderada.

Assim, é-nos dado o seguinte quadro:

Em primeiro lugar, um bando de dondocas e marialvas que, sendo amigos de alguém, ganharam notoriedade suficiente para serem rotulados como empresários de sucesso e pensarem que podem trazer algo de novo. A entrevista de ontem ao Engº Carrapatoso no canal 1 da RTP foi miserável. Mas quem é aquele sujeito, cujo pensamento cai irremediavelmente no lugar comum da ideia preconcebida e da banalidade a-estratégica?

Em segundo lugar, temos o governo, que também nunca se baseou em estudos convincentes para avançar com as reformas que conhecemos e as que estão por vir. Num e noutro caso, campeia a leviandade, a soberba e o misticismo.

Por fim, temos os sindicatos, gordos empregadores a zelar pelos seus próprios interesses, incapazes de se rever na ideia de Estado.

18 de julho de 2006

Um Estado de Esquizofrenia

De um modo geral e salvaguardando as iniquidades e pruridos resultantes de toda e qualquer generalização de grupos profissionais a partir de características potencialmente estigmatizantes, ainda assim, encontradas em bastantes especímenes da variadíssima fauna, em Évora – como no resto da comarca que dá aconchego à chusma lusa – verifica-se um medonho equívoco: grassa por esse país fora, uma crise de identidade sem precedentes na história, principal ingrediente da dieta alimentar do português.

Os políticos pensam que são debutantes mimadas filhas de patos bravos, a quem se desculpam as birras e inconsequências, os médicos pensam que têm uma prega a mais no cú do que os outros, os juízes pensam que são xerifes, os jornalistas pensam que são pastores baptistas, os militares pensam que são o Rambo, os intelectuais pensam que são políticos, os empresários pensam que são o fisco, os professores pensam que são condes, os polícias pensam que são guardadores de porcos, os construtores não pensam nada, os académicos pensam que pensam, os artistas pensam que são intelectuais e os portugueses pensam que o governo é pai do Estado. Ah, e os banqueiros pensam que são a Madre Teresa de Calcutá.

Neste quadro, quem pensarão que são os psicólogos, a derradeira hipótese de salvação nacional?

28 de junho de 2006

À Pedrada

Fernando Ruas (Presidente da Câmara Municipal de Viseu e da Associação Nacional de Municípios Portugueses) não tem dúvidas. Correr os inspectores do ambiente à pedrada faz parte da visão estratégica de desenvolvimento sustentável que tem para o país.

Uma primeira consequência será a redução com os custos de transporte de materiais inertes (arremessados manualmente e por via aérea). Por outro lado, com a formação de milícias populares, reduzem-se igualmente os custos com funcionários judiciais, despesas de processos, formação e manutenção de forças e serviços de segurança. Finalmente, a forma física dos inspectores inspirará certamente outros funcionários públicos, para os quais a celeridade passará a ser uma forma de estar.
Claro que há um senão na ditosa estratégia... é conveniente que sejam organizados grupos de operações especiais, com excelentes dotes na arte do arremesso. O tiro tem que ser certeiro, não vão os hospitais encher-se de gente estropiada a gastar recursos ao Estado nas urgências.

Um aplauso gigante ao homenzinho do bigode.
Por-tu-gal, Por-tu-gal, Por-tu-gal!

26 de junho de 2006

Portugal Descasca Uma Laranjinha III

Alguém faça lá o favor de explicar ao país que quem ganhou o jogo com a Holanda [de forma admirável, pela determinação e sacrifício postos em campo] foram os jogadores. Foi a Selecção e as pessoas que giram na sua órbita. O resto, ganhou, quanto muito, uma noite de entretenimento e bebedeira. A menos que a Holanda esteja agora a saque ou nos seja permitido ficar com os despojos de guerra. Caso contrário, hoje é dia de trabalho e já agora, se a malta gosta tanto de futebol, que entre em campo [no trabalho], com o mesmo querer, que é para isso que é paga.

Belmiro de Azevedo em discurso aos trabalhadores mal pagos e definhados da Sonae, por videoconferência no Offshore da Madeira, a bordo do seu iate My Way.

Portugal Descasca Uma Laranjinha II

A determinação e o espírito de sacrifício destes atletas que tão alto dignificam o nome e honra de Portugal, deve ser um exemplo para todos os portugueses. É desta forma abnegada e desprendida que se serve e ama a Pátria. É este o exemplo que se exige aos portugueses, sempre que forem chamados a intervir. E há agora uma importante convocatória, para a qual, todos os portugueses e contribuintes em geral, deverão dizer "Presente"!. A partir de amanhã, a taxa de IVA será cobrada a 50%. Viva Portugal. Por-tu-gal, Por-tu-gal, Por-tu-gal.

José Sócrates em discurso ao país, acompanhado por uma equipa de 120 elementos da RTP, um batalhão da GNR, e 300 funcionários públicos, em Chamonix, durante um Conselho de Ministros.

Portugal Descasca Uma Laranjinha I

É a mim, à minha visão periférica e à empresa construtora do complexo desportivo do Lusitano, que se deve o caminho vitorioso da Selecção Portuguesa de Futebol. Foi o estágio em Évora, o principal trunfo e o grande segredo das nossas conquistas. Onde é que NÃO estagiou a Holanda, Costa do Marfim, Sérvia e Montenegro, México, Angola, Irão? E a Croácia, Sérvia, Suécia, Paraguai, Trinidad e Tobago, Equador, Polónia, Costa Rica, República Checa, Estados Unidos, Croácia, Japão, Coreia do Sul, Togo, Tunísia e Arábia Saudita? Não foi certamente em Évora! Não é por acaso, meus amigos… estas coisas são pensadas…

José Ernesto, Presidente da Câmara Municipal de Évora, na próxima campanha para as eleições autárquicas, antes de mandar entrar 16 colaboradores com as pesadas pastas das promessas, imediatamente após a inauguração de um troço de calçada no Bairro dos 3 Bicos (calcetado por um grupo de formandos do IEFP).

21 de junho de 2006

Queda Livre

Os prognósticos de há um ano revelaram-se acertados. Portugal continua alegre na sua marcha triunfante, averbando preciosos pontos do campeonato europeu da estultícia e da necedade. Depois de ultrapassados pela Eslovénia e Chipre, vem agora a República Checa mostrar a sua fibra, impondo-a à nossa, neste caso, em matéria de PIB per capita.

A culpa primordial está na monarquia e no recrutamento dos nobres, que, geneticamente néscios [embora reconhecidamente dotados de uma esperteza saloia triunfante], transmitiram esses genes geração após geração até chegar aos clãs políticos de hoje, controladores da decisão pública e privada aqui do tugúrio. Parvos, mas pouco…

Essa malformação genética do português não é geral. Para o provar, sobram exemplos de sucesso por esse mundo fora, desde as padarias no Luxemburgo até ao futebol de altíssima qualidade do Figo. Pronto… vá lá, condescendemos nesta matéria porque podem realmente ser nomeados variadíssimos casos de sucesso (António Damásio, Paula Rego, Madredeus, João Magueijo, Paulo Pinto, Fernando Gil, Eduardo Lourenço, entre tantos outr@s), curiosamente assinalados fora de portas. Também os há cá, brilhantes, mas de sangue duvidoso...

Portanto, o problema não se colocará tanto na genética, pelo menos dos que procuram fama e fortuna – vulgo condições mínimas para fazer um trabalho razoável – lá fora. É como se uma bizarra aura circundasse este espaço-tempo, um qualquer magnetismo, qual «rectângulo das Bermudas» cuja força atrai misteriosamente para o abismo, todos os que estão sob a sua influência. Mas cuja concentração atinge valores imensuráveis do topo da pirâmide, centro da corja «familiar».

Portugal teve dois momentos efémeros na sua existência, durante os quais se verificou grande fulgor: o tempo em que as riquezas das colónias e o tráfico negreiro traziam sem esforço, opulência. E a entrada na CEE, cujos fundos de coesão lá foram disfarçando a inépcia geral. Num caso os responsáveis foram visionários – Infante D. Henrique e o seu sobrinho-neto D. João II – e no outro, foi obra da persistência de um realista-oportunista, consciente do tamanho do buraco: Mário Soares (segundo ele próprio faz questão de bradar aos ventos). O Século XIX assinala assim a decadência de um país e as II e III Repúblicas marcam o seu recuo económico e social.

Portugal e os regentes do «reino» têm o dom de se deslumbrar com as maravilhas do que se faz. Do que os outros fazem, naturalmente. Como há sempre novidades, a concentração dispersa-se… e então, as coisas são tardias e ficam a meio. Casos da revolução agrícola, da revolução industrial, da massificação da educação sem afectar a qualidade, da reconversão produtiva agrícola e tecnológica, da investigação científica, da modernização administrativa, do combate à fraude fiscal, do incentivo ao investimento privado nacional, da flexibilização da Administração Central do Estado, da integração e articulação legislativa, da descolonização infantil, da qualificação da mão-de-obra, do ordenamento do território, do combate à alta corrupção, etc.

Quando aqui chegou, Sertório lá teria as suas razões para desconfiar desta gente. E, certamente não é por acaso que de nós terá Júlio César afirmado: “há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar”.

15 de junho de 2006

O mexilhão....

É aflitivo viver num país que treme por toda a parte sempre que uma fábrica estrangeira anuncia ou transpira sequer, a intenção de desandar para outro lado.
Aflige também constatar que uma só fábrica em Palmela contribua com 3 ou 4 % do PIB português.
Portugal pouco valor acrescenta aos produtos que produz, é sabido. Também é do conhecimento geral que assentámos durante demasiado tempo a estratégia de captação de investimento estrangeiro na mão-de-obra barata e pouco qualificada (diferente dos graus de especialização tecnológica). Por outro lado, aceitámos este modelo de investimento e integrámos esta lógica de comercialização desregulada.
Nesse caso, de que nos queixamos?
Com certeza que o Estado português tem óbvias responsabilidades para com os trabalhadores da Azambuja, por anos e anos de governos inábeis e sem visão «grande-angular». Todos nós partilhamos essa responsabilidade por anos e anos a dar carta branca a «empoleirados de gravata» que foram aterrando em ministérios com todas as mordomias.
Com tanta gente brilhante neste país... logo os mais oportunistas e papalvos é que tinham que decidir por todos.

13 de junho de 2006

A Determinação de um Povo

Ontem, na emissão matutina da Antena 1, era entrevistado José Luís Júdice, ex-bastonário da Ordem dos Advogados e homem da direita. Um indivíduo que normalmente nada deve ao bom senso nem à moderação.

Afirmava Júdice, que Scolari tem um feitio que colide com algumas características idiossincráticas dos portugueses, os quais são, segundo ele, frequentemente pouco dados a “gente determinada” e convicta como o brasileiro.

Esta afirmação integra dois elementos de potencial discórdia. O primeiro releva dessa incompatibilidade portuguesa com indivíduos fortemente «decididos e determinados». O exemplo contrário a esse postulado é por exemplo, a forte atracção que muitos portugueses e outros, têm por Mourinho, um homem positivamente arrogante. Por vezes, irascível. Contudo, um brilhante profissional cujo mérito e inteligência são mundialmente reconhecidos. Mas também a crua sensatez, exibida nos momentos em que coloca a equipa à frente das suas convicções, isto é, quando escolhe de forma pragmática os jogadores, ainda que não nutra especial afeição por algum deles. É inteligente porque não percebe apenas de bola.

Em segundo lugar, a generalização primária – neste caso em órgãos de comunicação social – de uma pretensa característica padronizada, imputável a uma classe de gente: o português.

Ora bem, sejamos francos. Pela boca morre o peixe, estarão a pensar alguns críticos. Sucede que nos espaços de limitada divulgação como este blog, com público específico, é permitida alguma generalização e até o exagero, na procura de rupturas cognitivas e empíricas [q.b.]. Que nunca deixam de ser estratégicas, naturalmente. Mas será de algum modo questionável em canais de divulgação generalista, reconhecidos mediuns de educação de massas.

A distinção assenta originalmente nos perfis de públicos dos blogs, nomeadamente nos blogs de opinião (excluímos os de promoção político-partidária, nos quais não nos revemos), aos quais acede voluntária e frequentemente, um público minimamente esclarecido e munido de ferramentas capazes de desconstruir um discurso, com aptidões críticas para formar a sua própria opinião. Algo que nem sempre se verifica com auditórios generalistas de difusão massiva.

José Luís Júdice não cometeu um erro capital. Cometeu um equívoco vulgaríssimo protagonizado por qualquer ser humano mas que - quando enquadrado numa matriz em que se inscrevem uma personalidade mediática e a assunção de verdade atribuída tacitamente ao discurso dos media - poderá ser susceptível de difundir representações mentais desfasadas, sobre a heterogeneidade de um povo.
Afinal, há os que gostam imenso, muito, assim assim, pouco e nada de indivíduos como Filipe Scolari, Aristides de Sousa Mendes, José Mourinho, D. João I, Catarina Eufémia, José Sócrates, António Salazar, Pinto da Costa, Vasco da Gama, Luís Figo, Rui Nabeiro, Publia Hortênsia de Castro, Belmiro de Azevedo ou até da Padeira de Aljubarrota. Tudo gente determinada.

30 de maio de 2006

When Dreams Come True

Inquestionavelmente, a vinda da Selecção de Futebol a Évora, investe-se de um aspecto [afirmativamente] incomensurável: tornou realidade um sonho de criança do Presidente da Câmara, que vai ter hoje oportunidade de cumprimentar os seus ídolos.

Por outro lado, Évora nunca voltará a ser a mesma, depois da passagem dos craques e dos pimbas. Mas... permanece intacta a questão: Évora precisava disto para se promover?

25 de maio de 2006

Orgulho Nacional

A impressionante celeridade dos portugueses vai permitir que no prazo de um mês esteja disponível um contingente de forças de segurança em Timor. Um mês denota realmente uma prontidão operacional sem precedentes [sem ironias].

Mais. Apesar de apenas um dia depois do apelo do governo timorense, 100 militares australianos terem desembarcado em Dili, o grau de resposta dos portugueses é extraordinariamente superior: fazemos uma média de cerca de 495 km/dia (mais coisa, menos coisa), enquanto os australianos só conseguem aproximadamente 512 km/dia (mais coisa, menos coisa).
Portanto, bandeiras nacionais ao alto, arreadas em ambulâncias, carros patrulha e nas maternidades que encerram. Agora, só falta que a selecção de futebol ganhe o Mundial e consiga vencer, pelo menos, o Irão.

19 de maio de 2006

Boas-vindas à Selecção

Na emissão da Antena 1, a partir do Convento do Espinheiro (hotel *****, em Évora), o jornalista confronta Andrade Santos (Presidente da Região de Turismo de Évora) com a questão obvia: «Precisa Évora disto, para se promover turisticamente?». A resposta, decalca-se de imediato: atabalhoada, cliché, sensaborona.

José Ernesto (Presidente da Câmara de Évora) por seu turno, discorria sobre duas importantes mais-valias: a promoção da imagem da cidade [alguém se recorda onde estagiou a selecção portuguesa no último Mundial de futebol?] e, pasme-se, o sinal de confiança dado pelos responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol à população eborense, evidenciada pela escolha de Évora. Muito profundo, comovente, quase místico. As gentes de Évora agradecem certamente esse reconhecimento de civilidade.

Entretanto, julgamos que inocentemente, o mesmo jornalista traz à discussão o perfil-tipo do turista que visita Évora e aquele que se propõe atrair… Inflexão, fuga e mais uma resposta inconclusiva. Inscrita numa estratégia, naturalmente.

Em todo o caso, já poderemos sonhar com o «pombal» renascido das cinzas, a acolher um espectáculo do Évora Moda (evento de referência nacional), à pinha com futebolómanos e aficionados tauromáquicos, animado pelo grande mestre de cerimónias, naturalmente, o Mestre Cutileiro montado num corcel de mármore.
De qualquer modo, aproveito para dar as boas-vindas à Selecção Nacional de Futebol pois certamente se sentirão em Évora tão bem como em suas próprias casas. Aproveito também para agradecer ao Hotel Convento do Espinheiro por se ter associado filantropicamente a este grande desígnio nacional. Todos juntos vamos vencer. Todos juntos, preparemos o pé-de-meia para entregar aos valorosos guerreiros da fé. Todos juntos conquistemos a Alemanha e enviemos para lá os nossos parlamentares pois a silly season começou hoje e eles precisam de férias...

Campo [muito] Pequeno

...E lá estavam todos, debutantes casadoiras, velhos reaccionários, garanhões embrutecidos, oportunistas sem escrúpulos, senhoras intriguistas, políticos num piscar de olhos ininterrupto e novos-ricos sem gosto. A linhagem, a nata, identificamo-la pelos distintos traços nobiliárquicos estampados naquelas caras larocas bronzeadas nos mares do sul, a pose aristocrática, o lenço de seda esvoaçante, o sapato de vela sem peúga, os bigodes alinhados pelo gesto da faena. Um extenso grupo de amiguinhos, representativo do mais decadente e improdutivo da sociedade portuguesa.

16 de maio de 2006

A Fanfarronice Também se Desculpa


Caso Scolari e os seus rapazes tenham sucesso no Mundial de Futebol, estaremos defronte a afirmação inequívoca de um modelo que rompe por completo com a meritocracia. Nesse caso, poderemos afirmar peremptoriamente que a unidade meritocrática à portuguesa – o grupo de amigos – é o modelo de gestão a seguir, na senda do sucesso e do desenvolvimento. São os outros que estão mal, não nós. Estão portanto, reunidas as condições para a glória e para a mais alta distinção no reino dos céus…

com a ressalva dos fracos recursos disponíveis, do martírio subdesenvolvimentista acirrado pelo Estado-Novo, da conjuntura macro-económica, do domínio filipino, do PREC, dos piratas holandeses, das invasões napoleónicas, do desaparecimento de D. Sebastião, das mães de Bragança, de Cavaco Silva e de todos os governos no pós-25 de Abril, dos indonésios, dos imigrantes de leste, de Pinto da Costa, da expulsão dos jesuítas, da função pública, dos judeus sefarditas, da D. Branca, do Big Brother, da independência das colónias, de Luís Militão, das FP-25 de Abril, dos Delfins e do Marco Paulo, da Inquisição, do terramoto de 1755, da implantação da República, da Política Agrícola Comum, de Fátima Felgueiras, Alberto João Jardim e Valentim Loureiro, do tsunami em Bali e da fuga dos paralíticos p'rá Índia.

12 de maio de 2006

Os Ventos Contrários de Portugal

Perante a imbecil manifestação convocada pelo não menos insignificante PNR, os 15 brasileiros que chegaram há pouco a Vila de Rei devem estar a passar por um vergonhaço daqueles… Uma manifestação só para eles. São 15, os meliantes que fazem perigar a estabilidade sócio-económica de um país. Extremamente perigosos. São eles, a razão de todos os problemas aqui do tugúrio. Vá... não abusemos. Mas de pr'aí 90%, são de certeza!

Portanto, o país que se acautele pois do Brasil, nem bons ventos nem bons casamentos… sempre que profiro esta expressão, sou varrido por uma estranha sensação de dejá vu. E claro, consta que os brasileiros são uns malandros, que não querem fazer nenhum. E logo sou novamente assolado por semelhante sensação de dejá vu. Competição é que não, porque a generalizada malandrice dos brasileiros ainda consegue incutir competição laboral em muitos de nós… Foda-se!...
Como dizia o outro, quando não se gosta de água, até passar ao lado dela faz mal...

9 de maio de 2006

O Joio

As providências cautelares interpostas por grupos de cidadãos, contra o fecho das maternidades, são fundamentadas pela defesa do interesse público, ou seja, foram mobilizadas na suposição de que o encerro das maternidades é gravemente lesivo para o interesse público. Seja ou não lesivo, com esta acção postula-se a formulação de uma decisão que se distancie do livre arbítrio dos gabinetes ministeriais. E dos seus compinchas.

Esta acção de indignação reflecte um interesse concreto alicerçado na razão instrumental, motivado por argumentos objectivos como as distâncias e eficiência dos serviços. Mas também por argumentos simbólico-emocionais. Qualquer um, desde logo discutível. Porém, é precisamente a esse plano que a acção visa posicionar a decisão. Torná-la discutível, como é natural em democracia.

Em Évora, o caso do «pombal» agora completamente descascado [ao ponto de ser indistinguível o ground zero daqueles resquícios de parede a soçobrar] não foi objecto de uma providência cautelar ou de uma manifestação de indignação, porque não há cidadãos como em Barcelos ou em Elvas [há ou não há?...].
Não se verifica a emergência de um interesse mediato para defender um interesse concreto: o público. Não, nada disso. São apenas identificados dois blocos de interesses: o das famílias que serão herdeiras de uma infraestrutura que renascerá das cinzas com dinheiro meu e vosso; o do Executivo, que francamente, não compreendo nem sequer me merece qualquer tipo de especulação circunstancial. À semelhança do duplo negócio de embelezamento da rotunda às Portas do Raimundo com a estrutura montada no subsolo debaixo da fonte, preparada para suportar o Titanic… que afinal ficou plantado a escassos 20 metros.

Ao que parece, em Évora como no resto do país, corre a indignação nas veias das pessoas. Nos cafés, em blogs, em esquinas ou mesmo nos barbeiros. Gente cheia de sangue na guelra. Mas só na guelra, porque ao que parece também, a noção de «Estado» e «erário público» são realidades longínquas, vagas, menores e despreocupantes. Viveremos afinal a opulência do séc. XVIII…
E rapidamente essa indignação se esfuma em atavismo e no mais desprezível conformismo, próprio de quem se habituou a levar e calar durante o Estado Novo. Agora não é diferente. Nem sequer as elites no poder.

As providências cautelares interpostas por cidadãos contra o encerramento das maternidades, são uma resposta contra o sentimento de impunidade reinante entre a classe política portuguesa, que tudo decide como se não tivesse que prestar contas à população que a elege. É isso a democracia representativa e não uma carta branca para governar.

Os políticos são meros executantes da acção política e não estrelas de Hollywood. As políticas podem ser mais ou menos adequadas mas certamente deverão ser objecto de ponderação. Por isso mesmo, há decisões que devem ser deliberadas e confirmadas pelas assembleias municipais. E o que são estes órgãos? Nada mais do que o povo representado. Uma vez mais. Claro que os membros à Assembleia Municipal conhecem inequivocamente os munícipes que os elegem. Os últimos até lá vão a casa jantar… Se trouxerem o jantar confeccionado, claro…

Em Évora, foi-se o trigo, ficou o joio. E está para durar pois dos insignes agiotas, bem-falantes e intelectualóides eborenses, pouco se pode esperar a não ser uma promoçãozinha como manda a puta da lei.

24 de abril de 2006

Modas...

As modas, quando se anunciam, acabam por ficar. De início, por uns tempos e depois, perpetuam-se na memória de cada um. Processadas e sentidas diversamente. No instante em que são reconhecidas como tal, as modas despertam paixões, estimulam irracionalidades, projectam celebridades, condicionam atitudes colectivas, imortalizam nomes como Jean-Paul Gaultier, Elvis Presley e outros.
Com efeito, quem não se lembra do «Bicho» de Iran Costa? Ou do hipnótico iô-iô (mais saudável)? Da inolvidável mini-saia (mais saudável ainda)? Dos longos cabelos espigados em forma de ninho, impulsionados por Figo quando no Sporting? E dos jeans cuidadosamente rasgados ao nível dos joelhos? E do rabicho popularizado por Jim Diamond (o do shoulda known better ou no português «quem chora não berra»), da pêra tipo João de Deus Pinheiro ou do ruído metálico das chaves, panelas e ferramentas presos por uma corrente que une o baraço – que segura as calças – ao piercing no nariz da fricalhada? Tudo modas!
Mas nenhuma chega aos calcanhares das batinas cinzas, lançada por Mão Tse Tung. Embora a moda das democracias também se tenha difundido de modo inaudito. Veja-se casos recentes como o Afeganistão ou o Iraque.

Na verdade, as modas podem ser incluídas naquilo que os antropólogos, sociólogos, filósofos e outra fauna afim, designam por mimesis ou, mais prosaicamente, imitação. Imitação social, um factor de coesão e assunção de identidades, de estruturação das representações sociais, um classificador dos indivíduos.

Nestes dias temos assistido à profusão de opas protagonizadas por investidores portugueses, saídos dos escombros do torpor e da recessão de ideias. Eis que chegou a moda das opas, um processo de referenciação colectiva. Opas sobre tudo e todos. De repente, não há cão nem gato que não faça ofertas públicas de aquisição. As opas viraram moda, não alinhar significa o ostracismo, a degeneração, o imobilismo, a má imagem. Eu próprio vou promover uma. Sei lá… talvez sobre as forças armadas ou então sobre o Ministério da Educação.

Além do ardiloso gestor que é, Belmiro de Azevedo tem também o dom de criar modas, o que faz dele um criativo, um estilista. Neste caso, estiliza a forma de estar das empresas portuguesas… Oxalá nunca se lembre de transferir todos os seus investimentos para o Bangladesh, pois levará consigo, não um terço do PIB português (como fez Sócrates na sua recente deslocação a Angola), mas 9/10 da «riqueza» nacional.
Em todo o caso, esta nova moda tem o mérito de fazer sair a «riqueza» nacional da penumbra. Ao invés, na Dinamarca, Espanha ou na Estónia, por exemplo, a moda é ter superavits. Modas…

18 de abril de 2006

Quanto Vale uma Prega a Mais no Cu?

Sobre a falta de quorum na Assembleia da República, ocorrida no dia 12 de Abril de 2006, na sequência da ausência de 120 dos 230 deputados. Possivelmente em trabalhos de preparação da quadra pascal.

É assim na Assembleia da República porque sempre assim foi. Ponto.
É assim na Administração Pública porque sempre assim foi. Ponto.
É assim, em suma, na fábrica x, no gabinete y e na escola z, porque sempre assim foi e não se perscrutam razões suficientes para alterar um cómodo status quo, irreflectido, mecânico e irracional.
Mesmo que sejam organizações e entidades modelares do funcionamento da coisa pública portuguesa, cujo exemplo de responsabilidade deveria ser inquestionável. Mas não é.

Este [pobre] grau de compromisso não é mais do que o reflexo de uma disposição orgânica assumida e reproduzida nas organizações, cuja continuidade encontra nas «elites» o seu principal instigador. Ou seja, na própria sociedade portuguesa, nessa grande comunidade de opinion makers… Nas «elites» porque em Portugal as «elites» estão disseminadas até à célula familiar. Neste tugúrio, os cinco minutos de tolerância para uma reunião foram sem problemas, alargados para a hora e meia. Mas este desleixo é tanto mais profundo e inculcado no referencial de responsabilidade luso, quanto alguns dos factores que lhe estão na origem, encapuçando sobejas vezes aquilo que é a gestão perniciosa daquilo que são os interesses e racionalidades instrumentais e o status quo que permitem resguardar: «assim governamo-nos a todos…».

Uma tal referência orgânica que é assimilada num complexo mais amplo de valores, costumes, artefactos, formas de agir, pensar, etc., a que se dá vulgarmente o nome de cultura. Cultura organizacional, cultura cívica, enfim, a cultura de um povo.

É assim… porque é! E porque a motivação para o combater e para nos desembaraçar desta enraizada e religiosa resistência à mudança é residual, incipiente, inodora, incolor e inócua. Para além disso, dá trabalho.

Continuemos pois com os enxovalhanços em surdina pelos cafés, fazendo jus ao adágio popular: «vozes de burro não chegam ao céu». Eles [os que exigem sacrifícios e compromissos das populações que os elegeram] continuarão a faltar às sessões no hemiciclo, a inviabilizar votações, a contornar a lei fiscal, a circular fora dos limites de velocidade previstos no Código da Estrada, a receber favores devidos, a promover clientelismos, a reproduzir nepotismos, a buscar no Estado a auto-promoção e a gozar de privilégios escandalosos.
Tudo isto com a convicção reforçada e alargada de uma impunidade que lhes assiste por direito divino, pela «prega a mais no cu» que pensam ter em relação ao resto da «escumalha» que os elege. Convicção de impunidade.