25 de novembro de 2004

em de-talhe

REMODELAÇÃO NO GOVERNO

Para não despachar de uma assentada todo o governo, o padrinho do Primeiro-Ministro terá sugerido que Rui Gomes da Silva transitasse para um lugar com menos exposição mediática. Com um padrinho assim, tudo lhe é permitido, como de resto tem sido até aqui.
Após a trapalhada pegada de Rui Gomes da Silva, ex-porta-voz do governo, num caso «Marcelo» a dois tempos - em que solicita a intervenção da AACS para depois do parecer desta, considerá-la ilegítima - e sabe-se lá que mais trapalhadas resultam da acção directa deste personagem (para além de também não reconhecer a autoridade dos tribunais: http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1209037&idCanal=34) , o governo - leia-se Santana Lopes - procedeu à remodelação fazendo transitar Gomes da Silva dos assuntos parlamentares para Ministro-Adjunto.
Ou seja, Gomes da Silva foi para um lugar que conhece há muito, o de pagém, confidente, amigo e fiel depositário das nenhices de Santana. E não deve ser nada fácil ser santanete versão masculina durante mais de 20 anos. - É preciso ter estomâgo ó Silva...
Tenho que me colar a um qualquer metecapto que fique bem na televisão e que por acaso ande metido na política (mas que não me roube as gajas todas).


24 de novembro de 2004

à tout propos (59)

ALGUÉM VIU?
Ia hoje na rua, passeando calmamente pelas artérias do centro histórico de Évora, aproveitando para contemplar toda a obra maravilhosamente realizada pela Câmara Municipal (em coerência com as promessas eleitorais, lembram-se?), quando subitamente, uma biqueirada num calhau milenar quase me fez polir o granito com os dentes incisivos. Felizmente não tinha ali passado gato nem cão...
Recomposto, notei que fora um cartaz abandonado, alusivo a qualquer coisa cultural, o responsável pelo embicanço.
Vituperei contra o cartaz, contra quem o abandonou, contra a «cultura» e só passados alguns instantes, notei que o seu conteúdo anunciava uma qualquer «medida» governamental no sentido de localizar uma secretaria de estado - ao que parece - em Évora.
Danado, tentei encontrar o responsável mas nada. Não obstante os meus intentos e apesar de ter telefonado ao 118, pedido informações na Polícia, no Hospital, na Câmara, no barbeiro, não consegui queixar-me ao reponsável pelo abandono de lixo na via pública.
Está mal, dizer-se que se é o que não é, não assumindo responsabilidades pelo que foi sendo dito que era. Ainda por cima quando essa tal medida visava, ao que parece, trazer o desenvolvimento ao interior. Pois confesso que não vi nem atrelado, camioneta ou avião que transportasse esse tal desenvolvimento, que suspeito ser alguém muito importante no governo.
Se alguém tiver informações sobre o paradeiro dessa gente que deita coisas à rua, por favor, solicito que entre em contacto comigo. Temos umas contas a ajustar...

à tout propos (58)

O NORMAL FUNCIONAMENTO DAS INSTITUIÇÕES
"A pouco e pouco, Santana [Lopes] vai-nos vencendo pelo cansaço; a asneira está tão entranhada na vida política nacional que passou a ser sinónimo de normal funcionamento das instituições".
Joao Miguel Tavares, Diário de Notícias, 23-11-04.
Em suma, estamos reduzidos a um portugalzinho letárgico na sociedade civil, conivente entre a classe política. O primeiro indício tomamo-lo no exemplo presidencial, com evidentes dificuldades em discernir o que é o normal funcionamento das instituições.
Democracia? Em 30 anos, só se for na forma, porque no resto...

22 de novembro de 2004

à tout propos (56)

MERCADO DO LIVRO
Por ocasião da comemoração do seu 10º aniversário, a Associação de Jovens Professores da Região Alentejo irá promover, a partir de dia 29 de Novembro a 19 de Dezembro, um mercado do livro em Évora.
O mercado do Livro vai funcionar nas antigas instalações da Império, na Praça Joaquim António de Aguiar n.º 23 (junto ao Theatro Garcia de Resende).
No Programa deste Mercado do livro, contam-se actividades como as que se seguem: Feira do Livro, Exposições (da qual se destaca a Exposição de Cartoons de Luís Afonso) e um colóquio subordinado ao tema “Associações como pólo de emprego e fixação de jovens em regiões desertificadas”. Este colóquio, que decorrerá no dia 10 de Dezembro, no Auditório da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, faz parte do Projecto Inclusão, co-financiado pela União Europeia e pelo Estado Português, no âmbito do Programa Operacional de Emprego, Formação e Desenvolvimento Social.

à tout propos (55)



O pessoal está mesmo mobilizado... Ou devia estar...

em de-talhe

DIA EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS DA ESTRADA
Foi ontem assinalado em Évora, o dia em memória das vítimas da estrada. O que acontece diariamente não pode cair no esquecimento, por isso, acções como esta são essenciais para que as pessoas se detenham, por um só momento que seja.
Não é escusado falar do que todos sabem e cansados de saber: estamos perante uma carnificina anual superior a muitas guerras, como tem sido dito. Mais, por menos mortes na guerra colonial, uma revolução foi posta em marcha e um regime derrubado (pelo menos naquele dia de Abril, em que foram os militares quem saiu à rua).
Também não é escusado falar da falta de civismo dos condutores portugueses (e não só), para os quais, um automóvel pode ser convertido em tudo, sobretudo quando manuseado com a mesma irracionalidade que leva um indivíduo embriagado a afrontar um touro de 600 kg em campo aberto ou a mesmissíma alienação que me poderá entreter horas a atirar pedras para um charco de água.
Não é escusado falar da falta de civismo, das coimas, do consumo de alcool, da potência dos automóveis, da inadaptação do código da estrada, do desinvestimento na sensibilização, da engenharia das estradas portuguesas e a manutenção das mesmas, enfim do terror. Não é escusado. Por isso, são poucas as iniciativas desta índole.
Mas, também não é de modo nenhum escusado falar da responsabilidade do Estado perante os seus cidadãos, nomeadamente no que respeita à promoção do bem-estar e da qualidade de vida do povo, assim como à garantia de segurança.
Ora, é neste campo que o Estado falha redondamente ao permitir a construção de estradas deficientes, tecnicamente mal desenhadas e por empreiteiros impreparados. Quanto a fiscalizações... A isso não é alheio o facto de, mesmo no que a esta matéria diz respeito, a segurança não surgir como o principal critério de avaliação na adjudicação da obra. Mesmo nesta matéria, continuamos a ver o nepotismo, o favorecimento e o interminável guarda-chuva da «proposta economicamente mais vantajosa» como principais impulsionadores para a selecção.
Falhando aqui, o Estado falha igualmente na manutenção das via rodoviárias. Para além de gastarmos inutilmente com estádios de futebol, exposições, submarinos, carnavais e circos, acontecimentos de show off próprios de políticos betos, institutos da propaganda e inúmeras empresas cuja personalidade jurídica é tão híbrida como um hovercraft (...), torna-se claro que o desinvestimento em áreas como a segurança, saúde e educação é apenas uma circunstância normal num país que aceita passivamente os devaneios dos outros.
Mas não é só aqui que todos nós falhamos. Temos hoje milhões de veículos automóveis a circular nas estradas portuguesas, não só devido à promoção da ideologia da emancipação como também em resultado do desinvestimento nos transportes colectivos. E para isso, não basta criar infraestruturas, é preciso promover mecanismos que levem as pessoas a abandonar o automóvel. Não é por acaso que até há dois anos atrás, o aumento de emissões de gazes com efeitos de estufa responsáveis pelo aquecimento global, «evoluia a um ritmo superior a 40 por cento, em grande parte justificado pelo uso intensivo do transporte individual, sobretudo em Lisboa e Porto» (Público de 20 de Novembro). E continuamos com o problema de ter um país assimétrico, no qual, investir no interior significa mais ou menos o mesmo que gastar dinheiro em Espanha. Não são os TGV's que vão resolver problemas estruturais de mobilidade nem os incontáveis créditos automóveis.
Falhamos também nas alternativas na própria circulação rodoviária. Só num país desta linhagem se pagam portagens em vias cuja alternativa pode significar a morte. Grande parte das autoestradas portuguesas não é uma alternativa, é o único meio mais ou menos seguro que os portugueses podem utilizar sem correr o risco de chocar com alguém de frente que entre em despiste, dispondo de piso razoável e fruto de uma concepção minimamente científica. Basta pensar em estradas como a N1, a N125, o IP4, etc., etc.
As responsabilidades do Estado são enormes, logo as nossas reponsabilidades são enormes, enquanto cidadãos com plenos direitos na definição daquilo que é o interesse nacional, naquilo que é a orientação das políticas públicas. É a nossa segurança, é o nosso bem-estar que está em jogo e, eu estou farto de ver pessoas desaparecerem, assim, sem mais, porque naquele momento foram estúpidas, encontraram um estúpido pela frente, baixaram a guarda ou simplesmente porque tiveram azar...
Por isso, acções como a de ontem devem ser repetidas até à exaustão e mostrar aos políticos e aos portugueses ao que todos estamos expostos, de cada vez que dobramos uma curva.

21 de novembro de 2004

à tout propos (54)




Entre 19 e 27 de Novembro, decorrerá mais uma edição do Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora. Sem mais delongas, fica o link http://www.fikeonline.net/2004/index.php do melhor festival de curtas do Alentejo, com toda a informação útil. Em Vila do Conde já estão apreensivamente a torcer o nariz...

à tout propos (53)

CASA PIA
O arguido do processo de pedofilia Carlos Cruz, vai apresentar como suas testemunhas, «notáveis» da vida pública portuguesa. Dentre estes destacamos Ferro Rodrigues, Jaime Gama, Paulo Pedroso, Fracisco Louçã, Herman José, Vítor de Sousa, Joaquim Monchique, José Maria Tallon, Francisco José Viegas, Fernando Chalana, Carlos Monjardino ou Medina Carreira.
Informações recentes dão como certas as contratações de Jorge Sampaio, João Paulo II, Madre Teresa de Calcuta, Fidel Castro, Neil Armstrong, Dário II e Carlos Magno.
Instado a comentar o plantel, George Bush, o treinador, revelou apenas que se trata de uma equipa promissora, com bons valores e que no futuro dará certamente muitas alegrias à imensa massa associativa.

à tout propos (52)

PROCURA-SE
Procura-se rapaz que toque flauta mágica com talento e que dela saiam as mais encantadoras melodias para levar o governo daqui para fora. É que, Santana Lopes terá declarado à revista Sábado (19 de Novembro) que, «haja o que houver, este partido, que é uma força da natureza, está comigo seja qual for o caminho que eu tenha que decidir».
Perante esta afirmação «democrática», pedante e boçal, reveladora do mais profundo narcisismo, basta-nos apenas encontrar um bom flautista, que seja tão bom com a flauta como a D. Xica com a vassoura.
Ao contrário dos habitantes de Hamelin, prometemos reconhecimento e gratidão a quem daqui levar aquela gente.

18 de novembro de 2004

à tout propos (51)

ORTODOXIAS
Atenção, todos cometemos uma terrivel injustiça em relação a Jerónimo de Sousa, futuro Secretário Geral do PCP: afinal, segundo Jerónimo de Sousa em entrevista ao jornal A Capital, só quem o não conhece é que o pode apelidar de ortodoxo. E justiça seja feita, pois se o homem nem sequer é cristão, quanto mais ortodoxo...

16 de novembro de 2004

em de-talhe

COLIGAÇÃO
Se ainda restavam dúvidas, as mais ténues dissiparam-se este fim-de-semana com o XXVI Congresso do PSD:
1. De cada vez que membros do governo abrem a boca para a comunicação social - que foi eleita como vector prioritário de acção estratégica - uma nova polémica é lavrada. A falta de sintonia é evidente.
2. O unanimismo é perigoso e estamos conversados quando isso acontece artificialmente em torno de uma liderança como a actual, sabendo de antemão como são intensas as forças de oposição dentro do próprio PSD. Pudera... Nem o Cavaco escapou.
3. Exemplo dessa resistência alarve e indesejada, são intervenções como a de Marques Mendes acerca de coligações pré-eleitorais. As mesmas que fizeram vir Rui Gomes da Silva de Barcelos a Lisboa, amenizar as hostes entre o CDS-PP para um encontro de desagravo com Paulo Portas.
4. Mais, no Domingo houve mesmo necessidade de os líderes dos partidos no governo se encontrarem para um almoço cuja urgência se mais não deve do que à necessidade de Santana Lopes garantir a sua lealdade a Portas.
5. Com isto sabemos quem manda e como está o PSD agrilhoado pelo marialvismo, nacionalismo e conservadorismo.
Em conclusão, andamos a reproduzir à portuguesa o clássico conluio que Goethe nos trouxe entre Fausto e Mefistofoles. Só que, neste caso, não foi Fausto que nos deixou este imbróglio, foi uma colectânea de autores...

13 de novembro de 2004

à tout propos (50)

MUQATA, ARAFAT, PACHECO PEREIRA E OS SEUS AMIGOS

Por estes dias em que a classe jornalística assentou arraiais junto ao hospital militar de Percy de Clamart, fomos bombardeados por relatos da mais variada ordem, índole, competência ou propósito, justificando reacções como a que (e.g.) nos dá conta Pacheco Pereira (em
www.abrupto.blogspot.com), referindo-se ao blog Homem a Dias (http://homem-a-dias.blogspot.com/2004/11/muqata-banana-e-cola.html).
No essencial, concordo com a indignação e até com o defendido por Pacheco Pereira, no que respeita à falta de «pudor, critérios, vergonha, conhecimento, juízo». É certo que jornalistas há bem poucos neste país, editores profissionais e coerentes ainda menos e público interessado, menos ainda que o ainda menos. Estamos todos de acordo em que frequentemente os «jornalistas» tomam partidos, fazem apologias, condenam em directo.

No entanto, há no texto de Pacheco Pereira uma breve e dissimulada ironia que simplesmente remete Arafat para o baú dos terroristas, naquela simplicidade néscia a que já nos habituou o presidente reeleito do Império.

Qualquer forma de terrorismo é abjecta, no entanto, entendo que a revolta convertida em desespero impede qualquer ponderação cartesiana. No mesmo sentido, a classificação de «terrorista» não me parece ser universal ou consensual, variando mais em função de circunstâncias e perspectivas.

Ora, pergunto-me: se Michael Collins foi para os ingleses um terrorista, foi para os irlandeses o quê? E a resistência francesa, foi para os franceses o mesmo que para os alemães (afinal de contas, é de uma ocupação que falamos)? A resistência afegã foi entendida da mesma forma para americanos e soviéticos? E a resistência kosovar, apoiada por americanos e perseguida por sérvios? As incursões republicanas durante a guerra civil espanhola eram ou não terrorismo? E os partidários de Xanana Gusmão, só matavam militares?

Latu sensu, o conceito de terrorismo remete para:

s.m., sistema de governar pelo terror e com medidas violentas;
actos de violência praticados contra um governo, uma classe ou mesmo contra a população anónima, como forma de pressão visando determinado objectivo;
forma violenta de luta política com que se intimida o adversário;
modo de impor a vontade por meio da violência e do terror.

Neste sentido, o que foi a colonização portuguesa? O que são os colonatos israelitas? O que é qualquer tipo de guerra? O que foi o Estado Novo? Neste baú, cabe necessariamente a perseguição movida por iraquianos e turcos aos curdos, verdade? Ou a perseguição dos cruzados aos muçulmanos; a Inquisição e a perseguição aos judeus feita pela Santa Sé; cabe, no fundo, toda a tradição cultural europeia que pretendem colocar no preâmbulo da futura Constituição europeia...

Entretanto, o argumento da violência sobre inocentes e civis não é válido pois tanto são inocentes e civis as populações que foram esmagadas debaixo dos exércitos de Napoleão, trucidadas pela detonação de bombistas suicídas, as que padeceram junto com as torres ou em qualquer cidadela espanhola, e muito em particular, as que morrem à fome por esse mundo fora para manter o nosso status quo ocidental.

Não adianta classificar o terrorismo ou procurar a sua ontologia. Interessa sim, perceber como se poderá reduzir o sofrimento não só dos que morrem como dos que encontram razões para matar. Mas para isso seria preciso que se acreditasse numa «ontologia de bondade» do ser humano...

à tout propos (49)



Nude Sdraiato, Amedeo Modigliani, 1917

12 de novembro de 2004

à tout propos (48)

CONGRESSO DO PSD
No discurso de abertura do congresso, Santana Lopes mostrou que apesar de tudo, trouxe a lição bem estudada de casa e dessa lição consta a clássica obra de Nicolau Maquiavel, O Principe. Não acredito que seja tudo da cabeça dele, é certo, mas devo reconhecer que pré-candidatar à presidência da república um dos seus principais oponentes é uma jogada audaz e matreira. É que, ao lançar o nome de Cavaco, Santana Lopes garante uma fidelidade forçada pelo sistema de favores; garante igualmente a convergência dos restantes cavaquistas em torno do seu «projecto», diminuindo consequentemente a contestação interna; e, finalmente, isola o seu maior oponente: o velho professor de direito, Marcelo Rebelo de Sousa (que, à semelhança de Cavaco, nunca escondeu a sua preferência por Durão Barroso).

à tout propos (47)



BOOKS & BUSH: THEY REALLY DON'T MATCH
É ou não é anormal, uma coisa destas? A própria criançinha estaria verdadeiramente embaraçada,sem poder sequer pestanejar... Admiravel, a sua capacidade de resistência.
Enquanto isso, Bush parece desesperar numa interminável «branca», tentando compreender como ali terá ido parar, sem saber o que dizer, desesperadamente prescutando com o olhar os seus assessores ou alguém que o possa salvar levando-o dali para fora.

à tout propos (46)

O QI DA AMÉRICA
De acordo com o Ravens APM (advanced progressive matrices), a média de QI dos estados em que venceram os republicanos é substancialmente menor do que naqueles em que democratas lograram sair vencedores. Apesar dos dados se referirem a 2000, não deixa de ser impressionante como a maioria dos estados bushianos não apresenta um QI médio de 100, justamente os estados da américa profunda, com maior acuidade os das grandes planícies. Pelo contrário, os estados que apresentam maiores índices são aqueles que se situam preferencialmente nas costas do Atlântico e do Pacífico, os menos rurais, menos conservadores.
Ficam os valores, se é que isso significa alguma coisa.
PS: Ah, os estados a azul representam democratas enquanto os estados a vermelho representam republicanos.

os deuses também já foram homens



YASSER ARAFAT (1929-2004)
Sendo frontalmente contra qualquer forma de terrorismo, seja carregando uma bomba à cintura, seja levando a fome e a degradação humana a povos praticamente indefesos, há no entanto um princípio que tomo como inexpugnável e inviolável: a autodeterminação dos povos. Nesse sentido, habituei-me a admirar os davids deste mundo que lutam contra golias refastelados em castelos intangíveis, superprotegidos e municiados.
As causas da luta em que este homem se embrenhou contra o Estado de Israel - contra o sagrado «povo eleito» na terra prometida pelo sangue, dor e destruição - são causas tão justas e legítimas como as que moveram timorenses contra a opressão indonésia; tão justas como as que motivaram a indignação mundial pelas loucuras cometidas durante a II Guerra Mundial; tão justas como as que levaram os povos colonizados a rebelarem-se contra o império.
Todavia, esta luta de uma vida não foi apenas travada contra os hebraicos. Foi infelizmente travada (na secretaria), justamente, contra todo o mundo ocidental que hipocritamente deliberou resoluções na Assembleia Geral das Nações Unidas, perfeitamente consciente que aquela guerra sem quartel haveria de durar enquanto os EUA fossem o principal aliado na facínora chacina perpetrada pelo «povo eleito». Contingências, dirão alguns...
Não é porém, neste momento, importante recordar todos os motivos que animam o povo palestiniano ou o único motivo em que alicerça a teleologia israelita; não é importante recordar a parasitagem levada a cabo por Israel sobre os recursos palestinianos; não é agora importante contabilizar vítimas ou recordar a quem tem a memória curta, quais as consequências da opressão e perseguição; não é sequer importante considerar a incompreensível intolerância a que sempre foram votados os judeus na Europa cristã.
Importante é compreender no presente, o que pode mudar para que aqueles dois povos possam viver em paz, lado a lado, sem muros, colonatos, mísseis, pedras e bombistas suicídas
Certo dia, quando instado a pronunciar-se como gostaria de ser recordado, Yasser Arafat respondeu apenas «como um homem que lutou pelo seu povo». É nessa condição que aqui é lembrado.

11 de novembro de 2004

à tout propos (45)

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE
Para os conviveram comigo em Lecce, assim como para os que tiveram oportunidade de me visitar durante aqueles meses, certamente se lembrarão de um poema cristalino que com orgulho mantivemos exposto na cozinha, assinado por esse grande poeta setubalense de finais do Século XIX que respondia pelo nome de Bocage. Falo de «a água», poema translúcido, sem sabor e incolor... Bocage provou que não tanto...
Por obra do acaso, veio-me parar esse texto ao email, o qual não posso deixar de publicar, já que trata das virtudes da água, esse recurso insubstituível e cujo valor vai aumentar exponencialmente após a leitura do poema que ora vos submeto. Já o Bocage o sabia, por isso toda a eloquência empregue no poema para dignificar mesmo a mais salobra água.
A ÁGUA

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da rasca
tira o cheiro a bacalhau da lasca
que bebe o homem que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega as rosas e os manjericos
que lava o bidé, lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
PS: os italianos agradeceram...

10 de novembro de 2004

à tout propos (44)

PARA DESANUVIAR
Agora, para desanuviar do trabalho, do cônjuge e do animal de estimação, proponho algo com níveis zero de stress.
O objectivo é conduzir os bonequinhos ao seu destino, clicando em locais específicos que deverão ser por vós descobertos. Não desanimem se à primeira não forem bem sucedidos.
Pista: utilizar a imaginação!
PS: com som é muito melhor...
Aqui vai:

9 de novembro de 2004

em de-talhe




PRAXES
Segundo parece, subsistem ainda muitos lugares ermos do Portugal onde principios e direitos fundamentais não são conhecidos, onde nem uma pedrinha lá entra... Falo evidentemente da surpresa manifestada pela Sr.ª Directora da Escola Superior Agrária de Santarém, por o Ministério Público ter avançado - naturalmente - com a acusação de sete «alunos» por supostamente terem torturado uma caloira.
Este espanto revela o Portugal atrasado, mesquinho, irresponsável e selvático em que vivemos. À ditosa senhora, bastaria uma pena de suspensão de 15 dias (!) aos alunos envolvidos, como as suas questionáveis competências incluissem a magistratura. Ocorre-me pensar se será 1º de Abril ou se haverá alguma câmara escondida que apanha a minha expressão de pasmo, mesmo em cheio. Refaço as caras, recapitulo e concluo que não, que não existem câmaras nem é dia das mentiras, é mesmo verdade, estas coisas acontecem neste país.
A senhora directora agiu como se não houvesse um aparelho legislativo em Portugal (como de resto, muitos fazem...), ignorando compulsivamente e pelos motivos mais estapafúrdios (tradição e integração), se não mesmo débeis mentalmente, as leis fundamentais como a Constituição da República Portuguesa ou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. A sua primeira medida, à eclosão de qualquer caso semelhante de natureza criminal, seria necessariamente remeter o processo para os tribunais, sem prejuízo para as averiguações internas.
Será que esta gente, na sua medíocre e miserável existência, já teve alguma vez contacto com noções básicas de cidadania, direitos, liberdades, garantias?
Bom, antes de mais, aproveito para invocar a lei fundamental, recorrendo por exemplo aos artigos 25º, 26º e 27º do II Título (Direitos, Liberdades e Garantias), I Capítulo (Direitos, Liberdades e Garantias Pessoais),os quais se destinam a garantir direitos invioláveis de ordem pessoal. Mais, já em 1975, o legislador considerava a inaptidão geral dos portugueses para compreender um texto, levando-o a simplificar a redacção a pontos de até o macaco Adriano o conseguir interpretar e compreender. Entre certos alunos e professores universitários, inexplicavelmente e contra todas as previsões alicerçadas na teoria da evolução, tal não sucede.
É impressionante que ainda se verifiquem estes comportamentos boçais, aquela autoridade pedante, disfarçada por sórdidas frustações, aquela histeria cobardemente colectiva. Todo aquele condicionamento implícito, corroendo expectativas, minando quase sempre a dignidade de qualquer ser humano. Impressiona particularmente o deserto cívico e intelectual de professores e alunos que reproduzem a mediocridade e a irracionalidade que se respira em demasiados meios académicos.
Ao Ministério Público não restaria, jamais e em tempo algum, outra alternativa que não fosse a formalização da acusação. O problema está na mania que têm estes tipos - docentes e alunos - em pensarem que são alguém com capas, batinas e turbantes, e que o ecletismo está em ter uma pedra que geração após geração passa de cú em cú. A pedra do saber... A responsabilidade está em quem faz e também em quem consente, é claro; dos cús de ontem para os cús de amanhã. Assim foi a escravatura, assim é o racismo e o sistema de castas na India: «não sabemos porquê, sempre foi assim» ou «eu também passei por isso e não me fez mal nenhum». Se a primeira proposição é reveladora do maior sentido acrítico e nesse caso, contraditório à ideia de universitas, a segunda proposição celebra a vingança e a punição de um acto primordial projectada em terceiros.
Vivendo num Estado de Direito, todo e qualquer tipo de comportamento desse género, não só é inaceitável como passa a ser necessariamente assunto de tribunais; as competências académicas são imediatamente ultrapassadas nesta matéria. É isto que as pessoas devem interiorizar, assumindo a razão como um recurso a explorar e não um peso a largar. As leis têm uma hierarquia, sendo os regulamentos internos de uma universidade a última e mais baixa instância antes da selvajaria.
Quem, na sua consciência, de acordo com a sua vontade e sem estar condicionado pelo sonho dos pais em vê-lo «dr.» ou pela ameaça de ostracismo, pretenda ainda assim, abraçar a actividade de «bobo», então nesse caso, até se pode auto-mutilar, sem que isso cause qualquer tipo de indignação para a sociedade. Afinal de contas, a tropa bem que fazia bem a tanta gente... Mas era a tropa de há 25 anos atrás... Aí é que se pode mandar à vontade e ser mandado, seviciar à vontade do freguez até reduzir o outro à triste condição de rato laboratorial. E admito perfeitamente que haja quem sonhe e se realize com fazer figuras de estúpido perante uma plateia de gentalha estupidificada. Cada um com a sua, mas que seja ele próprio a decidir sem «ajudas do público ou de um amigo». Afinal, partimos do princípio que para as universidades não vão pessoas em fase de absoluta menoridade intelectual.
Com toda a honestidade, Não espanta nada uma punição exemplar para actos deste género que ocorrem em circuntâncias análogas a qualquer tentativa de violação, agressões, injúrias ou difamações. Há que aprender a viver em sociedade, com outras pessoas, segundo regras bem definidas e fazer uso da razão, pelo menos algumas vezes na vida.
Ajuda sempre:
Constituição da República Portuguesa:
Declaração Universal dos Direitos do Homem:
PS: Aqui, no sitio onde trabalho, se me aparecer algum a pedir para ser praxado, pode ter a certeza que lhe satisfarei o desejo! E aí, será um homem/mulher íntegro(a) e integrado(a) no serviço...

à tout propos (43)

MAIS UM GRANDE CONTRIBUTO PARA A HUMANIDADE

à tout propos (42)

AQUEDUTO DAS ÁGUAS LIVRES
A macrocefalia de Lisboa já começou o processo de implosão aí temos mais um sinal, neste caso, a pressão que está a ser feita no sentido de derrubar parte do aqueduto das Águas Livres para construção de uma ligação entre Benfica e a Buraca. O argumento é a grande extensão do aqueduto, a qual pode muito bem ser suprimida em alguns metros sem que alguém dê por isso. Muito português.
A continuar assim, não só teremos uma imensa coutada no interior do país para os «senhores» de Lisboa darem uns tiros, como teremos todo o litoral pejado de detritos e mais bicheza humana.
Encontra-se na net uma petição para assinar em nome da preservação do dito aqueduto: http://oprurb.org/noticias.php?id&lg=pt

4 de novembro de 2004

os deuses também já foram homens



Composition V, Wassily Kandinsky, 1911

... e parabéns à miúda, que vai começar a tratar da exótica saúde dos portugueses!

3 de novembro de 2004

em de-talhe

LUTO
Confesso que nunca antes me havia achado tão defraudado com eleições externas, como neste momento em que se confirmam votos, fazem a festa uns, reúnem-se em lamúria outros... Apenas uma razão está por detrás deste sentimento: ter a plena consciência que nunca como agora, um país tem tanta influência directa sobre o mundo como estes USA, modelo Texas; e não encontrar paralela cegueira colectiva em actos democráticos na história ocidental recente, em sufrágio universal.
E não é que apenas um homem determine toda a política externa americana, contudo, em nome da tradição democrata, não creio que fosse pior do que o reinado de Bush, Cheney, Rumsfeld e toda a indústria de armamento.

em de-talhe

LUTO MUNDIAL
A confirmarem-se estes resultados, estamos em condições de afirmar que se trata, uma vez mais, de «um pequeno passo para um homem, um enorme retrocesso para a humanidade».
É inacreditável e na verdade, não se consegue explicar o inexplicavel, por muito que o tentem os infindaveis batalhões de comentadores políticos que matracam noite e dia por esse mundo fora. Nem com psicólogos lá vamos... estamos a viver uma experiência metafísica, algo esotérico e intangível axiológicamente.
A modernidade terminou exactamente aqui e esta fase convencionalmente designada pós-modernidade, mais não é (nesta altura) do que o enterro dos valores da liberdade e da solidariedade. O idealismo dá definitivamente lugar ao pragmatismo menos escrupuloso e a semelhança com experiências anormais ocorridas no passado é assustadoramente real. Basta pensarmos a destruição do Iraque, a recusa por motivos estritamente económicos de ratificação do protocolo de Quioto, o escamoteamento de graves crises humanitárias no mundo inteiro e nos proprios USA, a utilização de técnicas de tortura nas prisões de Guantanamo e Iraque, o continuado desrespeito pelos direitos humanos inclusive em território americano, o louco desperdício de recursos energéticos, as alianças estratégicas e descartáveis com líderes de países autoritários, etc., etc., etc.
O povo americano decidiu e o mundo, quanto muito pode continuar de luto; não um luto simbólico, porque as guerras e destruição são bem reais.


2 de novembro de 2004

à tout propos (41)

RAPTOS
O inqualificável terror perpetrado por organizações islâmicas no Iraque (mais ou menos organizadas) nos raptos e sequentes assassínios de civis presumivelmente inocentes ganha novos contornos com o rapto de um soldado americano.
Qualquer forma de terrorismo é condenavel e nem os raptos de soldados americanos têm qualquer coisa de legítimo; a menos que sejam capturados em situações de guerra (que parece ser o caso) desde que observadas as regras definidas pela Convenção de Genebra, no que respeita a presos de guerra (algo que os americanos não respeitaram em presos de delito comum, em Guantanamo).
A propósito, alguém daria pela falta de George W. Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Richard Perle, etc.?...

1 de novembro de 2004

em de-talhe



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS VII
Chegou finalmente o dia em que o mundo vai saber quem é o novo patrão. A coisa está mesmo negra, situação agudizada com a científica entrada em cena de Ossama Bin Laden (ou John Carlson, é igual). Se o homem realmente existe, nesse caso está mesmo interessado em debater-se com Bush, certamente porque é intelectualmente superior.
É absolutamente inacreditável este estado de coisas, como é que aproximadamente metade dos americanos pode sequer ponderar dar ouvidos a um ser miseravelmente risível e ao séquito de parasitas manipulador dos cordéis que se-lhe encontram atados a mãos e pés?
A ascenção da verme-lhada, do lodo, da insignificância...
Apesar de tudo... indubitavelmente, Kerry ao poder!!

à tout propos (40)



Nem as vacas leiteiras estão para rodeos à portuguesa...

30 de outubro de 2004

à tout propos (39)



ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS VI
Este cartoon foi publicado na edição de hoje na Time online. A linha editorial que o publica está mais preocupada como fim das eleições do que propriamente com os resultados, isto é, tanto dá que ganhe Bush ou Kerry, desde que termine de uma vez com todo aquele espectáculo montado.
São os candidatos tão próximos que para a Time, não importa qual venha a ser eleito?
Eu preferia pensar que a Time fosse absolutamente imparcial, manifestando somente o seu cansaço com a campanha eleitoral. Porém, se está cansada isso também pode significar que tão pobre foi a campanha que os seus conteúdos jamais justificariam a sua longevidade e recursos empregues.
Mas não, não me parece... Se olharmos para os dois simpatizantes, notamos como são ambos incaracterísticos, muito semelhantes, indistintos. A rapariga, por seu lado, parece ser mais sensata, sóbria, racional, denotanto uma atitude absentista e aborrecida.

à tout propos (38)



ROCCO SENTIU-SE TRAÍDA E BATEU COM A PORTA

Nem Berlusconi nem Barroso lhe deram a mão... à primeira atrai mas à segunda, parece repelir...
Nós, cá em Portugal, temos um problema semelhante, resolvido de forma diversa: há mãos por todo o lado...

Tu, abriste a boca, saiu asneira e viram-se na obrigação de te deixar cair.
Nós por cá, temos um que diz asneira a toda a hora e só os do seu próprio partido põem vaselina nas mãos para que também caia.

Se te serve de consolo, à semelhança de Portugal, em Itália também não te deixariam cair. Qualquer coisita se havia de arranjar.
São esses franceses, belgas, alemães, holandeses, dinamarqueses, luxemburgueses que estragam tudo com a mania de que são mais civilizados do que nós...

29 de outubro de 2004

em de-talhe



The ship of fools, Bosch, 1490-1500
Parafraseando alguém, não sei se no bartoon ou se no Gato Fedorento (ou em outro lado qualquer), por este andar das coisas, não sei se dentro de pouco continuaremos a ter Portugal na cauda da Europa se a Europa na cauda de Portugal.
Mas sei de alguém que neste momento tem o eterno dilema entre mãos: «mal me quer, bem me quer, mal me quer, bem me quer...»

à tout propos (37)

A POESIA BÉLICA
A respeito do post em que sugeria uma leitura sobre a problemática do «Estado-Guerra», replicou-me um bom amigo, afirmando que «o escape para isso é a poesia», despedindo-se com uma provocação, que passo a transcrever: «se não fosse a guerra, teríamos conseguido manter o nosso estilo de vidinha que tanto prezamos? Para os anti-americanos mais extremistas, recordam-se do Holocausto? Os gajos ajudaram-nos ou a memória só é longa para certas coisas?».
É uma provocação interessante com uma argumentação válida, a que não resisto reagir, semeando mais provocações.
Sem considerar aquilo que pode ser entendido como estratégias geo-políticas (que as havia na década de 40, como as há desde tempos imemoriais, matizando ab origine as lutas individuais, entre clãs, comunidades ou povos), definidas por interesses muito concretos, creio no entanto que poderemos encontrar razões muito específicas que terão ditado a intervenção dos americanos, antes e depois.
A guerra preventiva podia ter sido desenvolvida durante a década de 30 e assim ter impedido o chamado holocausto (referimo-nos ao judeu ou ao infligido aos russos, no mesmo período?), no entanto, é sabido que não foi essa razão que mobilizou os EUA. Arrisco a afirmar que foram os japoneses, alinhados no Eixo, quem decidiu primeiramente os destinos da guerra ao atacar sem pré-aviso Pearl Harbour. Parvos! Posteriormente, a permanência de tropas americanas durante décadas em quase todos os países europeus (através da NATO) e em particular na RFA serviu, à semelhança dos nossos dias, para consolidar a democracia e impedir o alastramento do comunismo. Julgo ser pacifico aquele dito popular que diz ser «em tempo de guerra que se faz fortuna». Convém não esquecer que é do alinhamento das duas guerras que os EUA emergem como potência mundial, destronando inclusive o Reino Unido do seu pedestal imperial. Até ao início do século XX, os EUA eram uma potência... em potência.
Mas, muito mais importante, o conceito de guerra era entendido como uma perturbação da paz, no normal funcionamento das coisas e por isso, a sua aceitação - pelos povos decentes - era vista como a derradeira hipótese a considerar, o recurso último. Claro que os povos com ímpetos expansionistas viam a guerra como a legitima forma de alcançar os seus objectivos mas assumiam-no... Apesar de as relações internacionais continuarem num patamar de desenvolvimento inferior às relações nacionais, a guerra era, ainda assim, associada à destruição, à perda inútil de vidas humanas, ao sofrimento. Não haviam segundas interpretações.
Actualmente, alguns estados parecem comportar-se de modo diverso, antecipando potenciais perigos. Nesse caso, a guerra funciona como um escudo protector, verdade? Sucede, porém que a incoerência é estranha se compararmos, por exemplo, Timor com o Iraque, ou se pensarmos em casos recentes como o Ruanda, o Sudão, a Birmânia, etc. Nesta asserção, concordamos certamente que não serão as razões humanitárias ou políticas (alastramento dos valores da democracia) que justificam a intervenção. Não são agora como não terão sido antes... Serão outras, certamente.
Vamos então ao terrorismo. Sem entrar em discussões sobre quais as motivações dos terroristas ou se têm razões para tal, admitamos duas formas de defesa: a «doméstica», em nossa casa ou a «missionária», na casa dos terroristas. Parece ser esta a opção escolhida pelos EUA. Se a ETA colocar uma bomba na 5th avenue, bombardeamos Espanha? Não, porque este país é aliado dos EUA. Israel é um aliado dos americanos, assim como o foram o Afeganistão, Chile (do mesmíssimo Pinochet, cujos métodos não distam na forma dos de Hitler ou Estaline), a Espanha de Franco, Portugal de Salazar, Indonésia de Suharto, Zaire de Mobutu, Iraque de Saddam e até, a dada altura, a União Soviética de Estaline - tudo bons rapazes... Significa isto que as alianças são circunstânciais e mais uma vez, os motivos humanitários... Aliás, toda a intervenção americana na América Latina, em África e na Ásia teve mais que ver com motivos geo-políticos do que humanitários.
O voluntarismo do povo americano é realmente notável, não obstante, serão as causas justas, aquelas que determinam um bombardeamento ou a invasão com tropas? A guerra sempre foi um bom motor económico mas será que as suas consequências o justificam? Não esqueçamos que os EUA detêm o monopólio do mercado do armamento e este é tão só o negócio lícito mais lucrativo...
Devo confessar que, na altura em que os americanos interviram no Kosovo, fui um dos que se manifestaram a favor. Apenas e somente por motivos humanitários, para se acabar com aquela sangria. Era urgente impedir tal genocídio, como aliás o sancionaram e aprovaram as Nações Unidas. Ali era possível intervir dessa forma, como se veio a confirmar mais tarde. Da mesma forma, justificar-se-iam intervenções no Ruanda, na Birmânia, na China, na Coreia do Norte, na Palestina, no Haiti ou na Madeira.
Sim, de facto o nosso modo de vida deve muito às guerras e à depredação dos recursos dos outros, sem dúvida. No entanto, não creio que seja necessário à Europa fazer guerras por todo o lado para poder explorar e parasitar os recursos dos outros. Mas essa é outra questão.
Reconheço, sem hesitar, o papel crucial que os EUA tiveram no desenlace da guerra de 1939-45, todavia, não posso confundir a acção nesse domínio com as acções a que nos começam a habituar desde que assumiram o monopólio de um partido único mundial. Nesse caso, a arrogância americana (tomando decisões à revelia da ONU), transforma a democracia de George Washington, Thomas Jefferson e de Abraham Lincoln numa vulgar oligarquia totalitária.

em de-talhe

TVI
Foi impressão minha ou o José Eduardo Moniz parecia hoje o Carlos Cruz quando este deslargou «inadvertidamente» aquela mediático-lágrima, reclamando inocência com o olhar? É que parecia mesmo...

28 de outubro de 2004

em de-talhe

PURGAS NO PSD
A ex-ministra Manuela Ferreira Leite foi riscada das listas do congresso por não ter pago a última quota de militante e dizem eles que é dos estatutos... pois. Se não tiverem lá ninguém tanto melhor, como é de resto compreensível. Quando se é liderado por um indivíduo que só sabe qual é o seu lugar no congresso se alguém o lá levar... Quem terá mais sido impedido? Marcelo, Cavaco, Marques Mendes?... Ai os mariolas que se andam a esquecer de pagar as quotas... Quase que mais valia a pena dizer que não eram admitidas pessoas feias ou que falem pelos cotovelos. Seria muito mais honesto.

à tout propos (36)

O ESTADO-GUERRA

Há quem partilhe a opinião, segundo a qual, a política dos estados ocidentais está a derivar para a obcessão com a segurança, fazendo da guerra preventiva, da delinquência, desemprego ou epidemias, o instrumento recrutador de votos, o instrumento legitimador da barbárie e do próprio terrorismo.
Bom, com raras excepções naturalmente, cujo epicentro se encontra numa longínqua lingua de terra europeia a juzante de tudo e a montante de nada. Falo (não falo, escrevo...) evidentemente da obcessão com a comunicação social, e dos seus episódios rocambolescos, próprios de uma tourada à antiga portuguesa...
Em todo o caso, a ideia do Estado-Guerra como dispositivo capitalista de produção de ordem ao entender a guerra como ordem (e não um acontecimento excepcional) e como motor da economia, vai bastante além da sociedade de risco defendida por Ulrich Bech, visto não só assumir o risco como não enjeitar a ideia de o criar propositadamente.

Quem se interessar por estas coisas, vá a
http://www.espaienblanc.net/ .

em de-talhe

FALTA DE ORTOPEDISTAS
Ao que parece, Portugal enfrentará futuramente uma grave escassez de médicos ortopedistas. Como se já não bastasse a dificuldade em arranjar médicos que atendam num hospital público...
Mas existe solução! Porque não colocar professores de educação física e de biologia como assistentes de ortopedia? Acho que seria uma boa medida do governo, como é que não me lembrei disto antes?...

à tout propos (35)

DIA DA MEMÓRIA
Nós, que andamos sempre preocupados com as guerras dos outros, por vezes fingimos ignorar as nossas. Saímos prá rua porque os americanos matam dúzia e meia de iraquianos e não temos semelhante atitude perante a sangria que inflingimos uns aos outros, gratuitamente, nas estradas portuguesas (como se não bastassem já os péssimos exemplos de engenharia viária que aqui temos ou a inexistência de conceitos como planeamento ou manutenção). Tá mal! Por isso, aproveito para dar continuidade, neste local, à sugestão de uma amiga, a comemoração do dia mundial da memória.
No próximo dia 21 de Novembro celebra-se, em todo o Mundo, o Dia Mundial em Memória das Vitimas da Estrada. A organização deste evento está a cargo de várias entidades e cidadãos em nome individual, com interesse na área da intervenção social. Em Portugal, o ponto central das celebrações será em Évora, embora se espere que diferentes eventos ocorram um pouco por todo o país.
Em Évora, os diferentes eventos decorrerão, na noite de Sábado, dia 20 e Domingo, dia 21.
No Domingo, na Praça do Giraldo, irá ser construído um memorial em nome das vítimas das estradas. Símbolo do bem e do mal, a vara desde sempre foi utilizada pelos caminheiros como auxílio na busca do seu caminho. Neste dia, as varas irão simbolizar o caminho que ainda temos que percorrer para acabar com esta epidemia. Traga uma vara por cada familiar, amigo ou conhecido!
É que, não há memória...

à tout propos (34)



O mundo visto por Dick Cheney

à tout propos (33)



Whaam!, Roy Lichtenstein, 1963

O mundo, visto por George W. Bush

em de-talhe

RETIRADA DA FAIXA DE GAZA
A respeito da (in)decisão do Knesset - por iniciativa unilateral da parte do Likud fiel a Ariel Sharon - sobre a retirada do exército israelita da Faixa de Gaza, dizia com indignação uma colona judia, mais ou menos isto: «mas que decisões democráticas são estas em que o povo não é ouvido?»
Pois... em certas e particulares circunstâncias (quando confrontadas com direitos inalienáveis e universais), a democracia nem sequer resulta lá muito bem respeitando em absoluto essa ideia de espírito do povo, nomeadamente quando este revela uma propensão especial para a selvajaria e crueldade. Nesses casos, a populaça é o principal inimigo da democracia e de si própria.
E não é preciso radicalizar recorrendo a exemplos tristes como o do «povo eleito», quando aqui mesmo, em Portugal, temos com frequência manifestações da mais profunda e irracional bestialidade.
Por outro lado, é interessante notar como, após tantos anos de crueldade, o ancião general Sharon se prepara agora para assegurar o seu cantinho no céu...

27 de outubro de 2004

em de-talhe

COMISSÃO EUROPEIA
Mas ainda há dúvidas sobre a peixeirada que o nosso Cherne despromovido a um vulgar bacalhau provocou, em resultado das suas amizades com os mais reles girinos do sapal? Vais mesmo voltar... Nunca tal havia conhecido na UE, até que uma 5ª escolha para presidente da CE dá nisto. Parece que andamos a brincar ao «portugal» (jogo bastante didáctico para políticos com idade mental entre os 8 e os 10 anos), como se joga cá... Ainda não percebo como é que o não colaram desde logo às Lajes, asfaltando-o logo antes de levantar vôo. Aqui é que a malta pode convidar débeis, racistas e destacados membros da opus dei para o governo, sem que ninguém abra o bico. Aqui, andam todos com medo do que uma simples cagadela de pardal pode fazer ao telhado...
Mas se ainda insistem em chamar os peixes pelos nomes, nesse caso, só lhes posso chamar lapas do esgoto, uma espécie que se julgava extinta mas que, na verdade, surge com frequência nas fontes e canalizações de S. Bento.
Em nome dos portugueses decentes e minimamente racionais, devo um pedido de desculpas à Europa por não termos avançado logo com o nome de Salazar. Assim pelo menos ficava o ramalhete completo.

em de-talhe

O SONHO DE BARROSO
E se o sonho do nosso José Barroso se tornar um pesadelo? Amanhã, os seus amigalhaços lá da Europa vão-lhe dizer se ele pode ou não brincar a este jogo. É que um dos amigos de Barroso (o italiano dos saraus da Sicilia) tem fama de ser abrutalhado e como o pessoal é tudo gente fina e educada, está tudo aziado com o nosso valentaço porque continuar a querer manter o italiano na jogatana.
Num certo sentido até dá jeito, porque assim, alguém pode fazer o jogo sujo e mandar de uma vez a Turquia às urtigas (esses mouros selvagens que nunca hão-de ser como a gente).
O problema central nem seria tanto para a UE. O problema seria o que fazer com o nosso Zé. É que se ficasse no desemprego, lá teria que proceder à sua inscrição no IEFP para com sorte, ser chamado a alguma formaçãozita em access. Ou talvez se arranjasse um estágio profissional nalgum serviço periférico do Estado.
Mas como já estamos habituados aos finais felizes dos infelizes que temos na política, este cenário não passaria de um pesadelo sobre uma realidade que o Zé já teria rigorosamente acautelada quando negociou a sua saída do governo com o PR.
Como amanhã tudo correrá pelo melhor, podemos dormir descansados e acordar na certeza que teremos a terrinha livre de turcos, albaneses, homossexuais e comunistas.

26 de outubro de 2004

à tout propos (32)


ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS V
As presidenciais americanas entraram agora na fase da histeria colectiva, em que as duas barricadas matam ou morrem. Há muito que as questões essenciais deixaram de ser debatidas. Dos resultados, que as incontáveis sondagens teimam em prognosticar bastante apertadinhos, corre-se o risco de ver entrar metade dos americanos em profunda depressão. É compreensível e até podemos comparar com o que se vive em Portugal quando o clube do coração não ganha.
Acontece que, no caso de Bush vencer (mais ou menos fraudulentamente e apoiado pela metade necessariamente acéfala do país), a depressão transbordará para o resto do mundo. Depressão e chumbada para quem se portar mal...
Mas, à margem de histerias colectivas e depressões, não podia deixar passar em claro um zum-zum que me chegou aos sentidos, nem de o partilhar contigo. Nos comicios em que o candidato Bush tenta roubar a inocência a indecisos (em estados como a florida ou a pensilvânia, por exemplo), a sua chegada é precedida de um vôo rasante com o mítico air force one sobre o local, qual messias que se prepara para abençoar aquela gente. A aterragem é transmitida em directo para o local do comício enquanto milhares de pessoas agitam nervosamente bandeirinhas na expectativa de que com ele, desça do avião o Papa.
Mas, a homilia não termina aqui porque o messias dirige-se para o seu santuário e aí, um sacerdote encarrega-se de solicitar protecção divina para todos e para o presidente, rezando todos em conjunto.
É assim que sucede na grande e experiente democracia: um candidato utiliza os recursos que tem à mão para se auto-promover. Além disso, Deus está do seu lado porque propõe combater os infieis e além disso, combater os infiéis (muçulmanos, homossexuais, negros, etc.). A carneirada aprova e diverte-se enquanto engole uns quantos Big Mac. Por menos a nossa Edite Estrela levou logo com o «talha bestas», embora a manobra tenha sido mera publicidade. Mas pelo menos serviu de referência pedagógica para o que não deve ser feito. E se Kerry se lembrasse de pedir emprestado o air force one para fazer uns loops? Ah, mas não podemos esquecer que Deus e Bush são unha e carne. Só isso poderá explicar porque razão não se encarregou a própria natureza de desfazer equívocos à nascença.
Estado, religião, justiça e dinheiros públicos não são afinal competências indissociáveis? No pequeno mundo de Bush, sim. Esta perspectiva é aterradora se a considerarmos presente nas convicções de 150 milhões de pessoas do Império que nos regula e orienta as vidas. Pouco falta para ser ele o juíz, contabilista, presidente e padre de um país em generalizado estado zombie.


à tout propos (31)

RESISTIR
Para quem se interessa por questões da globalização, política internacional, democracia e direitos humanos, por que não ir até http://resistir.info/? Neste site encontram-se artigos de opinião sem contraditório, o que os torna muito mais interessantes.
Abaixo o contraditório!!

25 de outubro de 2004

à tout propos (30)

COLÓQUIO DIREITOS FUNDAMENTAIS - DESAFIOS PARA O SÉCULO XXI

ACTAE. CENTRO INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS
CONSELHO DISTRITAL DE ÉVORA DA ORDEM DOS ADVOGADOS
Jornadas sobre «Direitos Fundamentais: desafios para o século XXI»
LOCAL: ÉVORAHOTEL

PROGRAMA
29 de Outubro
Manhã
10h: Início dos trabalhos com algumas palavras prévias do Reitor da Universidade de Évora, Prof. Doutor Manuel Ferreira Patrício, do Presidente do Conselho Distrital de Évora da Ordem dos Advogados, Dr. João Vaz Rodrigues, e do Director de «Actæ - Centro Interdisciplinar de Estudos Políticos e Sociais», Prof. Doutor Silvério da Rocha Cunha.
10,15h: Dr. João Vaz Rodrigues (Presidente do Conselho Distrital de Évora da Ordem dos Advogados), «Homenagem ao Dr. Luís Nunes de Almeida, Presidente do Tribunal Constitucional».
Moderador: Dr. João Vaz Rodrigues.
10,30h: Prof. Doutor Olivier Feron (Universidade de Évora), «Republicanismo, Liberalismo e Direitos Fundamentais»
11h: Dr. Carlos Pinto de Abreu (Advogado, Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados), título a comunicar.
11,30h: Prof.ª Doutora Maria Eduarda Gonçalves (ISCTE), «Risco Tecnológico e Novos Direitos».
12h: Debate.
Tarde
Moderador: Dr.ª Ana Sofia Estanqueiro.
14,30h: Prof. Doutor Silvério da Rocha Cunha (Universidade de Évora), «Direitos Fundamentais e Responsabilidade num Mundo Global».
15h: Prof. Doutor José Manuel Pureza (Universidade de Coimbra), «Descolonizar e Democratizar os Direitos Humanos».
15,30h: Prof. Doutor João Pedroso de Lima (Universidade de Évora), «Figuras e Limites da Tolerância».
16h: Prof. Doutor Pierre Guibentif (ISCTE), «Os Efeitos dos Direitos Fundamentais Hoje. Elementos de uma Apreciação Sociológica».
16,30h: Debate.

30 de Outubro
Moderador: Dr.ª Paula Teixeira da Cruz.
10,30h: Prof. Doutor Francisco Soares (Universidade de Évora), «Direitos Humanos e Literatura».
11h: Dr. Paulo Teixeira Pinto (Advogado), «Do direito de Cidadania à cidadania do Direito».
11,30h: Prof. Doutor Mário Reis Marques (Universidade de Coimbra), «Direitos Fundamentais e Afirmação de Identidades».
12h: Debate e fim dos trabalhos.

à tout propos (29)



CONTOS DE LUA CHEIA NA SOCIEDADE HARMONIA EBORENSE
Para aqueles que ainda acreditam no pai natal; ou para quem se diverte com coisas simples, como por exemplo, uma histórinha de embalar.
Desta feita, com a contadora de histórias, Helena Faria.
28 de Outubro
Livraria Som das Letras: 18h00
Sociedade Harmonia Eborense: 22h00

22 de outubro de 2004

em de-talhe

ESCÂNDALOSO
Então não é que o futuro presidente da Comissão Europeia aceitou para comissário da justiça, liberdade e segurança, o italiano Rocco Bottiglione? Pior, não só aceitou a sua indigitação - perante a tempestade que o italiano tem vindo a fazer - como defende a sua integração. Podemos então dormir descansados porque teremos um ser ultra-conservador e reaccionário a velar pelos nossos direitos, liberdades e garantias.
Com sorte posso respirar, desde que não mexa no meu sexo nem olhe olhos-nos-olhos para o meu superior...
Isto só pode ser uma manifestação do eterno retorno, significando por isso o colapso da democracia (ainda que oligárquica) e o regresso à tirania!
Numa situação normal, numa democracia, o Sr. Presidente Barroso, nunca colocaria os seus interesses e ambições pessoais em detrimento dos interesses comunitários. Por isso, faz procissão de fé nas circunstâncias em que se devem assumir rupturas. Já o fez com a sua saída do governo português e agora volta a dar o ar da sua graça.

21 de outubro de 2004

à tout propos (28)


Campbell's Tomato Soup, Andy Warhol, 1968
Atenção, pessoal da régua e do giz, de aqui em diante vão passar a dar aulas de apoio aos senhores juízes deste Portugal. Ao que parece, os tipos não sabem nada de geografia, história, filosofia ou matemática - para além do português, que é paupérrimo - de modo que precisam de alguma ajuda para decidir processos judiciais, tá?
E é muito bem feito! Assim é que a justiça vai para a frente, com gente culta, instruída. Por outro lado, esses malandros dos professores que andam por aí na vagabundagem, vão começar a vergar a mola, agora é que vão ver as listas de colocações...
E tenho poucas dúvidas de que a resolução de processos complexos como o da «Casa Pia» ou o «Apito Dourado», por exemplo, vão passar a ser decididos enquanto o diabo esfrega um olho. Deixem-no esfregar os dois, se querem ver do que estes rapazes são capazes... E entretanto, os delegados do Ministério Público vão passar a ser capatazes de obras públicas porque estão habituados a lidar com hordas; ou então, porteiros de discoteca, para bater de uma assentada no réu e nos advogados de defesa.
Aposto que o Sr. Primeiro-Ministro não deverá ter andado muito longe deste tipo de raciocínio absurdo e néscio (salvo uma ou outra excepção), quando, em mais um momento de hilariante alucinação, lançou a boca dos professores assessores de juízes. Ou isso, ou foi mais uma interpretação errada das palavras de um membro do governo. Começam a ser demasiadas, se calhar é melhor nem falar, nem sequer pensar, porque desconfio que há por aí nozes metidas no crâneo de alguns, que em nada devem
ao conteúdo do quadro de Warhol...

19 de outubro de 2004

à tout propos (27)


Cabala, Luis Arroyo
CABALA (def.)
Cabala: s.f. interpretação alegórica do Velho Testamento, entre os antigos Judeus; espécie de ocultismo; [fig] maquinação; intriga; conluio (Do hebr. qabbalah, «tradição», referindo-se à tradição esotérica, pelo fr. cabale, «intriga»).
A qual destas interpretações se referia o Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares enquanto se enterrava no lodo, alegando um conceito contraditório e paradoxal como «cabala involuntária»? Cabala involuntária?
Alucinação por alucinação, eis o tipo de navegação que o senhor ministro andará certamente a empreender quando não está a dizer disparates:
Podia ser pior...

em de-talhe

AINDA A CENSURA...
Hoje, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, foi ouvido pela Alta Autoridade para a Comunicação Social, a respeito do caso «Marcelo».
Pasme-se, quando este indivíduo vem agora dizer que se tratou de uma cabala política contra o governo, orquestrada pelo próprio professor Marcelo Rebelo de Sousa, em conluio com os jornais Expresso e Público.
Convém contextualizar esta situação. Estamos a falar de um ministro e não de um vendedor de cebolas (com todo o respeito que me merece quem venda esse tipo de tubérculo); estamos a falar por isso, de um membro do governo a opinar para os órgãos de comunicação social em nome do governo, num local de alta carga simbólica e institucional e na condição de ministro dos Assuntos Parlamentares. Por estas razões, a posição revelada hoje pelo senhor ministro é extraordinariamente absurda e miserável porque é ele o principal responsável pela polémica gerada, ou pelo menos, é ele o rosto da mesma.
Foi ele quem manifestou, em representação de todo o governo, a sua indignação pelos comentários supostamente eivados de mentiras, proferidos por Marcelo, sugerindo que naqueles moldes (sem principio do contraditório) não seriam toleráveis. Como se não estivesse consagrada a liberdade de expressão, como se a opinião fosse sancionavel judicialmente, como se a pluralidade de opinião fosse proibida, como se o governo não fosse criticável…

Faço um apelo à memória para que não deixemos de considerar que este senhor não é nem um aprendiz de político (militante do PSD desde 1978, deputado à Assembleia da República entre 1979-83 e 2002-04, membro das assembleias municipais de Lisboa e Cascais, membro de diversas comissões parlamentares), nem o governo de que faz parte poderá mostrar ponta de ingenuidade na relação com a comunicação social, revelando minúcia e ardileza no trato com este sector: é a ascensão mediatizada a lideranças de clubes de futebol, câmaras municipais e ao governo pelo seu actual líder; são os cuidados evidenciados pela profusão de assessores de imprensa; é a ambição de criar um órgão regulador da informação, ou seja, um filtro… Não foi da sua casa de campo, no meio de um barbecue que vimos Gomes da Silva trajado de fato-de-treino a aventar palpites.

Cabala? Tiro no pé, é o que é… Se a comunicação social tivesse dado à situação o tratamento que o Sr. Ministro pretendia, nesse caso, o que seria? Perante tamanha irresponsabilidade só há uma saída e mesmo assim, da desconfiança e da instabilidade política (que a todo o custo o Sr. Presidente da República pretende disfarçar) não se livra este governo.

PS: ah, já agora, alegrem-se os que vão ver baixar o IRS e ver aumentado o salário. Mas, façam as contas os que poupam e os que têm créditos à habitação (que não são poucos), para verem no final do ano como pode ser paradoxal uma diminuição de IRS… é que, não há almoços grátis, dizia o outro.

PPS: disfarçar um elefante numa plantação de morangos, pintando-lhe as unhas de vermelho não é senão um chiste…