16 de outubro de 2004

em de-talhe



Malevich, Reaper on Red Background, 1912-13
Com todos estes imbróglios, ao menos ficamos a saber que a ideia de estabilidade não tem preço, ficando também a saber que o tal rigor depende de um indivíduo ter mais ou menos sede. Assim, o sr. reaper on red background bem pode começar a arrumar a tralha, meter lâminas no saco, porque não vai haver sangue, nem a Assembleia da República será dissolvida.
Nós por cá continuaremos nesta oligarquia com os casos Moderna, Casa Pia, apitos dourados, balda na Polícia Judiciária e na justiça, pressão sobre os órgãos de comunicação social pelo Estado, listas de colocação de professores, receitas extraordinárias para iludir o défice, código do trabalho, casas de campo para os Secretários de Estado mais fieis, portagens nas scuts, Orçamento de Estado devidamente amputado nas áreas basilares da saúde e educação, guarda-costas e assessores, aumento dos combustíveis, fim dos beneficios fiscais para quem poupa, processo tresloucado de nomeações políticas, o horizonte de despejos colectivos com a entrada em vigor da nova Lei do Arrendamento, propaganda eleitoral estatal, etc., etc.
E, a troco de quê? Animai-vos: 2% de aumento dos salários (que corresponde a 1% nos salários inferiores a 1000€ caso os funcionários públicos tivessem sido aumentados no ano transacto e a 0,7% nos salários superiores a 1000€, caso os funcionários públicos tivessem sido aumentados nos últimos dois anos) e diminuição do IRS, aquele imposto que ninguém paga em Portugal (para além de funcionários por conta de outrém). Estes tipos não têm a minima noção da realidade ou dos cidadãos comuns, suas angústias e dificuldades.
Por este andar das coisas, não tarda e vemos também o sr. Reaper com pulseirinhas de trapo nos pulsos, mais apostado em ter um resto de vida descansada, sem tumultos nem muitas chatices com que se preocupar... É conforme a sede...

15 de outubro de 2004

à tout propos (23)

DEBATE MENSAL NO PARLAMENTO
Uma breve nota apenas. Se o Primeiro-Ministro não é propriamente o paradigma da liderança forte, convicta, esclarecida nem o seu governo um modelo de sensatez e competência (como tem vindo a público e salvo honrosas excepções), o seu mais directo adversário político - para além de Marcelo Rebelo de Sousa - também não demonstrou atributos suficientes para fazer render o contexto que dera à costa no hemiciclo. A saber, a «Never Ending Story» da colocação dos professores e a pressão ministerial que ditou a demissão de Marcelo (demissão, na melhor das hipóteses). Com uma conjuntura tão favorável, ao PS era exigido uma prestação mais incisiva, mais desarmante, era, em suma, exigido colocar a maioria em sentido, causar-lhes apreensão, levá-los a coçar nervosamente as gravatas...
O que faria Francisco Louçã se tivesse atrás de si uma centena de parlamentares em acentuada produção histriónica? Sócrates terá que recorrer a outros mecanismos para além da simples oratória e improviso (que nisso perde com o seu rival pelas tias da Quinta do Lago), documentar-se convenientemente para saber onde fazer pontaria e aproveitar estas benesses que não acontecem todos os dias.

13 de outubro de 2004

em de-talhe


DEIXEM JOGAR A MALTA (II)

De bestas a bestiais ou de vilões a heróis... Após a demonstração que não, que os nossos campeões não estão para brincadeiras ao cilindrarem esta noite o Liechtenstein, perdão, a Rússia (com uma abada de 7 a 1), teremos amanhã todo o tipo de publicações desportivas e não desportivas a elevar aos céus os mesmos que haviam crucificado. Da Bola ao Expresso, passando pelo Jornal de Letras, Artes e Ideias ou pelo Semanário Económico (desconfio que os gajos do Le Monde Diplomatique também estiveram em Alvalade). Lá enaltecerão uns o espírito de grupo, outros falarão das fintas do C. Ronaldo e da magia de Deco, enquanto para alguns o que conta seria a privatização da selecção e cotar as acções em Bolsa.
É curioso como, em estimulando a imaginação, vejo distintamente uma enorme massa amorfa em movimentos pendulares que oscila com a natureza dos ventos. Como quando submersas, as algas dançam ao sabor das correntes. Amanhã os nossos rapazes vão ter as estátuas de volta pois se reconciliaram com o pessoal. É bonito.Parabéns ós gaiatos.

Vislumbro no entanto, um início de fim-de-semana a seco: a selecção venceu por isso não se pode dizer mal; o Marcelo está de férias ou o gato comeu-lhe a lingua e apesar de tudo o Primeiro-Ministro continua em campanha eleitoral. É preocupante... e do que é que a malta da comunicação social vai falar? ALguma coisa se há-de arranjar...
Lá dizia com estonteante profundidade, o namorado de uma prima minha:

Há ondas que vêm
Há ondas que vão
Umas que trazem peixe
e outras... principalmente

12 de outubro de 2004

em de-talhe



William Blake, The Blasphemer, 1825
«E nesse momento, sacando a mesmissima nota de 5 euros que trazia no bolso desde o início da noite, acometeu já ébrio em tamanha fanfarronice contra o bar e gritando bem alto como se certificasse de que os mais o ouviam, proclamou: - atenção, pessoal, a rodada do IRS pago eu!» Desafortunadamente, no preciso instante em que foi dada ordem ao barman para não servir mais nada. Já era tarde e mesmo que se conservasse aberto o bar, estava tão roto o pessoal que nem mais um trago descia. E lá conservou ele a sua notita.»
Hoje tivemos uma comunicação do Sr. Primeiro-MInistro, fora do espaço consignado a Tempo de Antena, sem que uma circunstância em particular o justificasse e pior, sem contraditório...

11 de outubro de 2004

à tout propos (22)

SONDAGENS
Após a afluência em massa a três sondagens de opinião que decorriam em simultâneo neste nosso espaço, e tendo sido respeitados todos os preceitos da validação sociológica da coisa - com amostra representativa e tudo - surge o momento esperado da divulgação dos resultados. Mas antes ainda, não podia deixar de agradecer a todos quantos colaboraram com estas sondagens e em especial aos que votaram mais que 5 vezes em cada sondagem. A todos agradeço com eterno carinho.
Assim, a primeira questão referia-se à probabilidade de o PS continuar a governar em Évora e ao que parece, o eleitorado eborense encontra-se muito dividido pois 1/3 dos votantes respondeu não embora 1/5 tenha afirmado com convicção que Zé Ernesto vai ter que continuar a lutar com os seus antigos camaradas e com os actuais. É também 1/5, a proporção do eleitorado indeciso.
Muito mais estranha é a votação referente à abstenção eleitoral, tema a que me dedico meia hora por dia com afinco sempre que me acho na casinha. Os resultados não deixam margem para dúvidas: 60 % dos votantes declaram não ter votado porque não lhes apeteceu. São uns mansos que se desculpam com o «estava muito trânsito» (pois, num Domingo em Évora é engarrafamento pela certa na entrada do Feira Nova) ou com «tinha muito que fazer» (pois, como ver a bola, coçar a micose no sofá, tirar uns macacos do nariz e atirá-los às louças da avó Julieta). Enfim, uns mansos. É que nem uma só alma - dentre milhares de votantes - confessou que não votou porque o raio da política é só fezes ou então porque todos juntos não fazem um. Nada, um deserto.
Finalmente, quanto à questão que incidia sobre a actuação do Presidente da República, vejo que tenho aí uns laranjinhas infiltrados... 60% dizem estar de acordo com a manutenção do governo pelo que terá o Presidente feito muito bem em dar o ceptro ao Rei da Cananga do Japão. Ainda houve 30 % que estavam partidários de novas eleições.
E como se pode ver, é este blog uma coisa muito democrática. Por isso, é altura de substituir estas votações por outras. Uma certeza: o rigor tendencioso na parcialidade está desde já garantido...

à tout propos (21)




Afinal, também ele se foi... Boa viagem de regresso a Kryptonite!

10 de outubro de 2004

em de-talhe



DEIXEM JOGAR A MALTA!

Após mais uma (...) prestação da selecção de futebol, agora diante do poderoso Liechtenstein, eis que de novo surgem os inevitáveis comentadores de futebol que vociferam a sua ira contra os nossos campeões. Os mesmos, note-se, a quem invariavelmente se beijam os pés quando sabe a vitória. É certo que aqueles tipinhos com a cabeça nos pés, que se dão ares de importantes; que ganham bom dinheiro; que combinam uma calça de tirilene da boss com uma camisa de seda côr-de-rosa da armani - resguardando a tatuagem sioux logo abaixo do pescoço - e coleccionam «espirituosas» babes em robustos bólides descapotáveis; e que são solicitados para de tudo fazer diante das câmaras, em género do habitual biscate popular; são enfim, expostos à mais impia inveja. O que é desagradável. E tudo por apenas fazerem o que gostam mas tal agravo não me parece razão para tanto, já que de oiro não são feitos (embora se perceba que deles precisam como pão para a boca essa corja que lhe gira na órbita).
Não se percebe pois, porquê tanta indignação, tanta exaltação, uma vez que uma observação menos apaixonada conclui que, casualmente ou não (nem me interessa), com Scolari, o futebol praticado pela selecção é feioso, sensaborão e infindavelmente embrulhado. É usança antiga dizer que com o tempo, os animais da quinta se acostumam ao manageiro...
Mas são duas as excepções encontradas a este registo, a esta forma muito peculiar de jogar mas que não têm que ver senão com as próprias características dos adversários em causa e com o contexto: de acordo com a cartilha de um bem documentado Gabriel Alves, temos o particular com o Brasil, uma equipa simbólicamente forte, irrepreensível técnica e tacticamente, cujo balanceamento natural para o ataque, levou Portugal a sentir a necessidade de se retratar ante tão poderoso adversário (queríamos mostrar que também somos capazes de semelhantes façanhas); e com Inglaterra no Europeu caseiro, tendo os insulares feito os «infantes» portugueses correr e correr muito, em infindável estopada para os de sua Alteza que no final já nem atinavam com o buraco do frango. Ou seja, dois adversários que, pelo seu estilo de jogo e pelas circunstâncias (necessidade de afirmação e emancipação ante irmãos desavindos e aliados com alforges do tamanho de Portugal), matizaram o jogo de Portugal e não o contrário.
Por isso mesmo, sempre que se pede aos partidários das quinas para conduzir o jogo... «xiiii patrão»... Confesso que não raras vezes adormeço, quando vejo alguns dos jogos. Aliás, tive oportunidade de ver o jogo em Leiria, com a Estónia (ou seria a Letónia?) e, só por vergonha não cabeceei um ou dois ombros ali mesmo... Mas também, seja reposta a verdade das coisas, pois se era para dormir tinha ficado em casa, porque obrigado ali não fui.

Assim, temos uma equipa de qualidade inferior (apesar do valor técnico e comercial de cada jogador, dizem as calendas gregas que para equipa não basta ter um conjunto de pessoas, há que lhe ajuntar massa consistente), com um tipo de jogo pobre, embora com o intenso brilho que só uma constelação pode providenciar.
Acresce a preocupante falta de alternativas. Em 2004, jogamos 3 vezes com a Grécia e só conseguimos empatar o primeiro, em Portugal, jogando eles durante grande parte do tempo com 10. Nos restantes, o desfecho é conhecido... Há que admirar a persistencia táctica, a irreverência, o não prescindir de valores ancestrais nem ceder a pressões originadas na mais profunda ignorância. Repito, eles é que lá sabem do seu ofício, como vós sabereis do vosso...

Em suma, face ao que está, nem sequer podemos falar em desilusão porque a quem mais não sabe, a mais não é acometido. O raciocínio argumentativo é semelhante a este: nós, cá na terra, jogamos andebol de muito má qualidade, mas como as mazelas e os ténis são por nossa conta, as 13 ou 14 pessoas que lá vão também não protestam connosco; preferem protestar com os gajos vestidos de preto (pois os não vão ver mais nenhuma vez durante largos tempos), despejando todas as frustações que se acumulam durante a vida no trabalho, com os filhos, com os futebóis e o homem das farturas.
Com aquele tipo de atitude característico dos raçudos da bola vai-se a nenhures, e quando tudo somado - jornalistas + cheiro a cavalo - o resultado é ainda menos honroso. Por vezes, até dá pena ver pessoas naqueles preparos... Com a mesma destreza com se lá vai, com que se liga a televisão, também é possível ir a outro lado ou mudar de canal. O desporto agradece. O Liechtenstein também. Bravos demais para amadores... ou não?
Eu, da minha parte, sempre tive simpatia pelos Davids quando encaram com os Golias deste mundo, que só por serem grandes têm a mania que têm o rei na barriga. E depois... lixam-se!

9 de outubro de 2004

à tout propos (20)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS III
Decorreu esta noite, o segundo de três debates entre os candidatos democrata e republicano à presidência norte americana (na qual, recupero as palavras de um amigo, também nós deveriamos votar...). Se o primeiro debate se saldou numa vitória clara de John Kerry, o de esta noite terá terminado empatado. Mas, caso tenhais notado, o cenário é totalmente diferente assim como o figurino, ie, se no primeiro debate, os candidatos permaneciam sentados a expor as suas ideias, neste, houve uma grande margem para convencer in situ, os eleitores indecisos que disparavam pálidas questões da plateia.
Os media americanos consideram que este Bush foi melhor do que o primeiro e a esse facto não é alheia a propensão do actual presidente para o espectáculo, para as proposições directas, minguadas intelectualmente, simples e segmentadas binariamente. A aceitação do eleitorado americano é evidente, este estilo facilita a escolha e não estimula o raciocinio. Acresce que este figurino favoreceu a simia linguagem corporal de Bush em detrimento de Kerry, naturalmente menos dado a circos madeirenses. Como as semelhanças são incríveis, da Madeira a S. Bento... O povo diverte-se com as piadinhas do texano e lá em casa, pode acompanhar o debate com o som do televisor em mute, enquanto ensaia uma das famosas entradas de John Wayne num saloon.
Teremos que esperar pelo terceiro debate, pois tal como James Poniewozik refere na Time, «much like the TV networks during the baseball playoffs, the political media has an interest in making sure there's a decisive rubber match». E isto diz tudo. Ainda se admiram de em Portugal se fazer caso de uma central de informações e da impudente obcessão com o controlo da informação? Já Emídio Rangel dizia...

8 de outubro de 2004

os deuses também já foram homens



Não poderia jamais e em tempo algum, alhear-me das comemorações dos 25 anos desta carreira cheia de êxitos, por isso presto-lhes aqui, naturalmente, a minha homenagem. Foi em 1986, na casa de um bom e dilecto amigo, que contactei pela primeira vez com os Xutos. Na ocasião, foi este single, não tinhamos 12 anos feitos. Tanto uma como a outra faixa continuam a ter um sabor muito especial, não fazendo olvidar sentimentos e valores que ajudaram a despertar. Os mesmos que nos acompanham irremediavelmente.
Com eles, cruzo os meus braços e também os elevo em desafio aos céus.

em de-talhe

ANDEBOL NACIONAL
É inqualificável o que se está a fazer ao andebol português. O andebol deste portugal está a morrer à mão do mais mesquinho, asqueroso e irracional que que podemos encontrar entre a fauna da Federação de Andebol de Portugal e, por que não também, da Liga.
Mais uma vez, perdem os praticantes profissionais, os amadores (entre os quais crianças em idade de formação), os amantes desta modalidade e o país. Tudo em nome de interesses pessoais e ignóbeis!
Afinal é qualificável esta situação...

à tout propos (19)

SABES BEIJAR?
«É a loucura, loucura controlada»... Hoje de manhã, enquanto tomava apressadamente o petit-dejeuner e durante o intervalo do programa de notícias que diariamente me liga ao mundo, eis que surge um anúncio do género «make friends & brides». Então não é que, se ligarmos para o 3939 (ou algo do género), temos a possibilidade de receber detalhados ensinamentos sobre como beijar?
É óptimo para as nossas criancinhas e para muitos adultos que passaram ao lado das matinés, das traseiras do gimnodesportivo, do banco de jardim ou do banco de trás. É claro, os paizinhos que se preparem quando chegarem as facturas...
No entanto, é possível sequer imaginar a cara de felicidade de filhos, irmãos (e até esposos) quando receberem o certificado de qualidade ISO 969, que os habilita a dar melosos e penetrantes beijos? Mais, e a alegria que eles próprios darão aos companheiros que criaram em tempos expectativas e as viram defraudadas? E a miúda que pensa seres ainda um piolhoso que só pensa em piões e berlindes?
Aliás, lembro-me inclusive do caso de um amigo meu, que do alto dos seus 13 anos, renunciou a uma beldade da altura, na mata da escola porque ela não sabia beijar. Na verdade, após várias e infrutíferas tentativas de com ela trocar fluídos salivares, acabou por desistir, profundamente desagradado. Aquilo mais parecia daqueles beijos à Jane Wyman e Regis Toomey, nunca mais acabava, na cabeça dele.
Hoje, talvez estivessem casados, se à época existisse um serviço assim.
Mas, a meu ver, este serviço tem contrapartidas que me suscitam dúvidas. E se, à medida que vão dominando o repertório de beijos e a panóplia de técnicas, os utentes deste serviço deixam de fazer daquelas distinções fundamentais e espetam com um linguado numa cerimónia oficial ou quando cumprimentam a amiga da mãe lhe contam os dentes com a lingua?
Mas pelo menos, já sabemos que para o desemprego é que Santana Lopes não vai (sim, porque ao lado das matinés ele não passou), caso a Assembleia da República seja dissolvida pelo PR.

7 de outubro de 2004

à tout propos (18)



Em que estaria o mestre Almada Negreiros a pensar quando pintou esta nau?...

em de-talhe

A CENSURA DE MARCELO
O PM bem se esforça por dizer que não há censura em Portugal, revelando que, ele próprio sempre terá encaixado, ao longo de 20 anos de vida política, as mais variadas críticas. Esclarecedor!
Só que, nesta altura e como previsto, são alguns dos altos militantes do PSD a mostrarem-se incrédulos, aceitando inclusive a hipótese de haver, de facto, censura política ao Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Estão neste lote, políticos como o Prof. Aníbal Cavaco Silva, Marques Mendes, Leonor Beleza, José Pacheco Pereira, Luís Filipe Menezes ou Teresa Gouveia.
Como era previsível, o PSD é aos poucos conduzido à implosão. A esquerda agradece a Durão Barroso, aliás José Barroso. O país também agradece, por ter que aturar isto e pior, pagar os devaneios desta gente, deste desgoverno.


em de-talhe

MARCELO E O XVI GOVERNO CONSTITUCIONAL
Há escassos meses, quando Sampaio decidiu nomear o XVI Governo Constitucional, não obstante toda a polémica gerada em torno de um Primeiro Ministro forjado à martelada, tudo fazia crer (desde os mais críticos aos mais moderados), que haveria festa noite e dia. Assim sucedeu.
Como não bastasse a falta de legimidade eleitoral da maioria governamental (apesar de as legislativas elegerem deputados à AR, é indiscutivel a sua mediatização em torno do líder), junte-se a falta de legimidade política. É que, para além de Santana Lopes se ter candidatado em múltiplos congressos a presidente dos sociais democratas, e de nenhum deles ter logrado sair vencedor, o processo de eleição na Comissão Nacional foi condicionado pela necessidade de validar um presidente apressado pela pressa de outro. E, diga-se de passagem, não se compreende porquê escolher Santana Lopes, o tal que a dada altura chegou mesmo a anunciar o seu abandono após se ter sentido vítima de assassínio político, conforme se queixou ao PR (ele, político profissional); o mesmo que trocou profundas e víscerais divergências com Durão durante o congresso que consagrou o último como Presidente do PSD.
Mais, depois das brilhantes prestações na Câmara Municipal de Lisboa, na Figueira (lamento mas construir ao arrepio das mais elementares normas de equilíbrio financeiro e ambiental é o mesmo que pagar 750 euros de mensalidade por um BMW, quando se aufere um vencimento de 1000) ou na Secretaria de Estado da Cultura (de tal forma que no mandato seguinte, Cavaco promoveu Durão a Ministro e presenteou com bilhete de volta o nosso actual PM)?
Mas enfim, esta é apenas uma pequena parte deste triste episódio. Sem me querer alongar em demasia, cedo este governo deu mostras da sua impreparação, da sua incapacidade para governar. Falamos, em concreto e só para enumerar os mais graves, da desproporcionalidade e arrogância com que foi tratada a questão do barco do aborto, dando o dito por não dito, como de resto, tem sido apanágio deste elenco governativo, uma governação tacteante do género «vamos lá ver se pega»; falamos também da incompetência revelada pelo Ministério da Educação (a Compta já se demarcou, comunicando que os erros ocorridos resultam de sucessivos input's para os quais o programa não estaria inicialmente preparado), e do acentuar da atitude distanciada e reveladora do mais profundo desrespeito pelos profissionais do sector; e sem entrar em detalhe, ocorre-nos os episódios Nobre Guedes e Galp, Celeste Cardona na CGD, a extraordinária obcessão com segurança privada, generalização de assessores por medida, nomeações compulsivas na administração pública, receitas extraordinárias para iludir as estatísticas europeias, sem contabilizar evidentemente todos os episódios que já entraram para a imagem de marca deste governo a dois, como tem feito questão de salientar o antigo número dois, Paulo Portas dos marinheiros e das alforrecas.
Há um par de dias, o próprio governo levantou mais um caso, dando uma demonstração em toda a linha da sua inaptidão política, através do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Silva. É claro que o princípio do contraditório deve ser, sempre que possível ou desejável, assegurado. Mas essa é uma questão ética e mais se torna quando se trata de um operador privado de televisão. Aquele era o alinhamento desejado pela TVI (ou se calhar já o não era assim tanto, mas isso é outra questão que ainda se poderá revelar bem mais grave) e nem que passasse o «Show do Ratinho», o âmbito de intervenção do governo seria nulo, desde que inscrito no quadro da legalidade, é evidente. Não era esse o caso e em Portugal não há delito de opinião. Quanto muito, seria caso para a Alta-Autoridade para a Comunicação Social.
Todavia, ao nível do governo, os comentários do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa constituíam realmente uma séria ameaça, no plano da influência política, ao nível da criação de factos políticos. É que, com a fluidez oratória que lhe é reconhecida, com a facilidade em converter a linguagem técnica e pesada em proposições simplificadas, Marcelo chega às massas, às massas que se distanciam cada vez mais da política. E agrada-lhes porque sabe organizar um raciocínio crítico e sabe como passar a mensagem, dominando todas as técnicas do audiovisual e irritando profundamente os visados (não pela linha argumentativa, bastante mais desenvolvida por Pacheco Pereira, mas sim pela incapacidade revelada em o enfrentar naquele terreno, perante aquela audiência). Assim, num registo deliberadamente popularucho, Marcelo Rebelo de Sousa influenciava inclusive a agenda política e fê-lo durante quatro anos e meio. Não obstante, durante este período, doesse a quem doesse, cada macaco repousava silenciosamente no seu galho...
Não cabem aqui as motivações ou as estratégias do Prof. Marcelo, no entanto, o espaço domingueiro em que opinava era tão legítimo quanto o são as inúmeras colunas de opinião que povoam os nossos jornais. Os princípios são exactamente os mesmos e dependem única e exclusivamente da linha editorial definida pelos órgãos de comunicação social. Neste caso, não é o conteúdo mas sim o canal que está em causa e a sua amplitude de distribuição.
Ao bater com a porta, cujas verdadeiras razões estão ainda por apurar, Marcelo criou o derradeiro facto político e o governo em peso tornou-se um autêntico martelo pneumático a perfurar em terreno lamacento. Perante isto, basta à oposição adoptar uma postura embaraçosamente espectante pois melhor, era difícil.

6 de outubro de 2004

à tout propos (17)

ALMAPLANA
Almaplana estarão hoje no novo programa do canal 2 dedicado à música moderna portuguesa. O programa chama-se "Lote 9" e insere-se na rubrica diária da estação dedicada às "Universidades", onde algumas destas são responsáveis pela realização de um programa semanal. O "Lote 9", da responsabilidade da Universidade Independente, passa às 4ª feiras, (01H00 já de Quinta-Feira) e tem como grande objectivo apresentar bandas ainda desconhecidas do grande público.
Tel.: (00 351) 919908272

em de-talhe

PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

A democracia representativa portuguesa, ao contrário do que por vezes se possa pensar, assenta num sistema pluripartidário, no qual são reconhecidos como partidos ou movimentos políticos (a concorrer em eleições), mais de duas dezenas de agrupamentos, apesar de apenas 5 com assento parlamentar. Na prática, já o sabemos, o nosso sistema tende ao bipartidarismo em torno de dois grandes partidos que alternam entre si o governo do país.
Mas a actividade parlamentar não se resume ao governo nem à aprovação de leis. Cada grupo parlamentar desenvolve diariamente trabalho de apoio para as diversas comissões especializadas, de inquérito, assim como para novos projectos de lei, etc., etc.
Ora, a ideia de um sistema representativo pluripartidário implica, na minha opinião, duas características fundamentais. Em primeiro lugar, dá voz às diversas sensibilidades assim como às especificidades e clivagens de grupos sociais, territoriais, profissionais, etc. No mesmo sentido, permite de algum modo suster um ou outro leve ressaibo que soe ao que Tocqueville denominou «tirania da maioria». Em segundo lugar, a presença de diversos partidos fomenta o debate ideológico, alarga o objecto da discussão, matiza a agenda política.

Com a queda do muro de Berlim, a dissolução da URSS, a consolidação crescente da economia de mercado, o alargamento dos princípios democráticos inclusive a países provenientes da cortina de ferro, a entrada de alguns deles na OTAN e na UE, entre outros factores, torna-se claro que o mundo mudou. No caso português, as transformações sucederam-se como o dia sucede à noite, desde a entrada na União Europeia à ratificação da Constituição Europeia a ter lugar muito brevemente. Com aquelas mudanças no plano internacional é instaurada uma nova ordem mundial, na qual se configura uma nova hegemonia cultural, económica, política, bélica. Só que, entretanto, o mundo já havia mudado (e continua em constante mutação) desde o Manifesto do Partido Comunista, em 1843. Ele foram guerras mundiais, ele foram direitos cívicos, sociais e políticos conquistados (consoante os países), foram guerras invisíveis, a crescente complexidade das sociedades com as divisões sociais do trabalho e sequente necessidade de especialização, a assunção da sociedade de informação, etc., etc. Contudo, o projecto comunista não sofreu alterações (não se trata de rever toda uma teleologia, toda uma ideologia da emancipação), não houve lugar à redefinição da clássica luta de classes em torno dos meios de produção no sentido de alcançar uma sociedade mais justa e igual. O mundo continua simplistamente dividido entre oprimidos e opressores, entre burguesia e proletariado. E estamos a falar da mesma sociedade onde os dois partidos do poder focalizam os seus discursos numa imensa classe média (dificil de discernir onde começa e onde acaba); onde a mobilidade social conheceu uma dinâmica inaudita; onde o acesso à educação foi democratizado e massificado; mas também, onde o Estado tem vindo a ser espoleado...

Por outro lado, são conhecidas as circunstâncias com que o PCP se debate, ditadas a partir de fora mas também de dentro: os maus resultados eleitorais sucedem-se (perda de deputados à AR, perda de câmaras municipais, desvio de votos para o BE e para o PS), dissenções renovadoras dentro do próprio partido que apelam à exigência de redefinição adaptativa às novas realidades (conduzindo à dissidência e até à expulsão de militantes históricos), o aumento da abstenção eleitoral, contemporânea da despolitização das sociedades, a crise verificada nos partidos políticos que ocorre a par de um fenómeno de personalização da política (e sabemos como o PCP é dentre todos, o partido político com a mais consistente estrutura organizativa...). É claro que não devemos obliterar todo o trabalho que nos últimos 30 anos em democracia (para não falar da extraordinária luta que levou a cabo no exílio, nas prisões, em caves, contra a ditadura fascista), o PCP desempenhou ao nível do governo, da acção parlamentar mas também no plano local, no apoio às populações mais excluídas. Mas era esse o seu papel, tal como, de outro modo, o é a acção da Santa Casa da Misericórdia, por exemplo.

Ao anunciar, a um mês do congresso (6 de Novembro), a sua indisponibilidade para continuar à frente dos destinos do PCP, Carlos Carvalhas cria uma crise de sucessão? Ao que parece, a sua decisão era conhecida pelo Comité Central há um ano. Entretanto, quando ainda não passaram vinte e quatro horas sobre o anúncio, eis que a comunicação social apresenta um forte «candidato», Jerónimo Sousa. Se as decisões dentro do PCP são publicitadas com um ano de desfasamento, nesse caso, o sucessor de Carvalhas na liderança do PCP é conhecido há já bastante tempo, sendo o congresso apenas um pró-forma.

A opção pela continuidade apresenta um risco imediato para um sistema de representação pluripartidária: o acentuar do enfraquecimento que o PCP enfrenta. A ruptura também não me parece solução, até porque existe todo um espaço político ocupado por outras forças partidárias (embora nesta altura, a esquerda à direita do PCP conheça interstícios desocupados...).
Em ordem a retomar o preâmbulo, a democracia representativa precisa de vozes fortes que se constituam como alternativa e reflictam as diversas clivagens ideológicas existentes na sociedade, concentrando-se porém na resolução de questões concretas. Daí ser absolutamente necessário para a qualidade da nossa democracia a existência de um PCP forte, dinâmico e actual, que não contribua para a redução do debate, que não estimule unanimismos. Reduzir o tempo de reprodução de uma cassete para 60 minutos obriga apenas à troca da mesma em menor espaço de tempo, o que poderá significar a saturação. Ora, é isto que já sucede para uma grande parte dos não militantes comunistas e o reflexo disto observa-se claramente nas urnas. Não me parece que os fracassos eleitorais do PCP se devam necessariamente à qualidade das propostas partidárias oponentes (que estaria sobreavaliada). Também não me parece que o aumento de militantes insatisfeitos se deva unicamente a lutas pelo poder ou à orfandade de um líder carismático e histórico como Álvaro Cunhal. Jerónimo Sousa nem é um líder carismático nem representa uma linha alternativa às actuais soluções, com a qual os eleitores comuns se possam identificar (seja Jerónimo Sousa seja outro seu camarada fiel à doxa, pura e crua, tal como veio ao mundo).

A questão essencial é esta: está o PCP actual em condições de responder às exigências da sociedade portuguesa, apresentando um projecto concreto e incisivo que sirva a mesma?
Isto porque, independentemente de projectos de emancipação global desta ou daquela ordem (que não devem ser escamoteados, configurando-se antes como guias), os partidos políticos não devem, em contrapartida, perder de vista o contexto em que evoluem nem a interacção com as massas, entretanto a rodopiar no centro de um imenso remoínho que as atrai inequívocamente e as engole indiferencialmente...
Ora aí está uma excelente oportunidade. É esse o grande desafio que se põe ao PCP: rejuvenescer o projecto, agilizar e vitalizar a intervenção, sem com isso perder a sua identidade.

4 de outubro de 2004

à tout propos (16)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS II

Já aqui havia dado conta de alguns aspectos eleitorais menos claros no estado da Florida, nomeadamente a eliminação das listas eleitoriais de 22 000 afro-americanos e 61 hispânicos. De acordo com a lei eleitoral daquele estado, os indivíduos condenados por crimes perdem os seus direitos cívicos e só os recuperam após cumprida a pena. Democrático, não?
Entre estes, contabilizam-se cerca de 600 000 indivíduos. O caso dos afro-americanos e hispânicos é diverso porque implica a eliminação das listas eleitorais, sem passar na «casa partida e sem ganhar dois contos»...

O interessante é quando é conhecido o tradicional apoio político dos afro-americanos aos democratas e dos hispânicos aos republicanos. Mais, é no mínimo estranho aquele rácio, quando as proporções de população criminal e as outras, respeitantes àquelas comunidades étnicas, não se cifram certamente em cerca de 361 afro-americanos para cada hispânico. Com Porto Rico, Cuba, República Dominicana ali tão perto? Com a linha de fronteira com o México diariamente em pé de guerra?

Por outro lado, continuam os problemas com o sistema de contagem de boletins de voto na Florida. A polémica veio para ficar apesar de substituídas as máquinas de cartões perfurados pelas de ecran tactil (depois da célebre recontagem manual de votos em 2000, a pedido do candidato derrotado Al Gore). A razão? As máquinas não emitem o recibo de voto, o que significa que nem o eleitor se certifica de ter a máquina registado correctamente o seu voto, nem é possível verificar os resultados calculados pelo sistema de contagem de votos.
Assim vai a democracia por aqueles lados. A velha Europa que se cuide...

3 de outubro de 2004

à tout propos (15)

DO URÂNIO EMPOBRECIDO
Todos sabemos quais as consequências de uma guerra, não só para os militares, infraestruturas de um país, como para os civis: desde o normal curso de guerra em que se conquistam e perdem posições até ao mais vil de um ser humano quando tortura e viola um seu semelhante.
Pois, todos sabemos, estamos cheios de ver em filmes, noticiários, histórias de pais e tios, livros, etc., etc.
Mas, saberemos realmente? Quanto muito imaginamos e em alguns casos, podemos eventualmente suspeitar...
O site que vos proponho, enviado por um meu amigo, relata e mostra imagens chocantes do que poderão ser as consequências do urânio empobrecido utilizado em armamento de guerra. Sim, esse mesmo urânio que inclusive os nossos militares pretendem a todo o custo escamotear... Faço minha, a chamada de atenção para os mais sensíveis.
Nem a propósito, volvidos quase dois anos, já alguém descobriu onde se encontram as presumíveis armas de destruição maciça que justificaram a intervenção no Iraque? Talvez o site responda...
Tirem as vossas conclusões, como sempre...

2 de outubro de 2004

em de-talhe

A REFORMA DE CAVACO SILVA
Agora com 65 anos, segundo notícia do Expresso, Cavaco Silva vai-se reformar do cargo de Director do Banco de Portugal, com uma reforma inferior a 3 000 euros, portanto, ao nível de um Presidente de Câmara num concelho de média dimensão. Estamos a falar de Anibal Cavaco Silva, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Católica, Primeiro Ministro de Portugal entre 1985 e 1995.
Um tal Mira Amaral, chegou a ser ministro de Cavaco Silva, enquanto Administrador da CGD, vai amealhar mais 18000 euros por mês, certo?
É interessante a lógica dos salários na Administração Pública, quando se conhecem estes fait divers ou outros, como os já tradicionais casos de acessores que auferem mais que Primeiro-Ministro e Presidente da República.
Mas é tanto mais interessante quanto o facto de ser cada vez mais certo o nosso conhecimento em como estes casos sucedem, como indivíduos medíocres chegam a altos cargos do Estado. E para isso, basta porem-se em biquinhos dos pés.
Cavavo não o terá feito, assim, o mérito vai para ou outros, os que gastam muito em meias-solas...

à tout propos (14)

BIBLIOTECA E ARQUIVO MUNICIPAL DE ÉVORA

Finalmente, o nosso Ministério da Cultura começa a ter preocupações com tal objecto. Está de parabéns e por isso, no bom caminho.
Finalmente, o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Évora vão celebrar um protocolo para a construção da nova biblioteca pública e arquivo distrital. Paralelamente, será construída uma biblioteca municipal. As três infraestruturas serão construídas na zona de expansão dos leões. A proposta de protocolo apresentado pelo MC foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal. Pudera, os custos para as infraestruturas públicas ficam a cargo do MC. Só é pena que não pague também a infraestrutura municipal (a biblioteca municipal), já que o peso excessivo da interioridade, das boas práticas (o Polis é um exemplo de «benefício do infractor»), já o pagamos diariamente.

1 de outubro de 2004

à tout propos (13)


Drowning Girl, 1963 (Roy Lichtenstein)

em de-talhe

BLOGS, UM PÉSSIMO EXEMPLO
Casos como este não devem ser difundidos nem publicitados, porém, a sensatez leva-me a difundir um péssimo exemplo de blog, exactamente para afirmar como não deve ser. O exemplo seguinte é a antinomia de tudo quanto possam ser espaços de expressão ideológica, artística, política, desportiva, seja o que for. Antes pelo contrário, é um exemplo cabal de histeria colectiva eivada de motivações cobardes e repudiantes.
Falo de um blog que nasceu em Redondo, vila «pacata» alentejana do vinho, do azeite e do barro. Presumo que o seu autor, no momento da criação desse blog, jamais tenha previsto o que se sucedeu. Se o previu, nesse caso, tratar-se-á de um indivíduo mal formado, cujas intenções serão no mínimo, inclassificáveis.
Aos dois primeiros textos (à hora que escrevo, tem apenas 3 textos e centenas de comentários), o chorrilho foi crescendo, atingindo perigosos níveis de ataque pessoal, do mais vil e esqualido que se possa imaginar. Sempre escondidos atrás do anonimato, os comentadores vão alimentando cobardemente os mais variados insultos, sem o minímo de contenção, atirando venenosamente contra tudo e todos. Demasiado ordinário.
Entretanto, um clima de suspeição e mau estar geral começa a fazer-se sentir por toda a vila. Ninguém tem descanso e de um momento para o outro, todos os telhados têm vidro. Estamos perante um ataque em massa contra direitos fundamentais. Um ataque, pois, à cidadania e à democracia.

à tout propos (12)



BAR-TOON

...ou é «bar» ou é «toon», as duas já são demasiado... é complicado.
É do género daquela expressão execrável que sempre abominei: «estás-te a rir para mim ou de mim?»

30 de setembro de 2004

à tout propos (11)

REVISÃO DA CONCORDATA COM A IGREJA
Após 64 anos (!), o Estado português prepara-se hoje para ractificar a Concordata com o Vaticano e assim dar mais um passo para a constituição de um verdadeiro Estado laico. Mas não sem reservas, naturalmente. É que, se por um lado é pouco contestável a acção social da Igreja (vamos esquecer por momentos os «santos jogos», as heranças nascidas em asilos e outras formas de financiamento), por outro lado, existe um peso institucional enorme que não pode ser escamoteado nem, desconfio, afrontado... Em particular no que respeita à fiscalidade.
De qualquer modo, é um passo importante com vista a um tratamento equivalente entre os vários credos religiosos e entre todos os contribuintes...

em de-talhe


ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS

E, sem embargo, todo o aparato em torno das eleições presidenciais norte-americanas, com o enorme o show off habitual, investidas e contra-investidas (de conteúdo...), mais escândalo e menos escândalo, mais dollar, menos «petroil», com mais pólvora ou menos pólvora, eis que, bem espremidinhas as propostas, do nectar nem sinal. Pessoalmente, tenho a convicção que nada vai mudar no mundo (em termos de política externa) a não ser o continuar da insatisfação internacional, da repressão e da parasitagem sobre a natureza e os povos. O estilo de vida americano não se compadece com sacrifícios económicos, e é absolutamente incompatível com a preservação ambiental ou a competência alheia. A diferença entre Kerry e Bush é menor que a espessura de uma folha de alface, embora Kerry aparente ser menos extemporâneo, mais ponderado.

Por conseguinte, é na gestão de expectativas e interesses dos poderosos que se faz um mandato na Casa Branca, logo, quem dá a cara até pode ser uma amiba unicelular (se existir) como a que lá está, pois as decisões já lhe são entregues escritas em papel (embora ele teime em falar por sua conta e risco, à desgarrada mental consigo próprio, mais ou menos como o espécimen surpresa que nos deixaram em S. Bento).

O primeiro de três debates, hoje às 21 horas na Florida (2 de Portugal), poderá ter o efeito de sedimentar a vantagem de Bush nas sondagens ou, pelo contrário, despoletar a reviravolta. Talvez, pelo seu estilo menos enganchado em oposições binárias do estilo right and wrong, Kerry seja o menos mau, sobretudo para o próprio eleitorado americano. A que nível? Do civismo e da interiorização de algumas concepções básicas e cosmovisões que a divisão do mundo em dois operada por Bush, desmantelou. Ao aumentar as clivagens, acantonando-as em dois grandes grupos, Bush contribui para o estímulo de fundamentalismos de toda a ordem, seja do lado das manifestações nacionalistas pós 11 Setembro, seja de grupos islâmicos radicais ou cristãos, ou hindus, etc. É este o grande contributo de Bush para o mundo e é tanto responsável pela actual situação mundial como Sharon o é pela presente entifada (sem pretender com isso escamotear problemas que já existiam antes).

Por isso, os americanos que se cuidem pois não há fumo sem fogo e nesta ordem de ideias, causa-me uma certa confusão mental porque raio se difunde a ideia, pelo mundo inteiro, de serem os americanos isto e aquilo. Só se pode explicar por uma embirração que o mundo tem com eles. Que raio de obcessão... Afinal, eles é que são os bons, eles e os que vivem na terra prometida, o povo eleito. Bom, já que os outros são os maus... não deixar créditos em mãos alheias e para isso aí temos diariamente a cabal demonstração de ensandecimento que nos chega através dos media, de ataques suicídas, raptos, degolações em directo, etc. etc. Conselho: nunca enfrentar um animal ferido ou colocar em causa a segurança de crias.

Talvez dê mais gozo por serem americanos e todo o mundo morrer de inveja deles... e do novo ordenamento mundial, do qual resulta proporcionalmente mais miséria do que na idade média. Sociedades evoluídas? Nós?

Sugestão de fim-de-semana:

Ver «O Planeta dos Macacos» de Frankin Schaffner ou ler «A Condição Humana» do Malraux; também se pode simplesmente ver o «Shrek» ou ler Júlio Dinis e fingir que nada se passa.

à tout propos (10)



IN THE NAME OF LOVE - U2

One man come in the name of love
One man come and go
One man come, he to justify
One man to overthrow

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

One man come on a barbed wire fence
One man he resist
One man washed on an empty beach
One man betrayed with a kiss

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Early morning, April four
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Spoken: For the Reverent Martin Luther King - saint.

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

In the name of love

29 de setembro de 2004

à tout propos (9)

VOTAÇÕES ONLINE
É com particular satisfação qua anunciamos a disponibilização de alguns serviços complementares. A ideia é criar necessidades, leia-se dependência, com o objectivo final de constituir uma legião de leitores/dinamizadores que conquiste o poder já nas próximas eleições legislativas. Há que chegue para todos!...
Assim, a partir de agora, tereis a oportunidade de manifestar a vossa opinião (para além da hipótese de comentar os textos) através de votações online.
Por outro lado, como é sabido, sendo este um espaço que procura a conformidade com princípios democráticos e como tal, aceitamos sugestões para futuros inquéritos online. Claro que, de acordo com a nossa linha editorial serão privilegiados os temas cuja pertinência justifique a sua publicação.

28 de setembro de 2004

à tout propos (8)

DESUMANIDADES
Na nossa blogosfera, aconselho vivamente a entrar em www.desumanidades.blogspot.com, puxa ao existencialismo crítico, uma nova abordagem das nossas sociedades.
Agora a sério (quanto a visitar o espaço Desumanidades não era a brincar), escrevo acerca do texto publicado em 27 de Setembro naquele espaço, intitulado «O dispositivo Opinião». Para dizer que se trata de uma visão acertada, embora na minha opinião exclusivamente focada no fenómeno político. Afinal, o espaço onde escrevo neste momento, não é também ele um claro «dispositivo opinião»?
Sucede que, não obstante aquela grelha criada pelos media, de que nos fala Manel Maria, configura-se ao nível da influência intersticial uma vez que mensagens simples e popularuchas têm por vezes o poder de configurar mass opinions, com enorme vitalidade. De facto, por vezes não se trata de participação, no sentido tradicional do termo, no entanto será a participação um objectivo explícito de alguns?

à tout propos (7)

FÁTIMA ON AIR
Em grande, Fátima prepara-se para começar a receber vôos charter e dar início a uma nova fase do turismo religioso. A Câmara Municipal de Ourém já terá chegado a acordo com o promotor do aeródromo de Fátima para que esa infrestrutura seja ampliada de modo a continuar a atafulhar os peregrinos via aérea.
Parece-me bem, pois livra bastantes peregrinos das tradicionais bolhas nos pés livrando igualmente alguns desses resistentes mais incautos de se verem colhidos por um qualquer automobilista português distraído a ler «A Bola» enquanto mete mudanças...
Os donos dos restaurantes à beira da estrada é que ficam a arder com tudo isto.
Em todo o caso, reafirme-se, a gestão do santuário de Fátima é um exemplo inquestionável a seguir, que o governo não deve ignorar: do lado da despeza, zero; enquanto do lado da receita...
Até a cera das velas que se queimam, são renováveis e aqui fica mais um bom exemplo de desenvolvimento sustentável.
Se fosse a Igreja que estivesse no governo deste país... não havia défice que nos metesse medo nem seria preciso recorrer ao fundo de pensões da Caixa Geral de Depósitos para iludir a contabilidade comunitária.

27 de setembro de 2004

à tout propos (6)

FUTURO, NÃO FUTURO, FUTUROS
Com referência ao tempo presente, não podia deixar de recuperar um texto que me parece bastante conveniente e actual, tendo saído da pena de José Pacheco Pereira numa Grande Reportagem. Como neste espaço damos voz a todos e dada a conjuntura actual, nomeadamente no que toca à ocupação de lugares de poder - Santana é PM, Portas é Ministro da Super-Defesa e das Alforrecas, Sócrates é Secretário Geral e Nobre Guedes do Ambiente - não hesitei em transcrever parcialmente o texto que se segue.
Prestai atenção, vos pede este vosso servidor...
"(...)A máquina da democracia resulta da combinação da separação dos poderes, com o primado da lei e os mecanismos de representação, e todos estes mecanismos necessitam de um tempo e de um espaço em que a virtualidade do real perturba, primeiro, e depois nega (...).
As eleições, ao permitirem a representação democrática no parlamento geraram o único mecanismo que funciona para derrimir os conflitos de carácter político e para exercer uma contínua vigilância sobre os executivos, a instituição parlamentar. É o parlamento, mais do que qualquer outra instituição democrática, que está em crise devido à sua completa incapacidade competitiva com o império mediático e o populismo que ele naturalmente nega. O local onde a democracia se materializa e fala, não é ouvido por ninguém (...).
O parlamento está ameaçado no principio da representação pelas pressões para a democracia directa, para as sondagens permanentes, para o voto pela televisão, pela incomunicabilidade mediática da argumentação em tempo de soundbites. Tudo mecanismos que apontam para uma realidade não democrática, a chamada «democracia directa», tornada possível pelos novos meios electrónicos.
A tentação de voltar ao ágora grego, materializado pelo voto instantâneo sobre issues selectivas, é muito atractiva para um mundo dominado pela emotividade televisiva e educado pelas pseudo e contínuas sondagens de opinião, foruns, sondagens telefónicas, que dão às massas uma ilusão de participação política em tempo real.
(...) A forma moderna mais eficaz de socializar a demagogia em política é o populismo. O populismo ,oderno é essencialmente mediático, vive na televisão e vive de aparecer. A propaganda de um político populista é o número de vezes que aparece seja porque motivo for, dado que o conteúdo não é relevante.
O político populista fornece assim um contínuo com o mundo do espectáculo, com as opiniões do vulgo, com as reacções comuns, tornando-se um factor de reforço da vida política como reality show.
O ideal do político populista é a arena televisiva, onde se confronta com os seus iguais num espectáculo teatral, sob o aplauso das respectivas claques e com os espectadores a votarem em directo".
PEREIRA, José Pacheco (2003): "Futuro, não futuro, futuros", Grande Reportagem, n.º 150, pp. 56-57.

em de-talhe


OUTRA VEZ A LEGITIMIDADE DEMOCRÁTICA DE BUSH

Vem o antigo Presidente democrata dos EUA, Jimmy Carter - agora um destacado observador internacional de processos eleitorais - alertar para aquilo que considera serem procedimentos menos democráticos, sistematicamente ocorridos na Florida. Afirma ele que «as normas internacionais essenciais» não são observadas em tal parte do mundo.

Parece no mínimo preocupante, quando nos estamos a referir à mais velha democracia do mundo, ao modelo democrático que Tocqueville tanto elogiou sugeirndo como modelo a seguir para a Europa. Com todo o respeito, monsieur Alexis, muita coisa terá mudado desde então...

Mas não nos podemos esquecer que foram problemas deste género que levaram à recontagem dos votos após a eleição presidencial que sufragou Bush. O suficiente para o Partido Republicano colocar na Casa Branca o seu candidato presidencial. Qual seria a estratégia do Partido Republicano quando avançou com Bush? Agradar ao pai? Enterrar o partido? Ter lá alguém suficientemente incapaz para que outras forças pudessem governar o país e o mundo? Uma incógnita.
De qualquer modo, ali está ele, incrívelmente posicionado para vencer uma segunda vez. Alguma coisa o fazia prever? Só numa ficção bem ao jeito de Augusto Abelaira, como por exemplo «O Único Animal Que?», a que não faltariam as caixinhas com pulgas e as pastilhas-elásticas para aumentar a mandíbula e levar o cérebro à entropia. Qualquer semelhança com a realidade...

Jimmy Carter bem se esforça... mas como alguns insistem, «a América foi conquistada com armas e é com armas que os americanos se têm que defender». Defender, que é como quem diz, preservar o «american way of life and rule»...

Para concluir, tudo indica que, desta vez, se preparavam para eliminar milhares de eleitores de origem africana, que se posicionariam potencialmente entre o eleitorado democrata. A razão? Actividades criminosas...
Assim vai a democracia americana. Que diria agora Tocqueville? Sérias dúvidas ameaçam o meu vago entendimento...

em de-talhe

ESPÍRITO OLÍMPICO
Brilhante, é como se pode adjectivar a participação paralímpica portuguesa, ou seja, a participação Olímpica portuguesa. Não se pode pedir mais, porque eles já nos deram tudo, como se não bastasse a atitude de campeões e o verdadeiro espírito olímpico que orgulharia certamente Pierre de Coubertin ou encheria de inveja todo o Olimpo.
Apesar de ainda não terem terminado a sua participação nos Jogos Paralímpicos, não posso deixar de expressar a minha gratidão, assim como a profunda admiração que sinto por atletas habituados a viver na adversidade, a ultrapassar obstáculos e a vencer. E vencem, de forma categórica, quer no tartan quer na passadeira quotidiana.
Ontem mesmo, correu-se a final da maratona em 2h44 min, na categoria T11, cegos totais. O português Carlos Ferreira conseguiu a medalha de prata e não se pense que sem suor e lágrimas. O Homem ponderou a desistência, mas uma crença inabalável em si, potenciada apenas pela palavra de incentivo do seu atleta-guia, catapultaram-no para o 2º lugar. Incrível. Sobretudo após vermos Paula Radcliff a sucumbir, desesperada, depois de ultrapassada pelas mais directas adversárias ou a Fernanda Ribeiro a desistir a menos de 2 voltas. Normal? Sim, neste nosso mundo de pseudo-atletas, ditos profissionais (auferir chorudos vencimentos não significa necessariamente profissionalismo, é bom recordar).
No mundo deles, não pode haver desistências, não há lugar a segundas oportunidades. No desporto como na vida, a atitude só pode ser uma.
Quanto a espírito olímpico, estamos conversados, com excepção para um par de atletas portugueses de alta competição que são... excepcionais, pois claro.
Dream team? O «Real Circo de Madrid» é que não é de certeza...

à tout propos (5)

JACK JOHNSON
Um bom amigo presenteou-me há tempos com um CD de música, após me ter mostrado bastante agradado com o som. De facto, não tendo ouvido antes, depressa me identifiquei com o ritmo, os instrumentos e o arranjo literário. Para além disso, o tom de voz é algo familiar e lembra bastante, à primeira, um tal de Ben Harper. Não será um acaso, visto ambos terem feito algumas tournés em conjunto...
O som é bastante bom, fiável e não engana.
Para quem se interessa, aconselho a espiolhar o site oficial http://www.jackjohnsonmusic.com/ e o site de música VH1 http://www.vh1.com/

26 de setembro de 2004

em de-talhe

NOVO SECRETÁRIO GERAL DO PS
Parece que está confirmado e oficioso, o novo Presidente, digo, Secretário Geral do PS já é público. Agora, a esquerda que se cuide com o novo centrão e a aliança que se prepara com o PSD, desde que Santana se dedique novamente ao Sporting, confidenciou-nos fonte credível, mas não digo quem (só se for ao Correio da Manhã ou ao José Vilhena), o PCP desaparece do mapa e a recolha selectiva vai acabar, a bem da co-incineração de tudo o que feder.
Diz que Sócrates terá anunciado após o escrutínio que, no caso de vir a ser directamente eleito Primeiro-Ministro (nessa altura já não haverá nomeações presidenciais do governo e os partidos políticos serão clubes), como se espera, o elenco governativo terá que ser composto por homens belos e mulheres atraentes, ainda que se tenham que vir a recorrer à cirugia plástica. Fica portanto o aviso, marias de belém e ferros rodrigues, só com cartão de cirugia plástica em dia. De outro modo... co-incineração com eles. O PCP desaparece do mapa (são todos feios e não têm recuperação possível) e do BE, só o Louçã se escapa, como entreteiner (além disso, possui igualmente o dom de penetrar no interior das câmaras de tv).
Não obstante e fora de brincadeiras (se calhar o homem vai mesmo a PM), foi extremamente positivo que existissem mais dois distintos militantes em concurso, contribuindo para o debate de ideias entre Alegre e... Alegre; tudo isto enquanto Sócrates continuava obcecado com o aparelho televisivo (do género, mente superior domina mente inferior) e Soares falava consigo mesmo de si, ouvido o pai e consultado o Zandinga.
Aviso importante: a luta só agora começou, que interessa se é com rolos de papel higiénico? A primeira tarefa é arrumar a casa e em matéria de grandes sensações televisivas, não há cá pompa à porta da Assembleia se não for para enaltecer o chefe. Isso de manifestações solidárias com prisioneiros políticos acabou. E em segundo lugar, convidar Paulo Portas (com reservas e só após enquadramento sexual para evitar embaraços), Francisco Louçã, Luís Figo, Bárbara Guimarães divorciada, Cinha Jardim e Zé Maria para integrarem um governo de unidade nacional que proteja o empresariado nacional (a quem devemos muito!) e nos livre dos inaptos, dos incultos e dos pobres, perdão, da pobreza (consta que um em cada cinco portugueses).
O Tino Covilhão, de Rãns, é que se deve estar a rir de tudo isto: o abraço ao Guterres, já ninguém lho tira!
De qualquer modo, o PS está de parabéns pelos militantes que mobilizou, pela disponibilidade interna para o debate e pela lição de democracia.

25 de setembro de 2004

à tout propos (4)

À PROVA DE AMIZADES OU AMIZADES À PROVA

Há dias, desconciliei-me, creio que brevemente, com um amigo após uma breve discussão, rotineira e insignificante. Não interessam aqui as razões. Ambos cuidamos, cada um à sua maneira, das nossas visões das coisas.
Quanto a mim, procuro não perder de vista determinados valores e princípios de orientação, que considero fundamentais e dos quais não quero abdicar. Uma questão de conformidade com tais «faróis», sobretudo quando se trata de posições estritamente relacionadas com direitos humanos e justiça. Muito para além de bem e mal.

Mas, regressando à história, o ponto-chave da discussão foi o momento em que, após esgrimidos argumentos e mais argumentos, saturado de dar explicações sobre algo que considero pouco discutível porque do intímo das pessoas, mandei o amigalhaço às urtigas, que é o mesmo que lhe sugerir que se copulasse, admito, sem pensar muito bem como. Daquelas coisas mecânicas, sem o serem verdadeiramente.
A coisa não lhe agradou, evidentemente, e assim nos despedimos, sensaborões. Cada um às suas, com as não menos suas convicções e apesar do devido reparo da minha parte. Tem a espontaneidade de um homem, destas coisas.


Ora, tudo isto para dizer que, acima de tudo, devo ser honesto comigo e com ele. Em bom rigor, o reparo foi apenas contextual, pois que era exactamente aquele dito que eu desejava naquele momento que ele materializasse, em sentido figurado, pois claro, que de outra forma não creio ser humanamente concretizável. Por enquanto. Afinal de contas, o Darwin também tinha as suas razões.

A questão que se coloca, por ser recorrente em algumas relações de amizade, é a seguinte (e não tem que ser necessariamente homologável a este caso em particular): porque razão teremos por vezes que nos ocupar dos outros e das suas coisas como se fossem as nossas, como se se tratassem de reality shows e não de pessoas?
Não se compreende porque razão é por vezes a amizade tratada de forma indigente como um objecto de consumo permeável a modas, provas a superar, quando não se torna um lugar comum de superiorizações morais pueris ou de aconchego para afirmações de vontade despropositadas. É um desperdício de energia irracional, com tantas coisas onde a(s) empregar... a razão e a energia, evidentemente.
De acordo com a moral (podemos ou não, dar a saber aos outros qual o grau de conformidade aceitável para se entrar no céu), qual será de seguida a atitude mais correcta da minha parte?
Fico preocupado se alguém me pedir para escalar o Everest, mesmo que com oxigénio. Apesar de o BES saber que não há «amigos assim», também não estou muito disponível para contrair empréstimos. Matar um leão com um jovem Masai, também não me parece... os sacrifícios têm limites e os meus, condicionados por experiências passadas, são hoje muito mais curtos...

Como a memória não fala, mas sim a razão...

à tout propos (3)



Aspecto do Anfiteatro da Sorbonne, durante o longínquo Maio de 68. Longínquo tendo em conta os constantes atropelos que, cada vez mais impunemente se cometem sobre os princípios e valores da liberdade e da democracia.
Por paradoxal que possa parecer, não vejo condições para que isto possa acontecer, concretamente em Portugal. E por duas razões: uma boa parte dos estudantes são meros espectadores consumistas; existem hoje tantos cães de regime como há três décadas atrás, e continuam no poder - mais ou menos político.

23 de setembro de 2004

em de-talhe

REGRESSO AO PLANETA DOS MACACOS
Como se dele pudessemos escapar, eis que anuncio um regresso.
Na verdade, a silly season não mais foi do que um período intemporal, «a-histórico», revitalizante, por certo. Todavia, cá temos outra vez a Casa Pia e os heróis do segredo de justiça; um pugilato mediático-político revigorante, embora caduco, dentro do PS; a musculatura triunfal da gestão americana no Iraque, assim como os «raciocínios-bomba» bushianos,etc. etc.
Em bom rigor, temos mais do mesmo e até se descobrem novidades, como a condução do sistema em que assenta a educação em Portugal, mais a falta de respeito endémica pelos portugueses, sejam eles pais, professores ou alunos.
Isto soa um pouco a eterno retorno mas existem dados novos que deitam por terra essa aspiração dos menos convencidos. O Benfica vai em primeiro, as «women on waves» regressaram da pescaria à doca de Roterdam, o Bibi deixou de ser um homem solitário no seu processo, pela primeira vez Santana Lopes discursou na Assembleia Geral das ONU, pela primeira vez os nossos atletas nos Jogos Paralímpicos receberam ajuda para os ténis, etc, etc.

Em suma, temos um país dinâmico que não pára, está em movimento, towards sustainability, como é da moda. Mais, temos uma população mobilizada em torno das grandes questões, atenta ao desempenho (excelente do governo, diga-se de passagem) dos nossos governantes eleitos. Mais ainda, considero inacreditável quando se levantam vozes a colocar em causa o nosso querido torpor, afinal, o garante do nosso way of life.

Uma confissão: o que mais gostei de "O Planeta dos Macacos" foi o final pois é feliz. Nós somos aqueles e podemos dar-nos por muito satisfeitos....

31 de agosto de 2004

em de-talhe

LIÇÃO 1

A propósito da polémica do «barco do aborto» e do estoicismo com que o Sr. Ministro da Defesa e das Caravelas põe termo a um esboço de discussão democrática...

Ora bem, creio eu (com alguma dose de fé) que uma das noções clássicas de Estado de Direito aponta para qualquer coisa como circunscrição territorial com fronteiras definidas, com uma população residente (portanto mais do que uma pessoa ou família), seguindo uma ordenação jurídica que normatiza a vida em sociedade (para além dos mores e de todo o complexo axiológico, evidentemente). Isto, entenda-se, mais coisa menos coisa, evidentemente.
Acrescem as ideias/princípios de reflexividade, participação e liberdades, inerentes a um conceito de democracia, que apenas por razões funcionais e pragmáticas (entenda-se aqui que se considera mais que um indivíduo, a quantidade de unidades de carbono que constituem a tal população), faz apelo a um modelo de representatividade ao invés do clássico Governo do povo, próprio de uma democracia directa. "Somos representantes, sim, do povo", convém não esquecer.
Ora, apesar de tudo o que referi ser discutível (apesar ser pretensamente do domínio público), parece-me que até nem andarei excessivamente distante, eu, um simples e curioso cidadão que pouco mais fez na vida que passar férias (embora também gostasse de assumir cargos públicos de relevo). Nesse caso, se assim é e o reconhecemos como tal, não será no mínimo absurdo se me insurgir por exemplo, contra os "touros de morte" e quando um seu defensor prepara os seus discutíveis argumentos, eu rematar com "a questão está encerrada, não se fala mais do assunto, ganhei"? A mim, soa-me estranho. Noutros tempos, atitudes como esta eram imediatamente sinalizadas...
A mim, ninguém me questionou sobre brincar aos soldadinhos de chumbo ou à batalha naval com traineiras de um lado e bacalhoeiros do outro. Mas gostava de ter podido dar a minha opinião ou no limite e caso se proporcionasse, dar uma voltinha no bacalhoeiro e atirar pedras às hereges...

24 de agosto de 2004

os deuses também já foram homens

"E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bolados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também".

Soares, Bernardo (2001): Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio e Alvim, p. 115.

3 de junho de 2004

à tout propos (2)

EXPRESSIVIDADES CONTEXTUALIZADAS
Ao enveredar por este tipo de expressão cibernética, não posso esquecer outras formas de expressão de afirmação de uma individualidade, e por sinal se tornam para mim menos aliciantes, constituindo-se como pontos de auto-flagelação típica de um peixe sem guelras.
Falo, evidentemente do falar em público. Acontece que existem variadíssimas formas para falar em público. Ocupar-me-ei de duas apenas e que reflectem uma tipologia bastante simples:
1. Falar para audiências amigas;
2. Falar para audiências hibridas;
3. Falar para audiências hostis;
Concerteza que esta simplicidade não tem continuidade real pois que a realidade assume uma plataforma de multicausalidade que passa pela segurança, motivação, à vontade com o tema, satisfação de necessidades fisiológicas, etc, etc.
Quanto a mim, normalmente fico inibido quando tenho plateias de pessoas desconhecidas, ilustradas e/ou arrogantes. Creio que sucederá com uma grande parte das pessoas. Agora, se numas situações estamos em condições de devolver a arrogância, adoptarmos uma postura de superioridade ou ignorar os presentes, em outras circunstâncias tal poderá não ser sequer ponderável. Os prejuízos poderão ser imensos e manifestar-se a partir da tradicional «branca» ao vexame... Já vi ambas as situações, felizmente nunca passei por nenhuma.
Por outro lado, é extraordinário como alguns indivíduos conseguem elaborar um discurso vazio de conteúdo, desconexo, por vezes troglodita, sem que ninguém ponha em causa. Na política temos aos magotes, é certo. No próprio governo. E nós, quedamo-nos.
Talvez me tenha acontecido também a mim, sempre que me dirijo a pessoas, seja num colóquio ou numa reunião de trabalho. Talvez as pessoas não se estejam para se incomodar e pensem apenas: «este gajo....humm». E não pensem em mais nada, deixando as considerações críticas para um próximo que entre.
Assim, para os que não estiveram no dia 27 de Maio de 2004 no Colóquio «Globalização: Desafios Políticos, Jurídicos, Económicos e Culturais», sugiro que se dirijam a www.actae.uevora.pt e acedam a Working Papers.
Existe aqui um espaço para comentários, logo...