28 de abril de 2005

Antes só que mal acompanhado

Se antes do governo português se envolver, o jovem Ivo tinha uma certeza: a de não se livrar de uma pena inferior a 5 anos de prisão por consumo de haxixe no Dubai, agora, arrisca-se bem a apanhar prisão perpétua...
Por causa duns charros!?
Se o governo português quer ajudar os seus cidadãos em situações como estas, talvez seja útil divulgar uma lista das molduras penais dos vários países. E talvez aconselhar a não visitar países onde a justiça (à luz dos preceitos ocidentais) não existe ou é incipiente; em que os Executivos dos governos se confundem com familias e/ou líderes religiosos; onde haja guerra; ou ainda, onde a população é claramente mentecapta.
Resta um punhado de países...
PS: a resposta do Embaixador em Riade (esses mesmos que vivem luxuosamente em qualquer parte do mundo) à mãe do rapaz é extraordinária. O homem não faz mais do que jogo político, alegando incapacidade para fazer o que seja em virtude da falta de meios humanos e materiais. Imbecilmente maquiavélico.
Para utilizar uma expressão em registo bonapartiano, «comigo ia já de vela em mar alto... com uma âncora de 1 tonelada presa ao pé».

... que mal acompanhado

27 de abril de 2005

Antes só...

Confesso que não compreendo a estratégia eleitoral para as autárquicas do PS ao ponderar sequer alianças com forças a decrescer eleitoralmente em espaço urbano.
Este vazio estratégico do PS, revelador da não convergência com o«projecto» autárquico do PCP, terá ditado a perda de confiança política dos segundos pelos primeiros. O PCP é um partido muito desconfiado, em matéria de confiança política...

25 de abril de 2005

25 de Abril de 1974



31 ANOS

Passados 31 anos sobre esse marco histórico que consagrou liberdades, direitos e um regime democratico constitucional, ainda não é possível medir em toda a sua extensão o impacto que teve e terá na vida dos portugueses.

Se olharmos retrospectivamente as mudanças, notamos com satisfação como a vida dos portugueses mudou substancialmente para melhor e como a própria idiossincrasia nacional tende a esboçar uma leve superação do quadro tradicional hierárquico, miserabilista, fatalista e apático. Outras mudanças ocorreram, ditadas em grande parte pela própria dinâmica das sociedades contemporâneas, urbanas e industriais. Em relação a essas é frequente ouvir os lamentos saudosistas de alguns que confundem aquelas dinâmicas (transversais a todas as sociedades no mesmo «estádio evolutivo»), com a defesa da autoridade do Estado e do padre, e do Cabo da GNR e da paulada, também.

Relativamente a esse último aspecto, basta observar como o Bloco de Leste foi sendo «esfarrapadamente» contido até chegar a um ponto em que tal não era mais possível. Do lado de lá da cortina, as pessoas não estavam a dormir. A questão chinesa e a norte coreana são bem mais complexas, do ponto de vista cultural e até geográfico.

Mas, passados 31 anos após o 25 de Abril de 1974, é impressionante constatar a sobrevivência de grupos de indivíduos que continuam a legitimar todas as suas acções e comportamentos (independentemente da sua razoabilidade), à sombra de Abril e daquilo que este acontecimento não foi, não é nem nunca será.

Da mesma forma como subsistem laivos da soberba e «superioridade» presente nessas pseudo-elites cujo status quo foi posto em causa, nalguns casos, esventrado. As mesmas que não suportam o novo-riquismo, as mesmas que refulgem venenosamente com expressões do tipo «hoje, já qualquer pé rapado tem um bom carro».

É apenas da democracia que se trata! Mais do que um projecto político, a democracia tem que se afirmar como uma concretização social, económica e até ambiental. É apenas isso que se celebra, com a mesma satisfação pelo grosso dos portugueses.

24 de abril de 2005

Crise?



CONSULADO PORTUGUÊS EM SEVILLA
Nada mau, para um país em crise, manter consulados em luxuosos palacetes no centro de Sevilla, junto à simbólica e grandiosa Plaza de España. Mas não é propriamente este aspecto que mais interessa, é apenas um imóvel.
Todavia, aquela singela mas denunciadora fronte leva-me a imaginar as exóticas recepções que o Sr. Cônsul fará naquele espaço, os banquetes com iguarias requintadas e os funcionários atarefados a estacionar as humildes limusinas dos convidados. Longe de Portugal está-se tremendamente bem. Quanto mais longe, melhor. Aquilo é que era vida para mim...

21 de abril de 2005

Que arquitectura eleitoral?

A actual intenção de restringir o número de mandatos é apenas a ponta do iceberg que tem como pano de fundo uma reforma eleitoral há muito adivinhada. Sob o argumento de aumentar a proximidade dos eleitores com os seus representantes (apesar de, até 2001, as autárquicas serem sistematicamente o segundo acto eleitoral menos participado, atrás das europeias), é defendido por alguns a substituição dos actuais círculos plurinominais pelos círculos de representação uninominal.
?

Como se sabe, o nosso sistema eleitoral foi gizado com a preocupação de garantir a representação de todas as tendências políticas significativas e da maior proporcionalidade na conversão de votos em mandatos. Fruto do trauma original salazarista, essa seria a forma engendrada, grosso modo, para impedir a formação de maiorias monopartidárias e garantir o respeito pelas minorias. Por conseguinte, o apuramento de mandatos nas legislativas organiza-se em torno dos 22 círculos plurinominais, que elegem deputados consoante a proporção dos eleitores de cada círculo. Por seu turno, a fórmula de conversão de votos em mandatos é certificada pelo método de Hondt e visa garantir a mencionada representação proporcional (RP).

Para uma observação mais de-talhada, importa reter das chamadas Leis Duverger, a 1ª e a 3ª, que dizem respectivamente o seguinte: a representação proporcional conduz a um sistema de partidos múltiplos, rígidos e independentes e, o escrutínio maioritário a uma só volta leva ao dualismo de partidos.

Se a 3ª Lei não levanta grandes dúvidas, o mesmo não sucede com a 1ª. Na verdade, a 1ª Lei é imediatamente posta à prova pelas oscilações eleitorais posteriores a 1974 (maiorias relativas, maiorias absolutas monopartidárias e negociadas).
Com efeito, a tendência de polarização partidária verificada recentemente reforça a nossa dúvida quanto à 1ª Lei Duverger. E sobretudo a partir de 1987, essa tendência dualista começa a ser transversal a quase todos os círculos, à excepção de Braga, Lisboa, Porto, Santarém e Setúbal; comprovada também pela formação de maiorias absolutas monopartidárias em 87, 91 e 2005 (a somente 1 deputado em 1998).

Em 2002 apenas 5 dos 20 círculos eleitorais (excepção aos 2 círculos dos emigrantes) elegeram deputados provenientes de 4 ou mais partidos, tendo esse número diminuído em 2005 para 4 círculos. São, portanto, os maiores círculos a conseguirem salvaguardar ao nível regional a RP.
Não obstante, nem só a dimensão dos círculos (em número de mandatos) contribui para tais ecologias e matrizes partidárias. Excepcionalmente, o distrito de Évora, por exemplo, viu os seus 3 representantes ficarem equitativa e proporcionalmente distribuídos pelo PS, PSD e CDU.
Por aqui se vê que a dimensão dos círculos, por si só, não é conditio sine qua non que nos leve a concluir com rigor que o bipartidarismo cresça vis a vis com a diminuição do número de mandatos a atribuir, apesar de a relação ser intensa. No caso de Évora a RP funcionou mas na maioria dos círculos pequenos o efeito aglutinador dos grandes partidos, a escassez de mandatos e o cenário de votos «desperdiçados» tendem a projectar a polarização partidária.

Assim, para além da fórmula eleitoral e tipologia dos círculos, temos duas ordens de factores que, quando conjugados, são susceptíveis de condicionar directamente a representação partidária na Assembleia da Republica: a dimensão e circunstâncias políticas particulares; mas trata-se de uma conjunção que dificilmente se aplica aos círculos mais pequenos, em virtude dos factores enunciados no final do parágrafo anterior.
Por outro lado, o método de Hondt não ajusta proporcionalmente os votos aos mandatos, tende a distorcer a realidade em virtude da prioridade à média mais alta, favorecendo os partidos mais votados. Para se que se tenha uma ideia, o Bloco de Esquerda dispõe de 3,48% dos mandatos e 6,38% dos votos, enquanto o PS tem 45,05% dos votos e 52,17% dos assentos parlamentares.

O dilema que se coloca é o seguinte: sabendo que actualmente a RP é garantida pelos grandes círculos (Lisboa, Porto, Braga e Setúbal), e que os círculos uninominais (de escrutínio maioritário) ou mesmo os pequenos círculos plurinominais tendem efectivamente à bipolarização e ao favorecimento dos grandes partidos, como será possível manter a ideia da proporcionalidade expressa constitucionalmente? Mesmo sabendo que o pluralismo pode emergir intra-partidariamente (no seio dos grandes partidos, como nos EUA ou no Reino Unido), uma vez escrutinados, os deputados são eleitos pela nação e portanto, não vinculados a interesses regionais. Abolir-se-á na próxima Revisão Constitucional a RP que a custo é garantida pelos círculos plurinominais de maior dimensão? Ou deverão os actuais círculos ser alargados através de uma redefinição territorial, que os diminua em número

20 de abril de 2005

Referendos

Hoje a Assembleia da Republica aprovou o projecto de resolução para a realização do referendo à despenalização do aborto.
A par deste referendo realizar-se-à outro com vista à aprovação da Constituição Europeia.
Se no caso do primeiro concorrem mais questões [descoincidentes e ambas legítimas] de ordem ético-moral, que por muito que sejam discutidas dificilmente serão consensuais, no segundo caso assusta a leviandade com que está a ser tratado políticamente: ninguém está interessado em promover debates, dar a conhecer as reais implicações da Constituição Europeia aos portugueses, transmitir informação. É bem possível que o grosso destes se esteja marimbando, contudo não é minimamente aceitável referendar matérias apenas quando se tem a certeza que os resultados são os esperados, num processo assente na ignorância do vulgo (e não só).
Impõe-se o voto de protesto.

19 de abril de 2005

à tout propos (161)

Ainda estou impressionado com a votação ocorrida no conclave.
A democracia moderna foi inventada há 2000 anos e ainda andamos a inventar fórmulas eleitorais e sistemas de partidos, etc., etc., quando basta acreditar e receber a inspiração divina do Espírito Santo.
E, notai bem como foi cuidadosamente acautelada a preocupação em limitar os mandatos com o objectivo de acelerar a rendição da guarda, ao terem eleito um Cardeal de 78 anos.
________________
Por outro lado, foi incrivelmente impressionante como no momento do anúncio de Joseph Ratzinger, vi pessoas tungirem inconsoláveis enquanto outras manifestaram toda a decepção e frustração por não poderem ver um Papa português. Depois da ponte maior da Europa, da barragem, da feijoada, da árvore de natal e do repolho lombardo, a malta não pôde bradar ao mundo «O Papa é português, ouviu bem? Por-tu-guês! Toma lá e embrulha».
Foi uma pena, mais uma vez tolheram-nos inapelavelmente a confiança e a necessidade de afirmação por sermos bem pequeninos. Ao menos ainda temos o Eusébio, o Figo, o Vasco da Gama e o Santana Lopes.

Habemus Papam!

O Espírito Santo inspirou os cardeais em apenas 1 dia e meio, contrastando com os dois anos e tal que já chegou a demorar um conclave. É compreensível, dado o actual acesso às novas tecnologias...
Também se pode dar o caso de se terem enganado na matéria a queimar. Para que o fumo seja seguramente negro, aconselho pneus de tractor.

Berlusconi colado à cadeira

Berlusconi recusou demitir-se - como estava supostamente acordado com os parceiros de coligação - na sequência da forte instabilidade política que resultou da derrota estrondosa nas recentes eleições regionais. A demissão em si não acrescenta nada e apesar das alterações eleitorais italianas em meados da década de 90, a lógica das coligações precárias subsiste: Berlusconi demitir-se-ia para formar imediatamente novo governo.
O sistema italiano fomenta a estabilidade a qualquer custo e a precariedade das coligações tem razões históricas, que se ligam à própria fundação do Estado italiano e às imensas nacionalidades pupulantes por todos os recortes da pesínsula itálica.
Surpreendente como num país onde a cultura cívica e política se manifesta acima da média europeia e que, sem embargo, se permite manter no poder um magnata controlador da opinião pública através da comunicação social, cujas ligações à mafia são menos que duvidosas. Aliás, é possível recordar como ele impediu alguns aspectos da reforma do sistema judicial italiano, que permitiriam levar governantes a reponder perante os tribunais. Entre outras sacanices típicas.
Nós só tinhamos o Santana Lopes e pusemo-lo a andar...

à tout propos (160)

O enorme aplauso:

Incapazes de formar mais médicos, o Ministério da Saúde propõe-se recrutar médicos no estrangeiro.

A medida não podia ser melhor: combate-se o défice destes profissionais; não são portugueses cheios de vícios, de superavit corporativo e insuportável soberba; e estritamente relacionado com o segundo ponto, exactamente por não serem portugueses, passam a haver condições para proceder a uma correcta redistribuição pelo país.

Ficará apenas a faltar uma reforma da saúde que separe as águas e que impeça cada médico de trabalhar em mais do que 63 clinicas privadas.

18 de abril de 2005

Confie na estrela azul?!

Há por aí uma estrela azul, suposto certificado de qualidade, higiene e segurança, que está disseminada pelos estabelecimentos da restauração que presumivelmente respeitam tais critérios. Uma espécie de bandeira azul das praias ou uma colagem ao célebre guide du routard, já de si pouco fiável.
Após o repasto num restaurante da cidade, apercebi-me de uns livrinhos azuis, impecavelmente produzidos, que mais não são do que guias de estabelecimentos seleccionados, a 1ª divisão de estabelecimentos portugueses.
Qual o meu espanto, quando no meio de restaurantes reconhecidos por esse país fora (com provas dadas nos meus taninos e na minha digestão), dou de caras com McDonald's e estações de serviço?
A resposta, dá-la-ia o próprio guia ao revelar que entre os seus patrocínios lá se encontram a multinacional americana, a Galp ou a Cepsa. Curioso.

15 de abril de 2005

O Público errou

Estes gajos do jornal Público lixaram-me o esquema todo com esta história de pagar a subscrição da versão impressa online.
Assim, por motivos que são completamente alheios à minha vontade, todos os links para artigos ou notícias publicados na versão impressa encontram-se inutilizados, sem efeito, desconexos.
Por isso, o Público errou e parece que assumiram clara e definitivamente a postura extorsionária com que vinham namorando há alguns tempos.
Lamentamos todos os que já pagávamos o serviço com o consumo de publicidade que nos inunda o ecrã (mesmo com anti-spam).
Mal agradecidos!

14 de abril de 2005

Ele há coisas...

Eram 7 da manhã, ia ao pão e cruzei-me com um indivíduo perdido num pijama de hospital, chinelos, cabelo desgrenhado, barba de uma semana e olheiras denunciadoras. Rondava a casa dos trinta mal feitos e apesar de tudo, não tinha um ar intoxicado ou excessivamente andrajoso. O previsível odor a hortaliças podres não chegou ao lado de cá do passeio. Uma brisa o terá pulverizado, atrás do monóxido de uma velha Peugeot de caixa aberta cor de ferrugem, que se arrastava pesadamente vinda das quintas da periferia.

Fui invadido por um sentimento de indignação, agudizado por viver num país sobranceiramente ocupado com grandes obras de cosmética vertebrada, votando ao desprezo ingrato os que um dia contribuíram para a construção da grande «mansão» ou simplesmente porque foram fulminados por uma série de circunstâncias da vida que, de uma forma ou de outra os tolheu desprevenidos.

Senti um ímpeto irracional e precipitei-me na sua sua direcção, animado por aquele sentimento de solidariedade matinal que nos impele para a «boa acção do dia». Provavelmente, tal deveu-se a uma análise racional pré-consciente que legitimasse o fecho do dia, logo ali, em matéria de imperativos categóricos. Ajudar velhinhas a passar para o outro lado da rua é coisa para «meninos vestidos de parvo» ou para «parvos vestidos de menino». O meu grau de exigência é manifestamente superior e com esta acção, teria certamente o dia ganho.

Porém, precisamente no momento em que a sola do sapato se preparava para desafiar o asfalto e o lancil, vejo-o a falar com um magrizelas que saia de um automóvel, com cara de pai, que lhe passa um objecto suspeito para a mão e se dirige descontraidamente para a caixa Multibanco.

Agastado por ingenuamente ter considerado intervir em defesa da dignidade humana, tomei como caminho o de casa, sem regressar com o pão fresco na talega e jurei não mais pensar em solidariedades bacocas e lirismos absurdos num mundo colonizado por cães e oportunistas.

Contudo, durante a tarde reencontrei uma pessoa conhecida que não via há demasiado, trocamos as impressões habituais sobre o trabalho, o tempo, a bola e quando a conversa já saturada se escapulia pelos «então vá…», eis que o amigo resolve rematar com uma tirada bestial que resultou de um encontro casual ocorrido nesta mesma manhã.

Diz ele que quando parou o automóvel para pagar umas contas na caixa de Multibanco antes de se entregar à sua rotina diária, foi abordado na rua por um conhecido seu surpreendentemente com aspecto miserável, de pijama e cabelo desgrenhado, pedindo-lhe um enorme favor. De início horrorizou-se pelo insólito da situação, confessou-me a pessoa.

Afinal, não se tratara de um novo mendigo ou de mais um «mestre da vida» desta aldeola. Ao contrário, o indigente ter-lhe-á solicitado encarecidamente o telemóvel (pudera) para pedir as chaves de casa a alguém que lhas guardava para situações de emergência como esta. Ao que parece, após acordar, terá saído do seu apartamento, subindo dois andares para recolher alguma roupa estendida no terraço do prédio. Ao fechar atrás de si a porta do apartamento, embriagado de sono, não se fez acompanhar das chaves e viu-se na rua em pijama, sem poder regressar a casa, pressionado por um compromisso a 100 Km de distância e perseguido com o olhar impiedoso e sancionatório dos transeuntes.

Acontece que já não era a primeira vez que tal lhe acontecia. Na primeira vez, valeram-lhe os bombeiros, que após autorização da PSP, içaram as longas escadas até à varanda tendo pontapeado furiosamente a porta de vidro até não restarem lâminas de vidro nas borrachas. Esta foi a quarta experiência do género, talvez a segunda mais traumática e a segunda menos cara.

Não é minha pretensão condenar ninguém mas há pessoas que deveriam ser consideradas inimputáveis. Nem para tomar conta de um vaso de flores…
PS: e não tomei o pequeno-almoço.

Quem tem mais férias em Portugal?

Não me quero meter na polémica, mas para além de desta vez o Sousa Tavares ter sido lúcido (interroga-se sobre o imenso tempo livre dos professores, entre férias escolares e outros mecanismos, assim como denuncia o claríssimo corporativismo da classe), já não posso afirmar o mesmo de um professor cujo correio foi publicado no Público de hoje.

O tipo questiona a matemática do Miguel Sousa Tavares. Espero, desejo, suplico que ele mesmo não seja um professor de matemática porque simplesmente contabiliza duas vezes as horas do seu sono e as da «folga». Assim não vale. O tipo junta aos 234 dias de «folgas» dos professores (contabilizados por M. S. Tavares), os 121 dias que em tese passa a dormir durante um ano.

Com professores destes, quem é que quer ter filhos a estudar em Portugal?
O único consolo é que se trate de um desses arquitectos alquimistas das estatísticas portuguesas, especialistas em esconder défices, diminuir taxas de desemprego ou transformar a pobreza em riqueza.

Casa da Música

4 anos e 60 milhões de euros depois – os valores acrescidos não previstos – a Casa da Música foi hoje inaugurada.

Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a Humanidade.
PS: é a maior Casa da Música do mundo, quiçá do Porto. Nada mal...

13 de abril de 2005

Riscos da monocultura

Hoje, em conversa informal, falava-me um indivíduo proveniente da macrocéfala urbe (gente muito arejada), que o maior logro do Estado português em termos de investimento era o Vale do Ave e que, não obstante o persistente e proverbial fracasso, se preparava para mais do mesmo. Posso dizer o mesmo dos financiamentos públicos na terra dele (e adjacentes) para obras irracionais, casuístas e arbitrárias, só legitimados pela caça a votos e a bolsos…
Infelizmente não posso criticar desvarios com portos de Sines, aeroportos de Beja ou ligações ferroviárias, porque não há...

O Vale do Ave é mais um sintomático exemplo da obsessão portuguesa pela construção de majestosas fachadas de betão assentes em alicerces de palha. Se naquela região, metade das pessoas nem sequer consegue decifrar um simples texto de jornal, a cru e sem imagem…

E nem por isso pudemos verificar naquela zona do país, como agradavelmente os trabalhadores são mais qualificados, como o trabalho infantil e precário diminuíram ou como se aboliu a lógica indecifrável da mão-de-obra barata (sem manifesta capacidade competitiva com os mercados asiático e de leste). Mais, a competitividade assente na qualidade continua um chavão, aparentemente só possível aos outros, «aos estrangeiros que têm muito mais apoio dos países de origem» (a desculpa classicamente esfarrapada dos insondáveis empresários portugueses).

Antes pelo contrário, a precariedade e baixa qualificação persistem, tornando os trabalhadores meros utensílios descartáveis. As prestações de desemprego também têm que servir para algo mais do que simplesmente iludir as estatísticas a entregar à União Europeia, mediante esquemas e esqueminhas à portuguesa (e.g. formação profissional, por exemplo).

E o que mais preocupa é o facto de o Alentejo parecer estar a caminhar no mesmo sentido, o da «monocultura» das actividades produtivas/geradoras de capital. De repente, toda esta região pareceu descobrir o turismo, a maleita para todos os males…

Preocupante.

12 de abril de 2005

em de-talhe


Parlamento do Irão aprova o aborto em situações de risco para a saúde da mãe ou malformação do feto, durante os primeiros quatro meses de gestação.

A questão: e o Alcorão deixa?..

11 de abril de 2005

Cien años de soledad

«Macondo já era um pavoroso remoinho de pó e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano saltou onze páginas para não perder tempo com factos demasiado conhecidos, e começou a decifrar o instante que estava a viver, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si próprio no acto de decifrar a última página dos pergaminhos [profetizados um século antes por Melquíades], como se estivesse a ver-se num espelho falado.

Então deu outro salto para se antecipar às predições e ver a data e as circunstâncias da sua morte. No entanto, antes de chegar ao verso final, já tinha percebido que não sairia nunca desse quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no momento em que Aureliano Babilónia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra
».

in, Marquez, Gabriel Garcia (1967/2003), Cem Anos de Solidão, Lisboa, Dom Quixote, pp. 327-328.

à tout propos (159)

Não será este o sítio apropriado para falar de futebol, mas não posso resistir à provocaçãozinha... a 6 jogos do termo do campeonato, o Braga está brilhantemente em 2º lugar a apenas 3 pontos do «líder». Terá o «sistema» mudado de residência para o minho? Qual é agora a desculpa dessa imensa chusma elitista e chorona?

Até amanhã camaradas…

Sexta-Feira – Pombal – Congresso do PSD

No seu discurso ainda enquanto Presidente do PSD, Santana voltou a disparar na tradicional lamuria em todas as direcções, com a apresentação do seu «mini relatório».

Uma vez mais, escamoteou os seus fracassos individuais, remetendo-os para a fraternal figura colectiva do partido que tudo absorve, procurando a redenção com desculpas esfarrapadas junto das «bases» mais saloias, que sempre lhe deram «colo» em congressos como este.
E isso é evidente quando se põe ironicamente a estabelecer paralelismos sobre o que seria se por exemplo, no programa Quadratura do Círculo (SIC Notícias), António Magalhães do PS não defendesse o seu partido e se dedicasse mais a atirar-lhe farpas constantes; ou se por exemplo, Mário Soares afirmasse sobre o PS aquilo que Cavaco e Freitas denunciaram.

Confesso que nunca lidei muito bem com essa história dos grupos e do «assim governamo-nos a todos» e toda essa panóplia de mecanismos que fomentam a diminuição da responsabilidade, sentido crítico e individualidade, em detrimento de um partido, da verdade universal e inquestionável ou do Absoluto.

Ora, o que Santana Lopes parece não compreender é que a figura tutelar do partido não pode servir para mascarar os imensos podres que pululam e alastram pelas suas vísceras, ocultando-os na cumplicidade do aparelho e arremessando-os entre dois assobios para o lado, sem fazer mira mas à espera que atinjam um qualquer incauto.

Neste assombro de desfaçatez, desembaraça-se da responsabilidade como se a sua hecatombe se devesse ao desvario arbitrário de inúmeras facas afiadas que sem norte nem justiça se abateram sobre a sua couraça.

É suficientemente revelador: mesmo no fundo do lamaçal alimentado por si ao longo de séculos, Santana não revela seriedade, sobriedade e honestidade para admitir e encaixar os efeitos da sua acção desmazelada, procurando remetê-los para uma entidade que oscila entre a metafísica intangível e a inimizade visceral somente com paralelo no eixo do mal.
E assim, despediu-se com um «até amanhã» bastante previsível porque, bem vistas as coisas, quem é que lhe daria emprego num mundo afastado da política?

Quem deve ou não ter ambições, segundo Isaltino

Antes do inicio do congresso do PSD, quando instado a se pronunciar sobre a moção que viria a ser apresentada por António Borges, Isaltino Morais, lacónico, sentencia que podem haver diversos tipos de moções. A sua será seguramente diferente da moção de Borges porque «como toda a gente sabe em Portugal, ele tem aspirações a ser Primeiro-Ministro».

Ao fazer esta distinção fundamental, Isaltino não só abdica de ser qualquer coisa, como se refere às supostas ambições de António Borges como se de um crime se tratasse, como se fossem ambições que um político devesse descartar à partida.

Algo parece enviesado nas concepções políticas de Isaltino Morais. Então se não houverem políticos no seu partido com tais e legítimas aspirações, para que serve o congresso? Ou só ele e os que o rodeiam terão legitimidade para isso?

à tout propos (158)

Gaffe italiana no funeral do Papa, com o aparatoso (como em tudo o que os transalpinos fazem) desvio do avião que transportava a comitiva macedónica que havia assistido às exéquias de Karol Wojtyla.
Convicta e convincentemente, o responsável militar pela segurança italiana afirmava que tinha em sua posse informações seguríssimas e irrefutáveis sobre o transporte de uma bomba na referida aeronave.

Estas informações deverão ter a sua génese na mesma fonte que assegurou a existência de armas de destruição maciça no Iraque e que haveria de justificar o abandono forçado dos inspectores da ONU e a consequente invasão do Iraque, ao arrepio da Resolução 1441 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

5 de abril de 2005

Venha a próxima reforma de fim-de-semana

Este país é no mínimo, risível. Depois de um exemplar processo de concertação social, aplaudido por patrões, sindicatos de trabalhadores e governo (que, de resto, esteve ausente, tornando a concertação verdadeiramente «social»), eis que surgem agora os sindicatos a reivindicar, na prática, a revogação do código do trabalho.

Esta nova posição é absurda e, vinda do esteio e dos guardiães da moralidade ideológica de esquerda, é absolutamente incompatível com os supostos princípios inalienáveis que defendem: se não estavam de acordo com imensos aspectos do documento, não iam a concertação social tentando perder pela menor diferença, pressupondo metafisicamente que um novo governo se instalaria – como sempre – e anulasse todas as medidas do anterior – como sempre. O mito do eterno retorno, pela negativa.

Não é aceitável nem razoável para um país em coma, que venham estes papalvos – como sempre – aplicar ao quase defunto as mezinhas que julgam, na obra e graça com que foram investidos, indefectíveis. São isso, as reformas de três dias na educação, na saúde e em todas as áreas tuteladas directa ou indirectamente pelo Estado. Assim não é possível sair da mediocridade nem da política feita - como sempre - à imagem e gostos pessoais de supostas «elites» que tudo parecem dever à caducidade.

Há efectivamente aspectos do código do trabalho que não agradam aos trabalhadores. Também os há do lado dos patrões. Reafirmo: se não estavam de acordo, não o subscrevessem e abandonassem a mesa das negociações. Onde estão os castos princípios ideológicos? Onde estão as férreas e inabaláveis convicções?

Com políticas supostamente etéreas que no momento seguinte se revelam estéreis e efémeras, porque não obedeceram a uma edificação séria nos seus alicerces, torna-se impossível implementar qualquer tipo de modelo de desenvolvimento estratégico que se pretende para um país. Seja ele qual for. Não há meio de aprendermos com os outros, aquilo que já foi inventado e testado. Pelo menos isso, já que escasseiam - como sempre - as ideias geniais neste Portugal com cheiro a mofo, que não tem só medo de existir: demite-se também de respirar - como sempre.

Eleições regionais italianas

Finalmente, os amigos italianos começam a demonstrar que recuperaram algum do juízo perdido. Terá sido preciso fazer a ligação entre a morte de João Paulo II e a decrepitude social da Itália de Berlusconi?

4 de abril de 2005

Tributo à liberdade aos direitos civicos e políticos



Martin Luther King - 4 Abril 1968

37 anos após o desaparecimento «compulsivo» de Martin Luther King, muita coisa mudou nos EUA. Infelizmente a sua sociedade não consegue encapotar um fenómeno que tem mais raízes do que a própria democracia. Legalmente, o racismo foi inapelavelmente banido; Não obstante, a limpeza não conseguiu ser tão primorosa no «andar de cima» e hão-de passar muitos anos até que termos contextualmente abjectos como «boy» ou «boss», sejam proscritos do vocabulário dos homens.

3 de abril de 2005

à tout propos (157)

Nestes dias, assiste-se a uma relação de concomitância interessante: a par do novelo momentâneo e contextual de fraternidade entre os homens, aumentam vertiginosamente os níveis de hipocrisia.

Sensualidade e fisicalidade



Ballet Gulbenkian, Theatro Garcia de Rezende, Évora (1 e 2 Abril)


A expressividade sem limites e inquietante dos corpos, perfeitos mediuns de vibração emocional e desejo em duas coreografias interpretadas sem mácula e com paixão.
______
Le sacre du printemps (Marie Chouinard);

Organic spirit, organic beat, organic cage (Paulo Ribeiro).

2 de abril de 2005

os deuses também já foram homens



Karol Wojtyla 1920-2005

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«Estou pronto. Estejam vocês também. Oremos com alegria à Virgem Maria»

João Paulo II, mensagem escrita com a ajuda de um secretário pessoal, 2-04-2005

1 de abril de 2005

os deuses também já foram homens



Karol Wojtyla


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«Già vede e tocca il signore» (Camillo Ruini, Vigário de Roma)




Mentira do dia

O Papa ainda não faleceu!
ou
Renier anunciou que vai disputar o próximo Grand Prix do Mónaco!
ou
Os americanos declararam guerra à Patagónia!
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Creio que existem fortes probabilidades de pelo menos uma daquelas proposições se revelar uma grande peta!

à tout propos (156)

Atenciosamente...

31 de março de 2005

Da democracia no Zimbabwe

O Zimbabwe foi hoje a votos, num processo remotamente democrático. Entre as inúmeras razões, entre as quais uma lei eleitoral à medida do «principe» Mugabe, acrescente-se o dispositivo que permite ao vencedor preencher uma parte dos assentos parlamentares com nomeações directas, portanto, lugares não sufragados pelo eleitorado. Todos os mecanismos que restrinjam a acção da oposição são «legítimos» portanto, o vencedor já foi anunciado, sempre com a maioria dos assentos parlamentares e «legitimando-se» assim «democraticamente».
Não é, seguramente este o ideal de democracia que o próprio Executivo do Zimbabwe diz seguir. Portanto, porque não «chamar os bois pelos nomes» e de uma vez por todas assumir que grande parte das pretensas democracias do globo não passam de tiranias, oligarquias, ditaduras ou monarquias encapuçadas. Há ainda tanto por fazer... mas para isso, é preciso que a proópria população evidencie um padrão atitudinal e comportamental próximo dos valores e principios democráticos.
Enquanto isso não acontecer, a democracia no Zimbabwe vai ter que esperar por muitos e lingos anos.

em de-talhe

Carrilho por Lisboa e Assis no Porto. E em Évora, quem será o candidato à Câmara pelo PS? É quase certa a candidatura de Andrade Santos pelo PCP, sintoma do crescente vazio que se tem vindo a instalar.
Também neste termos, a crise não é pois, da democracia enquanto forma ideal de regime. Ela manifesta-se claramente nos partidos e políticos, que incapazes de perceber isso, continuam obcecados com reformas eleitorais (vide a cegueira dos círculos uninominais), hipotecando a urgência de encetarem uma reforma, sim, mas matizada por exercícios de auto-reflexão, acerca da sua posição e actuação ao serviço das populações.
Voltando a Évora e ao total falhanço do actual Executivo municipal (atascado no interior do saco roto das suas próprias promessas eleitorais), o PS não só vai ter dificuldades em apresentar um projecto credível aos eborenses, como vai assentar a sua campanha eleitoral no gasto e acanhado argumento da dívida deixada pelos outros. Verdadeiro discurso da tanga. E quanto a isso, só faz omoletas quem tem ovos e apesar de ser usual, propor aquilo que de antemão já se sabe não ser possível cumprir, só poderá ter o caminho da penalização pelos eleitores.
Se Marques Mendes (próximo Presidente do PSD) diz estar empenhado em candidatar «os melhores» para as principais cidades, nesse caso a disputa eleitoral será agradavelmente dura.
Mas do lado da procura (eborenses) também muita coisa tem que mudar para que não se repitam mandatos tão frustrantes como este.

25 de março de 2005

A hipertrofia agoniante do centro


De cada vez que vou a Lisboa, ocorre-me sempre pensar como a sua dinâmica parasitária conduz o interior a um processo agonístico, sem que o mesmo tenha sequer passado pela natural reacção ao potlach empreendido pela «megalópole». A periferia definha, numa dança triplamente agoniante em torno do(s) centro(s): o primeiro e primordial é Lisboa, a Grande; o segundo centro é a faixa litoral centro-norte; e a terceira ideia de centro surge numa escala infimamente mais reduzida, com a emergência de pitorescas e atrevidas cidades como Évora, Covilhã ou Viseu, que lutam em simultâneo pela sobrevivência e pela sua afirmação regional.

Pequenos centros como este terceiro nível, provocam exactamente o mesmo esgotamento da periferia, embora com o peso na consciência de um irmão do meio que dá um açoite no mais novo, imediatamente depois de a mão do mais velho de todos se ter estatelado ruidosamente na sua cara.
Passou-se o mesmo em Roma, há 21, 22 séculos, no auge da sua magnitude, com o esvaziamento de todas as praças que sucumbiam à sua força centrífuga. «A Roma o que é de Roma», ou seja, tudo!
Conta-se que o antigo testamento é escrito como forma de reacção dos judeus ao jugo dos babilónios, que incapazes de os controlar, resolveram recrutá-los à força para o centro. Aqui está implícita a ideia do controlo, para além da ideia de grandeza anteriormente associada ao Império Romano.
Tal como nesses tempos, as periferias locais e regionais são esvaziadas de massa crítica e de população que não pode aguentar a assimétrica condição, demasiadas vezes motivadas pela sobrevivência fisiológica. A pressão para o abandono é evidente e nalguns casos, inevitável. Com ela, a desistência! A desistência pelo cansaço e a desistência pelo deslumbramento.
Curiosamente, a ideia de centro está desde sempre associada ao Estado liberal, como uma entidade perfeita, justa e omnipotente em que qualquer ponto da periferia é-lhe equidistante e por isso, todas as relações entre ambos são fluidas e funcionais, sem vantagens diferenciais. Num plano religioso, a ideia de Deus é-lhe equivalente, em particular nas religiões cujo denominador comum é Abraão.

Assim, em escalas diferentes, a cartografia nacional do desenvolvimento obedece à prosaica lei da oferta e da procura, agudizada por um lado, pela demissão do Estado do seu papel regulador, e por outro pelo favorecimento do centro a partir das suas próprias dinâmicas internas, que se vão criando e recriando. Um circulo vicioso, uma pescadinha de rabo na boca a crescer sem termo num exíguo alguidar.

Mas há outra coisa que me ocorre, sempre que me desloco a Lisboa. Se não houvesse poder local (com todas as virtudes e vícios que cada Executivo possa contaminar para o interior da instituição), só existiriam, em bom rigor, duas cidades em Portugal, Lisboa e Porto, que continuariam os eternos arrufos, esses sim, provincianamente rivalistas: «eu sou melhor do que tu» e «não, não, eu é que sou a capital».
E tudo o resto seria, no assombroso dizer do obtuso lisboeta comum, «uma imensa paisagem». Talvez subsistissem algumas bolsas de população aqui e ali, justificadas pelo seu interesse arqueológico ou estratégico (para enterrar lixo ou para passar um fim-de-semana exótico). É esse o caminho que seguimos, uma vez mais, contrariamente a todas as tendências dos nossos primos europeus, «aqueles que tiveram sorte na vida»...
Na verdade, nunca pude compreender para que precisa Lisboa de uma Câmara Municipal, quando tem o Terreiro do Paço só para si. E por isso, é-me sempre estranho conceber um país equilibrado, com igualdade de oportunidades, igualdade de acessos e o mais importante, solidário nas suas formas de relacionamento.
Se não somos assim no plano interno, porque razão e com que legitimidade havemos de reclamar dos primos europeus a sua solidariedade através de mais fundos de coesão, distribuídos sem lei nem roque como se tivessem sido produto de um saque?

22 de março de 2005

19 de março de 2005

à tout propos (152)

1,49 (...)

Movimento independente de cidadãos



Cinema Municipal de Redondo.
Apresentação informal da lista de independentes à Câmara Municipal, na ressaca da posição assumida pelo Comité Central do PCP. A exigência pela aproximação ao modelo de democracia directa é bem patente nesta demonstração de cidadania, em que centenas de munícipes convergiram a um espaço que se revelou pequeno, para manifestar o seu apoio a uma lista independente, liderada por Alfredo Barroso.

O desenvolvimento das sociedades industriais pode conduzir a um maior envolvimento político das comunidades, em alternativa à participação convencional das eleições, da democracia representativa e dos partidos. Isso é comprovado pela emergência dos novos movimentos sociais. Neste caso em particular, impressiona, não uma ruptura com a representação ou os órgãos de legitimidade política, mas sim a rejeição do domínio dos partidos, muitas vezes desenquadrado das necessidades e especificidades locais. É, em parte, uma manifestação de rejeição do «centralismo democrático», o qual está presente no PCP mas também na forma de organização político-administrativa de Portugal (ainda que um pouco mais dissimulada). O epicentro é naturalmente o Terreiro do Paço.

É neste envolvimento activo dos cidadãos que radica verdadeiramente a ideia de democracia como «governo do povo».

18 de março de 2005

De finura em finura II

O pretexto encontrado pelo PCP para retirar a confiança política ao autarca de Redondo terá sido a inclusão do município que lidera, no sistema multimunicipal de abastecimento de águas e saneamento, a cargo da empresa Águas do Centro Alentejo.

A divergência reportar-se-á à natureza «privatizavel» da empresa, a qual é decididamente incompatível com o projecto autárquico do PCP. Como se houvesse algum. De resto, é tão incompatível como nos casos de outros municípios comunistas que entraram em sistemas semelhantes, nomeadamente no Distrito de Setúbal.

Nesta matéria, como em tantas outras, sabemos perfeitamente como as câmaras não dispõem nem têm que dispor de know how especializado, em particular em áreas residuais pela pontualidade de que se reveste.
Mais, também sabemos que uma hipertrofia do sector público estagna a dinâmica económica preferivelmente centrada no sector privado.
Mais ainda, estatutariamente, não é possível a um privado deter uma posição maioritária na empresa, pelo que por princípio, esta nunca sairá do controlo do sector público.
Nesse caso, do que se queixa o PCP?

Acontece que o PCP não convive muito bem com a liberdade individual, com a reflexão crítica e enfim, com o sistema democrático que ajudou a conquistar. E isso vê-se nas estruturas internas do partido, na organização disciplinadora onde o condicionamento é da mais fina textura. Confesso-me incrédulo sempre que vejo jovens comunistas a reproduzirem acriticamente postulados perfeitamente discutíveis e frágeis do ponto de vista lógico-argumentativo.

Não obstante, eis a curiosidade desta novela, e que talvez os mais distraídos desconheçam, são as habituais performances eleitorais que alguns partidos levam a efeito. A este respeito, o PCP não é excepção e em plena campanha eleitoral os candidatos a deputados pelo distrito de Évora, liderados pelo cabeça de lista Abílio Fernandes, estiveram nas instalações da Câmara Municipal de Redondo a fazer campanha eleitoral, acompanhados pelo Executivo camarário que supostamente seria indigno da confiança política do PCP.

A comitiva percorreu todas as instalações municipais, cumprimentou funcionários, demorou-se com explicações sobre o estado actual em que as forças vampiras tiram o pão da boca às criancinhas portuguesas que definham com fome, o monopólio do capitalismo, os barões e a exclusão, etc., etc.

Por fim, importa reter alguns marcos relativamente interessantes que não esgotam o universo de circunstâncias que en passant foram deteriorando a relação: o arranque deste processo das águas (em que o Município de Redondo – leia-se a população – saiu claramente beneficiado em relação ao processo intermunicipal alternativo advogado pelo PCP) é de finais de 2001; as autárquicas tiveram lugar em Dezembro do mesmo ano; o Congresso do PCP em que Alfredo Barroso e Lopes Guerreiro são apupados pela JCP pelas suas posições é de finais de Novembro de 2004; a visita habitual dos candidatos comunistas, presumivelmente indiciadora de um clima institucional normal é de 10.02.05; as Legislativas em 20 desse mês e a ruptura oficial que se dá somente em 11 de Março, curiosamente um verdadeiro «dia-bomba» (Madrid, 11-03-04).

Tirem as vossas conclusões…

A inocência de Sampaio

Jorge Sampaio mostrou-se surpreendido com a presumível «resistência» dos portugueses relativamente aos estrangeiros. Esta reacção acontece no seguimento de um estudo do Observatório Europeu dos Fenómenos Racistas e Xenófobos. Sampaio lamentou, afirmando o seguinte: “Fiquei um pouco triste quando li a notícia. Não estamos, de facto, muito bem classificados em matéria de tolerância”.

Admira a reacção quando estamos a falar de um homem que foi eleito directamente em sufrágio universal pelos portugueses, portanto com enormes responsabilidades e supostamente uma das pessoas melhor informadas (dentro da matriz sociológica) acerca das realidades do país.

Mas, pergunto-me eu, o que se esperaria de um país em que metade da população não sabe interpretar uma notícia de jornal, onde subsistem hábitos de higiene duvidosa como cuspir para o chão ou atirar lixo para a via pública e indiscriminadamente em qualquer local ou ocasião?

O que se pode esperar de um país onde se levantam milícias populares sem fundamentos remotamente aceitáveis, se mata o vizinho numa disputa de 5 m2 de terra?

O que se pode esperar de um país em que a tradição é confundida com resquícios autoritários, onde se mata o cão do vizinho com veneno dos ratos, para não falar de espécies selvagens protegidas, apenas por «desporto»?

O que se pode esperar de um país com uma das mais elevadas
taxas de corrupção da União Europeia (à frente da Grécia, Itália e alguns dos novos membros resultantes do alargamento a Leste), em que o sistema de 1 produto-2 preços é generalizado e totalmente às claras: «Se quer recibo vou ter que lhe cobrar o IVA, não sei se me faço entender...»

O que se pode esperar de um país em que se estima para cima de 500 000 o número de alcoólicos ou que não se incomoda com a crescente morte social diagnosticada? Onde há e sempre houve portugueses de primeira e de segunda? Ou onde o período de prisões preventivas pode ultrapassar os 2 anos? E onde os médicos continuam a comportar-se como se ainda prevalecesse a norma patriarcal?

O que se pode esperar de um país que de rompante é confrontado com uma série de profissionais melhor preparados, com mais qualificações e vontade de trabalhar, que certamente colocam em causa o status quo dos autóctones, o seu modus faciendi?

O que se pode esperar de um país em que os seus próprios emigrantes nunca tiveram a humildade de reconhecer as míseras condições de existência em bairros de lata nos arredores de Paris, Geneve ou Bruxelles, nos idos de 60?


Podíamos ficar aqui eternamente. E em matéria de classificação no campeonato da tolerância, devemos ressalvar que os nossos objectivos nunca podiam passar pela conquista do título. Não parecem haver condições, falta estofo…

Finalmente, admiram também as «oportunas» tiradas de Sampaio sempre que acontece algo de novo na sua vida, como se fosse uma vela triangular à bolina.


Lacuna tecnológica

Ironicamente, a medida estratégica de um choque tecnológico deu lugar a um choque da tecnologia. Foi essa a justificação do governo para a demora da entrega do programa de governo no Parlamento.

E pronto, foi dada a desculpa, fiquemos por aqui e pela malfadada ironia.

Nem a propósito, é também contra a desculpa balseira e desresponsabilização que o governo deve actuar: verifica-se um erro, quanto muito uma desculpa forjada ou o tradicional escorrer de água de sucessivos capotes e, por fim, a redenção, seguramente «ultrapassada» numa semana com o tradicional «errar é humano»; será por fim, nostalgicamente contada numa alegre noite de consoada aos filhos, sobrinhos e netos. Já vi este filme vezes sem conta.

Um programa de governo não é um documento qualquer, não se trata de um simples oficio ou de uma newsletter. E não é que a falha seja irreparável ou com danos directos na vida das pessoas (como a colocação dos professores). Mas a competência das pessoas também se comprova pela capacidade de previsão e nesse campo, os responsáveis pelo envio revelaram parcas virtudes. E apenas pelo seguinte: a rede pode não comportar o excessivo peso da informação, podem suceder quebras de rede e o servidor ir abaixo. E neste particular, o governo não pode cometer erros, é a sua imagem de marca.

Isto faz lembrar aqueles trabalhos de alunos universitários, que não contando com a típica avaria da impressora ou do computador bloqueado, vêem os derradeiros minutos do limite de entrega do trabalho, transformados numa azáfama inconsequente e pouco sóbria. Mas o professor aceita a desculpa e a coisa passa. Mas são alunos, convém não esquecer. Aprendizes.

No governo não. É gente madura, experiente, avisada e rigorosa…

Em suma, três dias antes, já o programa de governo deveria estar imprimido, copiado, salvo em 30 CD-ROM’s e preparado para entregar em mão às forças políticas com assento parlamentar. Portanto, não aceito a desculpa.

Mas justiça seja feita ao programa do governo: também por estas é que se exige um choque tecnológico que traga eficácia aos nossos sistemas de informação e comunicação. Desde que não se ponham com ideias dissimuladas mas convergentes com ideias criticadas num passado não muito distante (e.g. central de comunicação sob controlo do Estado).

17 de março de 2005

à tout propos (151)

A entrevista terminou agora.

à tout propos (150)

Neste momento, a SIC Notícias está a entrevistar o médico do Sporting (Ferreira qualquer coisa) porque este terá sido «injustamente» afastado da equipa principal. Já lá vão três minutos de entrevista.

Isto é brilhante. Não há mais nada de digno de realce na actualidade portuguesa. Vivemos bem, o mundo está bem de saúde. Por isso, entrevistam-se médicos de equipas de futebol.

A entrevista continua

15 de março de 2005

à tout propos (149)

A justa reposição, no entender dos antigos combatentes.

De finura em finura

O PCP bem pode começar a fazer as malas no Redondo.
Ardilosamente, tal como a eleição do Secretário-Geral (condicionada pelo Comité Central e que já estava preparada há um ano antes do comunicado de Carvalhas), também agora o PCP «aguentou» o anúncio de uma decisão, consolidada desde o congresso de Novembro, para finalmente retirar a confiança política a Alfredo Barroso.
Com mais esta encenação, foram capitalizados alguns votos nas legislativas. À custa de artimanhas que não conseguem disfarçar uma imagem gradualmente corroída por fragilidades estruturais e incoerências histórico-doutrinárias. Dá vontade de dizer que ali, foi enfim alcançado o fim da história. A dialéctica? Há muito que foi para a gaveta...

em de-talhe

Santana Lopes prolonga o seu martírio... e o dos lisboetas. Ao menos que desta vez esconda os buracos e pontos negros que vai abrindo na cidade, com os habituais cartazes de propaganda pessoal.

14 de março de 2005

A metamorfose de Freitas

Variados são os aspectos de interesse que resultaram da ida de José Sócrates a Belém no passado dia 4, com o propósito de apresentar o seu elenco governativo ao Presidente da República e ao país. Nada de novo, apenas um procedimento habitual perfeitamente enquadrado no processo de formação de um novo governo.
Assume especial relevo a reabilitação de alguns políticos com experiência governativa, mesclada com a inclusão de sangue novo, assim como a curiosidade de os ministérios serem equitativamente divididos por militantes e independentes.

Porém, de todos esses factos e por força das circunstâncias em que ocorreu, há um que se reveste de anunciada relevância: a nomeação de Diogo Freitas do Amaral para Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Muito para além de um «prémio» pela recente e declarada apologia ao PS durante a última campanha eleitoral, a nomeação de Freitas do Amaral é sobretudo uma aposta na qualidade e na experiência, no rigor e na competência.

Podemos presumir que, em primeiro lugar, procura representar no plano externo, a imagem de um governo que se exige credível, competente e empenhado em restaurar a confiança dos portugueses e nos portugueses, consolidando as contas públicas, qualificando a população, melhorando os índices de produtividade e competitividade. De resto, convém alertar, a estratégia de um «choque tecnológico», o relançamento da economia e o recuo significativo do desemprego não são possíveis sem a captação de investimento externo.
Em segundo lugar, essa imagem ambiciona também ser a de um governo coeso na sua pluralidade, descomplexado e empenhado em gerar consensos em torno das grandes questões nacionais, independentemente da confortável maioria absoluta de 121 deputados que o suporta no Parlamento e lhe dá toda a legitimidade política e simbólica que faltou há bem pouco tempo ao XVI Governo Constitucional.

Perante a nova missão em concreto, é incontestável o imenso capital simbólico e empírico de que goza internacionalmente Freitas do Amaral. Este sólido capital vem-lhe tão-só da forma séria e rigorosa por que sempre pautou a sua actuação política, em particular nos cargos que assumiu como Presidente do CDS, Ministro dos Negócios Estrangeiros (1980), Ministro da Defesa Nacional, Vice Primeiro-Ministro (1980-82), Presidente da União Europeia das Democracias Cristãs (1981-83) ou mais recentemente, como Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas (1995-96).

Quanto à aparente deriva ideológica que terá protagonizado, há um aspecto crucial que não pode ser escamoteado: após 42 anos de um regime autoritário de direita, não havia nos anos sequentes à revolução de Abril, espaço ideológico à direita no espectro político-partidário português. O CDS de 1975 (Partido do Centro Democrático Social) surge claramente como um partido do centro e isso é visível nos princípios orientadores do partido. Aliás, todos os outros eram de esquerda e isso ainda hoje confunde os sociais-democratas europeus.

Sadiamente para a democracia portuguesa, o tempo apaziguou a memória e actualmente podemos afirmar com poucas reservas que o universo político-partidário português recobre as diversas sensibilidades ideológicas. E essa é uma benéfica conquista de Abril, sem a qual, nenhuma democracia tem condições para ser consolidada.
Talvez Freitas do Amaral tenha apenas permanecido fiel a um modelo de pensamento, valores e intervenção política, não se revendo na direita conservadora e para alguns, populista, em que derivou o partido liderado por Monteiro e Portas. Daí o gradual e anunciado afastamento de Freitas do Amaral em relação ao partido que fundou.
Terá sido isso que a liderança do CDS-PP não compreendeu quando, de forma algo intempestiva, decidiu «despromover» Freitas do Amaral, remetendo a sua fotografia para a sede do PS.

Por outro lado, a sua polémica aparição em manifestações falaciosamente conotadas com a esquerda radical (e.g. manifestação de oposição à invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas), revela tão-somente a sua congruência pessoal com os valores democratas e humanistas por que se norteia – num exercício activo de cidadania e para além das clivagens entre esquerda e direita – e com as resoluções emanadas da ONU, entretanto violadas arbitrariamente pelos EUA.

Por isso, mais do que «anti-Bush» ou «Anti-EUA», Freitas do Amaral é inequivocamente um defensor dos valores da democracia e da convivência decente entre os povos, à luz do direito internacional. E também isso não podia deixar de ser certamente considerado por Sócrates, no momento da sua decisão.

A comprometedora renovação no Redondo


Já se adivinhava há muito, mesmo depois da aromática operação de marketing operada pelo PCP nas últimas legislativas. Nos telhados de vidro destas coisas, acontece a retirada da confiança política a Alfredo Barroso (Presidente da Câmara Municipal de Redondo). Já que falamos de água, uma gota de água a transbordar um copo cheio?

Independentemente das suas razões (lá as terá), o Comité Central arrisca 
perder mais uma câmara no Alentejo, sendo certo que as lógicas de fidelização local não podem ser ignoradas (com Barroso, saiu a concelhia em peso).
 
Apesar do charme de Jerónimo, convém não esquecer que a subida de dois deputados nas últimas legislativas se deve também ao desaire alheio e à dinâmica socialista: de 2002 para 2005, o PCP subiu apenas 0,6%, beneficiando claramente na conversão proporcional de votos em mandatos.
No distrito de Évora, por exemplo, Abílio Fernandes é eleito com os votos dos concelhos limítrofes, beneficiando claramente da punição do eleitorado ao PSD e do eleitorado conquistado há 30 anos... Por isso, ainda em Évora, a CDU «cresceu» 422 votos no distrito inteiro. Portanto, falamos de vitórias relativas.

Caso Alfredo Barroso, venha a formar uma lista independente ou concorra com o apoio tácito de outro partido (como é espera, em particular no primeiro caso), o PCP põe em risco todo o concelho do Redondo.

Não se percebe.

12 de março de 2005

Tomada de posse do XVII Governo Constitucional

Hoje pelas 11h30 teve lugar no Palácio da Ajuda, a cerimónia de tomada de posse do novo governo. E se o Primeiro-Ministro empossado salientou que «o maior desafio é estar à altura da maioria absoluta», ninguém melhor que o povo português para ver essa fasquia ser subida ao nível das expectativas que lhe foram induzidas pela deterioração económica e pela recente campanha eleitoral. E o povo mostrou inequivocamente qual a sua convicção, respondendo com o aumento do score participativo nas legislativas (65%), ao conceder a primeira maioria absoluta ao PS com 45% dos votos e sem esvaziar a esquerda, que registou subidas espantosas, em particular as protagonizadas pelo BE.

Esta demonstração popular é seguramente concebida num quadro de particular inquietação colectiva, que foi emergindo de uma crise que deixou há muito de ser estritamente enquadrável nas tendências da economia globalizada. A crise é essencialmente portuguesa! Nessa exacta medida, o caminho do XVII governo é espinhoso sendo a natureza do compromisso extraordinariamente exigente, mesmo para quem possua o Joker da maioria absoluta.


E talvez um primeiro desafio, intimamente ligado com a afirmação de José Sócrates, se prenda com a durabilidade do governo, ou seja, no paradigma em que vivemos actualmente, não é razoável assegurar estabilidade económica sem estabilidade política. Vamos para o 5º Governo em 10 anos.

Contudo, para enfrentar os desafios que se lhe colocam, o novo governo deve ser capaz de definir vectores estratégicos que permitam concretizar o seu modelo de desenvolvimento. Mais do que simples apostas eleitoralistas, têm que reflectir uma visão estratégica que resulte num apport estruturante para o país. E essas parecem ser cada vez mais claras. Falamos evidentemente do desenvolvimento sustentável, em que as energias alternativas ocupam um lugar de relevo como forma de combater a crónica dependência energética. E falamos também da aposta (tardia) nas tecnologias de ponta e na mão-de-obra qualificada, que fixe investimento externo atraído pela competitividade e excelência da qualidade, e não pela mão-de-obra barata. Essa não pode continuar a ser a estratégia de Portugal. Energia, educação e tecnologia.

Na verdade, o que ficou da «paixão pela educação» de Guterres ou do «choque fiscal» de Durão? Em bom rigor, há na nossa história governativa recente, marcos que balizam acontecimentos, como a entrada na CEE, o lançamento de obras públicas, a Expo 98 ou o Euro 2004, sem que daí tivesse resultado um investimento estruturante com consequências transversais a todos os sectores da sociedade. Basta olhar para o que «fica» de apostas exemplarmente sólidas como a da Irlanda – atracção de investimento externo a par da aposta na formação – ou da Finlândia – aposta na tecnologia de ponta, da qual as telecomunicações são o expoente máximo.

Com certeza que isso não é possível com reformas sucessivas na educação, ao sabor das mundividências de cada um dos incontáveis ministros. Qualquer reforma na educação não pode ser dissociada do incremento da qualidade e da transição coordenada entre os diversos níveis de ensino. Mas para isso há que acabar com os vícios das academias, e responsabilizar alunos e professores. Não é possível continuar com as altíssimas taxas de iliteracia que atingem inclusive alunos do ensino superior. Por outro lado, a competitividade não se compadece com um país de doutores e engenheiros mal preparados nuns casos, desfasados das reais necessidades do país, noutros. E nada disso se faz sem investigação séria, apoiada pelo Estado e progressivamente disseminada pelo sector privado.

Por outro lado, um país com fracos recursos como Portugal não se pode dar ao luxo de fomentar uma economia paralela que não contribui mas é parte na redistribuição. Nenhum governo teve coragem para isso. E basta recordar o polémico afastamento do malogrado Sousa Franco em 1999. Há, neste país, demasiadas pessoas que reivindicam sem qualquer legitimidade e uma das tarefas de Sócrates será justamente legitimar as reivindicações de todos os portugueses sem excepção.

De outro modo, é um facto incontestável o excessivo peso da máquina da administração pública e o que representa em encargos para o país. Não só deve emagrecer como passar pela redefinição do modelo burocrático, assente no tipo ideal de racionalidade legal-autoritário. Este modelo é datado e foi construído com base em outros alicerces. O mundo mudou, as necessidades e exigências das pessoas mudaram, desafiando a capacidade de intervenção e regulação do Estado.

Tal como o Estado deve ver o seu peso na sociedade diminuído, assim o interior exige que as autarquias deixem de ser o principal empregador das comunidades, isoladas na luta contra a desertificação. Este é apenas um sintoma. Apesar de unificados por uma língua, valores e cultura, os portugueses continuam porém a estar assimetricamente divididos em termos de desenvolvimento regional.
Não se justifica a observância da hipertrofia congestionante do litoral, com todas as agressões ao meio ambiente, à qualidade de vida e ao definhamento progressivo do interior. E aí, sejamos claros. Ou se avança para o empowerment local ou se altera de uma vez o disposto no n.º 1 artigo 235º, Título VIII, Cap. I da Constituição da República Portuguesa. Não se referenda a implementação daquilo que já está constituído constitucionalmente.

Finalmente, exige-se ao novo executivo que governe pelo, para e com o país e não para o lado. É com isso que contam os portugueses, é aí que reside a nossa esperança.

11 de março de 2005

os deuses também já foram homens

CANCIÓN DE NAVIDAD


El fin de año huele a compras,
enhorabuenas y postales
con votos de renovación;
y yo que sé del otro mundo
que pide vida en los portales,
me doy a hacer una canción.
La gente luce estar de acuerdo,
maravillosamente todo
parece afin al celebrar.
Unos festejan sus millones,
otros la camisita limpia
y hay quien no sabe qué es brindar.

Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a tí te la entrego,
que no tienes ninguna.

Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.

Tener no es signo de malvado
y no tener tampoco es prueba
de que acompañe la virtud;
pero el que nace bien parado,
en procurarse lo que anhela
no tiene que invertir salud.

Por eso canto a quien no escucha,
a quien no dejan escucharme,
a quien ya nunca me escuchó:
al que en su cotidiana lucha
me da razones para amarle:
A aquel que nadie le cantó

Mi canción no es del cielo,
las estrellas, la luna,
porque a ti te la entrego,
que no tienes ninguna.

Mi canción no es tan sólo
de quien pueda escucharla,
porque a veces el sordo
lleva más para amarla.

Silvio Rodriguez

à tout propos (148)

Afinal, o motivo de ontem não se ter podido passar na circular junto ao Aqueduto das Águas de Prata, não se prendia com qualquer acidente rodoviário, como inicialmente se podia supor.
Um condutor desprevenido estacionou no parque de estacionamento e retirou as chapas de matricula para desempanar. Os tradicionais e atentos mirones deram pelo movimento suspeito e daí à brigada de minas, foram dois tempos.
Quando regressou, o condutor tinha a viatura desancada e provavelmente alguns a jurar-lhe pela pele (pelo tempo que ficaram à espera de poder retirar os seus próprios automóveis).
Postas as coisas, todo o cuidado é pouco e movimentos suspeitos são de evitar. Além disso, ontem era véspera do 11 de Março. Por isso, encher pneus, olhar para debaixo do chassis, deixar inadvertidamente uma janela aberta ou sair do carro e voltar a entrar no espaço de 30 segundos pode vir a dar direito a uma conta extra na oficina.
Mas pelo menos, também já temos brigadas de minas e armadilhas, como nos filmes. E isso é muito giro.

8 de março de 2005

à tout propos (147)

Apesar de manter enormes dúvidas quanto à instauração de «dias internacionais» de qualquer coisa - e apesar também de reconhecer que essa foi infelizmente a melhor forma encontrada para dar visibilidade a algumas questões específicas - hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher.
Para mim, torna-se claro que a utilidade deste dia é pouco maior que a de uma panela de pressão para fazer chá. Bom, na verdade, devo dizer que gozei de um período da tarde calmo e produtivo porque o Big deu dispensa às fêmeas e assim imperou o silêncio. Cada uma terá gozado a sua tarde como bem entendeu, tornando clara a afirmação de um dia especial, para pessoas especiais.
Entretanto, numa conferência em Lisboa, ninguém dispensou Maria João Avillez que se pôs aos pulos a questionar a audiência se alguma mulher neste país tomaria a decisão do Ex-primeiro-Ministro Durão Barroso, e se assumiria um cargo com tanto desgaste familiar, aquando da sua ida para a Comissão Europeia.
Ora, para além da enorme descortesia para todos aqueles (homens e mulheres) que se viram na vida criando a solo os seus filhos, esta é a visão do feminismo inconsequente e popularucho que todas as mulheres emancipadas devem rejeitar.
Como em tudo, as referências sociais assim como a identidade colectiva de um povo são históricas, portanto, assumindo que a igualdade só existe de jure, é descabido tal questionamento com referência a cargos que são assumidos por gente emancipada. Qual é a diferença para a Manuela Ferreira Leite, ser Ministra das Finanças ou Comissária Europeia? É melhor, lá não é contestada de forma tão boçal. E a Ilda Figueiredo, não é Deputada Europeia? E a Edite Estrela? Jamila Madeira? Ana Gomes?
Sobre se as mulheres estão equitativamente representadas nas instituições políticas é uma outra questão. Maria João Avillez, normalmente sóbria, abandeirou copiosamente em arco e comprovou justamente como as referências culturais são históricas, logo contextualizadas. E felizmente, temos dado sólidos passos no sentido de uma igualdade de facto que acompanhe a de direito.
Infelizmente, findo o belo dia, se calhar muitas das minhas colegas tiveram que fazer o mesmo (e mais) que eu vou fazer agora: preparar a refeição, estender a roupa, «fazer» outra máquina, lavar a loiça, regar as plantas e só não trato das crianças porque não há. Mas ainda terei que arranjar tempo para outras labutas extra-laborais, antes de beber um copo para descontrair.
Para uma pesquisa mais aturada, toda a informação no site do ICS.

7 de março de 2005

O fenómeno «Picarodinhas»




Eles estão por todo o lado, podemos vê-los em qualquer canto do país. São os veículos «Picarodinhas». Há quem os chame «pica-rodinhas» mas o certo é que são um verdadeiro fenómeno de marketing artesanal, fortuito e um pouco brejeiro. Porém, vende!

O mais curioso é um qualquer comprador aceitar andar a passear aquele logotipo para onde quer que vá. Admitindo que não são oferecidos em troca, títulos de acções da empresa na compra de um automóvel, podemos distinguir, grosso modo, dois perfis de clientes:
Em primeiro lugar, o cliente que vê no logotipo qualquer coisa como um meio de ascender socialmente ou simplesmente é um obstinado que não vê a hora de sair do «stander» com o carro, delirando com a águia do Benfica que tenciona estampar no capot, assim que chegar a casa. Quanto a este, estamos conversados.
Em segundo lugar, aceitando que todos os actores fazem no momento da decisão, uma escolha racional com base numa análise simples de «custos-beneficios», temos o tipo de cliente que decide aceitar o automóvel a troco de algo que desconhecemos e talvez nunca possamos compreender.
Ora, depois de reflectirmos sobre o assunto, ponderamos as seguintes hipóteses:
1) o vendedor ludibria o comprador, «reduzindo-lhe» o preço inicial, seja na retoma, seja no inflaccionamento prévio do preço;
2) enquanto mantiver o veículo, o comprador tem descontos na oficina para toda a vida do automóvel;
3) a empresa paga um montante ao novo proprietário, pela publicidade feita no automóvel;
4) a empresa tem um camarote no Estádio da Luz, para o qual convida quinzenalmente dois felizardos;
5) os carros são oferecidos.
Todavia, após a ponderação das hipóteses avançadas por um perito e sem poder optar com rigor por nenhuma delas, somos levados a concluir por uma vasta zona intersticial, uma zona de incertidão localizada no cérebro das pessoas, a qual, por ser desigualmente distribuída tem impactos diversos nuns e noutros.
Por conseguinte, este continua [e continuará] a ser um dos maiores mistérios da vida, um segredo bem guardado pela natureza, uma meta-realização da acção humana, que nem os vendedores nem compradores conseguem explicar. Um epifenómeno, portanto.

6 de março de 2005

em de-talhe

Mas alguém me pode explicar como é que uma pessoa, no caso, um pretenso advogado marialva, pode dizer sentir-se «mais confiante e seguro» por beber Actimel porque contém l'casei immunitas?
É mais ou menos assim: um tipo bebe aquilo e de seguida é o maior da sua rua. Os tipos da Red Bull dizem que dá asas mas parece-me que é metaforicamente. Talvez o l'casei immunitas seja um alucinogénico e nesse caso já me parece mais credível.
Esta é a descoberta do século para a epidemia do século XXI. Já alguém informou os psiquiatras? Um conselho à malta dos opiáceos: bebam Actimel, é bem mais barato, não é ilegal e alimenta. E acima de tudo, é seguro!

O «bigode» português




O «bigode» português é um retrato do Portugal sisudo e carrancudo que marcou sucessivas gerações de portugueses. É um tipo de bigode que parece durar sempre, alérgico à mínima corrente de ar que o possa despentear. É certo que há bigodes e bigodes mas o típico português ama o fado e assim, melancólico, jamais sucumbirá às pressões da novidade (ver foto). Ama Portugal, as sandes de couratos, o Benfica, os brandos costumes e o seu maior desejo é que os seus filhos sejam como ele, tal como ele munca se desviou um milímetro daquilo que já era o seu bisavô.
Esta é a herança do bigode, que podia muito bem ser a camisinha aberta a revelar o peito másculo, a desproporcional e multi-funções unha do mindinho ou o fatal palito que range entre os pré-molares inferiores.