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6 de março de 2006

Uma Chatice Nunca Vem Só



Roy Liechtenstein, Interior With Mirrored Wall, 1991


Admiro aquelas pessoas que conseguem, no decurso de uma conversa em tom grave, olhar o seu interlocutor e sentenciar, em jeito de confissão: - «sabes, o que mais me chateia no meio de tudo isto é x».
Essa capacidade de síntese e escalonamento é extraordinária, pois ao ordinário chateiam normalmente variadíssimas coisas que competem entre si pelo protagonismo, impedindo coroar uma com o troféu do «mais irritante». O passar dos anos agrava esta sintomatologia.

2 de março de 2006

∞ Infinite ∞




Um olhar, intemporal. Um olhar onde não se apaga a memória nem o tempo; esse, inexpugnável, afiança-nos outra coisa efémera que se entrepõe entre os seres e as vidas subtraídas, agrilhoadas pelo frio do vazio num trambolhão sem fim nem sentido. Lá, um olhar fulmina o tempo, não se detendo perante a sua marcha.
O TEU RISO

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca teu riso,
porque então morreria.
Neruda, Pablo (1999): Os Versos do Capitão, Porto, Campo das Letras,27.

24 de fevereiro de 2006

Caminhantes

Já era tempo de Jules fazer algo da sua vida. Por isso, pegou na guitarra e saiu. Mais tarde, alertado pelos ouvidos da sua vida e de si próprio, deu-se conta de que não sabia tocar. Mas saiu na mesma, porque não há regresso possível quando um homem de barba feita decide voluntariamente sair de casa dos pais para ver o mundo. E que mundo. Não mais seria igual embora as saudades lhe comprimissem o coração. Embora, coléricas golfadas de sangue lhe imprimissem um sabor amargo na boca, sempre que descia sobre a cabeça dos condenáveis, a intensidade do seu pensamento feito verbo.

Diógenes de Sínope (404-323 a.C.)



No caminho redentor da imperfeição, Diógenes escolheu o cinismo. Arrebatadora, crua e actual, a forma com desprezava os poderosos e as convenções sociais, demarcando-se assim da perfeição e da mimesis social...

23 de fevereiro de 2006

Nada

Há dias em que não apetece dizer nada. Certamente, não porque os problemas do mundo estejam resolvidos ou porque o Sr. Sol resolveu dar o ar da sua graça. Ou ainda porque a alvorada é acompanhada de aromas inebriantes, maravilhosas cores e doces sinfonias. Não.
Há dias em que não apetece dizer nada, simplesmente porque não há nada que justifique uma tal intromissão no curso histórico das coisas. Aqui del Rey...

22 de fevereiro de 2006

Vamos a Isto!

O que poderão congeminar duas almas, uma benfiquista e outra portista, abandonadas na sala de refeições com cheiro a fritos, da sede de um núcleo sportinguista?
Concerteza que não será coisa boa, conspirações palacianas à laia da tasca. Mas ficou-se com a impressão de que o caminho a seguir nos levará à imperfeição, à intangibilidade adorada, ao lugar inacessível. Não sem trabalho, não sem dedicação e esforço. Não é assim tão simples. Mas vamos a isto!

17 de fevereiro de 2006

Porque Amanhã é Sábado de Manhã

Amanhã é Sábado de manhã! A praça e as principais artérias da cidade enchem-se de sangue, recebendo um fervilhar de motivos que as engalanam. Dão lugar a um corropio de gente em constante azáfama, atarefados sabe-se lá com o quê. A azáfama possível escolhida recorrentemente para um Sábado de manhã. Mas única, porque exalta as arcadas, virtualiza a fonte henriquina, dá côr às fachadas nuas e desalinhadas, preenche os espaços vazios que convidam, sobretudo quando o sol arregaça as mangas e sorve os homens das suas quase inexpugnáveis fortalezas, equipadas com o último grito em conforto e comodidade.
Amanhã é Sábado de manhã e haverá o burburinho agradável e fascinante, mesmo que o sol resolva fazer gazeta.

O Perfeito Idiota

Qual a fronteira que separa o perfeito idiota do idiota perfeito? Mais, segundo alguns profetas e outros, a idiotice é um sintoma da vida, é-lhe perfeitamente natural e até princípio básico de actuação. Assim sendo, da condição de parvos [ab origine] não nos livramos pelo que qualquer que seja a nossa actuação independentemente do ground, essa será sempre reconhecida dentro da mais absurda dimensão.
Tomando como certa essa proposição de partida, qualquer acção ou atitude será sempre passível de superar a condição de idiota, de parvo, que nos foi indexada no momento da criação. O homem (e a mulher, naturalmente), são naturalmente idiotas, portanto, perfeitos na sua essência.
O idiota perfeito é assim um ser positivo e esperançoso, assertivo, alegre mas imperfeito. Ao contrário, o perfeito idiota será aquele gajo que nem da condição de partida se consegue emancipar, permanecendo num estádio da mais pura perfeição.
Bom fds.

25 de janeiro de 2006

Mustapha



Ele sempre foi fino com a comida. Mas agora, caramba... está mesmo esquisito.
Pudera... a comer iguarias todos os dias, está mal habituado! A «culpada» é a tua mãe...

14 de janeiro de 2006

O Ocaso... da Possibilidade




O tempo desenrola-se na sua marcha imparável. Meio ano... Nunca se está verdadeiramente preparado seja para ingressar na vida activa, seja para serenar os ânimos alterados por um amor perdido, enfrentar uma situação implausível ou até para colocar um ponto final num espaço de reflexão e exteriorização de ideias ou sensações, como é o caso de um blogue. Foi o que sucedeu com In Tenui Labor. A preparação varia no reajustamento dos limites, deslocando-se ao longo de um continuum, ao qual não se lhe vê o fim. Intangibilidade pura. E sem embargo, a preparação é intensificada, diminuindo paradoxalmente, na caminhada de aperfeiçoamento.

Essa falta de preparação foi, é manifesta no momento em que se decide avançar com um projecto deste tipo, revelando-se da mesma forma quando se toma a decisão reversível de o extinguir. Por isso, nunca de deixa de apelar para não encapuzar o gorro das convicções dogmáticas nem ostentar na lapela a insígnia da irreversibilidade.

Tal como a etimologia de In Tenui Labor sugere (ao referir que «as obras delicadas exigem trabalho»), em 22 de Outubro de 2003 lá se ia dizendo que «a satisfação plena não existe a não ser como etapa para algo perfeito, absoluto, sublime, impossível!». Como tal, o trabalho não podia ser deixado a meio, sob pena de nos afastarmos da impossibilidade, manietados pelo mundo irresoluto dos possíveis, pouco ou nada convergente com esse motor histórico por excelência, a utopia. A capacidade de realização humana nada seria sem o sonho, sem a luta no interior da própria inexorabilidade.

E como o «futuro é muito tempo», deixemos que a marcha imparável do tempo prossiga, verificando-a na medida dos impossíveis e nunca das possibilidades. Essas, serão somente consideradas como ponto de partida.

21 de setembro de 2005

OS DEUSES...




Já lá vão aproximadamente dois anos sobre o nascimento de In Tenui Labor, espaço de reflexão e lazer, criteriosamente gizado entre a curiosidade de assumir um blog, coisa da moda, e o aproveitamento que teria em matéria de organização de pensamentos e ideias. O último ano foi particularmente profícuo, tendo inclusive delegado no blog, a responsabilidade de uma segunda actividade, não remunerada, bem entendido. Um entretenimento agradável.

Nessa complicada aritmética da gestão do tempo, lá o teria que arranjar para as diversas actividades que me esforçava por desenvolver no domínio profissional, académico, desportivo, interpessoal, pessoal. Creio que, de um modo geral, consegui não falhar demasiado com In Tenui Labor, nem comigo, nem com os outros. E sobretudo, não falhar com Kathara. Há precisamente dois longos meses que não a vejo, a não ser nos meus sonhos e nos incontáveis pequenos nadas quotidianos. Uma eternidade. Puxa…

Ora, as circunstâncias recentes ditaram um afastamento incontornável, o qual deu lugar a uma intensa reflexão individual sobre a continuidade deste projecto. Vi-me na condição de com todas essas dimensões falhar, de forma quase despicienda, evasiva, pelo que dificilmente poderia dar seguimento a algo que se pretendia sustentado, do ponto de vista emocional e racional.
Nada poderá ser como antes, pese embora a vontade inicial em projectar este espaço até à finitude dos meus dias, independentemente daquilo que fosse a moda do momento ou os visitantes eventualmente interessados em ler o pouco que teria para lhes dar. Ou ainda menos. Regresso aos livrinhos Raima...
Nada poderá ser como antes porque o mundo mudou drasticamente e, naturalmente, eu mudei com ele, assim como os termos que a ele estavam vinculados. Pessoais e no caso específico, comunicativos. Este espaço deixou de ser um espaço de convívio, de prazer, de desafio. Por conseguinte, perdeu-se pelas tais agruras que a vida nos prepara, derivou nessa bolina desnorteada, açoitada por invisíveis vagas de água sólida, férrea, sufocante.

«Para sempre» é uma daquelas expressões tão nocivas e questionáveis como o conceito de «Absoluto», que aprendi a rejeitar com as primeiras incursões adolescentes em Hegel, Kant ou Kirkegaard. Por isso... Até qualquer dia. Sem as habituais e prescindíveis delongas, sem olhar para trás, (sobre)viver.

Agora... bazem! Sff...


11 de setembro de 2005

AR PURO!?.




CRYSTAL WRISTS
*
I can't see the light
I'm thrown in disgust
They speak of feats
The housed forever
A howling wind
Changed my course
It blew me out
Of bounds so sore
All the walls
All the walls that bound me
Descending bleak and put upon
*
I chew my cheeks
To wake up from
The vase grows bigger
To my eyes
These eyes that snigger
And despise
The wall grows taller up to doom
*
Shoes in my room
Thrown in disgust
At how I fall
To my worst
Of course you say
You don't understand
Your words your fiction
Your crooked hands
*
But clearly now
I tell you man
That all I say
Is all I can
For I am nothing
But my sin
Until I learn
To caste them in
*
While young girls fangs
And crystal wrists
Wait patiently
For me to twist
I look away
To distant rains
To water falls
And honey days
And boys in black
And blue rinse eyes
Gaze whistly at my slender thighs
*
I twist a shade to my right
And spit at beelzebub on sight
And go on loving all I see
For here I live on patiently
Clearly now
I tell you man
That all I say is all I can
For I am nothing but my sin
Until I learn to caste them in
Learn, learn, learn
*
(Peter Murphy)

30 de agosto de 2005

OS DEUSES TAMBÉM JÁ FORAM HOMENS




Pouco mais de um mês passou sobre o trágico desaparecimento da Catarina. Ainda não parece possível que tenha realmente acontecido. Que a tenha perdido. Solipsismo preventivo de um martírio, em jeito dos poderosos contrafortes Vauban, numa dimensão onírica apaziguadora duma realidade em ruínas. Confundem-se, realidade e sonho.

As agruras que a vida nos prepara ditaram uma penalização demasiado dura para os que ficam e sentenciaram sem apelo, o fim de uma existência encantadora, plena de energia e vontade de viver. Dar, na mais desprendida das formas. Estou certo que nesta como em ocasiões similares, a sintaxe é absolutamente redutora. Sobretudo quando se pretende definir uma pessoa como a Catarina. A Catarina é na sua imensidão a Catarina, a Fiuza, a Fu, a Cati, a Cata, a Kathara. Tive o distinto privilégio de conhecê-las a todas. Crescendo Juntos.

A perplexidade deu lugar ao desespero e a este sucedeu a revolta. Sentimento de impotência perante o vazio, na procura obsessiva em repor o sentido desertor, mesmo que pela força. Motim dos sentidos como resultado de uma traição aos valores defendidos, às normas respeitadas, ao peito aberto. Sentimento de revolta paradoxal, porque sem arrependimentos, a não ser aqueles que nos desafiam pela introdução a uma velha oração subordinada condicional «se o mar tivesse varandas» …coisa que desconfiamos não ser verdade nem admissível do ponto de vista temporal. Podemos ser, por vezes, mais vulneráveis que uma simples e frágil lâmpada de vidro à solta. Essa lá está, incólume, sem um único arranhão.

Nunca o conseguirei entender, seja apelando ao conforto providencial das entidades metafísicas criadas pelos homens, seja procurando compreender estes acontecimentos como circunstâncias dispostas num encadeamento meramente natural e só isso. Talvez porque somos determinados culturalmente, logo historicamente. O amor também é isso, em particular o amor romântico. No entanto, tantos outros afectos há, que podemos encontrar de forma inequívoca na natureza e na própria ontologia provável dos homens, dos que foram deuses e dos outros. E reuni-los sincreticamente, diluindo-os naquilo em que nos conhecemos e em que os outros nos reconhecem. Enquanto indivíduos e enquanto espécie, portadores de afectos, camadas de informação acumulada e transmitida, todo o tipo de necessidades e por vezes alguma racionalidade (mais ou menos instrumental, mais ou menos estratégica). Marcas genéticas e marcas culturais. Intuição, sensibilidade, empirismo, racionalidade.

Somos seres do nosso tempo, é certo. Todavia não é possível escapar a essa dimensão transversal que nos liga à intemporalidade e à universalidade, conferida pelas características únicas que equipam a espécie humana. A dor, a perda, o medo, a solidariedade, a conjugação de esforços para enfrentar um mundo natural hostil, os instintos primários de sobrevivência, o prazer, a razão, etc., são assimetricamente distribuídos mas comuns a todos nós. De resto, podemos encontrá-los nas hordas pré-históricas bem como nas sociedades industriais avançadas. Exaltam a vida e dela são força motriz. Não lhes escapamos, por isso sofremos, amamos, desejamos, criamos.

Durante este período verdadeiramente incompreensível, experimentei todo o tipo de sensações paradoxais. Sentimentos contraditórios toldaram a minha mente, perfeito laboratório de ideias e rascunhos que circulam a velocidades vertiginosas, sem sentido nem destino claramente definidos. Há muito e nada por dizer. Creio que continuará a ser assim. E assim é quando se experimenta o absurdo na sua mais fina e dilacerante malha.

A dualidade representada pelo par Morte e Vida está sempre presente, com todas as repercussões que isso possa ter nas nossas vidas. Já estava ab origine. A atracção irresistível pela morte impele à sua projecção sem que consigamos balizar perfeitamente uma existência dentro da temporalidade. A noção de Infinito é apenas isso, um conceito, com o qual o grosso de nós não sabe lidar domesticamente, apesar do intenso rascunhado científico. Existencialmente balizados por ele, consideramo-lo logicamente, sem a possibilidade de o verificar. Incerteza. Por isso a morte é exaltada, ritualizada, temida, amada.

Mas a morte está na vida, são indissociáveis. A memória é o elemento de ligação por excelência desses dois «mundos». A memória está nas acções dos homens e no legado patrimonial e simbólico que deixam de geração em geração. Diz-se igualmente que na morte há vida. É-me particularmente angustiante reconhecer vida na morte. Mas por meio da memória, posso admitir que sim. Em todo o caso, desde sempre que tenho uma relação pouco razoável com essa senhora. Por isso, desde sempre procurei evitar caminhar no mesmo passeio, sobretudo em passeios estreitos. Presumo que não fosse possível fugir a vida toda. Só não contei com esse encontrão seco que a Morte não deu absolutamente em mim, para dar na que caminhava comigo, como não lhe tivesse oferecido o resguardo interior do passeio para a proteger, em vão, dos perigos à espreita. Cautela!? Pois sim…

Porém, nada parece haver de mais natural que esse convívio entre a vida e a morte num passeio exíguo, resvaladiço tal qual o convés de um pesqueiro em alto-mar com vagas de doze metros. Dá a sensação que o equilíbrio é demasiadamente arbitrário, liderado pela precariedade, não raras vezes insuperável. Esse é o nosso equilíbrio, remotamente controlável.

A vida começa exactamente com uma condenação capital. Nesses termos, o fundamental da questão remete unicamente para o quantitativo e qualitativo da vida e não para a sentença em si, a morte em si. A inexistência da Morte ocorre a par da inexistência da Vida. E os seus contrários, naturalmente. Trata-se portanto da dilatação do prazo, não da inevitabilidade dos limites. Por isso, mais do que nunca, incomodo-me sempre que vejo pessoas a sofrer sem necessidade alguma, encastados pelas demandas sociais e incapazes de alcançar a autodeterminação, relativa que fosse. Entre eles me incluo, nessa vida unidimensional, marcuseana, heterónoma e feia que os homens construíram. Simultaneamente bela. Reconhecendo que as circunstâncias do momento agitam e remexem reflexivamente as consciências de forma efémera, não deixa de ser curioso quando constato pequenas alterações de posicionamento na vida dos outros, em busca da vida demarcada por esse horizonte temporal variável.

A mudança tem espaço para caber nas nossas vidas, é intrínseca à capacidade evolutiva dos seres vivos. Na medida da redefinição de uma vida, assim evolui o projecto ou a sua rejeição. Quem me conhece sabe, sempre fui mais de projectos (sem obliterar necessariamente essa dimensão de espontaneidade que os anima e matiza de cores variáveis). Os grandes projectos. Também os grandes projectos de gaveta. Tenho milhões, distribuídos pelas algibeiras rotas do meu cérebro. Entretenimento que remenda e impele mecanicamente para algo.

Por entretenimento, dei vida a In Tenui Labor, em Outubro de 2003. Tubo de ensaios para o aperfeiçoamento das coisas, de resto, a perfeição exige trabalho… Complemento ao resto, reforço escrito das convicções e de algumas formas de pensar, equilíbrio perante a ausência, também. Mais vocacionado para a reflexão crítica (e para a crítica francamente nonsense embora por vezes hilariante), havia de terminar o seu ciclo com o único tipo de registo para o qual não fora inicialmente desenhado, em redor da autobiografia. Projectos que fracassaram na sequência de um par de frames, à semelhança deste projecto de progressiva confluência com o imperativo categórico kantiano. Este, um projecto de vida. A isso estaria eventualmente condenado, como de resto os Buendia, de Macondo, para quem centenas de anos de solidão foram os bastantes para acabar de vez com uma estirpe.

Porque passou pouco mais de um mês, no futuro, que Althusser dizia ser «muito tempo», outros projectos serão encetados, certamente. Há sempre coisas na forja. Assim é o ser humano. Projectos de vida, projectos de vivência, sobrevivência, desistência também. Sobrevivência à dor e ao sofrimento, nesse estádio baudelariano em que a felicidade é fugaz, correspondendo a uma momentânea cessação da dor. Assim seja. Resigno. Instinto de sobrevivência, esse parece abundar. Daí a luta incessante para alcançar a estrela inacessível, intangível por definição mas saborosa, supomos. Na senda da quimera, da utopia, do irrealizável. Talvez seja essa uma das marcas distintivas daquela ontologia que procuramos diariamente e que anima as mais díspares e milenares tertúlias, ocupando mentes brilhantes na academia e no andaime: o que nos move, afinal? Questão curiosa esta, a do sentido da vida.

Uma palavra de enorme carinho a todos os que, de uma forma ou de outra, conhecidos e desconhecidos, manifestaram a sua solidariedade e amizade em toda a linha. Devo no entanto confessar que, com relação aos que conheço, essa demonstração de amizade não constituiu elemento de surpresa. Tenho a fortuna de ao longo da minha vida ter beneficiado da amizade de pessoas verdadeiramente excepcionais. A Catarina também.

Conforta saber que Ela está verdadeiramente entre todos nós, por tudo aquilo que nos deu. Em casa, na rua, na família, na faculdade, no IHMT, no Agrupamento 877, no CEAI, nos seus alunos, nas nossas atitudes e comportamentos, na gratidão.
E… pelo sim, pelo não, sempre que vislumbro ao longe um peneireiro cinzento a dançar harmoniosamente nos ares em jeito de cumprimento, ergo a mão aberta e agradeço com um sorriso. Para de seguida voar com ele. Uma questão de tempo.

21 de agosto de 2005

IN TENUI LABOR





Absolute Beginners
==================

I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed

If our love song
Could fly over mountains
Could sail over heartaches
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true
(David Bowie)

30 de julho de 2005

CRESCEMOS JUNTOS




Sonhei contigo nessa noite em que te reconheci bailarina, qual graciosa executante do Bolshoi, como que suspensa em intermináveis rodopios. Postura erecta, queixo delicadamente erguido, compensando generosamente os movimentos de um corpo bem proporcionado, sólido. Katrina te nomeei, guiado talvez por um ancestral instinto predador. Que não... suspeitei... não teria essa sorte e havias de te chamar outra coisa qualquer.


Kathara, A Pura, soube depois. Alguém me sussurrou ao ouvido. Talvez o tivesse descoberto afinal, pelos meus próprios meios, com o decorrer dos tempos e o tranquilo mar que nos coube navegar. Porto de abrigo terno e acolhedor, defensor do mar revoltoso e áspero das vidas. Vidas amarguradas, sobreviventes.
Mas assim ficou sentenciado. Tu Kathara, eu Alexein, outrora «defensor da humanidade».

Nos dias que se seguiram, colocava-me estrategicamente à porta do «Oficina», jeans arregaçados, sandálias de couro e t-shirt às riscas, tingidas de um verde meio consumido pelo tempo. Fingia que dava atenção aos que me rodeavam e às conversas rotineiras, remotamente perceptíveis no meio de tão intenso desassossego que insistia em me abrasar as vísceras, consumir por dentro. Fantasiava ansiosamente com a tua presença, se darias por mim, e a oportunidade de contacto como algo se escapulisse da tua mão e eu segurasse, ajoelhando-me se necessário. Suspirava para que reparasses enfim nesta triste carcaça e pudesse mobilizar a tua atenção...

Apesar da «má imagem» do primeiro dia na Universidade (uns anos antes) vim a saber que até não desgostavas da peça, tez morena acentuada pela barba negra e bolsa ao tiracolo cheia de nadas. Essa figura que, esmagada contra a parede branca te seguia irritantemente com o olhar agudo de rapina esfrangalhada. Eu, deixava-me ir, desconcertado pela suave brisa deixada pelo carocha que deslizava Rua da Moeda abaixo, fitando nos olhos esse preto de língua de fora que ia deixando orientadores trilhos de saliva. O meu coração dilatava e contraía ao ritmo dos solavancos do «bogas», até este se perder de vista. Até depois de o perder de vista. E abandonava-me a pensar que belo amigo para a minha «JEnny» de 1985. Que par! HElio e JEnny. Além disso, «o cão precisava de um disciplinador masculino, que raio»...
Por essa altura, as rotineiras conversas já haviam há muito dado lugar ao silêncio. Aquele silêncio observador de aprovação, pelo ressurgir de um brilho nos olhos.

As coisas começaram a ficar sérias. O Vivi estava do meu lado, que era o nosso. Seria o «padrinho», isso era ponto assente! E numa dessas noites, ficámos plantados no «Kalmaria», eu de um lado, tu do outro, a esgrimir trémulas iniciativas, povoados por receios infundados e absurdos, numa troca de olhares alheada de tudo o que nos rodeava. Impacientaste-te mas encheste-te de força. Que «o tipo não se decide» murmuraste entre dentes cerrados para os teus botões com nomes. Acabámos a falar de patetices, embriagados de impertinente emoção, vozes embargadas de vontade de viver, entre sorrisos tolos e desorientados choques de mãos. Ocasionais, ingénuos, militantes decerto.

A semana seguinte, passamo-la sentados nos poiais da Rua da Moeda, falando de tudo menos de política, que te aborrecia. Agora já não. Que até já votavas. E davas-me força para quem sabe, um dia vir a ser um deles e mudar o mundo, como impunham os nossos valores, as nossas concepções e convicções.
Eras independente, serena e pura. Foi assim que te vi, Kathara. E assim permaneces.

Tudo se precipitou naquela noite de 14 de Julho quando alguém teve a oportuna ideia de ir para a barragem do Divor. Esbocei um sorriso. Preparei antes uma pequena bolsa cheia de pedras e conchas que havia recolhido criteriosamente nesse dia, na praia, a pensar em ti. Sabia que gostavas de coisas simples. Percebi-o nos teus olhos. Neles penetrei e fechei-ta na mão. Ainda a conservas. Não conheço melhor guardião de memórias e não cessas de me surpreender.

Mais tarde, enquanto chapinhava na água morna matizada pelo luar com o padrinho exultante, senti que tinha ali amiga para toda a vida. Já me tinham dito que seria assim. Não fiz ouvidos de mercador. Detive-me por momentos com a água pela boca e espiei-te atentamente. Organizaras com as «bolinhas», uma recolha de paus e folhas para nos preparar uma fogueira. Não podíamos arrefecer, correndo o risco de nos constiparmos. E afinal, eu eras tu, já o sentias nessa altura.

Por falar nisso, contigo aprendi também que com a saúde não se brinca. Passei a estar «sempre alerta» e até já levo protector solar para a praia e evito os molhos (não todos como sabes). Passei a comer peixinho bom, as tuas couves e a adorar as migas da tua mãe. A tua mãe, o teu pai, a tua família, que é a minha e a minha é a tua. Como te amam e como os amo. «Tia Fiuza, o Álexandre?», «Canina, Canina! Comi, Pedro», «Veja lá Catarina se está bom de sal», «Cati, quando voltas para cima?».

No retorno dos primeiros raios de luz que alumiaram a aurora desse benevolente 15 de Julho, apeei-me do carro no mesmo sitio que tu. Ficaste estarrecida mas não desarmaste. Convidaste-me a entrar e depois de um copo de água nervosamente equilibrado nas palmas das minhas mãos, precipitamo-nos bruscamente e encontramo-nos no mais belo e emocionante abraço. Singelo, delicado, irrepetível. Só isso. Chorei de alegria. Tu sentada, eu ajoelhado. Com ele selámos as nossas vidas, eu fiquei tu e tu ficaste eu. Demos as mãos para não mais as largar.
Ainda hoje me arrepio quando me envolves no teu regaço após um demorado abraço. Esse abraço abençoado pelos homens e pelos deuses que já o foram.

Crescemos juntos! Formamos uma bela equipa, já o sentíamos. Não houve quem no-lo não confessasse. Até naquela carta que recebi e que lemos em conjunto, proveniente dos frios do Minho. É assombroso, como por vezes somos confrontados com as coisas mais inesperadas mesmo dos mais ignotos. Enchia-nos de orgulho e de vontade em continuarmos assim, tu e eu, nós. Simples, harmoniosos. Eu, o menino timorato e tu, a menina insegura embora determinada. Amigos e amantes. Conquistadores do tempo e dos afectos, do mar e dos céus.

Crescemos cúmplices! Em equilíbrio, harmonia, conhecimento, cimento. Cimento robusto, consistente, unificador, quotidiano, encorajador. Sem trocas, pagas ou invejas. Sempre em conjunto enfrentámos a vida, os trabalhos, as contrariedades, e até os fiscais ferroviários em Paris, quando fomos apanhados sem bilhete. A experimentar a vida, exaltando-a na sua magnitude.

Cimento que se solidificou em circunstâncias tão especiais quanto quotidianas. Café sem açúcar, fruta rija, arroz basmati, rucola e pinhão, as brincadeiras no supermercado entre expositores e o olhar repreensivo dos demais, as longas caminhadas com o nosso querido Mustapha, a união acostumada das mãos unidas pelos dedos entrelaçados, descodificadores de mensagens de conforto, compromisso e alegria. Alegria de viver. O passo ajustado, a respiração sincronizada, a síntese simbiótica de informação recolhida para costurar no pensamento. Pensamento em ti, em nós, nos outros, no futuro.

A notícia daquele envelope que me enviaste para a Bélgica. Céus, estive duas horas a chatear ininterruptamente o cinzento funcionário para que vasculhasse entre as encomendas por classificar e me entregasse um dia antes do procedimento normal, aquilo que me destinaras. Lá me desenrasquei e quando abri o pacote, corri e saltei na Grand Place como um louco feliz, segurando junto ao peito um ramo de flores silvestres que exalavam maravilhosamente a milhares de km de distância, aquele intenso aroma exótico dos campos do Alentejo em flor. Esses campos que se habituaram à nossa presença. Esses campos que amámos e tomámos por morada.

Tudo tinha um significado especial. Para ti era tão simples, tão natural como respirar. Conseguias ler nas entrelinhas, conhecias o meu pensamento, as minhas expressões, os meus anseios e os medos de uma criança assustada. O berlinde, os carrinhos, as flores, o caderno que me fizeste, o chapéu-de-chuva com a constelação de Orion por ti desenhada, para que me não perdesse nos caminhos da vida. Eu tentava acompanhar-te, fazer-te feliz e reconquistar aquele abraço imedível e acolhedor.
Como daquela vez em Bruxelas, quando viste numa montra aquela magnifica peça lilás de tapeçaria, dourada nas extremidades. «Quanto custará?», perguntaste, ao que prontamente redargui, receando pelas minhas parcas economias: «não tem preço, estás a ver?» E não tinha. Como poderia ter? Por isso te envolvi nela quando regressei a Portugal, contemplando o teu doce sorriso.
Nunca tive o teu jeito, mas esforçava-me bastante, mesmo quando apenas apreciavas o gesto da minha culinária hesitante mas evolutiva. Só para receber esse sorriso, esse caloroso abraço que me aproximava da vida e um do outro.

Ao teu lado, aprendi, cresci, lutei, descobri. Nunca me deixaste desviar das minhas convicções que eram as nossas. Foste farol, guia, estrela polar, vento norte, sol, bússola, eu sei lá. Aceitámos as nossas imperfeições e riamos delas. Fomos nós, tal como nos conhecíamos e nos desejávamos. Ardentes, intensos, revigorantes, sublimes, amigos.

A ternura, a cúmplice troca de olhares, o nosso amor, vivido com intensidade e alegria. O ardor de paixões vividas e revividas em homenagem àquele abraço primordial. Tal qual o primeiro dia. Contigo proclamei a vida e o amor.

Os cheiros, os corpos, as lágrimas, os sorrisos. Ah, esse teu sorriso resplandecente, generoso, maravilhoso como os campos floridos a perder de vista na primavera. O aroma da caruma, do pinhal e da terra virgem molhada, as eiras, os grous, as rapinas, os pirilampos (foi contigo a única vez que os vi, recordas?), as estrelas, as pedras, os antúrios, as carícias, o suave toque dos teus lábios contra os meus, seguido de uma ensandecida fusão de sentimentos extasiantes, arrebatadores.

Eu, complicado, impulsivo, indignado, racional. Tu, serena, simples, terna, sensível. Tu, a amora, eu, o anjo. O «produto» seria clarividência, sensatez, ânimo, determinação e muito, muito amor. Tu, os nomes, eu, as caras. Tu dizias, Samuel, Simão e Camila. Eu, que sim! Que seriam lindos, magníficos e todos diferentes uns dos outros. Mas com os olhos, pernas e pele do pai, boca, barriga e ombros da mãe. A ternura da mãe e a impetuosidade do pai. O coração de ambos. Assim tinha ficado assente.

De ti, amor, guardo para sempre a candura da tua expressão nesse perpétuo abraço enroscado, que me dava tudo o que a vida me fez sonhar.



Alguns dos que te amam e que para sempre testemunharão o legado que nos deixaste, sem jamais olvidar como nos tocaste no coração.

Augusto e Isabel, Mustapha, Inês, Joana, Ana Margarida e Gonçalo, Carlitos e Graciete, Maria João e Mónica, Rita, Luís e Talita, Zira e Luís, Jorge e Ana, Lelito e Emília, Anabela, Adelino e avó Mila, avó Luísa, Lurdes e Mário, Marito, Tânia, Manuel e São, Serge, Richard e Laura, Maria, Cláudia, Nelson, Raquel e Gualter, Judite, Carolina e Jorge, Maricruz e Javier, Ilídio e Maria José, Ju, Adelina, José Carlos, Cláudia e Leonel, Luís e Carolina e Mariana, Mattej, Cá Migué e Fransquinha e Pedro e Henrique, Ana Isabel e António, Mafalda, Vivi, Nelly e Ângelo, Inês e Gonçalo, Gonçalo e Ana, Cláudia e «Joly», Jorginho, Carina, Tavira e Verónica, C. Rita, Patricia, Regina, «Salsicha», «Bugo», Zé Paulo, «Toni», Carapau, Mimoso, Diogo e Xana, Joana e Freitas, João de Setúbal, «Jacaré» e Sara, Marisa e João, Ana Marques, Gante e Sara, Cristina, Tânia e João, Ana, Tânia, Clica e Pechincha, Boris, Eurica, Meggy, Mimmi, Indira, Bicho e Liliana, Hugo e Licínia, Dora, Ana, Maria Inácia, Florbela, Paco, Flo e Victor e Jojo e Vic Júnior, Mariana e Hugo, Miguel e Cidália, António, Hugo Santos, Lucinda, João e Mafalda, Pedro e Ana Isa, Íris e João, Sílvia, Cátia e Nuno, Filipe, Joka, Lois, Tiago e Susana, Miguel e Marisa, Leonor, Sónia, Venina e Hélder e Vasco, Steiner e Nádia, Cláudio, Artur, Gil, David Hans, Rafael Tadeo e Danele, Alexandre Nunes e Laura, «Cid», Carmo, São e Oliveira, Moreno e Catherine, Gavela e Cláudia, Telmo e Rosária e Beatriz, P. Ferrinho, Luzia, Manuela, Helena, Rita, Inês, Carina, Joana, Ana Queiró, Carla e Rogério, Lara, Sara Morgado, André Miguens, Joana e Zé, André «puto», Nelson, Saul, Mário, Zé, Ana, Cristina, Olivério, Josué, Sílvia e Manaça e Rafael, Raquel e Gonçalo, Joana, Jorge «afilhado», Carla e Licas, Guida, Paula e João.

Samuel, Simão, Camila e eu.
Fim



«Carta» à Catarina, manuscrita entre os dias 24 e 26 de Julho de 2005 e transcrita integralmente a 29 de Julho de 2005. 

21 de julho de 2005

QUAIS DEUSES?



A precariedade do tempo revolto aniquila o sonho e a esperança. Morro nesse instante cruel em que se abate o pesado céu sobre a terra, arbitrariamente. Impotência perante tamanha força maligna. Abismo insuperável. Nada posso contra ele. Porquê?

30 de abril de 2005

Páteo da escola



Assim eram passados os gloriosos intervalos na escola primária. As condições eram semelhantes, sala 1 contra sala 2. Se o campo «grande» estivesse ocupado pelos matulões da 4ª Classe, cá nos arranjaríamos entre duas árvores e os bancos de madeira.

Quando iniciado, o jogo parecia não ter fim, arrastando-se muito para lá da sentença do toque, metálico e estridente. Eternizava-se o célebre «quem marcar golo ganha!», vezes sem conta. A noção do tempo acabava por nos ser devolvida amargamente, quando um de nós era içado pelas orelhas e então nesse preciso momento, a dura realidade dos «problemas» e da «História de Portugal» abatia-se sobre nós.

Mas notem bem como seria se nesses tempos, para além da geometria imprecisa do campo - e até das regras do jogo - tivéssemos uma assistência entusiástica em redor, como nesta foto? É que as miúdas não nos ligavam nenhuma, preferiam dedicar-se àqueles jogos imbecis e irritantes.

Raios, como invejo a glória daquele campo...

14 de abril de 2005

Ele há coisas...

Eram 7 da manhã, ia ao pão e cruzei-me com um indivíduo perdido num pijama de hospital, chinelos, cabelo desgrenhado, barba de uma semana e olheiras denunciadoras. Rondava a casa dos trinta mal feitos e apesar de tudo, não tinha um ar intoxicado ou excessivamente andrajoso. O previsível odor a hortaliças podres não chegou ao lado de cá do passeio. Uma brisa o terá pulverizado, atrás do monóxido de uma velha Peugeot de caixa aberta cor de ferrugem, que se arrastava pesadamente vinda das quintas da periferia.

Fui invadido por um sentimento de indignação, agudizado por viver num país sobranceiramente ocupado com grandes obras de cosmética vertebrada, votando ao desprezo ingrato os que um dia contribuíram para a construção da grande «mansão» ou simplesmente porque foram fulminados por uma série de circunstâncias da vida que, de uma forma ou de outra os tolheu desprevenidos.

Senti um ímpeto irracional e precipitei-me na sua sua direcção, animado por aquele sentimento de solidariedade matinal que nos impele para a «boa acção do dia». Provavelmente, tal deveu-se a uma análise racional pré-consciente que legitimasse o fecho do dia, logo ali, em matéria de imperativos categóricos. Ajudar velhinhas a passar para o outro lado da rua é coisa para «meninos vestidos de parvo» ou para «parvos vestidos de menino». O meu grau de exigência é manifestamente superior e com esta acção, teria certamente o dia ganho.

Porém, precisamente no momento em que a sola do sapato se preparava para desafiar o asfalto e o lancil, vejo-o a falar com um magrizelas que saia de um automóvel, com cara de pai, que lhe passa um objecto suspeito para a mão e se dirige descontraidamente para a caixa Multibanco.

Agastado por ingenuamente ter considerado intervir em defesa da dignidade humana, tomei como caminho o de casa, sem regressar com o pão fresco na talega e jurei não mais pensar em solidariedades bacocas e lirismos absurdos num mundo colonizado por cães e oportunistas.

Contudo, durante a tarde reencontrei uma pessoa conhecida que não via há demasiado, trocamos as impressões habituais sobre o trabalho, o tempo, a bola e quando a conversa já saturada se escapulia pelos «então vá…», eis que o amigo resolve rematar com uma tirada bestial que resultou de um encontro casual ocorrido nesta mesma manhã.

Diz ele que quando parou o automóvel para pagar umas contas na caixa de Multibanco antes de se entregar à sua rotina diária, foi abordado na rua por um conhecido seu surpreendentemente com aspecto miserável, de pijama e cabelo desgrenhado, pedindo-lhe um enorme favor. De início horrorizou-se pelo insólito da situação, confessou-me a pessoa.

Afinal, não se tratara de um novo mendigo ou de mais um «mestre da vida» desta aldeola. Ao contrário, o indigente ter-lhe-á solicitado encarecidamente o telemóvel (pudera) para pedir as chaves de casa a alguém que lhas guardava para situações de emergência como esta. Ao que parece, após acordar, terá saído do seu apartamento, subindo dois andares para recolher alguma roupa estendida no terraço do prédio. Ao fechar atrás de si a porta do apartamento, embriagado de sono, não se fez acompanhar das chaves e viu-se na rua em pijama, sem poder regressar a casa, pressionado por um compromisso a 100 Km de distância e perseguido com o olhar impiedoso e sancionatório dos transeuntes.

Acontece que já não era a primeira vez que tal lhe acontecia. Na primeira vez, valeram-lhe os bombeiros, que após autorização da PSP, içaram as longas escadas até à varanda tendo pontapeado furiosamente a porta de vidro até não restarem lâminas de vidro nas borrachas. Esta foi a quarta experiência do género, talvez a segunda mais traumática e a segunda menos cara.

Não é minha pretensão condenar ninguém mas há pessoas que deveriam ser consideradas inimputáveis. Nem para tomar conta de um vaso de flores…
PS: e não tomei o pequeno-almoço.