17 de outubro de 2006

Leis de Qualquer Coisa

1. Para um corrupto público há sempre um corruptor privado;
2. Qualquer comparação entre o Portugal de hoje e o Portugal de há 30 anos é condenada ao fracasso;
3. Se o poder local não existisse, o país já tinha implodido com o epicentro em Lisboa;
4. O Saldanha Sanchez não é só boçal, é também lunático;
5. O betão é um problema, os dinheiros que a Administração Central disponibilizou ao longo dos anos para o erguer, é outro;
6. Por cada euro gasto pela Administração Local, a Administração Central gasta 3 para produzir os mesmos resultados;
7. A Adminsitração Central não tem os mesmos resultados;
8. É um facto que a maioria dos políticos em Portugal são medíocres e sem visão estratégica. Na Administração Central a concentração de energúmenos é colossal;
9. Para além de boçal e lunático, o Saldanha Sanches é feio e cheira mal da boca;
10. As leis de qualquer coisa têm que ser 10. É da lei...

à tout propos (240)

É difícil encontrar personagem mais boçal neste país que esse tal fiscalista Saldanha Sanches.
Então não é que o sujeito tem o desplante de afirmar com todo aquele frenesim delirante que o caracteriza, que os municípios não têm maior poder tributário porque os autarcas não querem ter o ónus da responsabilidade na gestão de receitas fiscais perante os seus eleitores (programa Prós & Contras de 16 de Outubro)?
O homenzinho vive alheado da realidade [não é novidade] pois desde que a Administração Central do Estado decidiu demitir-se consecutivamente das suas responsabilidades, não existe outra bandeira agitada pelas autarquias.
A título de exemplo, talvez seja bom recordar a briga que foi conseguir que as receitas provenientes da derrama sobre o IRC considerassem o local onde as filiais das empresas estão instaladas e não as suas sedes (casos de bancos e de grandes empresas, casos também de imensas empresas sedeadas em offshores).
Acontece, e isso o homenzinho não explicou, que os municípios são bem mais eficientes que a Administração Central. Acontece igualmente que, se a Administração Central perdesse poder tributário, toda essa corja de chulos, boys, incompetentes e oportunistas que, como ele, vivem na penumbra do Estado, iriam para o olho da rua ou veriam os seus rendimentos substancialmente reduzidos.
taqueopariu...

16 de outubro de 2006

à tout propos (239)

Uma questão pertinente: são dados como certos os rumores que dão conta da impossibilidade em comparticipar com fundos comunitários a construção de um pavilhão multiusos a partir do «pombal»? Terá isso alguma coisa a ver com o que parece óbvio?

Entre a Geo-estratégia e a Beatice


A atribuição do Nobel da Paz a um homem fundamentalmente ligado a assuntos desenvolvimentistas tem gerado alguns engulhos e indigestões entre velados pretendentes ao dito reconhecimento e aos que, não tendo essa pretensão, concebem tal distinção como uma ratificação a tiranos e terroristas por, uma vez na vida e sabe-se lá em que circunstâncias e com que consequências para a humanidade, evitarem a conflagração da violência e da guerra.

Não nos referimos obviamente aos que estenderam o seu apoio a homens como Annan, Ximenes Belo, Aung San Suu Kyi ou Mandela. Que, em rigor, podiam ter sido os mesmo que apoiaram Colin Powell ou Yasser Arafat.

A guerra até pode ser vista, à semelhança do postulado de Clausewitz, como uma «continuação da política por outros meios» e a sua inevitabilidade residir no mais puro pragmatismo da defesa da identidade e interesses genuínos de um povo. Nesse patamar estariam eventualmente homens como Michael Colins ou Yasser Arafat. O último foi inclusivamente galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Contudo, esta decisão não só foi polémica como reveladora de uma estratégia latente do comité sueco. A de «fazer a paz por outros meios».

Nessa ordem de ideias, nomes como Pol Pot, Estaline ou Saddam Hussein poderiam também ter sido agraciados com o prémio. Podia ser que a coisa mudasse...

Ora, não sendo nem tirano convicto nem uma Madre Teresa de Calcutá, o bengali Muhammad Yunus cai fora desta aritmética bidimensional que se manifesta entre a geo-estratégia e a beatice.

Basicamente, o argumento do Comité de Atribuição do Prémio Nobel converge com alguns dos princípios básicos de Yunus, para quem «o fim da pobreza conduz ao fim dos conflitos».

John Rawls, na sua «teoria ideal» da Lei dos Povos, discorre sobre um conjunto de características associadas à democracia que conduzem à salutar convivência entre os povos, defendendo com recurso à empiria, que as sociedades democráticas são, historicamente, as que menos conflitos empreendem (a não ser ao abrigo do conhecido conceito de «guerra preventiva» para o qual concorre a legitimidade da «guerra justa»), considerando que também são as que conseguem melhores performances e estabilidade económicas.

A erradicação da pobreza assume aqui um papel importante na definição das causas da maior parte dos conflitos, recenseadas historicamente. E de facto está sempre implícita uma dimensão que resulta da digladiação por recursos que são escassos na luta pela «sobrevivência». Podemos identificá-lo na instintiva sobrevivência dos yanomami, para quem os raides a aldeias vizinhas e o consequente rapto de mulheres e raparigas significam a sobrevivência de um grupo. Mas também o podemos identificar nas múltiplas «expansões» e conquistas de territórios «à lei da bala», aviltando-se o invasor ou conquistador com os mais variados pretextos. E na verdade, não me recordo de nenhum conflito aberto entre dois países democráticos e que vivam desafogados financeiramente.

A plena satisfação de necessidades primárias desembaraça assim os povos para outro género de realização, menos conflituosa porque mais racional e mais liberta para abraçar com menos reservas os valores e princípios da liberdade, autonomia e respeito pelos povos. Valores, de resto, provenientes das teorias liberais emergentes do iluminismo.

Nestes termos, contribuir para a redução da pobreza mundial com recurso ao microcrédito não será seguramente a solução para a paz no mundo mas é certamente mais uma ferramenta para a dissuasão de beligerantes.

10 de outubro de 2006

Na Desbunda



Terá sido esta imagem a que influenciou decisivamente a orientação do estudo encomendado pelo MAI (Ministério da Administração Interna), o qual propõe a extinção das brigadas de Trânsito e Fiscal.

Na base de tal decisão poderá estar naturalmente esse sentimento associado à interiorização e adequada correspondência das hierarquias, ie, uma expressão assumida pelo poder político que pode ser simplificada pela seguinte fórmula: «cada macaco no seu galho».

Ou seja, os ministros têm que andar encafuados dentro de automóveis sombrios, onde não entra um raio de sol, enquanto os oficiais da BT se passeiam alegremente em descapotáveis? Bracinho de fora, em dupla transgressão [traço contínuo e ausência de cinto de segurança] e às tantas, cheios de «bejecas» na mala do carro, em vez de uma clandestina AK 47 para limpar as ruas... Até já perderam o tacto aos bonés e estão todos desfraldados (não se vê mas podemos imaginar).

Fica a dúvida se o condutor vai ou não a dar umas passas.

Proximamente teremos o ministro de cuecas em cima de um F16, de garrafa de vodka na mão, olhos vidrados nos quadris da piloto (que uma hora antes era o Major Sousa) e a dar o peidinho da ordem, engasgando-se de baba naquele riso nervoso característico de quem faz merda mas não é apanhado.

Uns boémios, estes gajos...

9 de outubro de 2006

à tout propos (238)

Para José Ernesto, a modernização do ramal ferroviário Casa Branca/Évora representa [mais] um acréscimo de competitividade. A continuar assim, Évora passará a figurar no Top Ten da União Europeia, em matéria de competitividade, só ultrapassada por Ottignies, Otranto e Sobral da Adiça.

Mas o que é mais impressionante neste arrazoado é o zeloso cumprimento do brilhante plano estratégico-eleitoral, que consiste em… não-sei-quê.

7 de outubro de 2006

Artistas da Arte e Outra Fauna de Combate


A única responsabilidade de um artista é fazer arte, e o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e – isto é essencial – ofender-nos. (…) A arte deve ter a liberdade de nos ofender e, o público de se sentir ofendido, desde que de forma não-violenta”.

Rui Tavares, in jornal Público, 30 de Setembro de 2006-10-07, sobre a proibição da realização da ópera Idomeneo, de Mozart em Berlim.


Aquela dimensão da ofensa é justamente a que é tendencialmente excomungada e censurada pela ideologia dominante, cuja padronização cultural de rebanho é só remotamente discernível e no seio da qual, a arte se ameaça converter em elemento de puro e alienante entretenimento, mera distracção da malta.

E o mais curioso é que tal faceta é reproduzida constante e alegremente, de forma irracional, por alguns dos próprios fazedores de arte, convencidos que estão do seu trabalho crítico e de estonteante intervenção. Uii...

A malta, ávida de «cultura» e consumidora compulsiva dos mais complexos e inacessíveis criadores ri-se sarcasticamente [mesmo os que se pensam mais intelectualóides], aplaude, suspira aqueles «ai, aii» de indignação com odor a conformismo, e regressa finalmente a casa para o conforto de uma noite descansada e com a sensação de dever cumprido.

Caro Rui, a malta de que falas já não se ofende pois interiorizou o espectáculo. Não se escandaliza se no vernissage de uma exposição, o pintor mija para o seu próprio quadro. A reacção geral é de uma arrepiante normalidade, não vão os outros comentar a falta de sensibilidade para as questões da arte...

Só se sentem ofendidos os fundamentalistas religiosos, as beatas, a realeza e os néscios «incultos» como eu. Sobretudo quando me vejo [ou a minha comunidade] confrontado com os nossos próprios engulhos e perversões ou quando vejo esbanjar rios de dinheiros públicos com verdadeira merda, mas merda da fina...


Desculpem lá… às vezes dá-me para isto…

à tout propos (237)

É isso, diverte-nos a crítica fácil e infundada...

4 de outubro de 2006

A Particularização do Interesse Público

A revelação sobre as estimadas «perdas» na participação das receitas do Estado a transferir para as autarquias locais (Fundo Geral Municipal, Fundo de Base Municipal e Fundo de Coesão Municipal), mantida a «marinar» pelo Ministro da Administração Interna António Costa até um dia antes da realização do congresso extraordinário da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses), tem como aparentemente primeiro objectivo lançar a confusão e o desnorte no seio dos autarcas em congresso.

Revela, antes de mais, uma noção deturpada do que é o Estado. Concepção aliás partilhada pela generalidade dos autarcas. De resto, se há característica que parece transpirar da política portuguesa, é a inversão da ordem de prioridades na definição do interesse público, sendo os cidadãos obviamente, o derradeiro elo da cadeia na referida ordem de prioridades.

O Estado é, ocabiorresto, uma arena onde se digladiam clãs, senhores feudais e parvos, revelando duas dimensões muito importantes: a arregimentação de parvos e a sua instrumentalização pelos clãs e senhores feudais. É muito simples, não é?

À falta de melhor, fica esta definição.

à tout propos (236)

Em Dezembro de 1968, aquando de uma escala na casa de Amália e em trânsito para Roma, Vinicius de Morais dizia ter do povo português uma imagem simultaneamente bela e triste, exortando-o por fim a se «desengravatar». 38 anos volvidos, o que diria o brasileiro se ainda fosse vivo?

2 de outubro de 2006

à tout propos (235)

Depois da medida de desburocratização operacionalizada pelo governo que permite constituir empresas em apenas um dia, verificamos com particular regojizo que é também possível obter um parecer do Estado, sete meses depois de lhe ter sido solicitado, aquando da formalização da OPA (oferta pública de aquisição) da Sonae sobre a PT.
Uma incomparável vitória para as empresas que são objecto de OPA, pois neste caso, a PT só esteve 7 meses congelada em termos de definição e redefinição de estratégias e investimentos, sendo certo que nestas empresas, celeridade e oportunidade são em muitos casos, a chave da competitividade.

A Chantagem dá «Cana»! Não dá?...

No Público de Domingo (1 de Outubro), António Barreto partilha com o leitor a sua enorme desilusão com o poder local, na sequência da ameaça da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses) em desinvestir na saúde, educação e segurança. A causa desta possível tomada de posição, a ser decidida brevemente em Assembleia Geral extraordinária convocada pela ANMP, resulta da «investida» do poder central através da nova Lei de Finanças Locais. Ao que parece, também por as galinhas terem asas. Mas não estou muito seguro em relação a este ponto.

Por muita razão que possamos dar a Barreto, há nas suas palavras um risco potencial: o risco da generalização, em cuja leviandade e desconsideração não nos revemos. Em particular num quadro de pura especulação e desagravamento ou desculpabilização das actividades observáveis na restante Administração pública e na própria sociedade civil. Um verdadeiro lodo.

Não nos podemos esquecer – e sem prejuízo para a incompetência, caciquismo, nepotismo e ilegalidade em que incorrerão alguns responsáveis das autarquias locais – que o governo mais não fez do que transferir competências para as autarquias locais, impondo em simultâneo cortes nas despesas e impossibilitando a obtenção de novas receitas para fazer face aos novos desafios. Que em todo o caso, não foram pedidos pelas autarquias, mas sim impostos.

Ou seja, a Administração Central mais não fez do que se demitir de algumas das suas responsabilidades, mantendo ainda assim, os seus conhecidos vícios, o despesismo e o monopólio da tributação fiscal.

Perante este cenário, como é possível exigir com legitimidade que as autarquias locais exibam uma conduta incólume, de boas práticas, quando é a própria Administração Central que se abstém de significar um exemplo a seguir?

Naturalmente, a «chantagem» anunciada pela ANMP é absolutamente intolerável, reflectindo o modo boçal, particularista e discricionário como é eventualmente concebido por alguns autarcas, o interesse geral e o serviço público. Reflecte igualmente a visão que têm de democracia, conceito embaraçoso, vago, flutuante e perfeitamente instrumentalizado.

1 de outubro de 2006

Évora, o Esteio da Competitividade

Segundo um estudo realizado por dois investigadores da Universidade do Minho e considerando critérios e padrões de análise iguais aos utilizados pelo Fórum Económico Mundial, Évora estará no topo da competitividade nacional.

Claro que este índice, resultante da ponderação de diversos indicadores que dão corpo a 4 índices centrais de competitividade – demográfica, laboral, empresarial e de conforto – reflecte somente a potencialidade das cidades consideradas, em matéria de competitividade.

Por ser uma cidade com uma densidade populacional baixa, com taxa de desemprego inferior à média, por reunir um potencial turístico impar e boas condições objectivas de vida (ao nível das infra-estruturas se saneamento, habitação, pessoas por alojamento, etc.) entre outras virtudes, o estudo revela que o potencial de competitividade de Évora é maior do que o potencial de crescimento da capital, Lisboa, a segunda classificada neste estudo.

No entanto, há aqui vários aspectos que devem ser apreciados.

Em primeiro lugar, estamos a falar do que existe em potência e não na realidade. Os autores recorrem a uma analogia que me parece bastante feliz: «Évora tem uma longa recta numa estrada de terra batida», procurando enfatizar um percurso menos tortuoso do que as cidades que têm a estrada asfaltada embora com um traçado excessivamente sinuoso.

Em segundo lugar, é aceite que, à semelhança da lei dos rendimentos marginais decrescentes, o acréscimo da primeira unidade implique uma maior satisfação do que a segunda e assim por diante, ou seja, uma cidade com muitos recursos e de certa forma congestionada como o Porto (último classificado), possui menos margem de progressão (ou potencial) do que uma cidade actualmente pouco competitiva. Para ilustrar melhor o exemplo, basta considerar as taxas de crescimento de países em vias de desenvolvimento como a China, Argentina, Índia, Brasil, etc. muito superiores às da Europa, Japão e Estados Unidos.

Em terceiro lugar, convém não esquecer que se trata de um estudo comparado, às capitais de distrito e não necessariamente às cidades mais importantes e competitivas do território nacional.

Em quarto lugar, há factores de ponderação, de demonstração mais objectiva do que outros e que certamente se posicionam diferentemente face a um índice desta natureza, consoante o impacto que produzem. Sem dúvida que em matéria de competitividade, há factores como a dimensão do mercado, as infra-estruturas existentes, os incentivos ao investimento, o perfil de actividades económicas desenvolvidas numa região, salários médios, a qualificação dos recursos humanos, as acessibilidades e o custo de vida, são necessariamente mais determinantes do que outros, pelo que a ponderação dos indicadores tem que ser diferencial.
No índice relativo ao conforto, por exemplo, não se fez alusão ao preço médio das habitações nem ao custo de vida. E todos sabemos que, nessa matéria, Évora não tem uma dinâmica propriamente meiga. Mas tendo em conta os critérios utilizados, Évora surge como a cidade com maiores níveis de conforto.


Por todos estes motivos e mais um par de botas, o estudo revelado é extremamente importante para que os eborenses e o resto do país compreendam claramente que Évora é evidentemente um diamante em bruto, por lapidar (apesar da investigação não trazer nada de novo), e interiorizem essa ideia de forma consolidada.
Mas não certamente à custa da arbitrariedade desnorteada de sucessivas gerações de governantes, de profissionais incompetentes, nem de cidadãos desleixados para quem viver em Évora, só por si, deveria significar conviver com a excelência (sem menosprezo para ninguém) e ser um motivo de incontestável orgulho.

27 de setembro de 2006

Patinho Feio, o Funcionário

Sendo o Alentejo e os Açores duas das regiões mais pobres da Europa, com PIB’s baixos, mão-de-obra barata e desqualificada, porque raio não deslocalizam as multinacionais para estas duas regiões?

Em vez disso, a fábrica da Opel na Azambuja «emigrou» para Espanha [onde a mão-de-obra é mais cara e qualificada] e os países de Leste estão frequentemente na mira dos empresários estrangeiros e nacionais [mão-de-obra barata mas qualificada]. Apesar de aparentemente não haver um padrão perfeitamente descodificável, que terão eles descoberto que nós ainda não descobrimos? Sabendo igualmente que a mão-de-obra portuguesa no estrangeiro não raras vezes é distinguida e reconhecidamente apreciada…

Haverão aqui forças impronunciáveis e insondáveis que se movimentam entre vórtices e que aniquilam a emancipação do português, cotando-o a um nível de desenvolvimento característico do século XIX?

E se o país inteiro se deslocalizasse para outro lado qualquer? Será que faria diferença?

Ou bastará continuar a bater no ceguinho, nesse elo dispensável que é a Administração Pública, fonte de todos os embaraços e ineficiências coniventemente perpetrados por uma corja de patrões medíocres?

A este respeito, o relatório do Fórum Económico Mundial parece ser particularmente duro para o sector privado português…

22 de setembro de 2006

Compromisso Portugal

Quando o ambiente, a educação, a saúde, a justiça, a segurança social, os transportes, os serviços de segurança, a defesa nacional, as finanças, a cultura e a agricultura forem privatizadas, então, nesse caso, poderemos ambicionar reduzir em 200 mil e num prazo de 5 anos, o número de funcionários públicos. Só na educação e saúde estão metade…

É inquestionável que a administração pública carece de uma reorganização estrutural. É inquestionável que há funcionários públicos a mais, bem como uma deficiente afectação dos recursos humanos. Mas nunca ninguém elaborou um diagnóstico credível e exaustivo que clarifique onde se encontram as necessidades de pessoal, onde se encontram os excedentários e quais os serviços cuja existência merece ser seriamente ponderada.

Assim, é-nos dado o seguinte quadro:

Em primeiro lugar, um bando de dondocas e marialvas que, sendo amigos de alguém, ganharam notoriedade suficiente para serem rotulados como empresários de sucesso e pensarem que podem trazer algo de novo. A entrevista de ontem ao Engº Carrapatoso no canal 1 da RTP foi miserável. Mas quem é aquele sujeito, cujo pensamento cai irremediavelmente no lugar comum da ideia preconcebida e da banalidade a-estratégica?

Em segundo lugar, temos o governo, que também nunca se baseou em estudos convincentes para avançar com as reformas que conhecemos e as que estão por vir. Num e noutro caso, campeia a leviandade, a soberba e o misticismo.

Por fim, temos os sindicatos, gordos empregadores a zelar pelos seus próprios interesses, incapazes de se rever na ideia de Estado.

20 de setembro de 2006

à tout propos (234)

Não sei até onde isto pode chegar mas temos que estar preparados para, ao longo da vida, ouvir os maiores absurdos. Desta vez foi, nada mais nada menos, o seguinte: «no fundo, no fundo, você até nem é má pessoa».
... Qualquer dia, há por aí tanta credibilidade e bondade que os polícias vão todos para a rua, bem como os padres. Já para não falar do entupimento dos pedidos de beatificação junto do Vaticano.
Ora, pergunto eu, onde é que as pessoas vão buscar estas coisas?

19 de setembro de 2006

à tout propos (233)

Dando largas passadas no caminho da imperfeição, no sentido contrário à assunção de um ser totalizante, perfeito. Ou então, estarei em fase de hipermania.

15 de setembro de 2006

à tout propos (232)

- Hoje estás muito espirituoso… Qual o motivo de tanta risota?
- Uma comunicação da directora dos serviços. É bárbara!
- Já sabes como é. Cena marada…
- É soberbo o documento, pela imprudente articulação de conceitos tecnicamente contraditórios e pela boçalidade exalada a cada linha.
- Ah, ah, vindo dessa, nem vale a pena perguntar o que lá vem escrito…
- Não!
Redargui. Não perguntas porque não tens interesse. E isso é perfeitamente legítimo.



Segundo estudos recentes publicados aqui), 9 em cada 10 portugueses não faz uso da sua faculdade de raciocínio e argumentação lógica em conversações quotidianas. Tudo se faz mecanicamente, apesar das aptidões para estabelecer diálogos e monólogos capazes de fazer inveja aos homens da maratona.

... O governo tem que fazer urgentemente alguma coisa para acabar com as estatísticas!

14 de setembro de 2006

Tirania da Maioria

Ainda com respeito ao Pacto da Justiça – aqui tratado em à tout propos (231) – cozinhado na semana passada entre PS e PSD, Octávio Teixeira (ex-deputado do PCP), reflectia hoje sobre as perversidades dessas negociatas na Antena 1. Como foi dito, a assunção de um regime parlamentar democrático não se pode coadunar com este tipo de arranjos que se alcançam sem debate, sem a intervenção parlamentar, sem que os restantes representantes do povo com assento parlamentar possam rejeitar, apoiar, discutir e votar. Trata-se, em suma, de um óbvio mecanismo de «legitimação» paralela à que está consagrada na Constituição da República Portuguesa. E por isso mesmo a sua generalização tem riscos para a própria democracia.

Todos sabemos que o modelo democrático, de pureza variável no contexto mundial, incorre num processo de eliminação de erros daquilo que são os seus procedimentos, normas e disseminação de valores e princípios entre as administrações e a sociedade civil. Por isso, oficiosamente, não podemos senão falar do conceito de democracia tout court… embora com muito boa vontade, o desejemos muito. Os que o desejam, naturalmente… E os que desejam ardentemente, levando-a empacotada a toda a parte do mundo.

Ora, uma ideia de democracia representativa de pendor parlamentar, não tem qualquer cabimento quando se fazem arranjinhos entre os que detêm o poder (outorgado pela conversão de votos em mandatos), excluído todos as outras sensibilidades. Por isso mesmo, o sistema representativo português não apresenta um sistema eleitoral maioritário, sendo certo que, este tipo de arranjos encontraria ainda assim, mais legitimidade em países como os EUA ou a Inglaterra. Este, como outros pactos, representa em bom rigor, o que pode ser definido como uma tirania da maioria, tanto receada por Tocqueville. O que mais assusta é que isto é prática comum e os argumentos, medíocres, convencem toda a gente.

11 de setembro de 2006

Todos os Dias (II)




... Entretanto, diariamente morrem às mãos da fome e da guerra, centenas ou milhares de pessoas por todo o mundo. Só no Iraque, morrem em média 1500 pessoas por mês, na sequência de ataques terroristas.
Apesar da existência de inúmeras perguntas por responder, certo é que, para as vítimas e para os familiares das vítimas, o sofrimento é e foi real...

11 de Setembro (I)





Há 5 anos, na sequência do que se aceita ter sido um ataque terrorista da exclusiva responsabilidade da Al Qaeda, quase 4 milhares de pessoas perderam as suas vidas em nome de nada. Quase todas, de forma particularmente dramática e dolorosa.
Apesar da existência de inúmeras perguntas por responder, certo é que, para as vítimas e para os familiares das vítimas, o sofrimento é e foi real...

10 de setembro de 2006

...I Did It, My Way...

No passado Sábado foi publicada uma entrevista no jornal Público, com o embaixador americano em Portugal. Ao longo da entrevista, este cowboy de 72 anos manteve sempre aquela irredutível pose de Estado, típica dos lacaios mais obedientes e capazes de sustentar estoicamente o mais absurdo argumento.

Convicto de que “as prisões da CIA vão continuar secretas e nos locais actuais”, o homenzinho lá se foi escudando numa distinção fundamental: entre o que é tortura e o que é coacção, para legitimar a existência dentro da legalidade, desses calabouços insondáveis e impermeáveis à Convenção de Genebra. Como tudo nos EUA, de resto, em matéria de respeito pelas leis, tratados e convenções internacionais.

Contudo, a linha de argumentação só fica completa com a tese de os EUA estarem de facto envolvidos numa guerra, não tradicional e heterodoxa, mas uma guerra. A este respeito, já a Europa e as organizações de direitos humanos haviam exigido que os prisioneiros de Guantanamo fossem efectivamente tratados com a dignidade e o respeito consagrados na dita Convenção de Genebra. Sem resultados. E sem surpresas.

Alfred Hoffman Jr. (é assim que se chama o serviçal) remata a questão sustentando que, “numa guerra não há tempo limite para a detenção” de oponentes. O que o energúmeno senhor parece não compreender ou admitir, é que numa guerra, são feitos prisioneiros por pertencerem ao exército inimigo e não por serem suspeitos de pertencerem, sendo mantidos em cativeiro por tempo indeterminado (e aqui apelamos para a natureza distinta dos conceitos de «detenção» e «prisão»).

Os que são suspeitos de pertencer ao exército inimigo, não têm que gramar com essa treta da indefinição do tempo, acomodando temporalmente a prisão à duração do conflito. Nem os outros têm que levar chibatada, pontapés nas trombas e humilhações sexuais, alegando que se trata de coacção para recolher confissões ou provas testemunhais.

Mas não deixa de ser gracioso aquele argumento. Em particular porque o princípio que lhe subjaz – a guerra como fonte legitimadora de todas as acções – pode ser generalizado e disseminado a um nível tão hediondo quanto as insanas congeminações de Adolf Hitler, começando pela ideia de «guerra ao narcotráfico», «guerra à evasão fiscal» ou até «guerra aos azuis».

No limite, as consequências de utilização desta classificação poderiam sobrepor-se a quaisquer liberdades, direitos e garantias dos indivíduos, sempre que, sob o signo da arbitrariedade, quem detém e executa o poder pretendesse arrepiar um qualquer caminho em seu proveito ou interesse…

7 de setembro de 2006

à tout propos (231)

à tout propos (230)

Em Portugal, depois da temporada da tourada... regressa a temporada da tourada! Bem hajam todos quantos contribuem para a faena anual.

à tout propos (229)

Sinto simpatia pela cumplicidade dos sinais de luzes que denunciam a presença de polícias na estrada. Durante muitos anos debati-me com a bondade e justiça dessa acção, ímpia aos olhos da sociedade de bem-parecer.

Mas há alguns argumentos que merecem ser colocados em evidência. Partimos do pressuposto, tantas vezes confirmado pela BT-GNR, que a presença policial tem como primeiro objectivo a dissuasão de comportamentos desviantes.

Assim sendo, parece ser indiscutível que ninguém no seu perfeito juízo, tomando consciência da presença policial, acelere a sua marcha ou, caso não esteja em condições psicológicas para conduzir, se predisponha a permanecer sentado ao volante. Objectivo cumprido, os condutores são dissuadidos.

Se no primeiro caso e findo o raio de acção do radar ou do longo braço da lei (que por vezes se converte nas longas garras da lei), o condutor pode retornar à condução em excesso de velocidade, já no segundo caso, o condutor opta por uma de duas alternativas: ou estaciona e espera que lhe passe ou procura estradas secundárias, reduzindo a probabilidade de encontrar outros veículos ou transeuntes. Quanto ao despiste [sozinho ou com consentimento do registo comportamental pelos demais], quer-me parecer que ninguém tem nada que ver com isso, nomeadamente o SNS, polícias ou tribunais (desde que não resulte em danos meteriais como cercas, muros, postes, paredes, etc.). Sobretudo se o homem registar um histórico de zelosa honradez dos seus compromissos fiscais.

Há sempre o argumento policial de que, os sinais de luzes podem servir para alertar condutores que se façam conduzir em carros furtados ou não segurados.

Contudo, é para mim mais admissível o prejuízo de um (cujo carro foi roubado mas pode ser reavido) em detrimento do prejuízo de muitos porque, para além da corrupção, grassa por esse asfalto fora, aquilo que pode ser considerado um verdadeiro Roubo Generalizado de Estado.

Entretanto, os acidentes e os maus comportamentos na estrada não terminam devido ao agravamento das coimas. E isso é um facto estatístico.

5 de setembro de 2006

Os Deuses Também Já Foram Homens

Foto: Sparky Faísca
O mundo até pode cair, mas não enquanto estes maravilhosos animais povoarem os nossos céus e o nosso imaginário, consentindo a trégua que a poluta existência humana não concede a si própria.

Aceno-lhes agradecidamente com um sorriso nos olhos.

1 de setembro de 2006

à tout propos (228)

Se a FIFA, a UEFA e a NATO decidirem expulsar as equipas portuguesas das competições internacionais, há sempre a hipótese de declarar a independência da Madeira e naturalizar nesse novo país [patriarcado do Alberto João I], o Scolari, o Madail, o Valentim, o Pinto da Costa, o Cunha Leal, o Luís Filipe Vieira, o Figo, o Isaltino, a Fátima Felgueiras, o Adelino Ferreira Torres, os irmãos Cavaco, o Eusébio, e o raio que os parta a todos.

David - Golias (início da partida)

Tenha ou não a razão do seu lado, o clube de futebol Gil Vicente tem o mérito de romper com a ingerência legal imposta por multinacionais às leis de um país.

Não é admissível que um Estado de Direito fique refém de regras feitas à sua revelia por tais multinacionais (com fins lucrativos, de resto), e assim reine a impunidade e a arbitrariedade decretada por um sistema que se sobrepõe em matéria de regras e orientações gerais, a Estados soberanos.

As «leis» do mundo desportivo, encontram validade até esbarrarem com as leis emanadas da Assembleia da República.

Caso as restantes equipas nacionais de futebol venham a sofrer represálias infantis e irresponsáveis da FIFA, só nos podemos congratular por não abdicar do exercício de cidadania na defesa dos interesses nacionais.

O Gil Vicente fará jurisprudência – de um modo ou de outro – como o caso Bosman na década de 90. Pode ser que assim seja reposta alguma da democraticidade e legalidade demasiadas vezes arredada desse mundo promíscuo.

30 de agosto de 2006

Dos Fracos Não Reza a História...




Os factos históricos que dão corpo à representação que temos do passado, resultam de uma reconstrução técnica, ideológica e cultural, a qual converte e reifica a pretensa factualidade através de um processo de construção histórica da verdade, fruto de consensos e convenções. Os tempos encarregam-se de lhe conferir uma objectividade que se desembaraça progressivamente da multidimensionalidade, visando simplificar a compreensão dos momentos e percursos históricos.

Os manuais escolares de até há bem pouco tempo por exemplo, reproduziam em espaço de socialização secundária, concepções francamente grosseiras sobre a ocupação árabe da península ibérica a partir do séc. VIII. Para os petizes, os árabes representavam [e nalguns casos ainda representam], a barbárie e a infidelidade religiosa que urgia escorraçar.

Essa era sobretudo a visão da Igreja, para a qual a doutrina do reino se deveria confundir com a sua. Para a qual ainda, as cruzadas mais não eram do que a primordial necessidade em restituir a suprema divindade às coisas e eleitos de Deus. A sua divindade, esse Deus legitimador das maiores atrocidades.
Durante séculos, aos povos árabes foram obliteradas as importantes responsabilidades civilizacionais que lhes couberam e que posteriormente, o início da Idade Média fez regredir até um nível ligeiramente superior do que o experimentado no final da Idade do Ferro. Não só nos fundamentos materiais da cultura como também nos imateriais.

De resto, segundo Bryan Ward-Perkins, a queda do Império de Roma às mãos dos invasores germânicos (séc. V) terá significado um retrocesso civilizacional operado sobretudo no Império do Ocidente, que só haveria de recuperar com o alvor da renascença (já que o Império do Oriente se dissolve em rigor, com a Queda de Constantinopla em 1453). Com a dissolução do império, dissolveu-se uma economia complexa. Para dar alguns exemplos, a tributação fiscal passou a fazer-se em géneros; das casas em pedra e telhado de telha passou-se à madeira e telhados de colmo; da disseminação quotidiana, geográfica e social de peças e utensílios de cerâmica fina, retrocedeu-se para a utilização de peças de cerâmica grosseira e só acessível a alguns; dos «cartazes» públicos passou-se à alfabetização apenas acessível ao clero.
Estas e tantíssimas outras mudanças começam agora a ser debatidas e reveladas, questionando a visão consolidada de um império que cai de podre e em resultado directo da destruição trazida pelas invasões. Ward-Perkins rejeita esse argumento dominante, reconstruindo a verdade. Em todo o caso, a sua verdade, cabendo ao mundo validá-la…

De qualquer forma, este tipo de trabalho só é possível porque os progressos tecnológicos, a racionalidade científica e a inconformidade de alguns o possibilitam. Apesar de em muitos casos, apenas ser possível recriar uma perspectiva alternativa sem qualquer oportunidade de questionar a verdade negociada e imposta.

A história universal é contada normalmente com recurso a diversos níveis de fontes: os registos documentais, os artefactos e legado patrimonial, os elementos biogenéticos, a memória colectiva e, acima de tudo, a história unilateralmente contada pelos povos declarados vencedores de disputas ou guerras. A célebre fórmula «dos fracos não reza a história» é bem elucidativa a este respeito.

E é neste campo que a história sofre incursões, imposições, nuances e construções movidas por povos cuja acção histórica é tanto mais falaciosamente verdadeira quanto o (pre)domínio sobre os restantes e o crónico desrespeito por regras morais, legais e éticas de povos como os israelitas ou os americanos. E outros casos de povos cuja supremacia no passado os tornou mais «históricos» que outros. Nas relações internacionais em particular, vigora a lei do mais forte, e o mais forte não o tem sido por reunir em exclusivo, características mutualistas, solidárias e morais acima de qualquer suspeita…

Neste caso e como atravessa o nosso momento histórico, aquele em que se redige e actualiza a nossa história, é particularmente angustiante compreender que a mesma está diariamente a ser registada segundo os pergaminhos da cultura dominante e ao arrepio da equidade mundial, em sociedades ditas civilizadas, democráticas e solidárias.

É particularmente tormentoso que Israel simbolize a típica criança mimada e super-protegida a quem são perdoadas todas as maldades e excentricidades. Aquela criança dos cartoons que personifica o terror dos animais domésticos que ela mesmo exigiu.

Uma vez que o resto dos povos no mundo não passa de servos apáticos, títeres fanfarrões ou lunáticos beatos, resta-nos que no futuro, outros investigadores venham questionar o curso da história, caso nesse tempo as nossas sociedades ainda conservem a liberdade de expressão.

23 de agosto de 2006

Da Democracia Anti-tabagista

A maníaca obsessão das organizações e lobbies antitabagistas, continua a marcar pontos, em particular nas democracias ocidentais onde os valores da liberdade e da autonomia individual são supostamente preconizados. Depois de tirar o cigarro da boca de Lucky Luke, eis que nem sequer o gato Tom pode ingenuamente dar uns bafos em dois dos milhentos episódios. Às criancinhas ficam assim vedados aspectos de uma realidade que se pretende artificial e parcial. Mais um decisivo passo no sentido da unidimensionalidade, para o pensamento único e para a imposição desse pensamento pelos arquitectos e detentores da «verdade».

Em contrapartida, para os Estados, o argumento é puramente económico (sob da capa da saúde pública), procurando reduzir os encargos de saúde com milhares de doentes crónicos e o decréscimo de produção que significam. Ora, cuidados de saúde que, recorde-se, são uma das obrigações do Estado Social para com os seus contribuintes. À semelhança da responsabilidade que os Estados devem ter nos cuidados de saúde derivados da sinistralidade rodoviária.

No nosso caso em particular, temos um Estado cínico e ardiloso que estimula a circulação rodoviária através da ausência de alternativas de transporte nuns casos, e dos benefícios fiscais concedidos aos bancos que concedem créditos que financiam a compra de automóveis. Mas não só.
Um Estado que se financia escandalosamente com os combustíveis, o imposto automóvel, imposto de circulação, o IVA e concessão de auto-estradas e pontes – da mesma forma que se financia fortemente com a industria tabaqueira – demitindo-se de algumas das suas responsabilidades ao nível da engenharia e razoabilidade no pavimento das estradas e de uma prevenção da sinistralidade rodoviária que pode passar por prémios aos condutores exemplares, pela gratuitidade das auto-estradas (supostamente mais seguras) ou pela correcção dos abortos rodoviários que servem de passagem a milhares de automobilistas diariamente.

Do mesmo modo que é da responsabilidade do Estado Social a prestação de cuidados de saúde a todos os que sofrem de doenças cardio-vasculares, muitas vezes causadas pelo acelerado ritmo de vida que é imposto indirectamente pelo próprio Estado, pela alimentação deficiente a que as pessoas se sujeitam e até pela inalação de monóxidos libertados para a atmosfera por industrias não fiscalizadas pelo Estado e pela circulação automóvel.

Mas regressemos à autonomia individual, princípio basilar da sociedade de consumo. Este princípio apoia-se muitas vezes naquela máxima que até já chateia de tão corriqueira, «a minha liberdade termina na fronteira da liberdade do outro». Ainda assim, esta prosaica fórmula continua relativamente eficaz para normatizar as inter-relações entre os indivíduos. Ora, atendendo à mesma, nada obsta a que num local público ou debaixo de um chaparro, se reúnam 500 pessoas a tabaquear em simultâneo o assunto. Reunião à qual são livres de adesão os fumadores passivos.

Do mesmo modo, se nos limites da minha propriedade for por mim assumida a regra de interdição de nicotina, são livres de entrar todos os fumadores que respeitem tal regra. Mas sou eu que imponho a interdição, não o Estado, a não ser que a comercialização do tabaco venha a ser criminalizada.

Nesse caso, vamos ver até onde tal decisão seria sustentável… Em todo o caso, a ausência de razoabilidade e sensatez presente em grande parte da legislação mundial sobre o assunto, apenas vem consubstanciar um receio amplamente evidenciado por Tocqueville em Da Democracia na América, a respeito de um potencial perigo decorrente do modelo democrático: a tirania da maioria.
Entretanto, as criancinhas podem continuar a exercitar técnicas de combate e luta de rua na playstation, libertando os pais da moléstia que significa ter que os aturar.

17 de agosto de 2006

Marcelo Caetano Cumpriria Hoje 100 Anos





Os vinte e seis anos que passaram sobre a morte do Prof. Marcelo Caetano ainda o vão ilibar do seu permanente apoio ao Estado Novo, desde a década de 30 até à época em que exilado no Brasil, destilava veneno sobre a pueril democracia.

De alguma forma, estes 26 anos parecem inocular em alguma imprensa nacional e nalguns líderes de opinião, aquele antídoto temporal [ou simpatia encapuzada] que amaina e nuble a posição que o homem adoptou voluntariamente, à semelhança da espera de Günter Grass para vir confessar agora ter pertencido às SS nazis. Uma questão de tempo para digerir informações potencialmente tóxicas, um mecanismo aliás tão do agrado dos Estados para suavizarem as patifarias feitas no decurso da história.



No Público de hoje, por exemplo, a imagem do ditador era intencionalmente servida num prato convexo, procurando explorar a ambivalência do académico-político. Ao colocar em evidência os inócuos atritos com o Regime e com Salazar em 1962 (abandono da Reitoria da Universidade de Lisboa, justificado pela proibição do dia do estudante), atribuindo-lhes febrilmente o estatuto de “dissidências”, o matutino vem associar-se à disseminação da imagem de um político reformista que teria em mente, em última análise, a transição gradual e pacífica para a democracia. Ora, os 6 anos que esteve à frente do governo são inequívocos naquilo que eram as expectativas de fundo – a transição para um regime democrático – uma vez que o chamado reformismo marcelista, nessa dimensão, não passou de uma operação lata de transformações epidérmicas com consequências previsíveis ao nível do entretenimento e ilusão da populaça. A saída de Sá Carneiro em 1970 da Assembleia Nacional vem confirmar isso mesmo. O charme não dava para tanto.

Apesar disso, este falso reformismo não teve repercussões noutras áreas, nas quais, sob a batuta de Caetano, foram efectivamente levadas a cabo algumas reformas estruturantes que transitaram até aos nossos dias, como é o caso da ADSE, da reforma do ensino ou do alargamento da Caixa de Previdência aos trabalhadores rurais. Ocorridas com um desfasamento temporal medonho, comparativamente aos países europeus de referência.

Igualmente no período marcelista, Portugal esboçou uma tímida abertura naquilo que eram as orientações do Estado a respeito da inicial flexibilidade demonstrada na condescendência com a Ala Liberal da União Nacional, da liberalização económica e na definição de projectos como o de Sines e Alqueva. Nada porém, que Salazar não tivesse consentido em outras circunstâncias, com mais ou menos sucesso, com mais ou menos patrulhamento. A diferença residiria meramente no estilo de condução política, ou seja, na forma.

Em todo o caso, na figura de Marcelo Caetano permanece indubitavelmente o apego ao poder, à doutrina e à superioridade intelectual de uma elite à qual ele obviamente pertencia. Por seu turno, três décadas volvidas, permancem igualmente intactas as capacidades de persuasão de Marcelo, padrinho do outro Marcelo, às quais, muitos dos de hoje parecem sucumbir como naquela época.

Feitas as contas, o tempo há-de se encarregar de classificar afinal este homem como mais esquerdista do que Cunhal, concentrado estava nos preparativos subversivos de uma revolução de veludo, de acordo com a sua imagem mais insigne, a do brilhante académico cujo único senão, foi ter alinhado durante décadas no retrocesso económico, social e político da nação que tanto amava…

Contudo, já no exílio, Marcelo verberava por vezes o novo regime, com sentenças tão actuais quanto acertadas:

“Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros” (in Público de 17.8.06).

Paradoxalmente notável, este nível de conhecimento do país.

11 de agosto de 2006

à tout propos (226)

Há verdadeira arte naquela rara e peculiar capacidade exibida por indivíduos que, solenes, têm o dom de dizer banalidades carregadas de uma originalidade séria e grave. Quase que são convincentes pela circunspecção e credulidade que geram nos outros.
Retóricas do caneco.

10 de agosto de 2006

Arte e «Cultura», Consumo e Comercialização




O consumo de bens artísticos [comercializáveis] é nos nossos dias uma actividade tipicamente burguesa, enquadrável em sociedades oligárquicas e por vezes democráticas, onde o acesso é reservado exclusivamente às elites (raras são as vezes em que são elites tradicionais) ou, em sociedades de abundância e desperdício, mais democratizadas do ponto de vista quantitativo (maior dimensão do universo de consumidores, definida pela existência de uma classe média). A arte e a «cultura» tendem a ser convertidos em objectos de consumo em sociedades matizadas pela matriz consumista. Ou seja, presente em praticamente todos os países do mundo, inclusive aqueles que carregam a bandeira do socialismo.

Só havendo tempo livre e possibilidades de lazer (corpóreas e incorpóreas), recursos financeiros acima do limiar de sobrevivência e sociedades abastadas ou estratégias propagandísticas governamentais (…), é que se reúnem as condições básicas para a produção-comercialização artística. Para as massas nuns casos, para elites, noutros.

Em Portugal, estas duas realidades confundem-se conforme a visibilidade mediática, as epifanias de poder e o momentâneo estado de saúde da bolsa de cada um. Felizmente a tradicional condição sanguínea tem vindo a deixar de ser determinante, gerando amargos de boca entre os que viam a arte e a «cultura» como um património exclusivo dos «altos» da nação e da provinciana comarca… Quando a arte e a «cultura» são tidas como um apuro de superioridade social a que fica bem aderir [condição que o desporto (popular) jamais se poderia arrogar] torna-se clara a sintomatologia elitista ligeiramente submersa entre a decadente reacção ou o novo conservadorismo, personificado na malta que de um dia para o outro já tem afinal onde cair morta.

Mas num como noutro caso, falamos de um excedente individual com referência àquilo que é considerada a satisfação de necessidades primárias ou naturais dos indivíduos, excluído naturalmente toda e qualquer manifestação artística cujo acesso não carece de «dote» ou «preço da noiva»…

Esta perspectiva é naturalmente oposta àquela em que a teleologia artística se centra no objecto de criação do artista e não no retorno que isso lhe possa trazer, ou seja, quando o artista não tem consciência de si como «artista» e a fruição é realmente democrática e livre. Mas ninguém vive do ar e numa sociedade que supostamente individualiza o mérito, o artista vê-se frequentemente confinado às mesmas delimitações intelectuais e condicionantes sociais que os demais cidadãos. Vulgar e indiferente.

A democratização da arte e «cultura» implica a sua banalização e por vezes a espectacularização, significando na maior parte dos casos, um desinvestimento na qualidade? Não necessariamente, porque à semelhança do desporto, na arte e «cultura» também existem campeonatos estruturados por divisões, cujo acesso é definido pelo génio do artista e pelos apoios que consegue granjear. Ou seja, também aqui, a competição intensifica a qualidade, distendendo apenas o fosso entre o sublime e o francamente mau; e o acesso da alta e da baixa burguesia.

9 de agosto de 2006

à tout propos (225)

Sr. leitor, aceite por isso o meu sentido pedido de desculpas por um erro quase imperdoável.

A Multicausalidade Provável dos Fogos

Segundo António Costa, o ministro-operacional da Administração Interna, “a maioria dos fogos é causada por negligência” e apenas 5% resultarão de acções criminosas com dolo. Com certeza não discutiremos estes números, pois resultarão da «rigorosa» análise conjunta entre ministério e Polícia Judiciária.

Contudo, seria interessante que o Sr. Ministro discriminasse uma matriz de análise com as seguintes variáveis: quantidade de fogos por semanas e localização exacta, temperaturas médias e causa provável do fogo. Em todo o caso, não assumindo os reacendimentos como foco de incêndio, muito útil para efeitos estatísticos.
A quantidade de área ardida é neste caso potencialmente dispensável porque a dimensão dos fogos depende directamente das condições climatéricas, acidentado dos terrenos, material combustível, tempo de reacção dos bombeiros, existência de equipas de vigilância, etc.
As outras variáveis que permitem aferir qual a causa provável do fogo, essas, são do domínio exclusivo da investigação criminal.

Mas talvez essa clarificação permitisse que a população portuguesa tivesse a oportunidade de confirmar e assumir duas questões essenciais: a primeira diz respeito à generalização abusiva da atribuição das causas a motivos económicos ou meramente pirómanos (fogo posto), ao passo que a segunda, liga-se à interiorização de que todos somos potencialmente pirómanos ao não limpar matas, entulhar lixo ou contribuir indirectamente para isso, ao despejar foguetes por toda a parte, ao não nos certificarmos que o cigarro está apagado, ao fazer fogueiras em autênticos barris de pólvora, ao trabalhar com maquinaria susceptível de originar faísca, etc.

Entretanto, a Serra d’Ossa está novamente a arder. Será um reacendimento ou um novo incêndio? Duas compactas colunas de fumo negro, separadas por uma dezena de Km.

à tout propos (224)

Cada vez chego mais à conclusão que este é um país de mansos. O sangue que há encontra-se apenas na guelra e perante as câmaras de televisão. E quando ferve, é normalmente canalizado com desacerto formal (e de conteúdo) nos ajuntamentos populares de escabeche e sob o signo da cobarde máscara. Neste país, nem que fossem/fôssemos todos corridos em Espanha, espicaçados pelo tradicional picador montado a cavalo... Cambada de mansos!
Bom dia!

8 de agosto de 2006

As Escalas do Horror: Afinidade Cultural e Exposição Mediática Subjectiva

As notícias diárias que nos são trazidas pela imprensa internacional a respeito da guerra do Líbano, contêm um particular etnocentrismo ao nível da dramatização provocada pela intensidade da imagem e da amplificação simbólica do sofrimento. A dor convertida em espectáculo de consumo imediato, na reificação de um argumento cinematográfico.

Contudo, os efeitos da escala podem ser perversos pois se o actor libanês é amorfo, colectivo, sem cara e insensível, o actor israelita é individualizado, com família e amigos e responde por um nome. Este último actor é a nossa metáfora, a metáfora do homem ocidental, cujos valores, costumes, hábitos e rotinas comportamentais nos são sobejamente familiares.

A paz, a autonomia individual, a democracia, etc., configuram-se como valores e princípios cuja universalidade é claramente questionada por este tipo de reacções irracionais e demasiado arreigadas a padrões culturais que afastam o Homem da sua natureza.

Quem sofre mais? Os familiares do bebé atingido pelo ramo de um eucalipto em Sintra ou os familiares de um bebé atingido por um míssil em Beirute? Se o sofrimento de ambos se encontra num patamar convencional e objectivamente nivelado, por que absurdo motivo há tanta comiseração por uma merda de um forcado que parte a merda do bracinho depois da provocada investida de um touro, resultando numa total indiferença a morte de 3 dezenas de crianças em resultado de um bombardeamento israelita?

Acontece por outro lado, que a interiorização de uma identidade nacionalista e da matriz cultural são projectadas e aproximadas pela imagem e voz propagandísticas, unilaterais e axiologicamente parciais da comunicação social, notável instrumento de persuasão, condicionamento e influência, as formas de exercício de poder mais dissimuladas, difusas e eficazes ao serviço dos processos de supremacia cultural nos dois hemisférios.

A guerra é ganha aí, nas redacções de imprensa, na edição de imagens e na sua comercialização/difusão.

Um Dever Moral Enquadrado na Ética da Responsabilidade Perante a Barbárie

Se em alguma ocasião no futuro, Portugal ou outro país da «velha Europa» vier a ser flagelado ou hostilizado por alguma outra nação sofrendo agressões de qualquer natureza, justificada ou injustificadamente, as suas populações têm o dever moral de não solicitar intervenção externa – diplomática ou militar – em ordem a repor a soberania do país, a não ser as ajudas humanitárias e o «campinho» de refugiados.

Este será o preço a pagar pela vista grossa que a Europa faz aos actos perpetrados por carniceiros apostados em fazer da sua bandeira, a bandeira do retorno à barbárie, ao far west, à imposição teológica (seja da coca-cola, seja da burka).

Nunca é demais recordar que há um ano atrás, o Líbano era considerado um exemplo em matéria de consolidação democrática no médio oriente, apesar de dar guarida ao Hezbollah, primos afastados do PNR…

A incapacidade da Europa em fazer valer os seus princípios e valores democráticos, humanitários e de rejeição da violência, tem-se revelado estrutural e extenuante. Nesse caso, para as populações civis que são chacinadas e estropiadas no Iraque, em Israel, no Líbano e em muitos outros cenários de guerra ou conflitos armados, a esperança de paz não poderá jamais residir nas pretensas boas intenções da Europa e da ONU. A diplomacia não resolve, a não ser a diplomacia armada, condicionada pela vontade e interesse de países como os EUA e dos que giram salivantes na órbita anal deste Golias.

7 de agosto de 2006

à tout propos (223)

Durante várias décadas, não houve lingua de fogo que se apoderasse das matas existentes ao longo da Serra d'Ossa. Durante anos e anos, a gestão dos recursos foi minunciosamente acauletada com postos de vigia, construção de corta-fogos, limpeza dos terrenos e outras operações de prevenção de incêndios.
Coincidentemente, no ano em que termina a concessão de exploração pela Portucel, a serra está a arder.

3 de agosto de 2006

Será a Memória um Argumento?

Perante uma sequência de abomináveis abusos, terror e um somatório de infelizes desenlaces no médio oriente, processo degenerativo no ponto de vista da evolução humana e do desenvolvimento civilizacional, que se arrasta há mais de 4 décadas, justificar-se-á eventualmente fazer um apelo à memória.

Nesse caso, será que os israelitas ainda se lembram que 3 dos seus bravos soldados se encontram sequestrados por árabes? Será o pretenso motivo da morte de milhares de libaneses e israelitas, um aspecto minimamente relevante at this moment? Ou apenas aquilo que se poderá designar por cegueira estratégica?

Será que os árabes se recordam por que motivo estão enclausurados milhares de «irmãos» em prisões israelitas?
Será que os israelitas se lembram dos milénios em que andaram errantes por esse mundo fora, permanecendo párias e escorraçados de toda a parte?
Será que os árabes e em particular os egípcios se recordam de ter nacionalizado o canal do Suez, dando origem à guerra com os israelitas em 1956?
Será que os israelitas se recordam de quem iniciou as hostilidades em 1967 na Guerra dos 6 Dias (sabendo que dias antes os árabes haviam mobilizado numerosos contingentes militares para as linhas de fronteira), favorecendo o clima de animosidade e a emergência de governos árabes cada vez mais hostis?
Será que as antigas potências colonizadoras se lembram da forma obtusa que levou à criação do Estado de Israel?
Será que a comunidade internacional se lembra de todas as resoluções da ONU desrespeitadas por Israel e pelo seu comparsa americano?

Será que os judeus se lembram de um tipo profundamente irritante que liderou a Alemanha Nazi e dos seus diabólicos planos?...

Será que fragmentos da memória são argumentos válidos para devolver humanidade e justiça onde prevalece o egoísmo, a ausência de escrúpulos e a selvajaria encapuçada por concepções religiosas guerreiras e de cariz expansionista?
Será que vale a pena qualquer tipo de preocupação com o lodo geral das coisas?

1 de agosto de 2006

à tout propos (222)

Inexplicavelmente, não fomos desta vez brindados com os tradicionais ajuntamentos populares à frente do tribunal, com gente raivosa a espumar da boca e prestes a empalar os acusados depois de os esventrar.
Não percebo. Os condimentos estavam lá todos: crime bárbaro com tortura que se prolongou durante vários dias, abusos sexuais, corpo atirado para dentro de um poço e ocultação de cadáver. O cenário perfeito para mais um circo popular.
Mas não... o povinho antes prefere assassinos «que apenas se procuravam divertir», a essa escumalha podre que são os transsexuais...

Lei das Finanças Locais III

Há assuntos que merecem ser seriamente debatidos. Amplamente discutidos. Preferencialmente, sem a intervenção desse Portugal boçal, mesquinho e partidarizado (a minha fé na democracia não é inabalável, nem a ideia de cidadão pode ser universal: há muitos «mongolóides» que deveriam poder ser cidadãos de pleno direito e muitos «cidadãos» que nem deveriam poder andar com mais de 50 cêntimos por dia no bolso).

Um desses assuntos é a necessidade da descentralização efectiva, que deverá passar pelo alargamento de competências e atribuições às Freguesias ou pela criação de corpos intermédios com poder de decisão e coordenação, que façam a ponte entre Administração Central e Administração Local. Não poderá passar é pelo monstro criado pela direita nem pela salvação para todas as maleitas, entronizada pela esquerda. A fórmula é simples pelo que se prescindem essas arquitecturas fantásticas tão ao gosto do PS (em 98) e do PSD (recentemente com a ideia peregrina das áreas metropolitanas, comunidades urbanas e interurbanas).

A par desta questão, importa rever o desenho administrativo do país, procurando perceber se o actual se adapta à realidade, uma realidade concreta de freguesias super-povoadas e municípios sem população, e sobreposição de acções com outros órgãos da Administração Central do Estado.
A este respeito, o país democrático terá que ganhar alguma maturidade para ultrapassar questiúnculas broncas e bairrismos irracionais na manutenção ou aspiração das suas terrinhas a Sede de Concelho. Isso sim, uma péssima afectação dos recursos do Estado.

A reorganização e redimensionamento dos serviços do Estado (Administração Local e Central) é já um tema convertido ao estrelato, pelo que se dispensa mais chuva no molhado. Ficamos a aguardar até ao fim da legislatura…

Outra dos temas passa pela insolvência absurda da responsabilização política, assente apenas no escrutínio popular que avalia a posteriori, a performance da governação local. A esta, deve-se-lhe juntar, inequivocamente, a responsabilização criminal de jure e de facto, nos casos que ultrapassam o político, rompendo a permeabilidade do jurídico ao político. E não são poucos.
Quem exerce cargos públicos não pode esperar especial tratamento a não ser o reconhecimento pelo amor desinteressado à coisa pública. Não pode igualmente contar com a redoma que os partidos montam nem com a eterna vitimação da perseguição política, que tanto jeito dá. Se o 25 de Abril de 74 não foi suficiente, então que se faça outro.

Mas estas e outras questões servem de muito pouco, enquanto dirigentes autárquicos, funcionários e agentes exibirem fracos níveis de qualificação e desempenho, à imagem do país. Eles não podem ser apenas iguais aos restantes. Têm que ser melhores e não é nada difícil, mesmo tendo em conta as diferentes lógicas que presidem à essência distintiva do público e do privado.

Finalmente, de nada faz sentido a nova lei, se nela não for contemplado o espírito da procura de harmonia nacional, ou seja, de um quadro estratégico que preveja devolver o equilíbrio ao país (sem esquecer a solidariedade com os restantes sectores da sociedade, sobretudo em época de vacas magras), através do combate à desertificação do interior do país, potenciando os vectores estratégicos de desenvolvimento que são viáveis do ponto de vista regional e nacional e viabilizando a relação privilegiada com aquele que é o nosso natural parceiro: a vizinha Espanha. Com quem contar, senão com as autarquias locais?

Lei das Finanças Locais II

... Pese embora esses pruridos e comichões mas também legítimas reivindicações de alguns especialistas mais ou menos doutos da praça e sem qualquer tipo de misticismo prosaico, é importante referir que nestes 32 anos de poder local, muita coisa foi desenvolvida pelas autarquias. E nem é preciso fazer um grande esforço de memória para ver bem o lodo merdoso em que os crápulas salazaristas deixaram isto: mais atrasado do que a Indonésia.Ainda assim, a consciência do trabalho desenvolvido pelas autarquias locais, é acirrada pela convicção de que sem o poder local, há muito que o interior do país estaria hoje irremediavelmente colado ao litoral, sendo toda a faixa oriental do país, um extenso e vertical deserto em que só os espanhóis demonstrariam interesse. Pois de Lisboa, pouco mais se pode esperar a não ser uma soberba fanfarronice e suprema ignorância.

Lei das Finanças Locais I

No passado dia 27 de Julho foi aprovada em Conselho de Ministros, a proposta de Lei das Finanças Locais.

As acusações, as dúvidas e os apoios incondicionais dividem especialistas, políticos, cidadãos comuns e incomuns. Se nuns casos sobrelevam as análises mais ou menos pluridimensionais e ponderadas, noutros casos, pouco mais se retira do que o restolho da sacristã defesa de interesses partidários e da santa ignorância e atavismo pululantes por esse país fora.

Não obstante os diferentes posicionamentos opinativos, há um aspecto na nova lei que por si só a torna relevante, pela consensualidade que inspira: a necessidade da sua elaboração, fossem quais fossem os contornos. A urgência de uma nova lei não resulta tanto da sua caducidade temporal (a actual é de 98) como das suas deficiências estruturais. Urge adaptar as normas a realidades evolutivas historicamente, preferencialmente de uma forma inteligente. Como sempre, este é o grande desafio.

Não procurarei deter-me aqui em considerações técnicas à nova lei, cujos contornos só conheço na generalidade. Essas, deixo-as aos «especialistas». Porém, algumas interrogações foram-se acumulando na minha mente à medida que escutava através do transístor, a des-cuidada argumentação de especialistas [e outros especialistas] tecendo as mais díspares observações a uma realidade conhecida ou vagamente familiar: as autarquias locais.

Uma das tradicionais acusações movidas às autarquias locais e que, aliás, serviu de arma de arremesso contra a ideia de regionalização em 98, é a corrupção que, segundo muitos, grassa nesse universo nebuloso, tenebroso e suspeito, que é o poder local. Perante a ineficácia de fiscalização do Estado, a pretensa generalização desse crime ficará por provar porque das 4569 autarquias locais (se me não falham as contas), não passarão de um punhado, as condenações efectivas. Um punhado por cada mão. Falta de fiscalização? É possível que sim mas não deixa de ser um punhado.

Portanto, esta questão não poderá ser abordada pelo recurso a estatísticas e factos apurados mas sim pela percepção extra-sensorial e pela fé.

E ao falarmos da quantidade de condenações efectivamente apuradas, não poderemos olvidar de modo nenhum a quantidade de falências fraudulentas de empresas privadas ou a ordinaríssima fuga ao fisco. Tenho alguma fé nisso. É claro que tais para-fenómenos não desculpam uma possível má conduta de agentes do Estado mas não seria de todo bizarro se fossem igualmente averiguados com rigor, os factores danosos para os cofres da malta toda, ie, desse tal Estado. Por uma questão de justiça, porque de repente me vêm à cabeça coisas como IVA, IRS, IRC, subsídios de desemprego, descontos para a segurança social, utilização abusiva da comparticipação estatal na saúde, atribuição de bolsas de estudo e até a carniceira discriminação na venda de serviços ao Estado por mecânicos, artistas, electricistas, médicos e outros burlões. Mas tudo não passa de um produto da minha percepção/imaginação, assente em pressupostos de fé.

Em todo o caso, é saudável recordar que em matéria de corrupção, é tanto prevaricador o que corrompe como o que é corrompido (sem escamotear as particulares responsabilidades dos detentores de cargos públicos). A necessidade desta precisão remete-me naturalmente para aquelas desculpas másculas da meninice de alguns e da adultez de outros (tudo muito masculino), apostados na sua moral das coisas que «paneleiro é o que leva, não o que dá»… Infelizmente, nem o estigma nem a necessidade de afirmação de uma virilidade permeável [e quiçá, insegura…], se transformaram em algo mais útil para um reino onde nem tudo o que parece é. E nem tudo o que é, parece.

Portanto, sempre que um acto de corrupção se materializa, é estimulado por ambas as partes, sendo que uma é quase obrigatoriamente privada. Pela lógica das coisas…

Uma medida aproximativa, esta de divulgar a lista dos principais devedores ao fisco e à segurança social. Devia ser acompanhada de uma outra com os principais organismos públicos que não respeitam os seus compromissos. Não seria por montante [por razões óbvias que têm que ver com o princípio da igualdade do credor] mas sim por tempo, por exemplo, mais do que 12 meses. Para começar.

Por outro lado, não se compreende como é que as autarquias locais podem ser na sua generalidade acusadas de gestão deficiente dos recursos financeiros – nacionais e comunitários – de que dispõem.
Em primeiro lugar, porque nessa matéria, o poder central não é exemplo para ninguém. Em segundo lugar, porque o sector privado não é exemplo para ninguém. A agricultura e os têxteis (só para citar dois notáveis intervenientes), consumiram ao longo dos últimos 25 anos, uma fatia de leão dos fundos comunitários, com os resultados vistos: ao que parece, subsistem umas reminiscências da actividade agrícola em Portugal e o Vale do Ave abriu brechas que mais o assemelham a um abismo, o Abismo do Ave. Sem prejuízo para ferraris, land rover’s, casas na praia, na neve e o raio que os parta. Tudo crenças infundadas, claro. Por vezes sou mesmo injusto!...

à tout propos (221)

31 de julho de 2006

à tout propos (220)

Perante uma ONU moribunda, sem capacidade de reacção na mediação e intervenção em conflitos internacionais, manietada pela opacidade de um Conselho de Segurança obsoleto, pouco ou nada dissuasor e constituído em primeiro e último lugar como arma de conveniência imperial jogada segundo a medida de interesses estratégicos de quem nesse tabuleiro pode intervir... Não será já mais do que tempo para dizer basta?

Independentemente do trabalho possível, desenvolvido pela UNICEF, FAO e outros organismos de acção humanitária, a ONU tem sobrevivido apenas e somente porque legitima de uma forma dissimulada, os interesses dos impérios. Os que são, os que foram e os que aspiram a sê-lo.

Mas não deixa de ser cínico como uma organização permite que nela sejam tomadas decisões que provocam ou não evitam a destruição, a guerra, a morte e a fome, para posteriormente, activar operações humanitárias mediatizadas e eivadas do mais nobre espírito de solidariedade e benfeitoria. Para entreter e apaziguar os insurgentes…

Haja decoro e a sobriedade para admitir o falhanço da ONU, como falhou a Sociedade das Nações no passado. Admitido esse falhanço, é tempo de reformular o conceito ou simplesmente extingui-lo, poupando assim biliões de dólares, tempo e expectativas.

27 de julho de 2006

à tout propos (219)

O mundo também podia ir de férias, devia ser da lei. Ao menos poupava-nos as imagens degradantes de gente a definhar por motivos quase inexplicáveis. Há terrorismo de Estado! Esse terror é desencadeado pela desproporção de meios aplicada pelos israelitas, bem como pelo desespero das massas aproveitado por líderes religiosos muçulmanos, em questões onde a legitimidade da reivindicação não deixa de ser legítima apenas na sua essência.
O Irão mortinho por fazer o jogo dos americanos, com a China por detrás a refrear os ânimos... De qualquer modo, este imperialismo [porque de facto é disso que se trata a imposição ou «sugestão» de modelos de comportamento e de gestão política por parte do mundo ocidental], de tão hipócrita que é, acaba por roçar o absurdo, apenas e só porque não faz o mínimo esforço de ser disfarçado. É inequívoco e faz parte dum longo processo de padronização da aceitação gradual de imposições implícitas.
O mais curioso de tudo é que se não fosse um modelo, era outro. Ou seja, nas relações internacionais, pese embora o lirismo dos idealistas, vigora a lei do mais forte. Sobretudo quando o verniz estala. E essa força ou coacção sente-se ao nível da persuasão como da imposição bélica. As relações internacionais caracterizam-se portanto por uma acção pragmática que se justifica pelos fins a atingir. Sejam eles mais ou menos explícitos. Uma acção dominada pela razão instrumental. E este princípio de sobrevivência social é válido para as outras culturas, sejam elas mais ou menos pacifistas. Não há quem não ame o poder, quem não ambicione promover o mundo à sua própria imagem ou das suas convicções.
Se os motivos são religiosos ou culturais, pouco importa. O que importa é a prevalência da vontade de uns sobre a vontade dos outros, seja em Israel, no Líbano ou na Conchinchina.
Vou regressar às férias...

20 de julho de 2006

Tabuada Para Imbecis

Os judeus pensam que são o povo eleito, os muçulmanos acreditam em tudo o que se lhes conta acerca do paraíso e a comunidade internacional pensa que os problemas dos outros são dos outros.
Agora é que Timor poderia aproveitar para fustigar e invadir a Indonésia à catanada. E o Irão, teria aqui uma excelente oportunidade para testar as suas temidas ogivas nucleares. E Portugal, ai Portugal, agora é que era… resolver aquela importantíssima questiúncula de importância estratégica mundial e que ainda hoje nos está entalada na garganta: Olivença.
Por mim, punha-os todos dentro de um buraco, atados uns aos outros, ateava-lhes fogo e de seguida dava-os de comer aos cães. Homens, mulheres e crianças. Tratar-se-ia apenas de uma aceleração do processo, com muito menos encargos para o país da Coca-Cola.
Viva a guerra e vivam todos os que padecem, contribuindo para o esforço de guerra, para a disseminação mundial da religião que professam e para a hipertrofia das algibeiras dos políticos e militares.

18 de julho de 2006

Um Estado de Esquizofrenia

De um modo geral e salvaguardando as iniquidades e pruridos resultantes de toda e qualquer generalização de grupos profissionais a partir de características potencialmente estigmatizantes, ainda assim, encontradas em bastantes especímenes da variadíssima fauna, em Évora – como no resto da comarca que dá aconchego à chusma lusa – verifica-se um medonho equívoco: grassa por esse país fora, uma crise de identidade sem precedentes na história, principal ingrediente da dieta alimentar do português.

Os políticos pensam que são debutantes mimadas filhas de patos bravos, a quem se desculpam as birras e inconsequências, os médicos pensam que têm uma prega a mais no cú do que os outros, os juízes pensam que são xerifes, os jornalistas pensam que são pastores baptistas, os militares pensam que são o Rambo, os intelectuais pensam que são políticos, os empresários pensam que são o fisco, os professores pensam que são condes, os polícias pensam que são guardadores de porcos, os construtores não pensam nada, os académicos pensam que pensam, os artistas pensam que são intelectuais e os portugueses pensam que o governo é pai do Estado. Ah, e os banqueiros pensam que são a Madre Teresa de Calcutá.

Neste quadro, quem pensarão que são os psicólogos, a derradeira hipótese de salvação nacional?

15 de julho de 2006

A Possibilidade dos Consensos

No Médio Oriente, a malta não se grama muito e as crenças religiosas refutam qualquer hipótese de racionalidade e convívio. Contudo, assistir a um consenso defendido da mesma forma exacerbada e com a mesma verve com que se repudia um de casta religiosa desprezível e inferior, é nesse Oriente, a negação da negação, um cataclismo das expectativas.
Com efeito, coisa rara e nunca vista, foi possível ver cristãos, judeus e muçulmanos alinhados pelo mesmo diapasão. Tudo por causa de paneleiros e lésbicas e duma marcha que o movimento gay pretendia fazer na terra santa. Heresia.

A malta pode não ter que comer, pode estilhaçar e sucumbir perante a força destrutiva de um plástico explosivo, pode definhar em guetos... agora, deixar rabetas pisar o solo sagrado é que não... [acrescento eu] a não ser que os pés estejam suficientemente sujos de sangue, do sague que tem jorrado ao longo de séculos, perpetrado pelas 3 grandes religiões mundiais. Assim não, porque o pecado pega-se. Como o ébola.

[ver jornal Público de hoje, «Jerusalém e Sodoma», de Rui Tavares]

14 de julho de 2006

Uma Paixão Bélica

Há luxos a que só determinados povos – os predestinados celestialmente – se podem dar… Pela enésima vez, o exército israelita põe em causa a soberania de um país, com base em indícios motivados pela crença [e admitamos, pela Mossad – com o que de rigoroso e perverso isso possa significar], de que as acções do Hezbollah são o resultado de um terrorismo de Estado. É bem possível que sim. O mesmo princípio é válido para o Hamas, para a Fatah e para outros grupos mais ou menos controlados pela Autoridade Palestiniana.

Apesar de todas as resoluções da ONU, recorrentemente desrespeitadas por Israel, este país não perde o seu direito à auto-defesa, naturalmente. Mas, defesa de quê? Actualmente, está em causa o rapto de dois militares israelitas. Justificam-se os bombardeamentos, num quadro em que o que se está a fustigar é o país soberano (Estado, ie, o povo) e não as guerrilhas? A não ser que a ligação de sicrano com beltrano seja efectivamente demonstrada pelos israelitas. Há alguém a quem isso interesse, a não ser aos povos diariamente fustigados?

Em todo o caso, a comunidade internacional já nos habituou a não requerer taxativamente tais ligações. A comunidade internacional age por afinidades, interesses e comoções, e não por demonstrações empíricas, sempre permeáveis a uma qualquer linha argumentativa, legitimadora de quase todo o tipo de acções. Israel sabe disso, sabe que este tipo de bombardeamento não choca decisivamente a opinião pública internacional, o verdadeiro juiz. Aos olhos da opinião pública internacional, tratam-se de escaramuças ocorridas no seguimento da libertação dos soldados e não guerra aberta. Esta distinção faz toda a diferença, aliada ao hábito sonâmbulo que se instalou em quem liga e desliga o televisor sem se levantar da cómoda poltrona.

No entanto, para os habitantes da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, que outra coisa pode ser senão guerra aberta? Pelas consequências do embargo israelita, pela ocupação de territórios, pelo controlo de recursos primordiais como a água, pelas centenas de vidas ceifadas pelos raides aéreos todos os anos. É guerra aberta! A mesma que para os israelitas, diariamente, quando se enfiam num autocarro ou vão ao mercado comprar fruta, entretanto já acostumados à serenidade do terror.

Os movimentos islamistas não cedem e não cumprem as suas promessas. Os israelitas também não. Aparentemente, os únicos que mantêm uma linha coerente são os americanos, para quem a aliança com os israelitas é para levar a sério. A comunidade internacional não quer saber e vira as costas ao problema, entregue à conformidade frouxa da ONU. Os países produtores de petróleo esfregam as mãos porque a cotação do brent dispara constantemente.



PS: Uma boa teoria da conspiração advogaria uma sagrada aliança entre americanos, israelitas e países árabes produtores de petróleo: o mundo pagaria a factura. Uns controlam a manutenção da dependência mundial em relação aos recursos energéticos de origem fóssil, outros são a pedra geradora de instabilidade num lago que não se quer calmo e por fim, os restantes comprometem-se com a produção e procedem à redistribuição dos recursos. Quanto aos que perecem, qual a diferença entre apodrecerem na miséria ou estilhaçarem com o rebentamento de um obus?

12 de julho de 2006

Os Termos das Coisas



Aos períodos de hipermania, sucediam-se outros de hipomania e assim sem termo, porque o termo das coisas era vulgarmente um estádio consagrado e outorgado heteronomamente. Logo, os inchaços e desinchaços sucediam-se com referência à doxa, o indexador da patologia. E... santo deus, como é saboroso o agridoce e coisa nenhuma a pairar nos céus com referência a nada. E ao ser, agrilhoar-se em simultâneo ao sal e ao açúcar, à terra e ao ar. Sem os largar, sem os ultrapassar e sem os mesclar definitivamente. Como um vento desnorteado, sovado por apelos díspares que o enrolam e desenrolam arbitrariamente, sem que daí resulte uma avalanche de matéria uniforme. Aos termos das coisas.

11 de julho de 2006

à tout propos (218)

Como Um Bom Pai

Quais guerreiros destacados nas escaramuças no Norte de África ou enviados para libertar a terra santa do jugo dos infiéis, os jogadores de futebol da selecção nacional andaram por terras germânicas a promover o bom nome de Portugal e a defender a honra da pátria. Morte ou glória berravam uns, suor e lágrimas expeliam outros. Sem nunca renunciar à luta nem a trautear o hino de Portugal. Coisa pouca? Não, nos tempos que correm.

Foram dias de luta, muito sofrimento e banhos turcos. Comida sem sal nem aqueles molhos suculentos, desafiadores da boca menos salivante. Enfim, tempos árduos, tempos de apertar o cinto. De fazer sacrifícios em nome de Portugal, esse deus pátrio a quem fora outorgado por direito divino, pelo menos, o campeonato do mundo.

São seguramente estas e outras razões ainda mais elevadas que Gilberto Madail levará aos nossos governantes, procurando isentar os nossos valorosos atletas do imposto sobre os rendimentos singulares a taxar sobre uns míseros 50 000 euros pagos a cada um dos jogadores. É comovente esta atitude, só comparável à de um bom e amigo pai.

Para além dessa linha de argumentação poderá estar em causa o desrespeito intolerável pelo nº5 do artigo 13º do Código do IRS, o qual é taxativo e incontornável ao referir que o IRS "não incide sobre os prémios atribuídos aos praticantes de alta competição, bem como aos respectivos treinadores, por classificações relevantes obtidas em provas desportivas de elevado prestígio e nível competitivo".

Ora, seria um ultraje para os cândidos e abnegados guerreiros se esta cláusula não fosse incondicionalmente respeitada. Seria uma vergonha para o país inteiro se tal cláusula não fosse imediatamente revogada. Taqueospariu….

Digam lá isso a todos os que andam a trabalhar neste degenerado país, sem condições mínimas de segurança nem de sobrevivência, cujo trabalho, esse sim, dignifica diariamente o bom nome e a honra deste pequenino tugúrio.


10 de julho de 2006

Zidane Também Já Foi Um Homem

Os grandes jogadores são-no para o bem e para o mal. Tal como os grandes políticos, os grandes guerreiros e as grandes donas de casa. Os capciosos comentadores desportivos (pelo menos os da rádio), do alto desse pedestal de ouro em que se acham, lá iam esfolando o Zidane, depois de já o terem empalado. A atitude do francês (cabeçada num adversário) não é obviamente correcta mas pouco importa que a tenha desferido numa final do Campeonato do Mundo ou num inócuo jogo de preparação com o Alcabideche. Não importa mesmo nada. Tal como não importa que o tenha feito na sua despedida da selecção nacional. Fê-lo, e pronto.

Da mesma forma que tramou os portugueses uma série de vezes e outros tantos adversários, com os seus passes milimétricos, a sua cultura táctica, ora com a bola colada aos pés, ora desferindo certeiros remates. Zinedine Zidane foi, enquanto jogador de futebol, um dos melhores de sempre, muito provavelmente o melhor da sua geração.

A marrada é reprovável, sobretudo quando vinda de um profissional pago a peso de ouro. Contudo, essa indignação piolhosa exteriorizada por muita gente que nunca praticou desporto de competição mas que anda na sua órbita – rasteira e parasitariamente – é desproporcional e excessiva (chegou-se a ouvir a palavra «hediondo»). Essa desmesurada indignação traduz uma frustração primordial: a obsessão com a perfeição.

O Deus Zidane é no campo um mito. Criado e alimentado à custa do seu jogo quase perfeito. Uma forma de jogar à medida dessa obsessão, ritualizada, amada. A experiência metafísica é reificada nos seus pés e na forma como lê o jogo. Ontem, qual entidade meta-empírica adorada, Zidane traiu os seus seguidores ao romper com o maravilhoso mundo do sonho, onde tudo é perfeito e no qual queremos participar, tocando esse deus. Esse deus, que um dos comentadores classificou afinal, como possuindo os pés em barro. Esta expressão demonstra claramente a profunda decepção e ultraje sofrido ao constatar em directo e com a companhia de milhões de telespectadores em todo o mundo, que Zidane é e nunca deixou de ser um ser humano.

Será este o preço a pagar por alimentar e viver num mundo em que as emoções são exacerbadas ao limite, ultrapassando sem dificuldades a fasquia da irracionalidade, extremando assim os humores e a fé?

Por agora, uma coisa é certa: Zidane nasceu e morrerá homem.

5 de julho de 2006

Férias...

As férias deste ano já têm destino, um agradável e pitoresco ermo na Alemanha, o local onde, curiosamente a selecção portuguesa de futebol tem estagiado durante o Mundial 2006. Marienfeld, diz-se. Alguém quer vir?