30 de dezembro de 2004

em de-talhe

GABINETE DE CRISE
Ontem, o ministro dos negócios estrangeiros abriu generosamente as portas do ministério à SIC e orgulhoso, mostrou como funciona a célula de crise que se ocupa na localização de portugueses desaparecidos no sudeste asiático.
A dita estrutura - composta por 3 administrativos, um porteiro e um aprendiz de diplomata a ensaiar contactos telefónicos - está em permanente contacto telefónico com os locais, mantendo-se activa 24 horas por dia. Por outro lado, todo este esforço é complementado com parcerias estreitas que mantemos com outros países: eles trabalham no terreno e a nossa célula diz aos familiares se a pessoa continua ou não desaparecida. Muito inteligente. É desta que o défice público vai lá...
Para mim, devo confessar que foi uma completa desilusão pois sempre pensei que uma estrutura de crise funcionasse no interior de uma sala blindada a 200 metros de profundidade, escavada numa rocha e os operacionais fossem militares da central de inteligência a monitorizar tudo em instrumentos sofisticadissimos.
Nada disso, um dos funcionários introduzia numas células de Excel feitas à medida, categorias como «desaparecido» ou «por encontrar». Já agora, partilho uma curiosidade: estavam todos impecavelmente vestidos, trajando de fato e gravata.

à tout propos (94)

SUDESTE ASIÁTICO IV E COSTA ORIENTAL AFRICANA


Estão contabilizados cerca de 81 000 mortos e 500 000 feridos. O número de vítimas mortais pode chegar ultrapassar a barreira das 100 000 vítimas mortais. Persiste o risco de epidemias endémicas em larga escala.

29 de dezembro de 2004

da democracia em todos os lugares menos na américa

1. É impressionante a soberba, o autismo e a ausência de cultura democrática ostentada pelo ainda Primeiro-Ministro, Pedro Santana Lopes. O indivíduo não se resigna nem parece dar mostras de compreender para além do tipo de raciocínio detrás do qual se escuda e que tipifica aquilo que ele orgulhosamente gostaria de ser: o animal político em permanente combate! Porém, convém recordar ao senhor que também é preciso produzir...
Continua a justificar o seu fracasso e o desgaste de algum capital político, concentrando as suas energias na decisão de Jorge Sampaio em dissolver a Assembleia da República. Ingrato, morde vilmente em quem lhe deu de comer durante quatro meses.
Pois, também é culpa do Presidente da República as governações despesistas e ultrajantes na Figueira da Foz e em Lisboa. E para cobrir financeiramente o que foi feito, não bastam as contribuições dos figueirenses nem dos lisboetas. Isso é à conta do fecho de centros de saúde no interior, do desinvestimento na investigação científica e na educação, etc., etc.
2. Segundo parece, no próximo dia 30 de Janeiro o Iraque passará a ser uma democracia. Isso quer dizer que a guerra civil que sustenta e anima aquela ideia terminará nessa data? Mas, sendo assim, se a guerra civil terminar, como é que pode haver democracia?
Não bate a bota com a perdigota...
Ah, espera lá... afinal para haver democracia segundo Robert Dahl (Who Governs? Democracy and Power in the American City) é necessário garantir 8 critérios institucionais:
a) Liberdade de constituir organizações e aderir às mesmas;
b) Liberdade de expressão;
c) Direito de voto;
d) Direito de competir pelo apoio e pelos votos;
e) Elegibilidade dos cargos políticos;
f) Fontes de informação alternativas;
g) Eleições livres e correctas;
h) Instituições que tornem o governo dependente do voto e das outras formas de expressão de preferências políticas.
É claro que o Iraque só não cumpre aí umas duas...
PS: Notícia de Última Hora: informações acabadinhas de chegar dão conta da partida de alguns cargueiros americanos com destino ao golfo pérsico, cheios de democracia nos porões para distribuir pela população. Devem chegar amanhã, o mais tardar, na Sexta-Feira.
Adoro finais felizes!

em de-talhe

ÁGUA A VALER
Hoje, enquanto investigava na net as agruras a que se dedica um caríssimo amigo, pelo qual tenho a maior estima e com quem espero vir a tomar de assalto o poder dentro de um par de anos, sou confrontado com um insólito episódio que lhe terá sucedido esta manhã. E que de algum modo, compete com um outro episódio (apenas um pouco mais dramático, à vista desarmada) pelos meus fundos mensais destinados à caridade e compaixão pelos mais fracos, pelos espoliados do sistema. Ele próprio, em primeira mão, relata a coisa em colectivo transgressão.
Segundo parece, o querido amigo terá enchido demasiado a banheira e sem medir as consequências, de forma absolutamente irresponsável (o que não é vulgar nele, principalmente embarcar em aventuras holistas), atirou-se loucamente em registo Acapulco, provocando um maremoto à escala da banheira. Esta brincadeira, ter-lhe-á custado no mínimo, uma valente açoitada na flora sub-abdominal, facto gerador de ampla instabilidade doméstica. Como não bastasse, terá responsabilizado o patinho amarelo de borracha que habitualmente navega naquelas águas tépidas e naftosas.
Sucede que, como disse, devo optar. Apesar de compreender as dificuldades por que está a passar, tenho informações de fonte segura que o patinho admitiu a responsabilidade transformando-se de seguida em bode. Por outro lado, as minhas economias só se destinam a cobrir prejuízos causados pela mãe natureza, uma vez que é ininputável... ah, pormenor fundamental: ele tem uma banheira em casa, como todos os portugueses, de resto... pronto, ok, não é nada de especial, não conto este argumento.
Finalmente, o amigo em causa teve tempo suficiente para «gamar» um balde inteligente no penúltimo sítio onde trabalhou, assim como despedir em tempo útil o patinho, que apesar de não ter tido responsabilidades neste caso concreto, foi o responsável pela criação da conta bancária.
Portanto, eram cumplices!
2. Congratulo-me por um segundo amigo, menos exuberante na arte do salto para a piscina, ter decidido iniciar o seu projecto de degradação dos poderes instituídos, começando por degradar o seu próprio em anda cá que eu não te aleijo. Não sei muito bem o que quer este amigo dizer com isto mas parece-me ser um qualquer rifão sul-americano.
Mas tenho cá uma sensação... Este amigo faz também faz parte do Projecto 2012, é um dos cabecilhas.




em de-talhe

SUDESTE ASIÁTICO III

Os números de perdas humanas não cessam de aumentar. São apenas números mas as perdas são reais.
Sem querer responsabilizar o ocidente por tudo quanto se passa no resto do mundo e muito menos por uma falha tectónica que provavelmente se manifesta há milhares de séculos, certo é que as condições materiais de prevenção, ordenamento do território e tipo de construção, são factores que possivelmente reduziriam significativamente o número de vítimas mortais. E neste particular, ainda que países como Portugal (ver o artigo de Miguel Miranda) não possuam meios para monitorizar tsunamis, a verdade é que a probabilidade de aqui se formarem ondas gigantes é exponencialmente menor do que em oceanos como o Índico ou o Pacifico. Por outro lado, o ordenamento do território impõe regras que, por vezes e erroneamente classificamos absurdas. Um tipo de construção sólido não só constitui barreiras de protecção como não dispersa milhões de destroços acutilantemente perigosos.

Esta introdução, para fazer uma ou duas referências.

Esses instrumentos de que falei exigem recursos e legislação. Ora, o ritmo desta corrida imprimido pelo ocidente é avassalador e só sobrevivem os mais fortes. Note-se aliás como o abrandamento desse ritmo tem sido altamente danoso para as economias. Claro que entrar na corrida implica treino e recursos desigualmente distribuídos. Os competidores mais fracos viram-se naturalmente na contingência de entrar nessa corrida sem poder fazer face a imponderáveis ou situações críticas como a que se vive. Esta situação é particularmente evidente nos países mais sacrificados, reproduzindo o «capital de miséria» e hipotecando a capacidade para diminuir os desequilíbrios. De resto, esta situação decorre de condições históricas, culturais e físicas conhecidas e do conhecimento geral.

É aqui que o ocidente tem responsabilidades e convém não esquecer que muitos dos países afectados neste momento assentam parcialmente a sua economia na mão-de-obra barata e na baixa qualificação, incapaz de explorar os seus próprios recursos naturais. Na verdade, somos nós que os exploramos, aliás, depredamos. Ver a este respeito o texto Globalização, Domínio e Sociedade de Risco publicado na ACTAE: os riscos produzidos pela natureza foram já largamente ultrapassados pelos riscos produzidos pela sociedade.
Mas continuamos a correr, sem saber bem para onde e sem nos importarmos se somos acompanhados, se fica gente para trás.

Por outro lado, a investigação científica mundial (maioritariamente a cargo dos países desenvolvidos), encontra-se demasiadamente dependente da economia e das empresas que a patrocinam, seja na indústria farmacêutica, espacial, militar, entre outras. Tudo tem custos e sendo os recursos escassos, a monitorização de tsunamis não entra certamente no topo de prioridades de países ocupados em debelar doenças endémicas, combater a fome e a pobreza ou infelizmente a produzir sofrimento adicional com guerras despoletadas por interesses pessoais, étnicos ou oligárquicos...
Talvez John Rawls tivesse afinal razão em A Lei dos Povos, tornando a humanidade um só povo dentro do primado da democracia (condição fulcral, pelas razões que inteligentemente aponta), ainda que para isso se tivesse que trazer à decência, povos não decentes... Alguns meios pelos quais ele propõe esse contrato social é que esbarram com estrondo em concepções que hoje temos por universais.

Mas as leis da economia não estão na natureza, pelo menos estas, apesar de elas próprias em articulação com a acção política, terem condições para suavizar o sofrimento humano. Só assim fazem sentido. Afinal para que serve a cultura senão para compensar os desequilíbrios da natureza?

Não obstante, é em momentos de extrema dificuldade como os que se apresentam àquelas pessoas que é experimentado, como que um retorno à natureza (em concreto, à leis da natureza que apelam ao instinto de sobrevivência e comunidade), e a prova disso é a solidariedade espontânea entre as pessoas, unidas por laços que ultrapassam a barreira da religião, do estatuto económico e da nacionalidade. Uma redefinição do espírito de comunidade de Tönnies, um reforço da solidariedade mecânica de Durkheim.
São momentos como estes que se alude à necessidade de trabalhar em conjunto, momentos em que se compreende a verdadeira dimensão da espécie humana no confronto com a magnitude da natureza, momentos em que a espécie humana se cumpre enquanto tal, enquanto uma única comunidade animal disposta a empreender uma viagem no mesmo vagão.

28 de dezembro de 2004

à tout propos (93)




Sabah, Malásia (Stuart Franklin - NGS)

Idílio...

à tout propos (92)

ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL
Para apoiar a AMI, já no terreno a prestar auxílio às populações afectadas, qualquer um pode fazer donativos, através de
Depósito da conta BES da AMI nº 015/40000/0006
Multibanco. Entidade 20909 e Referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços
Tranferência bancária para o BES - NIB 000700150040000000672
A AMI pede que lhe seja enviada uma cópia do talão de comprovativo para receber o respectivo recibo de donativo.
Qualquer ajuda é preciosa. Para se ter uma ideia, esta tragédia equivale a cerca de 1000 autocarros como o que desafortunadamente caíu em Entre-os-Rios. Com uma agravante: a destruição que semeou, afectando milhões de pessoas que têm contribuído decisivamente para o status quo ocidental...

à tout propos (91)

SUDESTE ASIÁTICO II
As constantes actualizações elevam para mais de 55 000 mortos.
Ver em Público e TSF.

27 de dezembro de 2004

à tout propos (90)

ANTÓNIO BARRETO E A APROVAÇÃO DO ORÇAMENTO DE ESTADO 2005
"Como se sabe, a aprovação do [Orçamento de Estado] pelo quase dissolvido Parlamento e a sua promulgação expedita pelo dissolvente Presidente da República constituíram um facto maior do anedotário da democracia portuguesa. A fim de mostrar a sua repulsa pela decisão presidencial, a maioria não queria aprovar, mas aprovou. As esquerdas, contrárias ao seu conteúdo, queriam que fosse aprovado mas votaram contra. O Presidente, apesar de descontente com a política orçamental e económica, promulgou. Tudo isto, claro, na maior serenidade e com total transparência."
António Barreto, Público, 26 de Dezembro, p. 7
É brilhante!

em de-talhe

AUMENTOS SALARIAIS
Tive a fazer as contas bem feitinhas e confirmados os 2,2 % de aumento salarial, verifico que serei aumentado em mais 27.324 € no salário bruto. Desses, cerca de 20 € passam nos crivos da contribuição fiscal, aumentando substancialmente a minha receita líquida mensal.
Tendo em conta que em 4 anos, a carreira em que me insiro foi aumentada 2 vezes, concluo facilmente que em média, teremos sido aumentados anualmente qualquer coisa como 1 ponto percentual. Nada mau, tendo também em conta os valores da inflacção que podiam ser exponencialmente maiores; e seriam, caso Santana Lopes e o seu séquito se mantivessem «enlapados» ao poder.
Felizmente os colegas do sector privado só dependem do seu bom desempenho para verem o seu «vencimento» aumentar quanto e como queiram. Como não têm contribuintes para servir mas sim clientes, têm o seu trabalho muito mais facilitado. Isso para além de poderem ser clientes sem serem contribuintes... Mas o que importa é que todos, em uníssono, exijamos estradas, pontes, estádios e submarinos, sendo ou não contribuintes (mas todos portugueses).
Não obstante, quando a esmola é grande, o que é que faz o pobre? Desconfia, claro está... aumentar assim a função pública, essa horda de alarves mandriões.
Por meu turno, tenho que pensar muito bem o que vou fazer com essa batolada que me calhou na rifa, que multiplicada por 14 dá qualquer coisa como 280 €, quase 60 contos por ano! É quase o ordenado de um auxiliar administrativo.
Com esse dinheiro, posso comprar dois microondas por ano ou pagar um bilhete anual para ver o Benfica ou então, jantar num restaurante caro e embaraçar os presentes com a forma como vou vestido e como pego nos talheres.
Felizmente a liberalização dos combustíveis pôs travão ao aumento dos preços; felizmente que temos mais e melhores cuidados de saúde; mais investimento na educação e na investigação científica; felizmente que os custos de produção diminuem drasticamente aumentando consideravelmente o poder de compra dos portugueses.
Agora com mais 4 contos por mês é que vai ser a loucura... Talvez compre um carro igual ao de um ministro. Com motorista e tudo!

26 de dezembro de 2004

à tout propos (89)

RESQUÍCIOS NATALÍCIOS - TOP SMS
Após mais uma quadra natalícia, 5 kg a mais nos «pneus» e a carteira esventrada, é com particular satisfação que aqui publico as melhores mensagens de natal que recebi este ano. Quer pela acidez quer pela mordacidade, as duas mensagens personificam espíritos diferentes daquilo que pode ser o natal, sobretudo para cada um dos autores. Fiquei fascinado com ambas.
1. «É só para te dizer que este ano (assim como nos outros) me estou perfeitamente borrifando para se tens ou não um bom natal e um ano novo feliz. Carne...
Telmo Rocha, 24 de Dezembro, 20h53
2. «Que esta época de paz, amor e felicidade sirva para que refitas sobre o conteúdo do teu blog nomeadamente sobre o que disseste sobre o "nosso natal".. Boas facadas! :)»
Claudio Nunes, 25 de Dezembro, 12h11
O teor das mensagens é elucidativo. E um texto parece ter pouco ou nada que ver com o outro. Mas apesar de verosímil, esta proposição enferma de um grave enviesamento. Com efeito, podemos na realidade encontrar um denominador comum que liga estes textos como a noite liga com o dia. Um, termina com carne e o outro com facadas, donde podemos inferir que, ou são eles que estão por detrás das facadas que o Santana Lopes se queixa ter levado nas costas ou esta seria uma mensagem subliminar para ser eu a fazê-lo.
Por outro lado, não estou a ver que me quisessem desejar boas trinchadas no perú, não sou vegetariano mas também não suportaria ter que acabar com o pobre animal. Seria na franga? Como é que eles sabem?
PS: Obrigado a todos pelas mensagens de natal. Mesmo aos que ainda pensam que o pai natal existe...

à tout propos (88)

SUDESTE ASIÁTICO
O mundo acordou com uma catástrofe de dimensão ainda por apurar, provocada por um sismo cujo epicentro no Índico rapidamente se propagou um pouco por todo o Sudeste asiático, sob a forma de tsunami.
A esta altura fala-se em mais de 12 000 vítimas mortais. No entanto, avançar números neste momento é pura especulação em virtude da enorme quantidade de desaparecidos.




24 de dezembro de 2004

os deuses também já foram homens

Ah, e só mais uma coisa antes de ir encher as trombas de camarão, rabanadas, filhoses, bacalhau e vinho tinto.
Para que fique claro, eu não acredito no pai natal e a prova disso é irrefutável: já tenho 30 anos. Mais, caso existisse eu teria certamente umas continhas a ajustar por aquele dia em que sonhei com a «Estação de Serviço Galp» em cima da arca frigorífica (nos meus sonhos não havia cá sapatinhos, sempre foram muito reais) e quando acordei, precipitei-me da cama para a cozinha para dar de caras com... ar. Bom, talvez lá estivesse a inevitável jarra depositada em cima de um «naperon» de renda, mas nada mais.
Até hoje! E estação de serviço Galp com elevadores e diversos compartimentos para acomodar os carrinhos, nem vê-la...
Nem me recordo do que recebi.
PS: lá em casa, não tinhamos criadagem mas o meu pai fazia uns presépios fenomenais com musgo, figuras, folhas de prata a representar os cursos de água e a uma gruta com luz electrificada. Nada mau...

à tout propos (87)

A MIRA MULTIÓPTICA DE MIGUEL SOUSA TAVARES
Ver o artigo Não há pressa de Miguel Sousa Tavares, sempre acutilante e algumas vezes sóbrio, no Público de hoje.
Apesar de concordar em quase tudo, não posso no entanto deixar de afirmar a minha discordância quando se refere à prolixidade e rigídez da Constituição, em particular quando apela ao facto de o documento continuar a prever a existência de Regiões Administrativas, tendo os portugueses recusado a regionalização, nas palavras dele.
Três reparos:
1. Os referendos, para serem vinculativos não prescindem que a maioria dos portugueses se manifestem, votando. No caso em particular, como é sabido, a abstenção foi de 51,71%.
2. Por outro lado, o modelo em causa, pelo qual, diga-se de passagem, nem o próprio PS (governo na altura) se bateu em bloco, era previsivelmente inadequado. Como se disse, a discordância quanto ao modelo em causa, no seio do PS era evidente e a proposta sofrível.
3. Finalmente, na minha opinião, figurando esse nível de poder local na Constituição, nem sequer se levanta a necessidade de referendar a sua criação; apenas e quanto muito, o modelo. Para criar o Município e a Junta de Freguesia foi preciso submeter à apreciação do povo? Para criar essa incipiente extensão do Estado a que se dá o nome de CCDR também foi necessário elaborar referendos? Assim, a 1ª pergunta era desnecessária.
Em suma, ou se muda a Constituição ou se referenda apenas o modelo a implementar.
O RICO NATAL DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
Ao lado do artigo de João Bénard da Costa, Recantos do Natal, os editores do Público deveriam ter também publicado um artigo a relatar como eram passadas as noites de consoada de 3 quartos da população portuguesa. Sem quaisquer pruridos gerados pela protegida noblesse portuguesa durante o Estado Novo e pelo que significava esse privilégio para a restante população, não me parece muito próprio falar dos «folhados de camarão com salada russa», «mousse de chocolate», «das criadas» e da «pilha de presentes» dos natais da sua infância, sem que os avós e pais de pessoas como eu falem do que tinha de especial essa noite para eles: das criadas que eram, das meias rotas que talvez fossem substituídas e da dádiva que significava uma humilde refeição em época de «pilha de fome».
Assim, os leitores poderiam ler os textos sem deixar de compreender que o Natal de João Bénard da Costa só tinha razões para ser mágico... E ainda bem para ele. Mau para os que com 20 anos já só tinham 20 dentes...




23 de dezembro de 2004

à tout propos (86)



GORILAS NA BRUMA OU O REI DA MACACADA
Chris Savido resolveu dar consistência àquela comparação - muito difundida pelo mundo decente - entre Bush e um chimpanzé.
Como complemento, porque não consultar o próprio site deste artista, Monkey River Town. Histórias muito actuais.
Quem leu «O Único Animal Que?» do Augusto Abelaira, facilmente se identificará com o registo.
Já agora, sigamos o sábio conselho de Abelaira e começemos a mascar compulsivamente pastilha elástica, a ver se ajudamos os maxilares a roubar espaço ao cérebro...

à tout propos (85)

SERVIÇO DE ALARME ONLINE
Serviço de alarme, reminder e calendário em Birthday Alarm.

os deuses também já foram homens


Spartan girls challenging boys, Degas, 1860-62.
Tributo à amizade: Luís, Pedro e Filipe, os festejos «natalícios».
Com pinta...

22 de dezembro de 2004

à tout propos (84)

GUIAS CARTOGRÁFICOS DO MUNDO
Mapas de todo o mundo, clicar AQUI precisamente.

à tout propos (83)

QUEM CONSEGUE RIDICULARIZAR A BOÇALIDADE?
Imaginar Silvio Berlusconi de ceroulas, vestido de palhaço, de Hitler ou mesmo com um sensual fio dental, deixou de ser apenas uma especulação onírica.
Atreve-te a desafiar a imaginação e ousa tentar ridicularizar o primeiro-ministro italiano.

os deuses também já foram homens



La Tentación de San António, Salvador Dali, 1947
Tributo ao espírito livre, reflexivo e crítico.

21 de dezembro de 2004

à tout propos (82)

VOLUME NÃO IDENTIFICADO ATRASA PRIMEIRO-MINISTRO


Segundo fontes oficiais, foi detectado ontem no avião que levaria Santana Lopes de Lisboa ao Porto, um «volume não identificado».

Ao que parece, logo após a saída de um blindado que parou junto ao avião, os 16 seguranças terão subido em bloco para o avião, rodeando e transportando em cadeirinha o governante, evitando assim o eventual rebentamento de minas anti-pessoal.
Desta forma, asseguraram de imediato no interior da aeronave, um perímetro de segurança de dois metros, o normal nestas situações (recorde-se que no Air Force One é de cerca de 2 metros e 15).

Por outro lado, este tipo de procedimento diminui consideravelmente o risco de um ataque terrorista. Há indícios da CIA, que apontam Pedro Santana Lopes como um potencial alvo de peixeiras, professores, operários fabris e um ou outro marido.

Deste modo, é perfeitamente justificado, diga-se de passagem (en passant, para os mais eruditos), o helicóptero com canhão lazer a equipa dos GOE que ininterruptamente fazem segurança ao Primeiro-Ministro.

Ora, no meio da algazarra e concentrados em identificar possíveis bombistas suicidas, os 16 guarda-costas desprezaram completamente o que Santana havia de identificar como sendo um jornal e não a Caras (como havia solicitado), tendo exclamado de imediato: «eu não me sento ali, não é essa a minha maneira de estar na política, o povo português ja me conhece, por isso tenham lá a santa paciência mas não me sento ali

Não havendo mais lugares disponíveis e visivelmente agastado, decidiu regressar ao conforto do blindado e ali prender o burro. Se já houvesse TGV, com o nosso poder de compra, certamente teria muitos lugares vagos… e algumas caras bonitas, com certeza.

20 de dezembro de 2004

à tout propos (81)



O MUNDO ESTÁ MESMO DOENTE

em de-talhe

CO-INCINERAÇÃO
Em face desta verdadeira obsessão socratiana com a co-incineração, querem ver que ainda vou ter saudades do actual ministro do ambiente, Luís Nobre Guedes?
Sócrates, não só não digeriu o abandono da co-incineração de resíduos perigosos pelo governo de Durão Barroso, como insiste na solução menos consensual das actualmente existentes e seguidas por diversos países da vizinha Europa.

19 de dezembro de 2004

em de-talhe

RISCO CONTÍNUO - TSF
Grande reportagem da TSF, coordenada por João Paulo Baltazar, um excelente contributo para o debate em torno da sinistralidade rodoviária, a nossa guerra civil.
A reportagem confronta diversas perspectivas, levantando questões que normalmente não são contabilizadas nem objecto de verdadeira sensibilização pelas entidades competentes.
A sua resolução será apenas política? Quanto custa uma vida? E as responsabilidades, de quem são, apenas dos condutores? Em todos os casos?
Para aceder, clicar em TSF e posteriormente em «reportagem 17» para ouvir.

16 de dezembro de 2004

à tout propos (80)

UM POSTAL DE BOAS FESTAS - PORTUGAL EXÓTICO E LONGÍNQUO
A AIEP (Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal), elegeu, segundo noticía o Público, Durão Barroso como «personalidade portuguesa de 2004».
A meu ver, é de muito mau gosto (embora compreenda as razões da AIEP), eleger em 5ªa ou 6ª escolha, alguém que o já foi este ano quando desertou para a presidência da Comissão Europeia.
Se há pessoa que não merece ser tratada desta forma cruel e mesquinha é Durão Barroso, por tudo quanto deu a Portugal. Ingratos!
Só porque Santana Lopes, Henrique Chaves, Gomes da Silva, Morais Sarmento e outros ícones da comunicação social não aceitaram a distinção, lá apareceu novamente Durão Barroso como solução de recurso do recurso do periférico recurso.
Mas esses senhores dessa associaçãozeca de imigrantes armados em jornalistas têm os dias contados quando o novo governo tomar posse e o acordo de Schengen fôr levantado. Não havia necessidade disto mas alguém tem que defender o nosso Comissário Barroso que com as suas novas funções, vai devolver a Portugal o esplendor dos descobrimentos, sensivelmente dentro de 500, 600 anos.

à tout propos (79)

URBAN WAY OF LIFE TOWARDS QUALITY
Mais uma animação do Bozzetto.

em de-talhe

SANGUE ACABADINHO DE VERTER SABE MELHOR A QUEM O BEBE
Tenho andado a pensar já algum tempo sobre isto dos blogs e chego à conclusão que um blog sem polémica é como um jardim sem flores.
Um tipo até pode ser diligente e atento (e até inteligente como eu) mas é um fracasso estratégico apontar baterias aos políticos, ao governo, aos partidos políticos, entre outros. A razão é muito simples: andamo-nos a ocupar de coisas irrelevantes que fazem parte de um universo que me é inacessível, é intangível. Não sou de Lisboa, sou da periferia da periferia e por isso não posso dizer mal desse universo como os insignes e astutos comentadores de tudo: eles tratam-se por tu, mesmo não sendo comunistas, eles trocam de parceiro(a) entre si, de carro, começaram nas reuniões da tal cave, nos «bogos» subversivos do jardim ou foram alunos uns dos outros.
Em suma, eles conhecem-se! Portanto têm legitimidade para dizer mal. Eu não, ponto final.
É certo e sabido que nestas coisas é crucial cultivar inimizades, semear ódios, objectivos que só podem ser cumpridos através do insulto, do vilipendio público, do estalar do verniz, do telhado de vidro esburacado, do arremesso acobardado de palavras, da sapatilha na tola, da cuspidela dos olhos.
Nesse caso, terei que começar por baixo, isto é, terei que forçosamente rever a minha estratégia de conquista de poder, a minha velha pretensão de chegar a Ministro. Após uma longa e aturada reflexão, conclui que a melhor forma é despoletar mau-estar e gerar reacções entre os meus conhecidos, difamando-os ou atacando-os publicamente.
Aí, todos se vão meter ao barulho e isto vai chegar a Lisboa, será comentado nas mais finas soirées, na pausa para xupas no Conselho de Ministros, no Bartoon, no bar do Tamariz, na marina de Lagos, na casa de Elvas e no Elefante Branco.
Basta começar por dizer que o Faustino, que até é um gajo porreiro, sempre prestável, cordato e sensível, andou metido com a irmã da namorada do tio do Miguel, que por sua vez é pai da Mónica. Claro que não é por isso que o Lourenço, marido da irmã da namorada do tio do Miguel, fica aborrecido. Ele vai ficar fulo porque é sabido que a sua anterior namorada o largou como um cão, por suspeitas de ejaculação precoce, tendo supostamente partilhado essa suspeita com a mãe da Magali, madrinha do tio do Miguel.
Nisto, antecipando a previsível reacção do Lourenço, o Diogo, que andou metido com o Lourenço nos tempos de universidade, vem a terreiro desmentir qualquer possível difamação porque apesar de estar casado com a Mónica, confessa que ainda ama o Lourenço e garante que este não sofre de ejaculação precoce, o que irrita profundamente a irmã da namorada do tio do Miguel, que sem ter tido nada que ver com o caso, acaba por esbofetar não o Lourenço, seu marido, mas sim o Diogo, por quem ela manteve uma paixão secreta, levando inclusive o seu pai a promovê-lo a sub-director geral da empresa, da qual é accionista principal a namorada do tio do Miguel, cujos affaires extra-conjugais são públicos.
Claro que a namorada do tio do Miguel não viu com bons olhos a promoção, tendo em conta o passado de Miguel, antigo assassino profissional, carrasco do filho de Magali, na altura médico responsável pela laqueação de trompas da Mónica.
Claro que esta história daria certamente em cornos e tiros, sobretudo se os intervenientes chegassem à conclusão que era eu o autor desta obra difamatória. Mas entretanto, a essa hora, já eu estaria bem longe, quem sabe em S. Bento...

15 de dezembro de 2004

à tout propos (78)

ZAPPING-ARENA

Agora, versão bolinha de
ping-pong amarela online. Para romper a rotina do solitário e do minesweeper.

à tout propos (77)

346º PASSO DECISIVO
... em direcção à sofisticação, ao aperfeiçoamento técnico! Estou agora devidamente encartado e sofisticadamente habilitado para colocar os links que bem quiser e me aprouver: descobri a técnica dos links!
Agora os textos seguirão um registo estético muito mais harmonioso: se os meus estranhos leitores quiserem regressar aqui é só clicar ali atrás onde aparece uma luvazinha branca a apontar com o dedo indicador (nada de confusões com o dedo médio...). Se quiserem, também os posso mandar para outro lado à minha escolha.
Fenomenal, não é?

à tout propos (76)

GATO FEDORENTO
É realmente uma perda consideravel o aumento das responsabilidades comerciais e profissionais dos Gato: sai a perder o blog e todos aqueles que não compram DVD's ou vivem em Lisboa e Porto para assistir ao lançamento de DVD's...
Em dois meses, os homens postaram no blog, cerca de 6 ou 7 informações tipo cartaz a anunciar aparições. Devem estar mesmo cheios de trabalho; e eu de dinheiro...

em de-talhe

A FARSA NATALÍCIA

Chegado o mês de Dezembro, reencontramos mais uma doce quadra natalícia com o sabor da amizade, da confraternização, da solidariedade, da comunhão, da paz, da introspecção.
Num certo sentido, não nos podemos queixar do Pai Natal Sampaio, que nos acomodou providencialmente algumas prendinhas no sapatinho... mas não com pouca dificuldade, dada a fuligem que trazia no casaco e as pedradas desferidas pelos donos da casa.

Porém, o Natal enferma cada vez mais de algumas premissas que me deixam doente, exasperado e saturado. Começo a odiar o Natal!

Não sendo eu um crente, entendo esta quadra como apenas mais um momento do ano, que por razões absurdas (do meu ponto de vista) é investido de alguma essência fundada nas recordações e socializações de infância. Digo razões absurdas porque o Homem é ele mesmo absurdo: se os pressupostos do Natal convertem-no supostamente, numa experiência tida como bela, positiva, reconfortante, então nesse caso, que razão, senão uma razão absurda, pode negar essa experiência nos restantes meses do ano? Mais, não só nega como ao se permitir o contrário – a negação dessa experiência – torna-a paradoxal. E disso temos profundos e diários exemplos, os quais nem sequer é necessário fazer qualquer tipo de esforço para enumerar.

Ora, longe de ser aquilo que falei no primeiro parágrafo, o Natal da maioria das pessoas em Portugal e no mundo ocidental, é o Pai Natal da Coca-Cola, da Fisherprice, do Toys'r'us, do Imaginarium, do Paco Rabanne, da Zara, do Centro Comercial Colombo, do Free Port de Alcochete, dos filmes da Lusomundo, etc. O Natal varia consoante as necessidades das pessoas, se há um par de décadas ainda se oferecia comida e agasalhos, hoje as nossas necessidades deixaram de ser fisiológicas ou primárias e passaram a ser aquilo que Marcuse muito bem designou de necessidades artificiais, engendradas pela cultura, ainda por cima, pelo lado mais hipócrita da cultura dos humanos.

Em todo o lado há Natal, por tudo quanto é canto, vejo e oiço referências alusivas ao Natal, seja nos jingles da rádio e da TV, seja na rua, nas casas das pessoas, nos sorrisos irritantemente amarelos. É absolutamente claustrofóbico!
Como se não bastasse, este «Natal» começa substancialmente mais cedo e estende-se para lá do dia de Reis, obrigando-me a aturar por todo o lado esta imensa histeria, esta imensa subjugação a que estão sujeitas as pessoas, incapazes de refrear o ímpeto tresloucadamente consumista. Pergunta típica do repórter de TV na baixa do Porto: «então, quanto é que já gastou?».

E de tal forma inculcado nas nossas referências que se for sem prendas, o Natal é um ultraje, potenciador dos mais mesquinhos sentimentos entre as pessoas e que durarão até ao próximo Natal, altura em que se poderá confirmar ou não a falta de espírito natalício daqueles somíticos e egoístas seres que corporizam a também vendável ideia do Scrooge.

Para completar o ramalhete, há um subsídio de Natal (para quem o tem, naturalmente), feito à medida do consumo desenfreado; como se as pessoas só comessem no mês de Dezembro. Talvez esse subsídio pretenda premiar as pessoas pelo bom comportamento que têm durante o resto do ano…
Que fique claro, não sou contra este subsídio (também beneficio dele) embora tenha dúvidas quanto ao modelo de redistribuição.

Mas sou contra os baixos salários de muita gente em Portugal, daquela que não se vê da janela do BMW;
Sou contra as pensões medíocres que são mendigadas pelas pessoas que contribuíram para disponibilizar tudo o que nós hoje temos. Pessoas que simplesmente deixaram de ser úteis!
Sou contra a parasitagem, que nós ocidentais promovemos no Hemisfério Sul para podermos ter este status quo, construído à custa da miséria e pobreza dos outros.

Sou contra o Natal da maior árvore de natal da Europa!Esta então até me enriça a espinha...

12 de dezembro de 2004

os deuses também já foram homens

CRÓNICAS DE LECCE
Há dias, enquanto deambulava pelo blog de um amigo de infância, de adolescência e de velhice (http://www.barcelonablogs.com/alexei/), deparei com uma série de textos que ele escrevera em tempos (série «Antes da Covilhã»), nos quais se alude, entre outras coisas, a alguns episódios da nossa experiência comum em Itália. Um deles, ficou inclusive registado por mim no próprio dia (10 de Maio de 2002), tendo sido divulgado posteriormente por alguns amigos. De modo que, não é novidade, naturalmente.
Já algo esquecido e agastado pelas teias no sótão do computador, resolvi tirar esse texto da penumbra, dando-lhe o destaque merecido (pelo que representou sobretudo para nós dois naquela circunstância hilariante).
É o que se segue.

os deuses também já foram homens

CRÓNICAS DE LECCE
I PARTE
Manhã
A noite passada estava serena e bela, resolvemos sair de casa apenas para tomar o tradicional café, convictos que brevemente o tranquilo leito nos consolaria e apaziguaria o cansaço e desidratação sofrida há duas noites, em consequência do jantar de aniversário de um dos nossos, o Nuno. Na ressaca da folia, nenhum lugar nos parecia tão desejado como a "Casa di Pipo", lugar mítico que vai reconquistando a grandeza de outras épocas, pelo menos até 31 de Maio, altura prevista para o nosso retorno à grande pátria lusitana.

De resto, achados em casa, enquanto o Alexandre Nunes devorava na cozinha qualquer coisa que lhe forrasse o estômago da laringe até ao duodeno, eu, por meu turno preparava-me para uns exercícios de manutenção física, ao som de "ne me quitte pas" do Brel, apelos que o meu corpo tem feito insistentemente à cabeça. Isto para não acordar cantarolando «o corpo é que paga» do Variações.

Foi nesse instante que, sentado na cama avistei a Besta! Com "666" tatuado nos membros anteriores, aquelas patinhas coladas à parede como ventosas, o imenso visco que cobria a epiderme esverdeada e repugnante, um gorgolejar angustiante seguido de silvos cruéis que pareciam ecoar por todo o Salento. A esta altura já era assim que o imaginava a avançar para mim, com a longa cauda em movimentos hipnóticos e circulares, iniciando as hostilidades. Era um verme demoníaco, era...

... uma imensa Osga! Não, não era a "Amiga Osga", era uma osga enorme, a maior que vi até hoje nas quatro partidas do mundo, um ser suficientemente vil e asqueroso para entrar num filme do Almodôvar e enorme, digno de uma intensa reportagem da National Geographic Society ou da BBC wild life. Soltei um grito de horror.
Ao temeroso ruído respondeu o Alexandre da cozinha com vinte réplicas, dando de seguida entrada no quarto e deparando-se com o invasor exclama: uma… arghhhh.

Seguiram-se breves momentos de tentativas de avaliação da situação, continuamente interrompidas por trémulos olhares furtivos ao imenso réptil, que entretanto crescera em tamanho aí uns sete dedos, no mínimo. Pensámos em várias soluções, ponderando naturalmente a Solução Final. Temos que acompanhar as tendências... apesar de não dominarmos a técnica, faltando-nos know how; talvez os partidários do velho General obeso novamente no activo, nos possam dar umas lições, mas não há tempo para ir a Televive e regressar.
A questão central que se coloca nessa aproximação, é que nem eu nem o meu velho amigo de infância pertencemos à casta do povo eleito, embora esta circunstância nos venha servir de lição e iniciaremos brevemente as diligências necessárias para virmos a ser seleccionados na próxima entrevista, ou se assim o mister o entender.

Apesar de o Alexandre Nunes se mostrar inicialmente disposto a encetar uma valorosa acção de extermínio, logo cedeu às minhas lamúrias ao imaginar um cenário de destruição, pedaços de corpos esventrados a apodrecer na parede e esguichos de langonha por toda a parte. Pior, o contra-ataque impiedoso. O cenário não era encorajador e sabe-se lá se ainda por cima não vinha a gorda mãe Alien em seu auxílio. E nós não tínhamos a Sigourney Weaver, irremediavelmente condenados à desvantagem. Posta de parte essa hipótese, optámos por convidar o hóspede a sair. Não só convidámos como acabámos a implorar, lembrando-lhe o grande mundo que o esperava para lá do nosso quarto e a amena noite envolvente. Dele, nem uma palavra, mostrando-se irredutível.

Tomámos duas vassouras nas mãos e entregámo-nos àquela que ficou conhecida como a "Missão Repatriamento". Mas a repugnância era tal que parecia transferir-se para o cabo da vassoura no caso extremo e não planeado de eventualmente lhe tocarmos com uma das barbas. Tentámos por todos os meios incitá-lo à obediência, mas o bicho, para além de execrável é teimoso, senhor da maior arrogância nunca antes vista.

De cada vez que o seu corpo abandonava a inércia e desajeitadamente veloz percorria o tecto da nossa amada casa, nós éramos invadidos pelo terror, colocando-nos de imediato a salvo na cozinha ou rodando espavoridos em torno de nós próprios, soltando guinchos resgatados dos confins dos nossos medos. Um espectáculo extra para os nossos vizinhos, que naquelas horas mantiveram-se muito calmos. Não é normal, dado o calibre da vizinhança.
Com efeito, nem o vizinho da frente estava a berrar com a mulher (Lúcia), nem o de baixo a berrar com a sua mãe – este é o "americano" cinquentão que "habla espanol" convicto que assim melhor se entende connosco, filho de uma ex-emigrante nos US, sempre a queixar-se da falta de "cultura dos italianos"; o que elogia permanentemente os atributos das "chicas mexicanas" (e o preço), comparando obsessiva e delirantemente o Vaticano com Belzebu e apenas aguardando ardentemente que a sua querida mãe parta, para que refaça as malas e regresse à América. Provavelmente para a prisão. E finalmente, nem o nosso senhorio estava a arfar tremulamente na nuca do seu «colega» francês. Pelo menos que se ouvisse…

O Alexandre Nunes alertava insistentemente em como não estávamos preparados para enfrentar uma situação destas. De facto, nem tínhamos trazido o kit de sobrevivência nem na cidade são ministrados cursos intensivos de "primeiras expulsões". Vou propor isto à Secretaria de Estado da Educação e depois podemos valorizar esta mais valia, projectando-a internacionalmente através do Instituto Camões ou da Fundação Oriente. São estas marcas distintivas que definem a excepcionalidade do povo português, reconhecida pelas quatro partidas do mundo.

Eu, Alexandre Manuel, o outro (que "conjunção bizarra", não é?), redarguia-lhe que talvez os Carabinieri pudessem vir em nosso auxílio. Certamente teriam pontaria para eliminar o bicho e estariam preparados para lidar com situações extremas de terrorismo a este nível. Se em Génova acertaram a dois metros, em cheio no petiz que se passeava com um extintor de incêndios na mão, também aqui não haviam de falhar a besta. A menos que as suas próprias munições sentissem tanta repugnância como nós e no último instante desviassem a trajectória... Mas por outro lado, e se os Carabinieri se excitassem? Ás tantas, ficavam com os dedos quentes e havia parodia connosco, acabando por nos talhar e repartir o remanescente pelos contentores de lixo, cozinhando as nossas mioleiras em molho de tomate para o Presidente del Consiglio, Benito Berlusconi, as comer ao pequeno-almoço.

As horas avançavam e os resultados não apareciam. Pelo contrário, o feroz animal, apoiado pelo mais sofisticado sistema de orientação por GPS, iniciou novo itinerário, na direcção do guarda-roupa. Foi nessa altura que o Alexandre Nunes entrou em colapso; colapsou totalmente quando eu, numa derradeira tentativa de inverter a marcha do bicho, piorei a situação e este se afundou irremediavelmente detrás do guarda-roupa, que não dispõe de compartimentos estanques…

Já se falava em veneno, em ninho, em ovos a incubar nos bolsos do meu casaco ou nas meias dele, já se falava em abandonar Lecce, em ameaças nucleares, aumentar o IVA, extinguir os Bombeiros Voluntários, nas previsões do Bandarra. A coisa tomou proporções inimagináveis e por pouco não imaginei o Alexandre Nunes a queimar todas as suas roupas, no limite, a casa.

Após uma dura negociação, salpicada pela experiência de alguns casos de osgas portuguesas (apesar de menos hostis) que me entraram antes em casa (reforçou a minha autoridade no assunto), consegui convencer o Alexandre Nunes a não permanecer em vigília pelo que restava da noite. Argumentei que, por terem sangue frio (desconfio que nem sequer terão sangue, apenas aquele composto viscoso), as osgas necessitam de bastante calor, por isso passam horas a fio ao sol e durante a noite inflectem para dentro das casas, para além de que no Inverno ressonam, o que em dialecto português significa hibernar. Assim, bastaria deixarmos que a natureza prosseguisse o seu curso e com o sol do dia seguinte, o animal seguiria a sua vida à procura de suculentos insectos no telhado ou nas varandas das imediações. Bom, pelo menos é o que os gajos da National Geographic Society dizem nos documentários, espero que não me tenham aldrabado anos a fio, caso contrário o Alexandre nunca me perdoaria.

Selámos a porta do quarto e barricámo-nos no quarto da cozinha, onde todos os ruídos provenientes do quarto pareciam guturais...
Prevaleceu a natureza sobre a cultura. Ele venceu!

os deuses também já foram homens

CRÓNICAS DE LECCE
II PARTE

Tarde

Apesar de insatisfatoriamente dormida, a noite não nos presenteou com mais sobressaltos, a espera e a crença numa qualquer Providencia Divina eram o nosso trunfo e resignados, dormimos o menos-mal que pudemos, sufocados pela abobadaria gordurosa da cozinha mesmo rente aos nossos narizes.

Despertei com os primeiros raios de sol, tomei o meu merecido banho e sem proceder a uma inspecção minuciosa ao quarto numa acção conjunta com a Protecção Civil e o Instituto de Paredes de Portugal (uma fusão do Instituto de Estradas de Portugal com o Instituto da Apanha do Tomate e Instituto da Promoção da Banha de Porco na Escandinávia), tomei o caminho do edifício da "Provincia di Lecce" (onde uns senhores muito gentis me deixam utilizar o computador para escrever estes delírios), na esperança de que o decorrer do dia e o aumento da temperatura concluíssem o "chamamento"...

Quando o sol já ia alto e o estômago vazio, encontrei-me com o meu co-inquilino antes do repasto, saboreando com alguma descontracção os acontecimentos dessa noite. Todavia, pressagiando o pior – ou seja, o impensável – decidimos arrastar os nossos delicados e já fragilizados corpos a casa, com o intuito de verificar (in loco) se o desavergonhado intruso tinha finalmente despregado da cândida parede aquelas patas esponjosas, qual velcro irresistível que cola alguns a políticos ou a algo do género...

O outrora acolhedor quarto revelava-se suspenso num tranquilidade soturna, numa paz podre, quebrada a espaços pelas dezenas de moscas que entretanto aproveitaram o convite da janela entreaberta e rodopiavam numa valsa ascendentemente esquizoide. É assim, uns saem derrotados e outros entram vitoriosos, é cíclica a dança das cadeiras... O quarto que na sua longa vida já tinha assistido a muitas revoluções, a muitas alegrias, a muitas perdas, mostrava-se agora ressequido, cansado e embriagado de tristeza. Mas porque razão? Entretanto esqueci-me de regar a hortelã que tenho num vaso.

[após regar a hortelã] Receoso mas destemido, invocando a bravura de heróis de outros tempos, Alexandre Nunes, que envergava um elmo de latão decorado nos rebordos com esmeraldas, uma fina cota de malha de terracota, sabre de Jedi, comprado na "Casa Milho" por ocasião de um Carnaval, e montando o seu fulgurante corcel branco, avançou decididamente para o armário.

Trémulo, colou a face direita à parede e apoiou o nariz na parte anterior do guarda-roupa, conseguindo desta forma circense porque acrobática, o melhor ângulo de visão, munido com a mais aparatosa tecnologia em termos de auxiliares de visão nocturna: uma pequena mas corajosa lanterna de plástico comprada por 50 cêntimos na loja das 1000 liras, em Bari (na verdade estou a falar de Bari, capital do crime organizado, da delinquência generalizada e comércio legal de órgãos humanos. Não é qualquer um que de lá sai com vida, apenas The Choosen One).
Foi no momento em que «clicou» pela terceira vez o sistema ultra-sofisticado da lanterna que o breu se desvaneceu dando lugar à clarificação de formas que nos eram já familiares; por sua vez, ao já familiar grito de repugnância – mesclado com ódio visceral – correspondeu um poderoso duplo salto mortal encarpado atrás. O escabroso e pestilento ser continuava a profanar a nossa parede.

Não, definitivamente não era uma osga qualquer. Esta era de uma estirpe conhecida trazida pelos ventos de leste. Tardiamente a noticia havia sido difundida em primeira-mão pelo amigo Bush depois de a ter visto na CNN. Era na verdade um comando operacional altamente especializado na "base terrorista" de Massive Atack, como lhe chamam. Este novo dado confere uma nova dimensão aos factos.
Agora sim, éramos investidos da mais profunda convicção e da autoridade conferida por Deus para representarmos as Forças do Bem na luta contra o Mal. Ah pois… Obrigado, bondoso aliado Bush por nos mostrares o caminho da salvação. Além disso, é evidente que isto era uma declaração de guerra, pior, uma desprezível acção de terrorismo para sabotar a minha tarde descansada a comer biscoitos e a controlar umas migalhas às formiguinhas que se atrevem no meu quarto.

Ponto final, vou definitivamente deixar de ser assinante da National Geographic Magazine e o Henrique (sobrinho) que me perdoe, mas lá em casa nunca mais há BBC vida selvagem nem seja o que for relacionado com tipos que pensam os animais à sua imagem e lhes dão beijos e cenas dessas. A única explicação para evitar o total descrédito deles seria eu ter perdido algum episódio importante. Agora já é tarde, there’s no way back.

A histeria regressou e apoderou-se com incomensurável tormento destas duas pobres criaturas indefesas, impotentes e perdidas, irremediavelmente perdidas. Os americanos nunca cá estarão a tempo de evitar uma catástrofe. Porem, num acesso de loucura inconsequente, virámos o quarto às avessas, gritando desesperadamente na ingénua tentativa de enxotar o animal, de fazê-lo tornar a si. O desalento ganhava terreno mas a ideia da Solução Final assumia contornos cada vez mais reais. "Se não podes vencê-los, junta-te a eles!", dizia eu de mim para nós. Mas isso era absolutamente impensável. Absolutamente irrealizável. Numa palavra, abominável. Juntar-me? Os israelitas não se juntam aos palestinianos, nem se dividem, vou-me eu juntar à vileza corporizada num réptil? Jamais! Xiiii, já estou a pensar, tornemos ao impensável...

Nisto soou a campainha da porta! O alerta terá feito sentir-se, interroguei-me. Afinal a nossa súplica enviada por trompas ancestrais cuja memória se perde na idade do tempo, parecia ter chegado aos ouvidos dos nossos aliados.
Afinal sempre tínhamos a Sigourney Weaver do nosso lado. Cansada de viver com Gorilas na bruma e exterminar Aliens, tinha agora a oportunidade de exterminar a grande osga salentina, predador temível, forjado na arca de Canhim (uma secção dissidente da arca de Noé que não reconhecia legitimidade ao velho marinheiro).

A esperança renasceu, o sol voltou a brilhar, os passarinhos a chilrear e o vizinho da frente a berrar com a mulher (Lucia), quando do vão das escadas surgiu a potente amazonas de traço crioulo e determinação saxónica, a Sónia, que num tom determinado, autoritário e sedento demandou: "onde está o bicho?". Fazia-se acompanhar do seu velho e fiel escudeiro, Nuno, criatura exemplar nas artes pirotécnicas dada a destreza com que acendia nervosamente um par de cigarros com outro par de cigarros. Figura sinistra e impassível.
Não temos Goebbels (perdoem-me a imprecisão histórica), Sharon ou Pol Pot mas temos a Sónia, pensei. Afinal, tem a frieza do Schwazeneger no seu melhor em Exterminador Implacavel I, a força de Hulk, o know how da CIA e fundamental, não se demora como o Manoel de Oliveira.

Num ápice meteu mãos à obra e erguendo a sua demolidora maça, lançou-se na perseguição do temível e, nas novas condições, assustado inimigo. Apesar de havermos contratado alguns batedores autóctones, todos eles sem excepção se recusaram a prosseguir nesta extenuante empresa. Com efeito, foi com alguma dificuldade que lhe encontrámos o trilho, localizando assim o covil pestilento, perdido nas profundezas do alçado da cama.

Num movimento, num só movimento incrivelmente engendrado e delicioso pela sua perfeição e sincronia, arrastei a cama e o ardiloso animal viu-se irremediavelmente pequeno e evidentemente sem mais manhas. Nessa fracção de momento que passou a representar a negação da liberdade e da existência do infame, a Sónia desferiu-lhe um certeiro e violentíssimo golpe, desfigurando-lhe para sempre aquele perfil sanguinário que antes tão orgulhosamente ostentava.

Nos momentos que se seguiram, o Alexandre Nunes certificava-se, imbuído de doentia felicidade, da concretização da promessa que já antes lhe destinara. Nuno permanecia impassível com uma vassoura na mão enquanto acendia um par de cigarros com outro par, soltando risotas em delírio compulsivo. Durante estes inebriantes instantes estava já eu extenuado de náuseas, prestes a vacilar intestinalmente num misto de satisfação e horror.

Homenageados os valorosos guerreiros, procedeu-se à recolha dos destroços viscosos, entranhados na parede. Contudo num acesso de reacção, a cauda decepada eximia ainda intenção maligna. Não cessava de se debater, tentando porventura reunir o resto do corpo através de alguma alquimia desconhecida das Forças do Bem. Zás, novo e rude golpe.
Finalmente imobilizada, a maléfica criatura viu a sua aventura terminar no fundo de um vulgar saco de plástico e enviado para um contentor (perto do Hotel Risorgimento).

Não se contentando com um pouco de terra quis o mundo... Felizmente há quem ponha ordem nas coisas. Neste momento, não dispomos ainda de informação sobre se o corpo foi alguma vez reclamado. Agora é que os activistas dos direitos dos animais vão mesmo cair em cima de mim.

Moral da história: Não basta seres aprazível para que gostem de ti

à tout propos (75)

TAÇA INTERCONTINENTAL
Uma vez mais, parabéns ao FC Porto pela conquista de mais um título, cimentanto o estatuto de clube português com mais palmarés em competições internacionais. E nem foi preciso que Pinto da Costa se tivesse deslocado ao Japão para acompanhar a equipa. Notável.

em de-talhe

O GOVERNO DEMITIU-SE
Mesmo moribundo, atado ao mastro de um navio a naufragar, o capitão dá a derradeira ordem para que uma âncora de 20 toneladas o arraste para as profundezas do oceano, certificando-se assim que nem uma bolha de ar fica na superfície. Birras, encenações, contradições e vitimizações foram os ingredientes eleitos pelo XVI governo constitucional e as consequências para quem o ingere são conhecidas: ânsias, agasturias, vómitos, desregulação da flora intestinal, profundo mau-estar e sensação de desnorte.
Mais uma vez, Santana Lopes vem confirmar a falta de credibilidade e nem no discurso de ontem a anunciar a demissão, foi capaz de dizer alguma coisa com o mínimo nexo, nem sequer nas acusações infantis e absurdas ao Presidente da República. Até 20 de Fevereiro estamos condenados a isto.
Como é que é possível que tenha sobrevivido tantos anos na política, na vida? É extraordinária a capacidade regenerativa desta estirpe.

à tout propos (74)


Black Lines, December, 1913, Vasily Kandinsky
12 de Dezembro de 2003

11 de dezembro de 2004

em de-talhe



Creation of the world, Bosh, 1504-10
DEMOCRACIA E SEMI-PRESIDENCIALISMO
Após o sólido, coerente e sóbrio discurso do Presidente da República ao país, o discurso que tardava, cumpriu-se o necessário processo que finaliza com a dissolução da Assembleia da República. Às razões conhecidas, Sampaio ainda acrescentou as razões que lhe foram chegando nos últimos dias, as quais contribuiram para legitimar a decisão tomada. Não era possível ao governo mergulhar mais no pantâno.
Se havia uma questão potencialmente delicada ela foi categoricamente solucionada. Com efeito, entre dissolver a Assembleia ou aceitar a demissão do governo, optou Sampaio pelo uso da primeira prerrogativa que os poderes presidenciais prevêm, justificando-o com o facto de não existirem já nos partidos da coligação, as condições necessárias para nomeação de novo governo. Numa frase, as alternativas estão «esgotadas». Na minha opinião pessoal, as alternativas estavam esgotadas em Julho, quando Durão decide avançar em desespero com Santana Lopes. O percurso político de Santana Lopes fala por si e se no campo de batalha é um exímio guerreiro já em tempo de paz deixa morrer na miséria os seus correlegionários...
Adicionalmente, neste caso em concreto não era possível desenvolver uma magistratura de influência do tipo «soarista» porque a deteriorização era produzida no seio do próprio governo. E continuou, mesmo depois do anúncio primeiro da dissolução.
Com a revisão constitucional de 1982 foi eliminado o Conselho de Revolução, a legitimidade castrense de que o sistema era investido foi substituída pela legitimidade democrática e os poderes presidenciais foram substancialmente reduzidos, dando corpo a um regime semi-presidencialista que nem é puro nem rígido. Acontece porém que resultou, e Sampaio fez um uso correcto dos instrumentos que dispõe, exigindo com este acto maior responsabilidade aos partidos políticos que doravante deverão estar mais atentos e mais responsáveis.
Vigilante deverá continuar a sociedade civil, cuja acção contribuiu igualmente para a decisão de Jorge Sampaio. Afinal, o seu cargo é o único na democracia portuguesa em que a legitimidade provém do facto de ter sido directamente sufragado pelos eleitores portugueses. Não podia por isso ser insensível ao que a sociedade civil reclamava. É também disto que é feita a democracia.

9 de dezembro de 2004

à tout propos (72)

QUESTIONÁRIOS ONLINE
Os vossos contributos têm sido espantosos e os resultados absolutamente inesperados. Em primeiro lugar devido à qualidade das vossas respostas e em segundo lugar porque a quantidade de votantes tem vindo a aumentar vertiginosamente. Com este questionário sobre o Alberto João Jardim, foram batidos todos os recordes: 20 votos, nem mais nem menos. Qualquer dia temos aqui o maior questionário da Europa, como a ponte, a árvore de natal, a barragem, a feijoada, a central fotovoltaica, a região mais pobre, e a palermice.
Conseguimos ultrapassar a fasquia dos 12 votos. É obviamente um sucesso, é gratificante e um grande incentivo para continuar. Obrigado a todos pelo sacrificio de votar (apesar de não excluir a ideia de que os 20 votos tenham sido obra de uma única pessoa).
Com isto já me esquecia de anunciar que a virtude de Jardim mais votada (5 pessoas, totalizando 25 % dos votos) foi a penúltima, que enaltecia a insuperável capacidade de fazer desaparecer oponentes. Mas foi renhido, todas as hipóteses de escolha eram plausiveis e de uma realidade dramática...
Tendo em conta os resultados positivos destas sondagens de opinião e depois de ouvidos os partidos, o Presidente do Lesoto e Mogais Sagmento, resolvi disponibilizar novo questionário, tendo como objectivo testar os conhecimentos musicais dos visitantes, nomeadamente com uma música dos GNR. Vamos a isto?
Vá, para quebrar o gelo, eu voto em primeiro lugar...

em de-talhe

SHIIIIIIIUU...
Entretanto, o outro que fugiu para Bruxelas nem pia...

em de-talhe

ESCLARECIMENTO DE DÚVIDAS
Ao acusar o Presidente da República de imaturidade democrática e de decidir numa lógica de caudilho, Morais Sarmento contribuiu para o esclarecimento de dúvidas que se impunha para aqueles que ainda as tinham relativamente ao «normal funcionamento das instituições».
Depois de tudo o que os portugueses têm tido a oportunidade de constatar nestes quatro longos meses de des-governação, Sarmento faz mais uma demonstração da falta de respeito pelas instituições, pela total ausência de sensatez e o desconhecimento cabal do que significa a democracia e o sentido de Estado.
Antes de 1974, era normal que o Presidente da República fosse uma mera figura decorativa, ao serviço do Presidente do Conselho. Actualmente, nem Jorge Sampaio é o Marechal Óscar Carmona, General Craveiro Lopes ou o Almirante Américo Tomás; nem Santana Lopes é António de Oliveira Salazar ou Marcelo Caetano...
Gente desta, nem para ladrilhar ruas serve...
PS: Nestas alturas, é reconfortante reter algumas opiniões avisadas: «O único fenómeno caudilhista que houve até hoje em Portugal em 30 anos depois do 25 de Abril chama-se Pedro Santana Lopes» (Freitas do Amaral, em declarações à Rádio Renancença).

em de-talhe

DO SUÍCIDIO AO CANIBALISMO
Imediatamente após o ministro da defesa e das alforrecas ter anunciado a «salvação» da Bombardier, através de um suposto contrato que previa a construção de 260 blindados, eis que surge o próprio ministro das actividades económicas, Álvaro Barreto, a desmentir a existência de tal contrato. Afinal, em que ficamos? Estará Paulo Portas a pensar já na oposição a um eventual governo PS?
Era este o tipo de conduta invocado por Portas, que marcaria a diferença entre PSD e CDS-PP. Álvaro Barreto apressou-se a concordar com a tal demarcação...

7 de dezembro de 2004

em de-talhe

É DEITAR FOGO AOS DESPOJOS

Este episódio do SIS é sintomático da fuga para a frente, deixando armadilhado o caminho a quem vier atrás. «Comeram-me? Agora vão ter que me c....».

Isto vindo de quem invoca a legalidade, o sentido de Estado e os valores da democracia...

à tout propos (71)



PARABÉNS «BOCHECHAS»
Apesar de nunca ter conhecido pessoalmente o Dr. Mário Soares (o que me não habilita a discorrer como outros, acerca das suas qualidades humanistas e políticas...), sinto no entanto que também devo prestar aqui a minha homenagem e felicitá-lo pelos seus 80 anos.
Afigura-se-me que dificilmente será contestável, o papel central que teve na consolidação da democracia em Portugal, na adesão à CEE, apesar do seu estilo por vezes, ziguezagueante; e nalguns episódios, discutível. Não obstante, tem, indubitavelmente, o seu lugar na história.
É pois com satisfação que homenageio o «Bochechas» (como o tratávamos lá por casa e pelo país inteiro) o mesmo a quem me habituei ver sobriamente elogiado pelo meu pai, o mesmo cujo autocolante «Soares é fixe» ostentei posteriormente na minha mochila do Ciclo. A foto escolhida recorda aqueles tempos em que havia alegria e esperança em construir um futuro melhor para este país. Até lhe consigo sentir o cheiro...
Soares simboliza isso que me parece estarmos a perder: a alegria de poder contribuir, de lutar por algo grande, universal.
Estaremos finamente a dar em barões e frades queirosianos...

à tout propos (70)

A ROUPA TEM ALGUMA SUJIDADE, SEXTA LAVA-SE...
Era este comunicado que faltava da Presidência da República. Na Sexta-Feira, logo após a reunião do Conselho de Estado, veremos quais as justificações de Sampaio e em simultâneo poderemos assistir ao desfazer de agravos que Lopes andou a cultivar, inclusive no interior do seu próprio partido ao fazer campanha eleitoral apoiada na figura do Presidente da República.
Até lá, bom feriado...