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22 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo

Raios os partam a todos. Aos tiques. Fulano tem tiques nos olhos, beltrano no cabelo e sicrano tem tiques de pastor. Cada um com o seu. Os tiques de animal, os de ditador, os de ladrãozeco, os de galã e até os de visionário. Tiques disto e daquilo, detalhes idiossincráticos, detalhes comportamentais. O talhe... tirar-lhes o talhe é suprimir o prefixo de, concentrando a atenção nesses pequenos mas reveladores tiques. Houve alturas em que queria ser comediante mas a trágica comédia em que se meteu alertou-o de que talvez não fosse muito prudente afundar-se em avarias de procurar a auto-destruição pela ascese. Há os que, com uma disciplina férrea, conservam tiques desses até à abaladiça. São os tiques da coerência. Outros... não! Perante tal impossibilidade, talvez o melhor fosse anuir em que os tiques lhe davam verdadeiramente para fazer coisas e guiar toda uma existência. E davam mesmo, pois tiques daquele calibre, não são para qualquer um. Só que, quais seriam eles, se o prefixo que lhes tirava o talhe desapareceu nos confins do oráculo? Sem tiques nem talhes, de que serve viver? E assim, cada homem se lançou em busca do de-talhe perdido, quiçá para poder explicar o mundo a si próprio.

15 de fevereiro de 2007

Vandos

O verde musgoso da invernal paisagem alentejana foi subitamente borrifado por abundantes salpicos cinzento-escuros e brancos. São aos vandos. Certamente um sinal dos tempos, porque de bandos nada têm e de varas tampouco. Unidos por um insondável percurso comum, as alvas garças-boiadeiras pastam ao lado de porcos pretos. As aves renunciaram aos largos dorsos bovinos e às generosas bostas que as manadas largam atrás de si. E os cerdos partiram em debandada do chiqueiro, juntando-se à vara larga, às garças sem norte. Dominados talvez por uma força simbiótica, metafísica, estes vandos fundem-se na paisagem e deram origem a uma nova espécie endémica. Talvez a profecia se tenha cumprido e os porcos tenham finalmente ganhado asas.

13 de fevereiro de 2007

Quando a inconsciência se torna consciente

Naturalmente, a constatação é inimiga do desejo. E contemporânea da decepção. Por entre rios e riachos de fluxos lunares, o velho erguia a sua alma vivida, cuspindo com muda sapiência os destroços de uma erecção malformada.

7 de janeiro de 2007

Claras em Castelo

O processo fica concluído quando, desafiando as leis da gravidade, Clara permanece de cabeça para baixo agarrada à tijela e as extremidades das suas madeixas dão corpo às ameias de um castelo. Vá-se lá comparar a Clara com um castelo. Se ela nem sequer clara era, antes da cirurgia a que foi sujeita. Uma patifaria, é o que é... Mas disseram-lhe que assim ficaria melhor [talvez uma freira num convento perdido algures na idade média] e ela aceitou, resignada, a sofrer a humilhação de ser ver sem uma parte de si e de entrar nua para dentro de uma tijela para ser açoitada vezes sem conta.
Como é que será a história em inglês? Ou em romeno?

10 de dezembro de 2006

O Paradoxo Libertário

Na sua forma planeada (em contraposição ao acto imediatista de desespero), o suicídio é a mais alta expressão da autonomia individual física e no momento crítico da sua materialização, reflecte a mais irónica e serena lucidez. Justamente porque permite a correcção de um abuso demiurgico. Egocêntrico? Seja, e depois?...

Para os que advogam o princípio da autonomia individual, o suicídio representa uma possibilidade de rara autodeterminação face à natureza da existência determinada culturalmente. Heterónoma. Aí reside o aflitivo paradoxo libertário. Na bidimensionalidade que integra vida e morte, dois lados da mesma moeda. A vida é um bem a preservar. Sem embargo, a decisiva autonomia individual consiste justamente em inverter o emprego de esforços com algo inútil.

Desde a concepção e nascimento, passando pela repressão dos instintos naturais, até à necessidade de compromisso com as exigências de um sistema de ordenamento social que não foi por nós sufragado ou desejado. Isto é, nem é possível escolher em que seio de família se nasce, nem é exequível viver fora do ordenamento político, jurídico e cultural dominante (mesmo para os comichosos da diferença). Como exemplo, a condição existencial do ermitão é forjada a partir de uma negação ao paradigma dominante (sejam quais forem as razões).

Ao indivíduo, resta-lhe não mais do que o mundo das alternativas possíveis, que relevam de zonas de incerteza. Contudo, a opção pelo suicídio não se apropria de elementos de incerteza, criadores de uma ilusão de autonomia. Mas estabelece o único pressuposto que permite a formação de uma vontade individual pura e capaz de se determinar existencialmente.

A eutanásia é uma mera extensão da afirmação de uma vontade incapaz de se autodeterminar. Por essa razão envolve uma contracção da liberdade e autonomia individual. É uma vontade dependente, condicionada.

Porém, à incapacidade física ou técnica que justifica a mediação de um terceiro, podemos acrescentar a incapacidade psicológica, isto é, a incapacidade em concretizar a assunção de uma vontade, de um desejo de suicídio.

Em virtude deste arrazoado, o conceito de eutanásia deve – em meu entender – ser reformulado de modo a integrar todos aqueles angustiantes casos como o do Sr. Segismundo, que incapazes de pegar numa arma ou de arrear um baraço à volta do pescoço, desejam ardentemente a libertação.

22 de novembro de 2006

Deliciosa Imperfeição

O mestre XT, talentoso artesão e autodidacta, confirma a «teoria da imperfeição» (clicar aqui e aqui e aqui e aqui e aqui), confessando todo o paradoxo socratiano ao assumir que quanto mais conhece, menos sabe…

O Ser é imperfeito justamente na medida em que se acha como tal e alcança o estádio de lúcida consciência de si no mundo. Nada pode saber, sabendo tudo.

16 de novembro de 2006

A Moedêra

Juro que eram cabras quando as vi a pastar na íngreme colina verde junto ao monte caiado de branco com alisares ocres. No entanto, ao afinar as retinas, infirmei a primeira observação. Eram vacas, afinal. Mas como… vacas?! A colina continuava íngreme e as vacas, desajeitadamente pesadas e desequilibradas, pastavam bonacheironas apesar do volumoso abdómen insistir no respeito pelas leis da física, pendendo irritantemente para o lado do ribeiro.


Afinal há cabras que são vacas e se calhar, vacas que são porcos e porcos que são cães.

Juro que diariamente abro o jornal e vejo coisas que não são mas passam a ser, com muito boa vontade. Vivemos tempos difíceis, tempos de indefinição identitária…O bom que afinal é mau, o ladrão que é sério, o sério que é polícia, o polícia que é pastor, o pastor que é doutor, o doutor que é pantomineiro, o pantomineiro que é político, o político que é fino, o fino que é empresário, o empresário que é honesto, o honesto que é acanhado, o acanhado que é administrador, o administrador que é actor, o actor que se chama Maria e a Maria que não é aquilo que por aí se diz.

12 de julho de 2006

Os Termos das Coisas



Aos períodos de hipermania, sucediam-se outros de hipomania e assim sem termo, porque o termo das coisas era vulgarmente um estádio consagrado e outorgado heteronomamente. Logo, os inchaços e desinchaços sucediam-se com referência à doxa, o indexador da patologia. E... santo deus, como é saboroso o agridoce e coisa nenhuma a pairar nos céus com referência a nada. E ao ser, agrilhoar-se em simultâneo ao sal e ao açúcar, à terra e ao ar. Sem os largar, sem os ultrapassar e sem os mesclar definitivamente. Como um vento desnorteado, sovado por apelos díspares que o enrolam e desenrolam arbitrariamente, sem que daí resulte uma avalanche de matéria uniforme. Aos termos das coisas.

20 de junho de 2006

A Segurança do Fio da Navalha

Há o preto e há o branco. O feminino e o masculino, o seco e o molhado. Há Ying e há Yang. Há na natureza e fora dela. Há a busca do equilíbrio e da harmonia, princípios basilares da cultura, inicialmente refreadora dos instintos naturais. Agora, convertida em mecanismo repressivo desses instintos. Duas forças, uma branca e outra preta, partes contrárias de um elemento bidimensional, inter-conectadas entre si por canais de comunicação biunívocos. Há paz, há harmonia, há moderação, segurança, há receio, inacção. Deixa de haver incerteza perante um mundo permanentemente hostil, risco que não o gerado por artefactos e tecnologia. O terceiro elemento, de cariz cultural vem subverter unidimensionalmente a fluidez natural das coisas naturais, remetendo-as à racionalidade instrumental (ainda antes de ser descoberta) e à heteronomia do paradigma dominante. O preto é patológico. O branco, também. Se é bom ou talvez mau? Perguntai aos deuses… e à sua cruel obsessão com o padrão. Eu cá, nem sei se não sei!

19 de junho de 2006

Uma Ideia

O maior património de um homem pode ser uma ideia apenas. Uma ideia forte, determinada e capaz de derreter as mais sólidas fortificações. Angustiada de tanto sofrer na penumbra da inacção. Remói, remói. Uma singela e ténue ideia, escudada por uma vontade inabalável. Irresistivelmente incisiva, apaixonada e arrebatadora. O céu é incapaz de a conter. E os corpos, meros carreteiros, substrato físico acolhendo uma intangibilidade corpórea que enche e esvazia ao ritmo sincopado de um coração ideal. Mas está lá, jamais se apaga. A ideia germina num núcleo insondável. E existe e alimenta o ser, au delà du bien et du mal. É incompreensível. O que a move? Dores de um crescimento interrompido pelo mais detestável ruído. Não, ruído não. Supera esse ruído atroz e desconcertante, faz-se ideia genial, em ruptura. Antes a sua paz ininterrupta, sanguínea e genuína. Principal. Ideia que cresce, se avoluma e dilata, expandindo-se em explosões incontroladas e incontidas, para além dos céus e da matéria, para além do próprio pensamento demiúrgico.

18 de maio de 2006

«Pai João»

Como um trágico presságio, ele abandonou abruptamente os restantes para comprar cigarros. Quando regressou, nem a tragédia fora consumada nem a sua mulher estava na cama com outro.
Mas entre a saída e o retorno dos cigarros, decorrera o tempo equivalente a uma vida. Uma dimensão paralela, fora do real, do tempo e do espaço, da tragédia e das relações adúlteras. A tranquila sensação de paz na sua forma mais simples, na lucidez ambígua de um louco contemporâneo e tão autêntico quanto a condição humana. Poderia haver bebida pelo chão, móveis desarrumados, roupa espalhada. Nada. Mas no imenso espaço feito do saboroso chocolate «Mundo», os inexistentes cortinados esvoaçavam surpreendentemente ao ritmo dos poderosos roncos do «Pai João». Não lhe chegou a ver as trombas mas o momento comovente da partilha à luz de nada, na penumbra de um recanto arruinado, fizeram valer a cerveja derramada, os cigarros e o «fazer-se à vida».

3 de maio de 2006

Cagar em Privado




René Magritte, Le Faux Mirroir, 1928
O que poderá haver de mais repressivo sobre a natureza humana do que «rotineirar» o acto escatológico de defecar? A rotina é tal que há quem programe o organismo ao milésimo de segundo. Adestrar todo o sistema digestivo, em irracional obediência às demandas civilizacionais. O expoente máximo da inversão da natureza humana, a excelência do adestramento disciplinar do corpo e da mente. Sob o argumento da higiene, da poluição visual e do scottex. O scottex… O wash-closet, a toilette, o quarto-de-banho, é uma das mais diabólicas invenções de que há memória. Não tivessem os malthusianos sido ostracizados e hoje poderíamos cagar onde e quando bem nos aprouvesse, pois haveria suficiente espaço para todos nesses campos, hoje cinzentos. Assim, temos que nos aguentar…

18 de abril de 2006

Sem Significado, Somente Tu



Fernand Léger, The Mirror, 1925


Procuro ver nos olhos e jeitos das pessoas, a sua animalidade intrínseca. A ferocidade segura pelas débeis e culturais pinças da civilização.
O estertor de um olhar rapino,
No esgar faminto ante o alvo titubeante,
A astúcia de um movimento pendular,
Indisciplinadamente belo,
A retracção apreensiva de um corpo sem abrigo ou arma,
Onde o chão não é tingido por fundamentos,
Onde é magna a sobrevivência.
Na sua forma mais cruel e naturalmente antropológica. Despida da pele axiológica emprestada.
A gutural natureza humana.

7 de abril de 2006

Uma Revelação



Francis Picabia, Bonheur de l'Aveuglement, 1947
Disfarçadamente, Gabriela mostrava-se apreensiva. Subitamente, do ângulo aberto oferecido pelo lugar ocupado ao canto da mesa, juraria identificar canais de comunicação entre as pessoas. Como feixes cónicos de luz, conectando emissores e receptores, à vez. Intensificavam-se no decorrer na conversação.
Contudo, esses canais cilíndricos de ar colorido apresentavam erro. Sistematicamente. No seu interior era possível observar partículas esquizóides em incessante circulação. Bipolaridades incompreensíveis.
As pessoas reunidas e dispostas ao longo da enorme mesa de carvalho, alcançavam diferentes níveis de entendimento entre si, aumentando ou diminuindo o diâmetro dos canais, conforme os interlocutores; e um conjunto de variáveis interconexas. Por vezes, os canais extinguiam-se, pura e simplesmente. Os dela, permaneceram invisíveis, intangíveis pelos restantes, translúcidos e por isso, não verificáveis.
Ao observar esses canais, Gabriela detectou elementos anormais que não podia compreender. Um problema de comunicação em que nem signo nem significado são municiados por atributos partilhados.
Falava-se de uma terceira pessoa, embora com o recurso a diferentes substantivos. Seria uma consciente ruptura que se ensaiava, visando a anulação da padronização a que a nomeada é sujeita. A rejeição da funcionalidade pretendida com a indexação da fisionomia a um nome.
E houve algo que inicialmente não apreendeu. Quando Ana falava ao grupo referia-se à terceira pessoa, adicionando um insondável prefixo ao nome próprio, como que, reclamando deferência para com o ausente sujeito. Ao invés, quando se dirigia a Cláudia, proferia o dito nome sem esse apêndice, tornando-o quase indistinguível. A disciplinada concentração de Gabriela era o factor decisivo, que lhe permitia suspeitar que uma e outra tagarelavam sobre a mesma pessoa. Impressionante, aquela transmutação sensorial operada em Gabriela e no grupo. Como vagas de ondas a rebentar na praia, engolindo tudo à sua volta, para em seguida arrastarem consigo tudo o que hão-de devolver em novo rebentamento.
E Gabriela não compreendeu aquela ruptura empreendida com a adição e a subtracção de um simples prefixo, que nada parecia significar mas cuja inclusão transformava manifestamente a seriedade da conversa. Afinal, os acessórios definiam as pessoas. Na primeira oportunidade, não hesitou em comprar um.

16 de março de 2006

Arghh




Eduard Munch, The Scream, 1893
Eram sete e meia da manhã, eram rigorosamente sete e meia, as horas que o mostrador exibia. Eram sete e meia quando o quarto despertou em sobressalto pelo estridente som electrónico do despertador. Intensificou-se a sonoridade à medida que X descolou sem pressas o crânio do travesseiro, lavado em suor. Concentrou esforçadamente os olhos no único foco de luz projectado no quarto, em tons púrpura, certificando-se num movimento mecânico do inevitável chamamento. A rotina habitual. Um dia e outro, e outro ainda. Assim se sucediam os dias, ordeiramente alinhados como uma companhia em parada de guerreiros persas, a perder de vista. Atrás de um vem outro e assim sucessivamente, sem termo observável a partir de um ângulo oblíquo, paralelo ou perpendicular. Uma linearidade monótona e implacável. Acordar diariamente para sofrer a ofensa daquele ruído ecoando nos recantos do seu cérebro. Acordar uma e outra vez, acordar uma vez mais. Mas X não se queixava, afinal de contas, todos os que conhecia padeciam do mesmo. Era assim. Uma ordem natural, sem merdas.

Um único movimento revolveu com denodo o cortinado da janela e o dia mostrou-se. Não só se mostrou como invadiu o quarto de uma claridade abrasiva para as frágeis íris de X, ainda mal acostumadas às partículas em suspensão. As pálpebras contraíram-se. A indecifrável treva até esse momento, adquiriu então formas e contornos coloridos e matizadas pelos dourados influxos de luz matinal. Um dia primaveril, aromático e generoso entrou pelo quarto adentro, misturando-se com o intenso odor a suor e mofo.

A mal consumida beata do último cigarro fumado durante a noite jazia vertical no cinzeiro, atolado de cinza e resquícios de cigarros, fósforos siderados e outros resíduos. X olhou demoradamente em redor, com indiferença e levou a pirisca à boca. Com a mão esquerda tacteou em busca de equilíbrio na aduela da janela e acendeu o que restava do cigarro com a mão direita. Olhou novamente em redor e inspirou profundamente. Uma leve brisa arrepiou-lhe o estômago.

Absorto em pensamentos vãos e inúteis, foi subitamente interrompido por incessantes e nervosas pancadas na porta do seu quarto. Reagiu e acenou com a cabeça à mãe que entretanto entrara, acometida por uma estranha inquietação.
– É verdade, o que se diz por aí? Que és trostkista-cristão?
Permaneceu imperturbável e retorquiu – Não digas asneiras, de onde te veio essa agora?
– Foi o Sr. Eleutério da…
– Não digas mais! Não é o momento oportuno para estarmos a falar dessas coisas. Afiançou. – Não sei de onde veio tal coisa. Fui visto há dias com um tipo que dizem ser trotskista-cristão. Falamos de assuntos normais, de trabalho, é tudo. Somos amigos. Que mal há nisso?
– E o que vai ser da tua vida agora? Interrogou a mãe em choque.
– Não há mais nada a fazer aqui, terei que partir.
– Mas se não és trotskista-cristão, filho, não se pode fazer nada? Toma, fuma um cigarro!
– Nada se pode contra essa gente, sou agora um homem marcado. Este quarto cheira horrivelmente. E partiu espavorido. Sem terminar a beata e sem tomar o pequeno-almoço, em alvoroço e sem norte.

1 de março de 2006

No Dia em que a Estultícia Saiu à Rua, Digamos, Legal

De quando em vez há noites assim, em que o folguedo consegue extravazar a bizarria do carnaval. Noite em que a senhora dona Norma da Convenção se queda confortavelmente pelo lar. Em contrapartida, concede-se um permisso de saída carimbado com a chancela do Sr. Director das coisas, à Estultícia, rapariga fresca e despreocupada. Ocasionalmente despudorada. Excêntrica, pois claro mas sem nunca perder a dignidade.
... E naquela confusão em que a Estultícia os arrolou, perdia-se de tudo. Houve inclusive alguns relatos de pessoas que terão perdido a cabeça.

21 de fevereiro de 2006

Idiotas, Loucos, (Im)Perfeitos

Na sequência do post de há dias denominado O Perfeito Idiota, chegou a esta humilde casa (e por aqui se responde parcialmente à outra questão da nomenclatura), o seguinte texto:


fez-me recordar o idiota-sábio Mulla (mestre) Nasrudin, uma personagem criada pela tradição sufi, uma corrente do Islão que nasceu como resposta à degradação da fé islâmica (e que agora atinge extremos inusitados, como podemos diariamente constatar).
Os sufis auto-denominam-se de “idiotas” (perfeitos, na terminologia ARV) e um dos seus métodos básicos de ensino são os contos (nenhuma outra tradição os iguala neste aspecto). A intenção de Mulla Nasrudin é, normalmente, romper os hábitos da mente para poderem abrir-se novas dimensões à percepção humana. A “técnica” consiste em se desempenhar o papel de idiota (perfeito…) a fim de chamar a atenção, no final, para a verdade (sapiência). Na língua árabe parece existir uma qualquer equivalência entre “idiota” (balid) e “santo” (wali), parecendo-me óbvio que os fundamentalistas não a entendem minimamente.
Vou dar um exemplo (de memória), em que o objectivo é o de advertir-nos de que pensamos de acordo com padrões e, assim, temos sérias dificuldades em ajustar-nos a um ponto de vista diferente, perdendo-se muito do significado da vida. Podemos viver e até progredir, mas escapar-nos-á muito daquilo que nos acontece e, portanto, perdemos inúmeras lições no presente:
“Montado no seu burro, Nasrudin cruzava a fronteira, todos os dias, levando cestos cheios de objectos sem grande valor, como palha, etc. Como o “idiota” se gabava publicamente de ser contrabandista, passava as “passas do Algarve” com os guardas da fronteira, de um e do outro lado. Revistavam-no, examinavam tudo com extremo cuidado, ameaçavam-no e, frustrados, até chegavam a queimar-lhe a carga. Quanto mais ele prosperava na vida, mais implacáveis se tornavam as suas passagens pela fronteira.Anos depois, já reformado e a viver muito confortavelmente noutro país, foi reconhecido e abordado por um dos antigos guardas fronteiriços:
- Agora podes contar-me o que é que contrabandeavas naquele tempo, pois nunca conseguimos apanhar-te em flagrante?
– perguntou-lhe o ex-guarda.- Burros!! – respondeu-lhe Nasrudin (no duplo sentido, creio eu).”

António Eugénio


Já Erasmo de Roterdão ensaiava no seu Elogio da Loucura, as qualidades vitais da Estultícia, glorificando-a e colocando-a no patamar do Olimpo, ou de outra altíssima casa (conforme os casos). A Estultícia como fonte primária das coisas, aqui em discurso directo:
que será mais doce e mais precioso do que a própria vida? E quem contribui mais do que eu para dar a vida? (…) Que seria a vida, que poderia dizer-se da vida, se lhe faltasse a voluptuosidade? Aplaudis, meus amigos? Já sabia que nenhum de vós é bastante sábio, ou bastante louco, digamos bastante douto, para ter outra opinião.

A Loucura surge como aqui como percursora do verdadeiro conhecimento, justamente porque surge enquanto elemento de sátira à soberba das verdades instituídas e dogmáticas, do imediatamente tangível. Equivalem-se, segundo o flamengo, essas duas condições: loucura e erudição.


No mesmo sentido, ridendo castigat mores, adágio personificado na figura de Joane, parece zombar a toda a hora da «perfeição», ou seja, da inversão da idiotice (estado sublime de imperfeição, logo, mais alto do que o estádio de perfeição), elevando-a acima da impressão, do preconceito, como sucedeu na história de Nasrudin. O imperfeito, o idiota, o louco…


Agradecido ao digníssimo leitor, António Eugénio.

9 de fevereiro de 2006

Três é Gente a Mais

Invariavelmente, o anedotário contempla sempre três figuras quando se pretende pôr a nu a comparação entre povos, características pessoais e personalidades: «estava um português, um inglês e um francês...». Normalmente para enaltecer as qualidades ou virtudes de um dos «nossos». Em muitos casos, regozijamo-nos com os ardis, espertezas e manhas. Isso é que leva o gentio, da jocosa exaltação às lágrimas.

«Somos» os melhores naturalmente, mas porque razão é preciso plantar na anedota justamente mais dois elementos, perfeitamente acessórios, quando a anedota foi elaborada para nosso gáudio? Logo, terminando como «nós» quisermos e sem necessidade de acrescentar os figurantes, pode-se atalhar caminho e dizer de rajada: «nós é que somos bons! Nós somos os melhores, nós o povo eleito!». Ponto final e parágrafo. Sem mais argumentos, rodeios nem o raio que o parta.

Poupa-se tempo, saliva, expectativas e não deixa de ter piada