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8 de abril de 2008

Eu cá, sou a favor de Évora

Em Évora, a criação de uma empresa municipal para gerir os equipamentos culturais veio acicatar os mais tenebrosos fantasmas entre alguns agentes culturais. Ainda sem saber ao certo quais as competências que serão reservadas à futura empresa nem quais as suas linhas de orientação, levantou-se um coro de protestos proveniente dos mais variados azimutes. Se, nuns casos, os protestos são claros e legítimos porque levantam questões fundamentais, outros casos há em que o objectivo é revestido de contornos duvidosos. Se o aeródromo é da Academia Aeronáutica de Évora, pela mesma ordem de ideias o Teatro Garcia de Resende é do Cendrev, a Arena d’Évora é do Grupo de Forcados Amadores de Évora e a Igreja de S. Vicente é da Oficina da Terra. Nada mais errado. O Centro Cultural de Redondo é dos redondenses e, felizmente, acolhe diversos tipos e dimensões de eventos.

Em Évora não se conhece uma estratégia municipal para a cultura e essa é uma acusação feita por muitos dos agentes culturais do concelho. Há largo tempo. Por essa razão, estranha-se o timming de uma petição oriunda de sectores descontentes com o futuro, justamente por surgir no momento em que veio a lume o anúncio da criação da dita empresa municipal. Évora não aparenta ter, é certo, uma orientação estratégica montada num sector tão importante quanto o da cultura numa cidade classificada pela UNESCO. Mas foi preciso que o município anuncie uma empresa municipal para que os agentes culturais se dêem conta disso? Cheira a queimado…

Seja como for, também estranhamos por que razão há agentes culturais que produzem a toda a hora um discurso legitimador inflamado de verdades e razões, pagando chorudos vencimentos a directores e agrilhoando os próprios artistas à tirania dos recibos verdes e da ameaça de despedimento. Um desses exemplos é dado pela Companhia Teatral do Chiado, que despediu recentemente três 3 actores que mais não fizeram do que reclamar direitos consagrados, depois de terem sido sugados e mal pagos. Mas os exemplos deste «canibalismo» proliferam pelo país, levantando a questão sobre quais os verdadeiros interesses escondidos atrás das cortinas de fumo verbais que ergue cada uma das partes beligerantes.

Não sei se caberá à empresa a definição de uma estratégia municipal para a cultura ou se caberá a cada uma das capelinhas, como tem sido até aqui. Cada uma amanha-se como melhor puder.
Certo, certo é que nunca a «cultura» foi tão falada em Évora e nos blogues, desde as cheias de 60, altura em que a cultura de nabos e batatas se perdeu irremediavelmente.
Eu cá, sou a favor de Évora. Com ou sem empresa.

23 de julho de 2007

Silly Season

Um dos aspectos mais extraordinários da silly season dos blogues é a assombrosa capacidade de engordar ódios virtuais, de gerar déspotas das teclas e valorosos heróis anónimos (vide Mais Évora); sem que nada tenha sido dito, mesmo que não se vislumbre fio condutor, mesmo que nada haja para comentar. Findo o mergulho no universo bloguístico, tudo regressa à normal placidez e à frouxidão de quem nada tem para adiantar. Pensando bem… este costume não é exclusivo da seally season nem apanágio dos blogues.

21 de junho de 2007

Évora

ADVERTÊNCIA: Este post foi escrito na sequência de um artigo publicado em Diana FM. Para além disso… não creio que tenha linguagem obscena pelo que, qualquer um o pode ler.


Não restam grandes dúvidas sobre a vocação de Évora para o turismo. Nomeadamente, para o chamado turismo de qualidade – que não significa necessariamente turismo de luxo nem monocultura do turismo – o qual se confunde em parte com a dinamização cultural de um lugar. Cada vez mais, as rotas turísticas internacionais apontam para o casamento entre aquilo que poderemos chamar a cultura material (património arquitectónico, a gastronomia, o artesanato, etc.) e a denominada cultura imaterial (usos e costumes, desenvolvimento e manifestação de actividades artísticas de rua e nos teatros, auditórios, etc.).

Claro que, face à descoincidência entre aquelas duas dimensões e as estratégias, estamos pouco acima do groud zero em matéria de planeamento estratégico e articulação prática entre os diversos intervenientes culturais, hoteleiros, comerciais, institucionais e associativos.

Não obstante, Évora tem tudo. Tem uma cultura invejável, que é a do Alentejo e tem, também, infra-estruturas; embora por vezes tenhamos a tendência para obliterar esse facto, escudando-nos nas megalomanias disfuncionais e desérticas que proliferam por esse país fora.

Com efeito, dispomos de um dos mais belos teatros do país; de razoáveis auditórios na CCDR, Fundação Eugénio de Almeida e Universidade que, dão garantias para colóquios e seminários nacionais e internacionais; temos o Soror Mariana, as instalações da Academia de Música Eborense; temos galerias de arte e salas de exposições; temos um edifício monumental - Salão Central - que pode recuperar a dignidade de outrora, tal como a sede emprestada da Harmonia, localizada no coração da cidade; temos os ex-celeiros da EPAC onde associações como a Pé-de-Xumbo, A Bruxa Teatro e a Sociedade Harmonia Eborense desenvolvem regulares e notáveis actividades (peças de teatro, concertos, workshops); temos colectividades musicais, grupos corais e um renovado Convento dos Remédios; temos uma companhia profissional de teatro com reconhecidos méritos, algumas companhias de teatro amador, cineclubes e outros agentes culturais mais ou menos anónimos; temos a BIME, temos o FIKE; temos o Mercado Municipal; temos a Fábrica da Música e companhias de dança; temos salões de colectividades na cidade e nas freguesias rurais que nos dão garantias para descentralizar acções; temos um jardim público, temos praças deslumbrantes, temos igrejas onde podem ser apresentadas exposições, concertos, etc; temos o Convento do Carmo; temos hotéis para todos os gostos, carteiras e potencialidades; temos equipamentos desportivos de clubes e associações que podem muito bem ser rentabilizados como contrapartida pela contribuição pública que recebem; temos artesãos e as suas próprias galerias; temos uma instituição universitária que importa e é urgente apoiar, aproveitando justamente todo o potencial que os docentes e alunos têm, seja no domínio científico, seja no campo das artes performativas; e podia aqui enumerar tantos outros exemplos...

Temos, enfim, a cidade de Évora; temos todos nós porque, de um modo ou outro, nos pertence a todos. E é isto, precisamente tudo isto, que apaixona quem nos visita e que se pode revelar uma vantagem (para além das já estafadas argumentações das acessibilidades, do enquadramento geográfico, da segurança, do clima, etc).

E vamos ter também um novo pavilhão multiusos, capaz de albergar muitos espectadores e alguma variedade de eventos. Neste como em outros equipamentos municipais, é necessário encontrar sinergias entre todos, de modo a que todos estes equipamentos estejam abertos à população e visitantes e que, transpirem o bulício diário a quem os visita, esse bulício quotidiano da preparação cenográfica de uma peça de teatro, do workshop de cinema para crianças, do ensaio geral de uma orquestra ou da simples montagem de uma exposição de escultura para enriquecer uma mostra de produtos regionais.

Sem ponta de ironia, basta que tenhamos um pouco de imaginação para rentabilizar os espaços e o que é produzido pela sociedade civil através de associações, empresas, companhias, grupos e grupelhos.

Por conseguinte, não é falta de infra-estruturas que temos. Olhe-se para cidades europeias hiper atractivas do ponto de vista cultural como Praga ou Barcelona, onde antigas fábricas e oficinas dão lugar a salas de exposições, de concertos e colóquios.

Falta sim, um arranjo estratégico, um plano. Exequível, mobilizador, funcional e atractivo, cujas acções complementem a riqueza da paisagem, da monumentalidade e dos costumes desta terra. Que se aproveite o que há e, seja articulado organizadamente e, que se mostre ao mundo a dimensão de uma terra com as marcas de algumas das mais extraordinárias civilizações de que há memória.

Falta também um compromisso das entidades públicas e privadas com a execução desse plano. E rigor. Rigor, criatividade e simpatia, pois não é ração para bestas o que vendemos (com o devido respeito pelos vendedores de ração).

E tudo isto para quê? Para que as pessoas vivam melhor no futuro. Apenas.

1 de fevereiro de 2007

Assembleia-geral da SHE

A participação directa em democracia é um fenómeno extraordinariamente curioso, dada a sua concomitância com o circense da coisa, com o sensacionalismo e, sobretudo, com a possibilidade de exacerbar sentimentos reprimidos, vociferar ódios, desenterrar vinganças latentes e até, projectar nas assembleias de ouvintes a representação imagética de uma sessão de psicoterapia. Por vezes, há inclusive os que participam com vista à prossecução do interesse público, procurando aplicar de forma razoável e sensata a equipagem racional com que a natureza os dotou. Assimetricamente, bem entendido.

Assim calhou ontem na Assembleia-geral de Sócios da Sociedade Harmonia Eborense. A fauna era diversificada, havia de todas as cores e feitios, para todos os gostos e desgostos. O bonacheirão perdido nas contas, nos estatutos e no convívio de Quarta à noite; o alarve a arrotar dentes d’alho pelos cantos da boca, ministrando impropérios contra os males instalados na sua própria memória; o imberbe revoltado apostado em fazer-se ouvir acerca dos seus nadas e dos seus quês primordiais, num turbilhão existencial profundo e piedoso; o apócrifo mensageiro da idoneidade volvida casacão, apelando insistente e solenemente à nobreza da legalidade, ao costume e à tradição da amada instituição numa inglória e peregrina reposição da verdade fugidia, julgando-a a mais digna representante da realidade feita propriedade privada de si e dos seus; os atacados na sua honrada existência exigindo reparos por danos morais e outros; o insistente e mentecapto embaixador da mais absurda masculinidade medieval; a chusma de lacaios mal ensaiados, acéfalos e saloios. Mas também, a douta personificação da sensatez e os que, como eu, estavam. Apenas.

Nunca lá tinha visto tanta gente... exortada pela Direcção a votar uma moção de confiança a si mesma, com base numa decisão executiva e perfeitamente enquadrável nas atribuições e competências que lhe assistem (consignadas nos Estatutos da colectividade), as quais dispensam tal consulta, a menos que esta seja requerida pelos sócios. E sem que, ao abrigo dessa moção de confiança fosse questionada a actuação geral do órgão executivo ao longo do mandato, porque é em função desse desempenho que uma Direcção poderá reforçar a legitimidade democrática escrutinada. Ou não.

Cuidado Casimiro, cuidado Casimiro,
Cuidado com as imitações, ó Casimiro,
Cuidado minha gente, cuidado minha gente,
Cuidado justamente com as imitações

Sérgio Godinho


26 de janeiro de 2007

Lisboa, um (des)Governo dos Pequeninos

Com um passivo de mil milhões de euros, a Câmara Municipal de Lisboa contribui com 1/5 da dívida das autarquias locais (308 municípios e 4261 freguesias), as quais concorrem por sua vez com 12,8% (Eurostat 2004) para o total da despesa pública (menos 14% da média europeia).
Ministérios, direcções regionais, institutos e comissões de coordenação consomem a maior parcela dos recursos do Estado. Estes valores só vêm confirmar os indícios da chacota europeia de que somos alvo, por ostentarmos um Estado centralizado, burocrático e balofo, com epicentro no Palácio de S. Bento. Alegremente estúpido!

Tal constatação, identificada pelos investigadores, remete para duas reflexões:

Em primeiro lugar, Palácio de S. Bento e Terreiro do Paço não confiam no povo português para se governar a si próprio, de forma local e directa. A vitória do Não no referendo à regionalização em 1998, mais do que uma expressão da sociedade civil, provou-se ser um conluio negociado entre os principais partidos. Um empecilho montado ingenuamente por um dos parceiros.
Aquela premissa decorre de uma outra, dando-nos conta de uma desconfiança generalizada dos portugueses em si próprios, atados pela aflição em ter que vir a ter que mandar na sua própria casa. Nesta, quem manda, manda bem. E esse é o santo pai, mesmo que a casa se transforme numa pocilga. As representações colectivas que o povo faz de si próprio, consistem numa amálgama indiferenciada que pasta em rebanho sob o olhar atento de um pastor, um pai, de varapau na mão quente e acostumada. E nem se importam se no rebanho coexistirem com um ou outro abusador. O povo concorda portanto com as análises funcionalistas de Marx, para quem a existência de um sistema judicial e policial só se justifica se houver bons e intangíveis criminosos pelo moderadamente longo braço da lei.
E convive bem com isso. Senão, nem as suas próprias mijadelas fora do traçado (stick to the plan) seriam toleradas pelo bom pastor. Assim, com umas carícias ao de leve, o pastor lá vai chegando a roupa ao pêlo com o varapau para mostrar que o sabe usar. Por seu turno, a chusma, se dá por isso, nem se importa e obedece com um sorriso amarelo. Mas sempre a sorrir, que a boca não foi feita só para engolir.

A segunda reflexão é clara pela recorrência com que é objecto de digladiação. O valor acrescentado por cada unidade monetária investida pela administração central e pela administração local. A representação que os nossos órgãos cognitivos fazem da realidade também, neste campo, parecem estar ajustados por um mesmo diapasão, em virtude de me parecer pouco profícua a discussão em torno dos conceitos de investimento e gasto e a sua associação tendencialmente concomitante com as autarquias locais e administração central, respectivamente. Salvaguardadas as devidas distâncias, excepções, casos de corrupção, leviandade. Certo é que, num cenário de poder democrático com acção exclusiva da administração central, Portugal seria um imenso descampado assinalado geograficamente por duas cidades em infantil disputa: Lisboa e Porto. Tudo o resto não teria resistido, sem a acção do poder local, pese embora todas as vicissitudes que lhe possam ser imputadas.

Mas também é claro que poder local e poder central não são duas realidades estanques nem a sua interpretação pode resultar de uma análise linear como a que foi exposta. Há descontinuidades, há fracturas, há esquizofrenias também.
Lisboa é um desses casos pois será o único órgão autárquico cujas semelhanças com a administração central me parecem incontornáveis. São-no ao nível da dimensão, do protagonismo e do despesismo, cujas raízes remontam à soberba umbigal dos intervenientes, à estreita ligação com a cúpula da administração central e também ao processo político-partidário. A Câmara de Lisboa é o governo dos pequeninos, a plataforma de lançamento de partidos e oportunistas vários. Outro nível, outro nível...

14 de dezembro de 2006

Brincar ao Quarto Escuro

O que é verdadeiramente interessante em alguns dos comentários produzidos no blog Mais Évora, é verificar a imensa gente descontente neste país, que não consente em calar as suas frustrações, as suas indignações e até a interiorização assimétrica de princípios e valores democráticos. Nuns casos, os seus ódios mais viscerais, também. As razões… humanas, claro está… Uns mais legítimos que outros, uns elaborados com mais acerto e outros ainda, reveladores de uma boçalidade confrangedora. Daquela que nos envergonha.

Mas sobretudo, observar a analogia com o trauma infantil, em recorrer a todos os subterfúgios para encobrir uma asneira. Numa relação de pecado com o produto da sua acção, o petiz é incapaz de assumir a responsabilidade e confessar o incidente aos pais ou amigos. O trauma original, talvez como resultado de décadas de repressão e condenação da verbalização de sentimentos e opiniões livres. O espectro da represália funciona como inibidor de identidade, descredibilizando irrevogavelmente o discurso produzido e gerador da hipocrisia que o acompanhará toda a vida.

Por conseguinte, bem encoberta a asneira, o puto assanha-se e torna-se capaz das maiores cobardias, como acusar o irmão que ele sabe estar inocente.
«Não me venhas com moralismos», dirá posteriormente ao irmão para se justificar...

1 de outubro de 2006

Évora, o Esteio da Competitividade

Segundo um estudo realizado por dois investigadores da Universidade do Minho e considerando critérios e padrões de análise iguais aos utilizados pelo Fórum Económico Mundial, Évora estará no topo da competitividade nacional.

Claro que este índice, resultante da ponderação de diversos indicadores que dão corpo a 4 índices centrais de competitividade – demográfica, laboral, empresarial e de conforto – reflecte somente a potencialidade das cidades consideradas, em matéria de competitividade.

Por ser uma cidade com uma densidade populacional baixa, com taxa de desemprego inferior à média, por reunir um potencial turístico impar e boas condições objectivas de vida (ao nível das infra-estruturas se saneamento, habitação, pessoas por alojamento, etc.) entre outras virtudes, o estudo revela que o potencial de competitividade de Évora é maior do que o potencial de crescimento da capital, Lisboa, a segunda classificada neste estudo.

No entanto, há aqui vários aspectos que devem ser apreciados.

Em primeiro lugar, estamos a falar do que existe em potência e não na realidade. Os autores recorrem a uma analogia que me parece bastante feliz: «Évora tem uma longa recta numa estrada de terra batida», procurando enfatizar um percurso menos tortuoso do que as cidades que têm a estrada asfaltada embora com um traçado excessivamente sinuoso.

Em segundo lugar, é aceite que, à semelhança da lei dos rendimentos marginais decrescentes, o acréscimo da primeira unidade implique uma maior satisfação do que a segunda e assim por diante, ou seja, uma cidade com muitos recursos e de certa forma congestionada como o Porto (último classificado), possui menos margem de progressão (ou potencial) do que uma cidade actualmente pouco competitiva. Para ilustrar melhor o exemplo, basta considerar as taxas de crescimento de países em vias de desenvolvimento como a China, Argentina, Índia, Brasil, etc. muito superiores às da Europa, Japão e Estados Unidos.

Em terceiro lugar, convém não esquecer que se trata de um estudo comparado, às capitais de distrito e não necessariamente às cidades mais importantes e competitivas do território nacional.

Em quarto lugar, há factores de ponderação, de demonstração mais objectiva do que outros e que certamente se posicionam diferentemente face a um índice desta natureza, consoante o impacto que produzem. Sem dúvida que em matéria de competitividade, há factores como a dimensão do mercado, as infra-estruturas existentes, os incentivos ao investimento, o perfil de actividades económicas desenvolvidas numa região, salários médios, a qualificação dos recursos humanos, as acessibilidades e o custo de vida, são necessariamente mais determinantes do que outros, pelo que a ponderação dos indicadores tem que ser diferencial.
No índice relativo ao conforto, por exemplo, não se fez alusão ao preço médio das habitações nem ao custo de vida. E todos sabemos que, nessa matéria, Évora não tem uma dinâmica propriamente meiga. Mas tendo em conta os critérios utilizados, Évora surge como a cidade com maiores níveis de conforto.


Por todos estes motivos e mais um par de botas, o estudo revelado é extremamente importante para que os eborenses e o resto do país compreendam claramente que Évora é evidentemente um diamante em bruto, por lapidar (apesar da investigação não trazer nada de novo), e interiorizem essa ideia de forma consolidada.
Mas não certamente à custa da arbitrariedade desnorteada de sucessivas gerações de governantes, de profissionais incompetentes, nem de cidadãos desleixados para quem viver em Évora, só por si, deveria significar conviver com a excelência (sem menosprezo para ninguém) e ser um motivo de incontestável orgulho.

21 de junho de 2006

Ganhar a Qualquer Preço

Há jogo sujo e golpes baixos nas eleições para a Região de Turismo de Évora, onde os escrúpulos são feitos da mesma incoerência emergente desta e da «eleição» para a Associação de Municípios do Distrito de Évora. O jogo não é limpo e merece ser impugnado. Os detractores do jogo democrático vêm assim manifestar a sua imensa imbecilidade e fragilidade ao não aceitarem as regras e a lógica democrática quando estão em causa os seus próprios interesses. Sim, porque volvidas duas décadas, o trabalho apresentado é tímido, incipiente e desinteressante. Só as lapas são incapazes de o admitir. E a CDU.

11 de junho de 2006

«Você sabe com quem está a falar? Porque aqui, quem manda, sou eu!»

Estas coisas de dar bons exemplos e modelos de comportamento ao povo, quadros de referência para os de baixo seguirem, pode ser uma tarefa muito árdua. Isso da coerência não é assim dado de um pé prá mão.

Ontem foi inaugurado o Centro Cultural de Redondo. Lá estavam os notáveis e os outros. Os primeiros nas filas dianteiras do Auditório, os segundos, distribuídos pelos lugares que restavam. O espectáculo era um clássico, para eruditos, diz-se. E talvez fosse, caso alguns dos lugares das primeiras filas não tivessem sido preenchidos. Dois, em particular, alinhados lado a lado na primeira fila. A fila VIP.

Porque enquanto os bailarinos do Ballet Nacional da Moldávia evoluíam no palco ao som de Pyotr Tchaikovsky interpretando O Lago dos Cisnes» as duas criaturas estabeleceram uma relação obsessiva e alienada com os respectivos telemóveis. Talvez fosse a novidade inerente aos avanços tecnológicos em matéria de captação de imagem, não obstante o inevitável aviso da Organização, alertando para a não utilização de telemóveis e proibindo expressamente a recolha de imagens. Dois actos e meio, entretidos a fazer fotos das coxas das bailarinas e, quem sabe, do baixo-ventre dos portentosos bailarinos…

Para além da desconsideração pelos alertas da Organização, denota-se uma falta de respeito pelos artistas, pelos restantes espectadores e acima de tudo, a sobranceira irresponsabilidade, característica desta classe de gente.

As duas criaturas eram, nada mais e nada menos do que, a Governadora Civil do Distrito de Évora e o Delegado Regional de Cultura. Portanto, personalidades com responsabilidades específicas na imagem do Governo e na dignificação da cultura.
Ora, quando criaturas deste estatuto não demonstram uma conduta que se coadune com o mesmo, qual a legitimidade para exigir do povinho seja o que seja?

Estes são apenas dois exemplos (com particular gravidade a conduta do segundo indivíduo) mas que têm expressão no resto do país. São estes alguns dos nossos «líderes», cujas lacunas são disfarçadas com discursos frugais, inócuos e desconexos. Pessoas que se fazem confundir com as instituições a que presidem ou dirigem, assentando algumas das suas decisões nas suas próprias preferências e gostos individuais, sem amplitude estratégica. Sem respeito pelas especificidades e sensibilidades locais. Mas esse registo já não nos é estranho há muito, muito tempo...

7 de fevereiro de 2006

Prémio Boas Práticas



O Salão Nobre da Câmara Municipal de Évora estava hoje à pinha. Para isso concorreu a indiscutível habilidade de recrutamento reconhecida à Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), recorrendo ao chamariz de um Projecto de Mobilidade Sustentável. Em causa está portanto, uma verba destinada a planos de mobilidade sustentável (coisa da moda): reordenamento de fluxos de trânsito, redes de transporte de crianças e idosos, criação de zonas pedonais, estacionamentos, etc. Enfim, com tudo o que isso possa querer dizer, distintamente no léxico de um urbanista ou de um político…

O agradável convite às autarquias prenunciava um oportuno programa de intervenção urbanística, ao qual qualquer autarquia se poderia candidatar livremente, sem numerus clausus. Ou seja, perante problemas urbanísticos ou de mobilidade, sistematizados no senso comum, evoluir-se-ia para uma sistematização técnico-científica, através da elaboração de diagnósticos e planos de intervenção. Se Évora tem determinados problemas, tal não significa porém que um concelho rural não tenha os seus – de importância relativa, independentemente da dimensão dos locais, independentemente da gravidade dos problemas. Afinal de contas, se Évora tem necessidade de uma verba, um concelho de pequena dimensão terá necessidade [ou não!] de uma verba 5 ou 10 vezes inferior [ou não!]. Mas todos, sendo previamente objecto de diagnóstico. Elementar.
Ou será que não? Ou será que a dimensão física e demográfica de um local são indicadores suficientemente verosímeis e decisivos?

E na verdade, qualquer concelho – com excepção das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, com problemas muito específicos e de um grau de complexidade que transvaza os limites municipais – pode-se candidatar livremente. Já não é garantido que seja seleccionado. Até aqui tudo quase bem!

No entanto, lá se foi adiantando que serão seleccionadas entre 50 a 60 áreas (em 282 concelhos possíveis), não havendo indicação contrária à selecção de 2 ou 3 áreas numa única cidade. Mais, os critérios de selecção, não tendo sido anunciados [vá-se lá saber por que carga de água], levam a concluir que estarão previamente definidos, pela definição de dois níveis de clusters que consideram 104 burgos….

Ora, se os concelhos das áreas rurais e outras, não figuram nesses níveis de clusters, então, para quê convidar todos os municípios associados da ANMP, senão para engalanar a festa que, refira-se, foi devidamente apresentada com pompa e circunstância pelo Dr. José Ernesto de Oliveira? Na verdade, o proeminente e versado Doutor José Nunes da Silva (Centro de Sistemas Urbanos e Regionais do IST), não se coibiu de partilhar as suas valiosas postas de pescada, já indutoras de uma pré-selecção apurada em gabinete, ou se calhar num quarto de hotel. Mas pagas a peso de ouro, decerto…

Essas postas, que, por obra do acaso, coincidem com as instruções que a Sr.ª Eng.ª Regina Vilão (Instituto do Ambiente) trazia de casa e se esforçou por ler sem brilho aos presentes. Quando instada a pronunciar-se sobre a razão de não serem apresentados os critérios à priori da fase de candidatura, esquivou-se como pôde e sem glória à pergunta. Se calhar, «o ano e meio de maturação», como ciclicamente lá iam evidenciando naquele tom sério só verificável em gente de trabalho, não lhes chegou para a definição de critérios objectivos. Ou sim, só que não dizem.

Francamente, estamos a falar de um proforma perfeitamente desnecessário. Os municípios pequenos e «sem problemas» compreenderiam o imbróglio, caso não lhe tivesse sido endereçado o convite, para a apresentação de um programa que lhes não era destinado. Mas foram convidados! A isto, chamaria sem reservas, uma presunção de igualdade no tratamento dispensado. Fica bem à ANMP. Prémio de boas práticas, ainda antes da publicação do Manual.

Se há problemas de urbanismo associados à mobilidade, nesse caso, a solução dos mesmos não pode passar por candidaturas municipais, sem passar primeiro pela fase de diagnóstico técnico (se há municípios que os têm, através de planos municipais de ambiente e de agendas 21, outros há que não possuem qualquer tipo de diagnóstico do género). Nesse caso, também não faz sentido que os municípios se candidatem a recursos limitados (50 ou 60 áreas), com vista à elaboração de diagnósticos. Essa é uma necessidade de partida, comum a todos: se não há, que se faça; se há, que se aproveite o que existe.

Logo, a atitude mais adequada, seria dispensar as candidaturas para elaboração de estudos. Só após este passo de conhecimento da realidade é que se partiria para uma fase de candidatura para a realização de planos de acção. E sem embargo, neste país, para nos conhecermos, temos que nos candidatar. Hilariante! Estarei a pensar mal?
Não faz é sentido promover um programa com apresentação de candidaturas, para o qual já foram identificados os beneficiários. Mas também há outra alternativa: elaborar planos de acção sem diagnóstico: quem tem, tem! E quem não tem, tivesseSerá que, apesar de todo o atraso, ainda subsistam motivos para dizer que se está a meter a carroça à frente dos bois? É que, se é disso que se trata, não é no século XX que Portugal caminha, é na profunda e arrepiante idade das trevas.

Dá vontade de dizer, como Segismundo d'o Albergue, «taqueopariu».

1 de fevereiro de 2006

Uma Estratégia para o Futuro

Conforme noticia o jornal desportivo «A Bola», Évora vai receber o estágio da selecção portuguesa de futebol, com vista à preparação para o campeonato do mundo, a realizar na Alemanha. Para além do estágio, está prevista a realização de um jogo particular com Cabo Verde.

Já estou a imaginar milhões de adeptos de futebol e suas familias a congestionar Évora, apenas para ver os craques lusitanos.


Já agora, quem é que lembra onde estagiou a selecção italiana na preparação para o último europeu? Mas certamente que essa cidade é hoje um exemplo de desenvolvimento... ui!

11 de julho de 2005

Ode ao desenvolvimento sustentável III




Aspecto lateral da enorme parede de betão que ladeia uma das extremidades da praia de Sesimbra.
Deixo à imaginação dos leitores, a utilidade que se poderia dar a tão horrenda parede...

Ode ao desenvolvimento sustentável II



O que pode justificar abortos destes (como já tínhamos dado conta aqui), senão a ganância de operadores privados e a anuência de executivos municipais? Eventuais acusações de corrupção não cabem aqui, ficam para o Ministério Público. Eventualmente.

O pitoresco recanto enquadrado por íngremes falésias que outrora se reconhecia em Sesimbra, está transformado num emaranhado caótico de betão, ferro e tijolos que se precipita em toda a linha costeira sobre o mar, num espectáculo arrepiante e esteticamente asqueroso.

É este modelo de «progresso» que deseja o autarca de Grândola, sabe-se lá se movido por ideias falaciosas de qualidade de vida, se pela perspectiva de uma reforma dourada…

Só se entende este tipo de cedências incompreensíveis, num quadro de satisfação da voracidade de gente sem escrúpulos, perante o qual a própria CCDR se auto-consome, viabilizando o empreendimento da Sonae em Tróia e violando os sucessivos pareceres da Direcção Regional de Ambiente.

O que faz a CCDR emitir pareceres dissonantes num tão curto espaço de tempo? Só me ocorre pensar que foi operada recentemente uma mudança de governo, e em ambiente de mudanças há necessariamente… mudanças. Que condições objectivas e concretas transformaram a necessidade de preservar na necessidade de dar ao desbarato?

16 de junho de 2005

Comércio tradicional no Mais Évora III

Na sequência de um texto publicado no Mais Évora, escrito por um leitor descontente com o comércio tradicional, resolvi deixar o seguinte contributo, que aqui se transcreve na íntegra.
Há direitos conquistados que só muito dificilmente são suportados por um comércio tradicional envelhecido. Por isso mesmo será tradicional, em contraposição com o novo, a inovação, a substituição, o descartável.Sou da opinião que podem coexistir. Um e o outro.
E esse exemplo é-nos dado por imensas cidades e capitais europeias (dimensão à qual Lisboa só remotamente pertence), em que o tradicional não só é preservado como é uma importante fileira turística. Bruxelles, Barcelona, Roma, Madrid, Sevilla, Paris, Copenhagen, etc.
Acontece que nós por cá nem isso sabemos aproveitar porque facilmente nos deslumbramos com os neons, as cores, as miúdas a levarem o dia inteiro com música em altos berros enquanto passam o dia a dobrar a roupa que os clientes desarrumam, a comida de plástico, os encontrões e as filas para entrar no parque de estacionamento (e para sair).
Também frequento shoppings e estes dois serão benvindos. No entanto, uma cidade como Évora, fortemente vocacionada para o turismo, não se compadece com uma Região de Turismo a reboque dos acontecimentos e sem criatividade, nem com uma Associação Comercial do Distrito de Évora cujo dinamismo está ao nível de uma «venda» em qualquer freguesia rural. Só operações de cosmética, mas nisso, nós portugueses somos pródigos...
Não havendo condições para um merceeiro competir com uma grande superficie (apesar de normalmente apresentar melhores produtos), porque não associar-se com outros para conseguir preços mais competitivos, inovar na oferta e na imagem? Porque não evoluir para um tipo de serviço que leve os produtos a casa dos clientes, numa pequena carrinha de distribuição com uma taxa de 1€ sobre o valor das compras (ou outro mecanismo qualquer)? Porque não pedir ao filho para fazer um site e começar a vender cabazes de produtos biológicos (mais caros mas também cada vez mais procurados), ou brloques ou outra coisa qualquer pela net?Isto são ideias para estratégias, que talvez caiba à ACDE desenvolver e não a mim, que jeito pró negócio tenho muito pouco. Parece-me.
O comércio tradicional não tem que ser aquilo que se nos é apresentado e na forma como é. Os eborenses é que o fazem ser assim, e nesse caso, somos todos nós e não apenas os caquécticos e apáticos proprietários que «nunca estão abertos».Portanto, os shoppings são bem vindos e o comércio tradicional tem que ser aproveitado, começando pela sua adaptação às novas exigências e requalificação de alguns locais que provavelmente terão mais futuro dentro de grandes centros comerciais.
Em diversos pontos do mundo percebeu-se isso e com franqueza, não creio que o «progresso» passe necessariamente por locais de consumo de massa. Devíamos era começar a pensar em produzir...
É fundamental que nós, eborenses, alentejanos e portugueses compreendamos as dinâmicas de interdependência associadas aos processos da globalização e sobretudo, que olhemos para lá dos horizontes da planície.
E isso não é feito com marretas embrutecidos a servir «mines» na Praça do Geraldo, orientados por perfeitos idiotas amadores, cuja única vocação seria dar marretadas na cabeça à semelhança de dois yanomami em litigio.Esse não é certamente o meu modelo de comércio tradicional.

Comércio tradicional no Mais Évora II

Tendo dado início à discussão sobre a exequibilidade e sobrevivência do comércio tradicional, cada vez mais pressionado pelas novas exigências de mercado e consumo (e perante a possibilidade de virem a ser construídos em Évora dois centros comerciais de grande dimensão), o Mais Évora, blog de referência regional, teve a amabilidade de publicar um comentário que lá deixei.
Fica desde já o desafio para quem se interessar por estas e outras questões que são regularmente desenvolvidas no Mais Évora.

15 de junho de 2005

Comércio tradicional no Mais Évora

Sobre as pressões sofridas pelo comércio tradicional em Évora, pela previsível exportação do modelo massificado dos shoppings, uma vez mais o Mais Évora cumpre a sua função cívica, promovendo o debate em torno desta tensão que se adivinha.
Nós por aqui (eu e o meu sócio que trabalha para me sustentar), embora algo esgotados pelo dia extenuante, não hesitámos em responder ao repto com uma simples e despretensiosa observação.
Cumprimentos ao Mais Évora.

8 de junho de 2005

Agendas 21

Após a primeira jornada do seminário de encerramento do DITAL 21, é curioso constatar como a generalização de alguns problemas não conhece obstáculos fronteiriços. Independentemente de outras circunstâncias notoriamente similares, aquela proposição é válida para o deficit de envolvimento cívico, em particular em zonas rurais. E não nos iludamos com toda a pompa pseudo pós-materialista dos nossos urbanóides da «capitalzeca»...
Lá como cá, não temos ainda capitalizada socialmente uma cultura de cidadania activa que mobize a generalidade da população em busca de compromissos, que coopere desinteressadamente em prol de algo tão distante como o bem comum e que se interesse pela coisa pública como sendo sua.
Nesse sentido, espanhóis e portugueses, ainda temos um longo caminho a percorrer.

7 de junho de 2005

Agendas 21 no Alentejo e Extremadura

Terá lugar nos dias 8 e 9 de Junho em Badajoz, o seminário de encerramento do projecto DITAL 21 (INTERREG III A). Foi ao abrigo deste projecto que os municípios de Arraiolos e Redondo desenvolveram as suas Agendas 21, dando honradamente o pontapé de saída no Alentejo, em matéria de Agendas e subscrição da Carta de Aalborg.
No seminário em foco serão apresentadas as conclusões a que estes dois municípios chegaram e que conpromissos assumiram para o futuro.
PS: como não deixamos de ser portugueses, no Programa os amigos espanhóis antecedem o nome próprio de cada orador português com o inevitável «Dr». Para eles basta apenas «Sr.» e «Sra.». Mas nós é que somos os importantes, ocabiorresto...

1 de maio de 2005

Venha de lá isso!

Parece que desta é que é. O actual Executivo PS da Câmara Municipal de Évora prepara-se para afogar os munícipes com inaugurações e intenções e projectos e obras e safiras e pérolas e tudo o que ficou por cumprir das estonteantes promessas eleitorais de 2001.
Ele são ecopistas, mercados, parques desportivos, pavilhões multiusos, porto de desembarque de cargas e passageiros, viagens à lua, aeroportos, hospitais, novas universidades, curso de medicina, baptismos de voo para idosos, electrodomésticos para todos, autoestradas para Arraiolos, vivendas de 350 m2 para todos os eleitores, zonas de animação nocturna, jardins e rotundas, pleno emprego, campos de golfe, festivais de verão, piscinas cobertas, parques de estacionamento, centros culturais, parque de feiras e exposições, saneamento básico em todo o concelho, museu de arte rupestre na Vendinha, fábrica de naves espaciais, centros de investigação, TGV, chill out, centrais de energia fotovoltaica na Garraia, museus, metro subterrâneo entre a Praça do Geraldo e o Colégio do Espírito Santo, heliportos, parques aquáticos, parque de diversões da Disney, sedes de multinacionais, e dinheiro a nascer árvores.