18 de março de 2005

Lacuna tecnológica

Ironicamente, a medida estratégica de um choque tecnológico deu lugar a um choque da tecnologia. Foi essa a justificação do governo para a demora da entrega do programa de governo no Parlamento.

E pronto, foi dada a desculpa, fiquemos por aqui e pela malfadada ironia.

Nem a propósito, é também contra a desculpa balseira e desresponsabilização que o governo deve actuar: verifica-se um erro, quanto muito uma desculpa forjada ou o tradicional escorrer de água de sucessivos capotes e, por fim, a redenção, seguramente «ultrapassada» numa semana com o tradicional «errar é humano»; será por fim, nostalgicamente contada numa alegre noite de consoada aos filhos, sobrinhos e netos. Já vi este filme vezes sem conta.

Um programa de governo não é um documento qualquer, não se trata de um simples oficio ou de uma newsletter. E não é que a falha seja irreparável ou com danos directos na vida das pessoas (como a colocação dos professores). Mas a competência das pessoas também se comprova pela capacidade de previsão e nesse campo, os responsáveis pelo envio revelaram parcas virtudes. E apenas pelo seguinte: a rede pode não comportar o excessivo peso da informação, podem suceder quebras de rede e o servidor ir abaixo. E neste particular, o governo não pode cometer erros, é a sua imagem de marca.

Isto faz lembrar aqueles trabalhos de alunos universitários, que não contando com a típica avaria da impressora ou do computador bloqueado, vêem os derradeiros minutos do limite de entrega do trabalho, transformados numa azáfama inconsequente e pouco sóbria. Mas o professor aceita a desculpa e a coisa passa. Mas são alunos, convém não esquecer. Aprendizes.

No governo não. É gente madura, experiente, avisada e rigorosa…

Em suma, três dias antes, já o programa de governo deveria estar imprimido, copiado, salvo em 30 CD-ROM’s e preparado para entregar em mão às forças políticas com assento parlamentar. Portanto, não aceito a desculpa.

Mas justiça seja feita ao programa do governo: também por estas é que se exige um choque tecnológico que traga eficácia aos nossos sistemas de informação e comunicação. Desde que não se ponham com ideias dissimuladas mas convergentes com ideias criticadas num passado não muito distante (e.g. central de comunicação sob controlo do Estado).

17 de março de 2005

à tout propos (151)

A entrevista terminou agora.

à tout propos (150)

Neste momento, a SIC Notícias está a entrevistar o médico do Sporting (Ferreira qualquer coisa) porque este terá sido «injustamente» afastado da equipa principal. Já lá vão três minutos de entrevista.

Isto é brilhante. Não há mais nada de digno de realce na actualidade portuguesa. Vivemos bem, o mundo está bem de saúde. Por isso, entrevistam-se médicos de equipas de futebol.

A entrevista continua

15 de março de 2005

à tout propos (149)

A justa reposição, no entender dos antigos combatentes.

De finura em finura

O PCP bem pode começar a fazer as malas no Redondo.
Ardilosamente, tal como a eleição do Secretário-Geral (condicionada pelo Comité Central e que já estava preparada há um ano antes do comunicado de Carvalhas), também agora o PCP «aguentou» o anúncio de uma decisão, consolidada desde o congresso de Novembro, para finalmente retirar a confiança política a Alfredo Barroso.
Com mais esta encenação, foram capitalizados alguns votos nas legislativas. À custa de artimanhas que não conseguem disfarçar uma imagem gradualmente corroída por fragilidades estruturais e incoerências histórico-doutrinárias. Dá vontade de dizer que ali, foi enfim alcançado o fim da história. A dialéctica? Há muito que foi para a gaveta...

em de-talhe

Santana Lopes prolonga o seu martírio... e o dos lisboetas. Ao menos que desta vez esconda os buracos e pontos negros que vai abrindo na cidade, com os habituais cartazes de propaganda pessoal.

14 de março de 2005

A metamorfose de Freitas

Variados são os aspectos de interesse que resultaram da ida de José Sócrates a Belém no passado dia 4, com o propósito de apresentar o seu elenco governativo ao Presidente da República e ao país. Nada de novo, apenas um procedimento habitual perfeitamente enquadrado no processo de formação de um novo governo.
Assume especial relevo a reabilitação de alguns políticos com experiência governativa, mesclada com a inclusão de sangue novo, assim como a curiosidade de os ministérios serem equitativamente divididos por militantes e independentes.

Porém, de todos esses factos e por força das circunstâncias em que ocorreu, há um que se reveste de anunciada relevância: a nomeação de Diogo Freitas do Amaral para Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Muito para além de um «prémio» pela recente e declarada apologia ao PS durante a última campanha eleitoral, a nomeação de Freitas do Amaral é sobretudo uma aposta na qualidade e na experiência, no rigor e na competência.

Podemos presumir que, em primeiro lugar, procura representar no plano externo, a imagem de um governo que se exige credível, competente e empenhado em restaurar a confiança dos portugueses e nos portugueses, consolidando as contas públicas, qualificando a população, melhorando os índices de produtividade e competitividade. De resto, convém alertar, a estratégia de um «choque tecnológico», o relançamento da economia e o recuo significativo do desemprego não são possíveis sem a captação de investimento externo.
Em segundo lugar, essa imagem ambiciona também ser a de um governo coeso na sua pluralidade, descomplexado e empenhado em gerar consensos em torno das grandes questões nacionais, independentemente da confortável maioria absoluta de 121 deputados que o suporta no Parlamento e lhe dá toda a legitimidade política e simbólica que faltou há bem pouco tempo ao XVI Governo Constitucional.

Perante a nova missão em concreto, é incontestável o imenso capital simbólico e empírico de que goza internacionalmente Freitas do Amaral. Este sólido capital vem-lhe tão-só da forma séria e rigorosa por que sempre pautou a sua actuação política, em particular nos cargos que assumiu como Presidente do CDS, Ministro dos Negócios Estrangeiros (1980), Ministro da Defesa Nacional, Vice Primeiro-Ministro (1980-82), Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (1981-83) ou mais recentemente, como Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas (1995-96).

Quanto à aparente deriva ideológica que terá protagonizado, há um aspecto crucial que não pode ser escamoteado: após 42 anos de um regime autoritário de direita, não havia nos anos sequentes à revolução de Abril, espaço ideológico à direita no espectro político-partidário português. O CDS de 1975 (Partido do Centro Democrático Social) surge claramente como um partido do centro e isso é visível nos princípios orientadores do partido. Aliás, todos os outros eram de esquerda e isso ainda hoje confunde os sociais-democratas europeus.

Sadiamente para a democracia portuguesa, o tempo apaziguou a memória e actualmente podemos afirmar com poucas reservas que o universo político-partidário português recobre as diversas sensibilidades ideológicas. E essa é uma benéfica conquista de Abril, sem a qual, nenhuma democracia tem condições para ser consolidada.
Talvez Freitas do Amaral tenha apenas permanecido fiel a um modelo de pensamento, valores e intervenção política, não se revendo na direita conservadora e para alguns, populista, em que derivou o partido liderado por Monteiro e Portas. Daí o gradual e anunciado afastamento de Freitas do Amaral em relação ao partido que fundou.
Terá sido isso que a liderança do CDS-PP não compreendeu quando, de forma algo intempestiva, decidiu «despromover» Freitas do Amaral, remetendo a sua fotografia para a sede do PS.

Por outro lado, a sua polémica aparição em manifestações falaciosamente conotadas com a esquerda radical (e.g. manifestação de oposição à invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas), revela tão-somente a sua congruência pessoal com os valores democratas e humanistas por que se norteia – num exercício activo de cidadania e para além das clivagens entre esquerda e direita – e com as resoluções emanadas da ONU, entretanto violadas arbitrariamente pelos EUA.

Por isso, mais do que «anti-Bush» ou «Anti-EUA», Freitas do Amaral é inequivocamente um defensor dos valores da democracia e da convivência decente entre os povos, à luz do direito internacional. E também isso não podia deixar de ser certamente considerado por Sócrates, no momento da sua decisão.

A comprometedora renovação no Redondo


Já se adivinhava há muito, mesmo depois da aromática operação de marketing operada pelo PCP nas últimas legislativas. Nos telhados de vidro destas coisas, acontece a retirada da confiança política a Alfredo Barroso (Presidente da Câmara Municipal de Redondo). Já que falamos de água, uma gota de água a transbordar um copo cheio?

Independentemente das suas razões (lá as terá), o Comité Central arrisca 
perder mais uma câmara no Alentejo, sendo certo que as lógicas de fidelização local não podem ser ignoradas (com Barroso, saiu a concelhia em peso).
 
Apesar do charme de Jerónimo, convém não esquecer que a subida de dois deputados nas últimas legislativas se deve também ao desaire alheio e à dinâmica socialista: de 2002 para 2005, o PCP subiu apenas 0,6%, beneficiando claramente na conversão proporcional de votos em mandatos.
No distrito de Évora, por exemplo, Abílio Fernandes é eleito com os votos dos concelhos limítrofes, beneficiando claramente da punição do eleitorado ao PSD e do eleitorado conquistado há 30 anos... Por isso, ainda em Évora, a CDU «cresceu» 422 votos no distrito inteiro. Portanto, falamos de vitórias relativas.

Caso Alfredo Barroso, venha a formar uma lista independente ou concorra com o apoio tácito de outro partido (como é espera, em particular no primeiro caso), o PCP põe em risco todo o concelho do Redondo.

Não se percebe.

12 de março de 2005

Tomada de posse do XVII Governo Constitucional

Hoje pelas 11h30 teve lugar no Palácio da Ajuda, a cerimónia de tomada de posse do novo governo. E se o Primeiro-Ministro empossado salientou que «o maior desafio é estar à altura da maioria absoluta», ninguém melhor que o povo português para ver essa fasquia ser subida ao nível das expectativas que lhe foram induzidas pela deterioração económica e pela recente campanha eleitoral. E o povo mostrou inequivocamente qual a sua convicção, respondendo com o aumento do score participativo nas legislativas (65%), ao conceder a primeira maioria absoluta ao PS com 45% dos votos e sem esvaziar a esquerda, que registou subidas espantosas, em particular as protagonizadas pelo BE.

Esta demonstração popular é seguramente concebida num quadro de particular inquietação colectiva, que foi emergindo de uma crise que deixou há muito de ser estritamente enquadrável nas tendências da economia globalizada. A crise é essencialmente portuguesa! Nessa exacta medida, o caminho do XVII governo é espinhoso sendo a natureza do compromisso extraordinariamente exigente, mesmo para quem possua o Joker da maioria absoluta.


E talvez um primeiro desafio, intimamente ligado com a afirmação de José Sócrates, se prenda com a durabilidade do governo, ou seja, no paradigma em que vivemos actualmente, não é razoável assegurar estabilidade económica sem estabilidade política. Vamos para o 5º Governo em 10 anos.

Contudo, para enfrentar os desafios que se lhe colocam, o novo governo deve ser capaz de definir vectores estratégicos que permitam concretizar o seu modelo de desenvolvimento. Mais do que simples apostas eleitoralistas, têm que reflectir uma visão estratégica que resulte num apport estruturante para o país. E essas parecem ser cada vez mais claras. Falamos evidentemente do desenvolvimento sustentável, em que as energias alternativas ocupam um lugar de relevo como forma de combater a crónica dependência energética. E falamos também da aposta (tardia) nas tecnologias de ponta e na mão-de-obra qualificada, que fixe investimento externo atraído pela competitividade e excelência da qualidade, e não pela mão-de-obra barata. Essa não pode continuar a ser a estratégia de Portugal. Energia, educação e tecnologia.

Na verdade, o que ficou da «paixão pela educação» de Guterres ou do «choque fiscal» de Durão? Em bom rigor, há na nossa história governativa recente, marcos que balizam acontecimentos, como a entrada na CEE, o lançamento de obras públicas, a Expo 98 ou o Euro 2004, sem que daí tivesse resultado um investimento estruturante com consequências transversais a todos os sectores da sociedade. Basta olhar para o que «fica» de apostas exemplarmente sólidas como a da Irlanda – atracção de investimento externo a par da aposta na formação – ou da Finlândia – aposta na tecnologia de ponta, da qual as telecomunicações são o expoente máximo.

Com certeza que isso não é possível com reformas sucessivas na educação, ao sabor das mundividências de cada um dos incontáveis ministros. Qualquer reforma na educação não pode ser dissociada do incremento da qualidade e da transição coordenada entre os diversos níveis de ensino. Mas para isso há que acabar com os vícios das academias, e responsabilizar alunos e professores. Não é possível continuar com as altíssimas taxas de iliteracia que atingem inclusive alunos do ensino superior. Por outro lado, a competitividade não se compadece com um país de doutores e engenheiros mal preparados nuns casos, desfasados das reais necessidades do país, noutros. E nada disso se faz sem investigação séria, apoiada pelo Estado e progressivamente disseminada pelo sector privado.

Por outro lado, um país com fracos recursos como Portugal não se pode dar ao luxo de fomentar uma economia paralela que não contribui mas é parte na redistribuição. Nenhum governo teve coragem para isso. E basta recordar o polémico afastamento do malogrado Sousa Franco em 1999. Há, neste país, demasiadas pessoas que reivindicam sem qualquer legitimidade e uma das tarefas de Sócrates será justamente legitimar as reivindicações de todos os portugueses sem excepção.

De outro modo, é um facto incontestável o excessivo peso da máquina da administração pública e o que representa em encargos para o país. Não só deve emagrecer como passar pela redefinição do modelo burocrático, assente no tipo ideal de racionalidade legal-autoritário. Este modelo é datado e foi construído com base em outros alicerces. O mundo mudou, as necessidades e exigências das pessoas mudaram, desafiando a capacidade de intervenção e regulação do Estado.

Tal como o Estado deve ver o seu peso na sociedade diminuído, assim o interior exige que as autarquias deixem de ser o principal empregador das comunidades, isoladas na luta contra a desertificação. Este é apenas um sintoma. Apesar de unificados por uma língua, valores e cultura, os portugueses continuam porém a estar assimetricamente divididos em termos de desenvolvimento regional.
Não se justifica a observância da hipertrofia congestionante do litoral, com todas as agressões ao meio ambiente, à qualidade de vida e ao definhamento progressivo do interior. E aí, sejamos claros. Ou se avança para o empowerment local ou se altera de uma vez o disposto no n.º 1 artigo 235º, Título VIII, Cap. I da Constituição da República Portuguesa. Não se referenda a implementação daquilo que já está constituído constitucionalmente.

Finalmente, exige-se ao novo executivo que governe pelo, para e com o país e não para o lado. É com isso que contam os portugueses, é aí que reside a nossa esperança.

11 de março de 2005

os deuses também já foram homens

CANCIÓN DE NAVIDAD


El fin de año huele a compras,
enhorabuenas y postales
con votos de renovación;
y yo que sé del otro mundo
que pide vida en los portales,
me doy a hacer una canción.
La gente luce estar de acuerdo,
maravillosamente todo
parece afin al celebrar.
Unos festejan sus millones,
otros la camisita limpia
y hay quien no sabe qué es brindar.

Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a tí te la entrego,
que no tienes ninguna.

Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.

Tener no es signo de malvado
y no tener tampoco es prueba
de que acompañe la virtud;
pero el que nace bien parado,
en procurarse lo que anhela
no tiene que invertir salud.

Por eso canto a quien no escucha,
a quien no dejan escucharme,
a quien ya nunca me escuchó:
al que en su cotidiana lucha
me da razones para amarle:
A aquel que nadie le cantó

Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a ti te la entrego,
que no tienes ninguna.

Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.

Silvio Rodriguez

à tout propos (148)

Afinal, o motivo de ontem não se ter podido passar na circular junto ao Aqueduto das Águas de Prata, não se prendia com qualquer acidente rodoviário, como inicialmente se podia supor.
Um condutor desprevenido estacionou no parque de estacionamento e retirou as chapas de matricula para desempanar. Os tradicionais e atentos mirones deram pelo movimento suspeito e daí à brigada de minas, foram dois tempos.
Quando regressou, o condutor tinha a viatura desancada e provavelmente alguns a jurar-lhe pela pele (pelo tempo que ficaram à espera de poder retirar os seus próprios automóveis).
Postas as coisas, todo o cuidado é pouco e movimentos suspeitos são de evitar. Além disso, ontem era véspera do 11 de Março. Por isso, encher pneus, olhar para debaixo do chassis, deixar inadvertidamente uma janela aberta ou sair do carro e voltar a entrar no espaço de 30 segundos pode vir a dar direito a uma conta extra na oficina.
Mas pelo menos, também já temos brigadas de minas e armadilhas, como nos filmes. E isso é muito giro.

8 de março de 2005

à tout propos (147)

Apesar de manter enormes dúvidas quanto à instauração de «dias internacionais» de qualquer coisa - e apesar também de reconhecer que essa foi infelizmente a melhor forma encontrada para dar visibilidade a algumas questões específicas - hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher.
Para mim, torna-se claro que a utilidade deste dia é pouco maior que a de uma panela de pressão para fazer chá. Bom, na verdade, devo dizer que gozei de um período da tarde calmo e produtivo porque o Big deu dispensa às fêmeas e assim imperou o silêncio. Cada uma terá gozado a sua tarde como bem entendeu, tornando clara a afirmação de um dia especial, para pessoas especiais.
Entretanto, numa conferência em Lisboa, ninguém dispensou Maria João Avillez que se pôs aos pulos a questionar a audiência se alguma mulher neste país tomaria a decisão do Ex-primeiro-Ministro Durão Barroso, e se assumiria um cargo com tanto desgaste familiar, aquando da sua ida para a Comissão Europeia.
Ora, para além da enorme descortesia para todos aqueles (homens e mulheres) que se viram na vida criando a solo os seus filhos, esta é a visão do feminismo inconsequente e popularucho que todas as mulheres emancipadas devem rejeitar.
Como em tudo, as referências sociais assim como a identidade colectiva de um povo são históricas, portanto, assumindo que a igualdade só existe de jure, é descabido tal questionamento com referência a cargos que são assumidos por gente emancipada. Qual é a diferença para a Manuela Ferreira Leite, ser Ministra das Finanças ou Comissária Europeia? É melhor, lá não é contestada de forma tão boçal. E a Ilda Figueiredo, não é Deputada Europeia? E a Edite Estrela? Jamila Madeira? Ana Gomes?
Sobre se as mulheres estão equitativamente representadas nas instituições políticas é uma outra questão. Maria João Avillez, normalmente sóbria, abandeirou copiosamente em arco e comprovou justamente como as referências culturais são históricas, logo contextualizadas. E felizmente, temos dado sólidos passos no sentido de uma igualdade de facto que acompanhe a de direito.
Infelizmente, findo o belo dia, se calhar muitas das minhas colegas tiveram que fazer o mesmo (e mais) que eu vou fazer agora: preparar a refeição, estender a roupa, «fazer» outra máquina, lavar a loiça, regar as plantas e só não trato das crianças porque não há. Mas ainda terei que arranjar tempo para outras labutas extra-laborais, antes de beber um copo para descontrair.
Para uma pesquisa mais aturada, toda a informação no site do ICS.

7 de março de 2005

O fenómeno «Picarodinhas»




Eles estão por todo o lado, podemos vê-los em qualquer canto do país. São os veículos «Picarodinhas». Há quem os chame «pica-rodinhas» mas o certo é que são um verdadeiro fenómeno de marketing artesanal, fortuito e um pouco brejeiro. Porém, vende!

O mais curioso é um qualquer comprador aceitar andar a passear aquele logotipo para onde quer que vá. Admitindo que não são oferecidos em troca, títulos de acções da empresa na compra de um automóvel, podemos distinguir, grosso modo, dois perfis de clientes:
Em primeiro lugar, o cliente que vê no logotipo qualquer coisa como um meio de ascender socialmente ou simplesmente é um obstinado que não vê a hora de sair do «stander» com o carro, delirando com a águia do Benfica que tenciona estampar no capot, assim que chegar a casa. Quanto a este, estamos conversados.
Em segundo lugar, aceitando que todos os actores fazem no momento da decisão, uma escolha racional com base numa análise simples de «custos-beneficios», temos o tipo de cliente que decide aceitar o automóvel a troco de algo que desconhecemos e talvez nunca possamos compreender.
Ora, depois de reflectirmos sobre o assunto, ponderamos as seguintes hipóteses:
1) o vendedor ludibria o comprador, «reduzindo-lhe» o preço inicial, seja na retoma, seja no inflaccionamento prévio do preço;
2) enquanto mantiver o veículo, o comprador tem descontos na oficina para toda a vida do automóvel;
3) a empresa paga um montante ao novo proprietário, pela publicidade feita no automóvel;
4) a empresa tem um camarote no Estádio da Luz, para o qual convida quinzenalmente dois felizardos;
5) os carros são oferecidos.
Todavia, após a ponderação das hipóteses avançadas por um perito e sem poder optar com rigor por nenhuma delas, somos levados a concluir por uma vasta zona intersticial, uma zona de incertidão localizada no cérebro das pessoas, a qual, por ser desigualmente distribuída tem impactos diversos nuns e noutros.
Por conseguinte, este continua [e continuará] a ser um dos maiores mistérios da vida, um segredo bem guardado pela natureza, uma meta-realização da acção humana, que nem os vendedores nem compradores conseguem explicar. Um epifenómeno, portanto.

6 de março de 2005

em de-talhe

Mas alguém me pode explicar como é que uma pessoa, no caso, um pretenso advogado marialva, pode dizer sentir-se «mais confiante e seguro» por beber Actimel porque contém l'casei immunitas?
É mais ou menos assim: um tipo bebe aquilo e de seguida é o maior da sua rua. Os tipos da Red Bull dizem que dá asas mas parece-me que é metaforicamente. Talvez o l'casei immunitas seja um alucinogénico e nesse caso já me parece mais credível.
Esta é a descoberta do século para a epidemia do século XXI. Já alguém informou os psiquiatras? Um conselho à malta dos opiáceos: bebam Actimel, é bem mais barato, não é ilegal e alimenta. E acima de tudo, é seguro!

O «bigode» português




O «bigode» português é um retrato do Portugal sisudo e carrancudo que marcou sucessivas gerações de portugueses. É um tipo de bigode que parece durar sempre, alérgico à mínima corrente de ar que o possa despentear. É certo que há bigodes e bigodes mas o típico português ama o fado e assim, melancólico, jamais sucumbirá às pressões da novidade (ver foto). Ama Portugal, as sandes de couratos, o Benfica, os brandos costumes e o seu maior desejo é que os seus filhos sejam como ele, tal como ele munca se desviou um milímetro daquilo que já era o seu bisavô.
Esta é a herança do bigode, que podia muito bem ser a camisinha aberta a revelar o peito másculo, a desproporcional e multi-funções unha do mindinho ou o fatal palito que range entre os pré-molares inferiores.

3 de março de 2005

Movimento reformador do direito canónico

A recente polémica em torno do Padre Nuno Serras Pereira é uma verdadeira falácia. O homem não está a fazer mais do que seguir à risca o normatizado no direito canónico (segundo ele, que eu não o li; estive a ler coisas do Castells, do Inglehart e da Pipa Norris, mesmo agora).
Poder-nos-emos questionar quanto aos métodos mediáticos de publicitação da sua posição (é lá com ele e com a Igreja), mas confesso que não compreendo o espanto, nalguns casos, a indignação.
Se esta é ou não uma perspectiva ortodoxa da interpretação do direito canónico, não estará naturalmente em causa para os católicos informados. É assim que está postulado e ele apenas não faz uma interpretação adaptada à mudança social. Grande coisa, está no seu direito. E para isso, não é preciso ser padre...
Ainda assim, seria possível imaginar os momentos que antecedem a comunhão, com os padres a aplicarem questionários, auxiliados por uma bateria de indicadores, para perceber se cada indivíduo em causa usava meios contraceptivos, aceitava o aborto, as relações homossexuais, o consumo de tabaco, a eutanásia, a ida de militares para o Iraque, etc. E no final, os que fossem considerados suspeitos, eram submetidos a um Júri que os castigava com penas entre 5 meses e 10 anos com inibição de receber a óstia.
Para grandes males grandes curas, talvez o melhor seja alterar o direito canónico; e que sejam permitidas relações sexuais hedonistas e carnais (e não exclusivamente para reprodução), inseminação artificial, cerveja preta, andar de mota e outras das coisas interditas aos cristãos.
Enfim, no final, lá veio D. José Policarpo, na sua imensa paciência, pôr água na fervura.

Ode ao desenvolvimento sustentável do litoral de Sanches



Praia de Sesimbra.
Isto é aquilo a que eu chamo ordenamento do território e desenvolvimento sustentável. Talvez ainda ali veja um dia a desfrutar daquele belo empreendimento o Sr. Saldanha Sanches e a sua digníssima esposa, a Magistrada Maria José Morgado (será ela a sua fonte de informação sobre a corrupção dos autarcas portugueses?).
Provavelmente, aquilo que ele chama favorecimento do interior e que por sinal o «enjoa», será porventura algo relacionado com a preservação do património natural? Nesse caso sim, admito que o interior é favorecido.
Nesse caso aconselho o seguinte. Já que têm leis, cumpram-nas! E prevaricador, tanto é o autarca, como o empreiteiro, e fundamental, o consumidor final, que pode muito bem ser o Sr. Sanches, o Santana Lopes, a Cinha Jardim, o Castelo Branco, etc., mas não o «Zé Ceroulas» que para ser visto pelo médico tem que pagar um taxi, ficar em lista de espera desde as 5 da manhã, comprar milhares de medicamentos e sobreviver com uma mísera pensão social. E tem horas para ficar doente: das 9 da manhã às 9 da noite!
PS: junto à falésia, encontra-se uma placa com a seguinte inscrição: Parque Natural da Arrábida - FALÉSIA INSTÁVEL

Prevenção ex post facto

Segundo parece, os testes de sobriedade estão a generalizar-se em algumas escolas americanas, fazendo parte do seu dia-a-dia.
Sem delongas e transpondo esta realidade para o caso português, imagine-se o que ganharíamos em produtividade e diminuiríamos em custos de seguros de vida, tratamentos e indemnizações, se o Estado português exigisse e regulamentasse a aplicação de testes semelhantes aos trabalhadores portugueses... As vidas que se poupariam.
... e sem ser por isso que a autonomia individual é posta em causa: afinal, não os fazemos já perante a BT? Não nos submetemos a testes idênticos para entrar em empresas ou no quadro de um organismo público? não somos já espiados em espaço público por aparelhos de vídeo (bancos, praças, estradas, serviços públicos e até cafés)? não somos sujeitos a fiscalização às contas bancárias em casos específicos? Desde que salvaguardas as questões éticas, por que não? Não é exactamente para isso que existem as comissões éticas e conselhos deontológicos?
E que tal começar pelos agentes da autoridade antes e depois de entrar de serviço?
Ah, e já agora, que se começasse (mesmo que à revelia dos costumes portugueses) a responsabilizar as pessoas pelos seus actos?
Infelizmente, aquilo que é tido como uma ética da responsabilidade, não pode, no caso português, deixar de ser indissociado dos mecanismos de condicionamento esplícito do Estado porque dificilmente é inculcado no quadro de referência colectivo dos portugueses (latu sensu, evidentemente). Por isso, as multas de trânsito dificilmente (também) vão parar de ser agravadas. A prevenção, no caso português (e não só, mas aqui que vivo), adquire contornos muito especiais... é a posteriori.

2 de março de 2005

à tout propos (146)




A Hibernação é um estado letárgico pelo qual muitos animais de sangue quente passam durante o inverno, principalmente em regiões temperadas e árticas. Os animais mergulham num estado de sonolência e inactividade, em que as funções vitais do organismo são reduzidas ao absolutamente necessário à sobrevivência.
Os ursos não são excepção, mesmo aqueles que passam por situações desagradáveis provocadas por inflamações anais.
Dr. Soyus Carrothands

1 de março de 2005

Usança mui antiga, a da chibata

Hoje fui enviado numa missão de alto risco, para um local a abarrotar de militares, ex-militares, indivíduos que sempre sonharam com fardas, bombeiros e um ou outro civil, naturalmente olhado de soslaio. Ali, um gajo tem que ser um homem, comportar-se como tal e se estiver em campo aberto, não enjeitar a oportunidade de cuspirr para o chão, mandar um piropo a uma funcionária ou dar uma ajeitadela nervosa nos marros.
Lá estava também o inevitável oficial da GNR, impassível, olhar duro, postura inflexível, exemplarmente ataviado com reluzentes botas de cavalaria, barrete debaixo do braço, com as insígnias da GNR reveladoras do árduo trabalho com o Duraglite. Segurava porém na mão direita, imóvel, um singular objecto: uma chibata de couro com 50 ou 60 cm, ornamentada com os motivos da nobre cavalaria, em desafio ao ar.
Ora, hoje, mais do que nunca, continuo a questionar-me sobre o propósito daquele objecto permanecer integrado na farda n.º 1 (de gala, de honra) dos oficiais provenientes da cavalaria. Cagança, dirão alguns... Mas no meio de gente desarmada, em tempo de paz, sem cavalos por perto e, fundamental, sem moscas para enxotar, levanta-se uma questão fulcral: para que raio serve aquilo?
Não creio que se destine a disciplinar as hostes, caso a reunião degenerasse em discussão apaixonada ou até violenta (conforme os casos, assim o trato...). Certamente estaria na presença de homens disciplinados, pacíficos, mas pelo sim e pelo não, cá fiquei sentado não muito distante da porta de saída. Ainda para mais, não havia na sala uma única mulher. Naqueles meios a presença de mulheres é uma espécie de interdito, e confesso que isso aumentou significativamente os meus receios. Também não estou a ver o tipo arrancar de carro fustigando furiosamente o tablier enquanto desfere incisivos golpes com as esporas nos pedais.
Nunca fiando de homens fardados, de botas altas e com chibatas nas mãos. Nunca fiando...

à tout propos (145)



Uma alma caridosa conseguiu finalmente arranjar a Santana Lopes um emprego honrado e à sua medida. A sua entrada na empresa depende apenas da confirmação de óbito do indivíduo que surge na imagem anterior.

em de-talhe



Pela primeira vez na sua «carreira política», Santana prepara-se para terminar um mandato. A ideia é acabar com o resto, imediatamente antes de atacar a presidência da república, o seu sonho dourado (o que ele sempre viu escrito nas estrelas). Os lisboetas que se cuidem. Antes lá do que cá...

28 de fevereiro de 2005

à tout propos (144)



Romania, 1990 - An orphan in an institution for "incurables", James Nachtwey
Ironicamente, põe-se a questão: qual era propriamente o papel do Super-Estado romeno? Talvez o mesmo do Estado esvaziado, que caracteriza não raras vezes os países que assentam o seu modelo de organização político-administrativa em sistemas tribais ou nas concepções liberais mais radicais?
No fundo, esta é a expressão apoteótica do «triunfo dos mais fortes» levada ao extremo. A que redunda em desapego comunitário, a que continua a postular a falidíssima concepção de solidariedade orgânica; a que julga que só os mais fortes têm lugar na história da humanidade.
Produção, custos, decisão, eliminação.

O Portugal boçal de Saldanha Sanches

É este o mais fiel retrato da boçalidade e mesquinhez do Portugal pequenino e atrasado. Pode se encontrado numa entrevista irresponsável (como tantas outras) do fiscalista Saldanha Sanches.

É lamentável o conteúdo da entrevista, lamentável a defesa do mais profundo, aberrante e retrógrado conservadorismo, da mais desviada noção de desenvolvimento económico e equilíbrio social de um país, e revelador da atitude mais nociva a qualquer ideia de integração, da qual, a União Europeia é o principal garante.

Também importa lembrar ao Sr. Sanches, que é também do litoral a maior fatia de responsabilidade do desordenamento do território, do desrespeito pelas normas ambientais e pelo mais que previsível desrespeito pelo Protocolo de Quioto, assim como o esvaziamento do interior que ele despreza de modo tão rude.
Desafio igualmente o Sr. Sanches a levar as suas suspeitas ao Ministério Público e as sustente com provas. Caso o já tenha feito, nesse caso, é perfeitamente claro qual o seu grau de respeito pelas instituições democráticas, em particular pelo segredo de justiça; ele, um arauto da democracia e da justiça em Portugal.

Óscares

Esta noite em Hollywood, cumpriu-se mais uma sessão de intenso folclore mediático encenado com as usuais técnicas dramaturgico-circenses de difusão comercial, que no fundo, são a essência da entrega dos Óscares.
Ainda há quem passe em claro essa noite «mágica», para ver um espectáculo fastidioso, no qual não é o mérito que conquista as estatuetas mas sim o amiguismo, as opções políticas encorajadas e sobretudo, o show biz.
Este é, por excelência o mundo do consumo mediatizado onde são ensaiadas as melhores armas de marketing económico e político, fazendo deste, um produto directamente ligado ao condicionamento implícito de massas. Curiosamente, um fenómeno amplamente estudado por americanos.

Só assim se percebe o posicionamento político de todo um país com nefastos efeitos externos, quer no plano ambiental quer no plano cultural; só assim se entende o melhor exemplo de sociedade coisificada, ao nível da consciência feliz marcusiana, debaixo da capa da mais velha democracia do mundo e por isso, acima de qualquer suspeita; só assim se compreende que um filme vencedor seja baptizado com o corriqueiro nome «Million Dollar Baby», realizado por um realizador que não se conseguiu desembaraçar do nível que o balizou enquanto actor.
The show must go on, e assim se vai entretendo a chusma, entre risos e choros.

em de-talhe

PORTUGAL, VISTO LÁ FORA
Cedido por cortesia de um amigo
«Artigo de Michael A. Weinstein, professor da ciência política na universidade de Purdue, em Indiana nos States. É autor de 21 livros e de numerosos artigos académicos e de análise nos campos da ciência política geral e da teoria política. É analista do Power and Interest news Report.
Para rir:
In the all-important economic sphere, Santana Lopes strayed from the neo-liberal path by proposing to cut the family tax, which mostly impacts the middle class, and to raise wages and pensions for public employees. His plans evoked public opposition from his Finance Minister Antonio Bogo Felix who represented the sentiments of Portugal's financial and business communities. Both Bogo Felix and Portugal's central bank warned that the tax cuts and wage hikes would compound the country's deficit problems, causing greater friction with the E.U. and dampening the already poor investment climate.
Para chorar:
The disconnect between Socrates' vision and Portugal's reality is a symptom of the severe weakness of the country's economy that places strict limits upon the ability of any government -- whether left or right -- to generate renewal. There is a distinct possibility that Portugal is poised to become the first failure of the European experiment, posing embarrassing decisions ahead for the E.U. as it attempts to maintain its standards and preserve its integrity».

25 de fevereiro de 2005

em de-talhe



O FILHO PRÓDIGO À CASA TORNA

Ontem, a Antena 1 deslocou-se a Redondo para emitir em directo da Sociedade Harmonia e Progresso Redondense, a apresentação do último album do Vitorino. A ocasião justificou a visita de dezenas de populares, ansiosos por ver e escutar a emissão da RDP. A In Tenui Labor esteve lá para assinalar o momento. E foi com algum esforço... pois já há pouca pachorra para lidar com a extrema modéstia da «estrela» redondense.

24 de fevereiro de 2005

à tout propos (143)




- «espera... sim?! talvez um pouco mais abaixo... humm, sim, aí! continua amigalhaço!»

à tout propos (142)

Como hipnotizar um homem em duas simples etapas:
Instruções:
1) Entrar no site abaixo clicando no link.
2) Clicar na foto e arrastar para cima ou para baixo, para a direita ou esquerda, e LARGAR.

à tout propos (141)



Na gáspia, em perseguição do Portugal em fuga. Há 862 anos...

23 de fevereiro de 2005

à tout propos (140)

Vida, paixão, moral e desconsolo... Vídeo interessante. Só isso, mas esteticamente não está pior.


http://boi.geness.ufsc.br/videos/dm9ddb.wmv

à tout propos (139)



Eis o guardião dos valores conservadores, esteio da moral cristã e ilustre representante dos bons e ancestrais costumes portugueses.

à tout propos (138)



Com Jorge Serafim
É técnico da Biblioteca Municipal de Beja, contador regular nos serões da Biblioteca. Tem feito inúmeras sessões de contos para crianças, jovens e adultos em bibliotecas, centros de animação e participado em encontros em Portugal e Espanha.

"Vinde ouvir, há janelas por abrir".

em de-talhe

PSD em convulsão interna. Avançam heróica e corajosamente Marques Mendes e Luís Filipe Meneses. Na penumbra, no sossego da observação descomprometida, movem-se interesses, gizam-se as verdadeiras estratégias. Tudo o resto é show off para a imprensa. E aqueles dois, são meros peões que nem os sociais democratas desejam, a não ser para um curto período de transição.
Neste campo, Marques Mendes perfilha-se como o candidato ideal pois é um homem que domina o aparelho e essa qualidade é fulcral para arregimentar os militantes em torno de um projecto unificador, apaziguador das clivagens actualmente existentes. 2 a 3 anos no máximo, período mais do que suficiente para que o futuro Presidente pense no carro a levar em «rodagem» ao Congresso da sua consagração...
______________________
Entretanto, uma palavra de consolo para Luís Delgado, o qual, apropriando-se de todo o tempo de antena de que dispõe nos media nacionais, veio-se a revelar o mais fervoroso defensor de Santana Lopes. Foram tantos os meses, quantos os da traumática governação do seu amigo pessoal, como o próprio admite e se orgulha. Ontem, na SIC notícias, Luís Delgado não só admitiu como exibiu um brilho nos olhos quando Luís Osório o classificou como o férreo defensor de Santana Lopes.
Claro que esta é a realidade do jornalismo português; uma realidade medíocre, néscia e impune, tão dependente quanto subserviente de interesses específicos e tentaculares. É ultrajante.

22 de fevereiro de 2005

à tout propos (137)

Chegámos ao fim de mais um período de sondagens fraudulentas. Termina mais um ciclo e por isso, está na hora de divulgar os resultados dos preliminares... Para aquecer, aí vai:
Os nossos leitores teimam em insistir que «homens temporariamente sós» liga com «tarde ou nunca se endireitam». 29% dos leitores optaram por esta hipótese, que do ponto de vista racional, não faz sentido. E não faz sentido porque a condição temporal que é apresentada implica de per si, um intervalo de tempo, uma descontinuidade. Logo, esses homens endireitam e entortam, mas não se quedam em permanência nessa última posição. A qual, aliás, deve ser dolorosa.
A resposta menos escolhida, «mulheres satisfeitas» (11%) era a correcta. Não sei como dizê-lo mas, já viram certamente os animais com o cio. Ora, segundo uma outra sondagem, parece que os homens temporariamente sós são iguaizinhos.
23% dos inquiridos responderam «bolas de ténis no ar». Quer dizer, não tem nexo nenhum, não se compreende. Aliás, tive ocasião de dizer o mesmo ao Rui Reininho, mas o gajo é teimoso como o raio.
___________________
Confesso que fiquei descansado quanto à ideia de vender o Alentejo para equilibrar o défice: ninguém se ofereceu para ser vendido aos EUA. Uff.
Em contrapartida, verifico nos meus leitores uma certa apetência pelo Noroeste e Sudoeste asiático, não sei se atraídos por catástrofes ou por bordoadas nos queixos: 29% gostariam de ver o Alentejo vendido à Coreia do Norte, enquanto 21% prefeririam morar paredes meias com os Ruak, em Jacarta na Indonésia.
___________________
Foi também interessante verificar como Santana Lopes nunca devia ter ido para a política: os nossos leitores fazem uma representação mental do (ainda) Primeiro-Ministro, demasiado colada às soirées de pequeno-almoço epossivelmente à noite do Intendente. Com efeito, 23% acreditam que ele será no futuro um transformista a actuar num qualquer bar rasca da Brandoa, enquanto as hipóteses gigolo (engatar colegiais no Kremlin) e modelo de José Vilhena, recolhe 36% divididos em partes iguais.
__________________
Por fim, 83% das pessoas que votaram na questão relativa ao consumo de drogas, admitem consumir. Pior ainda, para 33%, «a vida é uma festa». Isto é uma afronta. E mais não digo.
__________________
Brevemente teremos mais

à tout propos (136)

Humor e criatividade em forma de arte.
Para ir ao site, clicar no título deste post. Para ver um vídeo, clicar AQUI!

à tout propos (135)

RESULTADOS PRELIMINARES DAS LEGISLATIVAS
Ver em TSF-online (recordamos que ainda não estão disponíveis os resultados referentes aos círculos da emigração).

em de-talhe



Doubt, stop

Sinopses eleitorais

A vitória do PS era previsível, anunciada, exigida e, na medida exactamente inversa, a derrota do PSD não era menos esperada. Só faltavam os números, os quais, não só foram retumbantes como também esclarecedores. E este último ponto é o mais importante. Foram esclarecedores porque representam em minha opinião, mais do que uma oportunidade à esquerda, uma rejeição inequívoca da direita. Isso é claro. A esquerda contabiliza até agora (ainda faltam apurar os 4 deputados dos 2 círculos da emigração) 61,7% dos deputados apurados (226 dos 230 deputados), ficando a muito pouco de uma maioria qualificada no parlamento, a qual romperia finalmente com a hegemonia partilhada do PSD e PS em questões estruturais, cuja alteração carece do compromisso de dois terços dos deputados. A vitória é, naturalmente, dos portugueses.

Em segundo lugar, travando todas as tendências abstencionistas, os eleitores portugueses inverteram uma tendência que se começou a fazer notar com preocupação a partir de meados da década de 80. E este é talvez o segundo facto com maior interesse nas eleições de dia 20. Os altos níveis de abstenção, seja em democracias consolidadas ou recentes, são talvez o principal indicador de natureza legal que comprova e alimenta a crise das instituições políticas e do modelo democrático. A participação convencional assim como a heterodoxa, são imprescindíveis para a qualidade das democracias.

Para além da vitória do PS, importa salientar o extraordinário desempenho do BE e surpreendente volte face da CDU. Pessoalmente, já lhes tinham dado a extrema unção. Enganei-me, pelo menos por agora. Também beneficiaram da deriva à esquerda, apesar de, dos três partidos, talvez tenha sido o BE quem mais trabalhou para ela.
Portas esteve bem, assumindo as responsabilidades. Santana… igual a si próprio, já a pensar com o sangue na guelra, no seguinte devaneio, cujos danos colaterais ainda não suspeitamos. Cavaco, em particular, está na mira.

Falava-se hoje do Presidente da República, que viu a sua decisão ser comprovada pelo povo. Continuo sem concordar com o timing das suas decisões, e justifico-o apelando à deserção política de um Primeiro-Ministro mandatado pelo povo português e ao qual não deu cavaco (em posts anteriores pode ser seguida a restante linha de argumentação, que aqui não vou repetir). Pura ambição pessoal e nisso, é farinha proveniente do mesmo saco onde desencantaram Santana. Se Sampaio o fez por amor ao PS, é condenável. O certo é que abriu um grave precedente porque a Dissolução da Assembleia, ainda que debaixo da capa do «normal funcionamento das instituições», foi decidida no nebuloso âmbito da subjectiva avaliação de «falta de credibilidade» de um governo… Foi essa a sua vaga explicação, que redundou num enormíssimo torcer de nariz nacional. E sem embargo, já sonhávamos com esse dia 30 de Novembro...

Finalmente, o Cavaquistão caiu. Alarmante a natureza leiriense… Como previra em Esclarecimentos Eleitorais – entre Évora e Leiria, naquele distrito do centro, a luta iria disputar-se por um deputado: PS ganhou 1 e PSD perdeu 1 (em relação a 2002). Quanto ao BE, também se verificou a sua maior votação relativamente à CDU (mais 1 ponto percentual), incapaz de chegar aos imensos operários fabris do distrito de Leiria.
Em Évora, muito mais previsível, com a única dúvida que restava a ser desfeita em favor da CDU. Ainda assim, é curioso notar como o candidato comunista, antigo Presidente da Câmara de Évora, deve a sua eleição a concelhos rurais do distrito e não no concelho de Évora, ao qual presidiu durante 25 anos.

20 de fevereiro de 2005

19 de fevereiro de 2005

em de-talhe

AFINAÇÕES E REPAROS

Como é do conhecimento geral, há um tipinho - Bandido Original - integrado numa corja pestilenta mais ampla, tem como hobbie espremer as suas gordas borbulhas em blogues decentes como este.

Este Sr. Bandido colocou há dias um comentário no meu humilde espaço democrático e dialógico, no qual (como em outras ocasiões), insiste com parábolas diletantes e dogmáticas como a que passo a citar.
Diz ele, num português prosaico e arrastado:

«O Bloquistas, ou seja, os apóstolos da UDP, do PSR ou da Politica XXI, sabem o que são?Ou sequer o que querem?A vossa raça de bombeiros, os chicos espertos apaga fogos, que nem fazem ideia da razão pela qual o fogo começou, proferem brilhantes discursos intelectuais na altura de apagar o fogo, mas é só!É mesmo só isso, discursos!O Bush tambem os tem, e tambem os sabe proferir...Coitados...»

Para além disto não fazer qualquer sentido, importa fazer dois ou três reparos que se pretendem revitalizadores daquele cérebro empedernido:

1. Mas onde é que aquele senhor ouviu aquela do Bush saber discursar? Se ele chama qualidades oratórias a um balbuciar atabalhoado de fórmulas simples indiciadoras de condicionamento explícito... O homem nem tem discursos nem sabe falar, ponto. Para quê comparar a feira de Borba com o cú das calças? Isto, por si só, é demonstrativo da enorme confusão que vai naquela pequena noz...

2. Uma pergunta a esse indivíduo: mas onde é que radica essa sua obsessão com as minhas opções políticas? Isso interessa-lhe para quê? Desconfiará porventura que sou algum dissidente que importa controlar? Serão isso tiques da vossa «cultura democrática»?

3. Uma sugestão a esse sujeitinho: que leia, fashavor e se tal não lhe for exageradamente penoso, qualquer coisa como, por exemplo, Para Além da Esquerda e da Direita (Anthony Giddens). O conselho é didáctico e pode vir a revelar-se-lhe bastante útil.

Rogo-lhe finalmente, que não se ponha com as infantilidades do costume a dizer que «isso é terceira via, blá, blá, blá, e que o Estaline vem-nos buscar, blá, blá, blá».

Que esse senhor passe bem e acolha com humildade as sugestões que generosamente lhe dirijo.

17 de fevereiro de 2005

O eleitor indeciso



Sócrates, Santana, Porta, Louçã e Jerónimo têm nos últimos dias apelado ao eleitor indeciso para não se abster no Domingo.
Ei-lo, e não podia estar mais contente por ser tão disputado.

à tout propos (133)

PS com maioria absoluta e BE, a 3ª força política mais votada a par da CDU. São estas as últimas sondagens da Católica. À medida que nos vamos aproximando de Domingo, mais acertados vão ficando os prognósticos.

A memória de Nuno Rogeiro

O famoso e imparável enciclopedista português Nuno Rogeiro, assina um texto – Nada Disto aconteceu – no DN, no qual recorda aos portugueses alguns episódios da governação PS.
Para além do evidente mérito da memória, este eminente e galopante «intelectual postador de pescada» tem igualmente a destreza da leviandade. Mas eu também! Por isso, sem recorrer a arquivos e escrito em 22 minutos, contribuo também com o meu chorrilho de factos, apesar de não dispor como ele, de direito de antena.

A saber


- Aumento vertiginoso do desemprego com o seu apogeu (até ver) em Dezembro de 2004;
- Saída de capitais para o exterior, nomeadamente através da deslocalização desenfreada de empresas;
- Incapacidade em conter (pelo menos) o défice das contas públicas, mesmo com o recurso a receitas extraordinárias e aumento de impostos directos como o IVA;
- Análise negra do estado da economia pelo mesmo Cavaco Silva e por diversos economistas nacionais e estrangeiros;
- Perda acentuada de poder de compra dos portugueses;
- Análise negra do estado da política por Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Pacheco Pereira, Mário Soares e outras personalidades, alinhando todos no mesmo diapasão quanto à escandalosa incompetência dos actuais governantes;
- Alienação ao desbarato do pouco património imobiliário do Estado que resta;
- Polémica risível e absurda em torno do «Barco do Aborto»;
- Total desrespeito pelas deliberações da ONU e a vergonhosa posição assumida na «Cimeira da Guerra» (Base das Lajes);
- Planos de combate à evasão fiscal assentes na teoria da isenção fiscal…
- Continuação das ligações perversas ao mundo do futebol, envolvendo maioritariamente autarcas e militantes sociais-democratas;
- Afastamento da magistrada responsável exactamente pela condução dos processos relativos à perversidade do mundo do futebol;
- Rejeição da co-incineração sem esboçar uma alternativa técnica, económica e socialmente equilibrada;
- Quedas sucessivas de ministros e episódios lamentáveis como a colocação dos professores, a assunção do «Estado Católico», o agravamento das listas de espera nos hospitais, as contas no estrangeiro em nome de sobrinhos taxistas, os anúncios delirantes como a ida de professores para os tribunais, desconcentração circence de algumas Secretarias de Estado; duplicação do número de guarda-costas em relação ao anterior Primeiro-Ministro e generalização despesista de polícias e seguranças pelos diversos ministérios;
- Tragédias sucessivas no combate e prevenção de incêndios, em parte devidas ao desinvestimento em limpeza de matas, vigilância e coordenação de meios; aumento do número de mortes nas praias, acompanhado dos cortes orçamentais na vigilância das mesmas;
- Insistência na construção do Túnel do Marquês, «contra ventos e marés», desprezando os pareceres técnicos e dispensando a elaboração de um estudo de impacto ambiental;
- Tentativas de ingerência na RTP, na Assembleia Geral da CGD, na TAP, Cruz Vermelha Portuguesa, etc.;
- Agravamento inclassificável nas contas municipais da capital, seguido de desresponsabilização;
- Filosofia de miséria na RTP, levando o serviço público à quase morte, apenas adiada pela mobilização de jornalistas e sociedade civil;
- Expectativas de aumento do interesse dos cidadãos pela política, mobilizados para correr com o actual governo (o desinteresse, Sr. Rogeiro, é transversal às várias democracias, como o Sr. bem sabe, mas escamoteia);
- Tentativa dissimulada de calar comentadores políticos incómodos;
- Deserção imperdoável de um Primeiro-Ministro mandatado por 4 anos pelo povo português, após a derrota nas eleições europeias;
- Estado geral de guerra civil dentro do Governo (com sucessivas apunhaladas), demissão de ministros, vítimas de traições e intrigas palacianas.


Enfim, nada disto foi um sonho… E a minha memória não é, decididamente tão boa como a de Nuno Rogeiro.


«Não penses muito que te cansas» (ARV) Filantropo alentejano e contas não são o meu forte.

16 de fevereiro de 2005

Red bohemian sunset

Este homem está sempre a facturar

Santana Lopes remeteu a explicação do aumento do desemprego (7,1%) para o anúncio de dissolução da Assembleia da República, em 30 de Novembro. Diz ele que "as decisões de investimento estagnaram".
Sem pretender ser demasiadamente prosaico, quer-me parecer que há 2, 3 anos atrás andávamos na casa dos 3, 4%...
A mimesis é um factor crucial para entender o desemprego e com efeito, terão pensado os industriais, empresários e administradores de direcções de empresas: «epá, ó Cunha Melo, se o gajo, o Sampaio, despediu o Santana, porque é nós não havemos de despedir essa horda de gajos que nos sugam milhares todos os meses em ordenados?»
E assim terá acontecido.

Nem com um pouco de sal...

Talvez por ser a quatro, o debate de hoje foi substancialmente menos mau do que o anterior (somente com Santana Lopes e Sócrates). E uma vez mais, não será demais afirmar que o não foi unicamente pela responsabilidade da dinâmica desenvolvida pela entrada de mais dois contendores, pela ligeira alteração do formato (menos rígido) e sobretudo pela qualidade imprimida no registo discursivo de Francisco Louçã.
Daqui resulta que a constatação de, caso o debate tivesse sido realizado com os mesmo dois (Sócrates e Santana), teríamos o mesmo resultado sensaborão, arrastado e a não interessar nem ao Menino Jesus.
A que se segue, é a minha cansada leitura dos antecimentos.
Desta vez José Sócrates até esteve melhor, aprendeu a lição ao documentar-se(!) e a explicitar algumas orientações programáticas, concretizando inclusive algumas ideias. No entanto, deixa-se ir em demasia na estratégia perfeitamente dispensável de trazer à cena o estado deplorável da nação e de responsabilizar obsessivamente os dois últimos governos. É esse o papel da oposição, já o sabemos, mas resulta numa perda de tempo compulsiva.
Quanto a Santana Lopes, deixou o ar miserável e infeliz em casa, e no mano a mano continuou a demonstrar uma excelente condição argumentativa. No entanto, tudo o que diz soa um pouco a dejà vu (ou dejà entendu), e não se lhe ouvem propostas concretas de acção, à excepção da política de estágios e pouco mais. Menos eloquente na segunda parte, reconhece-se-lhe a perda progressiva de fulgor, acomodado à cadeira, em especial quando o seu «parceiro» Portas se demarca dele e dá a entender que os acordos são para se cumprir mas somente no caso de virem a ser precisos.
Paulo Portas manteve-se quase sempre bastante sóbrio, concentrando-se quase exclusivamente no trabalho desenvolvido pelo seu partido no governo. De forma irritante. Em matéria de conteúdo programático, também não se fica a rir do seu parceiro de coligação: o deserto de ideias é evidente. A sobriedade deu lugar na segunda parte ao seu estilo muito próprio, que acabaria por arruinar o seu discurso final.
Finalmente, o vencedor, o rei da noite. Francisco Louçã, não só demonstra possuir um profundo conhecimento nas mais diversas matérias, como é capaz de manter um excelente nível de raciocínio na apresentação de ideias e propostas concretas. E é aqui que justamente reside a maior diferença entre uns e outros: não enjeitando o confronto e não prescincindo de uma atitude incursiva e crítica, Louçã distancia-se dos demais porque não abdica da concretização das ideias, propõe, e lá vai explicando como.
Apesar de todos se terem esquivado quanto a acordos pós-eleitorais (à excepção do já conhecido), foi evidente o flirt de Sócrates a Louçã, estratégicamente perspectivando o futuro, procurando deixar as portas, pelo menos entreabertas. Portas fez a mesmíssima coisa... Mas o curioso foi ver como a esquerda apareceu muito mais convergente do que o habitual e apesar de todas as diferenças que vão do BE, passando pela CDU até ao PS.
Habitualmente muito mais próximos, CDS-PP e PSD, não conseguiram destavez passar a imagem da coesão.
Provavelmente, quem também ficou a ganhar com este debate terá sido o PCP, por Jerónimo de Sousa se ter apresentado afónico... Sabe-se lá se não estratégicamente. Afinal, não há ninguém que não tenha tido pena do homem...

14 de fevereiro de 2005

Ainda os esclarecimentos eleitorais

Este post surge no seguimento de um comentário de Alexei, ao texto «Entre Évora e Leiria: esclarecimentos eleitorais», e que desde já agradeço pela perspicaz contribuição que representa.

O comentário, que passo a citar, reporta-se àquilo que o seu autor denomina a falácia do voto útil:

«O voto é sempre útil. Se votas num partido que não vai ter representação parlamentar, também é útil. É útil à democracia, porque estás a contribuir, ainda que de forma limitada, mas efectiva, para a pluralização da vida política. Significando aumento da participação cívica e ampliação do espectro político-partidário, o voto tem sempre um carácter qualitativo de enriquecimento e utilidade para a democracia»
Com efeito, o autor toca num aspecto fundamental, o da cidadania activa e consciente. Não pretendo ser mal interpretado com a afirmação do voto «desperdiçado», que, admito estar associada ao voto útil. Por isso ressalvei com as motivações ideológicas que vão legitimar exactamente o pluralismo falado e em que a nossa democracia assenta constitucionalmente.

Quando falo em voto «desperdiçado», refiro-me unicamente à conversão de votos em mandatos, uma vez que apesar de não conseguir a eleição de deputados, um pequeno partido como o BE conquista – e isso é notório – cada vez mais eleitorado de eleição para eleição. Por isso, coloquei entre aspas o termo «desperdiçado», porque de facto não é!
O voto é realmente útil e de tal forma que é bem possível que em 20 de Fevereiro, o BE consiga eleger deputados por outros círculos eleitorais para além de Lisboa e Porto.

Todos estes contributos são acolhidos com satisfação. Faço apenas um reparo, em jeito de lamento, que tem que ver com o facto de não serem os partidos políticos os primeiros a assumir a sua função informativa e pedagógica.

13 de fevereiro de 2005

os deuses também já foram homens



On my way back II

à tout propos (132)

A PSP de Lisboa anda a fazer rusgas em jardins e a apreender baralhos de cartas aos reformados.
Mais uma excelente medida de combate à criminalidade na capital. É assim mesmo, mostrar a esses meliantes quem é que pode jogar às cartas: «jogo de cartas só na caserna!»
Entretanto, ficamos a saber que os nossos impostos servem afinal para alguma coisa...

12 de fevereiro de 2005

Hanno stato bravissimi



The Gift, em Évora, no Theatro Garcia de Rezende
Ontem, os The Gift demonstraram em Évora porque são uma das bandas mais consistentes da actualidade musical. Amadureceram bastante e têm beneficiado extraordinariamente da disponibilidade que têm em assumir uma relação descomplexada com os sons e os ritmos. O resultado é um trabalho equilibrado, diria harmonioso.
Sónia, a voz é soberba, sabe encher os interstícios musicais tornando a música uma experiência incrívelmente bela e emocionante. Liga com a sua voz, todas as pontas de um vestido por alinhavar enquanto lhe dá a coloração desejada. E sabe-a usar tão bem quanto a sua extasiante expressão corporal, qual metrónomo a regular os andamentos.
No final do 2º encore, quem lá estava não pediu mais. Sónia, em português e Nuno ao Piano. Entre belo e sublime, o último aconhego da manta antes de apagar a luz...

11 de fevereiro de 2005

em de-talhe

O RECONHECIMENTO BUROCRÁTICO
Em 2001, José Ramos, um 1º Sargento da Força Aérea P., foi a pedra basilar na torre de controlo da Base das Lajes, para que um A330, aterrasse em relativa segurança, após cerca de meia-hora sem combustível.
O trabalho do piloto é inquestionável, mas sem as orientações de José Ramos, fundadas nos seus cálculos de tempo, velocidade, distância e altitude, é praticamente certo que o aparelho se teria despenhado, e com ele, 300 pessoas perderiam a vida.
O reconhecimento do sangue frio deste militar, aconteceu 4 anos volvidos, sob a forma de um louvor da FAP, entregue friamente através da Secretaria da Base; sem honra nem glória, sem pompa nem circunstância.
Bem sabemos que era a sua obrigação, fosse militar ou civil. Mas será isto, remotamente comparável com o reconhecimento pelo Presidente da República, a 2 dúzias de inúteis armados ao pingarelho por se terem classificado em 2º lugar no Euro 2004, quase com honras de Estado?
Há qualquer coisa de errado e perverso nisto. Este país transpira por todos os seus poros este tipo de situações absurdas, revelando a total ausência de equlibrio que um país sóbrio e organizado deveria ter.

à tout propos (131)

As andorinhas já aí estão a anunciar a primavera, bem mais cedo do que estava acordado com a natureza há milhares de anos. A humanidade não está isenta de responsabilidades nesta quebra contratual...

em de-talhe

CO-INCINERAÇÃO
Perfeitamente absurda, toda esta discussão política em torno da co-incineração. A questão torna-se ainda mais absurda quando essa discussão passa à fase de decisão sem ter havido uma discussão séria a nível técnico.
Triplamente absurda quando toda a gente, com ou sem interesses, se manifesta políticamente, sem quaisquer fundamentos técnicos de suporte.