
21 de julho de 2007
26 de junho de 2007
Teorias de espaço público
O rapaz insistia em que não, que não se pode tirar fotos! Não, que ali quem manda é ele; e os seus. Com alguma diplomacia mas sem assinalável agilidade, lá ia apaziguando o ego do rapaz, redarguindo que ficasse descansado, que em atenção à senhora sua mãe e à sua imprevisível agitação - coisas que oportunamente simplifiquei com a palavra «respeito» - não tiraria mais fotografias. Mas lá lhe ia aborrecendo o juízo com um sorriso matreiro, tentando ensinar-lhe que aquilo era espaço público, com todas as implicações que isso tem. Ou não tem, no caso do rapaz, mais do que habituado a esgueirar-se do espaço público e do extenso normativo social e legal, que jamais entendeu. E que talvez nunca queira entender.
A vida destes rapazes é feita de desvios, de fugas a uma realidade desconhecida que não foi produto da sua acção concreta, é feita enfim, de vivências marginais e semi-nomadas aonde as estruturas sociais nem sequer têm a pretensão de chegar. Ele tinha a sua razão. Eu teria a minha.
Apertei-lhe a mão, devolvi-lhe as costas e regressei de imediato nos instantes seguintes para lhe perguntar: «e à minha namorada - que vai andar agora - posso tirar?». Sem o orgulho ferido, sem a sua autoridade posta em causa, assentiu, fazendo um gesto largo e generoso com a mão. Omnipotente. O canguru tornou-se dromedário e levou aquela gente toda a viajar. O rapaz, permaneceu petrificado de costas para a viagem.
18 de junho de 2007
Novo look

As convicções são, com Nietzsche, um soturno túnel, escavado em direcção ao núcleo imemorial e demiúrgico do planeta, por não explorarem a tese e o seu contrário - a bidimensionalidade; ou, em contrapartida, representam uma salvação, um último reduto para os insatisfeitos, para os imperfeitos? Mas fará sentido falar de um «último reduto», mesmo sem que seja respeitada a condição essencial da auto-reflexão profunda e religiosa de todos e de cada um?
Havia uma música do Elliot Smith que, às tantas, dizia «I saw you at the perfect place / It's gonna happen soon, but not today / So go to sleep, and make the change / I'll meet you here tomorrow / Independence Day / Independence Day / Independence Day».
Entretanto, já a questão do template se eclipsou, se dissipou na escaramuça originada pelas promessas não cumpridas pela modernidade: a liberdade, a igualdade, a felicidade. A omissão foi «compensada» pela satisfação material, pela coisificação do ser, profundamente reptiliano, mecânico, autista. Como é da nossa natureza, de resto. Talvez por aquela razão, o imaginário de emancipação dos nossos contemporâneos seja povoado por ilhéus desérticos onde o sol cai a pique e os corpos são arrefecidos por uma piña colada... Puro hedonismo que cresce a par da insatisfação e a contém entre taipais invisíveis.
Enquanto isso, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos sincopados. Num vai e num vem, incompreensível e absurdo. Tal como as peças de Ionescu.
O template está mais fixe assim, não está?
25 de abril de 2007
Despertar de um Sono Dogmático
31 de março de 2007
Jardins Suspensos
24 de novembro de 2006
Ciru[r]gia Homens
19 de novembro de 2006
19 de Novembro

"Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e em morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive..."
Álvaro de Campos
19 de outubro de 2006
A Solução de Kafka Para "K"
Desta vez fora dominado por uma inexplicável lucidez, de modo que, nessa loucura de tudo discernir com admirável clarividência, preparou a voz ansiosa e com a língua, humedeceu os cantos da boca, desidratados pelo adiantado da hora e pela violência da contenção.
Desferiu lentamente um olhar de desprezo em redor, perscrutador, dirigindo-se desta forma aos presentes num único e amplo raid ocular, sem que o detivesse em ninguém. No eterno milésimo de minuto que durou a batida, a sala encheu-se de uma súbita tensão. Carregou solenemente a atmosfera quando, com expressão desafiadora, assentou definitivamente os olhos na estatueta de bronze.
- Não reconheço aqui nenhuma autoridade! Nem moral que seja! Disse peremptoriamente. – Não me revejo neste absurdo arrazoado, revelador do mais deprimente primarismo intelectual. Tanta pobreza... também de espírito! Os homens têm o triste dom de se entreter com as suas próprias farsas. Entretenimento anestésico para apaziguar as agruras da realidade, da vida que se prolonga sem um sentido, sem um propósito. Um cobarde virar de cara para o lado.
- Não lhes reconheço qualquer legitimidade, pelo que jamais me sujeitaria à humilhação de ver a minha autonomia ser sequer posta em causa por seres rastejantes, infames como os que tenho pela frente! A minha presença aqui é providencial.
Nisto, sem esperar reacção, levou a mão ao bolso da casaca e num movimento fulminante, encostou o metálico cano do pesado revólver ao crânio. Prosseguiu, com o indicador direito tensamente colado ao gatilho:
- O entretenimento a que me subjugais, para vosso simplório gáudio, não passa agora de um joguete de crianças. É nisto que reside a vossa justiça, na irresponsável atitude de quem julga poder dispor da vida sem do seu valor ter a mais pálida ideia, qual brincadeira de crianças projectada para a idade adulta. É este o vosso entretenimento, uma perigosa e pueril manifestação de humores, crenças e interesses. Ambições... como se fosseis, cada um de vós, uma estrela, um deus.
- Olhai agora para esses semblantes de horror, próprios de quem se dá conta de perder algo que nunca teve, o controlo das coisas. Olhai e vede como sois repugnantes e à vez, anedóticos. Ancilosados por considerar negligentemente a aceitação cosmológica do Homem, nessa soberba de que vos investis, como um ser apto a dominar algo que é incapaz de compreender: a imprevisibilidade e complexidade da sua própria natureza.
O disparo foi seco. A perplexidade tomou conta do exíguo compartimento. A compaixão, abandonou-o. Inexoravelmente.
5 de setembro de 2006
Os Deuses Também Já Foram Homens
Aceno-lhes agradecidamente com um sorriso nos olhos.
21 de julho de 2006
5 de julho de 2006
Férias...
30 de maio de 2006
Porque os Deuses Também Já Foram Homens
- Não me parece que qualquer tipo de justificação possa repor fosse o que fosse, devolver-me o passado. Além do mais, não tens nada a ver com isso.
- Bem sei… porém, como passaste também tu, a ser meu hóspede… pensei que, talvez… me obsequiasses com uma explicação, como sinal de reconhecimento pela minha hospitalidade. Sem estar a exigir nada de ti, naturalmente. Nós por cá costumamos proceder assim, com desinteressada cortesia. E fazemos gosto em receber… / Tudo bem! Mas, não és tu, o que se arroga tudo saber?!
- Pretendia apenas ouvir a tua versão dos acontecimentos, as tuas motivações. Mera curiosidade, nada mais. Sim, reconheço que talvez o meu íntimo seja movido pela necessidade de fazer um juízo… / Um juízo… bem sabes que no que toca aos factos, pouco ou nada há a acrescentar. Tudo o mais é absolutamente redundante. Irrelevante. Uma perda de tempo! Do teu precioso tempo.
- Será? Acreditas realmente nas tolices que dizes? De resto, ouvi dizer que buscavas aqui algo. É certo?
- Ouviste mal, então! Quanto muito, procurava-te a ti! Miserável, existes afinal…
- Vá lá… sê razoável. Não precisas desconversar. Sei muito bem que por mim não nutres a melhor estima. As coisas são como são, não há nada a fazer em relação a isso.
- Sabes que mais? Nem sei porque me dou ao trabalho. Desprezo-te! Odeio-te!
- Sim, compreendo essas tuas atitudes primárias e irreflectidas. Compreendo essa tua arrogante e amarga intolerância. Contudo, algo te impele a manter esta conversa comigo. Há algo em mim que te interessa, que te interessa verdadeiramente. Uma atracção que te é irresistível, abissal, auto-destrutiva também…
- Isso, só a mim diz respeito. Queres o quê, com esse tom de compaixão, com essa conversa miserabilista? Porque razão o fiz? Não, não foi por ti nem para confirmar esse teu ar sobranceiro. Fi-lo por mim! Para satisfazer os mais egoístas caprichos de uma existência insana e insaciável. E depois?! Fi-lo porque tinha perfeitamente claro onde e como o fazer. Dominado por uma rara precisão, absorto numa tal lucidez, capaz de desvendar o mais insondável dos mistérios e rasgar a Verdade em pedaços.
- E achas que… / Não percebes que és tu o responsável, tu com essa tua magnânime e infindável condescendência perante os que te não dignificam, como eu? Tu, que desafias a probidade dos que em ti confiam? Tu, que dás com uma mão e tiras com duas?
- Sim, compreendo… novamente! Presumi-o no momento em que por aqui te vi. Assinalei-o nesses espelhos do teu ser que ostentas nas órbitas, quando ainda não passavas de um garoto. Acentuou-o a vida. Da qual és o único responsável. Para mim já me bastam essas considerações. Muito embora ser meu, aquilo que por mim te é dado! Não podes substituir-me naquilo que são as minhas decisões. E sentenciou com voz gutural - Sim! O que buscas está cá, à minha guarda. Como tu! És agora livre. Vai e cumpre o que aqui te trouxe..
8 de maio de 2006
Pensa Nisso!...
2 de maio de 2006
Até Parece Mal...

Apaziguam fraternalmente a terra fresca,
Revolvida agora por feixes ultravioletas,
Em continuadas marés de flores.
Cabeços tingidos de múltiplas cores,
Registam a intensidade dramática,
De um arrebatamento imedível,
Acirrado pelos aromas a alfazema, esteva e rosmaninho.
Lá fora, pululantes e instintivos,
Os seres acasalam sem razão, febris.
Os jardins clamam por gente,
Alvitram-se ruidosas gargalhadas,
Intempestivos piropos são desprezados com um sorriso nos olhos,
São serenas as brisas que moldam os corpos às sedas esvoaçantes,
E num singular momento,
Abrem-se os semblantes e é escorraçada a carga invernal.
Enquanto isso, umas poucas criaturas encalacram outras muitas, em miseráveis e cinzentos cubículos, colam-lhes enxadas e escopos nas mãos à torreira, confiam-lhes tarefas absurdas e pecaminosas, programam-se necessidades fisiológicas, condicionam-se as vontades. Incute-se-lhes apenas uma ilusão de sobrevivência. O trabalho liberta. Sobretudo as poucas criaturas. Liberta também esses campos, esses jardins, da atrevidota chusma com desejos de primavera…
21 de abril de 2006
Teimosia «Sincopada»
23 de março de 2006
De Frustração em Frustração
13 de março de 2006
Uma Terceira Categoria do Gosto
PS: só há uma possibilidade de ultrapassar o trauma das rodelas de chouriço que consiste em experimentar num local consagrado e… pelo sim, pelo não, jejuar até ao jantar.






