7 de dezembro de 2006

Decisão a Aplaudir. Com Encore, sff

Quando a comissão temporária do Parlamento Europeu que investiga as actividades da CIA, liderada pelo eurodeputado Carlos Coelho, entrou no Parlamento português para reunir com os deputados do tugúrio luso, deparou-se com um obstáculo insólito. O desértico e multifuncional complexo de edifícios (exposições, lutas intestinas, teatro, corridas de caracóis, passerelle, covil, etc.), não dispunha de uma sala vaga para a tão anelada reunião.

O mestre-sala (PSD) ter-se-á atrasado na impreterível requisição da sala do Senado, cujo processo de requisição (composto por 20 dossiers de justificações, solicitações, termos de responsabilidade, despachos ministeriais, cartas de referência de todos os ex-presidentes da Assembleia da República e pareceres dos bombeiros, PSP, senhora da limpeza e Circo Cardinal), deveria ter dado entrada nos serviços com 135 dias de antecedência (se for numa Quarta-Feira. Se for numa Sexta à noite, são 278 dias. Se for ao Domingo de manhã, a sala está aberta), em condições aceitáveis para o normal funcionamento das instituições democráticas.

Numa vã tentativa de mitigar os estragos e a enorme decepção por não poder mostrar a grandeza da sumptuosa sala aos eurodeputados, o PSD decidiu unilateralmente oprimir os mansos deputados do CDS-PP, BE e PCP, realizando a reunião nas instalações do seu grupo parlamentar.

Blasfémia, heresia, terão vociferado os agredidos deputados do PS, muito naturalmente sentidos com tamanha afronta. Não se ficaram pelos ajustes e recusaram sequer entrar no corredor laranja. Foi desta forma admirável que os deputados do PS afirmaram e elevaram a enorme dignidade, autonomia e rectidão de princípios que os caracteriza.

Ninguém, em perfeito estado de sanidade mental tomaria outra decisão, altamente lesiva para o interesse nacional.

6 de dezembro de 2006

Salário Minímo Nacional

O governo e os parceiros sociais concordaram em concertação social, aumentar em 4,4% o aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN), predispondo-se a atingir uma meta relativamente ambiciosa em 2011: 500 euros mensais.

O mecanismo de regulação salarial equivalente em Espanha ultrapassou esse valor há mais de 10 anos e é particularmente conveniente recordar que este país vizinho apresentou um superavit nas contas públicas de 2006. Acontece que foi o dinamismo das empresas, a sua relação flexível com os mercados e os incentivos fiscais [e outros] do Estado espanhol, que permitiram aos «patrões» assumir um compromisso como este.

Também à custa de uma taxa de desemprego crónica e estruturalmente elevada. Mas relativamente menos onerosa para os cofres públicos por via do subsídio de desemprego, o qual em Portugal é atribuído a muito mais desempregados de longa duração, tendencialmente desenquadrados [ao longo do tempo], de uma vida profissional e social digna.

Por outro lado, para além da flexibilização laboral, verificou-se em Espanha uma aposta clara na qualificação dos recursos humanos e na consequente descolagem da política de mão-de-obra barata para atrair investimento estrangeiro. Os espanhóis optaram e bem, pela criação de investimento, substituindo a necessidade de investimento estrangeiro. Romperam e atenuaram, de algum modo, a excessiva dependência da procura interna.

E os portugueses conhecem bem o investimento espanhol, porque apesar de escarnecerem congenitamente da qualidade dos produtos e serviços espanhóis, nem por isso deixam de se ver na condição de consumidores desses mesmos produtos e serviços. Em suma, nós ajudamos a pagar o nível de vida dos espanhóis. Bom para eles, afinal viram recompensada a abnegação o espírito empreendedor.

Mas regressando ao SMN, a aposta neste meio regulador que de certo modo funciona como um tampão contra o agravamento das desigualdades sociais, da pobreza e da exclusão social, só peca por tardia. A meta não deixa de ser ousada, apesar de tímida. Ousada, apenas porque só agora foi pensada a sua actualização de forma condigna e, esperemos, contínua. Tímida, porque continuamos estruturalmente desfasados da zona euro e porque as assimetrias sociais não cessam de aumentar, com particular incidência nos grandes centros urbanos e entre a população idosa.

Tímida também, porque poucas dúvidas restam quanto à vulgarização da relação inversamente proporcional entre rendimento e evasão fiscal primária, isto é, a resultante dos biscates.

Neste sentido, o aumento do SMN apenas vem tentar repor algum equilíbrio nas contas familiares. Em primeiro lugar, face a uma taxa de inflação anual oscilante entre 2,8 e 3,3 pontos percentuais e também, face à própria irracionalidade dos actores, aferida pela débil saúde financeira das famílias em matéria de endividamento com a satisfação de necessidades secundárias.

Fica a questão: quem é que em 2011 sobreviverá condignamente neste país com um rendimento de 500 euros mensais, a manterem-se as actuais dinâmicas macro-económicas?

4 de dezembro de 2006

Dia Mundial de Luta Contra a Sida

A simbologia do dia 1 de Dezembro é variada e patrimonialmente rica. O imaginário deste dia remete-nos indubitavelmente para a restauração da independência em 1640 face à dominação filipina, mas também para aquela jornada mítica e emancipadora [refiro-me em particular aos jovens de Évora], para quem a noite do 1º de Dezembro significava bem mais do que a tradicional comemoração do dia do estudante.

Emancipação e libertação. Duas palavras-chave para referenciar esse dia no imaginário colectivo. Estas duas condições representam, em contrapartida, justamente o inverso para um indivíduo portador de vírus HIV, o qual, não obstante uma eventual e inamovível força de viver, ver-se-á doravante irremediavelmente ligado ao conceito de prazo encurtado. E amplamente condicionado pela assimétrica condição de um sistema imunitário subitamente enfraquecido.

No passado dia 1, comemorou-se o Dia Mundial de Luta Contra a Sida. Por princípio recuso a instauração destes «dias mundiais», todavia reconheço a sua importância num mundo mais movido por publicitação do altruísmo e filantropias do que pela interiorização desinteressada de princípios e valores de solidariedade. Em todo o caso, funcionam como alertas, pelo menos nesse dia…

Por esse motivo, foram também nesse dia divulgados alguns resultados da avaliação ao Plano Nacional de Luta Contra a Sida, para o período compreendido entre 2004 e 2007. Na edição do jornal Público de 1 de Dezembro, foi referido que «a maioria das metas não foi atingida», começando naturalmente pelo número de casos diagnosticados.

Mas, se as medidas integradas neste plano nem sequer contiveram o aumento do número de casos diagnosticados (segundo as estatísticas, ocupamos «orgulhosamente» o 2º lugar no ranking dos novos casos de infecção diagnosticados por milhão de habitante), há uma questão que importa e deve ser feita: o que foi feito com o dinheiro investido e qual o alcance, ao nível da eficácia, dos meios utilizados?

Impõe-se, pois, uma avaliação e uma responsabilização personalizada e institucional: quem falhou e porquê, quem teve sucesso e porquê. Não basta dizer «fizemos os possíveis mas não deu, e tal…». Ao indicar a necessidade de uma avaliação e monitorização dos resultados, digo-o apenas porque me recuso a admitir como avaliação rigorosa, o remanescente das declarações de Henrique Barros (coordenador nacional) e das divagações jornalísticas, por vezes irresponsáveis.

Para aferir o cumprimento das metas inicialmente propostas, não nos podemos ater aos indicadores actuais sem ter um ponto de partida. Um exemplo: em média, a primeira consulta após o diagnóstico demora entre 2 a 3 meses. É insuficientemente fraco. Contudo, nada me diz que há 3 anos atrás demorasse 5 dias ou 5 meses. Qual o nível de acerto destes valores?

Do mesmo modo, não me parece perfeitamente claro recorrer a estatísticas de tempos de espera (em que condições foram produzidas?) quando é o mesmo Henrique Barros a sugerir como «erro básico» na ineficácia do regime de declaração obrigatória, uma suposta negligência dos clínicos na notificação de pessoas infectadas, os quais partirão vulgarmente do pressuposto que algum colega já notificou antes. Esta, parece-me uma generalização demasiado prolixa. Tenho dúvidas sobre qual a classe de médico que ignora um caso, mas não subsistem dúvidas de monta sobre a crónica incapacidade comunicativa e de triangulação de informação dos serviços públicos.

De qualquer modo, são declarações potencialmente espúrias, porque o valor de algumas delas, constructos de verdades e verosimilhanças, é ferido de validade e objectividade. E esta ligeireza é extensível a outras matérias e outros órgãos de comunicação social, que se permitem publicar verdades para milhões de pessoas (em potência), sem que se verifiquem garantias de rigor, reflexão e espírito crítico nas redacções de alguns meios de comunicação social. E o jornal Público até é dos menos maus.

Ainda assim, esta dificuldade de rigor nos media é, admitamos, acompanhada pela dificuldade do Estado em atingir metas por si próprio lavradas, como é o caso da lentidão processual verificada na aprovação pela Assembleia da República do diploma que permite a troca de seringas nas prisões. Três anos à espera após a recomendação…

Prepara-se um novo plano, com objectivos a atingir até 2010. Será também conveniente que a sua avaliação seja transparente e rigorosa. Mas acima de tudo, que o 1º de Dezembro seja cada vez mais uma referência de libertação e emancipação.

30 de novembro de 2006

Yankees, Go Home?!...

Em plena escalada de violência no Iraque, após a total irresponsabilidade evidenciada na quebra dos equilíbrios regionais, étnicos e religiosos do Médio Oriente (em particular no Iraque), eis que irrompe o estulto representante máximo do povo americano, com as habituais, prosaicas e inconsequentes declarações em formato de messiânica promessa.

Os soldados americanos não sairão do Iraque enquanto a sua missão não estiver cumprida.

Esta afirmação gera inumeráveis dúvidas e controvérsias sobre em que consistirá a nebulosa missão. E sobre o alcance semântico da coisa, evidentemente.

Perante um cenário de guerrilha facilmente degenerativa em guerra civil alargada de base religiosa e étnica, o conceito «missão» deveria remeter imediatamente para a ideia de responsabilização perante os crimes contra a humanidade (apesar dos EUA não serem signatários do Tribunal Penal Internacional). Esse seria o posicionamento óbvio de um Estado, na sequência de uma intervenção ilegítima juridicamente, imoral e forjada de forma inaceitável.

A defesa da democracia e da liberdade tem que respeitar antes de mais, o amor pelos princípios e valores que lhe estão na origem. Mas também se sabe que não é isso que move esses «zorros», pretensos libertadores dos oprimidos do mundo.

Contudo, também é sabido que a actual «linha» estratégica está esgotada e dificilmente a próxima Administração norte-americana terá condições para satisfazer as promessas da actual. Os soldados americanos não têm condições para permanecer no Iraque por várias razões: a fraca identificação democrática do povo iraquiano, o desequilíbrio geo-estratégico, as baixas militares, as baixas civis, o espectro da guerra civil e o gradual investimento mundial em energias alternativas ao petróleo.

Será inconcebível se for aceite a proposta iraniana de assumir a «despesa» porque irá necessariamente sobrevalorizar a maioria xiita, com todas as implicações político-religiosas que isso implicaria a prazo para toda a região e em primeiro lugar para Israel e aliados.
O que assusta verdadeiramente é que, do ponto de vista da estabilização imediata, a proposta iraniana é a única viável.

26 de novembro de 2006

Mário Cesariny (1923-2006)


Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

24 de novembro de 2006

Ciru[r]gia Homens

Les Amants, René Magritte, 1928
A estranha cirurgia afectiva operada no Sr. Jules consistiu numa lobotomia ao nível metaempírico da alma.

23 de novembro de 2006

Um Passeio Inocente

O governo continua irredutível ao considerar como manifestação, um simples e inocente passeio de militares, os quais, por casualidade, pretendem confluir em ajuntamento para o Terreiro do Paço (um local, de resto, aprazível).
Não haverão cartazes, palavras de ordem ou a necessidade de interditar a via pública. Mas Sócrates insiste na cooptação de direitos constitucionalmente consagrados.
Compreende-se o receio do governo. A generalização de expressões públicas de descontentamento no seio das forças armadas poderá conter em si o germe da indisciplina, da desordem e do afrontamento a um poder democrático.
Contudo, o subterfúgio semântico a que os militares recorreram é perfeitamente legal, mesmo se a iniciativa se reveste claramente de um carácter de intervenção política.
Não há nada que impeça os militares ou qualquer outro grupo socio-profissional de se passear alegremente junto ao rio ou num descampado em trás-os-montes. Actualmente não... A impossibilidade de ajuntamentos [que não para fins lúdicos ou de apoio à União Nacional] terminou supostamente em 25 de Abril de 1974.
Ou será que não terminou?!...

22 de novembro de 2006

à tout propos (248)

à tout propos (247)

É arrepiante quando uma pessoa com especiais responsabilidades como um(a) Presidente da Assembleia Municipal afirma em comunicado coisas insondáveis como: «esteve meia-casa cheia».
Por muito que tente, não consigo compreender o alcance de tal dimensão. Será que quer dizer aproximadamente o mesmo que: metade do copo estava cheio de água? 50% de algo equivale a 100%? A metade equivale à unidade que está na sua origem? É tudo muito confuso...

à tout propos (246)

Os Estados Unidos da América e a União Europeia condenaram o homicídio do ministro libanês da Indústria, aparentemente morto numa vulgar acção de terrorismo de Estado pelas forças armadas sirias.
... "pois sim", dizem os sirios a respeito da condenação... "batatas"!
Os Sírios foram, são, legitimados pelo terrorismo de Estado dos israelitas. Estes, por seu turno, reforçam a sua legitimidade conquistada a pulso, à custa de muitas vidas, na Europa e na terra de David. A legitimidade de tudo poder fazer em nome da segurança interna. A legitimidade outorgada pelo holocausto.
Com este tipo de acções, os sirios vêm contribuir ainda mais para a instabilidade na região, satisfazendo assim as necessidades de terror que eventualmente interesse a todos os beligerantes envolvidos, como uma solução de recurso. A primeira a ser considerada perante uma situação de crise. Ou meramente táctica...
Americanos e europeus, claro, têm a legitimidade de um rato de barriga cheia apanhado na despensa a roubar comida.

Deliciosa Imperfeição

O mestre XT, talentoso artesão e autodidacta, confirma a «teoria da imperfeição» (clicar aqui e aqui e aqui e aqui e aqui), confessando todo o paradoxo socratiano ao assumir que quanto mais conhece, menos sabe…

O Ser é imperfeito justamente na medida em que se acha como tal e alcança o estádio de lúcida consciência de si no mundo. Nada pode saber, sabendo tudo.

19 de novembro de 2006

19 de Novembro




"Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.

Reunir-me-ei em vida e em morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive..."

Álvaro de Campos

17 de novembro de 2006

Alisares Político-Sociais

A satisfação do Presidente da República com a performance do Governo não surpreende, apesar das supostamente divergentes famílias partidárias: um começou no PSD e acabou supra-partidário e o outro também começou no PSD e acabou numa espécie de ala esquerda do PSD ou revigorou ala direita do PS. Para já!...

Mas há mais casos destes em que as derivas ideológicas sucumbem ao utilitarismo ou até, a uma nova interpretação da realidade. Com o avanço da idade e desencantamento do mundo, Mário Soares e Freitas do Amaral reposicionaram o seu discurso ao nível da esquerda radical, tendo o segundo protagonizado uma transformação só ultrapassável pela metamorfose da Roberta Close. Mais radical, só se a Igreja defendesse a interrupção voluntária da gravidez.

Zita Seabra indispôs-se com PCP e passou a alinhar com o PSD. José Luís Judas fez o mesmo mas não foi tão longe. Foi moderado, quedando-se pelo grupo dos marxistas não ortodoxos, no vulgo, social-democracia europeia ou socialismo português.
De maoista, Durão Barroso, não só se converteu ao liberalismo económico, como hoje é um euro-convicto e proeminente Presidente da Comissão Europeia. O que dirão os seus antigos comparsas revolucionários ainda no activo? Manuel Monteiro, titubeante, começou na direita, passou por um período circunstancial de genuína crise de identidade, para se afirmar agora como o esteio da direita em Portugal.

Só Alberto João Jardim e mais alguns indefectíveis se mantêm resolutamente leais a princípios, interesses ou a si próprios. O Scolari também.

Estes ajustamentos posicionais [mais ou menos brusco] são todavia, necessários e positivos na vida de um homem. Podem representar o grau de inteligência do protagonismo, ou em contrapartida, a capacidade de sobrevivência política. E [esses reposicionamentos], afirmam-se cada vez mais como um sinal dos nossos tempos, em virtude da aceleração inaudita do ritmo a que as sociedades contemporâneas se movem. Nunca, até hoje, a mudança social foi tão impetuosa, incisiva e até fracturante, nomeadamente nos seus pilares de sustentação axiológica e cultural. Nalguns casos, fugaz e geradora de verdadeiras perturbações e indefinições sociais. Confusões. Em muitos casos, exclusiva, potenciando desenvolvimentos assimétricos e capacidades assimétricas de se confrontar com a mudança e connosco próprios na solução de problemas.

É enquadrada nesta ordem que a volatilidade eleitoral (característica das democracias consolidadas e estáveis) vem ganhando terreno ao campo das convicções ideológicas inabaláveis. Estas têm particular alimento em circunstâncias de convulsões sociais, instabilidade económica e política, intolerância cultural ou excessivo relativismo cultural, etc. Nessas circunstâncias existe a necessidade da definição concreta do posicionamento ideológico. É aí que as ideologias são fracturantes e definidoras de segmentos sociais e grupais, constituindo uma barreira defensiva, normalmente apoiada em não-lugares como são as utopias (de esquerda e de direita).

Inversamente, em sociedades imediatistas e confortáveis [a sensação das grandes e basilares conquistas ser um achievement inquestionável], as ideologias esbatem-se e cedem à volatilidade. Cedem sobretudo ao pragmatismo racional da estandardização política e à uniformização cultural e política de uma sociedade, rompendo as paredes estanques dos principais compartimentos sociais.

É aqui que reside o centrão de Sócrates e Cavaco. Numa anestesia geral assente na inevitabilidade das coisas. O realismo pragmático das reacções a demandas de solução imediata, sobrepõe-se às concepções idealistas com espectro de acção a longo prazo.

16 de novembro de 2006

A Moedêra

Juro que eram cabras quando as vi a pastar na íngreme colina verde junto ao monte caiado de branco com alisares ocres. No entanto, ao afinar as retinas, infirmei a primeira observação. Eram vacas, afinal. Mas como… vacas?! A colina continuava íngreme e as vacas, desajeitadamente pesadas e desequilibradas, pastavam bonacheironas apesar do volumoso abdómen insistir no respeito pelas leis da física, pendendo irritantemente para o lado do ribeiro.


Afinal há cabras que são vacas e se calhar, vacas que são porcos e porcos que são cães.

Juro que diariamente abro o jornal e vejo coisas que não são mas passam a ser, com muito boa vontade. Vivemos tempos difíceis, tempos de indefinição identitária…O bom que afinal é mau, o ladrão que é sério, o sério que é polícia, o polícia que é pastor, o pastor que é doutor, o doutor que é pantomineiro, o pantomineiro que é político, o político que é fino, o fino que é empresário, o empresário que é honesto, o honesto que é acanhado, o acanhado que é administrador, o administrador que é actor, o actor que se chama Maria e a Maria que não é aquilo que por aí se diz.

14 de novembro de 2006

Ainda Mexe

O país não está bem, já o sabemos. Nunca esteve. Curiosamente, anunciam-se filmes como o de José Fonseca e Costa, «Viúva Rica, Solteira Não Fica», uma ficção que decorre no final do século XIX. Esta temática e o periodo temporal reflecte um fascínio particular com um período associado ao acentuar da decadência de Portugal [apesar da coragem exibida no tímido passo que foi dado em direcção a uma sociedade minimamente meritocrática, com a implantação da República] bem como ao imaginário masculino com as frivolidades de uma viúva lasciva, rica, jovem, bela e infelizmente... utópica.
Este fascínio é realmente insondável. Este fascínio com a decadência, com a incompetência, com a frugalidade, com o marialvismo.
Só esse fascínio, essa estranha atracção, explica que ainda se dê tempo de antena nos media a Santana Lopes. É verdade, à semelhança de outros grandes escritores como Lazlo Boloni, José Mourinho e Jorge Costa, Santana Lopes também lançou o seu livrozinho, (convencido que a fome no mundo acaba com um chupa chups), na companhia de uma grande referência da política nacional, Zita Seabra, a da lapela com mil cores.
O mundo não mais será o mesmo.

13 de novembro de 2006

Duas Opções: Ou Ganhas ou... Ganhas!

Este tipo de assembleia geral que os partidos políticos, da esquerda à direita baptizaram com o ambicioso termo «congresso», conjuga frequentemente alguns atributos de inquestionável utilidade. Se, por um lado, à sua realização não está alheia a ideia de debate horizontal de ideias entre os militantes, por outro lado, permite que os partidos políticos não percam de vista o rumo definido nas principais linhas programáticas ou que, eventualmente o alterem, se assim for a vontade expressa pelos militantes. De qualquer modo, um rumo traçado pela aprovação das moções pela maioria.

Como se sabe, o princípio do debate de ideias (ao qual é inerente o esgrimir de argumentos, a superação de obstáculos e a definição ou confirmação de estratégias políticas), pode ser mais ou menos intenso e mais ou menos profícuo, consoante a conjuntura, as circunstâncias, a força e convicção da oposição.

O congresso do PS resultou, como aliás se esperava, num unanimismo enfadonho em torno do discurso em tom paroquial do chefe, o culto do chefe… Ausência de oposição? Inevitabilidade carismática? Incontestabilidade do trabalho desenvolvido?

Certo é que, a dado momento, se ficou com a sensação que o debate [que se pretendia rico, transversal, alargado] se circunscreveu a dois personagens (Sócrates e Helena Roseta) e a um tema: referendo à interrupção voluntária da gravidez.

Absorta e de algum modo obcecada com o tema, Roseta foi peremptória: que o governo tenha a coragem de, caso não vença este referendo, tomar a iniciativa de fazer aprovar a lei na Assembleia da República, quand même. Não podia ter sido mais amiga a preparar a defesa do Secretário-Geral, que não teve dificuldades em repelir o «ataque» com a lógica mais simples das coisas. Não se convoca um referendo à população para de seguida trair a vontade expressa pela mesma. Agrade o resultado ou não.

Ao propor tal cenário, Helena Roseta apelou inequivocamente à discricionariedade anti-democrática própria de governações despóticas. Então um referendo só é válido se alinhar pelo mesmo diapasão dos detentores do poder? Para os lados da arquitecta, a democracia directa que tão aguerridamente defende, será afinal um proforma de validação das suas próprias concepções, ideais e interesses?

No final, um tão pobre congresso só serviu para reforçar o ascendente de Sócrates, contribuindo para o legitimar ainda mais nos rumos mais ou menos erráticos que ele mesmo define «contra [alguns dos mesmos] ventos e marés» a que Santana Lopes sucumbiu.

8 de novembro de 2006

Prá Direita é que é Caminho!

O Partido Nova Democracia, fundado por um dos mais brilhantes portugueses – Manuel Monteiro – protagonizou uma rotação de 180º, encarpado anterior e flick-flack lateral.
De partido ideologicamente transversal à época do seu nascimento [cacarejando ligações a padres, toxicodependentes, lésbicas, monarcas, industriais, desempregados, cabeleireiras, cantoneiros, jovens debutantes, marialvas, islamitas, hippies e médicos], metamorfoseou-se no “único partido de direita em Portugal”.

Esta afirmação de Manuel Monteiro é preocupante. Há correntes de pensamento que defendem a «direitização» do indivíduo ao longo da vida, acompanhando um certo desencantamento com o mundo e consequente perda dos ideais da juventude. As excepções de Freitas do Amaral e de Mário Soares confirmam a regra... Mas Manuel Monteiro já em rapazote evidenciava uma certa propensão, sejamos honestos...

De qualquer modo, esta deriva do PND pode significar um envelhecimento precoce mas será que também não dará a entender uma evidente decrepitude?
Ou estaremos perante a total inversão do espectro ideológico de 75, colocando o PCP como partido do centro direita?

7 de novembro de 2006

Quê? Associações?

Rui Rio decidiu acabar com a atribuição de subsídios pecuniários a fundo perdido às associações, depois de já ter obrigado as que os recebem, a assinar a célebre cláusula do silêncio: abster-se de criticar a Câmara Municipal do Porto (CMP).

A estratégia é polémica mas não será de todo imbecil. Quererá isto – de circunscrever aos subsídios pecuniários a fundo perdido – dizer que a autarquia pretende iniciar com as associações uma relação de usura, na qualidade de credor?

Se assim for, este homem vem revolucionar não só a relação da Administração Local (AL) com os munícipes mas também todo o conceito de Estado.

Até aqui, tem sido da competência da Administração Pública, neste caso da AL, proceder à redistribuição de recursos públicos (colectados através da máquina fiscal, taxas e tarifas) sob a forma de bens e serviços.

Nesse caso, a CMP terá que ser responsabilizada pelo definhamento geral das associações e chamar a si todo o trabalho que até aqui era desenvolvido por aquelas, em particular ao nível do complemento das actividades municipais (nalguns casos, sem qualificação nem apetência para as desenvolver). Precisamente porque pertencem ao domínio das suas competências, amplamente definidas na Lei 5-A de 2002.

Um liberal a reivindicar mais Estado. Algo inovador, mas por estes dias a malta papa de tudo.

à tout propos (245)

O governo resolveu devolver alguma equidade e justiça aos seus contribuintes, anunciando o aumento da carga fiscal sobre a banca. Os lucros escandalosos dos bancos em tempo de vacas magras amplificaram a indignação geral.
No entanto, instado a pronunciar-se sobre uma eventual reacção da banca, Sócrates defendeu que os bancos só têm a lucrar com estas medidas.
Terá o engenheiro alguma na manga? Ou ter-se-á alarmado com o espectro de mais uma manifestação massiva de uma dúzia de banqueiros à sua porta de casa?

à tout propos (244)

Afinal, o que raio foi fazer Marques Mendes à Madeira na véspera da discussão do Orçamento de Estado? Turismo, política ou fazer de dama de companhia a Alberto João Jardim?

6 de novembro de 2006

Persuasão ou Incitamento?

A fronteira é ténue entre o campo da campanha eleitoral e o da opinião. Ainda assim, parece-me pouco razoável que programas públicos de televisão adoptem uma posição formal sobre matérias a referendar brevemente (interrupção voluntária da gravidez – IVG) e apelem a um determinado sentido de voto, sem que esses mesmos programas tenham sido arquitectados como espaços de propaganda política como os consagrados constitucionalmente «Tempo de Antena».

É legítimo que a Igreja ou outra instituição defenda os seus valores e princípios, felizmente. Contudo, é excessivo colocar o economista João César das Neves, no programa 70 x 7, a incitar explicitamente ao «não».

Será conveniente relembrar, quiçá, que as tomadas de posição sobre quaisquer matérias de natureza política ou ideológica têm espaços concretos para o efeito, onde a responsabilidade das posições assumidas cabe inequivocamente e objectivamente a quem as profere.

Não se tratando de um programa de debate de ideias no qual é assegurado o exercício do contraditório (como o «Prós & Contras), verifica-se um aproveitamento abusivo das benesses que um Estado supostamente laico concede de forma exclusiva a uma religião. De modo idêntico, seria perfeitamente ilegítimo que no programa do «Gato Fedorento», Ricardo Araújo Pereira, incitasse a votar ao «sim».

A fronteira é de facto ténue. Não obstante, algumas considerações não devem escapar ao campo da mera opinião e de preferência em espaços onde seja garantido o contraditório.

Correlações de Forças

Num país de promessas adiadas e incongruências estruturais, a atracção pela partidarização ou grupalização dos órgãos de soberania da justiça dão a pedra de toque à coisa.
É absurdo porque perigoso do ponto de vista democrático, que um Estado não vele pela divisão tripartida de poderes e se permita quebrar sectorialmente as regras do jogo democrático. Das duas, uma: ou o nome do Procurador-Geral da República (PGR) resulta da eleição de uma lista da qual emerge o novo PGR, após confirmado pelo Conselho Superior de Magistratura (CSM). Ou, em alternativa, se é nomeado, o PGR tem todo o direito de trabalhar com pessoas idóneas, com espírito de missão e da sua integral confiança.

Portanto, ou se personaliza o cargo e se concentram as competências da Procuradoria Geral da República num único indivíduo, ou são legitimadas as equipas na apresentação de listas concorrentes.

Como não bastasse todo o atabalhoamento, tendo sido na primeira vez vetado o nome proposto para Vice PGR, quantas vezes mais poderia o actual Vice PGR Gomes Dias ter sido «apreciado» pelo CSM? Isso deve ter um limite, seguramente…

3 de novembro de 2006

à tout propos (243)

Do mal o menos. Évora está no bom caminho. Felizmente, sobreviveu centenas de anos até aqui, com a ajuda de quem está.

Choldra com Eles

Na edição de ontem da «Revolta dos Pastéis de Nata», o complot estava montado, as armas afinadas, os alvos identificados.

Helena Terra (deputada do PS), Maria José Morgado (a santa que atura Saldanha Sanchez), muito bem acompanhadas pelo Capitão Roby (Jorge Monteiro), lá iam altercando entre si mas consensuais num aspecto, de resto banalizado pelo apresentador Luís Filipe Borges, e que de tão especulado já foi interiorizado pelo sub-consciente da população portuguesa como se fosse uma interjeição gramatical da moda: futebol e autarquias caminham de mãos dadas no topo da corrupção em Portugal.

Esta expressão ganhou força de lei. Ora, se é investida de uma tal autoridade, é crucial que tenha «uma aplicabilidade prática» como exigia a deputada.

Nesse caso, se é do domínio público, se não se trata de uma generalização abusiva e especulativa, se é aceite como uma proposição não só verosímil mas igualmente verdadeira, porque raio é que os milhares de autarcas e de responsáveis desportivos não foram imediatamente arrecadados, «sem passar na barra do tribunal e sem ganhar dois contos»?

Lamentavelmente, este país não funciona, de facto…

2 de novembro de 2006

- Portugal? - Presente!

O esquema está muito bem montado nalgumas das chamadas operações humanitárias e de restabelecimento da paz, desenvolvidas pela ONU ou da NATO. É como se todos os exércitos concorressem com efectivos e equipamento para um único e bem intencionado exército regular.
Deste prisma, podíamos admitir a analogia dos EUA, Inglaterra e Israel como batalhões de intervenção, enquanto países como Portugal, Alemanha, Espanha, Malásia, Índia, Brasil e tantos outros, seriam as brigadas de limpeza. A carneirada…

Uns destroem e os outros limpam.

É claro que no caso português ficam muito bem esses sentimentos de solidariedade e abnegação nas horas menos boas para essa escória miserável que não atina com os «nossos amigos» e tem que ser punida. Do ponto de vista humano, a malta até é voluntarista e sempre disposta a ajudar. A ajudar as populações e a cooperar activamente nas geo-estratégias, oportunidades de mercado, birras e alucinações dos amigos brigões.

Ao Estado português só fica bem gastar esbanjar recursos a limpar a merda que os outros fazem. E com um sorriso de orgulho… Talvez nos calhem umas migalhas…

31 de outubro de 2006

Uma Ideia de Europa

Amesterdam, 20.6.2001


No seu livro, A Ideia de Europa (Gradiva), George Steiner advoga que são cinco, os axiomas distintivos da identidade europeia que, mau grado, me esforçarei por sintetizar sem obliterar o sentido do texto.

Steiner começa por identificar o primeiro elemento, o café, local de sociabilidades geradoras e transmissoras de conhecimento, valores e sensibilidades, tugúrio acostumado à convivência de intelectuais, políticos e artistas. Estes locais, portadores de singularidades e de identidades próprias, reflectem as especificidades culturais, as segmentações sociais e as dinâmicas temporais vividas em cada época. Mais do que outros espaços, os cafés são ponto de encontro para habituées e forasteiros.

Seguidamente dá-nos conta de “uma paisagem a escala humana”, humanizada à medida de travessias pedestres de curta distância, em contraposição com a magnitude topográfica da América, África, Ásia e Oceânia: na Europa tudo é sufocantemente perto e pequeno.

Em terceiro lugar, a toponímia de ruas e praças, bastante associada à memória colectiva, ao traçado histórico. À memória dos grandes estadistas, escritores, poetas, músicos. Ao contrário das ruas numeradas e de esquadria rectilínea do novo mundo.

Como quarto elemento, anuncia-nos a herança da Antiguidade Clássica ao nível da «revolução» gnóstica e da moral judaico-cristã, presente no complexo axiológico que, em tese, unifica o povo europeu.

Finalmente, a consciência de uma finitude civilizacional alicerçada nada menos que numa particular atracção pela auto-destruição, observável nas quezílias intestinas e sobretudo nas hediondas alarvidades cometidas em Auschwitz ou Sarajevo. Em contrapartida, os quase dois milhões de mortos chacinados no Ruanda serão certamente uma fábula, bem como a guerra civil americana, as guerras pós-coloniais em África e na Ásia, o pré-extermínio de aborígenes pelos australianos e outras experiências «para-eugénicas» entre inúmeras tribos ditas primitivas [às escalas respectivas].

Ora, se é aceitável que os cafés existentes fora da Europa com estas características representam inequivocamente o modelo europeu, tendo sido exportados pelos colonialismos, não é menos verdade, parafraseando George Steiner, que o modelo está a ser engolido e diluído numa cultura globalizada, acossado por uma uniformização mercantilista e consumista.

Mas este fenómeno da globalização é, na realidade, tão «perigoso» para a pretensa identidade europeia como o foram os fenómenos globalizadores desenvolvidos no mundo conhecido de então pelas civilizações helénica, romana, cristã, etc., engendrando a aculturação imposta de valores e referências dos povos dominadores pelos dominados. A cultura exprime, antes de mais, uma relação de poder. E é com relação a esta que a Europa se construiu, resultando geo-política e culturalmente de lutas, conquistas, invasões, ocupações e imposições normativas, políticas, culturais, religiosas e económicas.

Por outro lado, a preservação da memória não é de modo nenhum um traço distintivo exclusivo de uma cultura, neste caso, da europeia, como defende George Steiner. Esta hipótese é reveladora, antes de mais, de um desconhecimento profundo do que significam as dinastias ming, a civilização egípcia, inca, azteca, maia e cuja interiorização não tem que se exprimir necessariamente na toponímia local.

Se é certo que a oralidade e a arqueologia da escrita, dos artefactos e do património invocam a riqueza histórica dos povos europeus, não é menos correcto afirmar que a preservação da memória é inerente aos mojave, aos baruya, aos m’buti, esquimós, yanomami e povos berberes, através de formas de registo diferentes mas animadas pelo mesmo desiderato reprodutivo associado à sobrevivência de um povo. No mesmo sentido, a proliferação de museus e memoriais pelo mundo inteiro atesta justamente essa preocupação, independentemente da profundidade histórica.

A este nível, a distinção encontra-se mais na existência de registos, na diferente densidade temporal e na proliferação demográfica (com interacções variáveis desde a savana africana às estepes asiáticas), conferindo à história da Europa, uma vez mais, a arrogante intransigência histórica dos vencedores.

Se aqueles cinco postulados parecem ser suficientes, podem ser na realidade muito exíguos e uniformizadores. Reivindicar uma unidade, traços distintivos para um mosaico cultural tão rico como o europeu (as línguas, os costumes, a panóplia de povos e até a dimensão religiosa, simultaneamente localizável num mínimo denominador comum – os monoteísmos de 3 religiões subsidiárias de Abraão – e no paganismo milenar que convive e matiza distintamente a experiência metafísica dos diversos povos ao longo de milénios), reduzindo-a a meras características assimetricamente observáveis no espaço europeu, coloca o autor perante o delicado equilíbrio da generalização da sua própria experiência.

Experiência essa, fortemente imbuída de um elitismo cartesiano, ao estatuir a cultura como o produto da acção de segmentos sociais que funcionariam como gate keepers privilegiados do conhecimento (criação e transmissão), negando intuição e experiência como fontes disseminadas de saber; apesar da tentadora hermenêutica simplificadora do real, espraiada em cinco ambiciosos axiomas em ousada dupla ruptura epistemológica…

É precisamente esta arrogância eivada de uma despicienda sensação de superioridade cultural que está na base da «exportação» de modelos à força, sejam eles políticos, económicos ou culturais. Os que Steiner acusa nessa globalização de matriz anglo-saxónica com epicentro na América do Norte.

Não obstante a atraente roupagem e a romântica genealogia proposta pelo autor para a sua ideia de Europa, relevarão porventura as feridas não saradas pela perda de hegemonia da Europa no decorrer do séc. XX e sugeridas as formas para contrariar o poderio norte americano (através do conhecimento e de um humanismo «secular»), resvalando o texto, em última análise, para as inevitáveis relações de poder entre dois blocos com mais elementos em comum do que imaginam. Irreversivelmente. Como se de repente as abençoadas indulgências tivessem finalmente alcançado o paraíso…

25 de outubro de 2006

Malta Esperta

Durante mais de 20 anos, a «estratégia» de sucessivos governos para o ensino superior tem estado orientada para as estatísticas do país, portanto, «para inglês ver». Ou seja, para consumo externo. Já que o analfabetismo está longe de ser erradicado, pelo menos «aproximamo-nos» da Europa com o número de licenciados.

Com a proliferação alucinante de cursos superiores pouco ou nada dimensionados para as necessidades do país real e com a anedótica colocação de licenciados no mercado de trabalho, começa-se agora a pensar no que se vai fazer com toda esta gente e com a extensa panóplia de cursos, «inventados» ao arrepio de qualquer lógica de bom senso e de planeamento estratégico.

Os rios de dinheiro gastos por famílias iludidas na formação dos garotos e os rios de dinheiro dos contribuintes esbanjados [na sobreposição de cursos, na peregrina manutenção do excessivo número de vagas e na concepção discricionária de cursos forjados à medida dos docentes], serão agora «minimizados» com o trabalho precário, com as prestações de subsídio de desemprego, com o desinvestimento na educação, com o desperdício de qualificações e com o asilo gnoseológico que diariamente afugenta massa crítica para o estrangeiro.

24 de outubro de 2006

à tout propos (242)

Que não nos lembramos
Dizem eles. Eles quem?
Que ela nos passa diante dos olhos
Não a palpamos,
Tal é o opróbrio dos seres
E a missão desconhecida,
Aniquilada pelas demandas de si própria.
Que não a vemos, dizem-nos,
E ela passa, imperturbável
E nós nem a vemos passar
Que se foda então!
A bela desconhecida…

23 de outubro de 2006

Agarróquevaidescalço

A banca portuguesa, que teve um estrondoso aumento de lucro em 2005 (mais que dobrou os lucros de 2004) e que é taxada em apenas 6% em sede de IRC, contra uma taxa geral de 25% (maioria das empresas), é ainda «amuletada» paternalmente pelo fisco, assegurando-se este que o bebé não se constipa. Tudo isto, a bem da economia portuguesa.

«Nós pagaamos, nós pagaamos, nós pagamos, nós pagaaaamos…»

19 de outubro de 2006

A Solução de Kafka Para "K"

Assassin Menacé, René MAgritte, 1927



Apresentou-se em audiência. Coisas de homens. Fato negro engomado, sapatos de sola moldados ao pé, por um couro meticulosamente lustrado. Gravata a condizer. Um cangalheiro de si próprio, impecável. Aguardou serenamente pela sua vez, aquela em que lhe seria permitido usar da palavra, para a não desperdiçar, para não recorrer ao verbo em vão como tantas outras vezes. Tantas, quantas os seus deuses lhe foram inflamando no espírito, naquilo que julgara ser a sua verdade. Desta vez não.

Desta vez fora dominado por uma inexplicável lucidez, de modo que, nessa loucura de tudo discernir com admirável clarividência, preparou a voz ansiosa e com a língua, humedeceu os cantos da boca, desidratados pelo adiantado da hora e pela violência da contenção.

Desferiu lentamente um olhar de desprezo em redor, perscrutador, dirigindo-se desta forma aos presentes num único e amplo raid ocular, sem que o detivesse em ninguém. No eterno milésimo de minuto que durou a batida, a sala encheu-se de uma súbita tensão. Carregou solenemente a atmosfera quando, com expressão desafiadora, assentou definitivamente os olhos na estatueta de bronze.

- Não reconheço aqui nenhuma autoridade! Nem moral que seja! Disse peremptoriamente. – Não me revejo neste absurdo arrazoado, revelador do mais deprimente primarismo intelectual. Tanta pobreza... também de espírito! Os homens têm o triste dom de se entreter com as suas próprias farsas. Entretenimento anestésico para apaziguar as agruras da realidade, da vida que se prolonga sem um sentido, sem um propósito. Um cobarde virar de cara para o lado.

- Não lhes reconheço qualquer legitimidade, pelo que jamais me sujeitaria à humilhação de ver a minha autonomia ser sequer posta em causa por seres rastejantes, infames como os que tenho pela frente! A minha presença aqui é providencial.

Nisto, sem esperar reacção, levou a mão ao bolso da casaca e num movimento fulminante, encostou o metálico cano do pesado revólver ao crânio. Prosseguiu, com o indicador direito tensamente colado ao gatilho:

- O entretenimento a que me subjugais, para vosso simplório gáudio, não passa agora de um joguete de crianças. É nisto que reside a vossa justiça, na irresponsável atitude de quem julga poder dispor da vida sem do seu valor ter a mais pálida ideia, qual brincadeira de crianças projectada para a idade adulta. É este o vosso entretenimento, uma perigosa e pueril manifestação de humores, crenças e interesses. Ambições... como se fosseis, cada um de vós, uma estrela, um deus.

- Olhai agora para esses semblantes de horror, próprios de quem se dá conta de perder algo que nunca teve, o controlo das coisas. Olhai e vede como sois repugnantes e à vez, anedóticos. Ancilosados por considerar negligentemente a aceitação cosmológica do Homem, nessa soberba de que vos investis, como um ser apto a dominar algo que é incapaz de compreender: a imprevisibilidade e complexidade da sua própria natureza.

O disparo foi seco. A perplexidade tomou conta do exíguo compartimento. A compaixão, abandonou-o. Inexoravelmente.

18 de outubro de 2006

Delírios Eleitoralistas

Sócrates dizia alhos, agora diz, bugalhos. Esta história das portagens em SCUT's vem apaziguar os delírios consentidos pelos eleitores em tempo de campanha eleitoral. Se tudo vale nesse período, porque não há-de valer agora? Contudo, também aqui há um pensamento estratégico. Seguramente.
Este é também um sinal para o poder local: instalar portagens para peões nas entradas e saídas das ruas.
Eu, pessoalmente, já contactei a Brisa e preparo-me para assinar um contrato de concessão de 25 anos, para exploração da minha porta de casa. Já fiz as contas e deve-me chegar para comprar um carro novo dentro de uma dúzia de anos. Por falar em poupanças, em que carro estará Sócrates a pensar?

à tout propos (241)

O orçamento de Estado para 2007 prevê que os contribuintes celibatários sejam penalizados por uma assumirem uma opção ou sejam simplesmente condicionados pela vida. Será para quê? Para incentivar a natalidade?

Ou seja, quem não é casado ou não vive em união de facto, pode começar a fazer as malas para um país estrageiro ou a pensar em marcar casório porque assim, para além de passar a partilhar despesas, é beneficiado pelo próprio Estado.

Será caso para dizer: «solteiros de todo o mundo, casai-vos!» pois este governo não tolera descaracterizações axiológicas que colidam com as suas concepções de família.

17 de outubro de 2006

Leis de Qualquer Coisa

1. Para um corrupto público há sempre um corruptor privado;
2. Qualquer comparação entre o Portugal de hoje e o Portugal de há 30 anos é condenada ao fracasso;
3. Se o poder local não existisse, o país já tinha implodido com o epicentro em Lisboa;
4. O Saldanha Sanchez não é só boçal, é também lunático;
5. O betão é um problema, os dinheiros que a Administração Central disponibilizou ao longo dos anos para o erguer, é outro;
6. Por cada euro gasto pela Administração Local, a Administração Central gasta 3 para produzir os mesmos resultados;
7. A Adminsitração Central não tem os mesmos resultados;
8. É um facto que a maioria dos políticos em Portugal são medíocres e sem visão estratégica. Na Administração Central a concentração de energúmenos é colossal;
9. Para além de boçal e lunático, o Saldanha Sanches é feio e cheira mal da boca;
10. As leis de qualquer coisa têm que ser 10. É da lei...

à tout propos (240)

É difícil encontrar personagem mais boçal neste país que esse tal fiscalista Saldanha Sanches.
Então não é que o sujeito tem o desplante de afirmar com todo aquele frenesim delirante que o caracteriza, que os municípios não têm maior poder tributário porque os autarcas não querem ter o ónus da responsabilidade na gestão de receitas fiscais perante os seus eleitores (programa Prós & Contras de 16 de Outubro)?
O homenzinho vive alheado da realidade [não é novidade] pois desde que a Administração Central do Estado decidiu demitir-se consecutivamente das suas responsabilidades, não existe outra bandeira agitada pelas autarquias.
A título de exemplo, talvez seja bom recordar a briga que foi conseguir que as receitas provenientes da derrama sobre o IRC considerassem o local onde as filiais das empresas estão instaladas e não as suas sedes (casos de bancos e de grandes empresas, casos também de imensas empresas sedeadas em offshores).
Acontece, e isso o homenzinho não explicou, que os municípios são bem mais eficientes que a Administração Central. Acontece igualmente que, se a Administração Central perdesse poder tributário, toda essa corja de chulos, boys, incompetentes e oportunistas que, como ele, vivem na penumbra do Estado, iriam para o olho da rua ou veriam os seus rendimentos substancialmente reduzidos.
taqueopariu...

16 de outubro de 2006

à tout propos (239)

Uma questão pertinente: são dados como certos os rumores que dão conta da impossibilidade em comparticipar com fundos comunitários a construção de um pavilhão multiusos a partir do «pombal»? Terá isso alguma coisa a ver com o que parece óbvio?

Entre a Geo-estratégia e a Beatice


A atribuição do Nobel da Paz a um homem fundamentalmente ligado a assuntos desenvolvimentistas tem gerado alguns engulhos e indigestões entre velados pretendentes ao dito reconhecimento e aos que, não tendo essa pretensão, concebem tal distinção como uma ratificação a tiranos e terroristas por, uma vez na vida e sabe-se lá em que circunstâncias e com que consequências para a humanidade, evitarem a conflagração da violência e da guerra.

Não nos referimos obviamente aos que estenderam o seu apoio a homens como Annan, Ximenes Belo, Aung San Suu Kyi ou Mandela. Que, em rigor, podiam ter sido os mesmo que apoiaram Colin Powell ou Yasser Arafat.

A guerra até pode ser vista, à semelhança do postulado de Clausewitz, como uma «continuação da política por outros meios» e a sua inevitabilidade residir no mais puro pragmatismo da defesa da identidade e interesses genuínos de um povo. Nesse patamar estariam eventualmente homens como Michael Colins ou Yasser Arafat. O último foi inclusivamente galardoado com o Prémio Nobel da Paz. Contudo, esta decisão não só foi polémica como reveladora de uma estratégia latente do comité sueco. A de «fazer a paz por outros meios».

Nessa ordem de ideias, nomes como Pol Pot, Estaline ou Saddam Hussein poderiam também ter sido agraciados com o prémio. Podia ser que a coisa mudasse...

Ora, não sendo nem tirano convicto nem uma Madre Teresa de Calcutá, o bengali Muhammad Yunus cai fora desta aritmética bidimensional que se manifesta entre a geo-estratégia e a beatice.

Basicamente, o argumento do Comité de Atribuição do Prémio Nobel converge com alguns dos princípios básicos de Yunus, para quem «o fim da pobreza conduz ao fim dos conflitos».

John Rawls, na sua «teoria ideal» da Lei dos Povos, discorre sobre um conjunto de características associadas à democracia que conduzem à salutar convivência entre os povos, defendendo com recurso à empiria, que as sociedades democráticas são, historicamente, as que menos conflitos empreendem (a não ser ao abrigo do conhecido conceito de «guerra preventiva» para o qual concorre a legitimidade da «guerra justa»), considerando que também são as que conseguem melhores performances e estabilidade económicas.

A erradicação da pobreza assume aqui um papel importante na definição das causas da maior parte dos conflitos, recenseadas historicamente. E de facto está sempre implícita uma dimensão que resulta da digladiação por recursos que são escassos na luta pela «sobrevivência». Podemos identificá-lo na instintiva sobrevivência dos yanomami, para quem os raides a aldeias vizinhas e o consequente rapto de mulheres e raparigas significam a sobrevivência de um grupo. Mas também o podemos identificar nas múltiplas «expansões» e conquistas de territórios «à lei da bala», aviltando-se o invasor ou conquistador com os mais variados pretextos. E na verdade, não me recordo de nenhum conflito aberto entre dois países democráticos e que vivam desafogados financeiramente.

A plena satisfação de necessidades primárias desembaraça assim os povos para outro género de realização, menos conflituosa porque mais racional e mais liberta para abraçar com menos reservas os valores e princípios da liberdade, autonomia e respeito pelos povos. Valores, de resto, provenientes das teorias liberais emergentes do iluminismo.

Nestes termos, contribuir para a redução da pobreza mundial com recurso ao microcrédito não será seguramente a solução para a paz no mundo mas é certamente mais uma ferramenta para a dissuasão de beligerantes.

10 de outubro de 2006

Na Desbunda



Terá sido esta imagem a que influenciou decisivamente a orientação do estudo encomendado pelo MAI (Ministério da Administração Interna), o qual propõe a extinção das brigadas de Trânsito e Fiscal.

Na base de tal decisão poderá estar naturalmente esse sentimento associado à interiorização e adequada correspondência das hierarquias, ie, uma expressão assumida pelo poder político que pode ser simplificada pela seguinte fórmula: «cada macaco no seu galho».

Ou seja, os ministros têm que andar encafuados dentro de automóveis sombrios, onde não entra um raio de sol, enquanto os oficiais da BT se passeiam alegremente em descapotáveis? Bracinho de fora, em dupla transgressão [traço contínuo e ausência de cinto de segurança] e às tantas, cheios de «bejecas» na mala do carro, em vez de uma clandestina AK 47 para limpar as ruas... Até já perderam o tacto aos bonés e estão todos desfraldados (não se vê mas podemos imaginar).

Fica a dúvida se o condutor vai ou não a dar umas passas.

Proximamente teremos o ministro de cuecas em cima de um F16, de garrafa de vodka na mão, olhos vidrados nos quadris da piloto (que uma hora antes era o Major Sousa) e a dar o peidinho da ordem, engasgando-se de baba naquele riso nervoso característico de quem faz merda mas não é apanhado.

Uns boémios, estes gajos...

9 de outubro de 2006

à tout propos (238)

Para José Ernesto, a modernização do ramal ferroviário Casa Branca/Évora representa [mais] um acréscimo de competitividade. A continuar assim, Évora passará a figurar no Top Ten da União Europeia, em matéria de competitividade, só ultrapassada por Ottignies, Otranto e Sobral da Adiça.

Mas o que é mais impressionante neste arrazoado é o zeloso cumprimento do brilhante plano estratégico-eleitoral, que consiste em… não-sei-quê.

7 de outubro de 2006

Artistas da Arte e Outra Fauna de Combate


A única responsabilidade de um artista é fazer arte, e o seu trabalho, bem desempenhado, inclui comover-nos, assustar-nos, divertir-nos e – isto é essencial – ofender-nos. (…) A arte deve ter a liberdade de nos ofender e, o público de se sentir ofendido, desde que de forma não-violenta”.

Rui Tavares, in jornal Público, 30 de Setembro de 2006-10-07, sobre a proibição da realização da ópera Idomeneo, de Mozart em Berlim.


Aquela dimensão da ofensa é justamente a que é tendencialmente excomungada e censurada pela ideologia dominante, cuja padronização cultural de rebanho é só remotamente discernível e no seio da qual, a arte se ameaça converter em elemento de puro e alienante entretenimento, mera distracção da malta.

E o mais curioso é que tal faceta é reproduzida constante e alegremente, de forma irracional, por alguns dos próprios fazedores de arte, convencidos que estão do seu trabalho crítico e de estonteante intervenção. Uii...

A malta, ávida de «cultura» e consumidora compulsiva dos mais complexos e inacessíveis criadores ri-se sarcasticamente [mesmo os que se pensam mais intelectualóides], aplaude, suspira aqueles «ai, aii» de indignação com odor a conformismo, e regressa finalmente a casa para o conforto de uma noite descansada e com a sensação de dever cumprido.

Caro Rui, a malta de que falas já não se ofende pois interiorizou o espectáculo. Não se escandaliza se no vernissage de uma exposição, o pintor mija para o seu próprio quadro. A reacção geral é de uma arrepiante normalidade, não vão os outros comentar a falta de sensibilidade para as questões da arte...

Só se sentem ofendidos os fundamentalistas religiosos, as beatas, a realeza e os néscios «incultos» como eu. Sobretudo quando me vejo [ou a minha comunidade] confrontado com os nossos próprios engulhos e perversões ou quando vejo esbanjar rios de dinheiros públicos com verdadeira merda, mas merda da fina...


Desculpem lá… às vezes dá-me para isto…

à tout propos (237)

É isso, diverte-nos a crítica fácil e infundada...

4 de outubro de 2006

A Particularização do Interesse Público

A revelação sobre as estimadas «perdas» na participação das receitas do Estado a transferir para as autarquias locais (Fundo Geral Municipal, Fundo de Base Municipal e Fundo de Coesão Municipal), mantida a «marinar» pelo Ministro da Administração Interna António Costa até um dia antes da realização do congresso extraordinário da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses), tem como aparentemente primeiro objectivo lançar a confusão e o desnorte no seio dos autarcas em congresso.

Revela, antes de mais, uma noção deturpada do que é o Estado. Concepção aliás partilhada pela generalidade dos autarcas. De resto, se há característica que parece transpirar da política portuguesa, é a inversão da ordem de prioridades na definição do interesse público, sendo os cidadãos obviamente, o derradeiro elo da cadeia na referida ordem de prioridades.

O Estado é, ocabiorresto, uma arena onde se digladiam clãs, senhores feudais e parvos, revelando duas dimensões muito importantes: a arregimentação de parvos e a sua instrumentalização pelos clãs e senhores feudais. É muito simples, não é?

À falta de melhor, fica esta definição.

à tout propos (236)

Em Dezembro de 1968, aquando de uma escala na casa de Amália e em trânsito para Roma, Vinicius de Morais dizia ter do povo português uma imagem simultaneamente bela e triste, exortando-o por fim a se «desengravatar». 38 anos volvidos, o que diria o brasileiro se ainda fosse vivo?

2 de outubro de 2006

à tout propos (235)

Depois da medida de desburocratização operacionalizada pelo governo que permite constituir empresas em apenas um dia, verificamos com particular regojizo que é também possível obter um parecer do Estado, sete meses depois de lhe ter sido solicitado, aquando da formalização da OPA (oferta pública de aquisição) da Sonae sobre a PT.
Uma incomparável vitória para as empresas que são objecto de OPA, pois neste caso, a PT só esteve 7 meses congelada em termos de definição e redefinição de estratégias e investimentos, sendo certo que nestas empresas, celeridade e oportunidade são em muitos casos, a chave da competitividade.

A Chantagem dá «Cana»! Não dá?...

No Público de Domingo (1 de Outubro), António Barreto partilha com o leitor a sua enorme desilusão com o poder local, na sequência da ameaça da ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses) em desinvestir na saúde, educação e segurança. A causa desta possível tomada de posição, a ser decidida brevemente em Assembleia Geral extraordinária convocada pela ANMP, resulta da «investida» do poder central através da nova Lei de Finanças Locais. Ao que parece, também por as galinhas terem asas. Mas não estou muito seguro em relação a este ponto.

Por muita razão que possamos dar a Barreto, há nas suas palavras um risco potencial: o risco da generalização, em cuja leviandade e desconsideração não nos revemos. Em particular num quadro de pura especulação e desagravamento ou desculpabilização das actividades observáveis na restante Administração pública e na própria sociedade civil. Um verdadeiro lodo.

Não nos podemos esquecer – e sem prejuízo para a incompetência, caciquismo, nepotismo e ilegalidade em que incorrerão alguns responsáveis das autarquias locais – que o governo mais não fez do que transferir competências para as autarquias locais, impondo em simultâneo cortes nas despesas e impossibilitando a obtenção de novas receitas para fazer face aos novos desafios. Que em todo o caso, não foram pedidos pelas autarquias, mas sim impostos.

Ou seja, a Administração Central mais não fez do que se demitir de algumas das suas responsabilidades, mantendo ainda assim, os seus conhecidos vícios, o despesismo e o monopólio da tributação fiscal.

Perante este cenário, como é possível exigir com legitimidade que as autarquias locais exibam uma conduta incólume, de boas práticas, quando é a própria Administração Central que se abstém de significar um exemplo a seguir?

Naturalmente, a «chantagem» anunciada pela ANMP é absolutamente intolerável, reflectindo o modo boçal, particularista e discricionário como é eventualmente concebido por alguns autarcas, o interesse geral e o serviço público. Reflecte igualmente a visão que têm de democracia, conceito embaraçoso, vago, flutuante e perfeitamente instrumentalizado.

1 de outubro de 2006

Évora, o Esteio da Competitividade

Segundo um estudo realizado por dois investigadores da Universidade do Minho e considerando critérios e padrões de análise iguais aos utilizados pelo Fórum Económico Mundial, Évora estará no topo da competitividade nacional.

Claro que este índice, resultante da ponderação de diversos indicadores que dão corpo a 4 índices centrais de competitividade – demográfica, laboral, empresarial e de conforto – reflecte somente a potencialidade das cidades consideradas, em matéria de competitividade.

Por ser uma cidade com uma densidade populacional baixa, com taxa de desemprego inferior à média, por reunir um potencial turístico impar e boas condições objectivas de vida (ao nível das infra-estruturas se saneamento, habitação, pessoas por alojamento, etc.) entre outras virtudes, o estudo revela que o potencial de competitividade de Évora é maior do que o potencial de crescimento da capital, Lisboa, a segunda classificada neste estudo.

No entanto, há aqui vários aspectos que devem ser apreciados.

Em primeiro lugar, estamos a falar do que existe em potência e não na realidade. Os autores recorrem a uma analogia que me parece bastante feliz: «Évora tem uma longa recta numa estrada de terra batida», procurando enfatizar um percurso menos tortuoso do que as cidades que têm a estrada asfaltada embora com um traçado excessivamente sinuoso.

Em segundo lugar, é aceite que, à semelhança da lei dos rendimentos marginais decrescentes, o acréscimo da primeira unidade implique uma maior satisfação do que a segunda e assim por diante, ou seja, uma cidade com muitos recursos e de certa forma congestionada como o Porto (último classificado), possui menos margem de progressão (ou potencial) do que uma cidade actualmente pouco competitiva. Para ilustrar melhor o exemplo, basta considerar as taxas de crescimento de países em vias de desenvolvimento como a China, Argentina, Índia, Brasil, etc. muito superiores às da Europa, Japão e Estados Unidos.

Em terceiro lugar, convém não esquecer que se trata de um estudo comparado, às capitais de distrito e não necessariamente às cidades mais importantes e competitivas do território nacional.

Em quarto lugar, há factores de ponderação, de demonstração mais objectiva do que outros e que certamente se posicionam diferentemente face a um índice desta natureza, consoante o impacto que produzem. Sem dúvida que em matéria de competitividade, há factores como a dimensão do mercado, as infra-estruturas existentes, os incentivos ao investimento, o perfil de actividades económicas desenvolvidas numa região, salários médios, a qualificação dos recursos humanos, as acessibilidades e o custo de vida, são necessariamente mais determinantes do que outros, pelo que a ponderação dos indicadores tem que ser diferencial.
No índice relativo ao conforto, por exemplo, não se fez alusão ao preço médio das habitações nem ao custo de vida. E todos sabemos que, nessa matéria, Évora não tem uma dinâmica propriamente meiga. Mas tendo em conta os critérios utilizados, Évora surge como a cidade com maiores níveis de conforto.


Por todos estes motivos e mais um par de botas, o estudo revelado é extremamente importante para que os eborenses e o resto do país compreendam claramente que Évora é evidentemente um diamante em bruto, por lapidar (apesar da investigação não trazer nada de novo), e interiorizem essa ideia de forma consolidada.
Mas não certamente à custa da arbitrariedade desnorteada de sucessivas gerações de governantes, de profissionais incompetentes, nem de cidadãos desleixados para quem viver em Évora, só por si, deveria significar conviver com a excelência (sem menosprezo para ninguém) e ser um motivo de incontestável orgulho.

27 de setembro de 2006

Patinho Feio, o Funcionário

Sendo o Alentejo e os Açores duas das regiões mais pobres da Europa, com PIB’s baixos, mão-de-obra barata e desqualificada, porque raio não deslocalizam as multinacionais para estas duas regiões?

Em vez disso, a fábrica da Opel na Azambuja «emigrou» para Espanha [onde a mão-de-obra é mais cara e qualificada] e os países de Leste estão frequentemente na mira dos empresários estrangeiros e nacionais [mão-de-obra barata mas qualificada]. Apesar de aparentemente não haver um padrão perfeitamente descodificável, que terão eles descoberto que nós ainda não descobrimos? Sabendo igualmente que a mão-de-obra portuguesa no estrangeiro não raras vezes é distinguida e reconhecidamente apreciada…

Haverão aqui forças impronunciáveis e insondáveis que se movimentam entre vórtices e que aniquilam a emancipação do português, cotando-o a um nível de desenvolvimento característico do século XIX?

E se o país inteiro se deslocalizasse para outro lado qualquer? Será que faria diferença?

Ou bastará continuar a bater no ceguinho, nesse elo dispensável que é a Administração Pública, fonte de todos os embaraços e ineficiências coniventemente perpetrados por uma corja de patrões medíocres?

A este respeito, o relatório do Fórum Económico Mundial parece ser particularmente duro para o sector privado português…

22 de setembro de 2006

Compromisso Portugal

Quando o ambiente, a educação, a saúde, a justiça, a segurança social, os transportes, os serviços de segurança, a defesa nacional, as finanças, a cultura e a agricultura forem privatizadas, então, nesse caso, poderemos ambicionar reduzir em 200 mil e num prazo de 5 anos, o número de funcionários públicos. Só na educação e saúde estão metade…

É inquestionável que a administração pública carece de uma reorganização estrutural. É inquestionável que há funcionários públicos a mais, bem como uma deficiente afectação dos recursos humanos. Mas nunca ninguém elaborou um diagnóstico credível e exaustivo que clarifique onde se encontram as necessidades de pessoal, onde se encontram os excedentários e quais os serviços cuja existência merece ser seriamente ponderada.

Assim, é-nos dado o seguinte quadro:

Em primeiro lugar, um bando de dondocas e marialvas que, sendo amigos de alguém, ganharam notoriedade suficiente para serem rotulados como empresários de sucesso e pensarem que podem trazer algo de novo. A entrevista de ontem ao Engº Carrapatoso no canal 1 da RTP foi miserável. Mas quem é aquele sujeito, cujo pensamento cai irremediavelmente no lugar comum da ideia preconcebida e da banalidade a-estratégica?

Em segundo lugar, temos o governo, que também nunca se baseou em estudos convincentes para avançar com as reformas que conhecemos e as que estão por vir. Num e noutro caso, campeia a leviandade, a soberba e o misticismo.

Por fim, temos os sindicatos, gordos empregadores a zelar pelos seus próprios interesses, incapazes de se rever na ideia de Estado.

20 de setembro de 2006

à tout propos (234)

Não sei até onde isto pode chegar mas temos que estar preparados para, ao longo da vida, ouvir os maiores absurdos. Desta vez foi, nada mais nada menos, o seguinte: «no fundo, no fundo, você até nem é má pessoa».
... Qualquer dia, há por aí tanta credibilidade e bondade que os polícias vão todos para a rua, bem como os padres. Já para não falar do entupimento dos pedidos de beatificação junto do Vaticano.
Ora, pergunto eu, onde é que as pessoas vão buscar estas coisas?

19 de setembro de 2006

à tout propos (233)

Dando largas passadas no caminho da imperfeição, no sentido contrário à assunção de um ser totalizante, perfeito. Ou então, estarei em fase de hipermania.

15 de setembro de 2006

à tout propos (232)

- Hoje estás muito espirituoso… Qual o motivo de tanta risota?
- Uma comunicação da directora dos serviços. É bárbara!
- Já sabes como é. Cena marada…
- É soberbo o documento, pela imprudente articulação de conceitos tecnicamente contraditórios e pela boçalidade exalada a cada linha.
- Ah, ah, vindo dessa, nem vale a pena perguntar o que lá vem escrito…
- Não!
Redargui. Não perguntas porque não tens interesse. E isso é perfeitamente legítimo.



Segundo estudos recentes publicados aqui), 9 em cada 10 portugueses não faz uso da sua faculdade de raciocínio e argumentação lógica em conversações quotidianas. Tudo se faz mecanicamente, apesar das aptidões para estabelecer diálogos e monólogos capazes de fazer inveja aos homens da maratona.

... O governo tem que fazer urgentemente alguma coisa para acabar com as estatísticas!

14 de setembro de 2006

Tirania da Maioria

Ainda com respeito ao Pacto da Justiça – aqui tratado em à tout propos (231) – cozinhado na semana passada entre PS e PSD, Octávio Teixeira (ex-deputado do PCP), reflectia hoje sobre as perversidades dessas negociatas na Antena 1. Como foi dito, a assunção de um regime parlamentar democrático não se pode coadunar com este tipo de arranjos que se alcançam sem debate, sem a intervenção parlamentar, sem que os restantes representantes do povo com assento parlamentar possam rejeitar, apoiar, discutir e votar. Trata-se, em suma, de um óbvio mecanismo de «legitimação» paralela à que está consagrada na Constituição da República Portuguesa. E por isso mesmo a sua generalização tem riscos para a própria democracia.

Todos sabemos que o modelo democrático, de pureza variável no contexto mundial, incorre num processo de eliminação de erros daquilo que são os seus procedimentos, normas e disseminação de valores e princípios entre as administrações e a sociedade civil. Por isso, oficiosamente, não podemos senão falar do conceito de democracia tout court… embora com muito boa vontade, o desejemos muito. Os que o desejam, naturalmente… E os que desejam ardentemente, levando-a empacotada a toda a parte do mundo.

Ora, uma ideia de democracia representativa de pendor parlamentar, não tem qualquer cabimento quando se fazem arranjinhos entre os que detêm o poder (outorgado pela conversão de votos em mandatos), excluído todos as outras sensibilidades. Por isso mesmo, o sistema representativo português não apresenta um sistema eleitoral maioritário, sendo certo que, este tipo de arranjos encontraria ainda assim, mais legitimidade em países como os EUA ou a Inglaterra. Este, como outros pactos, representa em bom rigor, o que pode ser definido como uma tirania da maioria, tanto receada por Tocqueville. O que mais assusta é que isto é prática comum e os argumentos, medíocres, convencem toda a gente.

11 de setembro de 2006

Todos os Dias (II)




... Entretanto, diariamente morrem às mãos da fome e da guerra, centenas ou milhares de pessoas por todo o mundo. Só no Iraque, morrem em média 1500 pessoas por mês, na sequência de ataques terroristas.
Apesar da existência de inúmeras perguntas por responder, certo é que, para as vítimas e para os familiares das vítimas, o sofrimento é e foi real...

11 de Setembro (I)





Há 5 anos, na sequência do que se aceita ter sido um ataque terrorista da exclusiva responsabilidade da Al Qaeda, quase 4 milhares de pessoas perderam as suas vidas em nome de nada. Quase todas, de forma particularmente dramática e dolorosa.
Apesar da existência de inúmeras perguntas por responder, certo é que, para as vítimas e para os familiares das vítimas, o sofrimento é e foi real...

10 de setembro de 2006

...I Did It, My Way...

No passado Sábado foi publicada uma entrevista no jornal Público, com o embaixador americano em Portugal. Ao longo da entrevista, este cowboy de 72 anos manteve sempre aquela irredutível pose de Estado, típica dos lacaios mais obedientes e capazes de sustentar estoicamente o mais absurdo argumento.

Convicto de que “as prisões da CIA vão continuar secretas e nos locais actuais”, o homenzinho lá se foi escudando numa distinção fundamental: entre o que é tortura e o que é coacção, para legitimar a existência dentro da legalidade, desses calabouços insondáveis e impermeáveis à Convenção de Genebra. Como tudo nos EUA, de resto, em matéria de respeito pelas leis, tratados e convenções internacionais.

Contudo, a linha de argumentação só fica completa com a tese de os EUA estarem de facto envolvidos numa guerra, não tradicional e heterodoxa, mas uma guerra. A este respeito, já a Europa e as organizações de direitos humanos haviam exigido que os prisioneiros de Guantanamo fossem efectivamente tratados com a dignidade e o respeito consagrados na dita Convenção de Genebra. Sem resultados. E sem surpresas.

Alfred Hoffman Jr. (é assim que se chama o serviçal) remata a questão sustentando que, “numa guerra não há tempo limite para a detenção” de oponentes. O que o energúmeno senhor parece não compreender ou admitir, é que numa guerra, são feitos prisioneiros por pertencerem ao exército inimigo e não por serem suspeitos de pertencerem, sendo mantidos em cativeiro por tempo indeterminado (e aqui apelamos para a natureza distinta dos conceitos de «detenção» e «prisão»).

Os que são suspeitos de pertencer ao exército inimigo, não têm que gramar com essa treta da indefinição do tempo, acomodando temporalmente a prisão à duração do conflito. Nem os outros têm que levar chibatada, pontapés nas trombas e humilhações sexuais, alegando que se trata de coacção para recolher confissões ou provas testemunhais.

Mas não deixa de ser gracioso aquele argumento. Em particular porque o princípio que lhe subjaz – a guerra como fonte legitimadora de todas as acções – pode ser generalizado e disseminado a um nível tão hediondo quanto as insanas congeminações de Adolf Hitler, começando pela ideia de «guerra ao narcotráfico», «guerra à evasão fiscal» ou até «guerra aos azuis».

No limite, as consequências de utilização desta classificação poderiam sobrepor-se a quaisquer liberdades, direitos e garantias dos indivíduos, sempre que, sob o signo da arbitrariedade, quem detém e executa o poder pretendesse arrepiar um qualquer caminho em seu proveito ou interesse…

7 de setembro de 2006

à tout propos (231)

à tout propos (230)

Em Portugal, depois da temporada da tourada... regressa a temporada da tourada! Bem hajam todos quantos contribuem para a faena anual.

à tout propos (229)

Sinto simpatia pela cumplicidade dos sinais de luzes que denunciam a presença de polícias na estrada. Durante muitos anos debati-me com a bondade e justiça dessa acção, ímpia aos olhos da sociedade de bem-parecer.

Mas há alguns argumentos que merecem ser colocados em evidência. Partimos do pressuposto, tantas vezes confirmado pela BT-GNR, que a presença policial tem como primeiro objectivo a dissuasão de comportamentos desviantes.

Assim sendo, parece ser indiscutível que ninguém no seu perfeito juízo, tomando consciência da presença policial, acelere a sua marcha ou, caso não esteja em condições psicológicas para conduzir, se predisponha a permanecer sentado ao volante. Objectivo cumprido, os condutores são dissuadidos.

Se no primeiro caso e findo o raio de acção do radar ou do longo braço da lei (que por vezes se converte nas longas garras da lei), o condutor pode retornar à condução em excesso de velocidade, já no segundo caso, o condutor opta por uma de duas alternativas: ou estaciona e espera que lhe passe ou procura estradas secundárias, reduzindo a probabilidade de encontrar outros veículos ou transeuntes. Quanto ao despiste [sozinho ou com consentimento do registo comportamental pelos demais], quer-me parecer que ninguém tem nada que ver com isso, nomeadamente o SNS, polícias ou tribunais (desde que não resulte em danos meteriais como cercas, muros, postes, paredes, etc.). Sobretudo se o homem registar um histórico de zelosa honradez dos seus compromissos fiscais.

Há sempre o argumento policial de que, os sinais de luzes podem servir para alertar condutores que se façam conduzir em carros furtados ou não segurados.

Contudo, é para mim mais admissível o prejuízo de um (cujo carro foi roubado mas pode ser reavido) em detrimento do prejuízo de muitos porque, para além da corrupção, grassa por esse asfalto fora, aquilo que pode ser considerado um verdadeiro Roubo Generalizado de Estado.

Entretanto, os acidentes e os maus comportamentos na estrada não terminam devido ao agravamento das coimas. E isso é um facto estatístico.

5 de setembro de 2006

Os Deuses Também Já Foram Homens

Foto: Sparky Faísca
O mundo até pode cair, mas não enquanto estes maravilhosos animais povoarem os nossos céus e o nosso imaginário, consentindo a trégua que a poluta existência humana não concede a si própria.

Aceno-lhes agradecidamente com um sorriso nos olhos.

1 de setembro de 2006

à tout propos (228)

Se a FIFA, a UEFA e a NATO decidirem expulsar as equipas portuguesas das competições internacionais, há sempre a hipótese de declarar a independência da Madeira e naturalizar nesse novo país [patriarcado do Alberto João I], o Scolari, o Madail, o Valentim, o Pinto da Costa, o Cunha Leal, o Luís Filipe Vieira, o Figo, o Isaltino, a Fátima Felgueiras, o Adelino Ferreira Torres, os irmãos Cavaco, o Eusébio, e o raio que os parta a todos.