25 de junho de 2005

As palavras

"...Todo lo que usted quiera, si señor, pero son las palabras las que cantan, las que suben y bajan...
Las inesperadas... Las que glotonamente se esperan, se acechan, hasta que de pronto caen...
Vocablos amados... Brillan como piedras de colores, saltan como platinados peces, son espuma, hilo, metal, rocío...
Persigo algunas palabras... Son tan hermosas que las quiero poner todas en mi poema..."
La Palabra, PABLO NERUDA
Bom fds

24 de junho de 2005

Redondo no caminho certo

Com o aproximar das eleições autárquicas, os partidos iniciam as movimentações, gizam-se estratégias, dão-se a conhecer os líderes, naquele burburinho latente de «trabalho a fazer». As agendas são preenchidas e nada é deixado ao acaso. E essa inquietação de tudo abranger, de tudo tocar, pretendendo denotar uma imagem de vigilância e capacidade de resolução de problemas, é de tal ordem obsessiva que por vezes se corre o risco de ser ridículo. Ingenuamente ridículo, queremos acreditar.

Este prelúdio é devido a uma comunicação da Secção Concelhia do PS/Redondo, hoje publicada no Diário do Sul. Como o caro leitor deve estar recordado, em Agosto de 2004 foi comunicada a decisão unilateral pela ARS, de fechar o Centro de Saúde de Redondo às 21h00, diminuindo o SAP (serviço de atendimento permanente) em 3 horas. Acontece que essas 3 horas justificaram as conhecidas manifestações dos munícipes, assim como as actuais vigílias da Comissão de Utentes de Redondo. Assim também como a desproporcional intervenção do Corpo de Intervenção da GNR...

Ora, na tal comunicação, a Concelhia do PS/Redondo vem reafirmar a indignação que tal decisão causou no seio do PS/Redondo. Vem também manifestar junto dos munícipes o seu total apoio à luta pela reposição de serviços, no seu entender inteiramente justos e justificáveis.

Para isso, na comunicação é debitado um conjunto de medidas teóricas e líricas do ponto de vista da exequibilidade, todavia, em matéria de campanhas eleitorais, a César o que é de César…

Ainda assim, creio que exagerei nos adjectivos usados no parágrafo anterior, quando comparados com a última frase do terceiro parágrafo:
“…a construção do novo Centro de Saúde de Redondo e/ou, e por que não, do Hospital Intermunicipal da Serra d’Ossa”.

E com isto, o PS/Redondo arrumou os oponentes no concurso, por KO ao primeiro round.

Esta é uma ideia verdadeiramente excepcional. E são variadas as razões dessa excepcionalidade. Não obstante, há uma ou duas circunstâncias que nos deixam algumas dúvidas quanto à localização:
Dos 9 aglomerados do concelho, a Aldeia da Serra é provavelmente o 6º com mais habitantes. A relevância desta questão tem que ver unicamente com o facto de serem poucos eleitores. Seria muito mais avisado, anunciar o hospital para a vila de Redondo.

Os acessos são vagamente transitáveis pela estrada nacional 381. Seria aconselhável incluir na proposta, algumas obras de beneficiação. Eventualmente uma via rápida entre Redondo e Estremoz. Um assunto a estudar. De qualquer modo, sem heliporto seria certamente inviável, devido às novas exigências, à globalização, ao buraco do ozono e às espécies protegidas da costa de Sesimbra.

Sendo uma zona com alguma expressão turística [recordamos que lá está implantado o famoso Hotel Convento de S. Paulo], não sei se será de todo prudente a construção de um hospital na área envolvente. Aí é que a coisa fica um pouco pior. Depois os clientes querem dormir descansados e andam os helicópteros para diante e para trás. E eventualmente, pessoas pobres a pedir.

Encontro ainda um 4º problema, relacionado com o equilíbrio regional. Com um hospital, poderia verificar-se uma deriva massiva de recursos humanos altamente qualificados (pessoal médico, técnicos e enfermeiros) que a prazo são susceptíveis de secar as vilas e cidades vizinhas. Assim, é bem possível que recrudesçam velhas rivalidades e alguma animosidade, afectando a boa paz social.

Mas é este o espírito. Pessoas que estão aqui para trabalhar com abnegação, pelos direitos dos mais fracos. O que é preciso é ideias!


PS: Ouvi dizer, mas pode não passar de rumores, que um dos candidatos rivais já iniciou as negociações com vista à construção de um aeroporto internacional nas Vinhas, caso vença as eleições. E isso é que é mau. A confirmar-se, mesmo que perdesse as eleições, esse candidato deveria manter a promessa mostrando que a população está acima das suas próprias ambições políticas. Mas estou convencido que vai reconsiderar e no fim, a população irá dispor do Hospital e do Aeroporto!

23 de junho de 2005

A galinha da vizinha põe mais crises do que a minha

Portugal está em profunda crise, não é novidade. Não é apenas uma crise económica, como o atesta o anunciado e mais que esperado Procedimento por Défice Excessivo pela União Europeia contra Portugal. Mas essa crise é também social e institucional. Já o sabíamos, apesar de o tendermos a desvalorizar como nos convém na nossa labuta quotidiana.
Por força das suas próprias dinâmicas e implicações, a crise social é aquela que menos se sente objectivamente (salvo alguns sintomas que nos vão sendo fornecidos) e a que mais profundas marcas nos deixa, ao sulcar os referenciais colectivos que se hão-de reproduzir conforme vão sendo modelados. É seguro que tais marcas, serão os nossos descendentes quem as vai diagnosticar e sentir o seu peso, tal como nesta altura sentimos o peso daquilo que é o nosso edificado civilizacional concreto. Nós somos uma parte do passado e faremos parte do futuro, na medida da herança que oferendamos às gerações vindouras. Não é só de ambiente ou status quo que resultam as apreensões de sustentabilidade, chavão que por artes mágicas entrou no vocabulário dos nossos políticos. E também um pouco nos Programas Operacionais Regionais... É cultura e formatação idiossincrática.

Contudo, evitando continuar a deriva que nos desvia teimosamente do assunto inicial [a concentração é a esta hora já demasiado fugaz e instável] em torno do PEC e do défice excessivo, no seguimento de algumas preocupações manifestadas acerca da competência das nossas instituições e governantes (ver em particular o último parágrafo de
Missão Impossível?!), não deixa de ser curioso constatar a extensão da relutância da própria Comissão Europeia com respeito ao nosso plano de saneamento do défice público.

Devo confessar que não pude conter o riso, num misto de indignação e de ridículo, quando li no Público de hoje que a Comissão já estaria acostumada ao natural empolamento nacional das contas apresentadas. Por isso, caracterizava como bastante "optimistas" as previsões nacionais, em perfeita alusão eufemística de uma realidade bastante mais sombria… Nesse caso, também eles digeriram a coisa com candura. Talvez tenha sido esta a mais-valia que prefigura uma contrapartida em sucumbir às tentações pessoais de um Primeiro-ministro em acelerado passo de corrida em direcção à glória, à sua exclusiva glória… e para nosso bem-estar, nosso excusivo e egoísta bem-estar...

Das duas uma: ou são os políticos portugueses que não têm credibilidade perante as instituições europeias, ou são os nossos técnicos, essa tropa de assessores que preparam os dossiers para os políticos. Ou ambos.

Então, alguém me explica como é que podemos ser credíveis se os dossiers que preparamos não são credíveis, gerando reacções de autêntica e indisfárçavel descrença entre os nossos parceiros? Neste momento, Portugal será para quem possui o mínimo conhecimento sobre a nossa realidade, uma espécie de Câmara de Setubal estritamente controlada (diria mesmo governada) pelo Tribunal de Contas. A cada dia que passa, a imagem de Portugal vai-se desvanecendo e a maquilhagem, transpirada pelo suor que a borra. Já vai sendo difícil explicar algumas coisas. Já começa a ser desagradável conviver com um país em que os índices de desenvolvimento humano são razoavelmente precários, quando foram feitos esforços também pelos outros, em particular pelos alemães que não só «tiveram que dar mesada aos inúmeros irmãos até aos 30», como também se viram a braços com o enorme esforço da integração da Ex-RDA.

E a comisão não só é relutante como avisa, num tom aqui propositadamente prosaico, que «não se pode contar com o ovo no cú da galinha», se a expressão me é permitida. Não mesmo. Aliás, se estabelecermos uma analogia, creio que algumas das críticas de Jorge Sampaio à banca também foram proferidas, considerando essa atitude de deslumbramento dos portugueses com o acesso fácil ao crédito. Isto porque em matéria de recurso ao crédito, metade dos portugueses deveriam ser considerados inimputáveis, pois não sabem gerir os seus rendimentos e as suas despesas com um mínimo de exequibilidade orçamental orientada por um mínimo de racionalidade, instrumental, que fosse.

«Contar com o ovo» que ainda não foi posto pela galinha, é perfeitamente ajustável às previsões do governo, postas em causa pela Comissão Europeia porque como essa gente não é parva de todo, não migrou dos campos de algodão para Bruxelas nem os «esquemas» são para eles última moda de paris.
Pelo contrário, sabem perfeitamente que basta um indicador se destabilizar para que as receitas desçam substancialmente; em teoria, basta que uma boa parte dos empresários portugueses transfira a sua morada para Espanha, beneficiando de mais incentivos, menores taxas de IRC e de um IVA substancialmente mais baixo, para que as receitas previstas se evaporem. Por isso, a insistência na redução das despesas. A sorte é que não temos a mínima vocação para explorar à séria o mercado espanhol. Só meia dúzia de empresários mais ousados e o resto prepara-se para pegar cada um na sua pá para dar umas bordoadas «à Aljubarrota».

Mas a crise que vivemos e que talvez não colapse a nossa economia como sucedeu em 2001 na Argentina [porque ainda nos protege das intempéries o enorme guarda-chuva da UE], é de tal forma geral que nem a racionalidade burocrática e legal, na sua vertente mais formalista do ponto de vista processual, parece funcionar com eficácia e neutralidade.

Perante a actual greve dos professores, num mesmo dia, vemos os tribunais Administrativo e Fiscal de Ponta Delgada e de Lisboa, pronunciarem-se opostamente sobre a legalidade dos serviços mínimos impostos pelo Ministério da Educação para assegurar os exames nacionais. Perante tal insólito (bem sabemos que o carácter abstracto e universal pretendido pelo legislador pode suscitar diversas leituras), como se pode exigir bom senso a professores, sindicatos e ministério, se entre os próprios magistrados as divergências são evidentes? Trinta anos de democracia não fazem jurisprudências, ou ainda não chegou o tal programa informático para cruzar a base de dados da jurisprudência? Não se trata de um termo da decisão, mas do próprio sentido da decisão. Do alto da minha ignorância, parece-me que este tipo de casos emperra os tribunais, aumenta os tempos médios de cada processo porque simplesmente se tem que se adiar o desfecho pelo Supremo ou pelo Constitucional.

É claro que, nesta altura, as desconfianças da politização de decisões judiciais já começam a extravasar as ubíquas paredes do Tribunal Constitucional, transferindo-se para tribunais criminais, laborais, administrativos, etc. As novelas a que assistimos diariamente são disso um perfeito exemplo com processos que se arrastam no tempo, autarcas que fogem avisados para o Brasil, prisões preventivas por tempo indeterminado, julgamentos forjados nos media, violação do segredo de justiça ou magistrados que ameaçam o normal funcionamento das instituições quando se sentem acossados, reagindo com a natural prepotência que os caracteriza.
Esta crise constitui um sério rombo na independência dos tribunais e consequentemente na democracia, parece-me pacífico.

É bom que reflictamos nisso a sério, sem ilusões evasivas nem entretenimentos estratégicos: não somos todos bons, alguns de nós somos medíocres; os feitos portugueses do passado são louváveis mas relativos e enquadráveis contextualmente; o Euro foi interessante mas continuamos com os mesmos problemas e só desperta paixão entre o Madail, o resto é manipulação emocional dos media; somos homens deste tempo e como tal, pelas nossas acções não é o Vasco da Gama, o Afonso Henriques ou a Padeira de Aljubarrota que respondem; somos o que somos e temos que aprender a viver com isso, sabendo que é para os nossos netos tudo aquilo que de bom ou de mau deixarmos.

21 de junho de 2005

à tout propos (175)

No especial estatuto dos militares é que não...

Mais umas pérolas deste Portugal, apetece dizer, dos grandinhos. Desta feita destacamos algumas intervenções de militares, seriamente preocupados com o seu estatuto, os seus «direitos adquiridos» e com o especial papel que ocupam na sociedade, creio que mais ou menos ao nível dos deputados. Talvez um pouco mais... acima dos magistrados e abaixo dos médicos. Por aí.

Passemos pois ao suco.

1. A propósito da proposta do governo para a idade de reforma (40 anos de serviço como os outros, e 65 anos de idade) e da eventual extinção dessa grande garantia que é a Reserva Militar, o distinto Sr. Coronel Tasso de Figueiredo não esconde a sua preocupação, porque está em causa o próprio estatuto da condição militar. «Manda vir que esta pago eu!» Actualmente, um militar pode passar à reserva com 50 anos!

2. Muito melhor que a primeira, diz respeito à acusação movida pelo Sr. Tenente-Coronel Alpedrinha Pires (Presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas) à incompetência de políticos mal preparados: "temos sido governados por gestores medíocres" (no Público de 21.06.05).

Aqui, o homem tem razão! Não só medíocres, como indisponíveis para encarar com humildade qualquer processo de aprendizagem que os possa diminuir em carteiras de escola, pequenas demais para acolher tão destacadas eminências: «A mim, não me escapa nada, já em criança era assim, muito esperto!».

A título de curiosidade, o CEFA (Centro de Estudos e Formação Autárquica) promoveu aqui há uns anos um curso de formação geral para eleitos. O enorme sucesso da iniciativa determinou o fecho. Aliás, em toda a Administração Pública, são os eleitos quem sabe mais, por isso, são os que menos se sujeitam a formação. Coerente.

É por isso que a gestão interna dos quartéis é exemplar... O controlo sobre as compras, os combustíveis, as mordomias nas messes de oficiais (come-se melhor do que num restaurante de 5 estrelas, e adivinhem quem paga?) os gloriosos serviços prestados à comunidade, etc. Só por quem lá passou...

Só para se ter uma ideia, há 10 anos atrás, o Quartel-General da Região Militar Sul (em Évora, no Largo dos Castelos), parecia a Quinta da Malagueira, autêntica colónia de mandarins... Se caísse uma chuvada à séria, tanto uma como o outro decerto naufragariam... Presumo que continue igual. E não se pense que era caso único.

E também é da má preparação dos políticos, o aproveitamento abusivo dos sub-sistemas de saúde? «Dá pá'mãe, pó'vizinho, pó'amigo e pó'cão». Quer dizer então que essa fraude é um ardil utilizado pelos políticos para denegrir a classe? Tá bem, tá...


3. Incomensuravelmente melhor que as duas anteriores, segue-se esta safira exótica que cortesmente o Sr. Coronel fez questão de nos mostrar, ainda a respeito das baixas médicas. Argumenta o excelso militar que a profissão de militar acarreta riscos vários e um desgaste rápido, tipo futebolista...

Quanto a isto, só tenho uma questão a pôr, tão legítima quanto a do Luís Delgado (abaixo):
se é assim tão mau, porque não vão todos para as obras «alombar» à chuva e ao sol, ao frio e ao calor, afirmando assim a sua condição especial de servente nas olimpíadas do reumatismo precoce?

à tout propos (174)

"Cem dias depois de tomar posse, há uma pergunta legítima, não mal intencionada, mas que exige alguma reflexão: para quem governa este Executivo socialista?"
Luís Delgado no Diário de Notícias (20.06.05), sobre o [seu] tempo das vacas gordas que terminou em 20 de Fevereiro, e depois de ter sido nomeado para a administração da Lusomundo Média.
De facto, uma pergunta legítima.

à tout propos (173)

Finalmente consegui ver uma notícia num canal televisivo português, sobre novos [velhos] «incidentes» [ou como lhe chamam...] numa estação ferroviária da Amadora, em que o jornalista conseguiu resistir ao qualitativo racial.
Notável!

Missão impossível?!



Attempting the Impossible, René Magritte, 1928

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O Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, veio hoje a público manifestar a sua indignação relativamente ao estado do país. Não fez mais do que discorrer um pouco sobre a realidade portuguesa e as responsabilidades que cabem a cada um dos agentes. Mas teve finalmente a coragem de o fazer, sem pejo nem deferência para os eternos donos de Portugal.

E lançou críticas directas, fundadas nos inúmeros diagnósticos que referiu e que afinal alguém com relativo poder teve o trabalho de ler. Só peca por tardio, este ligeiro aroma a magistratura de influência. Por que razão só agora, a pouco mais de 6 meses das eleições presidenciais e com dois mandatos cumpridos?

De qualquer forma, não poupou a banca ao criticar a lógica do investimento fácil que a orienta (os créditos auto, habitação, etc.), em detrimento de uma atitude mais prospectiva e dinamizadora que incentive as empresas e ajude aquelas que estão realmente interessadas em inovar.

Rompendo com o discurso gasto e a cheirar a mofo que tem na Administração Pública o principal bode expiatório, Sampaio não enjeitou a oportunidade de responsabilizar também algum sector privado pela inércia e falta de competência, desmistificando assim essa tentação intelectualmente diminuída em que se cai muito facilmente em Portugal, ao afirmar: "não há iniciativa privada suficiente em Portugal [porque as empresas ainda estão] demasiado encostadas ao Estado".
Não só encostadas como também, pese embora a lógica dos fins lucrativos que os distingue, capazes de apresentar piores resultados, em particular em áreas específicas como a educação e saúde.

Só queria ver como seriam as empresas em Portugal, caso cumprissem integralmente com as suas obrigações como acusam frequentemente autarcas, gestores públicos ou ministros de não cumprir. Quantas estariam ainda em funcionamento, caso todas agissem integralmente em observância das regras?


Não é só o Estado que é excessivamente burocratizado (e é, de facto). Mas, e a quantidade de empresas lideradas por pessoas incompetentes, com trabalhadores sem qualquer formação, sem contabilidade organizada e sem reinvestir outro que não seja o capital para bólides, casas de férias, viagens e execráveis visons?
Sampaio, na sua qualidade de representante máximo do Estado português, mesmo sem poderes relevantes a não ser a «bomba atómica», podia e devia ter intervido mais cedo, usar de toda a influência que tem um Chefe de Estado para dar palmadinhas verbais em toda essa gente. Por ser recorrente o exemplo dos portugueses que fora de Portugal são produtivos, às vezes dá vontade de mandar chamar gente de outros países para tomar conta destes «inimputáveizinhos» que balouçam atónitos neste jardim à beira-mar plantado, perscrutando o vazio, o enervante vazio!!!!

E como trabalham bem holandeses, alemães, ucranianos e outros, nos campos que desprezamos!



Não são as regras que estagnam, empecilham. Nos países que nos habituámos a adular, elas existem e são a base da organização e planeamento de todo um país.

Um poço sem fundo e sem eco

Ainda a respeito das corporações e do «estado de graça» que serve de almofada a Sócrates e respectivo elenco governativo, é de facto possível que as medidas de agravamento contribuam para esse desgaste. A menos que sejam prudentemente acompanhadas de um princípio equivalente ao princípio da igualdade política, o qual decorre justamente da configuração dada pelos direitos civis, políticos e sociais: esse princípio é naturalmente a outra face da igualdade política no plano da cidadania, ou seja, o princípio da igual consignação de deveres.

Talvez assim, este governo «rompa o capote», não obstante algumas medidas perfeitamente injustas! Em particular para os funcionários públicos que de repente se vêm na obrigação de pagar pelos maus dirigentes que têm, assumindo a total responsabilidade que supostamente define os altos dirigentes da amalgama indiferenciada de funcionários desmotivados e desconsiderados (e também aqui se incluem os professores, pelo total desrespeito dos concursos, pese embora subscrever inteiramente as palavras de Miguel Sousa Tavares no Público há um par de meses, acerca dos inúmeros privilégios dessa classe profissional). Falamos de responsabilização, para não falar de índices salariais e privilégios.

E para isso, Sócrates tem que ter uma mão enormíssima e arregaçar mangas, porque vai certamente sujar os ombros devido à profundidade inalcançável do poço de lodo…

Lula da Silva no Brasil não está a ter a vida fácil, no entanto, as reformas inicialmente prometidas ficaram muito aquém das expectativas… O «sindicalista» optou por estar sossegadinho, bem «disfarçadinho de árvore».
Tal como do outro lado do Atlântico, também aqui muitos edifícios são gigantes com pés de barro e com telhados de vidro. E «incompreensivelmente» mantêm-se intocáveis.
O meu receio não é o intenso «cheiro nauseabundo» que se poderá libertar por remexer no lodo acumulado gerações após gerações. Sem nele remexer, biliões de seres humanos são obrigados a com ele conviver em cada segundo das suas vidas.
O meu receio é sim, tudo não passar de uma bela encenação para protelar privilégios momentaneamente acicatados (como aludia Uselesscells).
O meu receio é por outra via, que esses verdadeiros cartéis a que chamam Ordens (também alguns sindicatos e outros «direitos adquiridos») incrementem nova deriva populista e conservadora, no sentido de salvaguardar os seus interesses particulares em detrimento do TODO. É essa visão holista que deve prevalecer, salvaguardando as especificidades mas sem as ampliar desta forma obscena.
Alguns anos passaram desde que Emídio Rangel anunciou a sua receita de culinária para fabricar governantes. Aí temos o resultado com sucessivos governos desastrados, mais preocupados em governar para a «opinião pública» do que para o país. É integralmente isto a que Bernard Manin chama «Democracia do Público» para explicar o novo padrão da democracia representativa. No nosso caso, fomos (somos) confrontados com actores de terceira categoria.

Num outro registo, consideremos aquilo que Lipovetsky atacou por palavras como estas: "A política entrou na era do espectacular, liquidando a consciência rigorista e ideológica em benefício de uma curiosidade dispersa, captada por nada e por tudo. Daí a importância capital de que se revestem os media de massa aos olhos dos políticos; não tendo outro impacto para além do que a informação veicula, a política é obrigada a adoptar o estilo da animação (...)". Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio, Lisboa, Relógio d'Água, 1989, p. 38.
E não é só de política que se trata. É também dessa desafectação que grassa na nossa sociedade civil, esse desinteresse confortável, egoísta e hedonista que apenas dá força aos inimigos da democracia.

Por outro lado, da fama já é difícil que os médicos (por exemplo) se livrem, todavia, mantêm um tal predomínio, legalmente enquadrado, que lhes outorga informalmente poderes só comparáveis aos de um «Príncipe»… A nossa sorte é que alguns são mesmo médicos, tal como outros acreditam mesmo na justiça! Uns estóicos idealistas.

Mas de algo estou convicto (na medida da minha ignorância): apesar de Nietzsche se referir às «convicções como sendo cárceres» (e eu concordar, no que à inflexibilidade intelectual concerne), admito porém que para um projecto individual sejam precisas mais ambições do que convicções. Essas, se me é permitido, gostaria de as reservar à abnegação de alguns em torno das grandes realizações humanas. E nesse campo, não creio que sem convicções, um qualquer alcance a «glória».
Esta é a melhor oportunidade desde o 25 de Abril de 1974, para mudar as coisas, embora também acredite que tal só poderá acontecer se merecer do povo português um especial compromisso.

20 de junho de 2005

Oruele, não podia ter respondido melhor

É com particular satisfação que publico um comentário de um leitor ao post "O Triunfo dos Magistrados, por Oruele". Confesso que a estultícia do Manoelinho faz «mossa» e a prová-lo, a necessidade de adoptar o seu modelo já conhecido de publicação de comentários de leitores. Para além da dica quanto ao tamanho da letra...
Resta-me agradecer a ambos, ao Manoelinho pelos constantes desafios proporcionados por cada visita e a Uselesscells, pelo contributo a uma «interrogação» que havia ficado no ar.

Segue a transcrição parcial do texto.
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(…) “Parece-me que as “corporações” do nosso país se estão a mover, no sentido de impedir qualquer alteração ao seu “status quo”, o que aliás era uma reacção completamente espectável. O que me choca é o total despudor, a embaraçosa tibiez de argumentos, a incestuosa relação com os “media” (aliás a maior e mais poderosa de todas as “corporações”) com que elas pretendem mudar a opinião pública, e provocar o recuo da despudorada ofensiva.
Para já encenam-se manifestações de Funcionários Públicos (40 ou 50 mil pois o PCP não consegui alugar mais autocarros), descontentes com a perda de “direitos adquiridos”, os Professores marcam-se greves para dias de exames, para a “defesa inequívoca dos seus direitos” (esquecendo-se, como é óbvio dos direitos adquiridos pelos alunos – que aliás são a razão da sua existência); Juízes e Promotores pretendem “lançar o caos” nos tribunais (onde são agentes de destaque e obviamente co-responsáveis pelo deplorável estado da Justiça, do qual agora parecem querer alijar todas e quaisquer responsabilidades), dos Médicos e Enfermeiros esperamos movimentações, pois dos Farmacêuticos já vimos o “filme”.
Das outras “corporações” esperamos notícias, pois elas não devem tardar. Não esquecendo, as reacções de determinada Classe Politica, a verdadeira construtora, gestora e protectora de todo o “establishment” corporativo.
Tudo isto era previsível, mas continua a chocar-me, parece-me que o Eng. Sócrates (não fui apoiante da personagem) está a remexer na ferida, com ou sem demagogia, com ou sem habilidade, o que é certo é que está a mexer-lhe, e claro que já se ouve o estertor e o cheiro que começa a chegar-me é nauseabundo (tal é o cheiro do “monstro”), mas temo que seja só o começo.
Será que o “povo” irá ceder à manipulação? Para já o “estado de graça” parece manter-se (vide ultima sondagem). Até quando? Talvez só até ao aumento do IVA…


Uselesscells


19 de junho de 2005

O triunfo dos magistrados, por Oruele

Acabo de ver uma notícia que me deixou verdadeiramente intrigado. Será certamente um erro de redacção, à semelhança das recentes notícias sobre o arrastão. A ser verdade, não faz sentido.

Alguém me explica porque razão se leva areia para a praia? Quero dizer, no que raio é que os magistrados deste país estão a pensar quando chantageiam o governo,
ameaçando levar o caos aos tribunais? O caos?

Santo deus, em qualquer banca de roupa da feira se consegue encontrar mais facilmente o fio à meada do que num Tribunal deste país. Em que estariam os senhores doutores excelentíssimos professores Juizes Alexandre Coelho e António Cluny a pensar quando proferiram tais afirmações? Se calhar era a forma de dizerem que a sua classe profissional está acima da lei!?

Venha demagogia, aos molhos e igual para todos

Populista ou não, a verdade é que a reforma do Estatuto dos Deputados não foi nem tem sido contra-argumentada com o mínimo de validade intelectual e moral. Alguns deputados esperneiam, ganem e estrebucham mas a única coisa que se lhes ocorre são acusações de demagogia. Seja então demagogia. Aos molhos.

Que um indivíduo seja proveniente do sector privado e exista um qualquer mecanismo que o defenda da arbitrariedade quando termine as suas funções representativas, tudo bem.
Agora, por ter cumprido com as suas funções em 1/3 do tempo que o comum dos mortais precisa para se reformar, e ter direito a uma subvenção mensal vitalícia?

Regimes especiais por supostamente cumprir com obrigações cívicas? Ser deputado de uma nação não deveria ser por si só uma honra especial, só acessível a alguns?

Com todas estas revelações relativas aos privilégios políticos que o comum dos mortais só suspeitava mas nem podia acreditar serem possíveis (em particular a possibilidade de acumular pensões públicas com salários públicos), só faltava agora vir a público que a um qualquer deputado proveniente do sector público pudesse ser possível beneficiar de uma licença com vencimento + vencimento de deputado + despesas de representação + subsídio de vestuário + subsídio de alimentação + subsídio de viagem + subsídio de férias + pensão de sangue do gato + senhas da Galp + pensão de reforma por 10 anos de descontos nos bombeiros voluntário + 1 residência oficial em Lisboa e na Quinta do Lago, ou em alternativa, senhas do Sheraton.

Nunca se sabe… Só por quem lá passou e como esses não se descosem, bem podemos ficar à espera…

O Ministério da Saúde é amigo!

Vamos lá esclarecer as coisas. No sector privado, se um indivíduo ganha muito ou pouco, não é da minha conta, conquanto cumpra as suas obrigações fiscais e cívicas. Se tem mérito, deve vê-lo recompensado. Ponto.
Agora, quando no sector público temos conhecimento de coisas como esta, o caso é diametralmente diferente. Estes gestores hospitalares não só se faziam pagar à revelia do enquadramento salarial do sector público, como suportavam despesas pessoais com dinheiros públicos. E não é caso único, sendo sim, mordomias da casa aceites tacitamente...
Em causa está a delapidação dos recursos públicos e muito honestamente, não é admissível que após as devidas averiguações se fique apenas pela devolução pecuniária. O cidadão comum responde judicialmente em circunstâncias similares.
A isto chama o vulgo, apropriação indevida de recursos públicos, despesismo e total desrespeito pelas normas vigentes. Não sou eu, o empregado fabril do Vale do Ave ou o cantoneiro de limpeza que tem que pagar as mordomias pessoais de gente sem escrúpulos que apenas vem contribuir para a péssima imagem da Administração Pública.
- Telefona daqui ó Zé, o Estado paga...

18 de junho de 2005

Água mole em pedra dura...

Passou uma semana sobre os incidentes de Carcavelos e é curioso notar como o número de jovens que varreram a praia (cerca de 5 centenas), sustentado há uma semana nos meios de comunicação social e confirmado pelas autoridades policiais, parece desvanecer-se com o tempo. Sinais dos tempos, diríamos antes...
É que hoje, um pouco surpreendentemente, o jornal Público conseguiu comprimir toda aquela gente num programa bem melhor que o win zip. De 500 para 50. Talvez tenha sido lapso da redacção. Ou talvez não.
Agora, a quantos lapsos de redacção somos nós sujeitos diariamente? Lapsos de redacção ou orientações?
Água mole em pedra dura, tanto bate até que não há problemas sociais em Portugal?
Veio isto a propósito da manifestação convocada por uma tal frente nacional (já há de tudo, até destes mentecaptos com insuficiência mental crónica). Ao que parece, esses tais insurgiram-se contra esses incidentes, muito populares no Brasil há já 10 anos e dão pelo nome de arrastões. Cá, denominam-se incidentes. Muito menos prosaico, à semelhança de Portugal.
Mas se foram apenas 50 os indivíduos que passearam em passo acelerado pela praia de carcavelos, de que se queixam então esses que se manifestaram? No jornal dizia 400, mas também pode ter sido inflaccionado por algum jornalista com doença de parkinson. Se calhar eram aí uns 40, ou menos. Portanto não há razão para pânico.
Água mole em pedra dura, tanto bate até que isto é um paraíso.
E já é!
Mas apesar disso, nunca fiando... Talvez não fosse má ideia que os tipos de bigode ou os gajos de cabelo pintado pedissem asilo humanitário noutro país, não vá alguém manifestar-se contra pêlos a encimar o lábio superior ou tinta no cabelo.

A união desfaz a força

Após um Conselho Europeu onde se discutia o futuro orçamento comunitário (previsivelmente ferido de morte logo à partida), são dignas de registo, en passant, duas ou três notas.
Em primeiro lugar, a ganância impera sobre qualquer sentimento de solidariedade ou mesmo de Europa. Isso mesmo foi demonstrado pelos 5 países que rejeitaram o acordo proposto pela Presidência Europeia. Destes, em particular a Inglaterra, mostrou claramente daquilo que é feito o ser «britânico», idiossincracia de um povo que em nada mudou nos últimos séculos. Afinal, a parte mais conservadora dos Estados Unidos da América tinha que ser originária de alguma parte do mundo...
Em segundo lugar, o enorme exemplo de compromisso, justiça e construção europeia, protagonizado pelos 10 novos membros, ao prescindirem de uma parte dos fundos a que têm legitimamente direito, como forma de salvar o acordo. Estes países colocaram acima das suas verdadeiras necessidades financeiras, a boa convivência europeia e a saúde desta união. Fizeram como é suposto ser feito. Inclino-me perante tamanha demonstração de seriedade.
Por fim, apesar de não terem sido os portugueses os directos causadores deste fracasso, é lamentável o facto de os nossos políticos continuarem a debater os fundos, assim como continuarem receosos porque o acordo rejeitado seria um bom acordo para nós, uma vez que se perdiam somente 15% dos fundos europeus. Só é lamentável porque enquanto nos continuamos a preocupar com o nosso quintal, os novos membros preocuparam-se com a vitalidade da União Europeia. E como nós sabemos os benefícios que poderiam causar nesses países, fundos como os que nós recebemos e eles não receberão.
Ainda assim, esses países demonstraram cabalmente como foram grandes, incomensuravelmente grandes quando comparados com países como Portugal, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Espanha, França, etc.
E é por isso mesmo que, mesmo beneficiando de um terço do que nós beneficiámos, dentro de poucos anos esses países estarão no topo. É da natureza deles...

17 de junho de 2005

Afinal quem é o Estado?




Apesar do Estado português não controlar mais do que 15% do capital da EDP, não deixa de ser interessante registar como as inquietações orçamentais são mesmo e somente assunto do Estado, e portanto, completamente afastadas do âmbito de preocupações dos accionistas privados.

A EDP é uma empresa consolidada e sem concorrentes naturais no território português, gere confortavelmente o monopólio da electricidade. Até aqui tudo bem. Ou não…

Senão vejamos. A fotografia acima (e a que está abaixo), referem-se às boas práticas de comunicação com os clientes que esta empresa tem vindo a desenvolver, assim como muitas outras com resultados extremamente positivos ano após ano. São os incentivos fiscais, são os regimes especiais de contribuição, é a própria legislação que condiciona numa malha muito fina, a emergência de operadores privados concorrentes.

Assim, é crucial compreender que este sucesso se deve em grande medida ao papel do Estado. Que, refira-se, não é ELES (apesar de ser um deles) e dizem-nos que afinal, o Estado somos todos NÓS. Confesso que esta contradição me causa natural prurido.

Sem mais delongas, vamos «directo al grano». Estes 3 cadernos finamente envolvidos por uma capa do mais exótico material plástico, fazem parte, como dissemos, da estratégia de comunicação da EDP, no caso em particular, constituem o Relatório e Contas 2004. São eles, o Caderno de Sustentabilidade, Caderno Financeiro e Caderno Institucional e do Governo da Sociedade.

Cada um tem aproximadamente 130 páginas, ilustradas, com uma tiragem de 2500 exemplares. São 7500 exemplares.

Não querendo ser mais papista que o Papa nem mesquinho, ao ponto de acusar a EDP alegando que se trata de um desperdício injustificável em tempo de vacas magras, não deixará de ser pertinente colocar a seguinte questão.

Quem é afinal o Estado?

Bem sei que isto é uma gota no oceano mas quer-me parecer que por uma questão de princípio e coerência com aquilo que é frequentemente ouvido pelos responsáveis dos grandes grupos nacionais em ataques cerrados ao Estado, seria mais sensato encontrar uma alternativa e não pôr o pé em falso em épocas de grande fragilidade, não só económica como também, social.

Esses 7500 exemplares (caso não tenha sido um best-seller, que tenha obrigado à sua reedição) foram distribuídos pelos principais accionistas e pelos principais clientes. Entre os quais as 308 Câmaras Municipais, Ministérios, etc.

Duvido que entre todos estes clientes, haja um que não tenha acesso à Internet, onde esta informação pode e deve ser publicada. E de facto, está lá. Clicar aqui. E se houverem 20 pessoas que leram os três cadernos, não me resta outra coisa senão aplaudir. Mas entendo que ficam muito bem em qualquer prateleira.

Esta pequena brincadeira que custou uns milhares de contos, multiplicada por outras na mesma empresa e acrescidas a tantas outras em empresas comparticipadas pelo Estado, representa no final, provavelmente, o equivalente ao salário de uma quantidade considerável de pessoas que estão no desemprego sem nada produzir, a não ser depressões; ou o equivalente à diminuição de preços por escalões de consumo, por exemplo, em lares com fracos recursos económicos.

Não são as empresas que vão resolver as contas públicas, mas sem dúvida que lhes cabe a responsabilidade moral de não assobiar para o lado. E nesses termos, o que mais preocupa é a inexistência de um sinal claro que comprometa TODOS, em iguais proporções, em torno de um mesmo objectivo.

Nesse caso, sim, também as empresas podem e devem inequivocamente ajudar a pagar o défice das contas públicas.

EDP

16 de junho de 2005

21% de IVA ou de pobreza extrema?

O Parlamento aprovou a subida em dois pontos percentuais do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). Em 3 anos aumentou 4 valores percentuais.

Apesar das justificações do Governo, esta receita fácil que já provou ser ineficiente com o governo de coligação PSD/CDS-PP. Os efeitos indirectos argumentados pelo Governo não parecem fugir muito do plano teórico, desde logo, discutível no seio da própria classe dos teóricos economistas, isto é, não existe consenso quanto a esta matéria.

Por outro lado, quando se alega que os mais pobres estarão salvaguardados através do saneamento das contas públicas e da sobrevivência da segurança social, o governo parece estar a esquecer uma vez mais que em Portugal «os mais pobres» não são um grupo residual, como o demonstrou um recente estudo do próprio ISSS.

Parece também pretender escamotear o facto de ser a classe média-baixa quem vai pagar o saneamento do défice público. Nada a opor, desde que os que têm aumentado nos últimos anos a percentagem de compra de bens de luxo (carros, imobiliário, etc.) também contribuam. Que custos humanos pode causar o IVA a 21% a quem tem rendimentos mensais para cima de 10 000 ou 30 000€?

Não sei se os nossos políticos têm uma noção aproximada, por exemplo, do estado miserável em que se encontra a cidade onde supostamente trabalham diariamente, nomeadamente ao nível da degradação da condição humana. Confortavelmente instalados nos estofos de pele e com os vidros fumados dos luxuosos «carros de Estado» é naturalmente difícil formar uma ideia. E não obstante, juro que nunca vi tantos jaguares e outros automóveis de luxo como agora.

Aproveito para contar duas histórias. A primeira já aqui a tinha descrito, a segunda é um inédito.

Primeira: Não obstante a miséria que vemos (ou não queremos ver, inclusive em Évora) diante dos nossos olhos, certo dia em reunião com um industrial da hotelaria e com fortes ligações à fundação da Universidade Lusófona, entre os seus irritantes tiques linguísticos que afectavam profundamente a minha concentração, lá me foi confessando entusiasmado que «o ano papão de 2002» de que todos falavam, não o tinha afectado minimamente. Pelo contrário, tinha sido um ano excelente, nas palavras dele. Estava-se a referir à facturação num dos seus hotéis de luxo.

Segunda: Há um par de anos, tive o privilégio de conhecer uma alemã extraordinária, radicada no Sul de Itália há 30 anos, que partilhou comigo a sua primeira experiência em Portugal, a forma como percepcionou em particular, Lisboa. E não foi nada agradável a impressão com que ficou pois não imaginava que numa capital europeia de um país membro da UE (com todos os fundos de coesão), apresentasse tal nível de degradação humana. E não estamos a falar de uma pessoa inexperiente, garanto.

Este é o triste retrato do nosso país, um país profundamente assimétrico do ponto de vista social e económico.

Compreendo e exijo que se tomem medidas férreas mas há algo que ainda não foi compreendido: grande parte do problema está na forma como organizámos o Estado, na forma como não sabemos organizar o nosso próprio trabalho e na representação mental que temos de conceitos como competência, produtividade, relacionamento pessoal. Em relação a este último, seria suposto que a confiança e competência profissional pudessem extravasar o domínio das relações pessoais, da rede de contactos e da paga de favores.

E basta ver como tive a oportunidade de contemplar vezes sem conta, tipos a arrancar com o carro do Estado em segunda ou em apoteótica chiadeira, alegando orgulhosamente que «não é deles, é do Estado». Um pequeno exemplo em como uma grande parte de nós, inclusive alguns funcionários públicos, não sabe peva do que anda aqui a fazer.

Mas é esse o país que temos e é por isso que quem tem capacidade para se fazer ouvir não pode ficar calado!

Não sendo economista (embora neste caso, tanto dê) e confessando a minha total ignorância em matéria de macro-economia (e de economia em gera), só aceitarei esta medida quando me sentir convencido pelos bons resultados. Não chega a vaga presunção de princípios como a boa-fé. E a esse respeito, os resultados não têm sido nada animadores.

Honestamente, nada disto faz sentido se não for feito a pensar na pessoas e com elas. Só assim poderemos transformar este lodo em algo menos viscoso.
Não se trata de ter um Portugal igual aos países desenvolvidos, trata-se tão somente de termos um Portugal que orgulhe quem nele vive, seja português, angolano, ucraniano ou norueguês. E temos mais que condições para satisfazer esse desiderato!

à tout propos (172)




O arrastão na praia de carcavelos ocorrido na semana passada só deu origem a uma queixa. Quem o diz é uma fonte da PSP.

Como se pode ver pela imagem, todos aqueles jovens estavam na altura a fugir da praia por um falso alerta de tsunami.

Esperemos que a única queixa não tenha sido por exemplo, de uma senhora que se sentiu assediada por um grupo de jovens que faziam saltitar entre as suas mãos um frasco de bronzeador solar...

Mas a pérola da notícia é a declaração do Comando da PSP de Lisboa, que nega a organização de um fenómeno deste género, optando pela decisão espontânea de inúmeros grupos de «8 a 10» pessoas. Ora, segundo as minhas contas, seriam precisos entre 40 a 50 grupos a confluir «espontaneamente» para a praia com o intuito de gamar os veraneantes.

É muita fruta!...

Comércio tradicional no Mais Évora III

Na sequência de um texto publicado no Mais Évora, escrito por um leitor descontente com o comércio tradicional, resolvi deixar o seguinte contributo, que aqui se transcreve na íntegra.
Há direitos conquistados que só muito dificilmente são suportados por um comércio tradicional envelhecido. Por isso mesmo será tradicional, em contraposição com o novo, a inovação, a substituição, o descartável.Sou da opinião que podem coexistir. Um e o outro.
E esse exemplo é-nos dado por imensas cidades e capitais europeias (dimensão à qual Lisboa só remotamente pertence), em que o tradicional não só é preservado como é uma importante fileira turística. Bruxelles, Barcelona, Roma, Madrid, Sevilla, Paris, Copenhagen, etc.
Acontece que nós por cá nem isso sabemos aproveitar porque facilmente nos deslumbramos com os neons, as cores, as miúdas a levarem o dia inteiro com música em altos berros enquanto passam o dia a dobrar a roupa que os clientes desarrumam, a comida de plástico, os encontrões e as filas para entrar no parque de estacionamento (e para sair).
Também frequento shoppings e estes dois serão benvindos. No entanto, uma cidade como Évora, fortemente vocacionada para o turismo, não se compadece com uma Região de Turismo a reboque dos acontecimentos e sem criatividade, nem com uma Associação Comercial do Distrito de Évora cujo dinamismo está ao nível de uma «venda» em qualquer freguesia rural. Só operações de cosmética, mas nisso, nós portugueses somos pródigos...
Não havendo condições para um merceeiro competir com uma grande superficie (apesar de normalmente apresentar melhores produtos), porque não associar-se com outros para conseguir preços mais competitivos, inovar na oferta e na imagem? Porque não evoluir para um tipo de serviço que leve os produtos a casa dos clientes, numa pequena carrinha de distribuição com uma taxa de 1€ sobre o valor das compras (ou outro mecanismo qualquer)? Porque não pedir ao filho para fazer um site e começar a vender cabazes de produtos biológicos (mais caros mas também cada vez mais procurados), ou brloques ou outra coisa qualquer pela net?Isto são ideias para estratégias, que talvez caiba à ACDE desenvolver e não a mim, que jeito pró negócio tenho muito pouco. Parece-me.
O comércio tradicional não tem que ser aquilo que se nos é apresentado e na forma como é. Os eborenses é que o fazem ser assim, e nesse caso, somos todos nós e não apenas os caquécticos e apáticos proprietários que «nunca estão abertos».Portanto, os shoppings são bem vindos e o comércio tradicional tem que ser aproveitado, começando pela sua adaptação às novas exigências e requalificação de alguns locais que provavelmente terão mais futuro dentro de grandes centros comerciais.
Em diversos pontos do mundo percebeu-se isso e com franqueza, não creio que o «progresso» passe necessariamente por locais de consumo de massa. Devíamos era começar a pensar em produzir...
É fundamental que nós, eborenses, alentejanos e portugueses compreendamos as dinâmicas de interdependência associadas aos processos da globalização e sobretudo, que olhemos para lá dos horizontes da planície.
E isso não é feito com marretas embrutecidos a servir «mines» na Praça do Geraldo, orientados por perfeitos idiotas amadores, cuja única vocação seria dar marretadas na cabeça à semelhança de dois yanomami em litigio.Esse não é certamente o meu modelo de comércio tradicional.

Comércio tradicional no Mais Évora II

Tendo dado início à discussão sobre a exequibilidade e sobrevivência do comércio tradicional, cada vez mais pressionado pelas novas exigências de mercado e consumo (e perante a possibilidade de virem a ser construídos em Évora dois centros comerciais de grande dimensão), o Mais Évora, blog de referência regional, teve a amabilidade de publicar um comentário que lá deixei.
Fica desde já o desafio para quem se interessar por estas e outras questões que são regularmente desenvolvidas no Mais Évora.

15 de junho de 2005

à tout propos (171)

Epá, que bem fala francês o Comissário Europeu José Manuel D. Barroso!
...tão bem como o «alto» comissário das Nações Unidas para os refugiados, António Gutierres, fala inglês.

Como não há duas sem três, que lingua falará bem o nosso carismático Santana Lopes? É que já lá vão 4 meses desde as eleições e como a nossa tendência é mandar fora aqueles que são reconhecidos ao mais alto nível internacional... certamente que Lopes falará bem uma lingua qualquer, pelo menos uma que seja...

Uma estranha forma de vida

Afinal, algum do discernimento perdido no seio do CDS-PP regressou pelas palavras circunstanciais de Nuno Melo, deputado popular, relativamente ao papel de Álvaro Cunhal enquanto líder partidário antes e depois da revolução de Abril.
Afinal de contas, não é assim tão dificil demonstrar alguma sensatez. Afinal, quem é o verdadeiro presidente do CDS-PP?
É que Ribeiro e Castro, à semelhança de Santana Lopes, também acordou Presidente de um partido. Mas como essa gente é toda amiga, estudou toda no Liceu Camões, no Colégio Moderno ou na Faculdade de Direito e passava férias com a familia no mesmo local, talvez seja uma «estranha forma de vida»...

O bosque harmonioso

Como bons portugueses que somos, sempre muito ciosos com o que é nosso e com o que é de todos, temos também uma característica singular, aliás, duas: inteligência, que nos permite fazer retrospecções sobre factos passados e assim rectificar eventuais erros cometidos por outra pessoa (outra pessoa, sempre...); e sensatez, virtude imprescindível no extraordinário desenvolvimento deste país e na sequente harmonia e equilíbrio entre as regiões e entre os iguais cidadãos (de jure e de facto).
É este o nosso singelo jardim «à beira-mar-plantado», uma obra divina que os céus ofereceram aos homens, entre os quais somos particularmente honrados; e felizes, neste Éden de sonho.
São essas qualidades de um povo, o nosso volkgeist, que inspiraram Augusto Abelaira em obras de exaltação (ao ser humano português), como O Único Animal Que? ou O Bosque Harmonioso. Aconselha-se vivamente a sua leitura e quiçá, seguir algumas sugestões.
Como somos tudo isso e muito mais ainda, incomensuravelmente mais, metaempiricamente mais e absolutamente mais, ora aqui vai mais uma suave machadada (entre centenas delas, desde Sesimbra, passando pela lingua de Troia, pelo areal que começa na Comporta e se extende até às maravilhosas falésias da Zambujeira-do-Mar), perpetrada e desejada por pseudo-autarcas que foram aparentemente eleitos por «patos bravos», em representação dos interesses de cidadãos inconscientes e apáticos. «Venha de lá o progresso, porra», parecem querer dizer as dunas, as falésias, os frágeis ecossistemas, as águas ainda cristalinas, as camarinhas e os peixes, tendo recebido boas notícias do Algarve, de Lisboa e de todo o litoral centro-norte, estão muito entusiasmados com a ideia.
Por falar em peixes, onde é que ficou o famoso Padre António Vieira que conseguia miraculosamente levar secas monumentais para as águas?
A toda essa gente, dever-se-ia poder oferecer desde já uma caixinha de piolhos e uma a saca a abarrotar de pastilhas elásticas. Para simplesmente, não pensarem...

Comércio tradicional no Mais Évora

Sobre as pressões sofridas pelo comércio tradicional em Évora, pela previsível exportação do modelo massificado dos shoppings, uma vez mais o Mais Évora cumpre a sua função cívica, promovendo o debate em torno desta tensão que se adivinha.
Nós por aqui (eu e o meu sócio que trabalha para me sustentar), embora algo esgotados pelo dia extenuante, não hesitámos em responder ao repto com uma simples e despretensiosa observação.
Cumprimentos ao Mais Évora.

13 de junho de 2005

O longo caminho da democracia

Na hora do adeus a Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e ao poeta Eugénio de Andrade - desde já, se me é permitido endereço as mais sinceras condolências ao mundo - e enquanto as televisões andam ocupadas a saber quantas pessoas já passaram (e quem são), vão passar pelo local onde se encontra Eugénio de Andrade em câmara ardente, lá temos também que gramar o tempo de antena dos eternos papalvos marialvas «para não lhes chamar outra coisa qualquer»...
Desta vez foi o Presidente (ou será monarca?) do CDS-PP, Ribeiro e Castro, que quando instado a pronunciar-se sobre a morte de Álvaro Cunhal, apelidou de «serôdia» a identificação de alguns sectores da sociedade portuguesa com a doutrina perfilhada por Cunhal, referindo-se aos militantes do PCP e aos ideais comunistas, com os quais somos livres de concordar ou discordar.
É que nesse campo, nós, os democratas não podemos ser, senão peremptórios: nenhum partido em Portugal trabalhou tão arduamente na luta contra o fascismo e na defesa da democracia como o PCP. Mesmo com o PREC, ainda hoje subsistem dúvidas acerca do consenso no interior do próprio PCP sobre a implementação de um regime «socialista» e é do conhecimento público que não derivámos para uma guerra civil porque houve um mínimo de bom-senso e respeito pelo povo e por aquilo que é o interesse nacional. E essa foi uma demonstração cabal e extraordinária de democracia e apego pelos valores democráticos da liberdade e da igualdade política no respeito pelas vontades individuais. O PCP e os sectores esquerdistas do MFA aceitaram e souberam respeitar a contra-revolução da sociedade civil, apoiada pelos sectores mais moderados das forças armadas. ponto.
Portanto só os ignorantes, os incultos e os ressaibados podem negar o papel do PCP no desgaste do salazarismo e mesmo na consolidação da democracia, enquanto partido na oposição, assumindo perfeitamente a sua missão na construção de um Portugal livre, um pouco mais justo e também um pouco mais desenvolvido. Muito provavelmente porque houve o 25 de Novembro, e depois disso veio Mário Soares, Alfredo Nobre da Costa, Carlos Mota Pinto, Maria de Lurdes Pintassilgo, Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Cavaco Silva. Daí para cá a coisa não tem sido muito saudável...
Ou seja, este indivíduo a quem não se lhe reconhecem quaisquer méritos ou acções relevantes a não ser o seguidismo saloio a Vale e Azevedo nos tempos do Benfica, beneficiando daquilo por que Cunhal e outros como ele lutaram, transcede aquilo que é a legítima liberdade de expressão, para entrar numa contradição impensável: não lidando de forma natural com a democracia, invoca esse conceito com o qual figadalmente convive, para atacar esse seguidismo serôdio, a seu ver, anti-democrático. Olha quem...
É claro que isto só se encontra em indivíduos com uma deficiente formação histórica, política e cívica para quem os manuais doutrinários do 5º ano da escola comercial, passados a pente fino por Marcello Caetano, são a obra literária do milénio.
Na sua concepção mais simples, generalista e consensual, a democracia é o governo do povo. Etimologicamente é uma palavra composta por aglutinação e que resulta dos vocábulos gregos demos + kratos, que significam grosso modo, povo e governo. Daqui deriva posteriormente a representatividade e a participação como legitimação da vontade popular*.
Terá Ribeiro e Castro alguma vez reflectido, mesmo que remotamente, sobre quem representa? É que Álvaro Cunhal, não só sabia quem representava, como sabia para onde ia e agia em conformidade e coerência com os seus pressupostos ideológicos. E o mais importante de tudo é que Cunhal poderá ter muitas vezes entrado em conflito com oponentes, estigmatizado comunistas vira-casacas, mas nunca dei conta de que menosprezasse o povo!
A democracia em Portugal tem realmente um longo caminho a percorrer...
* Também se pode consultar material deste em livros de filosofia política, ciência política e sociologia (são normalmente vendidos em livrarias) e até em revistas, jornais e na internet (aquela que se vai de ratinho na mão e se vê a edição online do «Burladero»).

Faleceu Álvaro Cunhal



Álvaro Cunhal (1913-2005)

Um Homem notável e histórico que, afortunadamente nasceu português. Também a ele devemos a Liberdade, valor relativo da existência humana cuja conquista só é possível pela acção de homens deste calibre. E cuja manutenção depende de cada um de nós, embora por vezes tenhamos tendência para o esquecer.
«Até amanhã camaradas»


12 de junho de 2005

20 anos de adesão europeia

Já passaram vinte anos sobre a adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia. Há 20 anos atrás, o ainda grisalho Mário Soares, conjuntamente com Felipe Gonzalez, conduziam os seus respectivos países à galinha dos ovos de ouro. Entre nós, a regra comportamental seguiu o instinto selvagem de um vulgar lobo faminto que num ápice devora a dita galinha, de modo a não ter que a partilhar com outro em igual condição. Assim foi com o esbanjamento e apropriação que se seguiram nos anos posteriores. O Estado, isto é, o povo no seu melhor...
No nosso caso, a história da formiga e da barata não pegou. Exactamente porque a barata jamais passou por dificuldades. Isso são coisas de formigas. Esta, continuou a aguentar invernos gradualmente mais rigorosos, labutando arduamente ao sol e à chuva, enquanto a barata vai de férias no inverno para as caraíbas.
Passados 20 anos, muita coisa mudou efectivamente. Mas foi em Espanha e na Irlanda que mais transformações se verificaram, sobretudo porque a barata se tornou um pouco formiga e a formiga, com o tempo, vai ganhando algum do savoir faire da barata.
Curiosamente, se há 30 anos o gonçalvismo tivesse vingado e o 25 de Novembro nunca tivesse acontecido, é muito possível que fizessemos parte do pacote de países que aderiram no ano transacto à União Europeia. No limite estaríamos a tratar das coisas com a Roménia, mais remotamente com a Turquia. Tão longe como a Albania não creio que fosse possível... Afinal, tinhamos o Eusébio e a Amália...
Todavia, caso assim tivesse sido o nosso destino, com quem poderiam aprender com os erros de Portugal, países como a Polónia, Eslovénia, República Checa, Eslováquia, etc.?
Afinal de contas, sempre foram 20 anos positivos... pelo menos exemplares...

Ricos perdoam os pobres

Uma medida a aplaudir, embora ainda sejam desconhecidos os contornos em que os países mais ricos tencionam perdoar a dívida aos países mais pobres.
Caso seja um perdão a troco do favorecimento de empresas multinacionais e da sua disseminação nesses países, nesse caso o modelo está esgotado e perfeitamente enquadrado naquilo que estes países sempre fizeram, em particular através do FMI e do BM.
Já é tempo de cancelar dívidas que o não são verdadeiramente, justamente devido ao estádio parasitário avançado em que se encontram as sociedades industriais avançadas. Se há alguém que está em dívida, somos nós.

11 de junho de 2005

O último que feche a porta

Como se não bastasse levarmos com mais paulada na cabeça, ainda somos obrigados a levar com os tradicionais bodes expiatórios da política, neste caso para justificar uma série de medidas de cariz populista, embora necessárias para o saneamento pretendido.
Como se o PS não tivesse conhecimento da verdadeira situação financeira do país antes das eleições, como se Vítor Constâncio não fosse um destacado militante socialista, tudo se passa como se toda a gente neste país continuasse a padecer da mesma cegueira que tão jeito deu a Salazar, bem como às suas bem alimentadas elites. Casaca virada e muitas continuam a sê-lo, agora sob o signo da «democracia»...
Essa é mais pura lógica utilitarista e messiânica das «elites político-financeiras» portuguesas, que continuam a gerir de forma mais ou menos oficial, mais ou menos encapotadas, os destinos deste país. Os cidadãos não passam de peões, tal como os negros não passavam de servos, incapazes de se autodeterminarem. Nós, os que aqui andamos, somos todos ininputáveis e é exactamente no nosso interesse que actuam essas «elites».
Os privilégios que agora são abolidos, não são nada, comparados com as profundas assimetrias desenvolvidas pelo próprio Estado, ao se permitir conviver com cidadãos incumpridores do ponto de vista fiscal, prestando-lhes serviços com o dinheiro das minhas contribuições; ao conceder chorudas benesses a empresas cuja lógica é apenas a do lucro e por isso mesmo deslocalizam para qualquer parte do mundo sem pudor e de forma desprezível; ao investir milhões em nichos de empresas sem processos de avaliação do investimento, nem responsabilização de ninguém pela aplicação dos fundos, como sucedeu no Vale do Ave, e sucederá novamente porque ali as taxas de desemprego são o dobro da média nacional (entretanto é ali que estão concentradas grande parte das grandes fortunas portuguesas); ao permitir que em razão do interesse neo-liberal, se aprofunde a cisão entre interior e litoral, entre mundo rural e urbano e se acentuem as bolsas de pobreza e exclusão social em particular no centro megalómano de Portugal. A este respeito, o exemplo de ontem é elucidativo. Não basta reforçar a segurança policial. O que sucedeu ontem em Carcavelos é apenas um sinal de muitos outros que estão por vir, justamente porque neste país não se enfrentam os problemas de frente.
E a este respeito também, poderíamos ficar aqui interminavelmente a discorrer sobre múltiplos e infindáveis exemplos, cujo impacto é tão grande que medidas como as que têm vindo a ser anunciadas são perfeitamente inócuas. E no entanto são benvindas, com a excepção do agravamento do IVA em mais 2%: é que, mesmo compreendendo a política de deflação seguida com o aumento de impostos associado à diminuição do défice público, que se reflectirá em teoria, na descida dos preços e na diminuição de importações, a verdade é que serão as familias com menores rendimentos as que vão sofrer esse agravamento na pele. E aí, quero ver se o Estado português está preparado para incluir no Rendimento Social de Inserção, quase metade das familias portuguesas. Para não falar nos factores de produção portugueses, arrastados pela diminuição de consumo.
Actualmente, a ida a Espanha é paga pela diferença nos preços de combustível (para quem está até 100 Km), portanto... o último que feche a porta, dirão os nossos excelsos governantes quando vierem a ser nomeados para um cargo de direcção numa qualquer empresa pública, a auferirem chorudas «ajudas de custo»...
PS: a propósito, já andei de avião algumas vezes, pelo que posso afirmar com alguma naturalidade que já me acostumei ao meio, e reuni algumas experiências que me habilitam a falar com propriedade de aviões, cargas, raios x, comissários de bordo e revistas das companhias aéreas. Isso quer dizer que, caso fosse militante do PSD ou do PS, me habilitaria a ser Presidente da TAP? Isso seria óptimo...

10 de junho de 2005

10 de Junho

... e há razões para comemorar seja o que for?
Como sempre, as comemorações do 10 de Junho servem sempre para enaltecer a pátria, os feitos dos nossos antepassados e uma vez por outra, servem também para o nosso Presidente da República mandar umas farpas aqui e ali em discursos pomposos e inflamados sem qualquer utilidade prática.
Assim, algo que raramente é abordado são os inúmeros desaires nacionais, as incontáveis más decisões políticas que arrastaram o povo para guerras, para a fome, para o obscurantismo, etc.
É como os nossos manuais escolares da disciplina de História, que sempre nos ensinaram/doutrinaram no bom caminho cristão, ao enfatizarem a reconquista do território pelos cruzados, dividindo o mundo ao meio, tal como fez Bush: nós e os outros. Nada mais errado e se há algo que nos devemos orgulhar é de todo o legado cultural e arquitectónico que os arábes nos deixaram em 4oo anos.
Assim, creio que temos mais razões para reflectir do que para comemorar. E a redução do defice público também pode começar por aí, pelo terminar de festinhas e comemorações e recepções bacocas a que nos damos tanto para mostrar que somos um país moderno, desenvolvido, organizado, blá, blá, blá. Não há maior reflexo de um provincianismo latente do que esta necessidade de afirmação com a realização dos Euro's e das Expo's, cujos resultados práticos estão à vista de todos. Infelizmente, na altura delas ninguém neste país tem a ousadia de pensar dois anos à frente nem de considerar patético todas essas demonstrações espúrias e inconsequentes que nem os ingleses querem ver...
Vá, vão lá engalanar-se com as fardinhas sebosas n.º 1, com os fraques e as medalhas, a laca no cabelo e os longos vestidos cheios de lantejoulas, seguranças privados, luxuosos carros de serviço, enquanto aqui os «intocáveis» pagam essa merda.
PS: segundo o Expresso, mais de 10 000 portugueses têm aplicações financeiras superiores a meio milhão de euros. Isto não vai lá com toquezinhos e pessoalmente, não reconheço qualquer tipo de direito divino...

Refreshment «aéreo»...

A recente polémica causada por uma previsível onda de calor a anteceder uma encalorada silly season e pela inexistência de meios aéreos no combate aos fogos, vem uma vez mais mostrar o retrato de um país mal preparado e mal organizado. Sobretudo, um país mal dirigido por sucessivas «elites» que supostamente representam um povo de tanga, mais bem diria, esfarrapado.
No caso em concreto, é certo que os meios aéreos para combate de incêndios só estavam previstos para o início de Julho. Essa decisão havia sido tomada pelo anterior governo e aparentemente com a complacência do actual, pois teve cerca de 3 meses para rectificar essa situação, caso não concordasse com ela e tivesse sido de facto mais previdente. As desculpas do ministro António Costa eram claramente dispensáveis, até pelo sacudir de responsabilidades para aspectos burocráticos inerentes às competências das autoridades aeronáuticas polaca e portuguesa.
O que resulta incompreensível é que, perante situações de relativa excepcionalidade como a onda de calor dos últimos dias, não esteja previamente delineada uma correspondência excepcional em termos de medidas de resposta operacional.
Não existem planos de contingência para enfrentar essa excepcionalidade que, de resto, era mais previsível do que cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Não existindo planos de contingência verdadeiramente aplicáveis, também parece não haver suficiente flexibilidade e destreza mental para «desenrascar» com helicópteros actualmente disponíveis nos três ramos das Forças Armadas. Bastaria adaptar os «baldes-reservatórios» que no caso de não existirem ou serem insuficientes, imediatamente recorreríamos aos planos de contingência das Lojas da China e em três dias seríamos inundados com baldes made in china.
Na verdade, temos planos de contingência militares vocacionados para potenciais crises resultantes da ameaça à soberania ou de questões humanitárias. Parece óbvio que incêndios de enormes dimensões a colocar em risco de vida centenas de pessoas, não são questões que justifiquem a entrada de militares ou os custos inerentes ao voo de um aparelho militar. A vida das pessoas não o justifica. Isso é claro.
Por outro lado, só agora é que o INAG se lembrou de fazer um plano de contingência para racionalizar o consumo de água doméstica, industrial e agrícola, com os anunciados transvazes e condicionamentos no acesso à água. Uma vez mais, é incompreensível que as instituições não sejam elas próprias inteligentes e pelo menos aprendam com os próprios relatórios que produziram e com os que recebem dos organismos internacionais. E não há muito tempo estava numas jornadas de reflexão organizadas pela Protecção Civil de Évora, justamente a ser recordado pelo responsável do INAG para a gravíssima situação decorrida em 1993, 1994 e que havia de culminar com a severa seca de 1995. Muitos hectares ardidos depois e inúmeras populações anualmente privadas de água, eis que finalmente surge o INAG, a anunciar a elaboração de um plano de contingência.
Do alto de uma descomunal sobranceria, o INAG não só se mantém passivo como repreende as autoridades locais que manifestam a sua preocupação junto do governo, pelo uso abusivo de águas públicas para regadio. Neste país tudo é possível e por este caso se verifica como a lógica da paz podre e das alianças feudais se sobrepõe à lógica da competência e do brio.

9 de junho de 2005

Orçamento 2005, a Bandalheira total

Texto recolhido na Internet

«Em relação aos postais anteriores, relativos às dotações orçamentais dos gabinetes dos ministros, quando soube desta noticia, fiquei chocado, mas com uma dúvida:200 milhões de euros, é muito dinheiro, e não consigo imaginar quanto, sem possuir um termo de comparação. Tentei por isso comparar estes gastos com outros de carácter similar.
O primeiro que escolhi, e que me deu a primeira luz sobre o assunto, foi a dotação orçamental da presidência da republica para o ano de 2005. Esta dotação que cobre os gastos de Sampaio, o seu staff, a manutenção do Palácio de Belém, as viagens e os vestidos de Maria José Rita é de 13.325 milhões de euros.
O valor atribuído à presidência da república para 2005, pode-se considerar “espartano”, quando comparado com as dotações orçamentais dos ministros da república dos Açores e Madeira – mais de 200 milhões de euros para cada um, e com a dotação orçamental do gabinete do ministro da defesa – 159 milhões de euros, dotação essa, que o sucessor de Paulo Portas, presumo que tenha herdado questionar.

Mas esta comparação não me deixou satisfeito, precisava de arranjar mais um termo de comparação. Tentei saber quanto custa Chirac ao estado Francês, mas a busca foi infrutífera. A mesma busca porém, direccionou-me para o relatório de contas da Real Casa de Windsor, chefiada por Sua Majestade Fidelíssima Isabel II. Fiquei logo a pensar que a minha depressão ia desaparecer, pois ao ler os gastos de Isabel II, pensei (Lírico) que iria passar a considerar os nossos ministros da república da Madeira e Açores, como uns pobres pedintes de pé descalço
Da leitura do relatório de contas reais – Royal Public Finances 2003-2004, fiquei a saber que: a família real britânica possui 5 tipos de rendimentos:

- Lista Civil* – Salários dos funcionários reais – 303 funcionários (2004)- Subvenções do Estado (Grants-in-aid)* – Destinados à manutenção dos palácios reais, salários dos respectivos funcionários - 111 funcionários (2004) - e viagens de estado -- Privy Purse – Rendimentos das propriedades particulares da Casa de Windsor- Riqueza pessoal e outros rendimentos- Despesas pagas directamente pelo estado*

* - Fundos públicos
Quando li os valores envolvidos o queixo caiu ao chão, eram verdadeiramente inacreditáveis, mas não no sentido em que estava a pensar:Em 2004, os gastos com dinheiros públicos foram os seguintes (Milhões de Libras):Lista Civil – 9.953Subvenções do Estado – 21.645Despesas pagas pelo Estado – 4.872Total de fundos públicos – 36.470 (53.993 milhões de €)

NOTAS: As despesas das subvenções do estado destinam-se aos palácios reais ocupados, que são:- Palácio de Buckingham;- Palácio de St. James;- Clarence House;- Marlborough House;- Palácio de Kesington;- Palácio de Hampton Court;- Castelo de Windsor, seu parque e edifícios nele existentes.
Não acreditando no que estava a ver, pensei que tinha lido mal os números, faltam de certeza dois ou três zeros. Não! Afinal os meus olhos não me tinham enganado, lido e relido o relatório, os valores estão todos expressos em Milhões de Libras, aplicando a taxa de câmbio do dia de ontem (£1 – 1.4804945 €) verifiquei que toda a Monarquia Britânica custa ao erário público do Reino Unido uns módicos 53.993, ou seja 54 milhões de euros.

Resumindo, aquilo que o Reino Unido gasta com toda a família real, chega apenas para "alimentar" um gabinete do ministro da república, das nossas regiões autónomas, por um mísero trimestre e quatro meses do Gabinete do ministro da defesa.

Gostaria de saber como é que os Srs. Ministros da república dos Açores e da Madeira, justificam gastos anuais 4 vezes superiores aos da Sua Majestade a Rainha Isabel II. É certo que viajam muito de avião, é certo que moram em palácios, mas estes palácios estão para Buckingham, tal como uma barraca da Cova da Moura está para os duplexes da Torre de São Gabriel. E a Rainha de Inglaterra tem mais 6 palácios. A presidência da república representa apenas um quarto de rainha de Inglaterra.

Como cidadão, exijo uma explicação! Uma explicação por parte de quem elaborou este orçamento, por parte de quem obrigou à sua aprovação e por parte de quem tem, neste momento, a obrigação de o aplicar. Se esta explicação não for dada, o acto de fugir aos impostos não pode mais, ser considerado um crime, deve ser considerado um dever patriótico
Nem 10 milhões de explicações poderiam justificar tamanha fraude!