Por vezes, até o tempo gasto em reuniões inúteis pode constituir uma excelente oportunidade... para reflectir ou, se não for caso disso, para apreciar a decoração.
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10 de dezembro de 2009
6 de agosto de 2009
A vontade, tudo alcança!
Estudos recentes sugerem que a prolactina, a conhecida «hormona do leite» que é produzida pela hipófise (glândula regulada pelo hipotálamo e não nenhum estado de adormecimento tântrico), pode ser influenciada pela vontade humana.
Talvez agora se faça luz sobre o mistério de uma mulher e de uma vaca charolesa que, no tempo da fome, deram de mamar à dúzia de famílias que constituíam a pequena comunidade de Aix-la-Seine. Não se sabe ao certo durante quanto tempo durou o prodígio mas é sabido que terminou quando os beneficiários decidiram, em plenário, matar a vaca para ser servida depois da Quaresma. Estima-se que a mulher tenha regressado desgostosa a Paris e sem vontade de produzir mais leite.
Há relatos de tentativas de reconstituição desse estranho caso, invariavelmente conduzidas por um Sr. Parker, botânico e criminologista. Porém, todas fracassaram.
Talvez agora se faça luz sobre o mistério de uma mulher e de uma vaca charolesa que, no tempo da fome, deram de mamar à dúzia de famílias que constituíam a pequena comunidade de Aix-la-Seine. Não se sabe ao certo durante quanto tempo durou o prodígio mas é sabido que terminou quando os beneficiários decidiram, em plenário, matar a vaca para ser servida depois da Quaresma. Estima-se que a mulher tenha regressado desgostosa a Paris e sem vontade de produzir mais leite.
Há relatos de tentativas de reconstituição desse estranho caso, invariavelmente conduzidas por um Sr. Parker, botânico e criminologista. Porém, todas fracassaram.
18 de julho de 2009
Ensaio sobre o absurdo i

Quando a Gasosa convidou para a rubrica Gasosa Convida, fui levado a recusar por não me lembrar de ter sido convidado, por o carro não pegar e por uma cegonha fardada de Express Mail me ter batido à porta intimando-me a levantar a encomenda que estava no Depósito M-53 do Cegonhoporto local há cerca de 270 dias.
Encurralado, resolvi aceitar de boa vontade. Inicialmente, pensei em pregar-lhe com algumas suras do Corão ou outras tantas leis do fiqh ou, ainda, uma das 3573 máximas que trago decoradas sempre à mão para enfrentar qualquer circunstância com que me deparo no quotidiano. Mesmo em situações francamente embaraçosas como daquela vez em que o presidente da república me pediu um exemplar do Borda d’Água na casa de banho de uma loja da Mango em Alcabideche. Felizmente não era nada comigo e o homem era afinal um professor irado com a Maria de Lurdes Rodrigues por causa do cozido de grão que aquela terá deixado displicentemente ao lume.
Pensei igualmente em resolver o assunto enviando uma fotografia do Fernando Mendes a fazer o pino no lombo de um touro bravo. Mas o touro não colaborou e o aspirante a humorista conseguiu sair ileso da sala de desmanche antes que lhe cobrassem a entrada.
Assolado por tenebrosas e incapacitantes dúvidas, fui acometido por um terrível ataque diarreico quando lia o jornal e ocorreu-me a ideia de trabalhar em part-time num ensaio sobre o absurdo. Pensei, em jeito de desabafo, «absurdo ou cegueira, é tudo a mesma coisa», apesar de não viver numa ilha vulcânica coberta de cinzas onde não se topam mais do que calhaus menores de idade.
Como é do conhecimento geral, etimologicamente, absurdo deriva de uma norma incapacitante e defeituosa: «o surdo». Mas isso não interessa para o caso. Ora, neste mundo em que vivemos e numa perspectiva meramente metafórica, não ouvir é como não ver, logo, o ensaio está concluído e demonstrado.
Depois deste importante depoimento de um indivíduo com um notável percurso na apanha do tomate, entramos finalmente no assunto encomendado.
Era eu um pré-adolescente, imaturo e inconsequente quando os americanos deram guerra ao Iraque. O que tem isto a ver com o propósito deste texto? Nada! Mas achei que seria útil dizer que esse determinante facto histórico ocorreu paralelamente às minhas investidas na taberna ao lado da escola em busca de bagaços vespertinos e drops de frutas. In illo tempore, como se costuma dizer, não haviam mais do que três ou quatro motos com cilindrada superior a 125 cm³ em Évora e o Chico era o maior mentiroso do Alentejo. Fosse como fosse, passava os meus santos dias nas aulas com o rabo sentado num intenso formigueiro, as pernas orientadas para a porta de saída [ou para a janela, conforme os casos], e a cabeça estacionada em alguma parte da lua. Confesso que nunca me soube orientar naquele planeta estranho, talvez por ser tudo um bocado a preto e branco. No entanto, desse alongamento físico-espiritual se depreende a minha fisionomia de núbio, só traída pela estatura pigmeia de toda a minha família.
E a que me dedicava eu nesse frenesim? À pintura! Pode parecer estranho escrever um texto e não apresentar nada artisticamente relevante mas… sempre fui uma criança difícil e quase entrei para a Opus Dei, não fora a denúncia de orgasmo manualmente induzido a bispos irlandeses, feita por uma colega da escola a quem eu me esquecia de desejar «um bom fim-de-semana» à sexta-feira. À conta disso fui chamado à presença do director da escola a quem tive que explicar detalhadamente por que razão a sua mulher pedia sempre boleia ao professor de ginástica e não ao próprio marido. Era uma liberal e eu queria ser um pintor vagamente conhecido. Por isso, não dava para casarmos.
De regresso ao principal assunto, na esperança que eventualmente ainda pudesse entusiasmar algum leitor (assim eu me lembrasse do que estava a falar), a pintura e a reflexão conduziam-me em viagens epopeicas numa espiral que terminava em êxtase no centro da sala de aula a esvoaçar na companhia de imensas moscas sem GPS. Nessas viagens, perturbadas irritantemente por uma criatura que exigia ser chamado «professor», eu não me dedicava a nada em especial mas era feliz pelas pinturas que, por vezes, encontravam a glória nas gargalhadas dos colegas imediatamente sentados à frente e imediatamente sentados atrás. Isso, num primeiro momento porque, em rigor, alguns minutos depois acabava inexoravelmente na rua com falta a vermelho, conquistando um espaço de afirmação intelectual e artística só reservada às crianças brilhantes. Por isso é que nunca consegui passar do 9º ano.
Para além das pinturas eróticas e das cabalísticas, sempre manifestei um particular interesse pela aero-náutica. Por esse motivo, os meus desenhos reflectiam predominantemente um casamento entre a aviação e o surf-Presto. Por nenhuma razão em particular. Nos aviões a jacto era comum instalar um estendal de roupa preparado para se apeitar com velocidades supersónicas. Julgo que, simbolicamente, se trataria da representação das marés e ventos que lavam e secam a roupa, costume culturalmente muito relevante, embora não seja de descartar a minha sensibilidade ecológica já manifesta naquela altura. Com essa manifestação de castidade desencadeada por roupa impecavelmente lavada, seca e passada a ferro a 2G, o que eu pretendia era, nada mais e nada menos, comprovar a existência de Deus.
Naturalmente nunca o consegui mas aqueles desenhos, dos quais não guardo uma única cópia, revelavam antes de mais que não pode haver criatividade na unidimensionalidade. Ou, pelo menos, não é aceitável. Caso contrário, teríamos o mundo governado por albertos joões jardins.
Isto não tem piada nenhuma mas o objectivo foi cumprido e pró ano serei professor titular.
Originalmente publicado em Vai uma gasosa?
6 de maio de 2009
O caldo entornado
Quando a doença se torna consciente e, das sessões ortopédicas transita para as tertúlias regulares, é que o caldo está entornado. Esse é seguramente um dos problemas da normalidade. E, seguramente, um dos maiores dilemas da História Universal do Serrão.
Por vezes, apetece dizer alguma coisa com jeito. Mas fico sempre na dúvida sobre se a normalidade da coisa se expressa em cálculos matemáticos.
13 de fevereiro de 2009
Entardecer...
Habituado a vestir peles de todas as cores, Jules sempre entendeu o fenómeno como elemento de aprendizagem contínua. À guisa das Novas Oportunidades, na vida, um gajo veste a pele de filho, de pai, de porteiro, de director, de jogador, de cozinheiro e, até, de estofador. E, por muitas peles que vista tornou-se um consolo vestir outra. E outra ainda. Por nenhum conforto em especial. Apenas porque nunca se entendeu bem com essa acomodação total do corpo à pele que se veste. Quando acontece, ala que se faz tarde!
27 de novembro de 2008
o sabor das coisas
Aos períodos de hipermania, sucediam-se outros de hipomania e assim sem termo, porque o termo das coisas era vulgarmente um estádio consagrado e outorgado heteronomamente. Logo, os inchaços e desinchaços sucediam-se com referência à doxa, o indexador da patologia. E... santo deus, como é saboroso o agridoce e coisa nenhuma a pairar nos céus com referência a nada. E agrilhoar-se em simultâneo ao sal e ao açúcar, sem os largar, sem os ultrapassar e sem os mesclar definitivamente.
24 de novembro de 2008
O problema «corpo-mente»
Mãos cruzadas atrás das costas, pernas curtas atarracadas nas botas de cano alto da cavalaria e cintado pela farda impecável, o alferes parecia muito mais imponente do que a sua real dimensão aconselharia à avaliação de qualquer civil inexperiente nas coisas da tropa. O olhar sarcástico e sorridente foi subitamente enfeixado por uma exclamação enigmática e desafiadora. Inusitada, até porque já nos havíamos habituado a um registo de verbalização tão linear e directo quanto o prosaico raciocínio exibido até aí.
- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»
Enigmática, porque sugeria a dose de conhecimento empírico que todos esperaríamos não confirmar nas aptidões do alferes. E desafiadora, porque nos catapultava a nós próprios para uma dimensão de descoberta que talvez não fosse assim tão gratificante para alguns.
- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»
Passados 14 anos, sinto-me confortavelmente à vontade para declinar aquela viril e irreversível convicção, fantasiada certamente no decorrer de algum filme do Silvester Stallone.
- «Vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»
E a paciência que se tem que ter quando, dia após dia, confirmamos que afinal, a quadratura cerebral do oficial não era deformação da tropa. É sim, coisa dos homens! O ar que aflui ao cérebro não é suficiente, como tal, «vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»
27 de outubro de 2008
Nas trevas da redenção
__
Numa alegoria à revelação, este retrato romântico parece querer sublimar a ascensão triunfal do indivíduo após o turbilhão com que se debateu nas trevas da sua existência. No pico, tudo é nebuloso e incerto excepto a assombrosa clarividência de um homem.
Durante o caminho, é sovado por colossais vagas de ondas com 30 metros e sujeito às mais incríveis provações mas aguenta-se firme perante a ira dos deuses que, incompreensivelmente, estão todos contra si.
Fortalecido pela dura ascensão, o indivíduo está agora preparado para… contemplar inconsequentemente os picos, o objecto inacessível do seu desejo. Vejam a sua distinta pose, observando incólume por cima do nevoeiro terreno. Mas, na realidade, observa o quê, senão e apenas o mais frugal nevoeiro que se estende a seus pés? É tempo de recolher às trevas, pelo gosto de voltar a subir.
Fortalecido pela dura ascensão, o indivíduo está agora preparado para… contemplar inconsequentemente os picos, o objecto inacessível do seu desejo. Vejam a sua distinta pose, observando incólume por cima do nevoeiro terreno. Mas, na realidade, observa o quê, senão e apenas o mais frugal nevoeiro que se estende a seus pés? É tempo de recolher às trevas, pelo gosto de voltar a subir.
Ou então, é apenas uma alegoria à confusão, por não distinguir o mar do nevoeiro.
17 de outubro de 2008
Olimpíadas da masturbação
Segundo um estudo do ICS, cerca de 40% dos jovens até aos 17 anos já iniciaram a sua vida sexual.
Este dado é, não só surpreendente como preocupante. No meu tempo, rapaz que dissesse não ter vida sexual aos 17 anos, corria sérios riscos de ser ostracizado para o resto da vida com aqueles risinhos trocistas ou com humilhantes fabulações do género: «lá vai o gajo que metia a pila no buraco do aspirador».
Em suma, o contributo das respostas masculinas seria o suficiente para igualar o rácio apresentado pelo ICS.
Depois, as miúdas. Determinações metafísicas inexplicadas pelo nosso entendimento determinavam que elas declarassem ter a sua virgindade intacta e, sempre que iniciavam novo namoro diziam muito pudicamente que com o Outro, nunca passaram a fronteira dos beijos e de uma ou outra mexida nas maminhas. Nada de marmelada grossa. Mas também haviam aquelas a quem eram perdoados todos os pecados…
O que era realmente extraordinário – do ponto de vista antropológico – eram as olimpíadas da masturbação. Tratava-se de uma coisa séria, organizada para treinar competências sexuais masculinas. Consistia fundamentalmente em dispor 4 ou 5 jovens (termo muito usado na altura, imortalizado por uma célebre frase «jovem, diz não à droga») sentados num sofá a exercitar a erecção dos seus pénis. Não era fácil porque exigia um grande controlo psicocomotor e perícia técnica. E às vezes, sem aquecimento prévio. Há quem diga que quem dominasse a respiração tinha a vitória assegurada. Outros, defendiam que o segredo estava em imaginar a irmã do Esteves a tomar duche no balneário depois de uma aula de ginástica.
Haviam duas competições: uma de velocidade e a outra de fundo. A primeira consagrava normalmente o mais rápido. O Ribeiro tinha o melhor tempo: uns assombrosos e polémicos 15 segundos porque ainda subsistem dúvidas sobre se a proporção de urina se sobrepunha à de sémen. Na outra competição, vencia aquele que, durante mais tempo, desse provas de maior disponibilidade sanguínea. Aí, era o Esteves o campeão. Talvez porque era o único a não imaginar a irmã nua. Mas as hérnias que tem hoje, ninguém lhas tira.
Haviam regras básicas e interditos. Um dos interditos relacionava-se com a presença de estranhos ao concurso. Por muito bizarro que possa parecer, às raparigas era completamente vedado o acesso. Hoje, acho essa regra infundada pois não estou certo se influenciaria o resultado final. A menos se fosse a irmã do Esteves. O mesmo se estendia, muito compreensivelmente, aos pais e irmãos. Apesar de tudo, na casa do Ribeiro tolerava-se a presença da avó. A ceguez, segundo nos dizia, era selada por uma surdez quase total. O aspecto inócuo da velha deixava-nos descansados e, de algum modo, aquela serenidade estimulava a nossa concentração.
Por fim, todos os concorrentes tinham que demonstrar estar aptos fisicamente para a exigência daquela competição, o que acontecia por volta dos 11, 12 anos com a fabulosa descoberta da verdadeira origem do requeijão. Prometemos nunca revelar o segredo a ninguém para não estragar o negócio do Sr. António da mercearia. Quando a prova era na minha casa, mandávamos o meu irmão mais novo passear o cão a troco de umas gomas e de uns cromos do Mundial.
Quanto às regras, coisas fundamentais como não olhar para o lado, ter sempre à mão algumas folhas de papel higiénico e não estimular outras zonas erógenas. Também era proibido tomar pau-de-cabinda. Mas como nunca ninguém conseguiu arranjar, essa regra ficou sem efeito. Havia uma regra que era sempre quebrada: antes da reunião, todos bebiam leite em casa.
Este dado é, não só surpreendente como preocupante. No meu tempo, rapaz que dissesse não ter vida sexual aos 17 anos, corria sérios riscos de ser ostracizado para o resto da vida com aqueles risinhos trocistas ou com humilhantes fabulações do género: «lá vai o gajo que metia a pila no buraco do aspirador».
Em suma, o contributo das respostas masculinas seria o suficiente para igualar o rácio apresentado pelo ICS.
Depois, as miúdas. Determinações metafísicas inexplicadas pelo nosso entendimento determinavam que elas declarassem ter a sua virgindade intacta e, sempre que iniciavam novo namoro diziam muito pudicamente que com o Outro, nunca passaram a fronteira dos beijos e de uma ou outra mexida nas maminhas. Nada de marmelada grossa. Mas também haviam aquelas a quem eram perdoados todos os pecados…
O que era realmente extraordinário – do ponto de vista antropológico – eram as olimpíadas da masturbação. Tratava-se de uma coisa séria, organizada para treinar competências sexuais masculinas. Consistia fundamentalmente em dispor 4 ou 5 jovens (termo muito usado na altura, imortalizado por uma célebre frase «jovem, diz não à droga») sentados num sofá a exercitar a erecção dos seus pénis. Não era fácil porque exigia um grande controlo psicocomotor e perícia técnica. E às vezes, sem aquecimento prévio. Há quem diga que quem dominasse a respiração tinha a vitória assegurada. Outros, defendiam que o segredo estava em imaginar a irmã do Esteves a tomar duche no balneário depois de uma aula de ginástica.
Haviam duas competições: uma de velocidade e a outra de fundo. A primeira consagrava normalmente o mais rápido. O Ribeiro tinha o melhor tempo: uns assombrosos e polémicos 15 segundos porque ainda subsistem dúvidas sobre se a proporção de urina se sobrepunha à de sémen. Na outra competição, vencia aquele que, durante mais tempo, desse provas de maior disponibilidade sanguínea. Aí, era o Esteves o campeão. Talvez porque era o único a não imaginar a irmã nua. Mas as hérnias que tem hoje, ninguém lhas tira.
Haviam regras básicas e interditos. Um dos interditos relacionava-se com a presença de estranhos ao concurso. Por muito bizarro que possa parecer, às raparigas era completamente vedado o acesso. Hoje, acho essa regra infundada pois não estou certo se influenciaria o resultado final. A menos se fosse a irmã do Esteves. O mesmo se estendia, muito compreensivelmente, aos pais e irmãos. Apesar de tudo, na casa do Ribeiro tolerava-se a presença da avó. A ceguez, segundo nos dizia, era selada por uma surdez quase total. O aspecto inócuo da velha deixava-nos descansados e, de algum modo, aquela serenidade estimulava a nossa concentração.
Por fim, todos os concorrentes tinham que demonstrar estar aptos fisicamente para a exigência daquela competição, o que acontecia por volta dos 11, 12 anos com a fabulosa descoberta da verdadeira origem do requeijão. Prometemos nunca revelar o segredo a ninguém para não estragar o negócio do Sr. António da mercearia. Quando a prova era na minha casa, mandávamos o meu irmão mais novo passear o cão a troco de umas gomas e de uns cromos do Mundial.
Quanto às regras, coisas fundamentais como não olhar para o lado, ter sempre à mão algumas folhas de papel higiénico e não estimular outras zonas erógenas. Também era proibido tomar pau-de-cabinda. Mas como nunca ninguém conseguiu arranjar, essa regra ficou sem efeito. Havia uma regra que era sempre quebrada: antes da reunião, todos bebiam leite em casa.
Não sei ao certo quais as conclusões do estudo do ICS mas... naquilo que me diz respeito, acho que os miúdos de hoje são muito mais honestos do que nós.
Também nunca percebi porque é que o Esteves mandou aquele monumental bofetão ao Ribeiro.
11 de setembro de 2008
A importância das aspas
O rapaz permaneceu sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos. A postura rígida era contrariada de tempos a tempos pela mão que levava ao cabelo para ajeitar uma madeixa caída. Uma e outra vez. Para devolver a madeixa desalinhada ao convívio com as restantes. Grossos fios de suor caíam-lhe em barda do queixo, molhando o chão frio de cimento.
“Lá fora, o alvoroço cresce de intensidade.
Alguém lhe pendurou o chapéu na parede ao lado da porta, ao fim do corredor: «quantas vezes terei que dizer que não o quero ao lado da porta. Vê-se tudo». E a madeixa pedia insistentemente que ele a afagasse com os dedos e se demorasse em carícias antes de a devolver ao convívio com as restantes. À ponta de cigarro esmagada entre a sola e o cimento junta-se outra. E outra. E outra ainda.
O alvoroço continua a crescer, lembrando os tumultos ocorridos numa qualquer cidade do mundo há meses ou anos atrás.
A imprecisão da memória é um sintoma de ansiedade. Ele sabe disso. Por isso não quer o chapéu pendurado ao lado da porta. Precisa dele consigo para não perder a compostura. À medida que o tempo passa, o corredor vê-se dramaticamente afunilado como se a porta tivesse sido colocada umas centenas de metros à frente. As rótulas tremeram com a mão que lhe pousou no ombro, despoletando uma ténue reacção e o derradeiro cigarro só foi abandonado quando o chapéu subia à cabeça para disciplinar definitivamente a madeixa.
Ao rubro, a multidão exulta com a sua presença e começam os primeiros acordes”.
Nisto, o rapaz desliga o rádio e sai de casa, lembrando-se subitamente que, atrás de si, deixara abandonado no cabide um chapéu igualzinho.
10 de setembro de 2008
A verdadeira história de Kafka
Franz Kafka era um homenzinho cinzento de olhos negros esbugalhados e cabelo oleoso colado ao crânio. Trabalhava numa repartição pública e dedicava-se a compilar integralmente processos e requerimentos. Essas eram as suas funções, as quais eram desempenhadas com um zelo cirúrgico e um entusiasmo enervante. O alto grau de uniformização e equidistância que caracterizava o tratamento dado pela burocracia na altura, traduzia-se num completo alheamento de Kafka pelo que, era-lhe completamente indiferente se tivesse que compilar fielmente extensos manuscritos sobre regulamentos dos edifícios públicos ou pedidos urgentes de ajuda feitos por pessoas pobres para pagar viagens à Lua com o novo serviço da Virgin.
Ali chegava de tudo. Desde o tipo que se transformou em insecto gigante e as asas não lhe permitiam passar do quarto à casa de banho, ao agrimensor que, após alguns meses sem conhecer o patrão nem as tarefas consignadas, acabou por chamar o sindicato e conseguiu uma boa indemnização. Mas também há aquele caso do indivíduo que foi obviamente confundido com outro e só descobriu que não era ele quem os outros pensavam que era quando já tinha a corda ao pescoço e se estava a urinar todo. E isso, porque alguém na plateia lhe sorriu com olhar sórdido. Ficou a meio da mija.
Mas o diligente Kafka, no exercício das suas funções públicas, transcrevia tudo como se a sua máquina de escrever fosse a ferramenta copy/paste dos nossos pc’s.
Entretanto, parece que foi recentemente reconhecido como o maior arquivista de todos os tempos da Administração Pública. Ao menos isso porque jeito para escrever era coisa que não lhe sobrava.
E se eu fosse uma cómoda?
Maltrato-me frequentemente com pensamentos desviantes que me jorram da fronte como calda de pêssego enlatado mas só raramente lhes concedo uma operação sintáctica, como podeis confirmar neste humilde espaço de auto-justificação existencial [risos].
Hoje, enquanto desmanchava um vitelo no trabalho passou-me pela ideia o que seria de mim se fosse uma cómoda. Duplopensar, em linguagem huxleyana ou, simplesmente, uma redundância. Uma cómoda, esse local pouco arejado ao qual associo um depósito de farturas e de cuecas de sexagenária, corroídas pelas traças e com cheiro a mofo. E se eu fosse uma cómoda? Claro que há milhares de referências a cómodas no dicionário. Mas ser uma cómoda, assim, de um pé para a mão… é coisa difícil de engolir. Sobretudo de for de Pau-Brasil porque, presumo, deverá arranhar a garganta como se alguém insistisse em me fazer passar umas calças de ganga pela glote. Acho que não tenho apetite para tanto. Adiante.
Uma cómoda é um corpo deveras estranho. Normalmente, tenho-a por um objecto capaz de acomodar de tudo um pouco: desde as cuecas da sexagenária até às memórias mais sórdidas embrulhadas em roupa interior suada e gasta que, por sua vez, escondem retratos a P/B de mulheres gordas com chapéu de caqui e penas, a mostrar as mamas e a volumetria de umas curvas amplas e arredondadas. Porém, sempre que bem acomodado, numa cómoda cabe quase tudo e mais um par de botas da tropa. Um bocado como a bagageira de um Fiat 600 ou a mala de viagem de um imigrante arménio. Serve para tudo e habitua-se facilmente a essa disforme condição de receptáculo sem fundo, sem precisar de protocolos ou memorandos para uma correcta utilização: «atira lá p’a dentro, pá, que depois se arruma no sótão!». Uma cómoda é, diríamos, a uma das maiores exaltações do entorpecimento que um objecto pode ter. Isso ou perder tempo a ver o Benfica na televisão.
Assim me senti eu. Acomodado no interior de mim próprio, prestes a chegar ao sótão. Cheio como um ovo, como se tivesse engolido um pão de kg com dois litros de água. Ou pior ainda: como se me sentisse nauseado por ver no espelho a imagem reflectida de um nababo inútil a arrotar porções de alho mal mastigado enquanto declamava Guerra e Paz, de Leão Tolstoi (felino das estepes entretanto desaparecido do Livro das Existências). Confortavelmente acomodado numa qualquer gaveta da sua [minha] existência. E com o sovaco a cheirar a bafio.
Para desagravar a coisa, devo recordar que há, naturalmente, outras referências como por exemplo, ter uma vida cómoda. Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que a nenhuma cómoda deveria poder ser concedida tal blasfémia. Onde é que já se viu uma cómoda ter uma vida cómoda? Só se não insistissem em me empanturrar com farturas. Já não aguento mais tanto frito.
Deixo um valioso conselho a todos os poetas que, como eu, vivem fustigados por pensamentos inúteis: quando virem farturas, não abram a gaveta! E fujam daí para fora a sete pés. Foi o que me disse o Kafka pouco antes de morrer na sua repartiçãozeca... cómoda.
__
Palavras-chave: "cómoda", "vitelo", "farturas", "repartiçãozeca"
3 de janeiro de 2008
Embrutecer
Pouco haverá pior no mundo do que morrer sem estar morto, envelhecer aprisionado num corpo jovem. Acocorar-se nas próprias fezes de lamentos e esperar pacientemente que se ensopem as calças desse torpor desprezível.
E dar por isso pouco antes de morrer.
6 de agosto de 2007
Photo Finish Contra a Mudança

O devoto mais dogmático tem que acreditar temerosamente num mundo composto, no limite, por regularidades incontestáveis e balizas insuperáveis, criadas e governadas metafisicamente. Uns, pela mão invisível e outros, pela Invisível Mão. É a sua função neste mundo, crer na suprema predestinação dos homens e das coisas. Há um sentido para tudo, que se explica (i)rracionalmente com recurso à especulação metafísica. A Divina Providência encarregou-se de os prender a um lugar, a uma condição, contra a qual só os imbecis ousam lutar. Inutilmente. Ao primeiro, segue-se o segundo e a este, o terceiro. Na mesma ordem de chegada, uma e outra vez. E outra ainda. E as que forem necessárias. Sempre e intemporalmente: «já era assim no tempo dos antigos» … e assim permanecerá. O tempo histórico não passa assim, de puro solipsismo. E este é o reino da apatia, da irresponsabilidade e do conservadorismo mais fervoroso.
22 de maio de 2007
Um floco de neve no Verão (iv)
"…passados anos um filho, que já fora pai, voltou. Desta vez para tapar uma vala. Puxou da enxada e fez cair a terra sobre o fundo da vala. Entre o fundo e o que impedia a terra de lhe tocar, encontrava-se uma exígua caixa de madeira, recém depositada. O segundo homem observava de novo. Desta feita estava perto. Não pronunciou uma palavra, apenas observou. Sentiu aquela terra húmida e pesada cair em cima da caixa, e a enxada empunhada pelo homem, e aquela lâmina gasta a raspar na terra. Não pôde deixar de imaginar o que seria sentir aquela zoada dentro da caixa… e os flocos? Pensaram ambos. Durante o inevitável cigarro que se seguiu, conversaram. Das valas, das valas em que já viram caixas, depositadas, e que dentro das caixas iam outros Homens e outras Mulheres, e que por isso não estavam ali. Falaram ainda de valas com caixas que se avizinham. E dos Homens e das Mulheres que vestirão essas caixas. E das enxadas, e dos ruídos, e dos homens que hão-de vir. E de nada no fim. Ficou apenas o olhar para longe... trás e frente".
Anónimo
19 de maio de 2007
Um floco de neve no Verão (iii)
...e fumaram. Esse e outro cigarro. E mais outro. E outro ainda. Fumaram até os dedos grossos e inchados revolverem o fundo do maço e rasparem em nada. Nada que uma leve brisa de fim de tarde não consolasse e fizesse esquecer o vício. Aqueles fins de tarde eram deliciosos e as valas pareciam abrir-se sem esforço. E já sem cigarros para partilhar. Mas as picaretas continuavam a rasgar o chão e após alguns anos, o monte já lá não estava. Apenas um manto de flocos de neve e a escuridão da noite. E o homem virou a cara ao filho e disse: - vai sem mim rapaz, que se faz noite. Não discutas, vai e não voltes, a não ser com o teu filho, um dia, quando vires flocos de neve neste chão áspero. O rapaz foi.
Um floco de neve no Verão (ii)
"- Ebúrneo ou Cândido? - Nua ou despida?Continuou, o segundo homem. Numa clara tentativa de desviar a atenção do primeiro, de cavar a sua própria vala.-lá na minha terra, os homens, quando adivinham a sua morte próxima encarrega-se o filho mais velho de os carregar até ao cimo do monte mais alto para que ali, sozinhos se despeçam dos dias. De Inverno, de verão, de primavera, de, sim, de Outono. – ah! E, claro, das noites também.- deixa-te disso! Não me vais dissuadir do que pretendo fazer. A minha própria vala. – já não me bastava o maldito floco. Será que..? – ajuda-me a subir!- Um… cigarro? – toma. Eh eh… a puta da picareta está a fazer-me mossas nas mãos.- humm... é normal. Ao menos usavas umas luvas. – afinal – lume..? – quantas planeias cavar ainda..?- uma dúzia!! Eh eh.. – belo cigarro – não pá! Apenas mais uma ou duas. – isto no fundo é só para me distrair. Fumemos então."
Anónimo
16 de maio de 2007
Um floco de neve no Verão
Será possível que um exíguo e inofensivo floco de neve obscureça um dia de Verão? Será que o dia é de Verão? Ou aquela luz pintada de cinzento e suspensa num ar pesado é, afinal, o anúncio de um rigoroso Inverno?
Entre essas e outras interrogações, o homem continuou a cavar, em movimentos ritmados, a vala onde havia de descansar mais tarde. Só não sabia em qual delas. E isso deixara-o nervoso porque no fundo de cada uma das valas, discernia um frágil mas insidioso floco de neve. A sua visão não era dominada pelo negrume do fundo mas pelo deslocado ebúrneo dos cristais de gelo. Não obstante, as suas costas foram lentamente dominadas por uma compacta escuridão.
Entre essas e outras interrogações, o homem continuou a cavar, em movimentos ritmados, a vala onde havia de descansar mais tarde. Só não sabia em qual delas. E isso deixara-o nervoso porque no fundo de cada uma das valas, discernia um frágil mas insidioso floco de neve. A sua visão não era dominada pelo negrume do fundo mas pelo deslocado ebúrneo dos cristais de gelo. Não obstante, as suas costas foram lentamente dominadas por uma compacta escuridão.
27 de fevereiro de 2007
O Grave Problema da Coerência
O problema do mundo é o grave problema da coerência. Ou melhor, da incoerência. O lobo disfarça-se de cordeiro, para depois se esquecer porque raio é que é lobo e não um estorninho. Aparenta desconhecer a que se dedicavam os seus ancestrais antepassados nos tempos primordiais, quando o mundo ainda não era mundo, pelo menos para si. Caso contrário, não se disfarçaria de cordeiro. Para quê tanto aparato, quando no momento crucial, nesse preciso momento em que o frágil pescoço do cordeiro está alinhado pelo azimute dos poderosos caninos, o lobo se desinteressa da presa? Para sorrateiramente a lamber, guloso, aguardando em louca salivação que ninguém veja e lhe atire com a porra da incoerência… que incomoda. – Ou é, ou não é, gritam eles ao lobo.
Ao lobo, pede-se que seja lobo com dignidade e frontalidade, e não que subverta ou inverta os papéis. Tal como ao sacerdote se pede que seja sacerdote e sobretudo, ao pregador de ideias se pede que as beba ele também. E parece residir aí o problema da coerência, quando ideais e valores da cultura são inoculados artificialmente na natureza dos homens. – Tem que se nascer com eles, meu velho. – Ou então, insistir e persistir e perseverar e teimar. Se é para se ser lobo aculturado, nesse caso, que nem pestaneje ao passeio do cordeiro. – É isso, meu velho, achar-se animado por uma vontade inabalável em não quebrar sob as pauladas da incoerência.
Por essas dificuldades, quanto mais culturais são os homens, maior o risco de se assemelharem a lobos amnésicos, incoerentes. O problema da coerência é um problema imemorial, sempre existiu. Desde que os homens são homens e os lobos são esquizóides. De lobos que alardeiam falaciosos estatutos de predador e de pregadores de ideias que nem com elas conseguem conviver, de tão pesadas serem para a vida de um homem.
Mas também é verdade que um lobo é um lobo e um homem é um homem. E o que os distingue definitivamente, não é a razão mas sim a cultura. E é preciso muita, para se amar a solidariedade.
Ao lobo, pede-se que seja lobo com dignidade e frontalidade, e não que subverta ou inverta os papéis. Tal como ao sacerdote se pede que seja sacerdote e sobretudo, ao pregador de ideias se pede que as beba ele também. E parece residir aí o problema da coerência, quando ideais e valores da cultura são inoculados artificialmente na natureza dos homens. – Tem que se nascer com eles, meu velho. – Ou então, insistir e persistir e perseverar e teimar. Se é para se ser lobo aculturado, nesse caso, que nem pestaneje ao passeio do cordeiro. – É isso, meu velho, achar-se animado por uma vontade inabalável em não quebrar sob as pauladas da incoerência.
Por essas dificuldades, quanto mais culturais são os homens, maior o risco de se assemelharem a lobos amnésicos, incoerentes. O problema da coerência é um problema imemorial, sempre existiu. Desde que os homens são homens e os lobos são esquizóides. De lobos que alardeiam falaciosos estatutos de predador e de pregadores de ideias que nem com elas conseguem conviver, de tão pesadas serem para a vida de um homem.
Mas também é verdade que um lobo é um lobo e um homem é um homem. E o que os distingue definitivamente, não é a razão mas sim a cultura. E é preciso muita, para se amar a solidariedade.
23 de fevereiro de 2007
Tiques Disto e Daquilo II

Por exemplo, o Zeca. Era homem de muitos tiques. Tiques disto e daquilo. Há vinte anos, não morreu por causa de nenhum, mas ainda hoje é recordado por ter sido um dos primeiros a cantar a liberdade em voz alta aos ouvidos de um povo, até então, troglodita, cavernoso. Tal como há trinta anos, a liberdade ainda hoje é um prodígio nebuloso para a maioria dos portugueses, uma coisa de ficção científica, uma incerteza, uma imprecisão ou um mal que o mundo deu à luz. E nós agora, com o bebé nos braços. Perceber isso era um dos talhes do Zeca para quem a felicidade resultaria da complexa ligadura entre liberdade, justiça, solidariedade e igualdade. As suas músicas estão repletas deles, dos seus tiques volvidos detalhes, prontos a serem colhidos como quem colhe laranjas da frondosa árvore no Inverno. Mas o principal tique de Zeca era saber e ousar dizê-lo a quem desconhecia ter asas. A quem esquece.
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