17 de outubro de 2006
Leis de Qualquer Coisa
à tout propos (240)
16 de outubro de 2006
à tout propos (239)
Entre a Geo-estratégia e a Beatice

A atribuição do Nobel da Paz a um homem fundamentalmente ligado a assuntos desenvolvimentistas tem gerado alguns engulhos e indigestões entre velados pretendentes ao dito reconhecimento e aos que, não tendo essa pretensão, concebem tal distinção como uma ratificação a tiranos e terroristas por, uma vez na vida e sabe-se lá em que circunstâncias e com que consequências para a humanidade, evitarem a conflagração da violência e da guerra.
Não nos referimos obviamente aos que estenderam o seu apoio a homens como Annan, Ximenes Belo, Aung San Suu Kyi ou Mandela. Que, em rigor, podiam ter sido os mesmo que apoiaram Colin Powell ou Yasser Arafat.
A guerra até pode ser vista, à semelhança do postulado de Clausewitz, como uma «continuação da política por outros meios» e a sua inevitabilidade residir no mais puro pragmatismo da defesa da identidade e interesses genuínos de um povo. Nesse patamar estariam eventualmente homens como Michael Colins ou Yasser Arafat. O último foi inclusivamente galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Contudo, esta decisão não só foi polémica como reveladora de uma estratégia latente do comité sueco. A de «fazer a paz por outros meios».
Nessa ordem de ideias, nomes como Pol Pot, Estaline ou Saddam Hussein poderiam também ter sido agraciados com o prémio. Podia ser que a coisa mudasse...
Ora, não sendo nem tirano convicto nem uma Madre Teresa de Calcutá, o bengali Muhammad Yunus cai fora desta aritmética bidimensional que se manifesta entre a geo-estratégia e a beatice.
Basicamente, o argumento do Comité de Atribuição do Prémio Nobel converge com alguns dos princípios básicos de Yunus, para quem «o fim da pobreza conduz ao fim dos conflitos».
John Rawls, na sua «teoria ideal» da Lei dos Povos, discorre sobre um conjunto de características associadas à democracia que conduzem à salutar convivência entre os povos, defendendo com recurso à empiria, que as sociedades democráticas são, historicamente, as que menos conflitos empreendem (a não ser ao abrigo do conhecido conceito de «guerra preventiva» para o qual concorre a legitimidade da «guerra justa»), considerando que também são as que conseguem melhores performances e estabilidade económicas.
A erradicação da pobreza assume aqui um papel importante na definição das causas da maior parte dos conflitos, recenseadas historicamente. E de facto está sempre implícita uma dimensão que resulta da digladiação por recursos que são escassos na luta pela «sobrevivência». Podemos identificá-lo na instintiva sobrevivência dos yanomami, para quem os raides a aldeias vizinhas e o consequente rapto de mulheres e raparigas significam a sobrevivência de um grupo. Mas também o podemos identificar nas múltiplas «expansões» e conquistas de territórios «à lei da bala», aviltando-se o invasor ou conquistador com os mais variados pretextos. E na verdade, não me recordo de nenhum conflito aberto entre dois países democráticos e que vivam desafogados financeiramente.
A plena satisfação de necessidades primárias desembaraça assim os povos para outro género de realização, menos conflituosa porque mais racional e mais liberta para abraçar com menos reservas os valores e princípios da liberdade, autonomia e respeito pelos povos. Valores, de resto, provenientes das teorias liberais emergentes do iluminismo.
Nestes termos, contribuir para a redução da pobreza mundial com recurso ao microcrédito não será seguramente a solução para a paz no mundo mas é certamente mais uma ferramenta para a dissuasão de beligerantes.
10 de outubro de 2006
Na Desbunda

Terá sido esta imagem a que influenciou decisivamente a orientação do estudo encomendado pelo MAI (Ministério da Administração Interna), o qual propõe a extinção das brigadas de Trânsito e Fiscal.
Na base de tal decisão poderá estar naturalmente esse sentimento associado à interiorização e adequada correspondência das hierarquias, ie, uma expressão assumida pelo poder político que pode ser simplificada pela seguinte fórmula: «cada macaco no seu galho».
Ou seja, os ministros têm que andar encafuados dentro de automóveis sombrios, onde não entra um raio de sol, enquanto os oficiais da BT se passeiam alegremente em descapotáveis? Bracinho de fora, em dupla transgressão [traço contínuo e ausência de cinto de segurança] e às tantas, cheios de «bejecas» na mala do carro, em vez de uma clandestina AK 47 para limpar as ruas... Até já perderam o tacto aos bonés e estão todos desfraldados (não se vê mas podemos imaginar).
Fica a dúvida se o condutor vai ou não a dar umas passas.
Proximamente teremos o ministro de cuecas em cima de um F16, de garrafa de vodka na mão, olhos vidrados nos quadris da piloto (que uma hora antes era o Major Sousa) e a dar o peidinho da ordem, engasgando-se de baba naquele riso nervoso característico de quem faz merda mas não é apanhado.
Uns boémios, estes gajos...
9 de outubro de 2006
à tout propos (238)
Para José Ernesto, a modernização do ramal ferroviário Casa Branca/Évora representa [mais] um acréscimo de competitividade. A continuar assim, Évora passará a figurar no Top Ten da União Europeia, em matéria de competitividade, só ultrapassada por Ottignies, Otranto e Sobral da Adiça.
Mas o que é mais impressionante neste arrazoado é o zeloso cumprimento do brilhante plano estratégico-eleitoral, que consiste em… não-sei-quê.
7 de outubro de 2006
Artistas da Arte e Outra Fauna de Combate
“A única responsabilidade de um artista é fazer arte, e o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e – isto é essencial – ofender-nos. (…) A arte deve ter a liberdade de nos ofender e, o público de se sentir ofendido, desde que de forma não-violenta”.
Rui Tavares, in jornal Público, 30 de Setembro de 2006-10-07, sobre a proibição da realização da ópera Idomeneo, de Mozart em Berlim.
Aquela dimensão da ofensa é justamente a que é tendencialmente excomungada e censurada pela ideologia dominante, cuja padronização cultural de rebanho é só remotamente discernível e no seio da qual, a arte se ameaça converter em elemento de puro e alienante entretenimento, mera distracção da malta.
E o mais curioso é que tal faceta é reproduzida constante e alegremente, de forma irracional, por alguns dos próprios fazedores de arte, convencidos que estão do seu trabalho crítico e de estonteante intervenção. Uii...
A malta, ávida de «cultura» e consumidora compulsiva dos mais complexos e inacessíveis criadores ri-se sarcasticamente [mesmo os que se pensam mais intelectualóides], aplaude, suspira aqueles «ai, aii» de indignação com odor a conformismo, e regressa finalmente a casa para o conforto de uma noite descansada e com a sensação de dever cumprido.
Caro Rui, a malta de que falas já não se ofende pois interiorizou o espectáculo. Não se escandaliza se no vernissage de uma exposição, o pintor mija para o seu próprio quadro. A reacção geral é de uma arrepiante normalidade, não vão os outros comentar a falta de sensibilidade para as questões da arte...
Só se sentem ofendidos os fundamentalistas religiosos, as beatas, a realeza e os néscios «incultos» como eu. Sobretudo quando me vejo [ou a minha comunidade] confrontado com os nossos próprios engulhos e perversões ou quando vejo esbanjar rios de dinheiros públicos com verdadeira merda, mas merda da fina...
Desculpem lá… às vezes dá-me para isto…
4 de outubro de 2006
A Particularização do Interesse Público
Revela, antes de mais, uma noção deturpada do que é o Estado. Concepção aliás partilhada pela generalidade dos autarcas. De resto, se há característica que parece transpirar da política portuguesa, é a inversão da ordem de prioridades na definição do interesse público, sendo os cidadãos obviamente, o derradeiro elo da cadeia na referida ordem de prioridades.
O Estado é, ocabiorresto, uma arena onde se digladiam clãs, senhores feudais e parvos, revelando duas dimensões muito importantes: a arregimentação de parvos e a sua instrumentalização pelos clãs e senhores feudais. É muito simples, não é?
À falta de melhor, fica esta definição.
à tout propos (236)
2 de outubro de 2006
à tout propos (235)
A Chantagem dá «Cana»! Não dá?...
Por muita razão que possamos dar a Barreto, há nas suas palavras um risco potencial: o risco da generalização, em cuja leviandade e desconsideração não nos revemos. Em particular num quadro de pura especulação e desagravamento ou desculpabilização das actividades observáveis na restante Administração pública e na própria sociedade civil. Um verdadeiro lodo.
Não nos podemos esquecer – e sem prejuízo para a incompetência, caciquismo, nepotismo e ilegalidade em que incorrerão alguns responsáveis das autarquias locais – que o governo mais não fez do que transferir competências para as autarquias locais, impondo em simultâneo cortes nas despesas e impossibilitando a obtenção de novas receitas para fazer face aos novos desafios. Que em todo o caso, não foram pedidos pelas autarquias, mas sim impostos.
Ou seja, a Administração Central mais não fez do que se demitir de algumas das suas responsabilidades, mantendo ainda assim, os seus conhecidos vícios, o despesismo e o monopólio da tributação fiscal.
Perante este cenário, como é possível exigir com legitimidade que as autarquias locais exibam uma conduta incólume, de boas práticas, quando é a própria Administração Central que se abstém de significar um exemplo a seguir?
Naturalmente, a «chantagem» anunciada pela ANMP é absolutamente intolerável, reflectindo o modo boçal, particularista e discricionário como é eventualmente concebido por alguns autarcas, o interesse geral e o serviço público. Reflecte igualmente a visão que têm de democracia, conceito embaraçoso, vago, flutuante e perfeitamente instrumentalizado.
1 de outubro de 2006
Évora, o Esteio da Competitividade
Claro que este índice, resultante da ponderação de diversos indicadores que dão corpo a 4 índices centrais de competitividade – demográfica, laboral, empresarial e de conforto – reflecte somente a potencialidade das cidades consideradas, em matéria de competitividade.
Por ser uma cidade com uma densidade populacional baixa, com taxa de desemprego inferior à média, por reunir um potencial turístico impar e boas condições objectivas de vida (ao nível das infra-estruturas se saneamento, habitação, pessoas por alojamento, etc.) entre outras virtudes, o estudo revela que o potencial de competitividade de Évora é maior do que o potencial de crescimento da capital, Lisboa, a segunda classificada neste estudo.
No entanto, há aqui vários aspectos que devem ser apreciados.
Em primeiro lugar, estamos a falar do que existe em potência e não na realidade. Os autores recorrem a uma analogia que me parece bastante feliz: «Évora tem uma longa recta numa estrada de terra batida», procurando enfatizar um percurso menos tortuoso do que as cidades que têm a estrada asfaltada embora com um traçado excessivamente sinuoso.
Em segundo lugar, é aceite que, à semelhança da lei dos rendimentos marginais decrescentes, o acréscimo da primeira unidade implique uma maior satisfação do que a segunda e assim por diante, ou seja, uma cidade com muitos recursos e de certa forma congestionada como o Porto (último classificado), possui menos margem de progressão (ou potencial) do que uma cidade actualmente pouco competitiva. Para ilustrar melhor o exemplo, basta considerar as taxas de crescimento de países em vias de desenvolvimento como a China, Argentina, Índia, Brasil, etc. muito superiores às da Europa, Japão e Estados Unidos.
Em terceiro lugar, convém não esquecer que se trata de um estudo comparado, às capitais de distrito e não necessariamente às cidades mais importantes e competitivas do território nacional.
Em quarto lugar, há factores de ponderação, de demonstração mais objectiva do que outros e que certamente se posicionam diferentemente face a um índice desta natureza, consoante o impacto que produzem. Sem dúvida que em matéria de competitividade, há factores como a dimensão do mercado, as infra-estruturas existentes, os incentivos ao investimento, o perfil de actividades económicas desenvolvidas numa região, salários médios, a qualificação dos recursos humanos, as acessibilidades e o custo de vida, são necessariamente mais determinantes do que outros, pelo que a ponderação dos indicadores tem que ser diferencial.
No índice relativo ao conforto, por exemplo, não se fez alusão ao preço médio das habitações nem ao custo de vida. E todos sabemos que, nessa matéria, Évora não tem uma dinâmica propriamente meiga. Mas tendo em conta os critérios utilizados, Évora surge como a cidade com maiores níveis de conforto.
Por todos estes motivos e mais um par de botas, o estudo revelado é extremamente importante para que os eborenses e o resto do país compreendam claramente que Évora é evidentemente um diamante em bruto, por lapidar (apesar da investigação não trazer nada de novo), e interiorizem essa ideia de forma consolidada.
Mas não certamente à custa da arbitrariedade desnorteada de sucessivas gerações de governantes, de profissionais incompetentes, nem de cidadãos desleixados para quem viver em Évora, só por si, deveria significar conviver com a excelência (sem menosprezo para ninguém) e ser um motivo de incontestável orgulho.
27 de setembro de 2006
Patinho Feio, o Funcionário
Em vez disso, a fábrica da Opel na Azambuja «emigrou» para Espanha [onde a mão-de-obra é mais cara e qualificada] e os países de Leste estão frequentemente na mira dos empresários estrangeiros e nacionais [mão-de-obra barata mas qualificada]. Apesar de aparentemente não haver um padrão perfeitamente descodificável, que terão eles descoberto que nós ainda não descobrimos? Sabendo igualmente que a mão-de-obra portuguesa no estrangeiro não raras vezes é distinguida e reconhecidamente apreciada…
Haverão aqui forças impronunciáveis e insondáveis que se movimentam entre vórtices e que aniquilam a emancipação do português, cotando-o a um nível de desenvolvimento característico do século XIX?
E se o país inteiro se deslocalizasse para outro lado qualquer? Será que faria diferença?
Ou bastará continuar a bater no ceguinho, nesse elo dispensável que é a Administração Pública, fonte de todos os embaraços e ineficiências coniventemente perpetrados por uma corja de patrões medíocres?
A este respeito, o relatório do Fórum Económico Mundial parece ser particularmente duro para o sector privado português…
22 de setembro de 2006
Compromisso Portugal
É inquestionável que a administração pública carece de uma reorganização estrutural. É inquestionável que há funcionários públicos a mais, bem como uma deficiente afectação dos recursos humanos. Mas nunca ninguém elaborou um diagnóstico credível e exaustivo que clarifique onde se encontram as necessidades de pessoal, onde se encontram os excedentários e quais os serviços cuja existência merece ser seriamente ponderada.
Assim, é-nos dado o seguinte quadro:
Em primeiro lugar, um bando de dondocas e marialvas que, sendo amigos de alguém, ganharam notoriedade suficiente para serem rotulados como empresários de sucesso e pensarem que podem trazer algo de novo. A entrevista de ontem ao Engº Carrapatoso no canal 1 da RTP foi miserável. Mas quem é aquele sujeito, cujo pensamento cai irremediavelmente no lugar comum da ideia preconcebida e da banalidade a-estratégica?
Em segundo lugar, temos o governo, que também nunca se baseou em estudos convincentes para avançar com as reformas que conhecemos e as que estão por vir. Num e noutro caso, campeia a leviandade, a soberba e o misticismo.
Por fim, temos os sindicatos, gordos empregadores a zelar pelos seus próprios interesses, incapazes de se rever na ideia de Estado.
20 de setembro de 2006
à tout propos (234)
19 de setembro de 2006
à tout propos (233)
15 de setembro de 2006
à tout propos (232)
- Uma comunicação da directora dos serviços. É bárbara!
- Já sabes como é. Cena marada…
- É soberbo o documento, pela imprudente articulação de conceitos tecnicamente contraditórios e pela boçalidade exalada a cada linha.
- Ah, ah, vindo dessa, nem vale a pena perguntar o que lá vem escrito…
- Não! Redargui. Não perguntas porque não tens interesse. E isso é perfeitamente legítimo.
Segundo estudos recentes publicados aqui), 9 em cada 10 portugueses não faz uso da sua faculdade de raciocínio e argumentação lógica em conversações quotidianas. Tudo se faz mecanicamente, apesar das aptidões para estabelecer diálogos e monólogos capazes de fazer inveja aos homens da maratona.
... O governo tem que fazer urgentemente alguma coisa para acabar com as estatísticas!
14 de setembro de 2006
Tirania da Maioria
Todos sabemos que o modelo democrático, de pureza variável no contexto mundial, incorre num processo de eliminação de erros daquilo que são os seus procedimentos, normas e disseminação de valores e princípios entre as administrações e a sociedade civil. Por isso, oficiosamente, não podemos senão falar do conceito de democracia tout court… embora com muito boa vontade, o desejemos muito. Os que o desejam, naturalmente… E os que desejam ardentemente, levando-a empacotada a toda a parte do mundo.
Ora, uma ideia de democracia representativa de pendor parlamentar, não tem qualquer cabimento quando se fazem arranjinhos entre os que detêm o poder (outorgado pela conversão de votos em mandatos), excluído todos as outras sensibilidades. Por isso mesmo, o sistema representativo português não apresenta um sistema eleitoral maioritário, sendo certo que, este tipo de arranjos encontraria ainda assim, mais legitimidade em países como os EUA ou a Inglaterra. Este, como outros pactos, representa em bom rigor, o que pode ser definido como uma tirania da maioria, tanto receada por Tocqueville. O que mais assusta é que isto é prática comum e os argumentos, medíocres, convencem toda a gente.
12 de setembro de 2006
11 de setembro de 2006
Todos os Dias (II)

11 de Setembro (I)

10 de setembro de 2006
...I Did It, My Way...
Convicto de que “as prisões da CIA vão continuar secretas e nos locais actuais”, o homenzinho lá se foi escudando numa distinção fundamental: entre o que é tortura e o que é coacção, para legitimar a existência dentro da legalidade, desses calabouços insondáveis e impermeáveis à Convenção de Genebra. Como tudo nos EUA, de resto, em matéria de respeito pelas leis, tratados e convenções internacionais.
Contudo, a linha de argumentação só fica completa com a tese de os EUA estarem de facto envolvidos numa guerra, não tradicional e heterodoxa, mas uma guerra. A este respeito, já a Europa e as organizações de direitos humanos haviam exigido que os prisioneiros de Guantanamo fossem efectivamente tratados com a dignidade e o respeito consagrados na dita Convenção de Genebra. Sem resultados. E sem surpresas.
Alfred Hoffman Jr. (é assim que se chama o serviçal) remata a questão sustentando que, “numa guerra não há tempo limite para a detenção” de oponentes. O que o energúmeno senhor parece não compreender ou admitir, é que numa guerra, são feitos prisioneiros por pertencerem ao exército inimigo e não por serem suspeitos de pertencerem, sendo mantidos em cativeiro por tempo indeterminado (e aqui apelamos para a natureza distinta dos conceitos de «detenção» e «prisão»).
Os que são suspeitos de pertencer ao exército inimigo, não têm que gramar com essa treta da indefinição do tempo, acomodando temporalmente a prisão à duração do conflito. Nem os outros têm que levar chibatada, pontapés nas trombas e humilhações sexuais, alegando que se trata de coacção para recolher confissões ou provas testemunhais.
Mas não deixa de ser gracioso aquele argumento. Em particular porque o princípio que lhe subjaz – a guerra como fonte legitimadora de todas as acções – pode ser generalizado e disseminado a um nível tão hediondo quanto as insanas congeminações de Adolf Hitler, começando pela ideia de «guerra ao narcotráfico», «guerra à evasão fiscal» ou até «guerra aos azuis».
No limite, as consequências de utilização desta classificação poderiam sobrepor-se a quaisquer liberdades, direitos e garantias dos indivíduos, sempre que, sob o signo da arbitrariedade, quem detém e executa o poder pretendesse arrepiar um qualquer caminho em seu proveito ou interesse…
7 de setembro de 2006
à tout propos (230)
à tout propos (229)
Mas há alguns argumentos que merecem ser colocados em evidência. Partimos do pressuposto, tantas vezes confirmado pela BT-GNR, que a presença policial tem como primeiro objectivo a dissuasão de comportamentos desviantes.
Assim sendo, parece ser indiscutível que ninguém no seu perfeito juízo, tomando consciência da presença policial, acelere a sua marcha ou, caso não esteja em condições psicológicas para conduzir, se predisponha a permanecer sentado ao volante. Objectivo cumprido, os condutores são dissuadidos.
Se no primeiro caso e findo o raio de acção do radar ou do longo braço da lei (que por vezes se converte nas longas garras da lei), o condutor pode retornar à condução em excesso de velocidade, já no segundo caso, o condutor opta por uma de duas alternativas: ou estaciona e espera que lhe passe ou procura estradas secundárias, reduzindo a probabilidade de encontrar outros veículos ou transeuntes. Quanto ao despiste [sozinho ou com consentimento do registo comportamental pelos demais], quer-me parecer que ninguém tem nada que ver com isso, nomeadamente o SNS, polícias ou tribunais (desde que não resulte em danos meteriais como cercas, muros, postes, paredes, etc.). Sobretudo se o homem registar um histórico de zelosa honradez dos seus compromissos fiscais.
Há sempre o argumento policial de que, os sinais de luzes podem servir para alertar condutores que se façam conduzir em carros furtados ou não segurados.
Contudo, é para mim mais admissível o prejuízo de um (cujo carro foi roubado mas pode ser reavido) em detrimento do prejuízo de muitos porque, para além da corrupção, grassa por esse asfalto fora, aquilo que pode ser considerado um verdadeiro Roubo Generalizado de Estado.
Entretanto, os acidentes e os maus comportamentos na estrada não terminam devido ao agravamento das coimas. E isso é um facto estatístico.
5 de setembro de 2006
Os Deuses Também Já Foram Homens
Aceno-lhes agradecidamente com um sorriso nos olhos.
1 de setembro de 2006
à tout propos (228)
David - Golias (início da partida)
Não é admissível que um Estado de Direito fique refém de regras feitas à sua revelia por tais multinacionais (com fins lucrativos, de resto), e assim reine a impunidade e a arbitrariedade decretada por um sistema que se sobrepõe em matéria de regras e orientações gerais, a Estados soberanos.
As «leis» do mundo desportivo, encontram validade até esbarrarem com as leis emanadas da Assembleia da República.
Caso as restantes equipas nacionais de futebol venham a sofrer represálias infantis e irresponsáveis da FIFA, só nos podemos congratular por não abdicar do exercício de cidadania na defesa dos interesses nacionais.
O Gil Vicente fará jurisprudência – de um modo ou de outro – como o caso Bosman na década de 90. Pode ser que assim seja reposta alguma da democraticidade e legalidade demasiadas vezes arredada desse mundo promíscuo.
30 de agosto de 2006
Dos Fracos Não Reza a História...

Os manuais escolares de até há bem pouco tempo por exemplo, reproduziam em espaço de socialização secundária, concepções francamente grosseiras sobre a ocupação árabe da península ibérica a partir do séc. VIII. Para os petizes, os árabes representavam [e nalguns casos ainda representam], a barbárie e a infidelidade religiosa que urgia escorraçar.
Essa era sobretudo a visão da Igreja, para a qual a doutrina do reino se deveria confundir com a sua. Para a qual ainda, as cruzadas mais não eram do que a primordial necessidade em restituir a suprema divindade às coisas e eleitos de Deus. A sua divindade, esse Deus legitimador das maiores atrocidades.
De resto, segundo Bryan Ward-Perkins, a queda do Império de Roma às mãos dos invasores germânicos (séc. V) terá significado um retrocesso civilizacional operado sobretudo no Império do Ocidente, que só haveria de recuperar com o alvor da renascença (já que o Império do Oriente se dissolve em rigor, com a Queda de Constantinopla em 1453). Com a dissolução do império, dissolveu-se uma economia complexa. Para dar alguns exemplos, a tributação fiscal passou a fazer-se em géneros; das casas em pedra e telhado de telha passou-se à madeira e telhados de colmo; da disseminação quotidiana, geográfica e social de peças e utensílios de cerâmica fina, retrocedeu-se para a utilização de peças de cerâmica grosseira e só acessível a alguns; dos «cartazes» públicos passou-se à alfabetização apenas acessível ao clero.
De qualquer forma, este tipo de trabalho só é possível porque os progressos tecnológicos, a racionalidade científica e a inconformidade de alguns o possibilitam. Apesar de em muitos casos, apenas ser possível recriar uma perspectiva alternativa sem qualquer oportunidade de questionar a verdade negociada e imposta.
A história universal é contada normalmente com recurso a diversos níveis de fontes: os registos documentais, os artefactos e legado patrimonial, os elementos biogenéticos, a memória colectiva e, acima de tudo, a história unilateralmente contada pelos povos declarados vencedores de disputas ou guerras. A célebre fórmula «dos fracos não reza a história» é bem elucidativa a este respeito.
E é neste campo que a história sofre incursões, imposições, nuances e construções movidas por povos cuja acção histórica é tanto mais falaciosamente verdadeira quanto o (pre)domínio sobre os restantes e o crónico desrespeito por regras morais, legais e éticas de povos como os israelitas ou os americanos. E outros casos de povos cuja supremacia no passado os tornou mais «históricos» que outros. Nas relações internacionais em particular, vigora a lei do mais forte, e o mais forte não o tem sido por reunir em exclusivo, características mutualistas, solidárias e morais acima de qualquer suspeita…
Neste caso e como atravessa o nosso momento histórico, aquele em que se redige e actualiza a nossa história, é particularmente angustiante compreender que a mesma está diariamente a ser registada segundo os pergaminhos da cultura dominante e ao arrepio da equidade mundial, em sociedades ditas civilizadas, democráticas e solidárias.
É particularmente tormentoso que Israel simbolize a típica criança mimada e super-protegida a quem são perdoadas todas as maldades e excentricidades. Aquela criança dos cartoons que personifica o terror dos animais domésticos que ela mesmo exigiu.
Uma vez que o resto dos povos no mundo não passa de servos apáticos, títeres fanfarrões ou lunáticos beatos, resta-nos que no futuro, outros investigadores venham questionar o curso da história, caso nesse tempo as nossas sociedades ainda conservem a liberdade de expressão.
27 de agosto de 2006
23 de agosto de 2006
Da Democracia Anti-tabagista
Em contrapartida, para os Estados, o argumento é puramente económico (sob da capa da saúde pública), procurando reduzir os encargos de saúde com milhares de doentes crónicos e o decréscimo de produção que significam. Ora, cuidados de saúde que, recorde-se, são uma das obrigações do Estado Social para com os seus contribuintes. À semelhança da responsabilidade que os Estados devem ter nos cuidados de saúde derivados da sinistralidade rodoviária.
No nosso caso em particular, temos um Estado cínico e ardiloso que estimula a circulação rodoviária através da ausência de alternativas de transporte nuns casos, e dos benefícios fiscais concedidos aos bancos que concedem créditos que financiam a compra de automóveis. Mas não só.
Um Estado que se financia escandalosamente com os combustíveis, o imposto automóvel, imposto de circulação, o IVA e concessão de auto-estradas e pontes – da mesma forma que se financia fortemente com a industria tabaqueira – demitindo-se de algumas das suas responsabilidades ao nível da engenharia e razoabilidade no pavimento das estradas e de uma prevenção da sinistralidade rodoviária que pode passar por prémios aos condutores exemplares, pela gratuitidade das auto-estradas (supostamente mais seguras) ou pela correcção dos abortos rodoviários que servem de passagem a milhares de automobilistas diariamente.
Do mesmo modo que é da responsabilidade do Estado Social a prestação de cuidados de saúde a todos os que sofrem de doenças cardio-vasculares, muitas vezes causadas pelo acelerado ritmo de vida que é imposto indirectamente pelo próprio Estado, pela alimentação deficiente a que as pessoas se sujeitam e até pela inalação de monóxidos libertados para a atmosfera por industrias não fiscalizadas pelo Estado e pela circulação automóvel.
Mas regressemos à autonomia individual, princípio basilar da sociedade de consumo. Este princípio apoia-se muitas vezes naquela máxima que até já chateia de tão corriqueira, «a minha liberdade termina na fronteira da liberdade do outro». Ainda assim, esta prosaica fórmula continua relativamente eficaz para normatizar as inter-relações entre os indivíduos. Ora, atendendo à mesma, nada obsta a que num local público ou debaixo de um chaparro, se reúnam 500 pessoas a tabaquear em simultâneo o assunto. Reunião à qual são livres de adesão os fumadores passivos.
Do mesmo modo, se nos limites da minha propriedade for por mim assumida a regra de interdição de nicotina, são livres de entrar todos os fumadores que respeitem tal regra. Mas sou eu que imponho a interdição, não o Estado, a não ser que a comercialização do tabaco venha a ser criminalizada.
Nesse caso, vamos ver até onde tal decisão seria sustentável… Em todo o caso, a ausência de razoabilidade e sensatez presente em grande parte da legislação mundial sobre o assunto, apenas vem consubstanciar um receio amplamente evidenciado por Tocqueville em Da Democracia na América, a respeito de um potencial perigo decorrente do modelo democrático: a tirania da maioria.
17 de agosto de 2006
Marcelo Caetano Cumpriria Hoje 100 Anos
De alguma forma, estes 26 anos parecem inocular em alguma imprensa nacional e nalguns líderes de opinião, aquele antídoto temporal [ou simpatia encapuzada] que amaina e nuble a posição que o homem adoptou voluntariamente, à semelhança da espera de Günter Grass para vir confessar agora ter pertencido às SS nazis. Uma questão de tempo para digerir informações potencialmente tóxicas, um mecanismo aliás tão do agrado dos Estados para suavizarem as patifarias feitas no decurso da história.
No Público de hoje, por exemplo, a imagem do ditador era intencionalmente servida num prato convexo, procurando explorar a ambivalência do académico-político. Ao colocar em evidência os inócuos atritos com o Regime e com Salazar em 1962 (abandono da Reitoria da Universidade de Lisboa, justificado pela proibição do dia do estudante), atribuindo-lhes febrilmente o estatuto de “dissidências”, o matutino vem associar-se à disseminação da imagem de um político reformista que teria em mente, em última análise, a transição gradual e pacífica para a democracia. Ora, os 6 anos que esteve à frente do governo são inequívocos naquilo que eram as expectativas de fundo – a transição para um regime democrático – uma vez que o chamado reformismo marcelista, nessa dimensão, não passou de uma operação lata de transformações epidérmicas com consequências previsíveis ao nível do entretenimento e ilusão da populaça. A saída de Sá Carneiro em 1970 da Assembleia Nacional vem confirmar isso mesmo. O charme não dava para tanto.
Apesar disso, este falso reformismo não teve repercussões noutras áreas, nas quais, sob a batuta de Caetano, foram efectivamente levadas a cabo algumas reformas estruturantes que transitaram até aos nossos dias, como é o caso da ADSE, da reforma do ensino ou do alargamento da Caixa de Previdência aos trabalhadores rurais. Ocorridas com um desfasamento temporal medonho, comparativamente aos países europeus de referência.
Igualmente no período marcelista, Portugal esboçou uma tímida abertura naquilo que eram as orientações do Estado a respeito da inicial flexibilidade demonstrada na condescendência com a Ala Liberal da União Nacional, da liberalização económica e na definição de projectos como o de Sines e Alqueva. Nada porém, que Salazar não tivesse consentido em outras circunstâncias, com mais ou menos sucesso, com mais ou menos patrulhamento. A diferença residiria meramente no estilo de condução política, ou seja, na forma.
Em todo o caso, na figura de Marcelo Caetano permanece indubitavelmente o apego ao poder, à doutrina e à superioridade intelectual de uma elite à qual ele obviamente pertencia. Por seu turno, três décadas volvidas, permancem igualmente intactas as capacidades de persuasão de Marcelo, padrinho do outro Marcelo, às quais, muitos dos de hoje parecem sucumbir como naquela época.
Feitas as contas, o tempo há-de se encarregar de classificar afinal este homem como mais esquerdista do que Cunhal, concentrado estava nos preparativos subversivos de uma revolução de veludo, de acordo com a sua imagem mais insigne, a do brilhante académico cujo único senão, foi ter alinhado durante décadas no retrocesso económico, social e político da nação que tanto amava…
Contudo, já no exílio, Marcelo verberava por vezes o novo regime, com sentenças tão actuais quanto acertadas:
“Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros” (in Público de 17.8.06).
Paradoxalmente notável, este nível de conhecimento do país.
11 de agosto de 2006
à tout propos (226)
10 de agosto de 2006
Arte e «Cultura», Consumo e Comercialização

Só havendo tempo livre e possibilidades de lazer (corpóreas e incorpóreas), recursos financeiros acima do limiar de sobrevivência e sociedades abastadas ou estratégias propagandísticas governamentais (…), é que se reúnem as condições básicas para a produção-comercialização artística. Para as massas nuns casos, para elites, noutros.
Em Portugal, estas duas realidades confundem-se conforme a visibilidade mediática, as epifanias de poder e o momentâneo estado de saúde da bolsa de cada um. Felizmente a tradicional condição sanguínea tem vindo a deixar de ser determinante, gerando amargos de boca entre os que viam a arte e a «cultura» como um património exclusivo dos «altos» da nação e da provinciana comarca… Quando a arte e a «cultura» são tidas como um apuro de superioridade social a que fica bem aderir [condição que o desporto (popular) jamais se poderia arrogar] torna-se clara a sintomatologia elitista ligeiramente submersa entre a decadente reacção ou o novo conservadorismo, personificado na malta que de um dia para o outro já tem afinal onde cair morta.
Mas num como noutro caso, falamos de um excedente individual com referência àquilo que é considerada a satisfação de necessidades primárias ou naturais dos indivíduos, excluído naturalmente toda e qualquer manifestação artística cujo acesso não carece de «dote» ou «preço da noiva»…
Esta perspectiva é naturalmente oposta àquela em que a teleologia artística se centra no objecto de criação do artista e não no retorno que isso lhe possa trazer, ou seja, quando o artista não tem consciência de si como «artista» e a fruição é realmente democrática e livre. Mas ninguém vive do ar e numa sociedade que supostamente individualiza o mérito, o artista vê-se frequentemente confinado às mesmas delimitações intelectuais e condicionantes sociais que os demais cidadãos. Vulgar e indiferente.
A democratização da arte e «cultura» implica a sua banalização e por vezes a espectacularização, significando na maior parte dos casos, um desinvestimento na qualidade? Não necessariamente, porque à semelhança do desporto, na arte e «cultura» também existem campeonatos estruturados por divisões, cujo acesso é definido pelo génio do artista e pelos apoios que consegue granjear. Ou seja, também aqui, a competição intensifica a qualidade, distendendo apenas o fosso entre o sublime e o francamente mau; e o acesso da alta e da baixa burguesia.
9 de agosto de 2006
à tout propos (225)
A Multicausalidade Provável dos Fogos
Contudo, seria interessante que o Sr. Ministro discriminasse uma matriz de análise com as seguintes variáveis: quantidade de fogos por semanas e localização exacta, temperaturas médias e causa provável do fogo. Em todo o caso, não assumindo os reacendimentos como foco de incêndio, muito útil para efeitos estatísticos.
As outras variáveis que permitem aferir qual a causa provável do fogo, essas, são do domínio exclusivo da investigação criminal.
Mas talvez essa clarificação permitisse que a população portuguesa tivesse a oportunidade de confirmar e assumir duas questões essenciais: a primeira diz respeito à generalização abusiva da atribuição das causas a motivos económicos ou meramente pirómanos (fogo posto), ao passo que a segunda, liga-se à interiorização de que todos somos potencialmente pirómanos ao não limpar matas, entulhar lixo ou contribuir indirectamente para isso, ao despejar foguetes por toda a parte, ao não nos certificarmos que o cigarro está apagado, ao fazer fogueiras em autênticos barris de pólvora, ao trabalhar com maquinaria susceptível de originar faísca, etc.
Entretanto, a Serra d’Ossa está novamente a arder. Será um reacendimento ou um novo incêndio? Duas compactas colunas de fumo negro, separadas por uma dezena de Km.
à tout propos (224)
8 de agosto de 2006
As Escalas do Horror: Afinidade Cultural e Exposição Mediática Subjectiva
Contudo, os efeitos da escala podem ser perversos pois se o actor libanês é amorfo, colectivo, sem cara e insensível, o actor israelita é individualizado, com família e amigos e responde por um nome. Este último actor é a nossa metáfora, a metáfora do homem ocidental, cujos valores, costumes, hábitos e rotinas comportamentais nos são sobejamente familiares.
A paz, a autonomia individual, a democracia, etc., configuram-se como valores e princípios cuja universalidade é claramente questionada por este tipo de reacções irracionais e demasiado arreigadas a padrões culturais que afastam o Homem da sua natureza.
Acontece por outro lado, que a interiorização de uma identidade nacionalista e da matriz cultural são projectadas e aproximadas pela imagem e voz propagandísticas, unilaterais e axiologicamente parciais da comunicação social, notável instrumento de persuasão, condicionamento e influência, as formas de exercício de poder mais dissimuladas, difusas e eficazes ao serviço dos processos de supremacia cultural nos dois hemisférios.
A guerra é ganha aí, nas redacções de imprensa, na edição de imagens e na sua comercialização/difusão.
Um Dever Moral Enquadrado na Ética da Responsabilidade Perante a Barbárie
Este será o preço a pagar pela vista grossa que a Europa faz aos actos perpetrados por carniceiros apostados em fazer da sua bandeira, a bandeira do retorno à barbárie, ao far west, à imposição teológica (seja da coca-cola, seja da burka).
Nunca é demais recordar que há um ano atrás, o Líbano era considerado um exemplo em matéria de consolidação democrática no médio oriente, apesar de dar guarida ao Hezbollah, primos afastados do PNR…
A incapacidade da Europa em fazer valer os seus princípios e valores democráticos, humanitários e de rejeição da violência, tem-se revelado estrutural e extenuante. Nesse caso, para as populações civis que são chacinadas e estropiadas no Iraque, em Israel, no Líbano e em muitos outros cenários de guerra ou conflitos armados, a esperança de paz não poderá jamais residir nas pretensas boas intenções da Europa e da ONU. A diplomacia não resolve, a não ser a diplomacia armada, condicionada pela vontade e interesse de países como os EUA e dos que giram salivantes na órbita anal deste Golias.
7 de agosto de 2006
à tout propos (223)
3 de agosto de 2006
Será a Memória um Argumento?
Nesse caso, será que os israelitas ainda se lembram que 3 dos seus bravos soldados se encontram sequestrados por árabes? Será o pretenso motivo da morte de milhares de libaneses e israelitas, um aspecto minimamente relevante at this moment? Ou apenas aquilo que se poderá designar por cegueira estratégica?
Será que os árabes se recordam por que motivo estão enclausurados milhares de «irmãos» em prisões israelitas?
Será que os israelitas se lembram dos milénios em que andaram errantes por esse mundo fora, permanecendo párias e escorraçados de toda a parte?
Será que os árabes e em particular os egípcios se recordam de ter nacionalizado o canal do Suez, dando origem à guerra com os israelitas em 1956?
Será que os israelitas se recordam de quem iniciou as hostilidades em 1967 na Guerra dos 6 Dias (sabendo que dias antes os árabes haviam mobilizado numerosos contingentes militares para as linhas de fronteira), favorecendo o clima de animosidade e a emergência de governos árabes cada vez mais hostis?
Será que as antigas potências colonizadoras se lembram da forma obtusa que levou à criação do Estado de Israel?
Será que a comunidade internacional se lembra de todas as resoluções da ONU desrespeitadas por Israel e pelo seu comparsa americano?
Será que os judeus se lembram de um tipo profundamente irritante que liderou a Alemanha Nazi e dos seus diabólicos planos?...
Será que fragmentos da memória são argumentos válidos para devolver humanidade e justiça onde prevalece o egoísmo, a ausência de escrúpulos e a selvajaria encapuçada por concepções religiosas guerreiras e de cariz expansionista?
1 de agosto de 2006
à tout propos (222)
Lei das Finanças Locais III
Um desses assuntos é a necessidade da descentralização efectiva, que deverá passar pelo alargamento de competências e atribuições às Freguesias ou pela criação de corpos intermédios com poder de decisão e coordenação, que façam a ponte entre Administração Central e Administração Local. Não poderá passar é pelo monstro criado pela direita nem pela salvação para todas as maleitas, entronizada pela esquerda. A fórmula é simples pelo que se prescindem essas arquitecturas fantásticas tão ao gosto do PS (em 98) e do PSD (recentemente com a ideia peregrina das áreas metropolitanas, comunidades urbanas e interurbanas).
A par desta questão, importa rever o desenho administrativo do país, procurando perceber se o actual se adapta à realidade, uma realidade concreta de freguesias super-povoadas e municípios sem população, e sobreposição de acções com outros órgãos da Administração Central do Estado.
A este respeito, o país democrático terá que ganhar alguma maturidade para ultrapassar questiúnculas broncas e bairrismos irracionais na manutenção ou aspiração das suas terrinhas a Sede de Concelho. Isso sim, uma péssima afectação dos recursos do Estado.
A reorganização e redimensionamento dos serviços do Estado (Administração Local e Central) é já um tema convertido ao estrelato, pelo que se dispensa mais chuva no molhado. Ficamos a aguardar até ao fim da legislatura…
Outra dos temas passa pela insolvência absurda da responsabilização política, assente apenas no escrutínio popular que avalia a posteriori, a performance da governação local. A esta, deve-se-lhe juntar, inequivocamente, a responsabilização criminal de jure e de facto, nos casos que ultrapassam o político, rompendo a permeabilidade do jurídico ao político. E não são poucos.
Quem exerce cargos públicos não pode esperar especial tratamento a não ser o reconhecimento pelo amor desinteressado à coisa pública. Não pode igualmente contar com a redoma que os partidos montam nem com a eterna vitimação da perseguição política, que tanto jeito dá. Se o 25 de Abril de 74 não foi suficiente, então que se faça outro.
Mas estas e outras questões servem de muito pouco, enquanto dirigentes autárquicos, funcionários e agentes exibirem fracos níveis de qualificação e desempenho, à imagem do país. Eles não podem ser apenas iguais aos restantes. Têm que ser melhores e não é nada difícil, mesmo tendo em conta as diferentes lógicas que presidem à essência distintiva do público e do privado.
Finalmente, de nada faz sentido a nova lei, se nela não for contemplado o espírito da procura de harmonia nacional, ou seja, de um quadro estratégico que preveja devolver o equilíbrio ao país (sem esquecer a solidariedade com os restantes sectores da sociedade, sobretudo em época de vacas magras), através do combate à desertificação do interior do país, potenciando os vectores estratégicos de desenvolvimento que são viáveis do ponto de vista regional e nacional e viabilizando a relação privilegiada com aquele que é o nosso natural parceiro: a vizinha Espanha. Com quem contar, senão com as autarquias locais?
Lei das Finanças Locais II
Lei das Finanças Locais I
As acusações, as dúvidas e os apoios incondicionais dividem especialistas, políticos, cidadãos comuns e incomuns. Se nuns casos sobrelevam as análises mais ou menos pluridimensionais e ponderadas, noutros casos, pouco mais se retira do que o restolho da sacristã defesa de interesses partidários e da santa ignorância e atavismo pululantes por esse país fora.
Não obstante os diferentes posicionamentos opinativos, há um aspecto na nova lei que por si só a torna relevante, pela consensualidade que inspira: a necessidade da sua elaboração, fossem quais fossem os contornos. A urgência de uma nova lei não resulta tanto da sua caducidade temporal (a actual é de 98) como das suas deficiências estruturais. Urge adaptar as normas a realidades evolutivas historicamente, preferencialmente de uma forma inteligente. Como sempre, este é o grande desafio.
Não procurarei deter-me aqui em considerações técnicas à nova lei, cujos contornos só conheço na generalidade. Essas, deixo-as aos «especialistas». Porém, algumas interrogações foram-se acumulando na minha mente à medida que escutava através do transístor, a des-cuidada argumentação de especialistas [e outros especialistas] tecendo as mais díspares observações a uma realidade conhecida ou vagamente familiar: as autarquias locais.
Uma das tradicionais acusações movidas às autarquias locais e que, aliás, serviu de arma de arremesso contra a ideia de regionalização em 98, é a corrupção que, segundo muitos, grassa nesse universo nebuloso, tenebroso e suspeito, que é o poder local. Perante a ineficácia de fiscalização do Estado, a pretensa generalização desse crime ficará por provar porque das 4569 autarquias locais (se me não falham as contas), não passarão de um punhado, as condenações efectivas. Um punhado por cada mão. Falta de fiscalização? É possível que sim mas não deixa de ser um punhado.
Portanto, esta questão não poderá ser abordada pelo recurso a estatísticas e factos apurados mas sim pela percepção extra-sensorial e pela fé.
E ao falarmos da quantidade de condenações efectivamente apuradas, não poderemos olvidar de modo nenhum a quantidade de falências fraudulentas de empresas privadas ou a ordinaríssima fuga ao fisco. Tenho alguma fé nisso. É claro que tais para-fenómenos não desculpam uma possível má conduta de agentes do Estado mas não seria de todo bizarro se fossem igualmente averiguados com rigor, os factores danosos para os cofres da malta toda, ie, desse tal Estado. Por uma questão de justiça, porque de repente me vêm à cabeça coisas como IVA, IRS, IRC, subsídios de desemprego, descontos para a segurança social, utilização abusiva da comparticipação estatal na saúde, atribuição de bolsas de estudo e até a carniceira discriminação na venda de serviços ao Estado por mecânicos, artistas, electricistas, médicos e outros burlões. Mas tudo não passa de um produto da minha percepção/imaginação, assente em pressupostos de fé.
Em todo o caso, é saudável recordar que em matéria de corrupção, é tanto prevaricador o que corrompe como o que é corrompido (sem escamotear as particulares responsabilidades dos detentores de cargos públicos). A necessidade desta precisão remete-me naturalmente para aquelas desculpas másculas da meninice de alguns e da adultez de outros (tudo muito masculino), apostados na sua moral das coisas que «paneleiro é o que leva, não o que dá»… Infelizmente, nem o estigma nem a necessidade de afirmação de uma virilidade permeável [e quiçá, insegura…], se transformaram em algo mais útil para um reino onde nem tudo o que parece é. E nem tudo o que é, parece.
Portanto, sempre que um acto de corrupção se materializa, é estimulado por ambas as partes, sendo que uma é quase obrigatoriamente privada. Pela lógica das coisas…
Uma medida aproximativa, esta de divulgar a lista dos principais devedores ao fisco e à segurança social. Devia ser acompanhada de uma outra com os principais organismos públicos que não respeitam os seus compromissos. Não seria por montante [por razões óbvias que têm que ver com o princípio da igualdade do credor] mas sim por tempo, por exemplo, mais do que 12 meses. Para começar.
Por outro lado, não se compreende como é que as autarquias locais podem ser na sua generalidade acusadas de gestão deficiente dos recursos financeiros – nacionais e comunitários – de que dispõem.
Em primeiro lugar, porque nessa matéria, o poder central não é exemplo para ninguém. Em segundo lugar, porque o sector privado não é exemplo para ninguém. A agricultura e os têxteis (só para citar dois notáveis intervenientes), consumiram ao longo dos últimos 25 anos, uma fatia de leão dos fundos comunitários, com os resultados vistos: ao que parece, subsistem umas reminiscências da actividade agrícola em Portugal e o Vale do Ave abriu brechas que mais o assemelham a um abismo, o Abismo do Ave. Sem prejuízo para ferraris, land rover’s, casas na praia, na neve e o raio que os parta. Tudo crenças infundadas, claro. Por vezes sou mesmo injusto!...
31 de julho de 2006
à tout propos (220)
Independentemente do trabalho possível, desenvolvido pela UNICEF, FAO e outros organismos de acção humanitária, a ONU tem sobrevivido apenas e somente porque legitima de uma forma dissimulada, os interesses dos impérios. Os que são, os que foram e os que aspiram a sê-lo.
Mas não deixa de ser cínico como uma organização permite que nela sejam tomadas decisões que provocam ou não evitam a destruição, a guerra, a morte e a fome, para posteriormente, activar operações humanitárias mediatizadas e eivadas do mais nobre espírito de solidariedade e benfeitoria. Para entreter e apaziguar os insurgentes…
Haja decoro e a sobriedade para admitir o falhanço da ONU, como falhou a Sociedade das Nações no passado. Admitido esse falhanço, é tempo de reformular o conceito ou simplesmente extingui-lo, poupando assim biliões de dólares, tempo e expectativas.
27 de julho de 2006
à tout propos (219)
21 de julho de 2006
20 de julho de 2006
Tabuada Para Imbecis
18 de julho de 2006
Um Estado de Esquizofrenia
Os políticos pensam que são debutantes mimadas filhas de patos bravos, a quem se desculpam as birras e inconsequências, os médicos pensam que têm uma prega a mais no cú do que os outros, os juízes pensam que são xerifes, os jornalistas pensam que são pastores baptistas, os militares pensam que são o Rambo, os intelectuais pensam que são políticos, os empresários pensam que são o fisco, os professores pensam que são condes, os polícias pensam que são guardadores de porcos, os construtores não pensam nada, os académicos pensam que pensam, os artistas pensam que são intelectuais e os portugueses pensam que o governo é pai do Estado. Ah, e os banqueiros pensam que são a Madre Teresa de Calcutá.
Neste quadro, quem pensarão que são os psicólogos, a derradeira hipótese de salvação nacional?
15 de julho de 2006
A Possibilidade dos Consensos
Com efeito, coisa rara e nunca vista, foi possível ver cristãos, judeus e muçulmanos alinhados pelo mesmo diapasão. Tudo por causa de paneleiros e lésbicas e duma marcha que o movimento gay pretendia fazer na terra santa. Heresia.
A malta pode não ter que comer, pode estilhaçar e sucumbir perante a força destrutiva de um plástico explosivo, pode definhar em guetos... agora, deixar rabetas pisar o solo sagrado é que não... [acrescento eu] a não ser que os pés estejam suficientemente sujos de sangue, do sague que tem jorrado ao longo de séculos, perpetrado pelas 3 grandes religiões mundiais. Assim não, porque o pecado pega-se. Como o ébola.
[ver jornal Público de hoje, «Jerusalém e Sodoma», de Rui Tavares]
14 de julho de 2006
Uma Paixão Bélica
Apesar de todas as resoluções da ONU, recorrentemente desrespeitadas por Israel, este país não perde o seu direito à auto-defesa, naturalmente. Mas, defesa de quê? Actualmente, está em causa o rapto de dois militares israelitas. Justificam-se os bombardeamentos, num quadro em que o que se está a fustigar é o país soberano (Estado, ie, o povo) e não as guerrilhas? A não ser que a ligação de sicrano com beltrano seja efectivamente demonstrada pelos israelitas. Há alguém a quem isso interesse, a não ser aos povos diariamente fustigados?
Em todo o caso, a comunidade internacional já nos habituou a não requerer taxativamente tais ligações. A comunidade internacional age por afinidades, interesses e comoções, e não por demonstrações empíricas, sempre permeáveis a uma qualquer linha argumentativa, legitimadora de quase todo o tipo de acções. Israel sabe disso, sabe que este tipo de bombardeamento não choca decisivamente a opinião pública internacional, o verdadeiro juiz. Aos olhos da opinião pública internacional, tratam-se de escaramuças ocorridas no seguimento da libertação dos soldados e não guerra aberta. Esta distinção faz toda a diferença, aliada ao hábito sonâmbulo que se instalou em quem liga e desliga o televisor sem se levantar da cómoda poltrona.
No entanto, para os habitantes da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, que outra coisa pode ser senão guerra aberta? Pelas consequências do embargo israelita, pela ocupação de territórios, pelo controlo de recursos primordiais como a água, pelas centenas de vidas ceifadas pelos raides aéreos todos os anos. É guerra aberta! A mesma que para os israelitas, diariamente, quando se enfiam num autocarro ou vão ao mercado comprar fruta, entretanto já acostumados à serenidade do terror.
Os movimentos islamistas não cedem e não cumprem as suas promessas. Os israelitas também não. Aparentemente, os únicos que mantêm uma linha coerente são os americanos, para quem a aliança com os israelitas é para levar a sério. A comunidade internacional não quer saber e vira as costas ao problema, entregue à conformidade frouxa da ONU. Os países produtores de petróleo esfregam as mãos porque a cotação do brent dispara constantemente.
PS: Uma boa teoria da conspiração advogaria uma sagrada aliança entre americanos, israelitas e países árabes produtores de petróleo: o mundo pagaria a factura. Uns controlam a manutenção da dependência mundial em relação aos recursos energéticos de origem fóssil, outros são a pedra geradora de instabilidade num lago que não se quer calmo e por fim, os restantes comprometem-se com a produção e procedem à redistribuição dos recursos. Quanto aos que perecem, qual a diferença entre apodrecerem na miséria ou estilhaçarem com o rebentamento de um obus?
12 de julho de 2006
Os Termos das Coisas

11 de julho de 2006
Como Um Bom Pai
Foram dias de luta, muito sofrimento e banhos turcos. Comida sem sal nem aqueles molhos suculentos, desafiadores da boca menos salivante. Enfim, tempos árduos, tempos de apertar o cinto. De fazer sacrifícios em nome de Portugal, esse deus pátrio a quem fora outorgado por direito divino, pelo menos, o campeonato do mundo.
São seguramente estas e outras razões ainda mais elevadas que Gilberto Madail levará aos nossos governantes, procurando isentar os nossos valorosos atletas do imposto sobre os rendimentos singulares a taxar sobre uns míseros 50 000 euros pagos a cada um dos jogadores. É comovente esta atitude, só comparável à de um bom e amigo pai.
Para além dessa linha de argumentação poderá estar em causa o desrespeito intolerável pelo nº5 do artigo 13º do Código do IRS, o qual é taxativo e incontornável ao referir que o IRS "não incide sobre os prémios atribuídos aos praticantes de alta competição, bem como aos respectivos treinadores, por classificações relevantes obtidas em provas desportivas de elevado prestígio e nível competitivo".
Ora, seria um ultraje para os cândidos e abnegados guerreiros se esta cláusula não fosse incondicionalmente respeitada. Seria uma vergonha para o país inteiro se tal cláusula não fosse imediatamente revogada. Taqueospariu….
Digam lá isso a todos os que andam a trabalhar neste degenerado país, sem condições mínimas de segurança nem de sobrevivência, cujo trabalho, esse sim, dignifica diariamente o bom nome e a honra deste pequenino tugúrio.
10 de julho de 2006
Zidane Também Já Foi Um Homem
Da mesma forma que tramou os portugueses uma série de vezes e outros tantos adversários, com os seus passes milimétricos, a sua cultura táctica, ora com a bola colada aos pés, ora desferindo certeiros remates. Zinedine Zidane foi, enquanto jogador de futebol, um dos melhores de sempre, muito provavelmente o melhor da sua geração.
A marrada é reprovável, sobretudo quando vinda de um profissional pago a peso de ouro. Contudo, essa indignação piolhosa exteriorizada por muita gente que nunca praticou desporto de competição mas que anda na sua órbita – rasteira e parasitariamente – é desproporcional e excessiva (chegou-se a ouvir a palavra «hediondo»). Essa desmesurada indignação traduz uma frustração primordial: a obsessão com a perfeição.
O Deus Zidane é no campo um mito. Criado e alimentado à custa do seu jogo quase perfeito. Uma forma de jogar à medida dessa obsessão, ritualizada, amada. A experiência metafísica é reificada nos seus pés e na forma como lê o jogo. Ontem, qual entidade meta-empírica adorada, Zidane traiu os seus seguidores ao romper com o maravilhoso mundo do sonho, onde tudo é perfeito e no qual queremos participar, tocando esse deus. Esse deus, que um dos comentadores classificou afinal, como possuindo os pés em barro. Esta expressão demonstra claramente a profunda decepção e ultraje sofrido ao constatar em directo e com a companhia de milhões de telespectadores em todo o mundo, que Zidane é e nunca deixou de ser um ser humano.
Será este o preço a pagar por alimentar e viver num mundo em que as emoções são exacerbadas ao limite, ultrapassando sem dificuldades a fasquia da irracionalidade, extremando assim os humores e a fé?
Por agora, uma coisa é certa: Zidane nasceu e morrerá homem.




