9 de outubro de 2007

Aragens e resfriados na saúde portuguesa

O insigne bastonário da Ordem dos Médicos torceu o nariz à declaração «insensata» (no dizer do Doutor Agostinho Lopes), pronunciada pelo não menos excelso ministro da Saúde. Esta pessoa afiançou a pretensão do governo de aumentar em 30% o número de vagas de medicina, contando com isso solucionar os problemas da saúde, da educação e da justiça, de uma só assentada. O Sr. ministro não as mede nem tem metas, isso é claro. Por seu turno, o Sr. Bastonário mostrou-se inquietado com o desemprego que tantos dos seus pares poderão vir a enfrentar, dado o desinvestimento público no Serviço Nacional de Saúde.

Enquanto isso, numa terra longínqua e distante do módico mundo destas criaturas, sucedem-se as «vagas carenciadas» a médicos estrangeiros e os «turbo-médicos». Tudo isto, num quadro em que se sucede, por sua vez, a abertura frenética de novos estabelecimentos privados de saúde. Em que ficamos, nós, os que cevamos generosamente a coisa?

Finalmente, sendo dois respeitáveis defensores do liberalismo económico, certamente não encontrarão inconveniente num certo desempregozinho estrutural, nessa aragem social transformada em precariedade laboral que gera um acréscimo de qualidade pela competitividade e engrossa os cabelos no peito.

6 de outubro de 2007

Da Divisão Tripartida dos Poderes...

A propósito dos ataques infundados ao funcionamento do sistema judicial português, qualquer membro do actual governo, qualquer antigo ministro da justiça ou deputado destacado para a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tem motivos mais do que suficientes para se regozijar com o trabalho desenvolvido ao longo de décadas na justiça e defesa dos direitos humanos. Sem com isso pregar cagadelas no caminho inglório do Eng.º João Cravinho. Um dos exemplos mais extraordinários é o tratamento correctíssimo dado a um caso que foi resolvido sem mácula há uns anos atrás pelos céleres tribunais e serviços de investigação criminal, um tal «Processo Casa Pia».

5 de outubro de 2007

O sistema educativo nos 97 anos da República

Nas comemorações do nonagésimo sétimo aniversário da implantação da República, Cavaco Silva centrou o seu discurso na educação e numa nova abordagem sobre a mesma, que a enquadre definitivamente na realidade e necessidades do país. Como o exigem as circunstâncias e o protocolo, Cavaco Silva leu um texto conciliador, sensato e de alento às tropas.

Do longo discurso, destacam-se duas ideias que, sem serem inovadoras, não foram escamoteadas como habitualmente. A primeira resulta da observação à acção das escolas ao longo dos últimos noventa e oito anos, a qual jamais conseguiu passar o patamar do sofrível. A segunda ideia resume-se pelas próprias palavras do Presidente da República, segundo o qual, «a educação em Portugal foi sempre tratada como um problema de governo e não de regime». Esta afirmação é uma farpa que assenta inteirinha e se acomoda no lombo dos que nos governam e dos que se lhes opõem.

O discurso foi bonito, de estadista, mobilizador e quase de ir às lágrimas. Digno de consensos alargados.

Porém, o que fazer com uma política educativa assente no pilar do saneamento financeiro sem outras contrapartidas? O que fazer com o excesso de professores irresponsavelmente formados pela também irresponsável gestão da autonomia universitária pelas universidades? O que fazer com a injusta e desmotivante condição de saltimbancos de Estado a que são votados os professores? O que fazer com a indignidade que caiu sobre o corpo docente, manietado por alunos, colegas, pais? O que fazer com os milhares de maus profissionais saídos das universidades, cujas aptidões foram analisadas à luz das receitas que cada cabeça de gado proporciona às instituições de ensino superior? O que fazer com a alarmante ocupação de postos de trabalho no ensino superior por indivíduos incompetentes na profissão mas competentes na amizade? O que fazer com alunos provenientes de famílias com fracos recursos financeiros, de famílias desestruturadas, de bairros problemáticos, cuja única motivação em ir à escola é a ditadura da escolaridade obrigatória e, em muitos casos, o lanche? O que fazer com um sistema de ensino que está organizado para as estatísticas a enviar para a União Europeia e não voltado para as reais necessidades académicas e profissionais do país? O que fazer com pais incompetentes, irresponsáveis e eminentemente irracionais? O que fazer com pais ausentes, obstinados com as suas carreirinhas profissionais ou domesticados pela opressão fomentada por patrões gananciosos? O que fazer com um país incapaz de compreender que não podem haver qualificações de primeira e qualificações de segunda? O que fazer com a classe de políticos que temos? O que fazer com o futuro do país, onde as reformas do sistema educativo se sucedem de tal forma que podem ser associadas ao nome do ministro que assinou o documento?

O que fazer com as crianças, frequentemente as últimas a serem ouvidas em qualquer processo, mesmo que seja o seu?

4 de outubro de 2007

No Mundo de Oz

O Sr. Eng.º José Crav(Oz)inho, ou é parvo ou então, faz-se. De tempos a tempos lá vem este malandro iludir o gentio idóneo e os moralistas republicanos com a conversa da corrupção. Mas a coisa agrava-se por insistir numa metodologia fracassada de tão ingénua. Em vez de sair decidido para a rua à catanada, não é que o homem insiste em levar areia para a praia? Que é o mesmo que largar a raposa no galinheiro? Não se faz… é parvo!

Alla Akbar

Asseverando uma autoridade moral inquestionável em assuntos metafísicos e científicos, o homem afirmou perante o auditóro da Antena 1, ser «cristão, apostólico, português, católico e português», parecendo querer dizer portanto, vejam lá com quem é que estão a falar. Esclarecedor para quem, como o governo, ataca impiamente a religião oficial de Estado ao pretender condicionar o serviço religioso nos hospitais. O homem disse também que era de Braga. Mas, apesar de tanta coincidência, não teria um cinto de explosivos atado à cintura.

3 de outubro de 2007

Pensar positivo

A crise de golos e exibições e atitude e de tudo no Benfica é alarmante. O Conselho de Ministros tocou a reunir de emergência para debater este caso verdadeiramente dramático para a identidade nacional. Será justo vituperar os atletas que, apesar de não cantarem o hino desesperadamente como a selecção de rugby, jamais aconselhariam a bola a não entrar? A culpa é do Camacho, naturalmente. Ele é que os manda manterem a posse da bola a todo o custo... é escusado pedir-lhes que, uma vez com a bola nos pés, se desfaçam dela. Como se não bastasse ser esférica.

2 de outubro de 2007

à tout propos (281)

Da esquerda à direita, todos acham que Portugal tem um sistema eleitoral democrático e justo que privilegia a igualdade política, saída da revolução de Abril. Típico, Portugal é um país de descobridores.

Chavez alcança 1º Lugar

Depois de destronar Jean-Marie Le Pen, Alberto João Jardim viu a sua posição ameaçada com a eleição de Luís Filipe Menezes mas acabou mesmo por ser ultrapassado no ranking do populismo, agora liderado por Hugo Chavez. O príncipe venezuelano lançou recentemente um CD, no qual interpreta grandes temas da canção venezuelana. Indefectível, o veterano Paulo Portas permanece no top ten do ranking, revelando a sua excessiva dependência de mercados do peixe em época de campanha eleitoral.

1 de outubro de 2007

à tout propos (280)

Como na vida há determinados acontecimentos que, por força da sua natureza, reificam obstinadamente o que os franceses designam pomposamente de dejà vu - ou, mais prosaico, «já visto» - uma farândola de militantes sociais democratas juntou-se à chusma do costume, nesse acto solene que se segue a uma vitória eleitoral: o beija-mão ao novo messias. Pelo sim, pelo não e antes que cheirem a terra, que se recolham os figos do chão.

29 de setembro de 2007

De cacete na mão

Houve eleições no país social democrata: as «bases» foram intimadas para se pronunciarem sobre qual o melhor padrasto. E a família levantou temerosamente os braços aos céus, invocou os deuses e, sem resposta satisfatória, ficou-se pelo arruaceiro.

27 de setembro de 2007

Santana, o Ímpio

Mais ou menos extemporaneamente, mais ou menos espectacularmente, mais ou menos justificadamente, Santana Lopes protagonizou um episódio memorável na SIC Notícias. Para utilizar uma terminologia jornalística, o episódio é um verdadeiro furo. Por essa razão, não se compreende aquele pranto delator de Ricardo Costa, irmão de ministro e, por casualidade, director da estação televisiva em causa. A SIC Notícias criou um caso que, por coincidência, vai justamente de encontro a essa condição necrófaga e sensacionalista de grande parte da comunicação social.

Os principais órgãos de comunicação social sofrem de um mal estrutural que se ancora necessariamente no frenesim em produzir notícias em série, estar em todo o lado e a qualquer hora. Dizer o que é, o que não é e, o pior de tudo, o que deveria ser. 'taqueospariu.

Santana Lopes tem razão, a chegada do Mourinho ao aeroporto de Lisboa é bem mais importante para o desenlace do Mundo do que qualquer outro assunto sobre o qual um político falhado se poderia pronunciar. Santana sabe-o e teve a coragem de o dizer. Se não fosse a chegada do Mourinho seria a cor das meias da mãe da Maddie. Ou a nova gravata do Herman José.

Infelizmente, Ricardo Costa também tem razão. É perfeitamente «normal» que situações como aquela interrupção aconteçam em televisão. E, francamente, estúpidas. Se há algo a lamentar é o estado a que chegou a construção social da normalidade.
'taqueverdadeiramenteospariuatodos!!

Get in the ring

O PSD não tem adicionado substanciais contributos à democracia, é pacifico. Mas transformar uma disputa de liderança numa brejeira luta de galos com tempo de antena, pode tornar-se saturante. Até para o governo e restante oposição, cada vez mais divididos entre compaixão e a perplexidade. Para que as coisas fossem perfeitas, Menezes e Mendes poderiam encetar uma nova forma de governação, assente na bicefalia. Ou convidar Santana Lopes para um triunvirato e, assim, garantir um verdadeiro freak show.

25 de setembro de 2007

As escolhas de Sócrates


O homem que hoje discursará em nome da União Europeia na Assembleia-geral das Nações Unidas, apelando à defesa dos direitos humanos e à abolição da pena capital, é o mesmo que se refere às divergências da Europa em relação a Mugabe como «questões laterais».


Mas esta obstinação de Sócrates tem uma justificação que radica na igualdade de tratamento concedida aos restantes ditadores que aqui se deslocarão para a cimeira enquanto nos seus países as populações definham com subnutrição, doenças e guerras.
A meu ver, Sócrates devia ser obrigado a escolher entre a realpolitik e a realhipocrisik.

Lições e Moral

No desmentido habitual, Mahmoud Ahmadinejad desmente ter desmentido que desmentiu a negação do Holocausto. Entre o Holocausto e a sua negação não vai mais do que a espessura de uma folha de alface. A que o líder iraniano depositaria pesarosamente no ground zero do World Trade Center em memória dos mártires árabes que cometeram a proeza de acertar em cheio num dos simbolos financeiros do capitalismo.
E Ahmadinejad desmente o que tiver que desmentir, conquanto a sua alteridade lhe seja contemporânea. De peito aberto, o eixo do mal entrou pela porta grande da América e, debalde, não aceita lições de ninguém. Muito menos de moral.

24 de setembro de 2007

Fait divers de uma geração à rasca

Quando Vicente Jorge Silva se referiu à geração dos nascidos entre finais da década de 60 e inícios da década de 70, como «geração rasca», jamais pressuporia que estaria na mira de um país em peso com tão infeliz afirmação. Ao fazê-lo, veio pôr em evidência as fragilidades da sua própria geração e das que a precedem, justamente por obrigar a dita «geração rasca» a viver no lodo criado e estimulado pelas antecessoras. As fiéis depositárias do poder, da moral pouco certeira e dos maus costumes que caberá aos rascas solucionar no futuro. Logo se vê...

Mas quando, muito justamente, nessa manobra de remissão colectiva que consistiu em apelidar afinal a referida geração de enrascada, eis que desponta a tropelia do costume ao dar o dito pelo não dito. O que aflige é afinal, constatar que nem sequer é verdadeiramente enrascada, porque, contrariamente às estatísticas invocadas, lá se vai anuindo com os maravilhosos cursos superiores que desdramatizam a realidade dos remediados e se exultam os exemplares casos de sucesso de uma minoria que singrou no mundinho dos pais. Tudo o resto são fait divers
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PS: a relação dos «casos» romantizados no artigo do semanário Visão, é inversamente proporcional às estatísticas: médicos TVI, actrizes TVI, autarcas e Secretários-de-estado?

18 de setembro de 2007

Código Penal

A polémica e obsessiva publicação do Novo Código Penal em tempo record pelo governo tem, para já, algumas consequências imediatas: recusa que sejam revistos e rectificados aspectos processuais mal formulados; incomodou os principais actores (Ministério Público, Magistrados e polícias) ao responsabilizá-los directamente pelos incompreensíveis prazos de prisão preventiva, habitualmente determinada para permitir a investigação e não para aguardar julgamento; permitiu um arrazoado especulativo de profissionais da comunicação social, uns menos sérios e outros menos expeditos, lançando a confusão deliberada sobre a população; e contribui para desacreditar o próprio governo, polícias e os tribunais portugueses perante a opinião pública mundial, em particular no contexto Maddie, que sujeita o país a uma exposição mediática invulgar.

17 de setembro de 2007

Inglês Amigo

Sócrates disse hoje ter sido recebido pelo líder de um país amigo. Isso foi antes de ter tido a oportunidade de se expressar naquele inglês que aprendeu na Universidade Independente, tão escorreito quanto o raciocínio do seu néscio interlocutor. Após o tempo de duração da conversa, Bush abandonou a sala com ar trocista.

O Hino tem Vitaminas...


Quando o Sr. Júdice, José Luís, se referiu na sua semanal crónica opinativa da Antena 1 (Conselho Superior), à denodada forma como entoam A Portuguesa os rapazes que disputam um honroso último lugar do Campeonato do Mundo de Rugby, fê-lo sob a batuta pedagoga de quem acha que berrar o hino com as carótides a rebentar a epiderme, resolve os problemas do país e, quiçá, do mundo.

Nesse caso, advertimos nós, se os empregados são burros, trauteie o hino enquanto esfrega a secretária; se a evasão fiscal não diminui, cantarole o hino aos funcionários das finanças; se o seu marido lhe for infiel, sussurre-lhe o hino aos ouvidos antes de lhe amputar o orgulho masculino; se o cão lhe deixou um presente, convide-o a cantar o hino consigo; se a polícia lhe fizer o teste do álcool, ponha-se em sentido e chore o hino; e, por exemplo, se for vítima de assalto, berre o hino a plenos pulmões, de tal forma que o Portugal entre mais uma vez no Guiness Book of Records com a fantástica marca do hino mais audível do mundo.

Em suma, sempre que houver azar neste país, ponha-se a cantar o hino: desanuvia e dá vitaminas...

Já viu o que aqui arranjou, Sr. Júdice?

PS: O que nós precisamos é de gente a cantar o hino. Mas a cantá-lo bem: «nobre pooovo, nação valente» e não «nobre povonação valente». Sr. leitor(a), olhe, aproveite e cante o hino à moçoila da foto que não parece ser particularmente sensível à patriótica letra de A Portuguesa. Mas cante-lho bem, como se fosse a sua última vez...

12 de setembro de 2007

Preparativos do 4º aniversário

Ainda é prematuro mas, no próximo dia 22 de Outubro, cumpre-se o 4º aniversário de In Tenui Labor. Será certamente uma óptima ocasião para que as 7 pessoas que já visitaram este espaço expressem o mais vivo repúdio, pois que, «para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio» (Albert Camus, O Estrangeiro, última página).

10 de setembro de 2007

Discursar para as massas

A eliminação no discurso sério e sem insinuações, de vocábulos como «talvez», a rejeição de métodos gnoseológicos como a «síntese», e a ausência de um exercício permanente de auto-reflexão alicerçada na busca da coerência, são um imperativo em qualquer comunicação política dirigida às massas.
Por essa via é garantida a bidimensionalidade mais primária – nós e os outros; o eixo do bem e o eixo do mal; os ricos e os pobres; os homens e as mulheres; os polícias e os ladrões; os explorados e os exploradores; os patrões e os trabalhadores; os fiéis e os infiéis – a opção pela exaltação de oposições binárias em que uma delas é, naturalmente, a correcta. À tese «deles», contrapomos «nós» com a antítese. E ponto final, para não dar parte fraca. Por vezes, observam-se nuances. Em particular quando há negociações envolvidas. Caso contrário, procuram-se as ideias fracturantes que definam pólos opostos, perfilados em formação militar napoleónica, numa delimitação clara: «nós aqui, vós aí»! Uma cisão bipolar do universo tido como real.

Mais ou menos prosaicamente, esta postela (seria naturalmente pretensioso chamar-lhe postulado), faz parte do «bê-a-ba» dos partidos ou de qualquer outra organização ou indivíduos que lutem pelo poder ou pela aceitação e difusão da sua doutrina. Cristo, estaria obviamente neste lote de indivíduos. Ou Guevara, Trotsky, Estaline, Hitler, Ghandi, Bush, Martin Luther King ou o gato das botas.

O discurso de Jerónimo de Sousa na rentreé política que o PCP organiza de forma impecável numa exemplar realização colectiva na Quinta da Atalaia (Festa do Avante, onde fui ontem pela primeira vez), denota claramente esta preocupação pela definição de circunscrições territoriais e ideológicas. Mas nem podia ser de outra forma porque qualquer liderança titubeante seria cilindrada pelas massas cegas e cretinas. O acto de explicar e discutir ampla e racionalmente uma realidade ou ideia, resulta em grupos pequenos de pessoas. Contrariamente, o acto de comunicar para as massas consiste frequentemente na eliminação de factores que possam obstruir a compreensão, gerar confusão, consubstanciando-se então numa tal comunicação bimodal e simplista: as massas reagem a estímulos sensoriais, são impulsivas, precipitadas e tendencialmente irracionais.

Não há outra forma de arregimentação directa das massas por meio do discurso, senão torná-lo claro, acessível, simples.

Falou-se da forma, justamente.

No conteúdo, na essência, o discurso de Jerónimo de Sousa não surpreendeu e justificam-se boa parte das críticas que desfere contra o governo de Sócrates, apesar dos tradicionais erros na leitura da contemporaneidade. Aquele, pelo contrário, escusou-se sempre a comunicar (deste o início da legislatura). Talvez tenha sido essa, a forma encontrada para se permitir o estilo ziguezagueante na governação. Sem um vínculo, uma verdadeira âncora ideológica, sem uma delimitação, o governo não arregimenta. Mas também não é cilindrado.



PS: A ASAE esteve na Festa do Avante e felizmente, em outros locais do país (para que não se alimente o conhecido síndrome da perseguição). Ao contrário do que as pessoas possam pensar, em nenhum momento dei por cheiros canabinóides. Nem ali, nem em nenhuma festa no país onde afluam hordas de jovens em busca de prazer e diversão.

8 de setembro de 2007

Programa de Sexta à Tarde

As multidões representam um perigo eminente para uma sociedade que luta com tenacidade pelo seu equilíbrio mental porque são cegas, potencialmente violentas, frequentemente cretinas e facilmente manipuláveis. Seja essa manipulação auto-induzida e alimentada pela própria chusma numa espiral de irracionalidade ou, simplesmente inoculada pelos meios de comunicação de massa. Ou ainda, doutrinalmente (embora não pareça ser este o caso).

Expectável era a saída à rua dos tradicionais molhos de brócolos a rosnar e a escumar cólera figadal, atiçados por uma vontade heterónoma que não conseguem dominar mas, ainda assim, exibindo uma faceta claramente enquadrável na natureza humana.

A rapaziada está saturada, quer festa e, por isso, qualquer um serve e em qualquer circunstância. Nem que para isso lhe baste que caia uma fagulha em cima de alguém. Em todo o caso, ficamos mais descansados por saber da existência de movimento pluralistas que reúnem desempregados, chulos, domésticas, reformados, vadios e outros especimens, em torno de uma causa comum.

Não consola saber que, se fosse em Inglaterra, a grosseria seria certamente superlativa.

6 de setembro de 2007

Luciano Pavarotti


Sujeito a mais ou menos mediatização que os seus predecessores, auxiliado por piores ou melhores orquestrações, olhado de soslaio por mais ou menos desvios ao canto lírico ortodoxo, mais ou menos polémico... de Luciano Pavarotti ficará a memória de uma voz radiante e plena de intensidade. Numa palavra: arrebatadora e, por isso mesmo, inesquecível.

Contra os argumentos dos «puristas», Pavarotti democratizou o canto lírico resgatando-o do mais pedante elitismo cultural, pretenso guardião do sublime. E fê-lo sem beliscar as virtudes do canto, sem o vulgarizar. Talvez essa simplicidade incomode alguns, mesmo no momento em que Pavarotti se despede do mundo.

4 de setembro de 2007

Queixas por tudo e por nada...



À chegada a Portugal após a conquista de uma vulgar medalha de ouro nos mundiais de Osaca, Nelson Évora deu corpo à lamúria habitual destes atletas de desportos inferiores, reivindicando uma pista coberta de atletismo para treinar no Inverno. Não se compreende. O nosso entendimento poderia eventualmente alcançar o propósito e oportunidade do queixume, caso em Portugal não existissem maravilhosos e amplos estádios de futebol, com capacidade para acolher milhares de espectadores, muito bem arejados e com relva fofa para o campeão do mundo de triplo salto aterrar em segurança. O Obikwelu pagaria para correr descalço naquele tapete verde. E a Vanessa Fernandes poderia inaugurar uma nova competição para rijos, os «setenta quilómetros bancadas».

… com estádios lindos como estes, que nós temos, até parece mal dizer coisas destas…

Só neste país é que as pessoas se queixam por tudo e por nada. A cereja no topo da blasfémia ocorreria se os praticantes de Boccia viessem agora também reclamar um bocciódromo

1 de setembro de 2007

E depois...

Exaspera a toleima e desonestidade intelectual, de quem usa as palavras como se fossem sacos de areia, com argumentos de «quarto-escuro» e sem conteúdo sério e auto-reflexivo. A coisa agrava-se quando, titubeantes e portadores de falsos moralismos, procuram legitimar-se, defendendo os camaradas de trepanço. Depois, dá-se o bombardeio indiscriminado...

31 de agosto de 2007

Efemérides

Para quem não sabe, Charles Baudelaire desapareceu há 140 anos, precisamente 130 anos antes de Diana Spencer. Desconhecido crítico e poeta francês, Baudelaire escreveu, entre outras coisas de somenos importância, Les Fleurs du Mal. Mas foi só isso, portanto: uma flatulência. Nada que se compare com os maravilhosos e inolvidáveis feitos da benemérita, filantropa, nobre e santa Diana, a rainha do povo que, entre anéis de 200 mil euros e uma vida de luxúria à conta do contribuinte inglês e dos media, se espatifou contra um pilar num túnel de Paris, em plena campanha contra a proliferação de minas anti-pessoal. Mas permanece no nosso coração, como uma singela chama numa velinha a lutar contra o vento.

O que esperará para o seu post-mortem, o esforçado mas ignoto cientista que descobre um tratamento contra uma patologia brutalmente mortífera como a malária? – No mínimo, um planeta do sistema solar rebaptizado com o seu nome.

Entretanto, não percebo por que razão não marcou presença o executivo português nas honrarias inglesas: afinal, Diana era tão-só a rainha do povo... estará o governo ainda melindrado com aquela falha imperdoável aquando das comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga?

Será que está tudo parvo? Será que o mundo foi assolado por uma embriaguez histérica e colectiva após a morte da senhora quando, só no Iraque, são assassinadas diariamente mais de 100 pessoas? quando, no Sudão há milhares de crianças a morrer à fome? quando, em todo o hemisfério sul (com especial incidência na África subsariana) doenças como a malária matam aos milhões? Quero lá saber em que condições se encontra a monarquia britânica. Isso é lá com eles, se acham bem prestar vassalagem a meia-dúzia de parasitas que reivindicam ter uma prega a mais no cú do que os outros. Putaqueospariuatodos

30 de agosto de 2007

29 de agosto de 2007

Pobrezas

Conforme noticia hoje o Diário de Notícias, 12,3% da população americana vive abaixo do limiar de pobreza definido pelo Banco Mundial.
O Banco Mundial define a pobreza extrema através de um indicador de referência: sobreviver com menos de 1 dólar por dia; paralelamente, a pobreza moderada cifra-se nos 2 dólares por dia. No dia 17 de Outubro de 2006, o mesmo jornal alarmava para a existência de 21% da população portuguesa a sobreviver nos limites desse limiar. Uma família de 4 pessoas em Portugal, em que os progenitores recebam ambos o equivalente ao ordenado mínimo, vive com aproximadamente 8 dólares (6 euros) por dia/per capita. Mas também se sabe que 2 dólares em Portugal não correspondem, na prática, a 2 dólares nos EUA ou na Etiópia… Assim sendo, temos vários cenários possíveis mutuamente exclusivos ou, por outro lado, cumulativos: os aglomerados familiares considerados serem compostos por mais do que cinco elementos; um quinto das famílias não auferir sequer o mínimo legislado; o desemprego afectar indiferentemente um quinto das famílias portuguesas; haver um desfasamento teórico-empírico e o limite não dispensar uma contextualização. Mas, nesse caso, convém salvaguardar que em alguns países, mesmo que alguém dispusesse de 50 dólares diários, não teria, ainda assim, o que comer…

27 de agosto de 2007

O Poder da Técnica

Ainda não há duas décadas, a ocasião dos jogos olímpicos e campeonatos de atletismo canalizava as esperanças dos portugueses em ver os seus alcançarem pódios, ao longo das passadas esforçadas mas ritmadas dos nossos fundistas e meio-fundistas. De António Leitão a Rosa Mota e de Fernanda Ribeiro a Carlos Lopes, o atletismo português erguia-se sobre o enorme coração destes atletas e pouco mais... Hoje, é Nélson Évora a conquistar brilhantemente o pódio, numa das disciplinas mais técnicas, o Triplo Salto. A Naide Gomes bate-se numa final do salto em comprimento e contamos ainda com a pré-anunciada medalha de ouro nos 200 metros, pelo extraordinário velocista Francis Obikwelu. Isto significa que hoje, em Portugal, há muito mais pessoas a compreenderem o atletismo. Mas também significa que se registou um salto imenso em condições de trabalho, quer ao nível da profissionalização dos atletas, quer ao nível das infraestruturas dos clubes. O salto qualitativo é notório. Só não se percebe em que curva se perderam os fundistas e os meio-fundistas.

24 de agosto de 2007

à tout propos (277)

No seguimento do post de ontem e porque hoje é o meu aniversário, ganhei o direito a dizer mais qualquer coisinha. Até há bem pouco tempo, vigorava uma aproximação de Estado-Providência, inspirado nos modelos escandinavos, embora adaptado à sacola do bando de monarcas que nos governam há séculos. Portanto, um Estado-Providência escandinavo, no pagamento de impostos; siciliano, na igualdade de acesso; americano, nos benefícios retirados; e, angolano, na corrupção. Perante o que temos visto, daqui para a frente é perfeitamente admissível que o nosso modelo passe a inspirar-se também na sub-cultura texana.

E entretanto, o manso povo sempre se tem mostrado solidário para pagar os desleixos, caprichos, mordomias e luxúrias das classes dirigentes, independentemente das ideologias mais libertadoras, igualitárias ou fraternas que publicamente defendam; esses que, alinhados na suprema defesa dos interesses dos respectivos partidos, lhe negam a liberdade e autonomia. Ao verdadeiro povo que desconhecem e não o povo romanticamente criado por burgueses de toda a espécie e pseuso-ideologias.
PS: outra coisinha. Ao rejeitar as conclusões do Tribunal Administrativo sobre o estabelecimento pelo governo, de serviços mínimos em época de exames, a FENPROF vem a público dar mostras de alguma boçalidade, revelando que se está perfeitamente a cagar para os alunos. Seria exactamente o mesmo que o pessoal da saúde abandonasse o serviço de urgência de um hospital, apenas para reivindicar os seus superiores interesses. Há muitas formas de luta que foram descobertas entretanto, mais sensatas e mais eficazes...

23 de agosto de 2007

Crédito Bonificado Para Estudar

O Estado português despe-se aos poucos dos escassos princípios que ainda o animavam, para se barricar esquizofrenicamente nos fins. Não importa como.

O argumento que justifica a asserção de um Estado-usurário é a magnânime, complacente e filantropa defesa do igual e livre acesso ao ensino superior. Por isso, o bom Estado prepara-se para afogar de vez, o já medíocre ensino superior, com a agiotagem que supostamente deveria regular.

A correcção das assimetrias que cabe ao Estado, através da atribuição de bolsas de mérito e de carência socio-económica, revelou-se um engulho para este governo: não só desinveste no futuro do país, como também o hipoteca. Desta forma, o nosso «Estado-Providência» demite-se das suas responsabilidades e leva ao extremo da leviandade o princípio do utilizador-pagador: queres estudar, pagas! queres caminhar por esta calçada, pagas! queres descansar, pagas! queres pagar-nos, pagas a dobrar!

O investimento na principal riqueza do país – os seus recursos humanos – ficará doravante, inteiramente à responsabilidade das populações, às quais compete o pagamento dos estudos dos seus filhos e ainda a liquidação de taxas de juro a um Estado incompetente, que serve de refeitório da extrema esquerda à extrema direita. Se, até aqui, os estudantes carenciados tinham acesso a bolsas de estudo – que, em todo o caso, eram desbaratadas por todo o género de chicos-espertos mas beneficiando sempre da cumplicidade incapaz dos serviços de controle do Ministério da Educação – no futuro, esses mesmos estudantes terão que pagar juros ao Estado pelos créditos bonificados engendrados com a banca.
Mais, com a disponibilização de créditos bonificados, há luz verde para o aumento das propinas. Este aumento significará um agravamento na carga fiscal sobre os rendimentos das famílias, degenerando no aumento do universo de potenciais alunos a recorrer à generosa ferramenta social disponibilizada pelo Estado.

Enquanto isso, ao abrigo do programa Novas Oportunidades, o governo distribui sem tino, diplomas gratuitos e reconhece competências virtuais. Compreende-se por que razão, as bolsas de mérito terão, a prazo, os seus dias contados...

22 de agosto de 2007

à tout propos (276)

Só se conhecem, neste momento, duas equipas que joguem pior futebol do que a equipa de Scolari: a selecção de rugby e a selecção da Arménia.

à tout propos (275)

Sei de alguém que já não vai para director de um instituto qualquer no Norte do país se o Menezes for a primeiro-ministro...

Luís Filipe Menezes, crónico candidato à liderança do PSD, viu o seu bom nome enxovalhado por essa corja dos defensores da originalidade e dos direitos de autor. Que diferença poderia haver, em fazer referência às fontes onde o social democrata e os seus assessores se poderão ter, digamos, «inspirado» para dar corpo a um blogue?
Como lhe competia, o assessor José Aguiar (possivelmente o gestor de conteúdos do blogue de Menezes), enviou um sms à imprensa, afirmando que "eventuais incorrecções na identificação da autoria serão corrigidas e devem ser, naturalmente, tidas como lapso" (in Publico online, 22-8-2007). É capaz disso...

21 de agosto de 2007

Corrupção e a Legitimidade Moral dos Partidos Políticos

O PSD foi apanhado com a boca na botija. Os restantes partidos também têm o rabo preso. Alguma condescendência com o PCP que, pelo menos, se financia parcialmente com a Festa do Avante, de forma clara e à vista de toda a gente. Entretanto, os proveitos que a Somague retirou desse investimento no PSD, dão para pagar todas as coimas que o Estado lhe venha a aplicar.
É assim, envoltos em promiscuidades várias e negócios duvidosos que, da direita à esquerda, os partidos exigem rigor e honestidade fiscal aos portugueses.

Adolfo Rocha


Como era de esperar, a não comparência de uma qualquer personalidade que fosse, em representação do governo nas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga, na sua casa museu em Coimbra, continua a ser um caso desta silly season. Inflamado e disparatado, como só os casos das silly podem ser.

Porque, lá por o governo não se ter feito representar no dia do nascimento do poeta, não quer dizer que não tenha apoiado a iniciativa nos restantes 364 dias que marcaram o centenário [não sei nem se sim, nem se não].
Por outro lado, o gentio tem que se decidir: ou aplaude e financia os passeios dos governantes ou repudia tanto passeio. Além disso, em concreto, o que poderia acrescentar a presença de um representante do governo, senão decoração?
Mais, Miguel Torga foi, indubitavelmente, um dos mais proeminentes poetas da contemporaneidade lusófona mas seria deselegante e um opróbrio para os restantes poetas, escultores, atletas, estadistas, monarcas, pintores, agricultores e vendedores de carpetes cujo centenário do nascimento ou da morte se comemoram neste ano, se o governo não se fizesse igualmente representar com as tradicionais honrarias, a pompa e o habitual dispêndio.

Infelizmente, quem recorre a este tipo de argumentação, revela a desorientação de quem não tem outros argumentos. A obra de Miguel Torga não poderá ter melhor homenagem senão ser lida em casa pelos indignados senhores ou ser estudada nas escolas. Mas tal raciocínio não parece estar ao alcance das avassaladoras e brilhantes mentes da oposição. Neste capítulo, Marques Mendes é um verdadeiro e espalhafatoso anão.
António Arnaut, por seu turno, começa agora a compreender a sua própria dimensão...


ARV, independente

16 de agosto de 2007

O Czar da Venezuela II

Os mais afoitos hão-de sentenciar que a coisa radica mais na subjectividade do conceito de poder, do que na usurpação de poder em si.

O Czar da Venezuela


O futuro czar da Venezuela, Hugo Chavez, prepara-se para comprovar, in loco, por que razão teve lugar há 90 anos a revolução bolchevique; por que razão se deu o 25 de Abril; e por que razão se dissolveu o Bloco de Leste. Ao fazê-lo, Chavez prepara-se para, uma vez mais na história, reificar a célebre máxima proferida por Lord Acton no final do séc. XIX – que entretanto adquiriu o estatuto de Lei ou regularidade da natureza: «o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente». Séculos de história humana já haviam demonstrado ao Barão de Montesquieu exactamente o mesmo, há mais de 250 anos. Daí a divisão tripartida de poder, energicamente enjeitada e subvertida por este novo monarca.

14 de agosto de 2007

Liberdade de Expressão



«Os muçulmanos são intolerantes e esta sua incompreensível ira é um atentado à liberdade de expressão das sociedades ocidentais».

Afirmações como esta foram ditas e reditas por colunistas, jornalistas, comentadores de televisão e pela plebe, como forma de manifestar a sua indignação e o mais veemente repúdio pela forma como o mundo muçulmano reagiu a um cartoon de Maomet, transformado em Deus-Bomba.

Mais próximo da nossa realidade, o governo português tem sido acusado de ablação da liberdade de expressão, constitucionalmente consagrada, com os casos da Direcção Regional de Educação do Norte e da bestial tirada da secretária de Estado Adjunta e da Saúde, Carmen Pignatelli: «vivemos em democracia e cada um pode dizer o que quer… nos locais apropriados… nas nossas casas e à esquina de um café podemos dizer aquilo que queremos». Portanto, desde que a ideia não abandone em nenhuma circunstância o cérebro.

Mas vale a pena reflectir sobre as tendências históricas e as actuais num universo mais vasto. E reflectir, necessariamente, sobre a ideia dos limites comunicativos que sustentam a frágil e dúbia fronteira entre as esferas do espaço público e do espaço privado; e a noção de liberdade individual que adquire diferentes azimutes na relação entre dois sujeitos.

O que é que pode circular livremente em espaço público – perante as normas formalizadas num Estado de Direito – sem que possa ser objecto de condenação por algum dos biliões de seres humanos que vivem neste planeta?

Recentemente, um comerciante anglo-saxónico foi ameaçado com pena de prisão por comercializar uma t-shirt para bebés com o seguinte dizer: «Winner of the egg and the sperm race» (vencedor da corrida do óvulo e do esperma).

Confesso-me ultrapassado porque não consigo descortinar quem se poderá sentir ofendido. Um impotente? Uma mulher estéril? Um casal de homossexuais? Marx, Lenine ou um qualquer defensor das teorias da igualdade? Um «puritano» defensor da teoria da cegonha parisiense?

Perante tamanha encruzilhada, como é que um país pode sequer pensar em democracia e em leis? Sinto-me no direito de processar os vendedores de bens alimentares porque estão necessariamente a incitar à violência e à sublevação das populações subnutridas. Mas antes terei que me pôr em fuga, é possível que tenha um mandato de captura emitido em meu nome há precisamente 33 anos apenas porque venci a porra da corrida.

12 de agosto de 2007

Silly Season II

Será do tempo ou de outra coisa qualquer... e nem é coisa que espante, de verdade. A comunicação social é, por norma, criadora. Hoje, excepcionalmente, as redacções das televisões afinaram e engalanaram-se de estapafurdices. As boas notícias são não haver praticamente notícias, apenas curiosidades.

Registo de curiosidades:

Ficamos a saber que Portugal alcançou mais um feito histórico ao entrar para o Guinness Book of Records com a maior onda humana do mundo, ao passo que o Hospital de Castelo Branco deu um importante contributo ao choque tecnológico do governo ao adoptar um sistema informático implementado há um par de anos na maior parte dos hospitais portugueses; e nalguns nos EUA (esta é a curiosidade, o resto é desinformação). O casal McCann acha que as polícias europeias deveriam reagir mais cedo ao desaparecimento de crianças. Estariam certamente a pensar num alerta accionado a partir do quinto minuto e na transferência da tutela das crianças para outras entidades que não os progenitores. Por essa via, certificar-se-iam que pais potencialmente negligentes não o viriam a ser. Mas também vimos como um corpo harmonioso é um corpo nu, enquanto se informava que o Chelsea não perde há não sei quantos jogos em casa. Foi igualmente registado um sismo nos confins da cordilheira central que terá entrado clandestinamente em Portugal, desafortunadamente, sem expressão para ser considerado pelo Guinness Book of Records.

Registo de notícias:
O Sporting venceu a Supertaça, o italiano Grillo venceu a etapa da Volta e a Câmara Municipal de Sabrosa homenageou Miguel Torga no centenário do seu nascimento.

Registo de casos:
O governo não se fez representar nas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga em Coimbra.

Registo de lamechices:
Visivelmente emocionda, a filha de Miguel Torga enalteceu os poemas que o poeta lhe dedicou em criança. A mão do jornalista que segurava o microfone ficou visivelmente trémula.

É este tempo incerto que, de mofo e bafiento, imprime desorientação nas pessoas e lhes tolda a lucidez com náuseas insuportáveis. Via-se na cara do pivot da RTP. E imagino, nos milhares de pessoas enterradas no sofá que viram assim defraudadas as suas expectativas quanto a notícias sobre centenas de mortos no Darfur, as cuecas do primeiro ministro, ataques à bomba no Terreiro do Paço ou uma sessão de bofetada no Bolhão, entre uma peixeira e Paulo Portas.

à tout propos (274)

Apetece fazer nada. Muito menos dizer. Ainda menos pensar. Não apetece e pronto! Porque a vida é feita de apetites e horas para os ter, hoje não se janta!

8 de agosto de 2007

Baiji


Apesar de, diariamente, os seres humanos se empenharem no extermínio da sua própria espécie, o objectivo parece ainda remoto. Apesar de tudo fazer para se aguentar no planeta, foi hoje declarado extinto o golfinho branco do rio Yangtze.

Uma perda irreversível para o planeta… efémero incómodo para uma Humanidade indiferente, irresponsável, alienada e demente, cuja expressão máxima coincide com a civilização industrial contemporânea.

7 de agosto de 2007

«Ali Só Há Pedras Soltas»

Em Portugal, no que toca à conservação e dignificação do património histórico, arquitectónico e cultural, há de tudo. É como na tropa. Mas são as intervenções, as que normalmente causam maior celeuma, acirram paixões e dividem «especialistas».

Recentemente, o IPPAR deu luz verde ao Município de Sines para reabrir uma porta no castelo local. Os populares não gostaram muito da ideia e é natural porque em alguns aspectos, a memória colectiva não alcança mais do que meia dúzia de décadas. Certo é que a dita porta, ali foi aberta e fechada uma série de vezes ao longo da história. Por razões de segurança para milhares de pessoas que ali permanecem durante a realização de um evento anual, mandou-se reabrir. E bem, quer pelo cuidado em envolver técnicos especializados e o próprio IPPAR, quer pela argumentação da edilidade, mais do que válida.

A mesma lógica instrumental relacionada com a adaptação a novas necessidades, esteve na origem na abertura de uma porta na cerca fernandina entre dois cubelos localizados entre as Portas de Alagoa e as Portas de Alconchel. Compreendemos a procura da contemporaneidade na decisão em rematar a porta com mármore (uma vez que se tratava de uma abertura absolutamente original), embora seja de difícil explicação o abandono do granito...

Entretanto, a Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz iniciou uma façanha arrojada em Monsaraz, não tanto pela intervenção em si mas pela forma encontrada: com maquinaria pesada, ao arrepio das regras e sem qualquer acompanhamento técnico, como acusa a ADIM (Associação de Defesa dos Interesses de Monsaraz). É interessante observar como os resquícios da calçada medieval – ladeiras de acesso à fortificação – estão a ser tratados e como impera recorrentemente entre alguns decisores – que não é o caso do exemplo de Sines nem, parcialmente, o caso de Évora, acima descritos – a incúria relativa ao que é de todos e o mais profundo desprezo por corpos de conhecimento validados cientificamente e pelo trabalho dos outros.


PS: Utilizei propositadamente a palavra «Resquícios» de calçada medieval quando me referia às ladeiras porque, como se sabe, no interior da fortificação e até há uma centena de anos atrás, os habitantes não pisavam mais do que terra batida. Só posteriormente foi instalada calçada. Para uns, medieval.

6 de agosto de 2007

Photo Finish Contra a Mudança


O devoto mais dogmático tem que acreditar temerosamente num mundo composto, no limite, por regularidades incontestáveis e balizas insuperáveis, criadas e governadas metafisicamente. Uns, pela mão invisível e outros, pela Invisível Mão. É a sua função neste mundo, crer na suprema predestinação dos homens e das coisas. Há um sentido para tudo, que se explica (i)rracionalmente com recurso à especulação metafísica. A Divina Providência encarregou-se de os prender a um lugar, a uma condição, contra a qual só os imbecis ousam lutar. Inutilmente. Ao primeiro, segue-se o segundo e a este, o terceiro. Na mesma ordem de chegada, uma e outra vez. E outra ainda. E as que forem necessárias. Sempre e intemporalmente: «já era assim no tempo dos antigos» … e assim permanecerá. O tempo histórico não passa assim, de puro solipsismo. E este é o reino da apatia, da irresponsabilidade e do conservadorismo mais fervoroso.

2 de agosto de 2007

Guloseimas Para as Tropas

Nuno Severiano Teixeira, insigne ministro da Defesa, deslocou-se hoje ao Líbano para dar guloseimas às tropas portuguesas ali estacionadas. Não se sabe se aguçou ou não apetites mas talvez fosse útil explicar ao senhor ministro que género de cobiça se poderá formar em alguns, ao ter diante de si um homem grisalho, vestido de camuflado militar e sem conter a insinuante gravata cor-de-rosa.

Bom Senso

Nos momentos cruciais da sua auto-reflexão enquanto empresa, a Vodafone tem revelado algum bom senso. Dada a qualidade das bandas contratadas, os concertos que esta empresa anda a fazer desaguar por esse país fora, não poderiam ser outra coisa senão «flash». Os gajos tocam uma ou duas, entram no autocarro e vão-se embora sem causar quase nenhum incómodo aos transeuntes, que lançam olhares de indiferença ao aparato.

30 de julho de 2007

Os Príncipes de Espanha não Phodem

A apreensão da revista espanhola «El Jueves» – ordenada por um juiz espanhol – que caricaturava os príncipes reais em pose sexual, visando satirizar por essa via a politica de natalidade do governo, configura não só um vulgar acto censório, como também, a defesa mais conservadora da moral e dos bons costumes da «realeza». Como se os príncipes não se soubessem defender. Mas na verdade, são os direitos da «realeza» a fornicar e não apenas a procriar, que estão em causa. O que o juiz queria mesmo, era dizer aos pobres dos príncipes que phoder não é para todos.
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PS: a purga foi de tal ordem que não encontro em lado nenhum [nos meandros da internet] a púdica caricatura.

Relações tensas entre os dois Estados

Segundo noticiou o jornal Público, a interrupção voluntária da gravidez (IVG) na República Popular da Madeira custaria ao respectivo governo, cerca de 230 mil euros/ano. Agastado com uma grave ingerência do Estado português, o Rei da ilha recusa-se a cumprir a lei, alegando que se trata de um encargo que não fora ratificado pela Assembleia Regional, desequilibrando de imediato as contas regionais, vulgo, mama. As relações entre os dois Estados estão agora mais tensas, com o representante da República Popular da Madeira a ameaçar cortar os fundos que recebe do Estado português.

Segundo parece ainda, este valor paga apenas 1 dos 8 minutos que são queimados no fogo de artifício que os populares do lado certo da ilha têm oportunidade de contemplar no início de cada ano.

26 de julho de 2007

Esquizofrenia e desenvolvimento, cap. 9

A indignação da população é inversamente proporcional à legitimidade que pensa ter. E o seu inverso, ou seja, não contestar a incompetência nem injuriar os incompetentes num país onde não existe economia paralela, onde há uma taxa de colecta fiscal irrepreensível e onde a população sacia os seus deveres cívicos em harmonia com as exigências democráticas. Mas não. A ignorância disfarça-se de soberba, a incompetência finge que é a mais caprichosa cólera e a mansidão dissimula-se de desilusão.

23 de julho de 2007

Silly Season

Um dos aspectos mais extraordinários da silly season dos blogues é a assombrosa capacidade de engordar ódios virtuais, de gerar déspotas das teclas e valorosos heróis anónimos (vide Mais Évora); sem que nada tenha sido dito, mesmo que não se vislumbre fio condutor, mesmo que nada haja para comentar. Findo o mergulho no universo bloguístico, tudo regressa à normal placidez e à frouxidão de quem nada tem para adiantar. Pensando bem… este costume não é exclusivo da seally season nem apanágio dos blogues.

13 de julho de 2007

à tout propos (273)

Vou de férias!

De-Talhes (GOLDEN ANT)


Utopia dourada… para dizer que o futuro é muito tempo.

De-Talhes (COISAS SIMPLES)


De coisas simples se tece a intrincada malha com que são feitas as vestes da vida. À semelhança do mundo concebido por uma criança, suspenso sobre si mesmo, que prescinde do acessório, do supérfluo, do dispensável. Enfim, prescinde do que não importa realmente para a concretização dos sonhos.

De-Talhes (LIBERDADES)


A sociedade é feliz, mesmo que não se tenham cumprido as nobres promessas da modernidade. Encaixados entre o sonho e a realidade, os homens procuram agora o prazer em forma de liberdade, incontida por guinchos provocados por descargas de adrenalina em locais próprios e aceitáveis para o efeito.

De-Talhes (LÁ FORA CÁ DENTRO)


Lá fora faz frio. A noite cai sobre a cidade, arrefecendo o sangue que lhe circula nas veias. Enquanto isso, os homens procuram comodidades artificiais, engendradas para teimar com a agreste impetuosidade do clima. «Um gin tónico, se faz favor, que o ar está abafado cá dentro». Os que passam esquivos ao largo, lançam olhares de soslaio para certificar quem não está e abandonam-se, encolhidos, ao anonimato da noite.

De-Talhes (MONTRA DE CULTURAS)


… hoje, é perfeitamente possível que um russo deguste uma iguaria belga, num restaurante de um marroquino em França, servido por um empregado grego. São estes os ares da maior globalização de que há memória, reflexivamente presentes no fundo de um prato.

De-Talhes (LUGARES)


Paralelamente, mesmo que entre uma e outra parte do mundo não distem mais do que um par de quilómetros, o sobejo e o desperdício produzidos confundem-se numa orgia de sabores, aromas, cores e ingredientes, confinada a um local circunscrito no espaço e no tempo, cujo acesso é filtrado pela força da carteira.

De-Talhes (JANELAS)


Paradoxalmente, estas crostas são habitadas por gente, por gente empenhada em afirmar a sua identidade, tingindo-a de matizes garridas e festivas. Na ausência de melhor sustento para o estômago, também nestes casos a existência é apaziguada por mecanismos que suavizam as dificuldades impostas pela realidade. Mas esta capacidade de adaptação, presente desde as tribos primitivas, continua a ser observável sempre que se transformam chapas de zinco em paredes habitacionais ou quando se improvisa uma antena de rádio com um simples arame. As periferias crescem a ver partir e chegar milhares de migrantes sem destino, errantes ao sabor da sorte e da variabilidade da força dos seus braços.

De-Talhes (NÃO-LUGARES)



Não obstante a prodigalidade da natureza e as conquistas da humanidade, são indisfarçáveis as inúmeras fragilidades de um gigante com pés de barro, sem saber o que fazer com as crostas inestéticas que lhe povoam a derme. Sem soluções, relega-as a um silenciado abandono, proliferando descontroladamente como metástases nos não-lugares; aqueles, para onde é útil não olhar.

11 de julho de 2007

De-Talhes (SÍSTOLE - DIÁSTOLE - SÍNCOPE?)


… para se entregarem de novo, rotineira e quotidianamente, às solicitações de uma sociedade dinâmica e altamente estruturada. Para que o sistema seja retroalimentado e não recue, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos e refluxos. Num vai e num vem, nalgum momento da vida, incompreendido e absurdo pelo ser imperfeito. Tal como as peças de Ionescu, embora aqui, são raras as vezes em que o pano encerra o último acto, resguardando os humanos de uma existência paradoxal.

De-Talhes (DO TRABALHO AO LAZER)


Os tempos são de progresso a um ritmo inaudito, criam-se estruturas para acolher os novos nómadas, cuja bagagem já não consiste nos artefactos de caça, recolecção, montagem e desmontagem de acampamentos. Multidões de pessoas movimentam-se constantemente para destinos longínquos, agora em busca do pão espiritual. Pontos de fuga de uma existência marcada pela complexidade quotidiana e pela necessidade de iludir a aborrecida norma.

De-Talhes (A SUPERIORIDADE DA CIÊNCIA)


E as crescentes necessidades do homem ordenam que, para sua comodidade, se façam alquimias, se levantem prédios, se cruzem rios e se desafiem as leis da natureza. Pasmado com tão assinaláveis conquistas, o homem anuncia a sua omnipotência, festejando-a com o domínio pela técnica e ciência, entrincheirando os instintos e os sentidos na imensa realização que são as civilizações humanas.

10 de julho de 2007

De-Talhes (TERRA - o pão não cai das árvores)


… para se deter numa qualquer pradaria complacente, olhar o horizonte e perceber que a mãe terra, não só é sua deusa e juiz mas também amante, fecundando-a na expectativa de daí retirar o seu pão. Agora, é a cultura que esgravata o chão, operando-lhe transformações ao ritmo dos desejos dos homens e não, como outrora, durante os ciclos e quantidades estipulados pela natureza que até aí votara as comunidades à caça e recolecção de alimentos.

à tout propos (272)

Talvez tivesse sido uma paragem de digestão, azia ou simplesmente atavismo. Daquele assim, digamos… prosaico, mesquinho e abespinhado com normalidades ultrapassadas há que séculos pela modernidade. Há sujeitos assim… ou melhor, predicados armados em sujeitos que se incomodam gravemente com, por exemplo, a música ambiente seleccionada para acompanhar a jantarada camone no nobre tabuleiro central da Praça de Giraldo. Para que estes senhores vindos lá do estrangeiro levem uma imagem de modernidade do país, nada como pregar-lhes com Enter Sandman dos Mettallica, a rufar pratos, talheres e com um bocadinho de sorte, a embelezar uma cena de pancadaria à antiga, para entreter a malta.

Mas para que nada faltasse, momentos depois, as cordas vocais dos do Teatro Regional da Serra do Montemuro e a atenção dos transeuntes eram postos à prova pelos automóveis, pelas motorizadas das pizzas e por galinhas vestidas com roupa de gente; pela tagarelice e pelo ruído, ou eram espanhóis ou galinhas. Disso tenho eu a certeza.

Felizmente, a Região de Turismo de Évora está muito atenta à qualidade, competências e profissionalismo dos operadores da restauração em Évora. Felizmente que a peça Splash do TRSM não foi exibida no separador central de uma auto-estrada.

9 de julho de 2007

De-Talhes (ATÉ AO FIM DO MUNDO)


… um caminho, ainda que por entre abissais gargantas de terra e vertiginosas cordilheiras, capaz de traçar estradas, romper barreiras e estender salpicos de civilização até aos píncaros mais inacessíveis e aos ermos mais trogloditas e desolados, só revelados pela intransigência humana.

De-Talhes (UM RUMO)


… guiando-os com mais ou menos acerto, rumo ao acolhedor regaço de um porto de abrigo. Como uma luz sinalizadora que lhes indica o melhor caminho a seguir. Esta busca de águas calmas, de compreender e domar o meio, pertence ao imaginário ancestral dos homens que ontem como hoje, lutam pela sobrevivência e reivindicam um percurso em permanente construção.

8 de julho de 2007

à tout propos (271)

É conhecido o mau-gosto da «generalidade» das pessoas. Eleger para melhor português de sempre um louco, responsável pelo afundamento da dignidade, emancipação e intelectualidade de um povo (o que restava), só pode ser uma escolha de mau-gosto. Compreende-se agora por que razão no concurso das 7 maravilhas de Portugal, não haviam portugueses em concurso ou, o povo em geral, enquanto entidade abstracta. É, no mínimo, triste, reduzir as maravilhas de um país a alguns monumentos históricos; antes a vizinha do 7º-A, o pão alentejano ou o pastel de nata...

De-Talhes (À CONQUISTA)


Desde tempos imemoriais, a necessidade e o medo e a crença, moldaram homens intrépidos, dispostos a arriscar a vida em aventuras contra o destino, as agruras e a – por vezes fatal – hostilidade do meio. Lançando-se temerariamente no desconhecido, a essas hordas de homens, sempre valeram o engenho, o sacrifício e a razão que os acostumaram a enfrentar e superar, permanentemente, o inevitável e decisivo desafio da sobrevivência.

7 de julho de 2007

De-Talhes (UM CAPRICHO?)



Ao contrário dos outros animais, o cérebro do ser humano está equipado com ferramentas racionais e sensíveis que lhe permitem transpor um cenário imaginado para uma dada realidade. Tais faculdades, permitem que um pintor cubra com neve uma qualquer paisagem desértica. Contudo, à semelhança de um estímulo sensorial que fornece uma informação errada ao cérebro (caso das visões no deserto), assim as alterações climáticas lançam a confusão meteorológica no planeta, invertendo a ordem natural das coisas.

6 de julho de 2007

De-Talhes (ÁGUA)


A alta montanha, os pólos e as zonas glaciares são importantíssimos reservatórios naturais de água. Aos primeiros raios de luz primaveril, os fios de água cristalina e fresca correm montanha abaixo em agitado frenesim, engrossando as ribeiras, rios e lagos, cuja biodiversidade conhece, nesses tempos, cíclicos rejuvenescimentos. Os degelos são fenómenos naturais desencadeados fundamentalmente pelo simples movimento de translação do planeta, o qual está na origem das estações do ano. Porém, têm vindo a agudizar-se nos últimos séculos, na medida da intensificação da intervenção humana, em quantidades e períodos substancialmente maiores.

5 de julho de 2007

De-Talhes (MUSA)


A natureza é generosa: dá alimento, segurança e bem-estar ao homem. Esse bem-estar indiciador de uma identidade [ab origine], que é consecutivamente reificada nos nossos jardins, no quadro de um pintor famoso ou no deleite proporcionado ao contemplar a sublime paisagem a partir de um miradouro. Mas sob o manto colorido e delicado, fonte de inspiração e confessor de amantes e artistas, homens e mulheres, oculta-se uma profusão de proveniências, denunciando as profundas transformações operadas pela cultura humana.

De-Talhes (MURALHA)


Qual poderoso exército de gigantes glaciais posicionados na linha da frente, o intransponível muro arruma a humanidade e a natureza nos respectivos compartimentos. Uma divisória. Contudo, o simples manuseamento de um utensílio de caça e os desenvolvimentos tecnológicos que se seguiram, viriam a criar pontes de diálogo entre aqueles dois mundos inicialmente apartados, posicionando-os numa relação de permanente e tensa interacção; por vezes destabilizadora dos equilíbrios estabelecidos.

4 de julho de 2007

De-Talhes (SÁBADO)


Madrugada. O sexto dia; aquele que Deus definiu para dar ao mundo quem o substituísse na criação de algumas coisas. Neste dia, Deus não foi sensível às queixas de Vinicius de Moraes, expressas no poema “O Dia da Criação” e acabou mesmo por agir como agiu. O mundo não mais seria o mesmo e, naquela madrugada, os céus agitaram-se revoltosamente por isso. Ao sexto dia, Deus brindou o mundo natural com um seu Alter-ego, capacitando-o como demiurgo do mundo cultural: o homem… e a mulher.

2 de julho de 2007

De-Talhes


A natureza e a cultura humana convivem em permanente dialéctica reconstrutiva, nem sempre sendo clara a destrinça destes dois mundos. De-Talhes propõe um olhar sobre este contínuo compromisso, procurando mostrar alguns talhes na natureza, tidos como inalterados e, outros, quotidianos, que suportam estilos de vida tal como os conhecemos hoje, profundamente alterados pelas trocas e enxertias da paisagem, das pessoas e dos hábitos. Da ideia de natureza aparentemente intacta, à representação de uma sociedade emancipada do mundo natural, De-Talhes sugere antes de mais, uma visita a algumas coisas simples que nos rodeiam e aos seus significados, sempre variáveis, sempre humanos…
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De-Talhes
Exposição de fotografia (2 a 23 de Julho)
Foyer do Centro Cultural de Redondo
... e aqui
Todas as fotos a apresentar aqui não reflectem inteiramente as fotos expostas no CCR: nem em resolução nem no corte.

26 de junho de 2007

Teorias de espaço público



O rapaz insistia em que não, que não se pode tirar fotos! Não, que ali quem manda é ele; e os seus. Com alguma diplomacia mas sem assinalável agilidade, lá ia apaziguando o ego do rapaz, redarguindo que ficasse descansado, que em atenção à senhora sua mãe e à sua imprevisível agitação - coisas que oportunamente simplifiquei com a palavra «respeito» - não tiraria mais fotografias. Mas lá lhe ia aborrecendo o juízo com um sorriso matreiro, tentando ensinar-lhe que aquilo era espaço público, com todas as implicações que isso tem. Ou não tem, no caso do rapaz, mais do que habituado a esgueirar-se do espaço público e do extenso normativo social e legal, que jamais entendeu. E que talvez nunca queira entender.

A vida destes rapazes é feita de desvios, de fugas a uma realidade desconhecida que não foi produto da sua acção concreta, é feita enfim, de vivências marginais e semi-nomadas aonde as estruturas sociais nem sequer têm a pretensão de chegar. Ele tinha a sua razão. Eu teria a minha.

Apertei-lhe a mão, devolvi-lhe as costas e regressei de imediato nos instantes seguintes para lhe perguntar: «e à minha namorada - que vai andar agora - posso tirar?». Sem o orgulho ferido, sem a sua autoridade posta em causa, assentiu, fazendo um gesto largo e generoso com a mão. Omnipotente. O canguru tornou-se dromedário e levou aquela gente toda a viajar. O rapaz, permaneceu petrificado de costas para a viagem.

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25 de junho de 2007

Um sistema eleitoral para os golias

Na passada semana, durante um jantar de «trabalho» dos deputados socialistas ocorrido no Convento de Cristo em Tomar, a reforma do sistema eleitoral foi assunto que se manteve arredado do debate. Nem levemente aflorado. Não foi certamente por isso que o líder parlamentar socialista olhou com reserva para uma proposta de reforma do sistema eleitoral, apresentada pelo PSD uns dias depois.

Contudo, não deixa de ser curioso notar este aparente desinteresse sobre uma matéria que andou desfraldada nas bandeiras do PS. Para além da criação de círculos uninominais no continente, o PSD propõe também a redução do número de deputados à Assembleia da República.

Com os círculos uninominais, a representação proporcional não é garantida, como tentamos ilustrar aqui e aqui. Por outro lado, o argumento segundo o qual, com este arranjo se pretende aproximar os deputados (eleitos ad hominem) dos eleitores, é um argumento falacioso.
Por duas razões: em primeiro lugar, são raros os deputados que, uma vez eleitos, mantém ligações com as populações dos distritos pelos quais foram eleitos e intervêm na Assembleia da República nessa condição; em segundo lugar, diz o n.º 2 do Artigo 152º da Constituição da República Portuguesa que “os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos”. Esta regra, convenhamos, tem sido muito útil para justificar o «abandono» dos círculos – sejam eles uninominais ou plurinominais – pelos deputados durante uma legislatura inteira, a não ser quando há presidências abertas ou campanhas eleitorais. Ora, como eles costumam dizer, o deputado está em permanente comunicação com os círculos através das concelhias dos partidos que os elegem. Nesse caso, nada muda em termos de aproximação entre eleitos e eleitores porque tudo está bem, ou seja, não há crise de representação que justifique uma reforma do sistema eleitoral.

Quanto ao emagrecimento da Assembleia da República, releva novamente a estocada na representatividade, uma vez que, à diminuição do número de deputados, corresponderá uma diminuição da representação proporcional dos círculos com menos eleitores. Em termos líquidos e porque a distribuição dos mandatos é feita tendo em conta um rácio calculado a partir do número de eleitores, o Distrito de Évora elegeria, por hipótese, 1 deputado, tanto quanto uma qualquer freguesia de Lisboa. Para que se tenha noção, actualmente aos 5,17% de cidadãos residentes no Alentejo, correspondem 3,48% dos deputados. Portanto, em matéria de equidade, equilíbrio territorial e solidariedade, estamos conversados…

Mas, subsiste ainda um aspecto que merece alguma atenção para memória futura. A estratégia do PS governamental tem passado muito pelo esgotamento da principal oposição através da invasão do espaço político tradicionalmente da direita. O silêncio do PS não descansa a democracia representativa nem o pluralismo democrático. E criticavam estes o «centralismo democrático» do PCP…

22 de junho de 2007

à tout propos (270)

Que tipo de justificação podem dar os apoiantes de Hugo Chavez, para as atitudes verdadeiramente autocráticas e fascistas como a que o levou a encerrar a Rádio Caracas Televisión, por exemplo? Não só estimula o culto do chefe enquanto figura messiânica, libertadora do jugo americano como decreta o unanimismo através da propaganda e censura. Verdadeiramente arrepiante, por exemplo, o programa televisivo que apresenta ao domingo. Terá a veleidade de, ele próprio, criar a sua própria religião que, de resto, andará arredada do comunismo que invoca abusivamente e em vão? Entretanto, quem libertará depois o povo venezuelano do jugo chavenho? Os americanos? Valha-nos deus...

21 de junho de 2007

Évora

ADVERTÊNCIA: Este post foi escrito na sequência de um artigo publicado em Diana FM. Para além disso… não creio que tenha linguagem obscena pelo que, qualquer um o pode ler.


Não restam grandes dúvidas sobre a vocação de Évora para o turismo. Nomeadamente, para o chamado turismo de qualidade – que não significa necessariamente turismo de luxo nem monocultura do turismo – o qual se confunde em parte com a dinamização cultural de um lugar. Cada vez mais, as rotas turísticas internacionais apontam para o casamento entre aquilo que poderemos chamar a cultura material (património arquitectónico, a gastronomia, o artesanato, etc.) e a denominada cultura imaterial (usos e costumes, desenvolvimento e manifestação de actividades artísticas de rua e nos teatros, auditórios, etc.).

Claro que, face à descoincidência entre aquelas duas dimensões e as estratégias, estamos pouco acima do groud zero em matéria de planeamento estratégico e articulação prática entre os diversos intervenientes culturais, hoteleiros, comerciais, institucionais e associativos.

Não obstante, Évora tem tudo. Tem uma cultura invejável, que é a do Alentejo e tem, também, infra-estruturas; embora por vezes tenhamos a tendência para obliterar esse facto, escudando-nos nas megalomanias disfuncionais e desérticas que proliferam por esse país fora.

Com efeito, dispomos de um dos mais belos teatros do país; de razoáveis auditórios na CCDR, Fundação Eugénio de Almeida e Universidade que, dão garantias para colóquios e seminários nacionais e internacionais; temos o Soror Mariana, as instalações da Academia de Música Eborense; temos galerias de arte e salas de exposições; temos um edifício monumental - Salão Central - que pode recuperar a dignidade de outrora, tal como a sede emprestada da Harmonia, localizada no coração da cidade; temos os ex-celeiros da EPAC onde associações como a Pé-de-Xumbo, A Bruxa Teatro e a Sociedade Harmonia Eborense desenvolvem regulares e notáveis actividades (peças de teatro, concertos, workshops); temos colectividades musicais, grupos corais e um renovado Convento dos Remédios; temos uma companhia profissional de teatro com reconhecidos méritos, algumas companhias de teatro amador, cineclubes e outros agentes culturais mais ou menos anónimos; temos a BIME, temos o FIKE; temos o Mercado Municipal; temos a Fábrica da Música e companhias de dança; temos salões de colectividades na cidade e nas freguesias rurais que nos dão garantias para descentralizar acções; temos um jardim público, temos praças deslumbrantes, temos igrejas onde podem ser apresentadas exposições, concertos, etc; temos o Convento do Carmo; temos hotéis para todos os gostos, carteiras e potencialidades; temos equipamentos desportivos de clubes e associações que podem muito bem ser rentabilizados como contrapartida pela contribuição pública que recebem; temos artesãos e as suas próprias galerias; temos uma instituição universitária que importa e é urgente apoiar, aproveitando justamente todo o potencial que os docentes e alunos têm, seja no domínio científico, seja no campo das artes performativas; e podia aqui enumerar tantos outros exemplos...

Temos, enfim, a cidade de Évora; temos todos nós porque, de um modo ou outro, nos pertence a todos. E é isto, precisamente tudo isto, que apaixona quem nos visita e que se pode revelar uma vantagem (para além das já estafadas argumentações das acessibilidades, do enquadramento geográfico, da segurança, do clima, etc).

E vamos ter também um novo pavilhão multiusos, capaz de albergar muitos espectadores e alguma variedade de eventos. Neste como em outros equipamentos municipais, é necessário encontrar sinergias entre todos, de modo a que todos estes equipamentos estejam abertos à população e visitantes e que, transpirem o bulício diário a quem os visita, esse bulício quotidiano da preparação cenográfica de uma peça de teatro, do workshop de cinema para crianças, do ensaio geral de uma orquestra ou da simples montagem de uma exposição de escultura para enriquecer uma mostra de produtos regionais.

Sem ponta de ironia, basta que tenhamos um pouco de imaginação para rentabilizar os espaços e o que é produzido pela sociedade civil através de associações, empresas, companhias, grupos e grupelhos.

Por conseguinte, não é falta de infra-estruturas que temos. Olhe-se para cidades europeias hiper atractivas do ponto de vista cultural como Praga ou Barcelona, onde antigas fábricas e oficinas dão lugar a salas de exposições, de concertos e colóquios.

Falta sim, um arranjo estratégico, um plano. Exequível, mobilizador, funcional e atractivo, cujas acções complementem a riqueza da paisagem, da monumentalidade e dos costumes desta terra. Que se aproveite o que há e, seja articulado organizadamente e, que se mostre ao mundo a dimensão de uma terra com as marcas de algumas das mais extraordinárias civilizações de que há memória.

Falta também um compromisso das entidades públicas e privadas com a execução desse plano. E rigor. Rigor, criatividade e simpatia, pois não é ração para bestas o que vendemos (com o devido respeito pelos vendedores de ração).

E tudo isto para quê? Para que as pessoas vivam melhor no futuro. Apenas.

20 de junho de 2007

Os amigos são para as ocasiões

A tendência de boa parte dos eleitores associar o seu sentido de voto nas eleições autárquicas à cor do governo, para daí, os seus lugarejos retirarem quaisquer tipo de favorecimentos, só reflecte essa ideia cancerígena e feudal que grassa, segundo a qual, os amigos são para as ocasiões… Não fica nada bem a Fernando Negrão invocar subliminarmente essa mesma ideia para justificar a sua desvantagem; nem a António Costa, servir-se dela para conquistar votos nas eleições intercalares de Lisboa. Nem um nem outro prestam um bom serviço à democracia. São regulares… mas isso também não é novidade. Novidade seria se, subitamente, o país interiorizasse a expressão: «amigo não empata amigo».
Se Costa ganhar, abrirá o caminho para a maior vitória política de Alberto João Jardim nos últimos 200 anos, porque não se aguentará com esta lei das finanças locais; a não ser que tenha bons e generosos amigos no governo...

Um mapa cor-de-rosa e laranja




Nem só os «Fatias de Cá» oferecem jantares no Convento de Cristo sempre que ali encenam peças de teatro; cansados de comer um pouco por todo o país, os deputados socialistas viraram-se ontem para os lados do Nabão e, segundo parece, apesar do farto e bem regado jantar, ainda terão conseguido articular alguns vocábulos. Noticia o jornal Público que num assunto não tocaram eles: na reforma do sistema eleitoral. Desconhecem-se as razões, que, desde a embriaguez até à estratégia do sigilo, poderiam ser imensas.

Regressando um pouco atrás, uma das mais controversas medidas da reforma do sistema eleitoral é precisamente a substituição dos actuais círculos plurinominais por círculos uninominais. Esta singular medida tem o poder de extinguir os partidos minoritários e cimentar decisivamente o bipartidarismo. As consequências são óbvias, nomeadamente engendrar a necessidade de alterar a própria Constituição da República Portuguesa. Apesar de no seu Artigo 149º serem previstos os círculos plurinominais e os círculos uninominais desde que seja assegurado o sistema de representação proporcional (a forma de conversão de votos em mandatos, de acordo com o Artigo 133º), há no entanto, que apelar ao Artigo 2º, cuja leitura é inequívoca quando invoca que «a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão…». E também a leitura dada pelo Artigo 113º, n.º 5: «É reconhecido às minorias o direito de oposição democrática, nos termos da Constituição e da Lei».

Ora, o pluripartidarismo é justamente o arranjo mais eficaz para garantir o pluralismo. Contudo, como se sabe, os círculos uninominais favorecem o bipartidarismo porque serão vencidos cronicamente pelos partidos mais representados, sem a possibilidade de, nesse círculo, haver um «segundo lugar». Ou seja, acabam as veleidades para blocos de esquerda, partidos comunistas, partidos populares, etc.

Não me parece que, nessa matéria, os exemplos dos EUA e da Inglaterra, sejam os mais adequados a Portugal por razões históricas e culturais que importa debater mas não aqui, neste momento.

Em suma, a reforma do sistema eleitoral que contemple a criação de círculos uninominais, serve ao PS e ao PSD e a um país que se vê a duas cores. Como a foto acima: tudo a branco e... encarnado.
Em todo o caso, é um bom indício que no Convento de Cristo não tenha sido abordado esse assunto. A credibilização do sistema político passa por ele e não pelo sistema eleitoral...

Textos complementares: Que arquitectura eleitoral? (21.4.2005)