28 de outubro de 2004

em de-talhe

PURGAS NO PSD
A ex-ministra Manuela Ferreira Leite foi riscada das listas do congresso por não ter pago a última quota de militante e dizem eles que é dos estatutos... pois. Se não tiverem lá ninguém tanto melhor, como é de resto compreensível. Quando se é liderado por um indivíduo que só sabe qual é o seu lugar no congresso se alguém o lá levar... Quem terá mais sido impedido? Marcelo, Cavaco, Marques Mendes?... Ai os mariolas que se andam a esquecer de pagar as quotas... Quase que mais valia a pena dizer que não eram admitidas pessoas feias ou que falem pelos cotovelos. Seria muito mais honesto.

à tout propos (36)

O ESTADO-GUERRA

Há quem partilhe a opinião, segundo a qual, a política dos estados ocidentais está a derivar para a obcessão com a segurança, fazendo da guerra preventiva, da delinquência, desemprego ou epidemias, o instrumento recrutador de votos, o instrumento legitimador da barbárie e do próprio terrorismo.
Bom, com raras excepções naturalmente, cujo epicentro se encontra numa longínqua lingua de terra europeia a juzante de tudo e a montante de nada. Falo (não falo, escrevo...) evidentemente da obcessão com a comunicação social, e dos seus episódios rocambolescos, próprios de uma tourada à antiga portuguesa...
Em todo o caso, a ideia do Estado-Guerra como dispositivo capitalista de produção de ordem ao entender a guerra como ordem (e não um acontecimento excepcional) e como motor da economia, vai bastante além da sociedade de risco defendida por Ulrich Bech, visto não só assumir o risco como não enjeitar a ideia de o criar propositadamente.

Quem se interessar por estas coisas, vá a
http://www.espaienblanc.net/ .

em de-talhe

FALTA DE ORTOPEDISTAS
Ao que parece, Portugal enfrentará futuramente uma grave escassez de médicos ortopedistas. Como se já não bastasse a dificuldade em arranjar médicos que atendam num hospital público...
Mas existe solução! Porque não colocar professores de educação física e de biologia como assistentes de ortopedia? Acho que seria uma boa medida do governo, como é que não me lembrei disto antes?...

à tout propos (35)

DIA DA MEMÓRIA
Nós, que andamos sempre preocupados com as guerras dos outros, por vezes fingimos ignorar as nossas. Saímos prá rua porque os americanos matam dúzia e meia de iraquianos e não temos semelhante atitude perante a sangria que inflingimos uns aos outros, gratuitamente, nas estradas portuguesas (como se não bastassem já os péssimos exemplos de engenharia viária que aqui temos ou a inexistência de conceitos como planeamento ou manutenção). Tá mal! Por isso, aproveito para dar continuidade, neste local, à sugestão de uma amiga, a comemoração do dia mundial da memória.
No próximo dia 21 de Novembro celebra-se, em todo o Mundo, o Dia Mundial em Memória das Vitimas da Estrada. A organização deste evento está a cargo de várias entidades e cidadãos em nome individual, com interesse na área da intervenção social. Em Portugal, o ponto central das celebrações será em Évora, embora se espere que diferentes eventos ocorram um pouco por todo o país.
Em Évora, os diferentes eventos decorrerão, na noite de Sábado, dia 20 e Domingo, dia 21.
No Domingo, na Praça do Giraldo, irá ser construído um memorial em nome das vítimas das estradas. Símbolo do bem e do mal, a vara desde sempre foi utilizada pelos caminheiros como auxílio na busca do seu caminho. Neste dia, as varas irão simbolizar o caminho que ainda temos que percorrer para acabar com esta epidemia. Traga uma vara por cada familiar, amigo ou conhecido!
É que, não há memória...

à tout propos (34)



O mundo visto por Dick Cheney

à tout propos (33)



Whaam!, Roy Lichtenstein, 1963

O mundo, visto por George W. Bush

em de-talhe

RETIRADA DA FAIXA DE GAZA
A respeito da (in)decisão do Knesset - por iniciativa unilateral da parte do Likud fiel a Ariel Sharon - sobre a retirada do exército israelita da Faixa de Gaza, dizia com indignação uma colona judia, mais ou menos isto: «mas que decisões democráticas são estas em que o povo não é ouvido?»
Pois... em certas e particulares circunstâncias (quando confrontadas com direitos inalienáveis e universais), a democracia nem sequer resulta lá muito bem respeitando em absoluto essa ideia de espírito do povo, nomeadamente quando este revela uma propensão especial para a selvajaria e crueldade. Nesses casos, a populaça é o principal inimigo da democracia e de si própria.
E não é preciso radicalizar recorrendo a exemplos tristes como o do «povo eleito», quando aqui mesmo, em Portugal, temos com frequência manifestações da mais profunda e irracional bestialidade.
Por outro lado, é interessante notar como, após tantos anos de crueldade, o ancião general Sharon se prepara agora para assegurar o seu cantinho no céu...

27 de outubro de 2004

em de-talhe

COMISSÃO EUROPEIA
Mas ainda há dúvidas sobre a peixeirada que o nosso Cherne despromovido a um vulgar bacalhau provocou, em resultado das suas amizades com os mais reles girinos do sapal? Vais mesmo voltar... Nunca tal havia conhecido na UE, até que uma 5ª escolha para presidente da CE dá nisto. Parece que andamos a brincar ao «portugal» (jogo bastante didáctico para políticos com idade mental entre os 8 e os 10 anos), como se joga cá... Ainda não percebo como é que o não colaram desde logo às Lajes, asfaltando-o logo antes de levantar vôo. Aqui é que a malta pode convidar débeis, racistas e destacados membros da opus dei para o governo, sem que ninguém abra o bico. Aqui, andam todos com medo do que uma simples cagadela de pardal pode fazer ao telhado...
Mas se ainda insistem em chamar os peixes pelos nomes, nesse caso, só lhes posso chamar lapas do esgoto, uma espécie que se julgava extinta mas que, na verdade, surge com frequência nas fontes e canalizações de S. Bento.
Em nome dos portugueses decentes e minimamente racionais, devo um pedido de desculpas à Europa por não termos avançado logo com o nome de Salazar. Assim pelo menos ficava o ramalhete completo.

em de-talhe

O SONHO DE BARROSO
E se o sonho do nosso José Barroso se tornar um pesadelo? Amanhã, os seus amigalhaços lá da Europa vão-lhe dizer se ele pode ou não brincar a este jogo. É que um dos amigos de Barroso (o italiano dos saraus da Sicilia) tem fama de ser abrutalhado e como o pessoal é tudo gente fina e educada, está tudo aziado com o nosso valentaço porque continuar a querer manter o italiano na jogatana.
Num certo sentido até dá jeito, porque assim, alguém pode fazer o jogo sujo e mandar de uma vez a Turquia às urtigas (esses mouros selvagens que nunca hão-de ser como a gente).
O problema central nem seria tanto para a UE. O problema seria o que fazer com o nosso Zé. É que se ficasse no desemprego, lá teria que proceder à sua inscrição no IEFP para com sorte, ser chamado a alguma formaçãozita em access. Ou talvez se arranjasse um estágio profissional nalgum serviço periférico do Estado.
Mas como já estamos habituados aos finais felizes dos infelizes que temos na política, este cenário não passaria de um pesadelo sobre uma realidade que o Zé já teria rigorosamente acautelada quando negociou a sua saída do governo com o PR.
Como amanhã tudo correrá pelo melhor, podemos dormir descansados e acordar na certeza que teremos a terrinha livre de turcos, albaneses, homossexuais e comunistas.

26 de outubro de 2004

à tout propos (32)


ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS V
As presidenciais americanas entraram agora na fase da histeria colectiva, em que as duas barricadas matam ou morrem. Há muito que as questões essenciais deixaram de ser debatidas. Dos resultados, que as incontáveis sondagens teimam em prognosticar bastante apertadinhos, corre-se o risco de ver entrar metade dos americanos em profunda depressão. É compreensível e até podemos comparar com o que se vive em Portugal quando o clube do coração não ganha.
Acontece que, no caso de Bush vencer (mais ou menos fraudulentamente e apoiado pela metade necessariamente acéfala do país), a depressão transbordará para o resto do mundo. Depressão e chumbada para quem se portar mal...
Mas, à margem de histerias colectivas e depressões, não podia deixar passar em claro um zum-zum que me chegou aos sentidos, nem de o partilhar contigo. Nos comicios em que o candidato Bush tenta roubar a inocência a indecisos (em estados como a florida ou a pensilvânia, por exemplo), a sua chegada é precedida de um vôo rasante com o mítico air force one sobre o local, qual messias que se prepara para abençoar aquela gente. A aterragem é transmitida em directo para o local do comício enquanto milhares de pessoas agitam nervosamente bandeirinhas na expectativa de que com ele, desça do avião o Papa.
Mas, a homilia não termina aqui porque o messias dirige-se para o seu santuário e aí, um sacerdote encarrega-se de solicitar protecção divina para todos e para o presidente, rezando todos em conjunto.
É assim que sucede na grande e experiente democracia: um candidato utiliza os recursos que tem à mão para se auto-promover. Além disso, Deus está do seu lado porque propõe combater os infieis e além disso, combater os infiéis (muçulmanos, homossexuais, negros, etc.). A carneirada aprova e diverte-se enquanto engole uns quantos Big Mac. Por menos a nossa Edite Estrela levou logo com o «talha bestas», embora a manobra tenha sido mera publicidade. Mas pelo menos serviu de referência pedagógica para o que não deve ser feito. E se Kerry se lembrasse de pedir emprestado o air force one para fazer uns loops? Ah, mas não podemos esquecer que Deus e Bush são unha e carne. Só isso poderá explicar porque razão não se encarregou a própria natureza de desfazer equívocos à nascença.
Estado, religião, justiça e dinheiros públicos não são afinal competências indissociáveis? No pequeno mundo de Bush, sim. Esta perspectiva é aterradora se a considerarmos presente nas convicções de 150 milhões de pessoas do Império que nos regula e orienta as vidas. Pouco falta para ser ele o juíz, contabilista, presidente e padre de um país em generalizado estado zombie.


à tout propos (31)

RESISTIR
Para quem se interessa por questões da globalização, política internacional, democracia e direitos humanos, por que não ir até http://resistir.info/? Neste site encontram-se artigos de opinião sem contraditório, o que os torna muito mais interessantes.
Abaixo o contraditório!!

25 de outubro de 2004

à tout propos (30)

COLÓQUIO DIREITOS FUNDAMENTAIS - DESAFIOS PARA O SÉCULO XXI

ACTAE. CENTRO INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS
CONSELHO DISTRITAL DE ÉVORA DA ORDEM DOS ADVOGADOS
Jornadas sobre «Direitos Fundamentais: desafios para o século XXI»
LOCAL: ÉVORAHOTEL

PROGRAMA
29 de Outubro
Manhã
10h: Início dos trabalhos com algumas palavras prévias do Reitor da Universidade de Évora, Prof. Doutor Manuel Ferreira Patrício, do Presidente do Conselho Distrital de Évora da Ordem dos Advogados, Dr. João Vaz Rodrigues, e do Director de «Actæ - Centro Interdisciplinar de Estudos Políticos e Sociais», Prof. Doutor Silvério da Rocha Cunha.
10,15h: Dr. João Vaz Rodrigues (Presidente do Conselho Distrital de Évora da Ordem dos Advogados), «Homenagem ao Dr. Luís Nunes de Almeida, Presidente do Tribunal Constitucional».
Moderador: Dr. João Vaz Rodrigues.
10,30h: Prof. Doutor Olivier Feron (Universidade de Évora), «Republicanismo, Liberalismo e Direitos Fundamentais»
11h: Dr. Carlos Pinto de Abreu (Advogado, Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados), título a comunicar.
11,30h: Prof.ª Doutora Maria Eduarda Gonçalves (ISCTE), «Risco Tecnológico e Novos Direitos».
12h: Debate.
Tarde
Moderador: Dr.ª Ana Sofia Estanqueiro.
14,30h: Prof. Doutor Silvério da Rocha Cunha (Universidade de Évora), «Direitos Fundamentais e Responsabilidade num Mundo Global».
15h: Prof. Doutor José Manuel Pureza (Universidade de Coimbra), «Descolonizar e Democratizar os Direitos Humanos».
15,30h: Prof. Doutor João Pedroso de Lima (Universidade de Évora), «Figuras e Limites da Tolerância».
16h: Prof. Doutor Pierre Guibentif (ISCTE), «Os Efeitos dos Direitos Fundamentais Hoje. Elementos de uma Apreciação Sociológica».
16,30h: Debate.

30 de Outubro
Moderador: Dr.ª Paula Teixeira da Cruz.
10,30h: Prof. Doutor Francisco Soares (Universidade de Évora), «Direitos Humanos e Literatura».
11h: Dr. Paulo Teixeira Pinto (Advogado), «Do direito de Cidadania à cidadania do Direito».
11,30h: Prof. Doutor Mário Reis Marques (Universidade de Coimbra), «Direitos Fundamentais e Afirmação de Identidades».
12h: Debate e fim dos trabalhos.

à tout propos (29)



CONTOS DE LUA CHEIA NA SOCIEDADE HARMONIA EBORENSE
Para aqueles que ainda acreditam no pai natal; ou para quem se diverte com coisas simples, como por exemplo, uma histórinha de embalar.
Desta feita, com a contadora de histórias, Helena Faria.
28 de Outubro
Livraria Som das Letras: 18h00
Sociedade Harmonia Eborense: 22h00

22 de outubro de 2004

em de-talhe

ESCÂNDALOSO
Então não é que o futuro presidente da Comissão Europeia aceitou para comissário da justiça, liberdade e segurança, o italiano Rocco Bottiglione? Pior, não só aceitou a sua indigitação - perante a tempestade que o italiano tem vindo a fazer - como defende a sua integração. Podemos então dormir descansados porque teremos um ser ultra-conservador e reaccionário a velar pelos nossos direitos, liberdades e garantias.
Com sorte posso respirar, desde que não mexa no meu sexo nem olhe olhos-nos-olhos para o meu superior...
Isto só pode ser uma manifestação do eterno retorno, significando por isso o colapso da democracia (ainda que oligárquica) e o regresso à tirania!
Numa situação normal, numa democracia, o Sr. Presidente Barroso, nunca colocaria os seus interesses e ambições pessoais em detrimento dos interesses comunitários. Por isso, faz procissão de fé nas circunstâncias em que se devem assumir rupturas. Já o fez com a sua saída do governo português e agora volta a dar o ar da sua graça.

21 de outubro de 2004

à tout propos (28)


Campbell's Tomato Soup, Andy Warhol, 1968
Atenção, pessoal da régua e do giz, de aqui em diante vão passar a dar aulas de apoio aos senhores juízes deste Portugal. Ao que parece, os tipos não sabem nada de geografia, história, filosofia ou matemática - para além do português, que é paupérrimo - de modo que precisam de alguma ajuda para decidir processos judiciais, tá?
E é muito bem feito! Assim é que a justiça vai para a frente, com gente culta, instruída. Por outro lado, esses malandros dos professores que andam por aí na vagabundagem, vão começar a vergar a mola, agora é que vão ver as listas de colocações...
E tenho poucas dúvidas de que a resolução de processos complexos como o da «Casa Pia» ou o «Apito Dourado», por exemplo, vão passar a ser decididos enquanto o diabo esfrega um olho. Deixem-no esfregar os dois, se querem ver do que estes rapazes são capazes... E entretanto, os delegados do Ministério Público vão passar a ser capatazes de obras públicas porque estão habituados a lidar com hordas; ou então, porteiros de discoteca, para bater de uma assentada no réu e nos advogados de defesa.
Aposto que o Sr. Primeiro-Ministro não deverá ter andado muito longe deste tipo de raciocínio absurdo e néscio (salvo uma ou outra excepção), quando, em mais um momento de hilariante alucinação, lançou a boca dos professores assessores de juízes. Ou isso, ou foi mais uma interpretação errada das palavras de um membro do governo. Começam a ser demasiadas, se calhar é melhor nem falar, nem sequer pensar, porque desconfio que há por aí nozes metidas no crâneo de alguns, que em nada devem
ao conteúdo do quadro de Warhol...

19 de outubro de 2004

à tout propos (27)


Cabala, Luis Arroyo
CABALA (def.)
Cabala: s.f. interpretação alegórica do Velho Testamento, entre os antigos Judeus; espécie de ocultismo; [fig] maquinação; intriga; conluio (Do hebr. qabbalah, «tradição», referindo-se à tradição esotérica, pelo fr. cabale, «intriga»).
A qual destas interpretações se referia o Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares enquanto se enterrava no lodo, alegando um conceito contraditório e paradoxal como «cabala involuntária»? Cabala involuntária?
Alucinação por alucinação, eis o tipo de navegação que o senhor ministro andará certamente a empreender quando não está a dizer disparates:
Podia ser pior...

em de-talhe

AINDA A CENSURA...
Hoje, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, foi ouvido pela Alta Autoridade para a Comunicação Social, a respeito do caso «Marcelo».
Pasme-se, quando este indivíduo vem agora dizer que se tratou de uma cabala política contra o governo, orquestrada pelo próprio professor Marcelo Rebelo de Sousa, em conluio com os jornais Expresso e Público.
Convém contextualizar esta situação. Estamos a falar de um ministro e não de um vendedor de cebolas (com todo o respeito que me merece quem venda esse tipo de tubérculo); estamos a falar por isso, de um membro do governo a opinar para os órgãos de comunicação social em nome do governo, num local de alta carga simbólica e institucional e na condição de ministro dos Assuntos Parlamentares. Por estas razões, a posição revelada hoje pelo senhor ministro é extraordinariamente absurda e miserável porque é ele o principal responsável pela polémica gerada, ou pelo menos, é ele o rosto da mesma.
Foi ele quem manifestou, em representação de todo o governo, a sua indignação pelos comentários supostamente eivados de mentiras, proferidos por Marcelo, sugerindo que naqueles moldes (sem principio do contraditório) não seriam toleráveis. Como se não estivesse consagrada a liberdade de expressão, como se a opinião fosse sancionavel judicialmente, como se a pluralidade de opinião fosse proibida, como se o governo não fosse criticável…

Faço um apelo à memória para que não deixemos de considerar que este senhor não é nem um aprendiz de político (militante do PSD desde 1978, deputado à Assembleia da República entre 1979-83 e 2002-04, membro das assembleias municipais de Lisboa e Cascais, membro de diversas comissões parlamentares), nem o governo de que faz parte poderá mostrar ponta de ingenuidade na relação com a comunicação social, revelando minúcia e ardileza no trato com este sector: é a ascensão mediatizada a lideranças de clubes de futebol, câmaras municipais e ao governo pelo seu actual líder; são os cuidados evidenciados pela profusão de assessores de imprensa; é a ambição de criar um órgão regulador da informação, ou seja, um filtro… Não foi da sua casa de campo, no meio de um barbecue que vimos Gomes da Silva trajado de fato-de-treino a aventar palpites.

Cabala? Tiro no pé, é o que é… Se a comunicação social tivesse dado à situação o tratamento que o Sr. Ministro pretendia, nesse caso, o que seria? Perante tamanha irresponsabilidade só há uma saída e mesmo assim, da desconfiança e da instabilidade política (que a todo o custo o Sr. Presidente da República pretende disfarçar) não se livra este governo.

PS: ah, já agora, alegrem-se os que vão ver baixar o IRS e ver aumentado o salário. Mas, façam as contas os que poupam e os que têm créditos à habitação (que não são poucos), para verem no final do ano como pode ser paradoxal uma diminuição de IRS… é que, não há almoços grátis, dizia o outro.

PPS: disfarçar um elefante numa plantação de morangos, pintando-lhe as unhas de vermelho não é senão um chiste…

18 de outubro de 2004

à tout propos (26)

CENSURA
A propósito das censuras e das liberdades de opinião, aconselho a leitura do artigo de Graça Franco, publicado no Público de hoje. Ou então, ir a http://jornal.publico.pt/2004/10/18/EspacoPublico/O01.html

à tout propos (25)

NÓS E O AMBIENTE
Segundo sondagem feita a 661 portugueses (por telefone) pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para a RTP e o jornal PÚBLICO, a maioria dos portugueses está tranquila quanto aos problemas ambientais da zona onde vive. Na verdade, o lixo parece ser a única forma de poluição reconhecida pelos nossos concidadãos. Até podem cuspir saliva negra para um lenço branco, cair que nem tordos por ingestão de quimicos na alimentação, tudo, desde que não tenham uma lixeira ao lado da casa...
Coloco as seguintes questões: quem terá sido seleccionado e qual a representatividade da amostra? Será que o estudo se refere à faixa litoral centro e norte de Portugal, onde se acumulam 4/5 da população? Ou terão sido apenas inquiridas pessoas do Alentejo, da Beira Interior e de Trás-os-Montes?
Das duas uma: ou sou eu que sou excessivamente limpinho ou é esse imenso Portugal do progresso que se desenvolveu economicamente sem nada alterar no civismo e no respeito pelo meio ambiente. Deram as baleias todas à costa sem dar conta do lodo envolvente...
Viva Chernobyl, vivam os alimentos transgénicos, vivam as suiniculturas e os cursos fluviais que acolhem os seus dejectos, viva a barragem de Alqueva e as suas águas eutrofizadas que nem para regar são boas, viva a cultura da cuspidela e do papel pr'ó chão, vivam os carros estacionados dentro dos cafés e do emprego, vivam as cimenteiras, viva o contínuo esgotamento dos solos e a lavagem de tanques de petroleiros em alto mar, viva o abate das florestas e a desmatação irracional, viva Portugal!

Talvez, doravante, deva eu ser mais sujo...

17 de outubro de 2004

em de-talhe



ELEIÇÕES REGIONAIS
Na sequela de mais umas eleições regionais, é com enorme regozijo que constatamos estar perante uma «democracia» viva, bem de saúde e para durar no arquipélago da Madeira. 53,67% dos votos significam uma subida de 41 para 44 deputados à Assembleia Legislativa Regional da Madeira, atestando o amor demonstrado por todos esses madeirenses ao chefe: o culto do chefe...
Após anos e anos de incompreensível domínio - de um ponto de vista mais racional, menos selvagem - estes resultados só podem ser explicados por uma de duas hipóteses: ou os madeirenses vão às urnas com uma adaga enconstada ao parietal ou então é próprio, é cultural...
E não há-de ser qualquer tipo de sintoma insular pois os açoreanos não parecem ser por ele afectados...

em de-talhe


MAL ME QUER, BEM ME QUER
Garantida a prometida vigilância, assim como o caminho livre ao governo mais contestado (e mais cedo) e mais instável políticamente desde os loucos anos 80, podemos todos fechar a loja, ir de férias e confiar na visão milenarista deste homem, Quixote dos tempos modernos, apostado está em fazer valer as usanças da cavalaria andante contra sabe-se lá o quê.
«Vamo-nos afinal chatear porquê, se todos somos amigos, já os nossos pais o eram, tivemos os mesmos professores, trocámos namoradas e pertencemos àquela delicada e refinada nata? A populaça está habituada, é a sua condição, é o nosso passado, a nossa herança». E com isto, viva Portugal e vivam os churrascos hipócritas de fim-de-semana, a democracia do amiguismo bem à portuguesa, o lodo e o chicharro ideológico servido à gentalha pela TV!

16 de outubro de 2004

à tout propos (24)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS IV
E ao terceiro debate, a vitória anuciada dos frente-a-frente mais mediatizados propagou-se naturalmente às sondagens. Neste caso pode-se afirmar que Kerry maximizou ao máximo esta série de 3 debates televisivos, catapultando-se para níveis de aceitação e confiança bastante aceitáveis. Saiu de uma desconfortável e subalternada posição em relação ao seu oponente para a vitória clara em intenções de voto: quase todas as sondagens lhe dão a maioria, acima portanto dos 50 pontos percentuais.

em de-talhe



Malevich, Reaper on Red Background, 1912-13
Com todos estes imbróglios, ao menos ficamos a saber que a ideia de estabilidade não tem preço, ficando também a saber que o tal rigor depende de um indivíduo ter mais ou menos sede. Assim, o sr. reaper on red background bem pode começar a arrumar a tralha, meter lâminas no saco, porque não vai haver sangue, nem a Assembleia da República será dissolvida.
Nós por cá continuaremos nesta oligarquia com os casos Moderna, Casa Pia, apitos dourados, balda na Polícia Judiciária e na justiça, pressão sobre os órgãos de comunicação social pelo Estado, listas de colocação de professores, receitas extraordinárias para iludir o défice, código do trabalho, casas de campo para os Secretários de Estado mais fieis, portagens nas scuts, Orçamento de Estado devidamente amputado nas áreas basilares da saúde e educação, guarda-costas e assessores, aumento dos combustíveis, fim dos beneficios fiscais para quem poupa, processo tresloucado de nomeações políticas, o horizonte de despejos colectivos com a entrada em vigor da nova Lei do Arrendamento, propaganda eleitoral estatal, etc., etc.
E, a troco de quê? Animai-vos: 2% de aumento dos salários (que corresponde a 1% nos salários inferiores a 1000€ caso os funcionários públicos tivessem sido aumentados no ano transacto e a 0,7% nos salários superiores a 1000€, caso os funcionários públicos tivessem sido aumentados nos últimos dois anos) e diminuição do IRS, aquele imposto que ninguém paga em Portugal (para além de funcionários por conta de outrém). Estes tipos não têm a minima noção da realidade ou dos cidadãos comuns, suas angústias e dificuldades.
Por este andar das coisas, não tarda e vemos também o sr. Reaper com pulseirinhas de trapo nos pulsos, mais apostado em ter um resto de vida descansada, sem tumultos nem muitas chatices com que se preocupar... É conforme a sede...

15 de outubro de 2004

à tout propos (23)

DEBATE MENSAL NO PARLAMENTO
Uma breve nota apenas. Se o Primeiro-Ministro não é propriamente o paradigma da liderança forte, convicta, esclarecida nem o seu governo um modelo de sensatez e competência (como tem vindo a público e salvo honrosas excepções), o seu mais directo adversário político - para além de Marcelo Rebelo de Sousa - também não demonstrou atributos suficientes para fazer render o contexto que dera à costa no hemiciclo. A saber, a «Never Ending Story» da colocação dos professores e a pressão ministerial que ditou a demissão de Marcelo (demissão, na melhor das hipóteses). Com uma conjuntura tão favorável, ao PS era exigido uma prestação mais incisiva, mais desarmante, era, em suma, exigido colocar a maioria em sentido, causar-lhes apreensão, levá-los a coçar nervosamente as gravatas...
O que faria Francisco Louçã se tivesse atrás de si uma centena de parlamentares em acentuada produção histriónica? Sócrates terá que recorrer a outros mecanismos para além da simples oratória e improviso (que nisso perde com o seu rival pelas tias da Quinta do Lago), documentar-se convenientemente para saber onde fazer pontaria e aproveitar estas benesses que não acontecem todos os dias.

13 de outubro de 2004

em de-talhe


DEIXEM JOGAR A MALTA (II)

De bestas a bestiais ou de vilões a heróis... Após a demonstração que não, que os nossos campeões não estão para brincadeiras ao cilindrarem esta noite o Liechtenstein, perdão, a Rússia (com uma abada de 7 a 1), teremos amanhã todo o tipo de publicações desportivas e não desportivas a elevar aos céus os mesmos que haviam crucificado. Da Bola ao Expresso, passando pelo Jornal de Letras, Artes e Ideias ou pelo Semanário Económico (desconfio que os gajos do Le Monde Diplomatique também estiveram em Alvalade). Lá enaltecerão uns o espírito de grupo, outros falarão das fintas do C. Ronaldo e da magia de Deco, enquanto para alguns o que conta seria a privatização da selecção e cotar as acções em Bolsa.
É curioso como, em estimulando a imaginação, vejo distintamente uma enorme massa amorfa em movimentos pendulares que oscila com a natureza dos ventos. Como quando submersas, as algas dançam ao sabor das correntes. Amanhã os nossos rapazes vão ter as estátuas de volta pois se reconciliaram com o pessoal. É bonito.Parabéns ós gaiatos.

Vislumbro no entanto, um início de fim-de-semana a seco: a selecção venceu por isso não se pode dizer mal; o Marcelo está de férias ou o gato comeu-lhe a lingua e apesar de tudo o Primeiro-Ministro continua em campanha eleitoral. É preocupante... e do que é que a malta da comunicação social vai falar? ALguma coisa se há-de arranjar...
Lá dizia com estonteante profundidade, o namorado de uma prima minha:

Há ondas que vêm
Há ondas que vão
Umas que trazem peixe
e outras... principalmente

12 de outubro de 2004

em de-talhe



William Blake, The Blasphemer, 1825
«E nesse momento, sacando a mesmissima nota de 5 euros que trazia no bolso desde o início da noite, acometeu já ébrio em tamanha fanfarronice contra o bar e gritando bem alto como se certificasse de que os mais o ouviam, proclamou: - atenção, pessoal, a rodada do IRS pago eu!» Desafortunadamente, no preciso instante em que foi dada ordem ao barman para não servir mais nada. Já era tarde e mesmo que se conservasse aberto o bar, estava tão roto o pessoal que nem mais um trago descia. E lá conservou ele a sua notita.»
Hoje tivemos uma comunicação do Sr. Primeiro-MInistro, fora do espaço consignado a Tempo de Antena, sem que uma circunstância em particular o justificasse e pior, sem contraditório...

11 de outubro de 2004

à tout propos (22)

SONDAGENS
Após a afluência em massa a três sondagens de opinião que decorriam em simultâneo neste nosso espaço, e tendo sido respeitados todos os preceitos da validação sociológica da coisa - com amostra representativa e tudo - surge o momento esperado da divulgação dos resultados. Mas antes ainda, não podia deixar de agradecer a todos quantos colaboraram com estas sondagens e em especial aos que votaram mais que 5 vezes em cada sondagem. A todos agradeço com eterno carinho.
Assim, a primeira questão referia-se à probabilidade de o PS continuar a governar em Évora e ao que parece, o eleitorado eborense encontra-se muito dividido pois 1/3 dos votantes respondeu não embora 1/5 tenha afirmado com convicção que Zé Ernesto vai ter que continuar a lutar com os seus antigos camaradas e com os actuais. É também 1/5, a proporção do eleitorado indeciso.
Muito mais estranha é a votação referente à abstenção eleitoral, tema a que me dedico meia hora por dia com afinco sempre que me acho na casinha. Os resultados não deixam margem para dúvidas: 60 % dos votantes declaram não ter votado porque não lhes apeteceu. São uns mansos que se desculpam com o «estava muito trânsito» (pois, num Domingo em Évora é engarrafamento pela certa na entrada do Feira Nova) ou com «tinha muito que fazer» (pois, como ver a bola, coçar a micose no sofá, tirar uns macacos do nariz e atirá-los às louças da avó Julieta). Enfim, uns mansos. É que nem uma só alma - dentre milhares de votantes - confessou que não votou porque o raio da política é só fezes ou então porque todos juntos não fazem um. Nada, um deserto.
Finalmente, quanto à questão que incidia sobre a actuação do Presidente da República, vejo que tenho aí uns laranjinhas infiltrados... 60% dizem estar de acordo com a manutenção do governo pelo que terá o Presidente feito muito bem em dar o ceptro ao Rei da Cananga do Japão. Ainda houve 30 % que estavam partidários de novas eleições.
E como se pode ver, é este blog uma coisa muito democrática. Por isso, é altura de substituir estas votações por outras. Uma certeza: o rigor tendencioso na parcialidade está desde já garantido...

à tout propos (21)




Afinal, também ele se foi... Boa viagem de regresso a Kryptonite!

10 de outubro de 2004

em de-talhe



DEIXEM JOGAR A MALTA!

Após mais uma (...) prestação da selecção de futebol, agora diante do poderoso Liechtenstein, eis que de novo surgem os inevitáveis comentadores de futebol que vociferam a sua ira contra os nossos campeões. Os mesmos, note-se, a quem invariavelmente se beijam os pés quando sabe a vitória. É certo que aqueles tipinhos com a cabeça nos pés, que se dão ares de importantes; que ganham bom dinheiro; que combinam uma calça de tirilene da boss com uma camisa de seda côr-de-rosa da armani - resguardando a tatuagem sioux logo abaixo do pescoço - e coleccionam «espirituosas» babes em robustos bólides descapotáveis; e que são solicitados para de tudo fazer diante das câmaras, em género do habitual biscate popular; são enfim, expostos à mais impia inveja. O que é desagradável. E tudo por apenas fazerem o que gostam mas tal agravo não me parece razão para tanto, já que de oiro não são feitos (embora se perceba que deles precisam como pão para a boca essa corja que lhe gira na órbita).
Não se percebe pois, porquê tanta indignação, tanta exaltação, uma vez que uma observação menos apaixonada conclui que, casualmente ou não (nem me interessa), com Scolari, o futebol praticado pela selecção é feioso, sensaborão e infindavelmente embrulhado. É usança antiga dizer que com o tempo, os animais da quinta se acostumam ao manageiro...
Mas são duas as excepções encontradas a este registo, a esta forma muito peculiar de jogar mas que não têm que ver senão com as próprias características dos adversários em causa e com o contexto: de acordo com a cartilha de um bem documentado Gabriel Alves, temos o particular com o Brasil, uma equipa simbólicamente forte, irrepreensível técnica e tacticamente, cujo balanceamento natural para o ataque, levou Portugal a sentir a necessidade de se retratar ante tão poderoso adversário (queríamos mostrar que também somos capazes de semelhantes façanhas); e com Inglaterra no Europeu caseiro, tendo os insulares feito os «infantes» portugueses correr e correr muito, em infindável estopada para os de sua Alteza que no final já nem atinavam com o buraco do frango. Ou seja, dois adversários que, pelo seu estilo de jogo e pelas circunstâncias (necessidade de afirmação e emancipação ante irmãos desavindos e aliados com alforges do tamanho de Portugal), matizaram o jogo de Portugal e não o contrário.
Por isso mesmo, sempre que se pede aos partidários das quinas para conduzir o jogo... «xiiii patrão»... Confesso que não raras vezes adormeço, quando vejo alguns dos jogos. Aliás, tive oportunidade de ver o jogo em Leiria, com a Estónia (ou seria a Letónia?) e, só por vergonha não cabeceei um ou dois ombros ali mesmo... Mas também, seja reposta a verdade das coisas, pois se era para dormir tinha ficado em casa, porque obrigado ali não fui.

Assim, temos uma equipa de qualidade inferior (apesar do valor técnico e comercial de cada jogador, dizem as calendas gregas que para equipa não basta ter um conjunto de pessoas, há que lhe ajuntar massa consistente), com um tipo de jogo pobre, embora com o intenso brilho que só uma constelação pode providenciar.
Acresce a preocupante falta de alternativas. Em 2004, jogamos 3 vezes com a Grécia e só conseguimos empatar o primeiro, em Portugal, jogando eles durante grande parte do tempo com 10. Nos restantes, o desfecho é conhecido... Há que admirar a persistencia táctica, a irreverência, o não prescindir de valores ancestrais nem ceder a pressões originadas na mais profunda ignorância. Repito, eles é que lá sabem do seu ofício, como vós sabereis do vosso...

Em suma, face ao que está, nem sequer podemos falar em desilusão porque a quem mais não sabe, a mais não é acometido. O raciocínio argumentativo é semelhante a este: nós, cá na terra, jogamos andebol de muito má qualidade, mas como as mazelas e os ténis são por nossa conta, as 13 ou 14 pessoas que lá vão também não protestam connosco; preferem protestar com os gajos vestidos de preto (pois os não vão ver mais nenhuma vez durante largos tempos), despejando todas as frustações que se acumulam durante a vida no trabalho, com os filhos, com os futebóis e o homem das farturas.
Com aquele tipo de atitude característico dos raçudos da bola vai-se a nenhures, e quando tudo somado - jornalistas + cheiro a cavalo - o resultado é ainda menos honroso. Por vezes, até dá pena ver pessoas naqueles preparos... Com a mesma destreza com se lá vai, com que se liga a televisão, também é possível ir a outro lado ou mudar de canal. O desporto agradece. O Liechtenstein também. Bravos demais para amadores... ou não?
Eu, da minha parte, sempre tive simpatia pelos Davids quando encaram com os Golias deste mundo, que só por serem grandes têm a mania que têm o rei na barriga. E depois... lixam-se!

9 de outubro de 2004

à tout propos (20)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS III
Decorreu esta noite, o segundo de três debates entre os candidatos democrata e republicano à presidência norte americana (na qual, recupero as palavras de um amigo, também nós deveriamos votar...). Se o primeiro debate se saldou numa vitória clara de John Kerry, o de esta noite terá terminado empatado. Mas, caso tenhais notado, o cenário é totalmente diferente assim como o figurino, ie, se no primeiro debate, os candidatos permaneciam sentados a expor as suas ideias, neste, houve uma grande margem para convencer in situ, os eleitores indecisos que disparavam pálidas questões da plateia.
Os media americanos consideram que este Bush foi melhor do que o primeiro e a esse facto não é alheia a propensão do actual presidente para o espectáculo, para as proposições directas, minguadas intelectualmente, simples e segmentadas binariamente. A aceitação do eleitorado americano é evidente, este estilo facilita a escolha e não estimula o raciocinio. Acresce que este figurino favoreceu a simia linguagem corporal de Bush em detrimento de Kerry, naturalmente menos dado a circos madeirenses. Como as semelhanças são incríveis, da Madeira a S. Bento... O povo diverte-se com as piadinhas do texano e lá em casa, pode acompanhar o debate com o som do televisor em mute, enquanto ensaia uma das famosas entradas de John Wayne num saloon.
Teremos que esperar pelo terceiro debate, pois tal como James Poniewozik refere na Time, «much like the TV networks during the baseball playoffs, the political media has an interest in making sure there's a decisive rubber match». E isto diz tudo. Ainda se admiram de em Portugal se fazer caso de uma central de informações e da impudente obcessão com o controlo da informação? Já Emídio Rangel dizia...

8 de outubro de 2004

os deuses também já foram homens



Não poderia jamais e em tempo algum, alhear-me das comemorações dos 25 anos desta carreira cheia de êxitos, por isso presto-lhes aqui, naturalmente, a minha homenagem. Foi em 1986, na casa de um bom e dilecto amigo, que contactei pela primeira vez com os Xutos. Na ocasião, foi este single, não tinhamos 12 anos feitos. Tanto uma como a outra faixa continuam a ter um sabor muito especial, não fazendo olvidar sentimentos e valores que ajudaram a despertar. Os mesmos que nos acompanham irremediavelmente.
Com eles, cruzo os meus braços e também os elevo em desafio aos céus.

em de-talhe

ANDEBOL NACIONAL
É inqualificável o que se está a fazer ao andebol português. O andebol deste portugal está a morrer à mão do mais mesquinho, asqueroso e irracional que que podemos encontrar entre a fauna da Federação de Andebol de Portugal e, por que não também, da Liga.
Mais uma vez, perdem os praticantes profissionais, os amadores (entre os quais crianças em idade de formação), os amantes desta modalidade e o país. Tudo em nome de interesses pessoais e ignóbeis!
Afinal é qualificável esta situação...

à tout propos (19)

SABES BEIJAR?
«É a loucura, loucura controlada»... Hoje de manhã, enquanto tomava apressadamente o petit-dejeuner e durante o intervalo do programa de notícias que diariamente me liga ao mundo, eis que surge um anúncio do género «make friends & brides». Então não é que, se ligarmos para o 3939 (ou algo do género), temos a possibilidade de receber detalhados ensinamentos sobre como beijar?
É óptimo para as nossas criancinhas e para muitos adultos que passaram ao lado das matinés, das traseiras do gimnodesportivo, do banco de jardim ou do banco de trás. É claro, os paizinhos que se preparem quando chegarem as facturas...
No entanto, é possível sequer imaginar a cara de felicidade de filhos, irmãos (e até esposos) quando receberem o certificado de qualidade ISO 969, que os habilita a dar melosos e penetrantes beijos? Mais, e a alegria que eles próprios darão aos companheiros que criaram em tempos expectativas e as viram defraudadas? E a miúda que pensa seres ainda um piolhoso que só pensa em piões e berlindes?
Aliás, lembro-me inclusive do caso de um amigo meu, que do alto dos seus 13 anos, renunciou a uma beldade da altura, na mata da escola porque ela não sabia beijar. Na verdade, após várias e infrutíferas tentativas de com ela trocar fluídos salivares, acabou por desistir, profundamente desagradado. Aquilo mais parecia daqueles beijos à Jane Wyman e Regis Toomey, nunca mais acabava, na cabeça dele.
Hoje, talvez estivessem casados, se à época existisse um serviço assim.
Mas, a meu ver, este serviço tem contrapartidas que me suscitam dúvidas. E se, à medida que vão dominando o repertório de beijos e a panóplia de técnicas, os utentes deste serviço deixam de fazer daquelas distinções fundamentais e espetam com um linguado numa cerimónia oficial ou quando cumprimentam a amiga da mãe lhe contam os dentes com a lingua?
Mas pelo menos, já sabemos que para o desemprego é que Santana Lopes não vai (sim, porque ao lado das matinés ele não passou), caso a Assembleia da República seja dissolvida pelo PR.

7 de outubro de 2004

à tout propos (18)



Em que estaria o mestre Almada Negreiros a pensar quando pintou esta nau?...

em de-talhe

A CENSURA DE MARCELO
O PM bem se esforça por dizer que não há censura em Portugal, revelando que, ele próprio sempre terá encaixado, ao longo de 20 anos de vida política, as mais variadas críticas. Esclarecedor!
Só que, nesta altura e como previsto, são alguns dos altos militantes do PSD a mostrarem-se incrédulos, aceitando inclusive a hipótese de haver, de facto, censura política ao Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Estão neste lote, políticos como o Prof. Aníbal Cavaco Silva, Marques Mendes, Leonor Beleza, José Pacheco Pereira, Luís Filipe Menezes ou Teresa Gouveia.
Como era previsível, o PSD é aos poucos conduzido à implosão. A esquerda agradece a Durão Barroso, aliás José Barroso. O país também agradece, por ter que aturar isto e pior, pagar os devaneios desta gente, deste desgoverno.


em de-talhe

MARCELO E O XVI GOVERNO CONSTITUCIONAL
Há escassos meses, quando Sampaio decidiu nomear o XVI Governo Constitucional, não obstante toda a polémica gerada em torno de um Primeiro Ministro forjado à martelada, tudo fazia crer (desde os mais críticos aos mais moderados), que haveria festa noite e dia. Assim sucedeu.
Como não bastasse a falta de legimidade eleitoral da maioria governamental (apesar de as legislativas elegerem deputados à AR, é indiscutivel a sua mediatização em torno do líder), junte-se a falta de legimidade política. É que, para além de Santana Lopes se ter candidatado em múltiplos congressos a presidente dos sociais democratas, e de nenhum deles ter logrado sair vencedor, o processo de eleição na Comissão Nacional foi condicionado pela necessidade de validar um presidente apressado pela pressa de outro. E, diga-se de passagem, não se compreende porquê escolher Santana Lopes, o tal que a dada altura chegou mesmo a anunciar o seu abandono após se ter sentido vítima de assassínio político, conforme se queixou ao PR (ele, político profissional); o mesmo que trocou profundas e víscerais divergências com Durão durante o congresso que consagrou o último como Presidente do PSD.
Mais, depois das brilhantes prestações na Câmara Municipal de Lisboa, na Figueira (lamento mas construir ao arrepio das mais elementares normas de equilíbrio financeiro e ambiental é o mesmo que pagar 750 euros de mensalidade por um BMW, quando se aufere um vencimento de 1000) ou na Secretaria de Estado da Cultura (de tal forma que no mandato seguinte, Cavaco promoveu Durão a Ministro e presenteou com bilhete de volta o nosso actual PM)?
Mas enfim, esta é apenas uma pequena parte deste triste episódio. Sem me querer alongar em demasia, cedo este governo deu mostras da sua impreparação, da sua incapacidade para governar. Falamos, em concreto e só para enumerar os mais graves, da desproporcionalidade e arrogância com que foi tratada a questão do barco do aborto, dando o dito por não dito, como de resto, tem sido apanágio deste elenco governativo, uma governação tacteante do género «vamos lá ver se pega»; falamos também da incompetência revelada pelo Ministério da Educação (a Compta já se demarcou, comunicando que os erros ocorridos resultam de sucessivos input's para os quais o programa não estaria inicialmente preparado), e do acentuar da atitude distanciada e reveladora do mais profundo desrespeito pelos profissionais do sector; e sem entrar em detalhe, ocorre-nos os episódios Nobre Guedes e Galp, Celeste Cardona na CGD, a extraordinária obcessão com segurança privada, generalização de assessores por medida, nomeações compulsivas na administração pública, receitas extraordinárias para iludir as estatísticas europeias, sem contabilizar evidentemente todos os episódios que já entraram para a imagem de marca deste governo a dois, como tem feito questão de salientar o antigo número dois, Paulo Portas dos marinheiros e das alforrecas.
Há um par de dias, o próprio governo levantou mais um caso, dando uma demonstração em toda a linha da sua inaptidão política, através do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Silva. É claro que o princípio do contraditório deve ser, sempre que possível ou desejável, assegurado. Mas essa é uma questão ética e mais se torna quando se trata de um operador privado de televisão. Aquele era o alinhamento desejado pela TVI (ou se calhar já o não era assim tanto, mas isso é outra questão que ainda se poderá revelar bem mais grave) e nem que passasse o «Show do Ratinho», o âmbito de intervenção do governo seria nulo, desde que inscrito no quadro da legalidade, é evidente. Não era esse o caso e em Portugal não há delito de opinião. Quanto muito, seria caso para a Alta-Autoridade para a Comunicação Social.
Todavia, ao nível do governo, os comentários do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa constituíam realmente uma séria ameaça, no plano da influência política, ao nível da criação de factos políticos. É que, com a fluidez oratória que lhe é reconhecida, com a facilidade em converter a linguagem técnica e pesada em proposições simplificadas, Marcelo chega às massas, às massas que se distanciam cada vez mais da política. E agrada-lhes porque sabe organizar um raciocínio crítico e sabe como passar a mensagem, dominando todas as técnicas do audiovisual e irritando profundamente os visados (não pela linha argumentativa, bastante mais desenvolvida por Pacheco Pereira, mas sim pela incapacidade revelada em o enfrentar naquele terreno, perante aquela audiência). Assim, num registo deliberadamente popularucho, Marcelo Rebelo de Sousa influenciava inclusive a agenda política e fê-lo durante quatro anos e meio. Não obstante, durante este período, doesse a quem doesse, cada macaco repousava silenciosamente no seu galho...
Não cabem aqui as motivações ou as estratégias do Prof. Marcelo, no entanto, o espaço domingueiro em que opinava era tão legítimo quanto o são as inúmeras colunas de opinião que povoam os nossos jornais. Os princípios são exactamente os mesmos e dependem única e exclusivamente da linha editorial definida pelos órgãos de comunicação social. Neste caso, não é o conteúdo mas sim o canal que está em causa e a sua amplitude de distribuição.
Ao bater com a porta, cujas verdadeiras razões estão ainda por apurar, Marcelo criou o derradeiro facto político e o governo em peso tornou-se um autêntico martelo pneumático a perfurar em terreno lamacento. Perante isto, basta à oposição adoptar uma postura embaraçosamente espectante pois melhor, era difícil.

6 de outubro de 2004

à tout propos (17)

ALMAPLANA
Almaplana estarão hoje no novo programa do canal 2 dedicado à música moderna portuguesa. O programa chama-se "Lote 9" e insere-se na rubrica diária da estação dedicada às "Universidades", onde algumas destas são responsáveis pela realização de um programa semanal. O "Lote 9", da responsabilidade da Universidade Independente, passa às 4ª feiras, (01H00 já de Quinta-Feira) e tem como grande objectivo apresentar bandas ainda desconhecidas do grande público.
Tel.: (00 351) 919908272

em de-talhe

PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

A democracia representativa portuguesa, ao contrário do que por vezes se possa pensar, assenta num sistema pluripartidário, no qual são reconhecidos como partidos ou movimentos políticos (a concorrer em eleições), mais de duas dezenas de agrupamentos, apesar de apenas 5 com assento parlamentar. Na prática, já o sabemos, o nosso sistema tende ao bipartidarismo em torno de dois grandes partidos que alternam entre si o governo do país.
Mas a actividade parlamentar não se resume ao governo nem à aprovação de leis. Cada grupo parlamentar desenvolve diariamente trabalho de apoio para as diversas comissões especializadas, de inquérito, assim como para novos projectos de lei, etc., etc.
Ora, a ideia de um sistema representativo pluripartidário implica, na minha opinião, duas características fundamentais. Em primeiro lugar, dá voz às diversas sensibilidades assim como às especificidades e clivagens de grupos sociais, territoriais, profissionais, etc. No mesmo sentido, permite de algum modo suster um ou outro leve ressaibo que soe ao que Tocqueville denominou «tirania da maioria». Em segundo lugar, a presença de diversos partidos fomenta o debate ideológico, alarga o objecto da discussão, matiza a agenda política.

Com a queda do muro de Berlim, a dissolução da URSS, a consolidação crescente da economia de mercado, o alargamento dos princípios democráticos inclusive a países provenientes da cortina de ferro, a entrada de alguns deles na OTAN e na UE, entre outros factores, torna-se claro que o mundo mudou. No caso português, as transformações sucederam-se como o dia sucede à noite, desde a entrada na União Europeia à ratificação da Constituição Europeia a ter lugar muito brevemente. Com aquelas mudanças no plano internacional é instaurada uma nova ordem mundial, na qual se configura uma nova hegemonia cultural, económica, política, bélica. Só que, entretanto, o mundo já havia mudado (e continua em constante mutação) desde o Manifesto do Partido Comunista, em 1843. Ele foram guerras mundiais, ele foram direitos cívicos, sociais e políticos conquistados (consoante os países), foram guerras invisíveis, a crescente complexidade das sociedades com as divisões sociais do trabalho e sequente necessidade de especialização, a assunção da sociedade de informação, etc., etc. Contudo, o projecto comunista não sofreu alterações (não se trata de rever toda uma teleologia, toda uma ideologia da emancipação), não houve lugar à redefinição da clássica luta de classes em torno dos meios de produção no sentido de alcançar uma sociedade mais justa e igual. O mundo continua simplistamente dividido entre oprimidos e opressores, entre burguesia e proletariado. E estamos a falar da mesma sociedade onde os dois partidos do poder focalizam os seus discursos numa imensa classe média (dificil de discernir onde começa e onde acaba); onde a mobilidade social conheceu uma dinâmica inaudita; onde o acesso à educação foi democratizado e massificado; mas também, onde o Estado tem vindo a ser espoleado...

Por outro lado, são conhecidas as circunstâncias com que o PCP se debate, ditadas a partir de fora mas também de dentro: os maus resultados eleitorais sucedem-se (perda de deputados à AR, perda de câmaras municipais, desvio de votos para o BE e para o PS), dissenções renovadoras dentro do próprio partido que apelam à exigência de redefinição adaptativa às novas realidades (conduzindo à dissidência e até à expulsão de militantes históricos), o aumento da abstenção eleitoral, contemporânea da despolitização das sociedades, a crise verificada nos partidos políticos que ocorre a par de um fenómeno de personalização da política (e sabemos como o PCP é dentre todos, o partido político com a mais consistente estrutura organizativa...). É claro que não devemos obliterar todo o trabalho que nos últimos 30 anos em democracia (para não falar da extraordinária luta que levou a cabo no exílio, nas prisões, em caves, contra a ditadura fascista), o PCP desempenhou ao nível do governo, da acção parlamentar mas também no plano local, no apoio às populações mais excluídas. Mas era esse o seu papel, tal como, de outro modo, o é a acção da Santa Casa da Misericórdia, por exemplo.

Ao anunciar, a um mês do congresso (6 de Novembro), a sua indisponibilidade para continuar à frente dos destinos do PCP, Carlos Carvalhas cria uma crise de sucessão? Ao que parece, a sua decisão era conhecida pelo Comité Central há um ano. Entretanto, quando ainda não passaram vinte e quatro horas sobre o anúncio, eis que a comunicação social apresenta um forte «candidato», Jerónimo Sousa. Se as decisões dentro do PCP são publicitadas com um ano de desfasamento, nesse caso, o sucessor de Carvalhas na liderança do PCP é conhecido há já bastante tempo, sendo o congresso apenas um pró-forma.

A opção pela continuidade apresenta um risco imediato para um sistema de representação pluripartidária: o acentuar do enfraquecimento que o PCP enfrenta. A ruptura também não me parece solução, até porque existe todo um espaço político ocupado por outras forças partidárias (embora nesta altura, a esquerda à direita do PCP conheça interstícios desocupados...).
Em ordem a retomar o preâmbulo, a democracia representativa precisa de vozes fortes que se constituam como alternativa e reflictam as diversas clivagens ideológicas existentes na sociedade, concentrando-se porém na resolução de questões concretas. Daí ser absolutamente necessário para a qualidade da nossa democracia a existência de um PCP forte, dinâmico e actual, que não contribua para a redução do debate, que não estimule unanimismos. Reduzir o tempo de reprodução de uma cassete para 60 minutos obriga apenas à troca da mesma em menor espaço de tempo, o que poderá significar a saturação. Ora, é isto que já sucede para uma grande parte dos não militantes comunistas e o reflexo disto observa-se claramente nas urnas. Não me parece que os fracassos eleitorais do PCP se devam necessariamente à qualidade das propostas partidárias oponentes (que estaria sobreavaliada). Também não me parece que o aumento de militantes insatisfeitos se deva unicamente a lutas pelo poder ou à orfandade de um líder carismático e histórico como Álvaro Cunhal. Jerónimo Sousa nem é um líder carismático nem representa uma linha alternativa às actuais soluções, com a qual os eleitores comuns se possam identificar (seja Jerónimo Sousa seja outro seu camarada fiel à doxa, pura e crua, tal como veio ao mundo).

A questão essencial é esta: está o PCP actual em condições de responder às exigências da sociedade portuguesa, apresentando um projecto concreto e incisivo que sirva a mesma?
Isto porque, independentemente de projectos de emancipação global desta ou daquela ordem (que não devem ser escamoteados, configurando-se antes como guias), os partidos políticos não devem, em contrapartida, perder de vista o contexto em que evoluem nem a interacção com as massas, entretanto a rodopiar no centro de um imenso remoínho que as atrai inequívocamente e as engole indiferencialmente...
Ora aí está uma excelente oportunidade. É esse o grande desafio que se põe ao PCP: rejuvenescer o projecto, agilizar e vitalizar a intervenção, sem com isso perder a sua identidade.

4 de outubro de 2004

à tout propos (16)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS II

Já aqui havia dado conta de alguns aspectos eleitorais menos claros no estado da Florida, nomeadamente a eliminação das listas eleitoriais de 22 000 afro-americanos e 61 hispânicos. De acordo com a lei eleitoral daquele estado, os indivíduos condenados por crimes perdem os seus direitos cívicos e só os recuperam após cumprida a pena. Democrático, não?
Entre estes, contabilizam-se cerca de 600 000 indivíduos. O caso dos afro-americanos e hispânicos é diverso porque implica a eliminação das listas eleitorais, sem passar na «casa partida e sem ganhar dois contos»...

O interessante é quando é conhecido o tradicional apoio político dos afro-americanos aos democratas e dos hispânicos aos republicanos. Mais, é no mínimo estranho aquele rácio, quando as proporções de população criminal e as outras, respeitantes àquelas comunidades étnicas, não se cifram certamente em cerca de 361 afro-americanos para cada hispânico. Com Porto Rico, Cuba, República Dominicana ali tão perto? Com a linha de fronteira com o México diariamente em pé de guerra?

Por outro lado, continuam os problemas com o sistema de contagem de boletins de voto na Florida. A polémica veio para ficar apesar de substituídas as máquinas de cartões perfurados pelas de ecran tactil (depois da célebre recontagem manual de votos em 2000, a pedido do candidato derrotado Al Gore). A razão? As máquinas não emitem o recibo de voto, o que significa que nem o eleitor se certifica de ter a máquina registado correctamente o seu voto, nem é possível verificar os resultados calculados pelo sistema de contagem de votos.
Assim vai a democracia por aqueles lados. A velha Europa que se cuide...

3 de outubro de 2004

à tout propos (15)

DO URÂNIO EMPOBRECIDO
Todos sabemos quais as consequências de uma guerra, não só para os militares, infraestruturas de um país, como para os civis: desde o normal curso de guerra em que se conquistam e perdem posições até ao mais vil de um ser humano quando tortura e viola um seu semelhante.
Pois, todos sabemos, estamos cheios de ver em filmes, noticiários, histórias de pais e tios, livros, etc., etc.
Mas, saberemos realmente? Quanto muito imaginamos e em alguns casos, podemos eventualmente suspeitar...
O site que vos proponho, enviado por um meu amigo, relata e mostra imagens chocantes do que poderão ser as consequências do urânio empobrecido utilizado em armamento de guerra. Sim, esse mesmo urânio que inclusive os nossos militares pretendem a todo o custo escamotear... Faço minha, a chamada de atenção para os mais sensíveis.
Nem a propósito, volvidos quase dois anos, já alguém descobriu onde se encontram as presumíveis armas de destruição maciça que justificaram a intervenção no Iraque? Talvez o site responda...
Tirem as vossas conclusões, como sempre...

2 de outubro de 2004

em de-talhe

A REFORMA DE CAVACO SILVA
Agora com 65 anos, segundo notícia do Expresso, Cavaco Silva vai-se reformar do cargo de Director do Banco de Portugal, com uma reforma inferior a 3 000 euros, portanto, ao nível de um Presidente de Câmara num concelho de média dimensão. Estamos a falar de Anibal Cavaco Silva, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Católica, Primeiro Ministro de Portugal entre 1985 e 1995.
Um tal Mira Amaral, chegou a ser ministro de Cavaco Silva, enquanto Administrador da CGD, vai amealhar mais 18000 euros por mês, certo?
É interessante a lógica dos salários na Administração Pública, quando se conhecem estes fait divers ou outros, como os já tradicionais casos de acessores que auferem mais que Primeiro-Ministro e Presidente da República.
Mas é tanto mais interessante quanto o facto de ser cada vez mais certo o nosso conhecimento em como estes casos sucedem, como indivíduos medíocres chegam a altos cargos do Estado. E para isso, basta porem-se em biquinhos dos pés.
Cavavo não o terá feito, assim, o mérito vai para ou outros, os que gastam muito em meias-solas...

à tout propos (14)

BIBLIOTECA E ARQUIVO MUNICIPAL DE ÉVORA

Finalmente, o nosso Ministério da Cultura começa a ter preocupações com tal objecto. Está de parabéns e por isso, no bom caminho.
Finalmente, o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Évora vão celebrar um protocolo para a construção da nova biblioteca pública e arquivo distrital. Paralelamente, será construída uma biblioteca municipal. As três infraestruturas serão construídas na zona de expansão dos leões. A proposta de protocolo apresentado pelo MC foi aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal. Pudera, os custos para as infraestruturas públicas ficam a cargo do MC. Só é pena que não pague também a infraestrutura municipal (a biblioteca municipal), já que o peso excessivo da interioridade, das boas práticas (o Polis é um exemplo de «benefício do infractor»), já o pagamos diariamente.

1 de outubro de 2004

à tout propos (13)


Drowning Girl, 1963 (Roy Lichtenstein)

em de-talhe

BLOGS, UM PÉSSIMO EXEMPLO
Casos como este não devem ser difundidos nem publicitados, porém, a sensatez leva-me a difundir um péssimo exemplo de blog, exactamente para afirmar como não deve ser. O exemplo seguinte é a antinomia de tudo quanto possam ser espaços de expressão ideológica, artística, política, desportiva, seja o que for. Antes pelo contrário, é um exemplo cabal de histeria colectiva eivada de motivações cobardes e repudiantes.
Falo de um blog que nasceu em Redondo, vila «pacata» alentejana do vinho, do azeite e do barro. Presumo que o seu autor, no momento da criação desse blog, jamais tenha previsto o que se sucedeu. Se o previu, nesse caso, tratar-se-á de um indivíduo mal formado, cujas intenções serão no mínimo, inclassificáveis.
Aos dois primeiros textos (à hora que escrevo, tem apenas 3 textos e centenas de comentários), o chorrilho foi crescendo, atingindo perigosos níveis de ataque pessoal, do mais vil e esqualido que se possa imaginar. Sempre escondidos atrás do anonimato, os comentadores vão alimentando cobardemente os mais variados insultos, sem o minímo de contenção, atirando venenosamente contra tudo e todos. Demasiado ordinário.
Entretanto, um clima de suspeição e mau estar geral começa a fazer-se sentir por toda a vila. Ninguém tem descanso e de um momento para o outro, todos os telhados têm vidro. Estamos perante um ataque em massa contra direitos fundamentais. Um ataque, pois, à cidadania e à democracia.

à tout propos (12)



BAR-TOON

...ou é «bar» ou é «toon», as duas já são demasiado... é complicado.
É do género daquela expressão execrável que sempre abominei: «estás-te a rir para mim ou de mim?»

30 de setembro de 2004

à tout propos (11)

REVISÃO DA CONCORDATA COM A IGREJA
Após 64 anos (!), o Estado português prepara-se hoje para ractificar a Concordata com o Vaticano e assim dar mais um passo para a constituição de um verdadeiro Estado laico. Mas não sem reservas, naturalmente. É que, se por um lado é pouco contestável a acção social da Igreja (vamos esquecer por momentos os «santos jogos», as heranças nascidas em asilos e outras formas de financiamento), por outro lado, existe um peso institucional enorme que não pode ser escamoteado nem, desconfio, afrontado... Em particular no que respeita à fiscalidade.
De qualquer modo, é um passo importante com vista a um tratamento equivalente entre os vários credos religiosos e entre todos os contribuintes...

em de-talhe


ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS

E, sem embargo, todo o aparato em torno das eleições presidenciais norte-americanas, com o enorme o show off habitual, investidas e contra-investidas (de conteúdo...), mais escândalo e menos escândalo, mais dollar, menos «petroil», com mais pólvora ou menos pólvora, eis que, bem espremidinhas as propostas, do nectar nem sinal. Pessoalmente, tenho a convicção que nada vai mudar no mundo (em termos de política externa) a não ser o continuar da insatisfação internacional, da repressão e da parasitagem sobre a natureza e os povos. O estilo de vida americano não se compadece com sacrifícios económicos, e é absolutamente incompatível com a preservação ambiental ou a competência alheia. A diferença entre Kerry e Bush é menor que a espessura de uma folha de alface, embora Kerry aparente ser menos extemporâneo, mais ponderado.

Por conseguinte, é na gestão de expectativas e interesses dos poderosos que se faz um mandato na Casa Branca, logo, quem dá a cara até pode ser uma amiba unicelular (se existir) como a que lá está, pois as decisões já lhe são entregues escritas em papel (embora ele teime em falar por sua conta e risco, à desgarrada mental consigo próprio, mais ou menos como o espécimen surpresa que nos deixaram em S. Bento).

O primeiro de três debates, hoje às 21 horas na Florida (2 de Portugal), poderá ter o efeito de sedimentar a vantagem de Bush nas sondagens ou, pelo contrário, despoletar a reviravolta. Talvez, pelo seu estilo menos enganchado em oposições binárias do estilo right and wrong, Kerry seja o menos mau, sobretudo para o próprio eleitorado americano. A que nível? Do civismo e da interiorização de algumas concepções básicas e cosmovisões que a divisão do mundo em dois operada por Bush, desmantelou. Ao aumentar as clivagens, acantonando-as em dois grandes grupos, Bush contribui para o estímulo de fundamentalismos de toda a ordem, seja do lado das manifestações nacionalistas pós 11 Setembro, seja de grupos islâmicos radicais ou cristãos, ou hindus, etc. É este o grande contributo de Bush para o mundo e é tanto responsável pela actual situação mundial como Sharon o é pela presente entifada (sem pretender com isso escamotear problemas que já existiam antes).

Por isso, os americanos que se cuidem pois não há fumo sem fogo e nesta ordem de ideias, causa-me uma certa confusão mental porque raio se difunde a ideia, pelo mundo inteiro, de serem os americanos isto e aquilo. Só se pode explicar por uma embirração que o mundo tem com eles. Que raio de obcessão... Afinal, eles é que são os bons, eles e os que vivem na terra prometida, o povo eleito. Bom, já que os outros são os maus... não deixar créditos em mãos alheias e para isso aí temos diariamente a cabal demonstração de ensandecimento que nos chega através dos media, de ataques suicídas, raptos, degolações em directo, etc. etc. Conselho: nunca enfrentar um animal ferido ou colocar em causa a segurança de crias.

Talvez dê mais gozo por serem americanos e todo o mundo morrer de inveja deles... e do novo ordenamento mundial, do qual resulta proporcionalmente mais miséria do que na idade média. Sociedades evoluídas? Nós?

Sugestão de fim-de-semana:

Ver «O Planeta dos Macacos» de Frankin Schaffner ou ler «A Condição Humana» do Malraux; também se pode simplesmente ver o «Shrek» ou ler Júlio Dinis e fingir que nada se passa.