31 de março de 2005
em de-talhe
29 de março de 2005
25 de março de 2005
A hipertrofia agoniante do centro
De cada vez que vou a Lisboa, ocorre-me sempre pensar como a sua dinâmica parasitária conduz o interior a um processo agonístico, sem que o mesmo tenha sequer passado pela natural reacção ao potlach empreendido pela «megalópole». A periferia definha, numa dança triplamente agoniante em torno do(s) centro(s): o primeiro e primordial é Lisboa, a Grande; o segundo centro é a faixa litoral centro-norte; e a terceira ideia de centro surge numa escala infimamente mais reduzida, com a emergência de pitorescas e atrevidas cidades como Évora, Covilhã ou Viseu, que lutam em simultâneo pela sobrevivência e pela sua afirmação regional.
Pequenos centros como este terceiro nível, provocam exactamente o mesmo esgotamento da periferia, embora com o peso na consciência de um irmão do meio que dá um açoite no mais novo, imediatamente depois de a mão do mais velho de todos se ter estatelado ruidosamente na sua cara.
Assim, em escalas diferentes, a cartografia nacional do desenvolvimento obedece à prosaica lei da oferta e da procura, agudizada por um lado, pela demissão do Estado do seu papel regulador, e por outro pelo favorecimento do centro a partir das suas próprias dinâmicas internas, que se vão criando e recriando. Um circulo vicioso, uma pescadinha de rabo na boca a crescer sem termo num exíguo alguidar.
Mas há outra coisa que me ocorre, sempre que me desloco a Lisboa. Se não houvesse poder local (com todas as virtudes e vícios que cada Executivo possa contaminar para o interior da instituição), só existiriam, em bom rigor, duas cidades em Portugal, Lisboa e Porto, que continuariam os eternos arrufos, esses sim, provincianamente rivalistas: «eu sou melhor do que tu» e «não, não, eu é que sou a capital».
Se não somos assim no plano interno, porque razão e com que legitimidade havemos de reclamar dos primos europeus a sua solidariedade através de mais fundos de coesão, distribuídos sem lei nem roque como se tivessem sido produto de um saque?
22 de março de 2005
21 de março de 2005
19 de março de 2005
Movimento independente de cidadãos
O desenvolvimento das sociedades industriais pode conduzir a um maior envolvimento político das comunidades, em alternativa à participação convencional das eleições, da democracia representativa e dos partidos. Isso é comprovado pela emergência dos novos movimentos sociais. Neste caso em particular, impressiona, não uma ruptura com a representação ou os órgãos de legitimidade política, mas sim a rejeição do domínio dos partidos, muitas vezes desenquadrado das necessidades e especificidades locais. É, em parte, uma manifestação de rejeição do «centralismo democrático», o qual está presente no PCP mas também na forma de organização político-administrativa de Portugal (ainda que um pouco mais dissimulada). O epicentro é naturalmente o Terreiro do Paço.
18 de março de 2005
De finura em finura II
A divergência reportar-se-á à natureza «privatizavel» da empresa, a qual é decididamente incompatível com o projecto autárquico do PCP. Como se houvesse algum. De resto, é tão incompatível como nos casos de outros municípios comunistas que entraram em sistemas semelhantes, nomeadamente no Distrito de Setúbal.
Nesta matéria, como em tantas outras, sabemos perfeitamente como as câmaras não dispõem nem têm que dispor de know how especializado, em particular em áreas residuais pela pontualidade de que se reveste.
Mais, também sabemos que uma hipertrofia do sector público estagna a dinâmica económica preferivelmente centrada no sector privado.
Mais ainda, estatutariamente, não é possível a um privado deter uma posição maioritária na empresa, pelo que por princípio, esta nunca sairá do controlo do sector público.
Nesse caso, do que se queixa o PCP?
Acontece que o PCP não convive muito bem com a liberdade individual, com a reflexão crítica e enfim, com o sistema democrático que ajudou a conquistar. E isso vê-se nas estruturas internas do partido, na organização disciplinadora onde o condicionamento é da mais fina textura. Confesso-me incrédulo sempre que vejo jovens comunistas a reproduzirem acriticamente postulados perfeitamente discutíveis e frágeis do ponto de vista lógico-argumentativo.
Não obstante, eis a curiosidade desta novela, e que talvez os mais distraídos desconheçam, são as habituais performances eleitorais que alguns partidos levam a efeito. A este respeito, o PCP não é excepção e em plena campanha eleitoral os candidatos a deputados pelo distrito de Évora, liderados pelo cabeça de lista Abílio Fernandes, estiveram nas instalações da Câmara Municipal de Redondo a fazer campanha eleitoral, acompanhados pelo Executivo camarário que supostamente seria indigno da confiança política do PCP.
A comitiva percorreu todas as instalações municipais, cumprimentou funcionários, demorou-se com explicações sobre o estado actual em que as forças vampiras tiram o pão da boca às criancinhas portuguesas que definham com fome, o monopólio do capitalismo, os barões e a exclusão, etc., etc.
Por fim, importa reter alguns marcos relativamente interessantes que não esgotam o universo de circunstâncias que en passant foram deteriorando a relação: o arranque deste processo das águas (em que o Município de Redondo – leia-se a população – saiu claramente beneficiado em relação ao processo intermunicipal alternativo advogado pelo PCP) é de finais de 2001; as autárquicas tiveram lugar em Dezembro do mesmo ano; o Congresso do PCP em que Alfredo Barroso e Lopes Guerreiro são apupados pela JCP pelas suas posições é de finais de Novembro de 2004; a visita habitual dos candidatos comunistas, presumivelmente indiciadora de um clima institucional normal é de 10.02.05; as Legislativas em 20 desse mês e a ruptura oficial que se dá somente em 11 de Março, curiosamente um verdadeiro «dia-bomba» (Madrid, 11-03-04).
Tirem as vossas conclusões…
A inocência de Sampaio
Admira a reacção quando estamos a falar de um homem que foi eleito directamente em sufrágio universal pelos portugueses, portanto com enormes responsabilidades e supostamente uma das pessoas melhor informadas (dentro da matriz sociológica) acerca das realidades do país.
Mas, pergunto-me eu, o que se esperaria de um país em que metade da população não sabe interpretar uma notícia de jornal, onde subsistem hábitos de higiene duvidosa como cuspir para o chão ou atirar lixo para a via pública e indiscriminadamente em qualquer local ou ocasião?
O que se pode esperar de um país onde se levantam milícias populares sem fundamentos remotamente aceitáveis, se mata o vizinho numa disputa de 5 m2 de terra?
O que se pode esperar de um país em que a tradição é confundida com resquícios autoritários, onde se mata o cão do vizinho com veneno dos ratos, para não falar de espécies selvagens protegidas, apenas por «desporto»?
O que se pode esperar de um país com uma das mais elevadas taxas de corrupção da União Europeia (à frente da Grécia, Itália e alguns dos novos membros resultantes do alargamento a Leste), em que o sistema de 1 produto-2 preços é generalizado e totalmente às claras: «Se quer recibo vou ter que lhe cobrar o IVA, não sei se me faço entender...»
O que se pode esperar de um país em que se estima para cima de 500 000 o número de alcoólicos ou que não se incomoda com a crescente morte social diagnosticada? Onde há e sempre houve portugueses de primeira e de segunda? Ou onde o período de prisões preventivas pode ultrapassar os 2 anos? E onde os médicos continuam a comportar-se como se ainda prevalecesse a norma patriarcal?
O que se pode esperar de um país que de rompante é confrontado com uma série de profissionais melhor preparados, com mais qualificações e vontade de trabalhar, que certamente colocam em causa o status quo dos autóctones, o seu modus faciendi?
O que se pode esperar de um país em que os seus próprios emigrantes nunca tiveram a humildade de reconhecer as míseras condições de existência em bairros de lata nos arredores de Paris, Geneve ou Bruxelles, nos idos de 60?
Podíamos ficar aqui eternamente. E em matéria de classificação no campeonato da tolerância, devemos ressalvar que os nossos objectivos nunca podiam passar pela conquista do título. Não parecem haver condições, falta estofo…
Finalmente, admiram também as «oportunas» tiradas de Sampaio sempre que acontece algo de novo na sua vida, como se fosse uma vela triangular à bolina.
Lacuna tecnológica
E pronto, foi dada a desculpa, fiquemos por aqui e pela malfadada ironia.
Nem a propósito, é também contra a desculpa balseira e desresponsabilização que o governo deve actuar: verifica-se um erro, quanto muito uma desculpa forjada ou o tradicional escorrer de água de sucessivos capotes e, por fim, a redenção, seguramente «ultrapassada» numa semana com o tradicional «errar é humano»; será por fim, nostalgicamente contada numa alegre noite de consoada aos filhos, sobrinhos e netos. Já vi este filme vezes sem conta.
Um programa de governo não é um documento qualquer, não se trata de um simples oficio ou de uma newsletter. E não é que a falha seja irreparável ou com danos directos na vida das pessoas (como a colocação dos professores). Mas a competência das pessoas também se comprova pela capacidade de previsão e nesse campo, os responsáveis pelo envio revelaram parcas virtudes. E apenas pelo seguinte: a rede pode não comportar o excessivo peso da informação, podem suceder quebras de rede e o servidor ir abaixo. E neste particular, o governo não pode cometer erros, é a sua imagem de marca.
Isto faz lembrar aqueles trabalhos de alunos universitários, que não contando com a típica avaria da impressora ou do computador bloqueado, vêem os derradeiros minutos do limite de entrega do trabalho, transformados numa azáfama inconsequente e pouco sóbria. Mas o professor aceita a desculpa e a coisa passa. Mas são alunos, convém não esquecer. Aprendizes.
No governo não. É gente madura, experiente, avisada e rigorosa…
Em suma, três dias antes, já o programa de governo deveria estar imprimido, copiado, salvo em 30 CD-ROM’s e preparado para entregar em mão às forças políticas com assento parlamentar. Portanto, não aceito a desculpa.
Mas justiça seja feita ao programa do governo: também por estas é que se exige um choque tecnológico que traga eficácia aos nossos sistemas de informação e comunicação. Desde que não se ponham com ideias dissimuladas mas convergentes com ideias criticadas num passado não muito distante (e.g. central de comunicação sob controlo do Estado).
17 de março de 2005
à tout propos (150)
Isto é brilhante. Não há mais nada de digno de realce na actualidade portuguesa. Vivemos bem, o mundo está bem de saúde. Por isso, entrevistam-se médicos de equipas de futebol.
A entrevista continua
15 de março de 2005
De finura em finura
em de-talhe
14 de março de 2005
A metamorfose de Freitas
Porém, de todos esses factos e por força das circunstâncias em que ocorreu, há um que se reveste de anunciada relevância: a nomeação de Diogo Freitas do Amaral para Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
Muito para além de um «prémio» pela recente e declarada apologia ao PS durante a última campanha eleitoral, a nomeação de Freitas do Amaral é sobretudo uma aposta na qualidade e na experiência, no rigor e na competência.
Podemos presumir que, em primeiro lugar, procura representar no plano externo, a imagem de um governo que se exige credível, competente e empenhado em restaurar a confiança dos portugueses e nos portugueses, consolidando as contas públicas, qualificando a população, melhorando os índices de produtividade e competitividade. De resto, convém alertar, a estratégia de um «choque tecnológico», o relançamento da economia e o recuo significativo do desemprego não são possíveis sem a captação de investimento externo.
Perante a nova missão em concreto, é incontestável o imenso capital simbólico e empírico de que goza internacionalmente Freitas do Amaral. Este sólido capital vem-lhe tão-só da forma séria e rigorosa por que sempre pautou a sua actuação política, em particular nos cargos que assumiu como Presidente do CDS, Ministro dos Negócios Estrangeiros (1980), Ministro da Defesa Nacional, Vice Primeiro-Ministro (1980-82), Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (1981-83) ou mais recentemente, como Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas (1995-96).
Quanto à aparente deriva ideológica que terá protagonizado, há um aspecto crucial que não pode ser escamoteado: após 42 anos de um regime autoritário de direita, não havia nos anos sequentes à revolução de Abril, espaço ideológico à direita no espectro político-partidário português. O CDS de 1975 (Partido do Centro Democrático Social) surge claramente como um partido do centro e isso é visível nos princípios orientadores do partido. Aliás, todos os outros eram de esquerda e isso ainda hoje confunde os sociais-democratas europeus.
Sadiamente para a democracia portuguesa, o tempo apaziguou a memória e actualmente podemos afirmar com poucas reservas que o universo político-partidário português recobre as diversas sensibilidades ideológicas. E essa é uma benéfica conquista de Abril, sem a qual, nenhuma democracia tem condições para ser consolidada.
Talvez Freitas do Amaral tenha apenas permanecido fiel a um modelo de pensamento, valores e intervenção política, não se revendo na direita conservadora e para alguns, populista, em que derivou o partido liderado por Monteiro e Portas. Daí o gradual e anunciado afastamento de Freitas do Amaral em relação ao partido que fundou.
Terá sido isso que a liderança do CDS-PP não compreendeu quando, de forma algo intempestiva, decidiu «despromover» Freitas do Amaral, remetendo a sua fotografia para a sede do PS.
Por outro lado, a sua polémica aparição em manifestações falaciosamente conotadas com a esquerda radical (e.g. manifestação de oposição à invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas), revela tão-somente a sua congruência pessoal com os valores democratas e humanistas por que se norteia – num exercício activo de cidadania e para além das clivagens entre esquerda e direita – e com as resoluções emanadas da ONU, entretanto violadas arbitrariamente pelos EUA.
Por isso, mais do que «anti-Bush» ou «Anti-EUA», Freitas do Amaral é inequivocamente um defensor dos valores da democracia e da convivência decente entre os povos, à luz do direito internacional. E também isso não podia deixar de ser certamente considerado por Sócrates, no momento da sua decisão.
A comprometedora renovação no Redondo
Independentemente das suas razões (lá as terá), o Comité Central arrisca perder mais uma câmara no Alentejo, sendo certo que as lógicas de fidelização local não podem ser ignoradas (com Barroso, saiu a concelhia em peso).
Caso Alfredo Barroso, venha a formar uma lista independente ou concorra com o apoio tácito de outro partido (como é espera, em particular no primeiro caso), o PCP põe em risco todo o concelho do Redondo.
Não se percebe.
12 de março de 2005
Tomada de posse do XVII Governo Constitucional
Esta demonstração popular é seguramente concebida num quadro de particular inquietação colectiva, que foi emergindo de uma crise que deixou há muito de ser estritamente enquadrável nas tendências da economia globalizada. A crise é essencialmente portuguesa! Nessa exacta medida, o caminho do XVII governo é espinhoso sendo a natureza do compromisso extraordinariamente exigente, mesmo para quem possua o Joker da maioria absoluta.
E talvez um primeiro desafio, intimamente ligado com a afirmação de José Sócrates, se prenda com a durabilidade do governo, ou seja, no paradigma em que vivemos actualmente, não é razoável assegurar estabilidade económica sem estabilidade política. Vamos para o 5º Governo em 10 anos.
Contudo, para enfrentar os desafios que se lhe colocam, o novo governo deve ser capaz de definir vectores estratégicos que permitam concretizar o seu modelo de desenvolvimento. Mais do que simples apostas eleitoralistas, têm que reflectir uma visão estratégica que resulte num apport estruturante para o país. E essas parecem ser cada vez mais claras. Falamos evidentemente do desenvolvimento sustentável, em que as energias alternativas ocupam um lugar de relevo como forma de combater a crónica dependência energética. E falamos também da aposta (tardia) nas tecnologias de ponta e na mão-de-obra qualificada, que fixe investimento externo atraído pela competitividade e excelência da qualidade, e não pela mão-de-obra barata. Essa não pode continuar a ser a estratégia de Portugal. Energia, educação e tecnologia.
Na verdade, o que ficou da «paixão pela educação» de Guterres ou do «choque fiscal» de Durão? Em bom rigor, há na nossa história governativa recente, marcos que balizam acontecimentos, como a entrada na CEE, o lançamento de obras públicas, a Expo 98 ou o Euro 2004, sem que daí tivesse resultado um investimento estruturante com consequências transversais a todos os sectores da sociedade. Basta olhar para o que «fica» de apostas exemplarmente sólidas como a da Irlanda – atracção de investimento externo a par da aposta na formação – ou da Finlândia – aposta na tecnologia de ponta, da qual as telecomunicações são o expoente máximo.
Com certeza que isso não é possível com reformas sucessivas na educação, ao sabor das mundividências de cada um dos incontáveis ministros. Qualquer reforma na educação não pode ser dissociada do incremento da qualidade e da transição coordenada entre os diversos níveis de ensino. Mas para isso há que acabar com os vícios das academias, e responsabilizar alunos e professores. Não é possível continuar com as altíssimas taxas de iliteracia que atingem inclusive alunos do ensino superior. Por outro lado, a competitividade não se compadece com um país de doutores e engenheiros mal preparados nuns casos, desfasados das reais necessidades do país, noutros. E nada disso se faz sem investigação séria, apoiada pelo Estado e progressivamente disseminada pelo sector privado.
Por outro lado, um país com fracos recursos como Portugal não se pode dar ao luxo de fomentar uma economia paralela que não contribui mas é parte na redistribuição. Nenhum governo teve coragem para isso. E basta recordar o polémico afastamento do malogrado Sousa Franco em 1999. Há, neste país, demasiadas pessoas que reivindicam sem qualquer legitimidade e uma das tarefas de Sócrates será justamente legitimar as reivindicações de todos os portugueses sem excepção.
De outro modo, é um facto incontestável o excessivo peso da máquina da administração pública e o que representa em encargos para o país. Não só deve emagrecer como passar pela redefinição do modelo burocrático, assente no tipo ideal de racionalidade legal-autoritário. Este modelo é datado e foi construído com base em outros alicerces. O mundo mudou, as necessidades e exigências das pessoas mudaram, desafiando a capacidade de intervenção e regulação do Estado.
Tal como o Estado deve ver o seu peso na sociedade diminuído, assim o interior exige que as autarquias deixem de ser o principal empregador das comunidades, isoladas na luta contra a desertificação. Este é apenas um sintoma. Apesar de unificados por uma língua, valores e cultura, os portugueses continuam porém a estar assimetricamente divididos em termos de desenvolvimento regional.
Não se justifica a observância da hipertrofia congestionante do litoral, com todas as agressões ao meio ambiente, à qualidade de vida e ao definhamento progressivo do interior. E aí, sejamos claros. Ou se avança para o empowerment local ou se altera de uma vez o disposto no n.º 1 artigo 235º, Título VIII, Cap. I da Constituição da República Portuguesa. Não se referenda a implementação daquilo que já está constituído constitucionalmente.
Finalmente, exige-se ao novo executivo que governe pelo, para e com o país e não para o lado. É com isso que contam os portugueses, é aí que reside a nossa esperança.
11 de março de 2005
os deuses também já foram homens
El fin de año huele a compras,
enhorabuenas y postales
con votos de renovación;
y yo que sé del otro mundo
que pide vida en los portales,
me doy a hacer una canción.
La gente luce estar de acuerdo,
maravillosamente todo
parece afin al celebrar.
Unos festejan sus millones,
otros la camisita limpia
y hay quien no sabe qué es brindar.
Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a tí te la entrego,
que no tienes ninguna.
Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.
Tener no es signo de malvado
y no tener tampoco es prueba
de que acompañe la virtud;
pero el que nace bien parado,
en procurarse lo que anhela
no tiene que invertir salud.
Por eso canto a quien no escucha,
a quien no dejan escucharme,
a quien ya nunca me escuchó:
al que en su cotidiana lucha
me da razones para amarle:
A aquel que nadie le cantó
Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a ti te la entrego,
que no tienes ninguna.
Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.
Silvio Rodriguez
à tout propos (148)
8 de março de 2005
à tout propos (147)
7 de março de 2005
O fenómeno «Picarodinhas»

Eles estão por todo o lado, podemos vê-los em qualquer canto do país. São os veículos «Picarodinhas». Há quem os chame «pica-rodinhas» mas o certo é que são um verdadeiro fenómeno de marketing artesanal, fortuito e um pouco brejeiro. Porém, vende!
6 de março de 2005
em de-talhe
O «bigode» português

O «bigode» português é um retrato do Portugal sisudo e carrancudo que marcou sucessivas gerações de portugueses. É um tipo de bigode que parece durar sempre, alérgico à mínima corrente de ar que o possa despentear. É certo que há bigodes e bigodes mas o típico português ama o fado e assim, melancólico, jamais sucumbirá às pressões da novidade (ver foto). Ama Portugal, as sandes de couratos, o Benfica, os brandos costumes e o seu maior desejo é que os seus filhos sejam como ele, tal como ele munca se desviou um milímetro daquilo que já era o seu bisavô.
3 de março de 2005
Movimento reformador do direito canónico
Ode ao desenvolvimento sustentável do litoral de Sanches

Prevenção ex post facto
2 de março de 2005
à tout propos (146)

1 de março de 2005
Usança mui antiga, a da chibata
à tout propos (145)
em de-talhe
28 de fevereiro de 2005
à tout propos (144)

O Portugal boçal de Saldanha Sanches
É lamentável o conteúdo da entrevista, lamentável a defesa do mais profundo, aberrante e retrógrado conservadorismo, da mais desviada noção de desenvolvimento económico e equilíbrio social de um país, e revelador da atitude mais nociva a qualquer ideia de integração, da qual, a União Europeia é o principal garante.
Também importa lembrar ao Sr. Sanches, que é também do litoral a maior fatia de responsabilidade do desordenamento do território, do desrespeito pelas normas ambientais e pelo mais que previsível desrespeito pelo Protocolo de Quioto, assim como o esvaziamento do interior que ele despreza de modo tão rude.
Óscares
Ainda há quem passe em claro essa noite «mágica», para ver um espectáculo fastidioso, no qual não é o mérito que conquista as estatuetas mas sim o amiguismo, as opções políticas encorajadas e sobretudo, o show biz.
Este é, por excelência o mundo do consumo mediatizado onde são ensaiadas as melhores armas de marketing económico e político, fazendo deste, um produto directamente ligado ao condicionamento implícito de massas. Curiosamente, um fenómeno amplamente estudado por americanos.
Só assim se percebe o posicionamento político de todo um país com nefastos efeitos externos, quer no plano ambiental quer no plano cultural; só assim se entende o melhor exemplo de sociedade coisificada, ao nível da consciência feliz marcusiana, debaixo da capa da mais velha democracia do mundo e por isso, acima de qualquer suspeita; só assim se compreende que um filme vencedor seja baptizado com o corriqueiro nome «Million Dollar Baby», realizado por um realizador que não se conseguiu desembaraçar do nível que o balizou enquanto actor.
em de-talhe
25 de fevereiro de 2005
em de-talhe

Ontem, a Antena 1 deslocou-se a Redondo para emitir em directo da Sociedade Harmonia e Progresso Redondense, a apresentação do último album do Vitorino. A ocasião justificou a visita de dezenas de populares, ansiosos por ver e escutar a emissão da RDP. A In Tenui Labor esteve lá para assinalar o momento. E foi com algum esforço... pois já há pouca pachorra para lidar com a extrema modéstia da «estrela» redondense.
24 de fevereiro de 2005
à tout propos (142)
Instruções:
1) Entrar no site abaixo clicando no link.
2) Clicar na foto e arrastar para cima ou para baixo, para a direita ou esquerda, e LARGAR.
23 de fevereiro de 2005
à tout propos (140)
http://boi.geness.ufsc.br/videos/dm9ddb.wmv
à tout propos (139)
à tout propos (138)
em de-talhe
22 de fevereiro de 2005
à tout propos (137)
à tout propos (136)
à tout propos (135)
Sinopses eleitorais
Em segundo lugar, travando todas as tendências abstencionistas, os eleitores portugueses inverteram uma tendência que se começou a fazer notar com preocupação a partir de meados da década de 80. E este é talvez o segundo facto com maior interesse nas eleições de dia 20. Os altos níveis de abstenção, seja em democracias consolidadas ou recentes, são talvez o principal indicador de natureza legal que comprova e alimenta a crise das instituições políticas e do modelo democrático. A participação convencional assim como a heterodoxa, são imprescindíveis para a qualidade das democracias.
Para além da vitória do PS, importa salientar o extraordinário desempenho do BE e surpreendente volte face da CDU. Pessoalmente, já lhes tinham dado a extrema unção. Enganei-me, pelo menos por agora. Também beneficiaram da deriva à esquerda, apesar de, dos três partidos, talvez tenha sido o BE quem mais trabalhou para ela.
Portas esteve bem, assumindo as responsabilidades. Santana… igual a si próprio, já a pensar com o sangue na guelra, no seguinte devaneio, cujos danos colaterais ainda não suspeitamos. Cavaco, em particular, está na mira.
Falava-se hoje do Presidente da República, que viu a sua decisão ser comprovada pelo povo. Continuo sem concordar com o timing das suas decisões, e justifico-o apelando à deserção política de um Primeiro-Ministro mandatado pelo povo português e ao qual não deu cavaco (em posts anteriores pode ser seguida a restante linha de argumentação, que aqui não vou repetir). Pura ambição pessoal e nisso, é farinha proveniente do mesmo saco onde desencantaram Santana. Se Sampaio o fez por amor ao PS, é condenável. O certo é que abriu um grave precedente porque a Dissolução da Assembleia, ainda que debaixo da capa do «normal funcionamento das instituições», foi decidida no nebuloso âmbito da subjectiva avaliação de «falta de credibilidade» de um governo… Foi essa a sua vaga explicação, que redundou num enormíssimo torcer de nariz nacional. E sem embargo, já sonhávamos com esse dia 30 de Novembro...
Finalmente, o Cavaquistão caiu. Alarmante a natureza leiriense… Como previra em Esclarecimentos Eleitorais – entre Évora e Leiria, naquele distrito do centro, a luta iria disputar-se por um deputado: PS ganhou 1 e PSD perdeu 1 (em relação a 2002). Quanto ao BE, também se verificou a sua maior votação relativamente à CDU (mais 1 ponto percentual), incapaz de chegar aos imensos operários fabris do distrito de Leiria.
Em Évora, muito mais previsível, com a única dúvida que restava a ser desfeita em favor da CDU. Ainda assim, é curioso notar como o candidato comunista, antigo Presidente da Câmara de Évora, deve a sua eleição a concelhos rurais do distrito e não no concelho de Évora, ao qual presidiu durante 25 anos.
21 de fevereiro de 2005
Awakening from a nightmare
20 de fevereiro de 2005
19 de fevereiro de 2005
em de-talhe
Como é do conhecimento geral, há um tipinho - Bandido Original - integrado numa corja pestilenta mais ampla, tem como hobbie espremer as suas gordas borbulhas em blogues decentes como este.
Este Sr. Bandido colocou há dias um comentário no meu humilde espaço democrático e dialógico, no qual (como em outras ocasiões), insiste com parábolas diletantes e dogmáticas como a que passo a citar.
Diz ele, num português prosaico e arrastado:
«O Bloquistas, ou seja, os apóstolos da UDP, do PSR ou da Politica XXI, sabem o que são?Ou sequer o que querem?A vossa raça de bombeiros, os chicos espertos apaga fogos, que nem fazem ideia da razão pela qual o fogo começou, proferem brilhantes discursos intelectuais na altura de apagar o fogo, mas é só!É mesmo só isso, discursos!O Bush tambem os tem, e tambem os sabe proferir...Coitados...»
Para além disto não fazer qualquer sentido, importa fazer dois ou três reparos que se pretendem revitalizadores daquele cérebro empedernido:
1. Mas onde é que aquele senhor ouviu aquela do Bush saber discursar? Se ele chama qualidades oratórias a um balbuciar atabalhoado de fórmulas simples indiciadoras de condicionamento explícito... O homem nem tem discursos nem sabe falar, ponto. Para quê comparar a feira de Borba com o cú das calças? Isto, por si só, é demonstrativo da enorme confusão que vai naquela pequena noz...
2. Uma pergunta a esse indivíduo: mas onde é que radica essa sua obsessão com as minhas opções políticas? Isso interessa-lhe para quê? Desconfiará porventura que sou algum dissidente que importa controlar? Serão isso tiques da vossa «cultura democrática»?
3. Uma sugestão a esse sujeitinho: que leia, fashavor e se tal não lhe for exageradamente penoso, qualquer coisa como, por exemplo, Para Além da Esquerda e da Direita (Anthony Giddens). O conselho é didáctico e pode vir a revelar-se-lhe bastante útil.
Rogo-lhe finalmente, que não se ponha com as infantilidades do costume a dizer que «isso é terceira via, blá, blá, blá, e que o Estaline vem-nos buscar, blá, blá, blá».
Que esse senhor passe bem e acolha com humildade as sugestões que generosamente lhe dirijo.
17 de fevereiro de 2005
O eleitor indeciso
à tout propos (133)
A memória de Nuno Rogeiro
O famoso e imparável enciclopedista português Nuno Rogeiro, assina um texto – Nada Disto aconteceu – no DN, no qual recorda aos portugueses alguns episódios da governação PS.
Para além do evidente mérito da memória, este eminente e galopante «intelectual postador de pescada» tem igualmente a destreza da leviandade. Mas eu também! Por isso, sem recorrer a arquivos e escrito em 22 minutos, contribuo também com o meu chorrilho de factos, apesar de não dispor como ele, de direito de antena.
A saber
- Aumento vertiginoso do desemprego com o seu apogeu (até ver) em Dezembro de 2004;
- Saída de capitais para o exterior, nomeadamente através da deslocalização desenfreada de empresas;
- Incapacidade em conter (pelo menos) o défice das contas públicas, mesmo com o recurso a receitas extraordinárias e aumento de impostos directos como o IVA;
- Análise negra do estado da economia pelo mesmo Cavaco Silva e por diversos economistas nacionais e estrangeiros;
- Perda acentuada de poder de compra dos portugueses;
- Análise negra do estado da política por Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Pacheco Pereira, Mário Soares e outras personalidades, alinhando todos no mesmo diapasão quanto à escandalosa incompetência dos actuais governantes;
- Alienação ao desbarato do pouco património imobiliário do Estado que resta;
- Polémica risível e absurda em torno do «Barco do Aborto»;
- Total desrespeito pelas deliberações da ONU e a vergonhosa posição assumida na «Cimeira da Guerra» (Base das Lajes);
- Planos de combate à evasão fiscal assentes na teoria da isenção fiscal…
- Continuação das ligações perversas ao mundo do futebol, envolvendo maioritariamente autarcas e militantes sociais-democratas;
- Afastamento da magistrada responsável exactamente pela condução dos processos relativos à perversidade do mundo do futebol;
- Rejeição da co-incineração sem esboçar uma alternativa técnica, económica e socialmente equilibrada;
- Quedas sucessivas de ministros e episódios lamentáveis como a colocação dos professores, a assunção do «Estado Católico», o agravamento das listas de espera nos hospitais, as contas no estrangeiro em nome de sobrinhos taxistas, os anúncios delirantes como a ida de professores para os tribunais, desconcentração circence de algumas Secretarias de Estado; duplicação do número de guarda-costas em relação ao anterior Primeiro-Ministro e generalização despesista de polícias e seguranças pelos diversos ministérios;
- Tragédias sucessivas no combate e prevenção de incêndios, em parte devidas ao desinvestimento em limpeza de matas, vigilância e coordenação de meios; aumento do número de mortes nas praias, acompanhado dos cortes orçamentais na vigilância das mesmas;
- Insistência na construção do Túnel do Marquês, «contra ventos e marés», desprezando os pareceres técnicos e dispensando a elaboração de um estudo de impacto ambiental;
- Tentativas de ingerência na RTP, na Assembleia Geral da CGD, na TAP, Cruz Vermelha Portuguesa, etc.;
- Agravamento inclassificável nas contas municipais da capital, seguido de desresponsabilização;
- Filosofia de miséria na RTP, levando o serviço público à quase morte, apenas adiada pela mobilização de jornalistas e sociedade civil;
- Expectativas de aumento do interesse dos cidadãos pela política, mobilizados para correr com o actual governo (o desinteresse, Sr. Rogeiro, é transversal às várias democracias, como o Sr. bem sabe, mas escamoteia);
- Tentativa dissimulada de calar comentadores políticos incómodos;
- Deserção imperdoável de um Primeiro-Ministro mandatado por 4 anos pelo povo português, após a derrota nas eleições europeias;
- Estado geral de guerra civil dentro do Governo (com sucessivas apunhaladas), demissão de ministros, vítimas de traições e intrigas palacianas.
Enfim, nada disto foi um sonho… E a minha memória não é, decididamente tão boa como a de Nuno Rogeiro.
«Não penses muito que te cansas» (ARV) Filantropo alentejano e contas não são o meu forte.













