30 de janeiro de 2005

Sunday, democratic sunday




Hoje, os mais de 14 milhões de eleitores iraquianos têm a possibilidade de votar pela primeira vez em sufrágio universal. Pelo menos, os que conseguirem chegar vivos às urnas...
Eivados da mais recente e sofisticada cultura democrática, os iraquianos só não dispõem ainda de tecnologia capaz de combater com eficácia a abstenção eleitoral, nomeadamente escudos pessoais anti-explosivos. Por outro lado, a avaliar pelo quotidiano, a jovem democracia iraquiana também se irá debater, ainda no plano da abstenção eleitoral, com a imensa quantidade de eleitores-fantasma que parecem crescer de dia para dia...
Cada democracia com os seus problemas...

28 de janeiro de 2005

em de-talhe

Os estudantes guineenses libertaram o embaixador. Que pelo menos lhe tenham deixado um hematoma nas fontes...
E quando receberem a massa, bem podem convidá-lo para jantar num restaurante fino de Moscovo. Se lá for como aqui...

O natural apoio de Freitas

Não sei porquê tanta celeuma e admiração por um tomada de posição que se adivinhava. Nestas coisas nunca será demais recordar que na ressaca no 25 de Abril de 1974, não havia obviamente espaço político para partidos de direita e quaisquer manifestações nesse sentido eram imediatamente olhadas de soslaio e até perseguidas. Era tudo esquerda!
Freitas do Amaral é nada menos que um dos fundadores do CDS. Um democrata, cristão mas que sempre se arrumou na prateleira do centro, à semelhança do partido que ajudou a nascer nos tempos idos da revolução. Claro que com o decorrer dos anos e a consolidação democrática, a política portuguesa foi regressando à normalidade, reposicionando o espectro político e ideológico com uma deslocação natural à direita. Deixamos de ter o CDS alinhado no centro para o vermos fazer uma deriva à direita. Com a entrada de Portas, é inclusive rebaptizado, ganhando o sufixo PP.
Mas para além de todos os argumentos de Freitas do Amaral na Visão, convém também não esquecer a desfiliação partidária que entretanto operou (há anos), um claro sinal da demarcação que sente ser necessário empreender relativamente a um partido que já não é, definitivamente o seu.
Perante o cenário político e eleitoral que se nos apresenta, como é que alguém, na sua perfeita lucidez e respectivas capacidades racionais, poderia apelar ao voto no PSD e passar um cheque em branco a indivíduos que já tiveram a infeliz oportunidade de mostrar aquilo que não valem?
Lamentáveis são as reacções de indivíduos cujo diapasão não poderia estar mais longe de um ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas e que, nesses termos, não receberá lições de ética e moral de qualquer um.

26 de janeiro de 2005

em de-talhe

SOLIDARIEDADE COM OS ESTUDANTES GUINEENSES

Absolutamente insultuosa a actuação das autoridades guineenses. Não é preciso passar por uma situação semelhante para perceber quão grave pode ser uma situação destas, por isso, não posso deixar de manifestar a minha solidariedade. Enquanto os estudantes andam a marrar no vazio, enchem os desprezíveis governantes o bandulho.
E se o Embaixador levar a prometida «surra» bem se pode queixar aos seus amiguinhos do governo. E bem se pode afirmar que os estudantes têm uma santa paciência. Quem, numa situação daquelas, aguentaria tamanha desconsideração durante tanto tempo?!...

A política a todos II





(Continuação)


Um desses exemplos, são os slogans que vemos espalhados por esse país, em milhares de outdoors que custam uma fortuna. A elaboração dos mesmos por técnicos de marketing político incorpora uma teleologia específica que é chegar aos portugueses através dos seus receptáculos sensíveis e naturalmente emotivos. Ao invés, esses outdoors obscurecem intencionalmente a força representativa de uma linha ideológica, doutrinária ou programática que será aplicada na governação de um país. E nessa medida, mascaram a ausência de estratégias... O tal slogan associado à foto do líder, denuncia a personalização da política defendida por Bernard Manin e que está na origem da colérica contestação movida contra Santana Lopes quando este foi nomeado pelo Presidente da República. É que, apesar de o governo ser proposto pelos deputados à Assembleia da República, é indisfarçável a colagem feita pelo líder ao cargo de Primeiro-Ministro. Aí residia a acusação de falta de legitimidade feita a Santana. Não é por acaso que em qualquer outdoor, aparece descaradamente e em enormíssimo plano, a imagem do líder. E quanto a isso estamos conversados...

Mas, retomando o fio à meada, vemos como frases do género “Voto Útil” (CDS-PP), “Agora Portugal vai ter um Rumo” (PS), ou “Contra Ventos e Marés” (PSD) são esvaziadas desse conteúdo fundamental, denotando antes todos os pruridos e estratégias estritamente partidário-pessoais que estão por detrás da feitura das mesmas. Demarcando-se do PSD, o CDS-PP apela estrategicamente ao voto útil, alimentando o sonho de crescer e prevendo uma humilhação monumental do seu [ainda] parceiro de coligação; O PS demonstra a pretensão de ser o bastião da competência; e o PSD procura divulgar a imagem da luta corajosa contra as vicissitudes e traições de que tem sido alvo.
“Tempo de Viragem” (BE) e “Mais Votos na CDU para Mudar a Sério” (CDU), são menos regurgitantes e pelo menos não podem ser acusados de não reflectirem a ideologia revolucionária que lhes está na origem.

O que é preocupante é que tudo se passa num círculo hermético sem contactos, por mais remotos que sejam, com o país expectante e real, o país dos problemas concretos que não aparentam ser os mesmos dos partidos e dessas pseudo-elites. Mais, restringem-se aos grandes centros urbanos, desprezando todo o interior. Nestes termos, a cultura político-partidária portuguesa é perfeitamente autista, boçal e pretensiosa, explanando toda a mediocridade em se fundam os seus alicerces.

Esta ausência de conteúdo (escandalosa no PS e PSD), esta imensa nebulosa tentacular em que se movem os dois principais partidos resulta do que Otto Kircheimer tipificou como catch all party, ou seja, enormes organizações partidárias que buscam desesperadamente votos em todos os recônditos lugares, procurando agradar a gregos e a troianos. Grosso modo, é nisso que estão transformados PS e PSD: alternância; sobreposição «ideológica» na disputa pelo eleitorado volátil, posicionado ao centro; reposicionamento das fronteiras à esquerda e à direita, sufocando os pequenos partidos (CDS, PCP e BE).

Mas se a credibilização da política e confiança no sistema político democrático depende em muito da actuação dos políticos e partidos, do lado da «procura» (sociedade civil), a responsabilidade por essa descredibilização é incontornável. A responsabilidade pelo «estado a que chegámos» não pode ser dissociada da sociedade civil apática, apenas envolvida nos seus affaires pessoais e habituada a ter quem lhe resolva os problemas, conformada e pouco qualificada. Potencialmente, estes factores serão resquícios da negação da participação popular desde a fundação da nacionalidade até ao 25 de Abril, salvo honrosas excepções em momentos críticos em que foi necessária a intervenção ou sacrifício do «3º estado»: as inúmeras guerras em defesa da soberania e outras patetices, a crise de 1383-85, restauração da independência em 1640, expansão ultramarina, 25 de Abril de 74 e pouco mais.

A qualidade da democracia decresce na razão da diminuição da qualidade dos políticos e para isso muito contribui este divórcio entre sociedade civil e política, num casamento que nunca o chegou a ser.
Não havendo pressão sobre o sistema político nem raciocínio crítico, mobilizado em torno de questões fundamentais, o relaxe entre a classe política é mais que previsível.

E basta dar uma olhadela aos nossos insignes representantes para ver que há muito perderam o respeito por quem representam.

24 de janeiro de 2005

à tout propos (124)

Estrelas, poeiras espaciais, asteróides, aliens e tudo o que possas imaginar captado pelo telescópio Hubble.
Pode demorar um pouco a carregar mas as imagens valem o tempo.

em de-talhe



Deplorável o estado a que os autarcas deixam chegar as placas toponímicas das ruas portuguesas. Simplesmente deplorável! É este o retrato do nosso país... Uma lástima, de facto!

à tout propos (123)



Almaplana encontram-se neste momento a finalizar os temas da banda sonora do filme "Casa Giraldo", produzido pelas britânicas Donna Mabey e Josephine Reynolds, cujas filmagens começam no próximo mês de Fevereiro na cidade de Évora.

Concertos:

29/01 - 20h30 - Pousada de Nª Sª da Assunção: Arraiolos
05/02 - 20h30 - Convento de S. Paulo: Serra d'Ossa - Redondo
25/02 - 21h30 - Pavilhão Multiusos: Rio Maior (Entrada Livre)

Representatividade e governabilidade: conclusão

Na sequência de posts anteriores que animaram este espaço num monólogo sobre círculos uninominais e plurinominais ("listas e círculos uninominais: a salvação"; "ainda a governabilidade"; e "lista, descrédito e afastamento da política"), cujos principais objectivos se restringiam à reflexão crítica, transmissão de informação e se possível algum debate de ideias, cabe agora «fechar» o tema (este fecho será sempre condicional, in tenui labor). Advertimos todavia que o debate em torno da crise de representatividade é naturalmente mais amplo e por isso jamais se esgotaria em meia dúzia de palavras.
Não é por acaso que Augusto Santos Silva, António Barreto, o PS e até PSD simpatizam com a ideia dos círculos uninominais: a regra maioritária em cada círculo favorece a eleição de 1 deputado que seria proveniente desses partidos. Esta situação, aliada à tendência bipolar existente, resultaria numa enorme dificuldade para os restantes partidos elegerem deputados. Tenho aliás a convicção, meramente intuitiva, de que o BE perderia os 3 deputados actuais.
É certo que em tese, os círculos uninominais comportam um tipo de representatividade mais próximo da população e mais responsável perante esta. Mas isso funciona, como se disse, em teoria; ou em países com cultura política ligeiramente diversa da nossa. Portugal continua a ser um país profundamente assimétrico e distante da homogeneidade cultural falaciosamente assumida. Convém náo esquecer que a formação da III República portuguesa é pensada em termos da representação proporcional, do multipartidarismo e naturalmente pouco entusiasta com concentrações de poder E sejamos francos: para além das condições materiais de existência, pouco mudou em Portugal e nos portugueses. Mas em condições ideais, os círculos uninominais seriam o modelo de representatividade menos distante da democracia directa. Nesses termos, os argumentos de Barreto e Santos Silva seriam mais razoáveis: a minha discordância colocava-se somente na passagem do modelo à realidade. E mantém-se.
Ora, é certo que a divisão bipartida da condução de um navio, cria obviamente melhores condições de governabilidade: basta dividir por dois turnos, nos quais, cada um dos capitães é soberano durante um certo período de tempo da viagem e assim vão alternando. Melhores condições só são possíveis com um só capitão, mas esse modelo já nos foi servido durante séculos de monarquia e décadas de salazarismo. Os resultados não foram os melhores, a não ser para aquela minoria bem alimentada e melhor descrita em "O Princípe" ou em "Ivan O Terrível".
O problema coloca-se quando uma grande parcela dos marinheiros não se revê nas opções de rumo tomadas ora por um, ora por outro capitão e se vêem na limitação de, ainda assim, ter que anuir com as mesmas.
PS: É esse o dilema em que nos colocam aqueles que inscreveram num período eleitoral questões desta natureza, escamoteando de algum modo as questões que supostamente deveriam animar por esta altura o debate político. Cheira um pouco a desvio de atenções, mas tudo bem, pode ser só um problema de olfacto.

A política a todos I




Como já foi esclarecido no post “da democracia em todos os lugares menos na América” (29-12-05), uma das condições da democracia, segundo Robert Dahl, é aquela que dá conta do «direito de competir pelo apoio e pelos votos». Mas este direito consagrado como um dos 8 requisitos-base de Dahl não pode ser de modo algum desenraizado de uma teleologia de base que está na origem da ideia de democracia, isto é, governo do povo, para o povo: após sufragados pelo povo, os seus legítimos representantes – portanto, homens do povo – defendem o s interesses daquele. De resto, todos ao princípios gerais que sustentam esta ideia de democracia encontram-se na Lei Fundamental.

Estou a maçar-vos com estes paroxismos pouco excitantes porque entrámos em período de pré-campanha eleitoral, ou na verdade nunca de lá saímos… É certo que as campanhas eleitorais transformam-se naturalmente em caça ao voto, como de resto, admite Dahl ao postular uma proposição como a que vimos. No entanto, é suposto que as diferentes campanhas reflictam a ideologia que está na origem das clivagens partidárias que ainda subsistem, apesar da bipolarização crescente entre as duas maiores forças partidárias. Feita essa distinção, o povo poderá mandatar aqueles que supõe serem os representantes mais credíveis, competentes, honestos, sejam quais forem os critérios que sustentam a decisão no processo de escolha que cada indivíduo opera. Mas ao menos, deverão estar aptos a distinguir os partidos e respectivos líderes a partir dos projectos que estes apresentam ao país.

Mas não é isso que sucede. Estamos perante uma campanha eleitoral assente na descredibilização do outro e não alicerçada em propostas sólidas e credíveis para o PAÍS. Pois é… Os intervenientes consomem uma grande fatia de tempo e recursos com ataques pessoais. A mim, pessoalmente, faz lembrar as esquálidas claques de futebol, mais ocupadas em denegrir o adversário que em motivar a própria equipa.
De resto, quando folheamos um jornal, deparamo-nos logo com o sangue que faz a delícia dos jornalistas, o torpor dos alheados e a incredulidade dos que consideram inaceitável esta confrangedora situação. Estamos a um mês das eleições e só agora começamos a ouvir falar de uma ou outra proposta, sinal dos tempos em que a impreparação e improviso mediático se sobrepõem ao «método» e responsabilidade.

20 de janeiro de 2005

à tout propos (122)



Campanha de fundos para a integração dos portadores de síndrome de down.
Ajude a exterminar esta doença!

à tout propos (121)

George Bush garantiu na tomada de posse do seu novo mandato que a prioridade será a luta pela liberdade.
É impressionante a obsessão deste homem com a guerra e com os adoráveis mundos novos que esta lhe proporciona.
Entretanto, os oficiais da logística militar norte-americana estão desde já a tratar da lista: «ouve lá ó Johnson, quantos kg de democracia enviaremos para o Sudão? Responde o outro: sei lá, aí umas trezentas mil toneladas! Walker, mantêm-se as seiscentas e vinte toneladas de democracia para o Irão, ok?»
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Hilariante é o desejo manifestado por Jerónimo Sousa. A caducidade política quer que Sampaio «trave onda de inaugurações» do governo.
Já estou a imaginar o Presidente Sampaio aproximar-se de Santana Lopes durante a inauguração de um polidesportivo em Poiares e exclamar (puxando-o pela orelha): «psté, o senhor está proibido de inaugurar até dia 20 de Fevereiro, ouviu? Porque senão... olhe, dissolvo a assembleia! ...não! demito o governo! ...também não. Hummm, senão mando fechar todos os bares de alterne e casinos de Lisboa!»
Que é que tem o Jerónimo que é diferente dos outros?...

à tout propos (120)

Adorável a promessa de Santana Lopes quando refere que a banca vai passar a pagar impostos, revelando inclusive que, caso seja eleito, vão ser constituídas «brigadas à séria» (palavras dele), equipas de investigação «de elite» para combater a evasão fiscal.
Não satisfeito com as rasteiras que tem pregado aos seus amigos, agora quer vê-los todos na prisão.
Não penso mais, vou votar neste tipo!

à tout propos (119)

Santana Lopes não desiste e continua a remeter os seus fracassos políticos para a actuação dos outros: não contente com as metáforas da «incubadora» e das «punhaladas», compara agora o seu governo com uma casa que ininterruptamente é alvo de pedradas. Estará a contar com as pedradas desferidas dentro do seu próprio lar?
Ainda pior, a analogia da situação que está a viver com a um trabalhador em risco de perder o seu posto de trabalho. Esta afirmação é profundamente lamentável e só demonstra inequivocamente a falta de respeito e má-fé para com essas pessoas. O ímpio revela assim a sua desonestidade.
Este homem foi feito para sofrer um martírio só comparável aos dos santos. Talvez se devam a isso, as suas obsessões compulsivas.

19 de janeiro de 2005

à tout propos (118)



Fugue, Wassily Kandinsky, 1914

as soirées do tamariz e o que sonhava ser manequim

Sucedem-se as brilhantes intervenções de Santana Lopes, agora em pré-campanha eleitoral. É notável - devo confessar - como o indivíduo se permite discorrer numa imensa e impune incontinência mental enquanto reabilita algum do capital político perdido.

Ontem proferiu mais um par de declarações que, por matizarem o seu desorganizado pensamento, já não espantam nem causam a mais ténue surpresa. Mas dentre aquilo que num país decente seria considerado «blasfémia» e alvo de duras implicações, ressalva o melhor do melhor de Santana; o homem faz um apelo aos portugueses para que originem um verdadeiro levantamento popular contra um pretenso embuste político organizado pelo PS e por Sampaio.

Sem querer ser chato, embuste, embuste, recordo-me do que foi habilmente conduzido no caso Moderna pela Ministra da Justiça Celeste Cardona, lembro-me igualmente do embuste com que Sampaio sancionou os portugueses ao nomear um grupo de amigos desajuízados ou até daquele que seria um suave «toque de anca» de Gomes da Silva, que culminaria com o espalhafatoso caso Marcelo. Mas isso são migalhas.

Nunca ouvi o homem aludir à trapalhada das contas públicas e ao sapal em que contribuiu para nos meter, enquanto nos restantes países já se vislumbra na penumbra a almejada bonança. Agora, a crise já não é conjuntural como quando Guterres desertou. A crise estrutural inerente à própria organização do Estado e da sociedade civil, é uma pesadíssima herança que recebemos e que os últimos 3 governos se empenharam em aumentar.

Mas como é que se pode falar da credibilização da política nestes e noutros termos que tenho vindo a enunciar ao longo destas semanas? O problema não está, decididamente, no sistema eleitoral, como alguns pretendem. É normal que seja essa a perspectiva lá do observatório em S. Bento, em Belém, no Terreiro do Paço ou no Parque das Nações. Ao fim de 12 anos estão bem reformados, têm uma boa rede de contactos para qualquer eventualidade e os outros, os incapazes, que aguentem o status quo.

Acontece o seguinte: este sujeito que um dia acordou primeiro-ministro, dá-se a estes luxos de menino beto habituado a troçar dos trolhas que pedem uma mine no tamariz, porque sabe que do outro lado da barricada há um que sempre sonhou passear nas passerelles da alta costura italiana, concluindo que, entre um e outro a distância é a espessura de uma folha de alface.
Mas também sabe, que para o grosso destas pessoas a quem um dia se pôs o rótulo "Liberdade", a democracia não significa mais que uma palavra esvaziada de conteúdo e que em vez de pão, só traz amargos de boca. Para além de que estão encantados com a novela da «segunda dama»...

E é com estes que ambos contam para as eleições de 20 de Fevereiro! E esfregam as mãos porque são tão fáceis de seduzir...

à tout propos (117)



Ad marginem, Paul Klee, 1930
Sobre o Absurdo, ler O Mito de Sísifo de Albert Camus.

18 de janeiro de 2005

à tout propos (116)

PAZ E GUERRA, TOLS TOI
Já ninguém se entende, anda tudo à bordoada... A falta de discernimento, a cegueira e a irracionalidade são patologias altamente transmissíveis.
Será que há vacinas no mercado?

em de-talhe

Após um pequeno período de feliz agitação, verifico com alguma preocupação a retirada (não sei se estratégica) de alguns intervenientes cujo pedante folclore - num ou noutro caso - emprestou curiosa dinâmica a este circuito bloguista de âmbito mais familiar. De resto, este processo havia de culminar com o surgimento em cena de novos espaços de recreação e empertigamento.

Tivemos oportunidade de assistir a tudo o que a imaginação possa criar, deleitando os nossos leitores com a publicação de estudos científicos do Dr. Carrothands; a estranha forma de sobrevivência encontrada por esse andrajo humano que desregulou os hábitos intestinais da turba; o subserviente e acanzanado bandido original na terra do lá lá; o discurso direitista, desumano e não totalmente esquizofrénico de um Manel Maria empenhado nos atributos performativos da linguagem reificada na obsolescência da magnânime estultícia extraída da razão forjada simbolicamente; a quezilenta e encriptada comunicação do grego, apostado na eliminação de quaisquer quistos desenvolvidos em «rectos amigos».

Talvez esta estranha e apodrecida acalmia se deva a razões que não conseguirei entender. Ter-se-á acabado a sabichona lábia? :)

17 de janeiro de 2005

listas e círculos uninominais: a salvação

No Público de ontem, vem António Barreto defender uma vez mais a substituição dos actuais círculos plurinominais pelos uninominais. Com toda a consideração e simpatia que me merece este destacado opinion maker e ex-governante, desconfio no entanto, de tanta agitação em torno deste tema.
A haver pacto de regime entre PS e PSD (quase uma exigência de Sampaio), cheira-me que começará por aqui; mesmo antes de qualquer assunto de menor relevância, como por exemplo, devolver ao país alguma estabilidade económica ou prestar melhores cuidados de saúde e educação.

O artigo de opinião até podia não ter mácula, dada a erudição do autor, porém há uma questão que me inquieta: a convicção com que António Barreto sustenta os seus argumentos e lhes confere o estatuto de verdades inquestionáveis, fazendo profissão de fé como não fosse ele um homem das ciências sociais.

Diz ele que a criação de «círculos uninominais, a proibição de substituições de deputados eleitos e a possibilidade de candidaturas independentes», garantem maior liberdade individual ao eleito, libertam-no dos grilhões partidários e responsabilizam-no directamente perante o seu eleitorado. Tudo certo! Ou quase...

A questão que se levanta é a seguinte: estas condições só são exclusivamente garantidas com os círculos uninominais? As dúvidas assenhoram-se de mim, rompendo toda a ingenuidade do infans. Não que a sua proposição seja enviesada. Mas, essas condições não podem ser garantidas de igual forma em círculos plurinominais?

O acto eleitoral é por si só, uma espécie de julgamento popular a posteriori, que os eleitores têm ao seu dispor, ou seja, as eleições são a forma de sancionar ou gratificar políticamente um partido, um candidato ou um movimento de cidadãos.
Em tese, os políticos e os partidos são responsabilizados pelos seus actos de governação e diante do povo, unicamente mediante o exercício eleitoral. Isto é, salvo [raras] excepções que acredito existirem algures na história, são responsabilizados politicamente.

Nesse caso, o que poderá mudar uma candidatura independente? Constituem-se milícias populares de vigilância, vão a casa do deputado José Bexiga, que não se terá portado lá muito bem, pregam-lhe as orelhas com pregos a uma tábua e seviciam-no à chicotada, punindo-o por nele terem votado? Claro que não! Isso é tão atroz e absurdo para militantes de um partido como para um independente. O sistema jurídico está preparado para julgar pessoas, sejam do partido ou não (na China, na URSS é que não era bem assim…). O sistema político está por outro lado preparado para a sanção política que o povo tem ao seu dispor.

Poder-me-ão dizer que os partidos são ninhos disto e daquilo, e ali se gizam conluios, gozam-se favores, etc., etc. Tudo bem, mas isso é outra história que nada tem que ver com a responsabilização de que nos fala António Barreto.

Agora, a responsabilização pode muito bem começar com a impossibilidade de substituição de deputados preconizada por Barreto, sem sombra de dúvidas. Mas isso, tanto pode ser levado a cabo em círculos uninominais como em círculos plurinominais: basta que as listas não sejam abertas como o são actualmente, responsabilizando os candidatos. Aí sim, deixariam de haver «nomes» para florear as listas, posteriormente substituídos por indivíduos colocados em lugares ilegíveis. Para além da intolerável falta de respeito pelos eleitores, vilipendia-se qualquer ética de responsabilidade, a qual não se cria com cargos e representações directas mas sim em casa.

Em suma, não vejo como, na prática, um independente possa ser mais responsabilizado que um militante. Faria mais sentido ao contrário, isto é, ser o próprio partido a exercer pressão sobre o candidato no sentido de o levar a honrar compromissos que enalteçam a imagem do partido e o conduzam ao sucesso eleitoral.
É pela proximidade? Desiludam-se os que acreditam nisso. Só se houvessem tantos deputados na Assembleia da República como há presidentes de freguesias (4221). Isso seria impraticável...
Num distrito pequeno em que se elejam 3 ou 4 deputados não há mais nem menos proximidade com um ou outro modelo. A proximidade passa mais pelo carácter das pessoas ou pelo nível de decisão: o poder local será teoricamente mais próximo do cidadão. Todavia, já conheci representantes do meu distrito à Assembleia da República e nunca falei com nenhum dos dois Presidentes de Câmara da minha cidade. A célebre deslocalização das Secretarias de Estado também é um excelente exemplo de proximidade ao cidadão…
A proximidade poderá fazer eventualmente mais sentido nos grandes círculos, pelos quais são eleitos deputados às dúzias. E depois? Andamos atrás deles a cobrar-lhe por não ter tapado o buraco da minha rua? Importa salientar que a ideia de proximidade em Portugal é muito delicada e susceptível das mais variadas interpretações… A turminha de Santana Lopes que o diga.

Mais uma vez, convém recordar que uma vez eleitos, os deputados são representantes da nação... Imagine-se o que seria se cada um fosse para o hemiciclo puxar a brasa à sua sardinha... Aí é que teríamos responsabilidade? Continuaria a dar jeito a muita gente mas não me parece o mais correcto. Se a única responsabilização de um presidente de câmara são as eleições... Quem é que responsabilizou Santana Lopes pela lamentável situação financeira em que deixou Lisboa, Figueira da Foz e o país? E Fátima Felgueiras? Pelo povo daquele concelho ela continuaria lá, de pedra e cal. E de que modo foram responsabilizados todos esses autarcas que cederam aos patos bravos, contribuindo para a consolidação de fortunas, agressões ao ambiente e desordenamento selvagem do território? Muitos continuam a gozar do apoio popular...

Finalmente, a Lei Eleitoral permite que cidadãos independentes em representação de nenhum partido, possam candidatar-se a cargos públicos em qualquer eleição. Ora, para isso não são necessários círculos uninominais ou plurinominais. Se eu quiser, posso recolher uns quantos milhares de assinaturas em candidatar-me às legislativas. Corro é o risco de não ser eleito... A não ser que a reforma seja feita a pensar no extermínio dos partidos políticos e da lógica que os gere. Ficam as comissões independentes como esse «Compromisso Portugal», constituído apenas por pessoas desinteressadas, que por acaso são gestores de topo e accionistas de grandes empresas...

Na verdade, esta questão em torno da representação enfermará sempre do mesmo mal: a qualidade dos políticos e a qualidade dos cidadãos. Enquanto permanecermos cristalizados e agarrados a concepções utilitário-ditatoriais, não há modelo que nos valha, porque não é nos invólucros que estão os nutrientes dos alimentos.

à tout propos (115)

SUBSÍDIOS PARA A DESOBEDIÊNCIA CIVIL
Santanice: Acto ou acção de alguém que acaba sempre por prejudicar outro alguém e ser também ele prejudicado com esse acto ou acção, sem ter consciência disso.
Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência absoluta dos consequências dessa acção - "fez-lhe uma santanice" " acabou por se santanizar" "se disse isso vai ser santanizado", estupidez, parvoíce, inexperiência, irresponsabilidade de grande dimensão, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder para o fazer.
Recebido via email, por cortesia de um respeitável leitor.

à tout propos (114)

DO QUE SE DIZ


"Nunca acreditei totalmente - ou sempre duvidei muito, para ser mais rigoroso - que a legislatura chegasse ao fim. Algo se passaria seguramente"(Pedro Santana Lopes, Jornal de Notícias, 15-01-05).

- Pois é, o hábito faz o monge e a experiência [faz] as leis....

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"Se não for nem pelo projecto, nem pelas equipas, nem pela credibilidade, então os portugueses estarão condenados a escolher simplesmente entre dois homens telegénicos" (Judite de Sousa, Jornal de Notícias, 15-01-05).

- Os portugueses estão-se barimbando... querem é saber da sua sandes de courato, da ida domingueira ao Colombo e do último modelo BMW. Com tantos anos, Judite, ainda te dás ao trabalho?

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"Não sou, fui ou serei nenhum comissário político" (Luís Delgado, Correio da Manhã, 15-01-05).

- E palhaço, sim?!

16 de janeiro de 2005

à tout propos (113)


DESCUBRA AS DIFERENÇAS
Confesso que este é o meu preferido porque estão no mesmo plano, um personagem da ficção e um personagem que só pode ser irreal. Portanto, equivalem-se!

15 de janeiro de 2005

à tout propos (112)



La persistencia de la memória, Salvador Dali, 1931
É impressionante como, à medida que nos aproximamos das eleições e o poder está prestes a cair no colo de um dos candidatos, as diferenças entre as propostas dos maiores partidos e estilo dos respectivos líderes, são assustadoramente semelhantes.
É confrangedora a falta de coerência, estratégia e conteúdo de ambos!
Quase que apetece dizer que estamos perante uma disputa do género «Kramer contra Kramer»: suficientemente familiares e demasiadamente ligados por laços de proximidade, desavindos por uma mera disputa de poder que tanto dava ter lugar no hemiciclo como na SIC.

14 de janeiro de 2005

à tout propos (111)

ALTERAÇÃO COSMÉTICA
Informam-se os estimados leitores que a cosmética não é exclusividade dos cabeleireiros nem dos políticos, pelo que, com alguns efeitos retroactivos, foi decidido pela administração deste espaço conceder maior destaque a determinados textos frequentemente editados na rúbrica «em de-talhe».
Esta rúbrica não irá desaparecer, contudo, alguns desses textos tenderão a autonomizar-se no sentido de aparecerem publicados com título personalizado.
Outras alterações estão a ser estudadas.

13 de janeiro de 2005

ainda a governabilidade



Como se sabe, os sistemas eleitorais são mecanismos de conversão de votos em mandatos, sendo o português, um sistema proporcional regulado pelo método de Hondt. Sem entrar em pormenores estatísticos, o método de Hondt é apenas uma fórmula de atribuição dos mandatos pela média mais alta (ver STAPE). Ora, a opção por este modelo saído da Constituição de 1976 visava justamente inibir a formação de maiorias absolutas e por dois motivos em especial: um que tem que ver com as representações colectivas traumaticamente herdadas por razões histórico-culturais; e o segundo resulta da preocupação em dar expressão representativa no parlamento a todas as classes e facções sociais, maiorias e minorias de toda a ordem.

Claro que modelos como o nosso, poderão favorecer a formação de coligações, ao contrário dos sistemas maioritários em que tal não é necessário. É o que tem sucedido em diversos governos (as AD’s de 1979 e 2002; o Bloco Central em 1983), apesar de em 1987 e 1991, o PSD ter conseguido individualmente deter a maioria absoluta dos deputados à Assembleia da República. Em todo o caso, convém não esquecer que o segundo governo de Guterres (1999) não consegue conviver com uma maioria relativa no parlamento. Aliás, o primeiro governo de Cavaco Silva (1985) acabaria por cair dois anos mais tarde

Mas, não obstante a suposta necessidade de maiorias absolutas para assegurar condições de governabilidade (assim é entendido por alguns dos insignes comentadores de política e políticos), vimos atrás como em sistemas proporcionais, as maiorias absolutas também podem ser alcançadas.

Afinal, mesmo eleitoralmente, é possível que um partido isoladamente consiga a maioria absoluta num sistema eleitoral proporcional. Em 1999, Guterres ficou a 1 deputado desse objectivo. Como se pode ver, o sistema eleitoral português é já de si extraordinariamente flexível, levando inclusive diversos politólogos a classificar as variantes que tem assumido desde 1974.

De modo inverso, mesmo garantidas no parlamento as pretensas condições de governabilidade, os governos de Durão Barroso e Santana Lopes não as reflectiram por razões de variada índole, que vão da conjuntura económica, passando pela coordenação governativa, até ao carácter e competência dos membros do governo.

Apesar de tudo, pode-se afirmar com alguma consistência empírica que as maiorias absolutas no parlamento proporcionam normalmente melhores condições de governabilidade.

No entanto, actualmente como está, o sistema eleitoral favorece a formação de coligações pré ou pós eleitorais, o que na minha opinião é um excelente dispositivo de controlo mútuo e procura de consenso na definição do que é o interesse nacional. Neste caso, grande parte da responsabilidade é transferida para os partidos e para os políticos, para a capacidade que demonstram em passar a imagem daquilo que é mais importante: se o país, se os interesses segmentados de dois ou três grupos de pressão.

Por outro lado, como se sabe, nos sistemas maioritários vigora uma regra: first past the post, querendo com isto dizer que o partido que tem a maioria dos votos, leva-os todos. É o que acontece em sistemas presidencialistas como o americano ou parlamentares como o britânico. Por exemplo, um eleitor que tivesse votado no partido Democrata no estado de Alabama, veria o seu voto completamente desperdiçado porque os representantes a sair desse estado para o Congresso foram todos eleitos pelo Partido Republicano. Não há lugar para o segundo lugar. Pode até acontecer que o partido menos votado consiga uma maioria no órgão legislativo, como aconteceu na primeira eleição de Bush ou como sucedeu na década de 60 (se me não atrai a memória) com o Partido Liberal no Reino Unido: em função do número de eleitos por cada círculo eleitoral (círculos de apuramento dos representantes, em Portugal, correspondem à área dos distritos).

Em Portugal, temos um modelo semi-presidencial (como em França, por exemplo) e, apesar da tendência à bipolarização, temos 5 partidos com assento parlamentar, cobrindo todo o espectro político-ideológico da maioria dos portugueses. Salvo raras excepções essencialmente radicais ou exógenas ao sistema democrático.

Caso a proposta da transformação dos círculos plurinominais (vários eleitos por círculo) em uninominais (1 eleito por círculo) vingasse, verificar-se-ia uma tendência concreta à formação de maiorias no parlamento, e quanto muito, dos actuais 5 partidos com assento parlamentar, caso PCP, CDS-PP ou BE conseguissem eleger deputados, seria em número muito inferior ao actual (repare-se como, dos 230 deputados, 29 são originários desses partidos).

Porém, nas actuais condições, não só é possível a formação de maiorias absolutas – quer em eleição, quer em coligações – como se mantém o princípio da representação proporcional. De resto, com um sistema proporcional, parecem-me ser asseguradas condições de governabilidade em países como França, Finlândia, Áustria ou Irlanda.


PS: Mas este tipo de esclarecimentos, são os partidos políticos quem os deve fazer, assim como a clarificação de programas eleitorais, que tanto PS como PSD parecem continuar relutantes em mostrar aos portugueses. Preferem ocupar o tempo de antena com discussões que são sem dúvida importantes, mas uma vez mais, referem-se a divisões de poder e não de resolução de problemas concretos…

12 de janeiro de 2005

à tout propos (110)



Wanderer above sea of fog, Caspar David Friedrich, 1918

Bom dia?! Só se for na China....

10 de janeiro de 2005

em de-talhe

A PROMESSA

A nossa Competente, Alegre, Brilhante, Refulgente e Arguta R, está a um pequeno pulo de se tornar a primeira mulher portuguesa a chegar à presidência da república ou até mesmo à presidência da Comissão Europeia. Cedo a vida nos concede discretos sinais e revela os predestinados. Cedo, R revelou as suas qualidades e energia, distinguindo-se naturalmente dos demais.
Um grande orgulho para todos quantos nos habituámos a ver em R, o espelho da idoneidade, uma promessa por cumprir, a portadora de uma palavra amiga, de um conforto. São muitas e comoventes as recordações que dela guardo delicadamente no meu coração: de como amparava pelo braço a Doutora MC auxiliando-a a atravessar os claustros do Colégio do Espírito Santo, por entre uma chusma ruidosa e apoquentadora; ou quando foi principescamente elogiada pelo indefectível Doutor CAO, pelos seus incomparáveis conhecimentos de técnicas quantitativas, adquiridos no estrangeiro. Tantos são os que dela não têm senão óptimas recordações. Desde o Presidente de Departamento, passando pelo pessoal da secretaria, pelo Quartel General, até ao Venerável Reitor.
RM é a legitima representante do socialismo moderno, depositária dos valores da democracia e sobretudo uma defensora intransigente do mérito. Desde que se conhece como gente. As doutas palavras de Cavaco Silva não podiam ter vindo em melhor momento porque «é altura de os políticos competentes afastarem os incompetentes».

As trevas não mais ensombrarão o nosso querido Portugal!

os deuses também já foram homens



Don Quijote, Pablo Picasso, 1955
"A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens. Digo isto, Sancho, porque bem viste os regalos e a abundância que tivemos neste castelo, que deixámos; pois no meio daqueles banquetes saborosos, e daquelas bebidas nevadas, parecia-me que estava metido entre as estreitezas da fome; porque os não gozava com a liberdade [...]. Venturoso aquele a quem o céu deu um pedaço de pão sem o obrigar a agradecê-lo a outrem que não seja o mesmo céu!".
D. Quixote, in Cervantes, Miguel Saavedra (2003): Dom Quixote de la Mancha, Lisboa, Moderna Editorial Lavores, p. 680.
__________________________________________________________
"Efectivamente, nú entrei no governo, e nú dele saí; e assim, posso dizer com segura consciência, o que já é bastante: nú nasci e nú me encontro; nem ganho nem perco".
Sancho Pança, in Cervantes, Miguel Saavedra (2003): Dom Quixote de la Mancha, Lisboa, Moderna Editorial Lavores, p. 675.

os deuses também já foram homens

COMUNICADO

Na sequência das eleições legislativas de 20 de Fevereiro, serve o presente comunicado para reafirmar a minha total INDISPONIBILIDADE para participar no governo, seja qual fôr a força partidária que saia vitoriosa da refrega eleitoral.
Não estou disponível, repito, não estou disponível nem para o GOVERNO nem para a ASSEMBLEIA DA REPÚBICA.

Nestes termos, exigo respeito pela minha decisão e que parem de associar o meu nome a listas do Porto, de Bragança ou Coimbra.

ARV, não candidato

à tout propos (109)



Morning, Caspar David Friedrich, 1821

BOM DIA!

9 de janeiro de 2005

à tout propos (108)

QUESTIONÁRIOS ONLINE - INFORMAÇÃO
Prezados leitores, estão neste momento a decorrer em simultâneo meia-dúzia de questionários online. As caixas de resposta alternam automaticamente e surgem, salvo uma excepção, no canto superior direito.
A excepção é uma questão relativa ao consumo de drogas, a qual, em virtude das imagens que a acompanham, deverá surgir no fim da página.
Boas votações!

à tout propos (107)

QUALIDADE DE VIDA...

...nos concelhos vai ser premiada pela Associação Bandeira Azul. São precisos muitos mais incentivos para a adopção de modelos de desenvolvimento sustentável neste país...

8 de janeiro de 2005

à tout propos (106)



The pillars of society, George Grosz, 1926

listas, descrédito e afastamento da política



Hoje, a propósito crescente descredibilização da vida política junto dos eleitores e após enunciar algumas causas, Augusto Santos Silva sugere duas medidas imediatas para alterar essa relação.
A primeira é a mudança do sistema eleitoral, através da «passagem a círculos uninominais». A segunda medida tem que ver com a exigência que na sua opinião deve ser feita à sociedade civil, no sentido de alterar a sua relação com «a actividade e as instituições políticas».
Se a segunda questão não oferece dúvidas aos cidadãos eivados de espírito democrático, já a primeira não é tão pacífica. Como se sabe, a existência de círculos uninominais tem um sistema de conversão de votos em mandatos forçosamente maioritário, isto é, por cada circulo eleitoral, só um candidato pode ser eleito, o que levaria a que (caso mantivéssemos o número actual de deputados à Assembleia), no limite, teríamos 230 círculos uninominais, em detrimento dos actuais 22 círculos plurinominais, correspondentes aos 18 distritos continentais, às 2 Regiões Autónomas e 2 círculos para os eleitores na Europa e do resto do Mundo.
O que me causa algumas dúvidas é quando o antigo Ministro da Educação de Guterres afirma que «a passagem para círculos uninominais (…) não põem em causa o apuramento proporcional e mantêm, portanto, a capacidade de exprimir a diversidade das opiniões e correntes políticas que percorrem a sociedade».
Com franqueza, não vejo como se pode manter um apuramento proporcional nas condições que referi atrás. Imaginemos Évora, actualmente com 3 deputados. Seriam criados 3 círculos, por exemplo, 1 na área urbana de Évora e 2 no resto do Distrito. Como é que seriam representados no círculo de Évora cidade, as sensibilidades dos militantes do partido X, tendo sido eleito pelo círculo o representante do partido Y? No limite, podemos admitir a hipótese de o partido Y ter 40, 1% dos votos válidos, enquanto os simpatizantes do partido X, com 37% dos votos vêm o seu direito à representação negado.
Por isso, creio que Augusto Santos Silva deturpa a questão uma vez que no Parlamento, quanto muito, poderíamos ver assegurada a «diversidade de opiniões e correntes políticas» (em termos das diferentes bancadas parlamentares, no bolo final), mas não um apuramento proporcional. São coisas bem distintas.
Por outro lado, elegendo a elaboração de listas como um dos factores que estão na origem do descrédito da política, Silva pretende denunciar como os partidos respondem a lógicas clientelares e de favorecimento de interesses. Contudo, defende uma vez mais que os círculos uninominais impediriam que tal acontecesse porque «aumentaria a capacidade de controlo popular sobre a selecção e a actuação dos representantes, diminuindo radicalmente o poder aparelhístico».
Mas, será que ele acredita nisso? Alguém acredita nisso? Quem é que decide qual o cabeça de lista às autárquicas num concelho? Os mesmos que definem actualmente o cabeça de lista do partido X, Y ou Z nas legislativas! No caso de Évora, temos o Abílio Rodrigues pela CDU e o Carlos Zorrinho pelo PS. Duas personalidades que, cada uma à sua maneira, têm amplas ligações a este Distrito. No sentido contrário, o PSD largou de paraquedas a actual Ministra da Cultura, Maria João Bustorff, que possivelmente nem sequer sabe como ir da Sé à Praça de Giraldo. Mas são os eleitores quem se tem que pronunciar sobre isso, já no próximo dia 20 de Fevereiro.
Por todas estas e outras razões, a representatividade continuará a padecer das mesmas maleitas, uma vez que, se por um lado, quando na Assembleia da República, os representantes são deputados da nação, não devendo proceder de acordo com interesses locais (à semelhança de Daniel Campelo e o Orçamento Limiano), por outro lado, as direcções partidárias não prescindem obviamente de controlar a elaboração das listas porque é com os deputados eleitos que os partidos políticos contam para o trabalho durante uma legislatura.

Ao contrário de outros países, Portugal continua a não ter corpos executivos intermédios que estabeleçam a ligação entre o poder local e o poder nacional. Incompreensivelmente. Estas e outras circunstâncias fazem da figura da representação, quanto muito, uma prerrogativa do poder local porque no plano nacional, a representação não contempla territorialidades mas tão só ideologias e doutrinas, as quais, em Portugal, são como as casas que um dia foram pintadas com cores garridas: esbatem-se, constituindo uma imensa tonalidade homogénea.
Assim, só o maior envolvimento crítico e construtivista da sociedade civil pode levar os inputs ao sistema político-partidário, que levem este a respeitar mais o eleitorado e manter o decoro e competência exigidos. Transparência, sentido do que é interesse nacional, competência e honestidade, são valores que exigimos e devemos exigir aos políticos conquanto os perfilhemos e pratiquemos no nosso dia-a-dia…
De outro modo, apesar da feroz competitividade movida pelos media, uma das funções dos partidos políticos continua a ser a distribuição de informação política. Coloco eu a questão: quem sabe, neste país, quais os planos de qualquer um dos partidos para a próxima legislatura? Infelizmente, os partidos não sentem necessidade de chegar aos portugueses com a preocupação de os informar com clareza. Isso é extremamente grave. Basta-lhes o voto! E esse é conquistado da forma mais estapafúrdia e desonesta que se pode ver! Mesmo sem reflectir um pensamento estruturado e estratégico.

Assim, não há combate à abstenção que resista. Assim, com todo o respeito que me merece o Doutor Augusto Santos Silva («Entre a Razão e o Sentido» foi escrito por ele, recordam-se?), não creio que deva desperdiçar o seu precioso tempo a pensar em alterações ao sistema eleitoral que apenas resultam em maquilhagens mediáticas. As mudanças, a sê-lo, terão que ser mais profundas e estão necessariamente entre as mais difíceis de rectificar.

Finalmente, no artigo em questão, Santos Silva discorre também sobre as lógicas de elaboração de listas dos diversos partidos. Por razões desconhecidas, não fala do seu, que será aquele que melhor conhecerá, em tese...
PS: o espaço é curto e raios, para quê dar-se ao trabalho, existem dissertações sobre isto.

em de-talhe

DIREITO A UM CONTRADITÓRIO MUITO ESPECIAL...


...Parece ser a caracteristica predominante da actuação do Presidente da República, Jorge Sampaio. Irresoluto, o homem dá tão acertadamente uma no ferro, como de seguida malha violentamente na ferradura... Tão depressa aceita a deserção de Durão, dando posse a Santana, como posteriormente convoca eleições antecipadas, dissolvendo uma Assembleia da República com maioria absoluta e escurraçando o mesmo a quem tinha dado posse há escassos quatro meses. Após a nomeação de Santana, Sampaio chegou mesmo a assegurar que o governo tinha tanta legitimidade como outro qualquer; depois, no discurso a justificar a dissolução, vem mesmo argumentar que a falta de legitimidade democrática de Santana, terá sido um dos factores que o levaram a tomar tal decisão.

Agora, totalmente fora de tempo e numa altura delicada, lembra-se de partilhar com o país inteiro (SIC Notícias - Expresso da Meia-Noite) a sua convicção sobre a necessidade de alterar o sistema político, de forma a que seja mais fácil formar maiorias absolutas no Parlamento. Esta afirmação é no mínimo e com toda a legitimidade, criticável por todos os partidos políticos. A um mês e meio de eleições, estas declarações só podem ser vistas como um evidente favorecimento do PS nas eleições que se avizinham. A fazer campanha ao lado do PS, Sampaio pediu «apenas» aos portugueses uma maioria absoluta para que os socialistas tenham condições para governar.
Por outras palavras, a governabilidade neste país só é possível sem oposição, sem contraditório e na impunidade. É indiscritível.
Bem sabemos que a causa da dissolução da Assembleia foi a actuação inclassificável do governo e não a maioria parlamentar. Mas não restava outra alternativa constitucional ao Presidente da República que não fosse a dissolução da Assembleia. Ainda assim, restar-lhe-iam duas alternativas: ou nomeava novo governo PPD-PSD/CDS-PP ou convocava eleições antecipadas. Optou por este segundo passo, na minha opinião, erradamente: o problema não estava na representação parlamentar (até capaz de se coligar e favorecer uma maioria) mas sim no próprio governo.

Regressando ao sistema que favoreça a formação de maiorias no Parlamento, fica claro que, a ser adoptado, um sistema desse género só favorece ainda mais a bipolarização partidária e mina qualquer ideia de representatividade, constituíndo um sério atentado à existência de partidos políticos de menor dimensão. Mas vale que fechem as portas.
Se é de governabilidade que se trata, então basta que aos senhores políticos não mova mais do que o interesse nacional. E aí os consensos surgem naturalmente.

à tout propos (105)



La pisseuse, Pablo Picasso, 1965



7 de janeiro de 2005

à tout propos (104)

SUDESTE ASIÁTICO VII E COSTA ORIENTAL AFRICANA
Como se previa, a contagem de vítimas mortais subidamente ceifadas, ascende a 165 mil! As vitimas sobreviventes directamente relacionadas com o maremoto são milhões. Indonésia e Sri Lanka são os casos mais preocupantes.

à tout propos (103)

RECEITAS EXTRAORDINÁRIAS
Este assunto gastronómico não é certamente o meu forte, ainda hoje sobrevivo com as receitas que a minha boa mãe teve a generosidade de me transmitir quando fui para a Bélgica. E não inovei um milímetro ou especiaria. No entanto, dada a especial apetência pelos partidos políticos por este tema e pela criatividade que têm demonstrado no governo, não me posso evidentemente alhear. Afinal, é essa a minha responsabilidade enquanto cidadão.
Por conseguinte, afirma desta feita o Partido Socialista que não recorrerá a receitas extraordinárias para manter o défice público abaixo dos 3% do PIB. É compreensivel que assim seja, embora esta tomada de posição se me afigure mais como um esgotamento da criatividade do que a garantia de um principio de gestão das contas públicas. Não há muito mais para vender. A Guterres, Durão e Santana, pouco terá faltado para vender as suas almas a um mefistófoles já cansado das promessas de Fausto.
Em todo o caso, modéstia à parte, creio ter a solução. E que tal se vendessem o Alentejo aos espanhóis ou aos franceses?
Com essa maquia resolviam dois problemas: dava para encher o Tejo de pontes, Lisboa de aeroportos e os bolsos de dinheiro; e libertavam os alentejanos do lodo em que nos meteram.

6 de janeiro de 2005

em de-talhe




BBC VIDA SELVAGEM: PARASITAS
Os parasitas intestinais são pequenos vermes que vivem no trato intestinal. Os mais comuns são a Áscaris Lumbricóides, Ancilostomo Duodenale, Trichiuris Trichiura, Ténia Saginata, Ténia Solium, Amebas e Giardia.
As causas mais frequentes relacionam-se com o acto de comer selvaticamente alimentos crus, inexistência de hábitos de higiene, ingestão de água contaminada, contacto com excremento humano ou animal... Não dar atenção à unhaca utilizada para palitar dentes também está associado à ocorrência de parasitagem no aparelho digestivo.

Entre os vários sinais e sintomas, os mais notados são a barriga volumosa, intensa e desenfreada coceira anal seguida de gazes fétidos, vontade de comer terra, lamber cinzeiros, coceira anal e nasal, eventual diarreia, ranger dos dentes, olhos brilhantes, pupilas dilatadas, irritabilidade e incontinência urinária. Há quem arrote ininterruptamente, libertando descontroladamente uma pestilenta e viscosa espuma pelos cantos da boca.
Certos são os permanentes vómitos mentais acompanhados de espasmos esquizofrénicos, indiciadores de personalidade múltipla e sociopatia.
É aconselhável, diante de um ou mais sintomas, submeter-se a exames laboratoriais de fezes para diagnóstico e ao Teste Rectal da Cenoura: dada o especial apetite destes parasitas por cenouras, é comummente aceite entre a comunidade científica que «a cenoura não engana». Nos casos mais graves, aconselha-se o suicídio.
Alimentando-se nas entranhas e do sangue, estes parasitas podem chegar a medir 8 metros de comprimento, comodamente instalados nos intestinos. Os mais familiares, nocivos e inteligentes são as Ténias. Conseguem inclusive comunicar com o exterior em nome do hospedeiro e através deste, libertando a referida espuma.

As ténias têm uma cabeça chamada escolex, com ganchos que lhes permitem agarrar-se à parede intestinal do seu hospedeiro. Também se agarram a ideias, sem no entanto conseguirem reproduzir mais que chorrilhos acrisolados.
É no entanto assombroso como estas criaturas podem chegar a ser tão grandes, demonstrando-nos como pode ser tão diversa, estranha e maravilhosa a vida na terra. Não obstante, a agonia para o hospedeiro, não é certamente maior do que o mal-estar e putrefacção que gera à sua volta. Têm preferência pelas pessoas idosas.

Nos casos menos graves recomenda-se somente a adopção de hábitos de higiene, desde que respeitado um pequeno período de quarentena (7, 8 anos costumam fazer a diferença). Para tornar o tratamento mais eficaz, aconselha-se a inoculação diária de um dentinho de alho de Xabregas no ânus, devidamente descascado e lavado e à profundidade de um dedo médio vulgar. É totalmente desaconselhável a introdução de outros objectos no canal rectal, a não ser os prescritos pelo médico e na presença deste.

Em todos os casos que temos acompanhado, a actividade destes parasitas conduz o hospedeiro à obstipação, provocando um insuportável prurido e ardor anal. Esta sintomatologia prevê, por sua vez, o desenvolvimento de enormes caroços que mais não são que dilatações de vasos situados na porção mais inferior do recto e no canal anal, denominadas veias hemorroidais.
Infelizmente não têm cura. Consegue-se viver com elas, embora as repercussões ao nível das disfunções mentais e odoríficas tendam a permanecer.


Dr. Soyus Carrothands
(Investigador principal no Centro de Estudos de Doenças Epidemiológicas e Microbiológicas do Hospital Universitário de Brazzaville)

5 de janeiro de 2005

à tout propos (102)

FACADINHAS NA CASA DE PILATOS: A NOITE DAS FACAS LONGAS
Lá para os lados do PSD ninguém se entende, tal é a barafunda. Com os preços exageradamente altos da cicuta, sinal de que a crise afinal afecta os abastados, subiu o consumo e utilização de adagas, cutelos e punhais. Com efeito, depois de um ter abandonado o governo queixando-se de falta de confiança e traição; depois de Santana Lopes ter vindo a público lamuriar que estaria a ser vítima de punhaladas nas costas, vem agora Pôncio Monteiro acusar o Primeiro-Ministro de lhe fazer o mesmo, na sequência da composição da lista no Porto.
Perante este cenário, aconselha o bom senso que qualquer associação (por mais remota que seja) com uma casa em chamas pode queimar verdadeiramente. Assim, é perfeitamente admissível qualquer demarcação que vise distinguir o normal do péssimo. Quem quereria ser confundido com Santana Lopes, depois de o classificar dentro da tipologia da incompetência?
Entretanto, o suspeito e enervante Luís Delgado, no Diário de Notícias, questiona-se se será Cavaco algum Deus.
Concordo que o antigo líder laranja não seja propriamente uma entidade supra-empírica, antes pelo contrário, dentro do PSD, Cavaco parece ser dos que estão mais em contacto com o planeta Terra, que é onde vivemos.

4 de janeiro de 2005

à tout propos (101)



É compreensivel que Cavaco Silva tenha rejeitado aparecer nos outdoors propangadisticos do PSD. Figurar no mesmo plano que Santana Lopes não é sapo que se engula assim tão facilmente. Na exacta proporção da viscosidade.
Por outro lado, parece consensual afirmar que «ninguém fez mais [asneiras] por Portugal» em apenas 4 meses, por isso, no outdoor Santana Lopes devia figurar no lugar de Sá Carneiro. As estruturas de propaganda do PSD que revejam esse lapso, faz favor.

à tout propos (100)



Bom, já há sangue... o verniz estalou-se-me da unhaca.
Agora é irreversível, as audiências têm que subir!
Senão, esta revelação: «se o Santana Lopes chegou a ministro, então eu também chego!»

em de-talhe

DIREITO DE RESPOSTA
Na minha última rúbrica, «os deuses também já foram homens» cometi o terrivel pecado de partilhar com os caríssimos leitores, alguns pormenores privados e necessariamente do desconhecimento geral. Não cuidei nem cuido com minúncia acerca do que publico, uma vez que o perfil dos leitores está definido, na verdade sou eu que o define. Por isso, decidi publicar a fotografia de uma criança austríaca no pós-guerra e falar do relativismo que matiza as emoções.
Neste momento, o meu sentimento relativamente ao comentário postado por um Sr. EM ROID HALL, poderia ser de completo repúdio. Mas não. Não obstante, até compreendo que em algumas circunstâncias, esse Sr. sinta necessidade de dilatar e expulse algum do pús que o inflama. Presumo que seja assim a vida, num local remoto cuja única função parece ser estorvar a saída de resíduos dispensáveis ou tóxicos, debilitando assim o bom funcionamento da flora intestinal. Há alguns mais avançados que acabam por estorvar também as entradas, suponho que o Sr. EM ROID HALL não seja um desses, naturalmente...
No post referido, falo de uma certa inocência que parece desaparecer na medida das experiências de vida e do avanço na idade. Foi com essa inocência que publiquei a foto. E faço-o propositadamente porque olho com frequência à minha volta e noto como as pessoas não se satisfazem com coisas simples... entrando numa espiral de exigências sem termo.
Por isso, concluo que o Sr. EM ROID HALL deve ser supostamente, um indivíduo já muito entrado na idade a quem as fotografias de crianças lhe farão eventualmente recordar outros perímetros.
Corro o risco de estar enganado, perdoe-me o Sr. se por acaso cometi alguma injustiça consigo.
Atenciosamente

3 de janeiro de 2005

os deuses também já foram homens



DA RELATIVIDADE DAS EMOÇÕES
Quem, em circunstâncias normais (muito distantes das vividas por este rapaz austríaco no rescaldo da 2ª Guerra Mundial), se mostraria tão feliz por satisfazer tão humilde desejo?
Infelizmente, os adultos tendem a perder irremediavelmente essa virtude que as crianças conservam: a inocência das coisas simples.
Infelizmente também, não deixaram de ser encontradas esse mundo fora, milhões de crianças em circunstâncias análogas ou comparáveis.

em de-talhe

COM AS DUAS PATAS NA POÇA
O PS está a arrancar bem a pré-campanha eleitoral. Primeiro vem José Sócrates defender incondicionalmente a co-incineração de resíduos perigosos. Agora, correm rumores de este partido admitir o aumento do IVA em 1%, como forma de combater o défice, pela receita.
Nem vou recordar o que foi dito pelo PS quando Manuela Ferreira Leite do PSD decidiu subir o IVA de 17 para 19%. E justamente, porque o ganho de 2% na tributação teve como reverso da moeda a quebra do consumo, penalizando os mais desfavorecidos.
Mesmo para um PS alinhado no centro-direita, uma proposta de novo agravamento fiscal, a incidir num imposto directo sobre o consumo, é no mínimo lamentável. Quaisquer noções de equidade saltam fora desta aritmética e como sempre, serão os mais desfavorecidos e a baixa classe média baixa a pagar a factura. Só isso explica que as subidas nas vendas de automóveis de luxo não se detenham com crises, nem as estadas em hotéis de 5 estrelas, nem a compra de imóveis de luxo. Como me confessou um industrial hoteleiro de alta qualidade há uns tempos, a «crise não passou por aqui, antes pelo contrário, 2003 foi um ano excelente».
A aprovação do Orçamento de Estado acaba por ser um alívio para o PS, que vê compensada a balança da descida do IRS (sobretudo nos escalões mais altos) com a eliminação dos benefícos fiscais. desafio o cidadão médio que tenha uma poupança reforma ou habitação a fazer as contas...
Punhaladas nas costas, não é só no PSD...
Por isso, aconselho vivamente o PS a rever toda a sua programação eleitoral e pensar em alternativas sustentáveis, críveis e estratégicas para o país. Caso contrário, mais vale entregar isto aos chineses. E deixem de pedir maiorias absolutas aos portugueses, que já estão fartos de dar o poder e receber miminhos destes em troca.

2 de janeiro de 2005

produtividade medida em feriados



De acordo com os nossos insignes analistas, a produtividade portuguesa está seriamente comprometida com o ano que se avizinha e as inúmeras «pontes» e fins-de-semana alargados. Na verdade, parece que a produtividade, cá por estes lados, depende exclusivamente do número de horas que os portugueses passam no local de trabalho.
Claro que 2004, um ano muito menos profícuo em feriados, foi tabelado por uma produtividade sem precedentes. E o Euro 2004 foi o expoente máximo dessa mesma produtividade, pelo menos para os chineses que aproveitaram a benesse popular e não se fizeram rogados na hora de vender fosse o que fosse que assinalasse as cores verde e rubro e a grande nação lusitana. Mas no governo também foi dado o exemplo e Santana Lopes não deu descanso aos 16 guarda-costas que durante quatro meses vergaram a mola noite e dia...

Este facto pode tornar-se algo preocupante e já estou a imaginar os trabalhadores portugueses a fazer cozido à portuguesa atrás de uma estante de arquivos ou a mudar a fralda ao bébé enquanto atendem um cliente. Mas é imperioso que passem 18 horas no local de trabalho e concordem em abdicar das horas extraordinárias, a bem da pátria. E que a energia seja de preferência à borla (agora já somos auto-susbistentes com a central de Alqueva, lembram-se?), «pois os Jaguares, BMW's e Bentley's estão a ficar caros... E pagar impostos, por favor, isso é autenticamente feudal, isso é terceiro-mundista, quer-se dizer, não é? E inovação tecnológica, optimização, formação profissional, são coisas muito bonitas mas só se for o Estado a pagar porque a minha empresa já dá prejuízo há 4 anos, safa!» (citando entre arrotos, um vulgar patrão português, com restos de berbigão no bigode, pança farta e cachucho no dedo anelar).

Agora se me é permitido, um aparte naturalmente menos sério: de acordo com dados divulgados pela OCDE, em média, os portugueses trabalharam em 2003, cerca de 1676 horas. Menos do que os canadianos (1718), americanos (1792), mexicanos (1857), polacos (1956) e até mesmo que os espanhóis (1800). Nem falo dos sul-coreanos (2390), uns mouros de trabalho. Isto faz de nós uns verdadeiros mandriões, o pesadelo de qualquer patrão. Não servimos nem para encher a caldeira de um combóio a vapor.
Pior de tudo, os nossos eternos rivais gregos, não só vêm no mesmo ano humilhar a selecção portuguesa de futebol três vezes consecutivas, como passam mais horas no local de trabalho do que nós (1938). São muito mais produtivos, mais até que os japoneses (1801)!

Mas, ainda assim, conseguimos trabalhar mais horas do que noruegueses (1337), suecos (1564), alemães (1446), dinamarqueses (1475), holandeses (1354), italianos (1591), belgas (1542), franceses (1431) e até mesmo que os britânicos (1673). Esta gente ainda trabalha menos que nós e facilmente comfirmamos a pobreza franciscana em que vivem e como as suas economias, assentes em mão-de-obra barata e baixa qualificação, só podem competir com economias tribais. Se não fosse a União Europeia e as contribuições dos portugueses, o que seria dessa gente? Como é que eles se governam, passando tão pouco tempo no local de trabalho? Por isso é que isto está cheio de holandeses a trabalhar no campo... Como trabalham pouco por ano e é da sua natureza trabalhar mais, vêm para Portugal que aqui há horas de sobejo.

Agora, se atentarmos nos valores, verificamos que a economia menos competitiva, vista pelo número de horas, é nada mais nada menos que a Noruega, esse colosso que é apenas o líder mundial de desenvolvimento humano, enquanto Portugal aparece num honroso 26º lugar, logo a seguir à Singapura, que está imediatamente atrás da... Grécia (malditos).

Mas, já agora, para os curiosos que queiram ver aquilo que parece não suscitar grande apetite entre os nossos insignes analistas e que pode aclarar a simplória questão da produtividade, é favor clicar aqui.

A estultícia também não tem limites, nem mesmo num mundo onde não há almoços popularuchamente grátis...