4 de maio de 2006

Aceito Copular com Fémeas Férteis Para Efeitos de Reprodução e Isenção Fiscal

Desgraçados dos impotentes, dos homossexuais e dos celibatários – forçados ou voluntários. Conceber filhos deixou de ser uma opção. É agora um imperativo que condiciona a bolsa, independentemente da vontade e da maturidade em ponderar racionalmente sobre as condições convenientes à reprodução. Conforme os casos.

Deixou de ser uma opção, e em contrapartida a decisão de reproduzir poderia e deveria ser antes, objecto de uma política de incentivo à natalidade.
Deste modo, mesmo que não se deseje ou não se reúnam condições objectivas para ter filhos, os contribuintes serão penalizados pela má conduta de não reproduzir. Ter filhos passa a ser conditio sine qua non para receber a mesma remuneração que o colega do lado. É certo que o colega do lado gasta dinheiro com os filhos. Grande coisa!... E eu gasto com borga, com viagens e com os meus devaneios. Que raios tem o Estado que ver com isso?
Chegamos os dois lisos e a tinir ao fim do mês. Contribuímos para estimular a economia através do consumo, pagamos impostos directos e indirectos, somos taxados por tudo e por nada. Opções que se tomam consoante os interesses, aspirações, objectivos.

Quanto muito, o colega do lado (que passará a ganhar mais do que eu porque assumiu a dura opção de ter filhos), deveria ser considerado um herói por multiplicar a sua unidade familiar e pelos grandiosos serviços prestados à pátria. Deveria pois ver os seus esforços recompensados, à laia das cabeças de gado subsidiadas pelos generosos fundos comunitários. E receber com popa, o colar da grão-cruz-da-reprodução.

Há, porém, aqueles que tentam. E tentam com muita força e regularidade. Diligenciando junto de solteiros(as), casados(as), divorciados(as), casados(as) e até mutantes. Sem resultados práticos, a não ser uma perseguição pelo companheiro, uns sopapos ou o cigarro final pós-coital. Agora sim, percebe-se a complexidade do pensamento de João Paulo II, um visionário que a essa altura – da proibição do uso de contraceptivos – já temia pela bolsa dos portugueses. Terá Sócrates ainda em criança, em confissão ao Santo Padre, dado conta dos seus propósitos?

De qualquer modo, fica desde já um conselho ao governo para aumentar a colecta fiscal (pois é disso que se trata e não de sustentabilidade da segurança social): porque não aumentar a contribuição à Segurança Social, àqueles que não gostam de repolho?

O argumento de que são os nossos filhos quem vai pagar as pensões aqui dos velhotes é absurdo e deselegante. Nada me garante que os 5 filhos do colega do lado não venham a morrer, ser doentes crónicos ou desempregados de longa duração. Agradeço reconhecidamente que os filhos dos outros me paguem a mísera pensão mas por essa ordem de ideias talvez seja mais aconselhável cada um se ocupar do seu quintal e regredir até à fase em que os filhos eram projectados como força de trabalho, como a pensão de reforma dos pais. Nesse caso, desgraçados dos desvalidos sexuais porque não me parece que o aforismo «emprenhar pelos ouvidos» tenha sido considerado nessa aritmética.

Por essa ordem de ideias nem sequer faria qualquer sentido a ideia de Estado. Muito menos a de Estado-Providência. Logo, a ideia de solidariedade social alicerçar-se-ia no vácuo, seria um perfeito logro exactamente porque pressupõe a obediência a um vector calibrador das desigualdades, assente no princípio da solidariedade inter e intra-geracional.

Finalmente e porque de facto é a sustentabilidade da segurança social que está em causa, o alargamento dos activos contribuintes pode evidentemente ser uma das medidas possíveis. Mas há muitas outras: acabar com os luxos e benefícios principescos que animam os altos cargos públicos, estender a contribuição (por níveis de rendimento) aos reformados, aumentar a colecta das contribuições sociais das empresas (são, dizem as más línguas, dois os terços de empresas faltosas), ou simplesmente combater o desemprego.

Há ainda outra que agrada particularmente: promover a imigração qualificada e deixar que esse equívoco genético – o português – se evapore nos anais da história e se extinga para sempre para dar lugar a um homem novo, um homem imperfeito.

3 de maio de 2006

à tout propos (206)

Quando Maurice de Bévère (Morris) criou o inusitado e tolo Averell, inspirou-se seguramente nos portugueses.
Um abuso Sr. Maurice! São um abuso, essas generalizações simplistas e provocatórias. Nesses tempos, a média de altura do português devia rondar 1,5 m. Um abuso!

Cagar em Privado




René Magritte, Le Faux Mirroir, 1928
O que poderá haver de mais repressivo sobre a natureza humana do que «rotineirar» o acto escatológico de defecar? A rotina é tal que há quem programe o organismo ao milésimo de segundo. Adestrar todo o sistema digestivo, em irracional obediência às demandas civilizacionais. O expoente máximo da inversão da natureza humana, a excelência do adestramento disciplinar do corpo e da mente. Sob o argumento da higiene, da poluição visual e do scottex. O scottex… O wash-closet, a toilette, o quarto-de-banho, é uma das mais diabólicas invenções de que há memória. Não tivessem os malthusianos sido ostracizados e hoje poderíamos cagar onde e quando bem nos aprouvesse, pois haveria suficiente espaço para todos nesses campos, hoje cinzentos. Assim, temos que nos aguentar…

2 de maio de 2006

Até Parece Mal...



Nicolas Poussin, The Spring - Adam and Eve in Paradise, 1660-1664
Os raios de sol, já altos,
Apaziguam fraternalmente a terra fresca,
Revolvida agora por feixes ultravioletas,
Em continuadas marés de flores.
Cabeços tingidos de múltiplas cores,
Registam a intensidade dramática,
De um arrebatamento imedível,
Acirrado pelos aromas a alfazema, esteva e rosmaninho.
Lá fora, pululantes e instintivos,
Os seres acasalam sem razão, febris.
Os jardins clamam por gente,
Alvitram-se ruidosas gargalhadas,
Intempestivos piropos são desprezados com um sorriso nos olhos,
São serenas as brisas que moldam os corpos às sedas esvoaçantes,
E num singular momento,
Abrem-se os semblantes e é escorraçada a carga invernal.

Enquanto isso, umas poucas criaturas encalacram outras muitas, em miseráveis e cinzentos cubículos, colam-lhes enxadas e escopos nas mãos à torreira, confiam-lhes tarefas absurdas e pecaminosas, programam-se necessidades fisiológicas, condicionam-se as vontades. Incute-se-lhes apenas uma ilusão de sobrevivência. O trabalho liberta. Sobretudo as poucas criaturas. Liberta também esses campos, esses jardins, da atrevidota chusma com desejos de primavera…

27 de abril de 2006

Nebulosa Desconexa

O Estado é uma flatulência que escapou à Natureza. O Estado português é uma lixeira a céu aberto, fétida e caótica, onde alguns cães de raça se vão alimentar. As instituições são conjuntos de covis dispostos em santas alianças, conjunturais e instrumentais. Antropomórficas. Geneticamente, o português é um equívoco. As instituições também.

26 de abril de 2006

25 de Abril

De há 1 ano para cá pouco mudou, pelo que as palavras dessa altura valem para a actualidade. Pecam por escassas. Mas esgotar o âmbito da observação e análise com palavras seria uma tarefa tão árdua quanto lunática. Há sempre espaço para aditamentos. E, passados 32 anos, dá efectivamente a sensação que houve pouca bulha, pouco sangue. Não são assim as revoluções, nem no país dos estrumpfes... É tudo tão sensaborão, tão maçadoramente português…
Passados 32 anos, tal como hoje, a responsabilidade foi esfumada, ninguém foi responsabilizado, ninguém foi tido nem achado. Temos a incrível faculdade de exorcizar a toda a merda feita ao mais alto nível, «assim governamo-nos a todos»... As elites de ontem são as elites de hoje. Foram objecto de uma reciclagem higiénica. Vira-casacas, um bigode a menos e uma alteração de residência. Uns tempos no Brasil, nos casos mais bicudos. Entretanto, passados 32 anos (e 40 e 60 e 150 e 300), aqui a chusma continua inerte a contemplar as diabrites que os mariolas fazem, promovendo-as posteriormente entre si a um nível mais medíocre e imensamente mais néscio. Raiosnospartam a todos!

24 de abril de 2006

Modas...

As modas, quando se anunciam, acabam por ficar. De início, por uns tempos e depois, perpetuam-se na memória de cada um. Processadas e sentidas diversamente. No instante em que são reconhecidas como tal, as modas despertam paixões, estimulam irracionalidades, projectam celebridades, condicionam atitudes colectivas, imortalizam nomes como Jean-Paul Gaultier, Elvis Presley e outros.
Com efeito, quem não se lembra do «Bicho» de Iran Costa? Ou do hipnótico iô-iô (mais saudável)? Da inolvidável mini-saia (mais saudável ainda)? Dos longos cabelos espigados em forma de ninho, impulsionados por Figo quando no Sporting? E dos jeans cuidadosamente rasgados ao nível dos joelhos? E do rabicho popularizado por Jim Diamond (o do shoulda known better ou no português «quem chora não berra»), da pêra tipo João de Deus Pinheiro ou do ruído metálico das chaves, panelas e ferramentas presos por uma corrente que une o baraço – que segura as calças – ao piercing no nariz da fricalhada? Tudo modas!
Mas nenhuma chega aos calcanhares das batinas cinzas, lançada por Mão Tse Tung. Embora a moda das democracias também se tenha difundido de modo inaudito. Veja-se casos recentes como o Afeganistão ou o Iraque.

Na verdade, as modas podem ser incluídas naquilo que os antropólogos, sociólogos, filósofos e outra fauna afim, designam por mimesis ou, mais prosaicamente, imitação. Imitação social, um factor de coesão e assunção de identidades, de estruturação das representações sociais, um classificador dos indivíduos.

Nestes dias temos assistido à profusão de opas protagonizadas por investidores portugueses, saídos dos escombros do torpor e da recessão de ideias. Eis que chegou a moda das opas, um processo de referenciação colectiva. Opas sobre tudo e todos. De repente, não há cão nem gato que não faça ofertas públicas de aquisição. As opas viraram moda, não alinhar significa o ostracismo, a degeneração, o imobilismo, a má imagem. Eu próprio vou promover uma. Sei lá… talvez sobre as forças armadas ou então sobre o Ministério da Educação.

Além do ardiloso gestor que é, Belmiro de Azevedo tem também o dom de criar modas, o que faz dele um criativo, um estilista. Neste caso, estiliza a forma de estar das empresas portuguesas… Oxalá nunca se lembre de transferir todos os seus investimentos para o Bangladesh, pois levará consigo, não um terço do PIB português (como fez Sócrates na sua recente deslocação a Angola), mas 9/10 da «riqueza» nacional.
Em todo o caso, esta nova moda tem o mérito de fazer sair a «riqueza» nacional da penumbra. Ao invés, na Dinamarca, Espanha ou na Estónia, por exemplo, a moda é ter superavits. Modas…

21 de abril de 2006

Teimosia «Sincopada»

O débil fulano não se deteve e permaneceu inexpugnável enquanto as pesadas sevicias se perpetuavam, ressoando por todo o crânio: – «desiste, cabrão!» – «não desisto!» – «desiste, grande cabrão!» – «não desisto!». A história conta-se pelo coração a pender para ambos os lados.

Abanão «Tecnológico»

Aparentemente, a generalização do ensino de inglês no 1º Ciclo é uma das medidas estruturantes do Plano Tecnológico, um intenso rascunhado de inovação e qualificação, conceitos portugueses para definir algo tão vago quanto mirabolante. A inovação e qualificação dos portugueses procedem assim da antecipação do domínio de uma língua estrangeira, alguns anos antes do habitual (10 anos de idade, com a entrada no 2º Ciclo). Um passo decerto importante, dada a incapacidade de muitos nós em trautear uma música em inglês, pronunciar site ou até mesmo mandar o outro às urtigas… sempre na língua de Shakespeare. O caso espanhol é paradigmático, no que respeita a concomitância de desenvolvimento económico e domínio de idiomas: há quem fale castelhano, catalão e ainda faça uma perninha no basco. Notável...

Na verdade, surpreende verdadeiramente quando se constata que indivíduos como Sócrates se conseguem exprimir com relativa fluência em dois ou três idiomas estrangeiros. Tudo porque começaram somente aos 10. Sem embargo, alguns delatores deste programa de regime sustentam com toleima, à luz dos seus arrazoados pedagógicos, que a “aprendizagem de uma 2ª língua [pode ser susceptível de] bloquear e não permitir consolidar a aprendizagem da língua materna”. Não é pacífico. Mas agora é que é, quando toda a gente falar estultamente o inglês sem continuar a perceber muito bem para que raio serve isso...

20 de abril de 2006

à tout propos (205)

O que é uma OPA, senão um direito à autodefesa? O que é afinal um sopapo «gratuito», senão um direito à autodefesa preventiva? - «não sei se dás ou não, mas pelo sim, pelo não, levas já de entrada um sopapo e uma cabeçada»

à tout propos (204)



Joan Miro, La Estrella Matinal, 1940
20.4.1893 - 25.12.1983

18 de abril de 2006

Sem Significado, Somente Tu



Fernand Léger, The Mirror, 1925


Procuro ver nos olhos e jeitos das pessoas, a sua animalidade intrínseca. A ferocidade segura pelas débeis e culturais pinças da civilização.
O estertor de um olhar rapino,
No esgar faminto ante o alvo titubeante,
A astúcia de um movimento pendular,
Indisciplinadamente belo,
A retracção apreensiva de um corpo sem abrigo ou arma,
Onde o chão não é tingido por fundamentos,
Onde é magna a sobrevivência.
Na sua forma mais cruel e naturalmente antropológica. Despida da pele axiológica emprestada.
A gutural natureza humana.

à tout propos (203)

Segundo a fantasista imprensa portuguesa – que sem embargo e por lapso, consegue por vezes sustentar coisas acertadas – o governo preparar-se-á para transferir os estabelecimentos prisionais das grandes cidades para as periferias. Uma medida acertada, do ponto de vista das populações e dos detidos. Das primeiras porque evitam o contágio; dos segundos, porque ficam assim com um cenário propício à contemplação.

Com esta medida, teremos no futuro uma população portuguesa duplamente virtuosa porque descontaminada e asceta. Aposto que D. Afonso Henriques jamais teria imaginado tanta glória para um povo, em particular, este.

Ou então, uma premonição do tal devir desértico

Quanto Vale uma Prega a Mais no Cu?

Sobre a falta de quorum na Assembleia da República, ocorrida no dia 12 de Abril de 2006, na sequência da ausência de 120 dos 230 deputados. Possivelmente em trabalhos de preparação da quadra pascal.

É assim na Assembleia da República porque sempre assim foi. Ponto.
É assim na Administração Pública porque sempre assim foi. Ponto.
É assim, em suma, na fábrica x, no gabinete y e na escola z, porque sempre assim foi e não se perscrutam razões suficientes para alterar um cómodo status quo, irreflectido, mecânico e irracional.
Mesmo que sejam organizações e entidades modelares do funcionamento da coisa pública portuguesa, cujo exemplo de responsabilidade deveria ser inquestionável. Mas não é.

Este [pobre] grau de compromisso não é mais do que o reflexo de uma disposição orgânica assumida e reproduzida nas organizações, cuja continuidade encontra nas «elites» o seu principal instigador. Ou seja, na própria sociedade portuguesa, nessa grande comunidade de opinion makers… Nas «elites» porque em Portugal as «elites» estão disseminadas até à célula familiar. Neste tugúrio, os cinco minutos de tolerância para uma reunião foram sem problemas, alargados para a hora e meia. Mas este desleixo é tanto mais profundo e inculcado no referencial de responsabilidade luso, quanto alguns dos factores que lhe estão na origem, encapuçando sobejas vezes aquilo que é a gestão perniciosa daquilo que são os interesses e racionalidades instrumentais e o status quo que permitem resguardar: «assim governamo-nos a todos…».

Uma tal referência orgânica que é assimilada num complexo mais amplo de valores, costumes, artefactos, formas de agir, pensar, etc., a que se dá vulgarmente o nome de cultura. Cultura organizacional, cultura cívica, enfim, a cultura de um povo.

É assim… porque é! E porque a motivação para o combater e para nos desembaraçar desta enraizada e religiosa resistência à mudança é residual, incipiente, inodora, incolor e inócua. Para além disso, dá trabalho.

Continuemos pois com os enxovalhanços em surdina pelos cafés, fazendo jus ao adágio popular: «vozes de burro não chegam ao céu». Eles [os que exigem sacrifícios e compromissos das populações que os elegeram] continuarão a faltar às sessões no hemiciclo, a inviabilizar votações, a contornar a lei fiscal, a circular fora dos limites de velocidade previstos no Código da Estrada, a receber favores devidos, a promover clientelismos, a reproduzir nepotismos, a buscar no Estado a auto-promoção e a gozar de privilégios escandalosos.
Tudo isto com a convicção reforçada e alargada de uma impunidade que lhes assiste por direito divino, pela «prega a mais no cu» que pensam ter em relação ao resto da «escumalha» que os elege. Convicção de impunidade.

12 de abril de 2006

Prevaleceu o Regresso do Político às Ruas Francesas

à tout propos (202)

Afinal, talvez o Juíz do Supremo se tenha deixado levar ingenuamente pelas doutas palavras de Sócrates em Luanda, quando referiu que «Angola tem sabido merecer o respeito internacional». Imbuido pela verve dessa atraente pedagogia eventualmente praticada no modelar país africano, o juíz mais não terá feito do que trazer o velho progresso às salas da justiça portuguesa, aproximando assim também em matéria de justiça, os dois países irmãos; e fazer suas, as palavras do Sr. Primeiro-Ministro.

à tout propos (201)

A magistratura é coisa de muita responsabilidade, por isso, a bordoada pedagógica «nas ventas de um atrasado mental» é uma medida, não só de bom senso, como de rectidão moral no respeito pelo costume e pelos valores da família. Disciplina.
O virtuoso é aquele que leva o Outro a aceitar e a desejar ardentemente ser esmurrado pelo primeiro. Mas sempre com moderação. Manda o bom e aconselhável princípio de amor pelo próximo, que quando se chega a casa, «deve-se sempre arrear na mulher, nos filhos, na sogra e no cão (mesmo que seja do vizinho): um homem pode não saber porque arreia, mas eles sabem sempre porque foram arreados».
Lá dizia o aforismo: «triste, triste é um pai bater num filho. Mas mais triste, é um filho bater num pai»...

11 de abril de 2006

à tout propos (200)

José Sócrates diz que Angola tem conseguido merecer o respeito internacional

… Sobretudo em matéria de direitos humanos e em matéria de corrupção. Se Portugal quer ser também digno desse respeito, só tem que seguir o ilustre exemplo angolano… dizemos nós…

Chefe de Família Condenado por Fumar um SG Ventil à Sucapa

Fumar prejudica a saúde (…). Estamos todos de acordo. Mas já não estamos de acordo com esta fúria de ama-seca que se apossou do Estado. (…) As democracias ocidentais estão a gerar a infantilização de todos nós.

Helena Garrido, Diário de Notícias, 07-04-06


Compreende-se a inquietação do Estado com a saúde pública e com o aumento da despesa em tratamentos de doenças crónicas, provocadas pelo consumo de tabaco. Compreende-se a mesma preocupação por parte das seguradoras, claro.
Faz é pouco sentido proibir o consumo de algo sem proibir o seu fabrico, a sua comercialização e, por arrastamento, as receitas que gera para o PIB português.
Espero sinceramente e para cúmulo destes cuidados maternais, que não me entre pela casa adentro a brigada anti-tabágica com o livrinho das coimas na mão, quando me encontrar sossegadamente a desfrutar de um singelo cigarro depois de um bom jantar (sim, porque manda a racionalidade hedonística, prescindir do restaurante em detrimento do cigarro).

A Lei Seca terá repercussões nos luxuosos bólides dos ministros? Consta que o Código da Estrada não tem...

Na Corda Bamba da Ilusão

A Romano Prodi depara-se-lhe agora a hercúlea tarefa de relançar a economia italiana, devolver-lhe [alguma] credibilidade, pacificar o saco de gatos que integram a sua coligação (e futuro governo) e alcançar uma boa relação institucional com o Senado, a câmara alta. Parece muito para um só governo, sobretudo quando é da Itália que se fala.
Mas pelo menos, ficamos com o consolo de nestas eleições, terem sido a maioria, os coglioni que não votaram no cappo Berlusconi.

10 de abril de 2006

à tout propos (199)

Na Corda Bamba da Des-Ilusão

O Primeiro-Ministro francês tem um duro desafio pela frente: como minorar a humilhação que ele próprio cava, em cada dia que insiste em ignaramente manter o CPE (Contrato do Primeiro Emprego). Esperemos que a população francesa também seja «coglioni» como os partidários de Prodi e não se deslumbrem com essas migalhas de Villepin, agora retocadas esteticamente.

Por falar em italianos, será mais um desastre para a sua credibilidade colectiva caso o conceito tradicional de «coglioni» – vituperado por Berlusconi para qualificar os eleitores da esquerda – se venha a apurar no final da contagem dos votos (hoje). Por coincidência, os cinco anos del cappo della famiglia, são os que mais produziram intenções de blindagem do poder político às incursões da justiça. Por outro lado, defeito auditivo ou mero preconceito, nunca mais se ouviu falar daquelas mediáticas operações dos carabinieri nos limos baluartes da cosa nostra... Imbecil é que não é.

7 de abril de 2006

Fazer a Vontade ao Hamas

Perante o cenário anunciado pela União Europeia em suspender a ajuda financeira à Autoridade Palestiniana, não será difícil prever que o Hamas vai intensificar a demanda por financiamentos alternativos. E também não é anormal conceber a existência de numerosos beneméritos no mundo árabe, dispostos a apoiar um governo fundamentalista islâmico. Para isso, basta apenas não renunciar à luta armada e ao objectivo nº 1: escorraçar os judeus para o mar. Correrão rios de dinheiro…

Por outro lado, a decisão da União Europeia pode ser compreensível, caso as ajudas financeiras sejam canalizadas por outros meios, nomeadamente através da ajuda humanitária. No entanto, esse desvio de fundos gera um desequilíbrio nas contas públicas e na máquina administrativa palestiniana. A alta corrupção terá assim caminho para crescer e estender os seus longos braços. É isto que a União Europeia deseja? Talvez o Irão ou um qualquer Sheik dos Emirados Árabes Unidos possa pagar os salários da malta durante uns tempos…

Ao tomar esta decisão, não me parece que a União Europeia demonstre uma boa destreza negocial porque entretanto, já não é com a Fatah que está a lidar. Terá o Hamas, flexibilidade suficiente para acatar sem rodeios, as ingerências da União Europeia? Com esta decisão, a «moderada» União Europeia perde margem de manobra junto da Autoridade Palestiniana. A União Europeia está assim a entregar de bandeja aos radicalistas, a possibilidade de ajudar a alcançar acordos pacíficos e no espírito das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Coisa que poucos até hoje respeitaram…

A confirmar-se a decisão, sem contrapartidas que agradem aos palestinianos, o jogo do gato e do rato vai tender a persistir. Por cima da mesa, a toalha está incólume, mas entretanto por baixo, comandos israelitas e jovens suicidas muçulmanos seguem a sua vidinha porfiada. Um clássico.
A resolução do conflito pela via das armas também não é de excluir, porém, só poderá ser concluída depois de pelo menos uma das partes ter sido chacinada.

à tout propos (198)

Como se sabe, a oxigenação é um elemento corrosivo do organismo humano. Logo, a inspiração de oxigénio é, a prazo, altamente nociva para a saúde. Os energúmenos que decidem as nossas vidas, que se aconselhem com Michael Jackson. Ora, se o governo que mesmo ser nosso amiguinho, então que leve a Assembleia da República (que representa TODOS os cidadãos portugueses) a aprovar uma lei que proíba a respiração. Ah, e já agora, que fuzile quem se negar.

Uma Revelação



Francis Picabia, Bonheur de l'Aveuglement, 1947
Disfarçadamente, Gabriela mostrava-se apreensiva. Subitamente, do ângulo aberto oferecido pelo lugar ocupado ao canto da mesa, juraria identificar canais de comunicação entre as pessoas. Como feixes cónicos de luz, conectando emissores e receptores, à vez. Intensificavam-se no decorrer na conversação.
Contudo, esses canais cilíndricos de ar colorido apresentavam erro. Sistematicamente. No seu interior era possível observar partículas esquizóides em incessante circulação. Bipolaridades incompreensíveis.
As pessoas reunidas e dispostas ao longo da enorme mesa de carvalho, alcançavam diferentes níveis de entendimento entre si, aumentando ou diminuindo o diâmetro dos canais, conforme os interlocutores; e um conjunto de variáveis interconexas. Por vezes, os canais extinguiam-se, pura e simplesmente. Os dela, permaneceram invisíveis, intangíveis pelos restantes, translúcidos e por isso, não verificáveis.
Ao observar esses canais, Gabriela detectou elementos anormais que não podia compreender. Um problema de comunicação em que nem signo nem significado são municiados por atributos partilhados.
Falava-se de uma terceira pessoa, embora com o recurso a diferentes substantivos. Seria uma consciente ruptura que se ensaiava, visando a anulação da padronização a que a nomeada é sujeita. A rejeição da funcionalidade pretendida com a indexação da fisionomia a um nome.
E houve algo que inicialmente não apreendeu. Quando Ana falava ao grupo referia-se à terceira pessoa, adicionando um insondável prefixo ao nome próprio, como que, reclamando deferência para com o ausente sujeito. Ao invés, quando se dirigia a Cláudia, proferia o dito nome sem esse apêndice, tornando-o quase indistinguível. A disciplinada concentração de Gabriela era o factor decisivo, que lhe permitia suspeitar que uma e outra tagarelavam sobre a mesma pessoa. Impressionante, aquela transmutação sensorial operada em Gabriela e no grupo. Como vagas de ondas a rebentar na praia, engolindo tudo à sua volta, para em seguida arrastarem consigo tudo o que hão-de devolver em novo rebentamento.
E Gabriela não compreendeu aquela ruptura empreendida com a adição e a subtracção de um simples prefixo, que nada parecia significar mas cuja inclusão transformava manifestamente a seriedade da conversa. Afinal, os acessórios definiam as pessoas. Na primeira oportunidade, não hesitou em comprar um.

6 de abril de 2006

2040, Odisseia no Deserto

Por motivos decorrentes da necessidade vital em fazer sentir a sua presença nas terras despovoadas e inóspitas do território (dois terços), que coincidem com a linha de fronteira com Espanha [numa faixa que corresponde àquilo que vulgarmente era conhecido por «interior»], o governo português decidiu a execução do ansiado Plano Preventivo de Defesa Nacional. Deste plano, para além do especial enfoque na defesa dos valores e costumes lusos (contra a ligeireza e bem-aventurança espanhola), consta também um conjunto de medidas de re-colonização do torrão. Estas medidas consistem na edificação de estabelecimentos de reclusão e na transferência de outra «população dissidente», procurando assim, dissuadir quaisquer tentativas espanholas de anexação.

A decisão da execução do plano surge como resultado da debandada dos derradeiros anacoretas em direcção à Hispânia. Em contrapartida, a Ibéria ganha novo fôlego com o previsível afundanço português.

Guerra em Tempo de Paz

Quem é que manda, quem é? A estrutura hierárquica do exército português continua a ser um triângulo isósceles invertido. Não é divertido? Ainda no outro dia, quem estava no recrutamento a medir os pés da futura soldadesca, era um Brigadeiro. Enquanto isso, um General de três estrelas ocupava-se da normalização da papelada, em conformidade com os misteriosos procedimentos habituais.

4 de abril de 2006

à tout propos (197)

Cisma ou pouca-vergonha, certo é que nesta choça lusa até a merda das polícias de investigação são políticas. Por isso, bolinha baixa e «sim Sr. Dr.» são as receitas para uma flutuação de sucesso…

3 de abril de 2006

Nem Matam Nem Moem

Ao que parece, a conspiração de que terá sido vítima o autocrata (parauns) e benemérito (paraoutros) angolano traduz-se num: «metes-te na merda se não fizeres o que eu mando». Curiosa, essa noção de independência entre as instituições. Naquelas bandas, uma charada, que algumas «rolhas» parecem compreender muito bem. Já outras, revelam uma especial atracção pelas suas próprias fezes ao não solucionarem enigmas de crianças.
Os engulhos da história nunca esconderam alguns dos seus cancros. Uns mais malignos do que outros, partilham no entanto essa característica maníaco-obsessiva da visão periférica de 360º. Eles lá sabem porque raio há tanta gente a pensar em lhes fazer maldades e mesmo que não haja [o que eu duvido] haverá sempre alguém que dê a cara, mesmo que a não tenha... A chamada palmada pedagógica.

30 de março de 2006

Dúvidas Existenciais




James Nachtwey, Afeganistão, 1996
Talvez o melhor repórter de guerra de todos os tempos, James Nachtwey encontra-se em Portugal para integrar o júri do Prémio Fotojornalismo Visão/BES. Mais de 30 anos a denunciar uma das dimensões mais hediondas da natureza humana. E da civilização.

A máxima atribuída a Karl Von Klausewitz, segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios, parece ser honrada pelo calibre dos políticos que ao longo da história, mais poder dispuseram para o que lhes desse na mona. O mal não está naturalmente na política porque a guerra não é mais do que um apêndice alimentado por líderes políticos depravados e perversos, incapazes de o remover a não ser pela via da reprodução do sofrimento alheio. E da sua engorda…

Mas também se diz que as sociedades pacíficas geram frouxos. Serão afinal os políticos, historicamente, bons pastores de rebanhos
?

à tout propos (196)

Após o malogrado agente da GNR ter caído inerte em Estarreja, quando perseguia dois jovens meliantes que haviam furtado uma grade de cervejas de duvidosa qualidade, a Associação Profissional da GNR não perdeu tempo e saltou com molas a público, bolsando os habituais argumentos, reivindicações e construções lunáticas: falta de equipamentos, falta de efectivos, falta de segurança, falta de motiva$ão. Esse discurso, sabem-no eles de cor e salteado…

Violentas agressões ou tiros à queima-roupa foram de imediato equacionados. Talvez se tratasse de um trabalho de profissionais, quem sabe ligados à al qaeda ou aos mártires de al aqsa.

Decepcionantemente, as previsões não bateram certo e o desventurado homem terá morrido de morte súbita, possivelmente uma paragem cardíaca.

Aos papagaios, não se pede que pensem. Apenas que falem, e que falem tudo o que foi decorado com tanto sacrifício. Taqueospariu a todos!

29 de março de 2006

Medidas Preventivas do Governo

Sócrates revelou hoje no debate mensal, que a Maternidade Alfredo da Costa foi o local onde nasceu. Talvez o seu encerramento tenha por trás uma estratégia preventiva...

Sistemas Eleitorais e Determinismos Sociais... Nem à Pazada, Diria Marcuse, se Fosse Vivo...

Na conversão de votos em mandatos existem, grosso modo, dois grandes tipos de sistemas eleitorais: o sistema maioritário e o sistema proporcional. Por conseguinte, estes dois grandes tipos, distribuem-se um pouco por todo o mundo dito democrático. Apesar da sua natureza discutível e volúvel à análise multivariada*, as denominadas leis Duverger ajuízam que um sistema maioritário conduz tendencialmente ao bipartidarismo, ao passo que os sistemas proporcionais levam ao multipartidarismo (a este respeito clicar aqui e aqui também).

Se me é permitido o desarrazoado que se segue, debrucemo-nos um pouco sobre a proporcionalidade, tão do agrado das «franjas mais tolerantes» da sociedade. Este conceito visa garantir a representatividade de grupos minoritários étnicos, religiosos e ideológicos nos órgãos deliberativos dos estados, onde pululam os insignes representantes do povo. Mas também proporcionam, em tese, uma acção de controle no respeito pela diversidade da fauna. Uma recusa implícita, portanto, da homogeneização social encaixada à martelada, um indeferimento à integração coerciva, que, também em tese, representam os sistemas maioritários. Tudo isto, apreensível pela mais grossa lente… Como é do nosso costume.

Ora, em rigor, os sistemas proporcionais justificam-se com maior acuidade nas sociedades desconfiadas, onde ninguém põe as mãos no fogo por ninguém, onde grassa o mais engenhoso e torpe calculismo. Ou seja, em quase toda a parte do mundo. Até porque permitem aligeirar as meleitas e os defeitos...
Mas ambos, sistemas maioritários e proporcionais, resultam complacentes onde, como referia Eduardo Prado Coelho (Construir um País) no Público, de pouco servirá o governante x ou y, quando reconhecidamente "temos muitas coisas boas [«enquanto matéria prima de um país»] , mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa «CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA» congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, [a qual] mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim".
Senão, porque razão haveria necessidade de criar instrumentos eleitorais que garantissem a observância daqueles pressupostos? Viveríamos em paz, harmonia, tranquilidade e sem necessidade de ordenamentos político-jurídicos que regulassem os nossos desvarios, as nossas maleitas sociais. Seríamos imperfeitos e não é isso que nos move, enquanto espécie...

O que é então a democracia, senão uma ortopedia político-cultural aos ímpetos naturais e às degenerações histórico-culturais?
Haja saúde da boa, para o Eduardo Prado Coelho e as suas crises de identidade, para o governo e a sua esquizofrenia, para a plebe e a sua indisciplina. Como este último segmento tem uma maior dimensão, acrescentaríamos à indisciplina, o bonheur néscio. Por uma questão de justiça.
* Veja-se o caso português, onde campeia a regra da proporcionalidade, gerida à vez por dois partidos.

27 de março de 2006

Desburocratização, a 1345 Tempos

Sócrates, José Pinto, prepara-se para anunciar hoje 400 medidas contra a burocracia. Foi declarada guerra a esse monstro tão útil à classe política. Preparará a implosão?
... Só ninguém lhe explicou que algumas dessas medidas já estão regulamentadas e são executadas diariamente. É incrível, esta capacidade de previsão que algumas sessões da Assembleia da República evidenciaram em ocasiões transactas. Notável.

à tout propos (195)



...Para quem tinha dúvidas de que o governo está solidário com os portugueses e de que encara a gestão do país como se de uma maratona se tratasse (do ponto de vista táctico e aeróbico), ali se pode identificar o Conselho de Ministros em peso: são os 17 do boné vermelho. Podemos ficar muito mais descansados. Os restantes são meros figurantes, elementos perfeitamente descontextualizados...

24 de março de 2006

à tout propos (194)



Andrew Wyeth, Cristina's World, 1948


Um handicap, uma persistência intransponível que se arroja contra a possibilidade esgotada na matéria e nos materiais.

O Fim?

O comunicado lido pelos tradicionais etarras encapuçados, renunciando à torpe luta armada e em consequência, ao terror (nalguns casos visando «inocentes»), afigura-se como uma notícia impar, um sinal de esperança. No entanto, manda a prudência que governo espanhol e comunidade internacional acolham a notícia com especial cautela. A situação regista precedentes, relacionados com a tentativa de ganhar tempo para proceder a reorganizações internas.

A ETA caiu exaurida, sem forças foi definhando, após mais de 4 décadas de luta sanguinária. Mas, ao contrário de noutros sítios, nem a ETA baseou a sua existência nas acções puramente indiscriminadas contra alvos civis, nem o governo integrista espanhol cedeu à tentação de regular a sua conduta pelo patamar mais rasteiro, o da lex talionis, isto é, olho por olho, dente por dente. O direito hebraico e a perigosa toleima americana (e outros países) nunca foram muito complacentes com as povoações «hospitaleiras de terroristas», deixando que as represálias se alastrassem até ao decrépito cão da vizinha, cego, surdo e coxo de três patas; mas pouco afortunado por se saciar com um pouco de frescura proporcionada exactamente pela sombra do plátano, onde se abateu um insensível obus…

Em todo o caso, no comunicado havia uma insistência implícita e óbvia, que apelava à necessidade de dar a possibilidade às comunidades bascas para se expressarem acerca da sua eventual autodeterminação e unificação num único estado-nação basco. Palavras de circunstância para deixar a cara lavada ou reivindicação subliminar, o certo é que há muitas feridas por cicatrizar, muitos caminhos a percorrer no sentido da pacificação. Essa insistência não passou despercebida... Mas que se não renuncie à luta, se é essa a vontade colectiva. Esta é a oportunidade para prosseguir, num quadro de democracia e respeito pelos direitos e garantias, isto é, a luta política na defesa dos direitos dos bascos. Sejam integrados ou autonomizados. O importante é que os canais de diálogo e respeito mútuo se mantenham abertos.

23 de março de 2006

Um Padrão de Comportamento

...Diz-se também que o ser é permanentemente louco.

De Frustração em Frustração

Diz-se que o desejo insatisfeito caminha a par da frustração, que são concomitantes. Ou seja, o que amamos e nos impele é, em última análise, a frustração, o fim último das coisas uma vez que o desejo é por natureza uma decorrência da insatisfação.

22 de março de 2006

Too Much Love Will Kill You

A doxa fervorosa dos que militam e a convicção exacerbada podem obscurecer a análise. A observação lúcida de uma tão preocupante evidência, deixa os mais inquietos em permanente sobressalto, senão depressão. É caso para dizer que too much love will kill you… Ou, pela boca morre o peixe.

21 de março de 2006

Apanhados, Pela Frivolidade

A cena consistia na abordagem de uma jovem e atraente actriz ao incauto transeunte. O método, fazer-se passar por alguém que teria levado a proverbial «tampa» da desprevenida vítima, reafirmando os seus bons sentimentos e a decadência emocional em que supostamente teria sido deixada a pobre criatura. A surpresa estampada no rosto de alguém sem consciência de ser «apanhado», parece ser mais recreativa consoante o escurecimento da derme. Não é novidade, esta particular ênfase nos padrões estéticos que vigoram, suscitando a troça dos desengraçados, à luz do padrão. Pior ainda quando a diminuição tem orientações raciais. A insistência é ultrajante, tendo em conta o horário nobre em que a SIC exibe o seu imbecil showzinho.
Enquanto isso, a turba estupidificada ri inane a bandeiras despregadas, atolada na sua própria merda e atordoada pelos gases emanados.

Uma Oposição à Mudança do Establishment como Convém

"Quanto a oposição ao PS, é bom lembrar que até hoje nenhuma oposição foi forte. Não foi a do PS a Sá Carneiro e Cavaco. Não foi a do PSD a Guterres. Não foi a do PS a Barroso. Não foi a de ninguém a ninguém. Em Portugal, a oposição não existe."
Vasco Pulido Valente, Público, 19.3.2006
A democracia portuguesa é feita disto, insípida, incolor e quase inexistente no que diz respeito à actividade partidária, executiva e parlamentar. Não passa disto, de um arranjinho entre as duas principais facções partidárias, partilhando ciclicamente o poder perante a perplexidade do vegetal povo. Dividir para reinar. Uma eternização das brincadeiras de criança, agora com mais pêlos no queixo e menos vergonha na cara.

Entregue aos Bichos

20 de março de 2006

Carneirismo




Na edição de 18 de Março do jornal Público, Helena Matos descontrói a figura da eterna juventude que se afigura crescentemente como um valor social de obsessiva interiorização, contra o natural e indesejado envelhecimento. Este mito da juventude eterna é materializado pela atenção dispensada aos jovens, pelo alargamento etário da juventude ou ainda, pela assunção da juventude n’importe quoi para além das rugas e dos netos, verificável nas intervenções dermo-estéticas, no ginásio e no espírito jovial de sorriso amarelo.

Esta desconstrução razoável de Helena Matos está porém, na base da sua argumentação tirada a ferros, que assiste à inexistência de legitimidade dos jovens franceses que protestam nestes dias um pouco por todo o país (epicentro dos protestos na Sorbonne), contra o Contrato Primeiro Emprego (CPE). Esta iniciativa legislativa unilateral do governo (sem concertação colectiva com os parceiros sociais), prevê despedimentos sem justa causa dos jovens até 26 anos de idade, durante os primeiros 2 anos de trabalho. Um convite à discricionariedade e arbitrariedade das entidades empregadoras. O argumento do governo é invocado em nome da flexibilização do mercado laboral no primeiro emprego e a pretensa discriminação positiva aos jovens provenientes dos meios sociais mais desfavorecidos. Uma visão, de gabinete, mas uma visão…

Helena Matos conclui o arrazoado, remetendo essa falta de legitimidade dos jovens para a constatação do que considera os verdadeiros e legítimos problemas a enfrentar, ou seja, as condições laborais dos imigrantes, o crescimento do desemprego, a perda de direitos e garantias, etc. Outorgada a legitimidade do protesto por direito divino (em constante comunicação com a autora), Helena Matos deslegitima as acções de protesto dos jovens, acusando-os de alienação relativamente ao mundo que os rodeia. E nalguns casos terá a sua dose de razão.

É incontestável que os imigrantes que arriscam as suas vidas no andaime e em balsas cruzando o mediterrâneo, devem ser objecto da nossa inquieta atenção. É evidente que as degradadas condições laborais e o crescimento do emprego são factores de desequilíbrio social e económico que urge combater.

Contudo, não se trata aqui de olhar para os jovens com especial comiseração e proteccionismo, que exclua os direitos legítimos dos que lutam árdua e diariamente pela sobrevivência. Trata-se, tão-só, de garantir a igualdade de tratamento contratual e de acesso ao mercado laboral, sem que o factor da idade seja um critério decisivo e exclusivo. Justamente esse critério, dislexicamente apontado por Helena Matos como aquele que não se deve sobrepor às condições sociais e profissionais dos cidadãos, em particular, na opressão operada sobre a capacidade de trabalho revelada pelos mais velhos, sempre ofuscados pelo intenso brilho projectado pela atractiva e imaculada juventude.

Mais do que um simples protesto de rua, as manifestações em França (independentemente do aproveitamento feito por facções radicais e extremadas à esquerda e à direita), são uma demonstração da indignação, uma reivindicação de direitos sociais enquadrados no princípio da igualdade de acesso. Um exercício mais-do-que legítimo de cidadania consciente dos seus direitos e deveres. Numa democracia madura e consolidada.

Justamente uma recusa do «carneirismo» que se apoderou da sociedade portuguesa e que envergonhadamente, reconheço que a caracteriza. Dá muito mais jeito aos políticos ter uma sociedade apática, assertiva e sem convicções ou ideias, da qual se possa dispor como e quando se queira. São estes, os «brandos costumes
», confirmados e invocados por Helena Matos.

17 de março de 2006

Democracia, Democracias

Implementar de estaca, a democracia contemporânea à imagem sacralizada do Ocidente em locais a atravessar um tempo histórico discordante, é uma ilusão colectiva. Uma coerção cultural eivada da inevitável hostilidade simbólica. Em locais a reviver neste tempo histórico os nacionalismos exacerbados, imbuídos da verve medieval. Locais onde as luzes não chegaram, locais que enfim, queimaram uma série de etapas para manusear artefactos e tecnologia contemporânea. Não é determinismo desenvolvimentista. É a assunção de um caminho coxo para alcançar um sistema político com uma orientação muito específica no domínio dos princípios de igualdade, liberdade na afirmação dos direitos humanos, sociais e políticos. Veja-se o Iraque, Angola, a Birmânia ou a Madeira. Sobeja a diacronia perfilhada num único tempo histórico.

16 de março de 2006

Arghh




Eduard Munch, The Scream, 1893
Eram sete e meia da manhã, eram rigorosamente sete e meia, as horas que o mostrador exibia. Eram sete e meia quando o quarto despertou em sobressalto pelo estridente som electrónico do despertador. Intensificou-se a sonoridade à medida que X descolou sem pressas o crânio do travesseiro, lavado em suor. Concentrou esforçadamente os olhos no único foco de luz projectado no quarto, em tons púrpura, certificando-se num movimento mecânico do inevitável chamamento. A rotina habitual. Um dia e outro, e outro ainda. Assim se sucediam os dias, ordeiramente alinhados como uma companhia em parada de guerreiros persas, a perder de vista. Atrás de um vem outro e assim sucessivamente, sem termo observável a partir de um ângulo oblíquo, paralelo ou perpendicular. Uma linearidade monótona e implacável. Acordar diariamente para sofrer a ofensa daquele ruído ecoando nos recantos do seu cérebro. Acordar uma e outra vez, acordar uma vez mais. Mas X não se queixava, afinal de contas, todos os que conhecia padeciam do mesmo. Era assim. Uma ordem natural, sem merdas.

Um único movimento revolveu com denodo o cortinado da janela e o dia mostrou-se. Não só se mostrou como invadiu o quarto de uma claridade abrasiva para as frágeis íris de X, ainda mal acostumadas às partículas em suspensão. As pálpebras contraíram-se. A indecifrável treva até esse momento, adquiriu então formas e contornos coloridos e matizadas pelos dourados influxos de luz matinal. Um dia primaveril, aromático e generoso entrou pelo quarto adentro, misturando-se com o intenso odor a suor e mofo.

A mal consumida beata do último cigarro fumado durante a noite jazia vertical no cinzeiro, atolado de cinza e resquícios de cigarros, fósforos siderados e outros resíduos. X olhou demoradamente em redor, com indiferença e levou a pirisca à boca. Com a mão esquerda tacteou em busca de equilíbrio na aduela da janela e acendeu o que restava do cigarro com a mão direita. Olhou novamente em redor e inspirou profundamente. Uma leve brisa arrepiou-lhe o estômago.

Absorto em pensamentos vãos e inúteis, foi subitamente interrompido por incessantes e nervosas pancadas na porta do seu quarto. Reagiu e acenou com a cabeça à mãe que entretanto entrara, acometida por uma estranha inquietação.
– É verdade, o que se diz por aí? Que és trostkista-cristão?
Permaneceu imperturbável e retorquiu – Não digas asneiras, de onde te veio essa agora?
– Foi o Sr. Eleutério da…
– Não digas mais! Não é o momento oportuno para estarmos a falar dessas coisas. Afiançou. – Não sei de onde veio tal coisa. Fui visto há dias com um tipo que dizem ser trotskista-cristão. Falamos de assuntos normais, de trabalho, é tudo. Somos amigos. Que mal há nisso?
– E o que vai ser da tua vida agora? Interrogou a mãe em choque.
– Não há mais nada a fazer aqui, terei que partir.
– Mas se não és trotskista-cristão, filho, não se pode fazer nada? Toma, fuma um cigarro!
– Nada se pode contra essa gente, sou agora um homem marcado. Este quarto cheira horrivelmente. E partiu espavorido. Sem terminar a beata e sem tomar o pequeno-almoço, em alvoroço e sem norte.

15 de março de 2006

À Bolina

Dizem, aqueles suficientemente calejados para se lembrarem até onde a memória perde o chão, que esse navegador aparentemente dominado pela estultícia, teria na verdade em mente uma ambição incalculada, a de deitar por terra as convenções e a ortodoxia. A navegação à bolina, tornou-se a partir daí um apanágio dos menos audazes e excessivamente prudentes. Os cegos, seguiram um louco. E conseguiram.

Canibalismo Mediático

No rescaldo do acidente de ontem, ocorrido na A4, o jornalista da SIC concluía evidentemente indignado, pela «espectacularização» mórbida observada nos automobilistas que recolhiam amoralmente fotos da lamentável ocorrência. Uma péssima e condenável conduta.

Moralmente superior, a classe jornalística portuguesa está assim convencida da sua legitimidade para exibir sem misericórdia e com total desfaçatez, as venturas e desventuras, as vidas e as emoções, explorando-as sem pudor até ao osso. A informação levada para lá dos limites, a informação banalizada e convertida em espectáculo brejeiro e de trazer por casa. Eles, arautos da ética e da deontologia profissional na procura despudorada da sensação hiperforjada.

14 de março de 2006

Invocação



Mark Rohko, Red and Orange, 1955



A MORTA


Se de repente deixares de existir,
se de repente não viveres,
eu continuarei a viver.
Não me atrevo,
não me atrevo a escrever,
se tu morreres.
Eu continuarei a viver.
Porque onde houver um homem sem voz,
ali estará a minha voz.
Onde os negros forem espancados,
eu não posso estar morto.
Quando os meus irmãos entrarem no cárcere,
eu entrarei com eles.
Quando a vitória,
não a minha vitória,
mas a grande vitória
chegar,
ainda que esteja mudo, hei-de falar:
hei-de vê-la chegar, ainda que esteja cego.
Não, perdoa-me.
Se não estiveres viva,
se tu, querida, meu amor,
se tu morreres,
todas as folhas cairão no meu peito,
sobre a minha alma choverá noite e dia,
a neve queimará meu coração,
sentirei frio e fogo e morte e neve,
meus pés hão-de querer levar-me para onde tu descansas,
mas
continuarei vivo,
porque tu me quiseste acima de tudo
indomável,
e, amor, porque tu sabes que não sou apenas um homem,
mas todos os homens.


Neruda, Pablo (1999): Os Versos do Capitão, Porto, Campo das Letras, 105.

13 de março de 2006

"Lugar, Lugares"




"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído"


Helder, Herberto (2001): Os Passos em Volta, Lisboa, Assírio & Alvim, 53.

Cidadania Activa - Utopia?

Considerar a interposição de uma eventual providência cautelar ao negócio do «pombal» – também conhecido por praça de touros – em Évora, tem em conta um princípio inalienável: a prossecução do interesse público. E esse, não posso ser eu a defini-lo, nem o Presidente da Câmara, nem o líder da oposição, aparentemente personificado na figura do Manoelinho. Somos todos e, para isso, não chega a legitimidade de um mandato. Já de si, é o que é...

Um tal negócio, resultante de um investimento exclusivamente público (até prova em contrário) numa estrutura-infra, em ruínas portanto, a envolver uma concessão de utilização de 25 anos é no mínimo, alarmante. Põe em polvorosa os espíritos mais desatentos. Findo esse período, a referida estrutura-infra – recuperada de raiz – regressa sem mais encargos às famílias proprietárias. Atente-se que não estamos a falar de um imóvel com valor patrimonial especial, porque de facto, do ponto de vista arquitectónico, é a antítese de um Campo Pequeno, por exemplo. Quanto muito, algum valor simbólico, para os marialvas, para um ou outro aficionado e para alguns estudantes universitários, que ali concluíam o triste cortejo anual com uma decadente garraiada. Em todo o caso, o seu valor simbólico encontra-se desde logo, indexado à prática tauromáquica, finalidade para a qual o equipamento só estará parcialmente vocacionado. Os aficionados merecem algo melhor… Tal como os eborenses.

A questão que se coloca é apenas esta: este processo foi objecto de algum estudo de viabilidade, que considerasse a construção em terrenos municipais, de um equipamento municipal similar e com retorno público? Não me parece. Não há conhecimento de qualquer tipo de estudo com respectivo caderno de encargos. Ou seja, tanto quanto se sabe, a decisão foi apriorística. Alguém se lembrou disso, vá-se lá saber em que canto da casa, numa bela manhã de primavera.

A construção de um equipamento similar, de raiz, em terrenos municipais, significaria de algum modo, um encargo mais oneroso para a coisa pública?

Ninguém sabe. É exactamente por haver uma necessidade de clarificação de forma a perceber se a construção nestes moldes é a mais razoável, que surge a figura da providência cautelar. Que seria perfeitamente dispensável se fosse objecto de uma discussão pública. Porque apesar de o sufrágio mandatar políticamente os eleitos, legítimos representantes do povo, não pode todavia significar um cheque em branco.

Independentemente das ligações ou simpatias partidárias, esperar-se-ia um pouco mais dessa elite intelectual eborense que passa a vida em bicos dos pés, aguardando por uma possível migalha, uma eventual palmadinha nas costas. São assuntos da mais elementar cidadania, portanto, transcendem a órbita mesquinha e irracional em que circulam algumas pessoas nos partidos políticos.

Uma maioria na Assembleia Municipal não é, de per si, conditio sine qua non, que legitime toda e qualquer deliberação. Onde estão os grupos de cidadãos, onde estão os vereadores e membros da Assembleia Municipal da oposição? E os que não sendo e não se revêm num determinado modus operandi que não é exclusivo nem do PS nem de qualquer outra força partidária?
Isto é o que o vulgo costuma designar de «fazer filhos em barriga alheia». Feito o filho, não nos restará outra alternativa senão acarinhá-lo e dar-lhe as melhores condições para que desenvolva com saúde e seja motivo de orgulho de todos, que somos nós. Mas que se podia ter evitado, lá isso podia.

Uma Pedrada no Charco

Se não fossem proferidas por um indivíduo ligado à banca, as declarações de Paulo Teixeira Pinto (administrador do grupo BCP) até podiam ser consideradas perfeitamente inócuas. A OPA lançada pelo grupo que lidera é tudo menos pacificadora, é em toda a linha uma oferta de aquisição hostil.

Todavia, numa altura em que o governo não consegue transmitir mais input’s de confiança, eis que surgem o grupo Sonae – primeiro – e o grupo BCP – depois – a aplicar um safanão no marasmo e a dar um sinal de confiança na economia portuguesa. Quando ninguém o poderia prever. Estas iniciativas, são por isso mesmo, uma lufada de ar fresco. Uma pedra no charco.

Telhados de Vidro, Quem os Não Tem?...

Quando o operador de câmara da RTP arrastou propositadamente o plano da imagem, exibindo subtilmente as maleitas de um «encadeirado» adepto do Benfica na demanda de bilhetes para o jogo com o Barcelona, pergunto-me o que teria o energúmeno funcionário em mente. Provavelmente, nada. Digo isto porque jamais terá passado pela cornadura desse animal, deter o plano entre o cocuruto craniano e a zona clavicular, no mesmo registo a que submeteu os restantes entrevistados. Mas esses, não evidenciavam nenhuma patologia apreensível a olho nu a não ser a celeuma futebolística estampada nas caras. Isso não é patológico, é a pura padronização das emoções e da racionalidade. Claro que a diferença [mesmo que maquinal] estava lá, o estigma não podia passar em claro. Aborrece particularmente que ninguém se tenha lembrado de mostrar a quem quisesse ver, o enorme e metálico quisto que se desenvolveu impunemente no ombro do captador de imagens. Ah pois é…

Uma Terceira Categoria do Gosto

Arroz de lampreia «à la cabidelle», manjar dos deuses e sobretudo, dos outros. Diz-se por aí. Na realidade, foi um assombro dos sentidos quando o empregado se acercou à ordenada mesa com a malga de barro, toda ela em ebulição. – olha, traz rodelas de chouriço no arroz!... Santa ignorância. Antes fossem rodelas de chouriço, uma boa morcela ou mesmo uma alheira de Trás-os-Montes. O final saldou-se por uma larica monumental. Disseram-me posteriormente que é um prato que exige uma confecção apuradíssima. Uma tripa removida com delicadeza, condimentos criteriosamente mesclados. Pois, talvez. Certo é que nem a vergonha me impeliu a deglutir mais do que duas porções de colher… Mas o empregado avisou, «há gente que gosta e gente que não…». Logo teria eu que ser dos que enjeitam a responsabilidade de aquilatar, uma terceira categoria, portanto.

PS: só há uma possibilidade de ultrapassar o trauma das rodelas de chouriço que consiste em experimentar num local consagrado e… pelo sim, pelo não, jejuar até ao jantar.

10 de março de 2006

Portugal e Progresso

Portugal é um modelo a seguir em matéria de integração europeia, um país que aproveitou exemplarmente os apoios concedidos pela comunidade europeia”.

Este discurso, produzido recorrentemente pelas frágeis lentes de observadores estrangeiros (normalmente, naturais dos novos países membros e/ou dos que integram o processo de pré-adesão à UE), remete indubitavelmente para uma imagem desviada que só pode radicar numa representação histórica (errónea) de Portugal, projectada e reproduzida nos seus países de origem: a de um país desenvolvido. Um país de progresso.

Em face disso, arriscaria uma possível imagem veiculada nesses países do Portugal de há 2 décadas (comparativa), como sendo um tugúrio caótico, povoado por tribos semi-nómadas a apascentar gado e que lançariam olhares gulosos sobre um bom naco de carne com um relógio no pulso (simultaneamente, vígaros e machos latinos).

Fora a retórica, progredimos realmente bastante, ao ponto de caminharmos erectos e dispormos de um polegar oponível à mão, como os outros. Isso, meus amigos, é indiscutível.

Rasteiro, Rasteirinho

Abespinha-me solenemente nos fanáticos religiosos, essa toleima dominante. Rigorosamente a mesma exibida por alguns políticos. E outros energúmenos seguidistas. É raro quando conseguem ver mais além do que as pedras, ervas rasteiras e um ou outro bicharoco que se cruza no seu caminho. Afortunados os que conseguem escalar ao topo de uma rocha num plano mais elevado e ainda conservam a visão.

em de-talhe, no Mais Évora

Estágio da selecção nacional de futebol em Évora e o negócio do enorme pombal onde eram habitualmente corridos os touros. E outros...

Mesada Contra o Crime

Gordon Brown (governo britânico) lançou uma polémica medida com vista à ocupação dos jovens em actividades que os afastem do crime e de actividades anti-sociais. Aos adolescentes é distribuído um cartão com uma mesada (entre 17 e 36 euro) para gastar em desporto e lazer. Quebrar as regras do jogo significa a perda do cartão (vide jornal Público de 9 de Março).

O escolho não está na bondade da medida, está sim no processo que levou à decisão lunática de gastar 167.5 milhões de euro, sem quaisquer garantias que creditem uma tal decisão (despesismo à grande e à inglesa, país que já sustenta uma boa parte dos inúteis existentes em solo europeu). E esta forma de des-governar é comum, demasiado comum. Para quê financiar estudos e diagnósticos condenados ao escamoteamento pela gaveta, incapazes de resistir aos ímpetos tresloucados, nessa verve «encigueirada» dos políticos?

Além do mais, caramba, não podemos fingir ser cegos... é muito mais convidativo e excitante gamar uma velha pensionista e rezingona, passar umas gramas de coca, espancar um transeunte e acabar a noite a dar umas «trancadas» na babe enquanto se regurgitam restos do jantar. Para não falar da soma irrisória que o governo se predispõe a dar...

8 de março de 2006

Mulher



Ângela Ferreira, Catarina, oil on canvas, s.d.


"A princess dreams of unicorns and dark fairies. A beautiful angel will protect and provide company in the dark, lonely nights."
RECEITA DE MULHER

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, Qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; Que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. É aconselhavel na axila uma doce
Relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos.
A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e,
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo,
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; E destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.
Vinicius de Moraes

Podridão

A justiça chã dos homens, manipulada por gente rasteira, sem escrúpulos que não sejam o seu próprio protagonismo. Ensaiam em Despacho a criatividade trafulha, ao serviço do mais maquinado móbil, degenera a instituição numa farsa, à qual não é possível reconhecer qualquer tipo de legitimidade.

7 de março de 2006

O Juízo dos Homens



René Magritte, The Menaced Assassin, 1926

Governo Aumenta as Taxas Moderadoras das Urgências

A miopia tanto pode ter de patologia corneana como de imberbe autismo. Se até aqui, não se conheciam as causas que punham as pessoas doentes, doravante perceber-se-á inequivocamente qual a razão que está na origem de uma inesperada saúde do povo português.

Com esta medida, o governo pretende pôr termo às filas de espera no interior das urgências, transferindo-as para o mercado negro, onde se amontoarão ambulâncias a discutir preços.

Espectros Sicofânticos

De passagem por O Espectro, assinado por Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá (já de si, nomes suficientemente pomposos para serem condenados ao sucesso), não é possível esboçar a mais pálida indiferença pela teia de amigos [e outros que gostariam de dar nas vistas para sê-lo mas que não são. Ainda] que alimentam a coisa desse efeito sicofântico (ou bajulatório), característico das ligações partidárias. E por vezes, interpartidárias. Por aqui se vê como o lenço é curto. Se não andaram todos juntos à escola, que se corrija o lapso com as gerações seguintes. Uma teia, portanto.

6 de março de 2006

Uma Chatice Nunca Vem Só



Roy Liechtenstein, Interior With Mirrored Wall, 1991


Admiro aquelas pessoas que conseguem, no decurso de uma conversa em tom grave, olhar o seu interlocutor e sentenciar, em jeito de confissão: - «sabes, o que mais me chateia no meio de tudo isto é x».
Essa capacidade de síntese e escalonamento é extraordinária, pois ao ordinário chateiam normalmente variadíssimas coisas que competem entre si pelo protagonismo, impedindo coroar uma com o troféu do «mais irritante». O passar dos anos agrava esta sintomatologia.

à tout propos (193)

"Quando a greve foi neutralizada [Tóquio, Maio de 68] e as aulas recomeçaram sob ocupação da polícia, os primeiros alunos a ocuparem os seus lugares nas salas de aula foram precisamente os mesmos idiotas que haviam encabeçado a greve."

MURAKAMI, Haruki (2004): Norwegian Wood, Lisboa, Civilização Editora, 65.


Muito cómodo... Há eventualmente alguns casos semelhantes e afortunadamente para um qualquer investigador, não é necessário romper as algibeiras das calças em busca de ienes...

3 de março de 2006

Como Lapas...

Em política, a demissão é uma atitude normalmente reservada aos homens superiores, capazes de desenvolver um tipo de raciocínio auto-reflexivo. Os restantes, optam pela fuga ou aguardam ansiosamente pela avaliação eleitoral.

Male S'tar



Wassily Kandinsky, Small Words, 1922


VÉNUS (soneto seis)

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos…

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.


Pessanha, Camilo (1996): Clepsidra, Lisboa, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, p. 59.

O Tempo



Paul Klee, Cosmic Composition, 1919

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano da boca das minhas recordações… Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."


Bernardo Soares (2001), Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, pp. 202-203.

Do Princípio da Confiança




O insólito caso ocorrido no Montijo em que uma transeunte detecta três aves sem vida na via pública sem que seja prestada a devida atenção pelas autoridades (in)competentes, não será certamente um caso isolado. Não é, sem dúvida, um caso avulso que não tenha tido outras manifestações análogas - no passado e no presente - noutros domínios sob a responsabilidade de algumas entidades públicas.
Perante o drama hipotético de uma pandemia, resultante da estirpe H5N1 da «gripe das aves», se alastrar aos seres humanos, ao se deparar com três pardais mortos, uma moradora não fez mais do que o seu espírito cívico e inúmeras entidades aconselham nestas ocasiões: alertar imediatamente as entidades competentes. Neste caso, a moradora entrou em contacto com a Câmara Municipal, Serviço Nacional de Saúde e Bombeiros.
Só 46 horas depois é que um técnico da Protecção Civil (da responsabilidade directa do Presidente da Câmara, antigamente dos governos civis) se deslocou ao local para remover os animais.
Mas o caso assume contornos de particular boçalidade, quando dos bombeiros alguém responde à senhora: "nós aqui tratamos dos vivos, não dos mortos. E muito menos de animais". Claro está que neste imbróglio, ninguém se preocupou sequer nem com cruzamento de informação, nem com a pandemia...
Resta-nos constatar envergonhados, o estado deplorável da Protecção Civil em alguns sectores, demasiado dependente dos humores e sensibilidade de quem decide. Como de resto, um pouco por toda a parte neste glorioso e decadente país.
Quanto a nós, a moradora em causa cometeu um erro clássico, de tão previsível que é: confiou nos serviços.

2 de março de 2006

∞ Infinite ∞




Um olhar, intemporal. Um olhar onde não se apaga a memória nem o tempo; esse, inexpugnável, afiança-nos outra coisa efémera que se entrepõe entre os seres e as vidas subtraídas, agrilhoadas pelo frio do vazio num trambolhão sem fim nem sentido. Lá, um olhar fulmina o tempo, não se detendo perante a sua marcha.
O TEU RISO

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca teu riso,
porque então morreria.
Neruda, Pablo (1999): Os Versos do Capitão, Porto, Campo das Letras,27.

Dupla Ruptura Epistemológica

No domínio do conhecimento puro, a dupla ruptura epistemológica é uma ferramenta [uma atitude perante a epistéme, também] bastante valiosa: ruptura com o senso comum num primeiro momento, para em seguida [após processamento e sistematização da informação], proceder à ruptura com o discurso científico, convertendo-o a uma inteligibilidade prolixa, desconstruíndo-o até ao nível de um objecto de leitura acessível aos leigos. Cortesia de um mundo que quer deixar o hermetismo, talvez. Coisa que este texto não consegue. Mas está presente em fórmulas simplificadas como a descoberta de Newton acerca da força de gravidade: o vulgo sabe o que significa, embora não a consiga explicar por meios científicos. A quem é que não caiu já na cabeça uma maçã golden?

Não obstante, deste processo faseado, emerge uma dúvida, presque metodique (para homenagear os mais cartesianos): que fazer aos outros tipos e fontes de conhecimento, que não o científico? Outros tipos e fontes de conhecimento (empirismo, intuição, sensibilidade, etc.) que não careçam de validação científico-racional? São simplesmente olvidados e diluídos na obsessão da procura de uma Verdade construída pelo discurso dito científico?

É que, mesmo nesse processo de dupla ruptura epistemológica, essas formas de conhecimento não deixam de estar presentes e porventura matizam indelevelmente todo o percurso da investigação, orientando o ser meramente racional.