25 de junho de 2005
As palavras
24 de junho de 2005
Redondo no caminho certo
Este prelúdio é devido a uma comunicação da Secção Concelhia do PS/Redondo, hoje publicada no Diário do Sul. Como o caro leitor deve estar recordado, em Agosto de 2004 foi comunicada a decisão unilateral pela ARS, de fechar o Centro de Saúde de Redondo às 21h00, diminuindo o SAP (serviço de atendimento permanente) em 3 horas. Acontece que essas 3 horas justificaram as conhecidas manifestações dos munícipes, assim como as actuais vigílias da Comissão de Utentes de Redondo. Assim também como a desproporcional intervenção do Corpo de Intervenção da GNR...
Ora, na tal comunicação, a Concelhia do PS/Redondo vem reafirmar a indignação que tal decisão causou no seio do PS/Redondo. Vem também manifestar junto dos munícipes o seu total apoio à luta pela reposição de serviços, no seu entender inteiramente justos e justificáveis.
Para isso, na comunicação é debitado um conjunto de medidas teóricas e líricas do ponto de vista da exequibilidade, todavia, em matéria de campanhas eleitorais, a César o que é de César…
Ainda assim, creio que exagerei nos adjectivos usados no parágrafo anterior, quando comparados com a última frase do terceiro parágrafo: “…a construção do novo Centro de Saúde de Redondo e/ou, e por que não, do Hospital Intermunicipal da Serra d’Ossa”.
E com isto, o PS/Redondo arrumou os oponentes no concurso, por KO ao primeiro round.
Esta é uma ideia verdadeiramente excepcional. E são variadas as razões dessa excepcionalidade. Não obstante, há uma ou duas circunstâncias que nos deixam algumas dúvidas quanto à localização:
Dos 9 aglomerados do concelho, a Aldeia da Serra é provavelmente o 6º com mais habitantes. A relevância desta questão tem que ver unicamente com o facto de serem poucos eleitores. Seria muito mais avisado, anunciar o hospital para a vila de Redondo.
Os acessos são vagamente transitáveis pela estrada nacional 381. Seria aconselhável incluir na proposta, algumas obras de beneficiação. Eventualmente uma via rápida entre Redondo e Estremoz. Um assunto a estudar. De qualquer modo, sem heliporto seria certamente inviável, devido às novas exigências, à globalização, ao buraco do ozono e às espécies protegidas da costa de Sesimbra.
Sendo uma zona com alguma expressão turística [recordamos que lá está implantado o famoso Hotel Convento de S. Paulo], não sei se será de todo prudente a construção de um hospital na área envolvente. Aí é que a coisa fica um pouco pior. Depois os clientes querem dormir descansados e andam os helicópteros para diante e para trás. E eventualmente, pessoas pobres a pedir.
Encontro ainda um 4º problema, relacionado com o equilíbrio regional. Com um hospital, poderia verificar-se uma deriva massiva de recursos humanos altamente qualificados (pessoal médico, técnicos e enfermeiros) que a prazo são susceptíveis de secar as vilas e cidades vizinhas. Assim, é bem possível que recrudesçam velhas rivalidades e alguma animosidade, afectando a boa paz social.
Mas é este o espírito. Pessoas que estão aqui para trabalhar com abnegação, pelos direitos dos mais fracos. O que é preciso é ideias!
PS: Ouvi dizer, mas pode não passar de rumores, que um dos candidatos rivais já iniciou as negociações com vista à construção de um aeroporto internacional nas Vinhas, caso vença as eleições. E isso é que é mau. A confirmar-se, mesmo que perdesse as eleições, esse candidato deveria manter a promessa mostrando que a população está acima das suas próprias ambições políticas. Mas estou convencido que vai reconsiderar e no fim, a população irá dispor do Hospital e do Aeroporto!
23 de junho de 2005
A galinha da vizinha põe mais crises do que a minha
Contudo, evitando continuar a deriva que nos desvia teimosamente do assunto inicial [a concentração é a esta hora já demasiado fugaz e instável] em torno do PEC e do défice excessivo, no seguimento de algumas preocupações manifestadas acerca da competência das nossas instituições e governantes (ver em particular o último parágrafo de Missão Impossível?!), não deixa de ser curioso constatar a extensão da relutância da própria Comissão Europeia com respeito ao nosso plano de saneamento do défice público.
Devo confessar que não pude conter o riso, num misto de indignação e de ridículo, quando li no Público de hoje que a Comissão já estaria acostumada ao natural empolamento nacional das contas apresentadas. Por isso, caracterizava como bastante "optimistas" as previsões nacionais, em perfeita alusão eufemística de uma realidade bastante mais sombria… Nesse caso, também eles digeriram a coisa com candura. Talvez tenha sido esta a mais-valia que prefigura uma contrapartida em sucumbir às tentações pessoais de um Primeiro-ministro em acelerado passo de corrida em direcção à glória, à sua exclusiva glória… e para nosso bem-estar, nosso excusivo e egoísta bem-estar...
Das duas uma: ou são os políticos portugueses que não têm credibilidade perante as instituições europeias, ou são os nossos técnicos, essa tropa de assessores que preparam os dossiers para os políticos. Ou ambos.
Então, alguém me explica como é que podemos ser credíveis se os dossiers que preparamos não são credíveis, gerando reacções de autêntica e indisfárçavel descrença entre os nossos parceiros? Neste momento, Portugal será para quem possui o mínimo conhecimento sobre a nossa realidade, uma espécie de Câmara de Setubal estritamente controlada (diria mesmo governada) pelo Tribunal de Contas. A cada dia que passa, a imagem de Portugal vai-se desvanecendo e a maquilhagem, transpirada pelo suor que a borra. Já vai sendo difícil explicar algumas coisas. Já começa a ser desagradável conviver com um país em que os índices de desenvolvimento humano são razoavelmente precários, quando foram feitos esforços também pelos outros, em particular pelos alemães que não só «tiveram que dar mesada aos inúmeros irmãos até aos 30», como também se viram a braços com o enorme esforço da integração da Ex-RDA.
«Contar com o ovo» que ainda não foi posto pela galinha, é perfeitamente ajustável às previsões do governo, postas em causa pela Comissão Europeia porque como essa gente não é parva de todo, não migrou dos campos de algodão para Bruxelas nem os «esquemas» são para eles última moda de paris.
Mas a crise que vivemos e que talvez não colapse a nossa economia como sucedeu em 2001 na Argentina [porque ainda nos protege das intempéries o enorme guarda-chuva da UE], é de tal forma geral que nem a racionalidade burocrática e legal, na sua vertente mais formalista do ponto de vista processual, parece funcionar com eficácia e neutralidade.
Perante a actual greve dos professores, num mesmo dia, vemos os tribunais Administrativo e Fiscal de Ponta Delgada e de Lisboa, pronunciarem-se opostamente sobre a legalidade dos serviços mínimos impostos pelo Ministério da Educação para assegurar os exames nacionais. Perante tal insólito (bem sabemos que o carácter abstracto e universal pretendido pelo legislador pode suscitar diversas leituras), como se pode exigir bom senso a professores, sindicatos e ministério, se entre os próprios magistrados as divergências são evidentes? Trinta anos de democracia não fazem jurisprudências, ou ainda não chegou o tal programa informático para cruzar a base de dados da jurisprudência? Não se trata de um termo da decisão, mas do próprio sentido da decisão. Do alto da minha ignorância, parece-me que este tipo de casos emperra os tribunais, aumenta os tempos médios de cada processo porque simplesmente se tem que se adiar o desfecho pelo Supremo ou pelo Constitucional.
É claro que, nesta altura, as desconfianças da politização de decisões judiciais já começam a extravasar as ubíquas paredes do Tribunal Constitucional, transferindo-se para tribunais criminais, laborais, administrativos, etc. As novelas a que assistimos diariamente são disso um perfeito exemplo com processos que se arrastam no tempo, autarcas que fogem avisados para o Brasil, prisões preventivas por tempo indeterminado, julgamentos forjados nos media, violação do segredo de justiça ou magistrados que ameaçam o normal funcionamento das instituições quando se sentem acossados, reagindo com a natural prepotência que os caracteriza.
É bom que reflictamos nisso a sério, sem ilusões evasivas nem entretenimentos estratégicos: não somos todos bons, alguns de nós somos medíocres; os feitos portugueses do passado são louváveis mas relativos e enquadráveis contextualmente; o Euro foi interessante mas continuamos com os mesmos problemas e só desperta paixão entre o Madail, o resto é manipulação emocional dos media; somos homens deste tempo e como tal, pelas nossas acções não é o Vasco da Gama, o Afonso Henriques ou a Padeira de Aljubarrota que respondem; somos o que somos e temos que aprender a viver com isso, sabendo que é para os nossos netos tudo aquilo que de bom ou de mau deixarmos.
21 de junho de 2005
No especial estatuto dos militares é que não...
Passemos pois ao suco.
1. A propósito da proposta do governo para a idade de reforma (40 anos de serviço como os outros, e 65 anos de idade) e da eventual extinção dessa grande garantia que é a Reserva Militar, o distinto Sr. Coronel Tasso de Figueiredo não esconde a sua preocupação, porque está em causa o próprio estatuto da condição militar. «Manda vir que esta pago eu!» Actualmente, um militar pode passar à reserva com 50 anos!
2. Muito melhor que a primeira, diz respeito à acusação movida pelo Sr. Tenente-Coronel Alpedrinha Pires (Presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas) à incompetência de políticos mal preparados: "temos sido governados por gestores medíocres" (no Público de 21.06.05).
Aqui, o homem tem razão! Não só medíocres, como indisponíveis para encarar com humildade qualquer processo de aprendizagem que os possa diminuir em carteiras de escola, pequenas demais para acolher tão destacadas eminências: «A mim, não me escapa nada, já em criança era assim, muito esperto!».
A título de curiosidade, o CEFA (Centro de Estudos e Formação Autárquica) promoveu aqui há uns anos um curso de formação geral para eleitos. O enorme sucesso da iniciativa determinou o fecho. Aliás, em toda a Administração Pública, são os eleitos quem sabe mais, por isso, são os que menos se sujeitam a formação. Coerente.
É por isso que a gestão interna dos quartéis é exemplar... O controlo sobre as compras, os combustíveis, as mordomias nas messes de oficiais (come-se melhor do que num restaurante de 5 estrelas, e adivinhem quem paga?) os gloriosos serviços prestados à comunidade, etc. Só por quem lá passou...
Só para se ter uma ideia, há 10 anos atrás, o Quartel-General da Região Militar Sul (em Évora, no Largo dos Castelos), parecia a Quinta da Malagueira, autêntica colónia de mandarins... Se caísse uma chuvada à séria, tanto uma como o outro decerto naufragariam... Presumo que continue igual. E não se pense que era caso único.
E também é da má preparação dos políticos, o aproveitamento abusivo dos sub-sistemas de saúde? «Dá pá'mãe, pó'vizinho, pó'amigo e pó'cão». Quer dizer então que essa fraude é um ardil utilizado pelos políticos para denegrir a classe? Tá bem, tá...
3. Incomensuravelmente melhor que as duas anteriores, segue-se esta safira exótica que cortesmente o Sr. Coronel fez questão de nos mostrar, ainda a respeito das baixas médicas. Argumenta o excelso militar que a profissão de militar acarreta riscos vários e um desgaste rápido, tipo futebolista...
Quanto a isto, só tenho uma questão a pôr, tão legítima quanto a do Luís Delgado (abaixo): se é assim tão mau, porque não vão todos para as obras «alombar» à chuva e ao sol, ao frio e ao calor, afirmando assim a sua condição especial de servente nas olimpíadas do reumatismo precoce?
à tout propos (174)
à tout propos (173)
Missão impossível?!

Attempting the Impossible, René Magritte, 1928
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E lançou críticas directas, fundadas nos inúmeros diagnósticos que referiu e que afinal alguém com relativo poder teve o trabalho de ler. Só peca por tardio, este ligeiro aroma a magistratura de influência. Por que razão só agora, a pouco mais de 6 meses das eleições presidenciais e com dois mandatos cumpridos?
De qualquer forma, não poupou a banca ao criticar a lógica do investimento fácil que a orienta (os créditos auto, habitação, etc.), em detrimento de uma atitude mais prospectiva e dinamizadora que incentive as empresas e ajude aquelas que estão realmente interessadas em inovar.
Rompendo com o discurso gasto e a cheirar a mofo que tem na Administração Pública o principal bode expiatório, Sampaio não enjeitou a oportunidade de responsabilizar também algum sector privado pela inércia e falta de competência, desmistificando assim essa tentação intelectualmente diminuída em que se cai muito facilmente em Portugal, ao afirmar: "não há iniciativa privada suficiente em Portugal [porque as empresas ainda estão] demasiado encostadas ao Estado".
Só queria ver como seriam as empresas em Portugal, caso cumprissem integralmente com as suas obrigações como acusam frequentemente autarcas, gestores públicos ou ministros de não cumprir. Quantas estariam ainda em funcionamento, caso todas agissem integralmente em observância das regras?
Sampaio, na sua qualidade de representante máximo do Estado português, mesmo sem poderes relevantes a não ser a «bomba atómica», podia e devia ter intervido mais cedo, usar de toda a influência que tem um Chefe de Estado para dar palmadinhas verbais em toda essa gente. Por ser recorrente o exemplo dos portugueses que fora de Portugal são produtivos, às vezes dá vontade de mandar chamar gente de outros países para tomar conta destes «inimputáveizinhos» que balouçam atónitos neste jardim à beira-mar plantado, perscrutando o vazio, o enervante vazio!!!!
E como trabalham bem holandeses, alemães, ucranianos e outros, nos campos que desprezamos!
Um poço sem fundo e sem eco
Talvez assim, este governo «rompa o capote», não obstante algumas medidas perfeitamente injustas! Em particular para os funcionários públicos que de repente se vêm na obrigação de pagar pelos maus dirigentes que têm, assumindo a total responsabilidade que supostamente define os altos dirigentes da amalgama indiferenciada de funcionários desmotivados e desconsiderados (e também aqui se incluem os professores, pelo total desrespeito dos concursos, pese embora subscrever inteiramente as palavras de Miguel Sousa Tavares no Público há um par de meses, acerca dos inúmeros privilégios dessa classe profissional). Falamos de responsabilização, para não falar de índices salariais e privilégios.
E para isso, Sócrates tem que ter uma mão enormíssima e arregaçar mangas, porque vai certamente sujar os ombros devido à profundidade inalcançável do poço de lodo…
Lula da Silva no Brasil não está a ter a vida fácil, no entanto, as reformas inicialmente prometidas ficaram muito aquém das expectativas… O «sindicalista» optou por estar sossegadinho, bem «disfarçadinho de árvore».
Tal como do outro lado do Atlântico, também aqui muitos edifícios são gigantes com pés de barro e com telhados de vidro. E «incompreensivelmente» mantêm-se intocáveis.
Num outro registo, consideremos aquilo que Lipovetsky atacou por palavras como estas: "A política entrou na era do espectacular, liquidando a consciência rigorista e ideológica em benefício de uma curiosidade dispersa, captada por nada e por tudo. Daí a importância capital de que se revestem os media de massa aos olhos dos políticos; não tendo outro impacto para além do que a informação veicula, a política é obrigada a adoptar o estilo da animação (...)". Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio, Lisboa, Relógio d'Água, 1989, p. 38.
Por outro lado, da fama já é difícil que os médicos (por exemplo) se livrem, todavia, mantêm um tal predomínio, legalmente enquadrado, que lhes outorga informalmente poderes só comparáveis aos de um «Príncipe»… A nossa sorte é que alguns são mesmo médicos, tal como outros acreditam mesmo na justiça! Uns estóicos idealistas.
Mas de algo estou convicto (na medida da minha ignorância): apesar de Nietzsche se referir às «convicções como sendo cárceres» (e eu concordar, no que à inflexibilidade intelectual concerne), admito porém que para um projecto individual sejam precisas mais ambições do que convicções. Essas, se me é permitido, gostaria de as reservar à abnegação de alguns em torno das grandes realizações humanas. E nesse campo, não creio que sem convicções, um qualquer alcance a «glória».
20 de junho de 2005
Oruele, não podia ter respondido melhor
Segue a transcrição parcial do texto.
(…) “Parece-me que as “corporações” do nosso país se estão a mover, no sentido de impedir qualquer alteração ao seu “status quo”, o que aliás era uma reacção completamente espectável. O que me choca é o total despudor, a embaraçosa tibiez de argumentos, a incestuosa relação com os “media” (aliás a maior e mais poderosa de todas as “corporações”) com que elas pretendem mudar a opinião pública, e provocar o recuo da despudorada ofensiva.
Uselesscells
19 de junho de 2005
O triunfo dos magistrados, por Oruele
Alguém me explica porque razão se leva areia para a praia? Quero dizer, no que raio é que os magistrados deste país estão a pensar quando chantageiam o governo, ameaçando levar o caos aos tribunais? O caos?
Santo deus, em qualquer banca de roupa da feira se consegue encontrar mais facilmente o fio à meada do que num Tribunal deste país. Em que estariam os senhores doutores excelentíssimos professores Juizes Alexandre Coelho e António Cluny a pensar quando proferiram tais afirmações? Se calhar era a forma de dizerem que a sua classe profissional está acima da lei!?
Venha demagogia, aos molhos e igual para todos
Que um indivíduo seja proveniente do sector privado e exista um qualquer mecanismo que o defenda da arbitrariedade quando termine as suas funções representativas, tudo bem.
Agora, por ter cumprido com as suas funções em 1/3 do tempo que o comum dos mortais precisa para se reformar, e ter direito a uma subvenção mensal vitalícia?
Regimes especiais por supostamente cumprir com obrigações cívicas? Ser deputado de uma nação não deveria ser por si só uma honra especial, só acessível a alguns?
Com todas estas revelações relativas aos privilégios políticos que o comum dos mortais só suspeitava mas nem podia acreditar serem possíveis (em particular a possibilidade de acumular pensões públicas com salários públicos), só faltava agora vir a público que a um qualquer deputado proveniente do sector público pudesse ser possível beneficiar de uma licença com vencimento + vencimento de deputado + despesas de representação + subsídio de vestuário + subsídio de alimentação + subsídio de viagem + subsídio de férias + pensão de sangue do gato + senhas da Galp + pensão de reforma por 10 anos de descontos nos bombeiros voluntário + 1 residência oficial em Lisboa e na Quinta do Lago, ou em alternativa, senhas do Sheraton.
Nunca se sabe… Só por quem lá passou e como esses não se descosem, bem podemos ficar à espera…
O Ministério da Saúde é amigo!
18 de junho de 2005
Água mole em pedra dura...
A união desfaz a força
17 de junho de 2005
Afinal quem é o Estado?

A EDP é uma empresa consolidada e sem concorrentes naturais no território português, gere confortavelmente o monopólio da electricidade. Até aqui tudo bem. Ou não…
Senão vejamos. A fotografia acima (e a que está abaixo), referem-se às boas práticas de comunicação com os clientes que esta empresa tem vindo a desenvolver, assim como muitas outras com resultados extremamente positivos ano após ano. São os incentivos fiscais, são os regimes especiais de contribuição, é a própria legislação que condiciona numa malha muito fina, a emergência de operadores privados concorrentes.
Assim, é crucial compreender que este sucesso se deve em grande medida ao papel do Estado. Que, refira-se, não é ELES (apesar de ser um deles) e dizem-nos que afinal, o Estado somos todos NÓS. Confesso que esta contradição me causa natural prurido.
Sem mais delongas, vamos «directo al grano». Estes 3 cadernos finamente envolvidos por uma capa do mais exótico material plástico, fazem parte, como dissemos, da estratégia de comunicação da EDP, no caso em particular, constituem o Relatório e Contas 2004. São eles, o Caderno de Sustentabilidade, Caderno Financeiro e Caderno Institucional e do Governo da Sociedade.
Cada um tem aproximadamente 130 páginas, ilustradas, com uma tiragem de 2500 exemplares. São 7500 exemplares.
Não querendo ser mais papista que o Papa nem mesquinho, ao ponto de acusar a EDP alegando que se trata de um desperdício injustificável em tempo de vacas magras, não deixará de ser pertinente colocar a seguinte questão.
Quem é afinal o Estado?
Bem sei que isto é uma gota no oceano mas quer-me parecer que por uma questão de princípio e coerência com aquilo que é frequentemente ouvido pelos responsáveis dos grandes grupos nacionais em ataques cerrados ao Estado, seria mais sensato encontrar uma alternativa e não pôr o pé em falso em épocas de grande fragilidade, não só económica como também, social.
Esses 7500 exemplares (caso não tenha sido um best-seller, que tenha obrigado à sua reedição) foram distribuídos pelos principais accionistas e pelos principais clientes. Entre os quais as 308 Câmaras Municipais, Ministérios, etc.
Duvido que entre todos estes clientes, haja um que não tenha acesso à Internet, onde esta informação pode e deve ser publicada. E de facto, está lá. Clicar aqui. E se houverem 20 pessoas que leram os três cadernos, não me resta outra coisa senão aplaudir. Mas entendo que ficam muito bem em qualquer prateleira.
Esta pequena brincadeira que custou uns milhares de contos, multiplicada por outras na mesma empresa e acrescidas a tantas outras em empresas comparticipadas pelo Estado, representa no final, provavelmente, o equivalente ao salário de uma quantidade considerável de pessoas que estão no desemprego sem nada produzir, a não ser depressões; ou o equivalente à diminuição de preços por escalões de consumo, por exemplo, em lares com fracos recursos económicos.
Não são as empresas que vão resolver as contas públicas, mas sem dúvida que lhes cabe a responsabilidade moral de não assobiar para o lado. E nesses termos, o que mais preocupa é a inexistência de um sinal claro que comprometa TODOS, em iguais proporções, em torno de um mesmo objectivo.
Nesse caso, sim, também as empresas podem e devem inequivocamente ajudar a pagar o défice das contas públicas.
16 de junho de 2005
21% de IVA ou de pobreza extrema?
Apesar das justificações do Governo, esta receita fácil que já provou ser ineficiente com o governo de coligação PSD/CDS-PP. Os efeitos indirectos argumentados pelo Governo não parecem fugir muito do plano teórico, desde logo, discutível no seio da própria classe dos teóricos economistas, isto é, não existe consenso quanto a esta matéria.
Por outro lado, quando se alega que os mais pobres estarão salvaguardados através do saneamento das contas públicas e da sobrevivência da segurança social, o governo parece estar a esquecer uma vez mais que em Portugal «os mais pobres» não são um grupo residual, como o demonstrou um recente estudo do próprio ISSS.
Parece também pretender escamotear o facto de ser a classe média-baixa quem vai pagar o saneamento do défice público. Nada a opor, desde que os que têm aumentado nos últimos anos a percentagem de compra de bens de luxo (carros, imobiliário, etc.) também contribuam. Que custos humanos pode causar o IVA a 21% a quem tem rendimentos mensais para cima de 10 000 ou 30 000€?
Não sei se os nossos políticos têm uma noção aproximada, por exemplo, do estado miserável em que se encontra a cidade onde supostamente trabalham diariamente, nomeadamente ao nível da degradação da condição humana. Confortavelmente instalados nos estofos de pele e com os vidros fumados dos luxuosos «carros de Estado» é naturalmente difícil formar uma ideia. E não obstante, juro que nunca vi tantos jaguares e outros automóveis de luxo como agora.
Aproveito para contar duas histórias. A primeira já aqui a tinha descrito, a segunda é um inédito.
Primeira: Não obstante a miséria que vemos (ou não queremos ver, inclusive em Évora) diante dos nossos olhos, certo dia em reunião com um industrial da hotelaria e com fortes ligações à fundação da Universidade Lusófona, entre os seus irritantes tiques linguísticos que afectavam profundamente a minha concentração, lá me foi confessando entusiasmado que «o ano papão de 2002» de que todos falavam, não o tinha afectado minimamente. Pelo contrário, tinha sido um ano excelente, nas palavras dele. Estava-se a referir à facturação num dos seus hotéis de luxo.
Segunda: Há um par de anos, tive o privilégio de conhecer uma alemã extraordinária, radicada no Sul de Itália há 30 anos, que partilhou comigo a sua primeira experiência em Portugal, a forma como percepcionou em particular, Lisboa. E não foi nada agradável a impressão com que ficou pois não imaginava que numa capital europeia de um país membro da UE (com todos os fundos de coesão), apresentasse tal nível de degradação humana. E não estamos a falar de uma pessoa inexperiente, garanto.
Este é o triste retrato do nosso país, um país profundamente assimétrico do ponto de vista social e económico.
Compreendo e exijo que se tomem medidas férreas mas há algo que ainda não foi compreendido: grande parte do problema está na forma como organizámos o Estado, na forma como não sabemos organizar o nosso próprio trabalho e na representação mental que temos de conceitos como competência, produtividade, relacionamento pessoal. Em relação a este último, seria suposto que a confiança e competência profissional pudessem extravasar o domínio das relações pessoais, da rede de contactos e da paga de favores.
E basta ver como tive a oportunidade de contemplar vezes sem conta, tipos a arrancar com o carro do Estado em segunda ou em apoteótica chiadeira, alegando orgulhosamente que «não é deles, é do Estado». Um pequeno exemplo em como uma grande parte de nós, inclusive alguns funcionários públicos, não sabe peva do que anda aqui a fazer.
Mas é esse o país que temos e é por isso que quem tem capacidade para se fazer ouvir não pode ficar calado!
Não sendo economista (embora neste caso, tanto dê) e confessando a minha total ignorância em matéria de macro-economia (e de economia em gera), só aceitarei esta medida quando me sentir convencido pelos bons resultados. Não chega a vaga presunção de princípios como a boa-fé. E a esse respeito, os resultados não têm sido nada animadores.
Honestamente, nada disto faz sentido se não for feito a pensar na pessoas e com elas. Só assim poderemos transformar este lodo em algo menos viscoso.
à tout propos (172)

O arrastão na praia de carcavelos ocorrido na semana passada só deu origem a uma queixa. Quem o diz é uma fonte da PSP.
Como se pode ver pela imagem, todos aqueles jovens estavam na altura a fugir da praia por um falso alerta de tsunami.
Esperemos que a única queixa não tenha sido por exemplo, de uma senhora que se sentiu assediada por um grupo de jovens que faziam saltitar entre as suas mãos um frasco de bronzeador solar...
Mas a pérola da notícia é a declaração do Comando da PSP de Lisboa, que nega a organização de um fenómeno deste género, optando pela decisão espontânea de inúmeros grupos de «8 a 10» pessoas. Ora, segundo as minhas contas, seriam precisos entre 40 a 50 grupos a confluir «espontaneamente» para a praia com o intuito de gamar os veraneantes.
É muita fruta!...
Comércio tradicional no Mais Évora III
Comércio tradicional no Mais Évora II
15 de junho de 2005
à tout propos (171)
Uma estranha forma de vida
O bosque harmonioso
Comércio tradicional no Mais Évora
13 de junho de 2005
O longo caminho da democracia
Faleceu Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal (1913-2005)
12 de junho de 2005
20 anos de adesão europeia
Ricos perdoam os pobres
11 de junho de 2005
O último que feche a porta
10 de junho de 2005
10 de Junho
Refreshment «aéreo»...
9 de junho de 2005
Orçamento 2005, a Bandalheira total
«Em relação aos postais anteriores, relativos às dotações orçamentais dos gabinetes dos ministros, quando soube desta noticia, fiquei chocado, mas com uma dúvida:200 milhões de euros, é muito dinheiro, e não consigo imaginar quanto, sem possuir um termo de comparação. Tentei por isso comparar estes gastos com outros de carácter similar.
Mas esta comparação não me deixou satisfeito, precisava de arranjar mais um termo de comparação. Tentei saber quanto custa Chirac ao estado Francês, mas a busca foi infrutífera. A mesma busca porém, direccionou-me para o relatório de contas da Real Casa de Windsor, chefiada por Sua Majestade Fidelíssima Isabel II. Fiquei logo a pensar que a minha depressão ia desaparecer, pois ao ler os gastos de Isabel II, pensei (Lírico) que iria passar a considerar os nossos ministros da república da Madeira e Açores, como uns pobres pedintes de pé descalço
Da leitura do relatório de contas reais – Royal Public Finances 2003-2004, fiquei a saber que: a família real britânica possui 5 tipos de rendimentos:
- Lista Civil* – Salários dos funcionários reais – 303 funcionários (2004)- Subvenções do Estado (Grants-in-aid)* – Destinados à manutenção dos palácios reais, salários dos respectivos funcionários - 111 funcionários (2004) - e viagens de estado -- Privy Purse – Rendimentos das propriedades particulares da Casa de Windsor- Riqueza pessoal e outros rendimentos- Despesas pagas directamente pelo estado*
* - Fundos públicos
Quando li os valores envolvidos o queixo caiu ao chão, eram verdadeiramente inacreditáveis, mas não no sentido em que estava a pensar:Em 2004, os gastos com dinheiros públicos foram os seguintes (Milhões de Libras):Lista Civil – 9.953Subvenções do Estado – 21.645Despesas pagas pelo Estado – 4.872Total de fundos públicos – 36.470 (53.993 milhões de €)
NOTAS: As despesas das subvenções do estado destinam-se aos palácios reais ocupados, que são:- Palácio de Buckingham;- Palácio de St. James;- Clarence House;- Marlborough House;- Palácio de Kesington;- Palácio de Hampton Court;- Castelo de Windsor, seu parque e edifícios nele existentes.
Não acreditando no que estava a ver, pensei que tinha lido mal os números, faltam de certeza dois ou três zeros. Não! Afinal os meus olhos não me tinham enganado, lido e relido o relatório, os valores estão todos expressos em Milhões de Libras, aplicando a taxa de câmbio do dia de ontem (£1 – 1.4804945 €) verifiquei que toda a Monarquia Britânica custa ao erário público do Reino Unido uns módicos 53.993, ou seja 54 milhões de euros.
Resumindo, aquilo que o Reino Unido gasta com toda a família real, chega apenas para "alimentar" um gabinete do ministro da república, das nossas regiões autónomas, por um mísero trimestre e quatro meses do Gabinete do ministro da defesa.
Gostaria de saber como é que os Srs. Ministros da república dos Açores e da Madeira, justificam gastos anuais 4 vezes superiores aos da Sua Majestade a Rainha Isabel II. É certo que viajam muito de avião, é certo que moram em palácios, mas estes palácios estão para Buckingham, tal como uma barraca da Cova da Moura está para os duplexes da Torre de São Gabriel. E a Rainha de Inglaterra tem mais 6 palácios. A presidência da república representa apenas um quarto de rainha de Inglaterra.
Como cidadão, exijo uma explicação! Uma explicação por parte de quem elaborou este orçamento, por parte de quem obrigou à sua aprovação e por parte de quem tem, neste momento, a obrigação de o aplicar. Se esta explicação não for dada, o acto de fugir aos impostos não pode mais, ser considerado um crime, deve ser considerado um dever patriótico.»

