1 de fevereiro de 2008

Remodelação governamental

Ainda com respeito à recente remodelação do governo, que implicou a saída de um ministro (da saúde) e motivou a entrada de dois (saúde e cultura), não creio que haja muito a acrescentar à miríade colectiva de opinion makers nacionais (das televisões ao balcão pegajoso de mármore numa das poucas tascas que a ASAE ainda não fechou à bastonada).

Na óptica do primeiro-ministro José Pinto de Sousa, parece claro que um ministro é apenas mais um elemento inserido numa vasta equipa. E as reformas encetadas com maior ou menor oportunidade, devem ser entendidas a partir desse mesmo prisma e não como consequência de uma visão sectorial ou pessoal. Prevalece o colectivo, não fora o protagonismo insolente constantemente a pregar partidas ao Eng.º. Pinto de Sousa.

Isso mesmo procurou clarificar o primeiro-ministro quando desautorizou publicamente o ministro das obras públicas, naquela conferência de imprensa confrangedora por ocasião do anúncio da localização do novo aeroporto de Lisboa. Por isso manteve o homem na pasta, qual fiel bibelot.

Por conseguinte, desta remodelação governamental, é lícito que não se espere uma alteração na orientação política do governo. Apesar do actual caminho escolhido revelar permanentemente outro ponto cardeal que não o tradicional e esperado norte magnético.

Porém, mais do que uma simples e útil decapitação, a exoneração do ministro Correia de Campos soa a estratégia política traçada logo no início do mandato. Com a cumplicidade do até então ministro da saúde, iniciou-se uma cruzada de higienização do Serviço Nacional de Saúde, assente numa abordagem de saneamento financeiro. Quase em exclusivo. A meio do mandato e embrulhado no previsível coro de protestos, teria chegado a altura certa para dar sinais de desdramatização ao pagode (vulgo populaça) e colocar alguma água na fervura. Morna, para não arrefecer.

A escolha de Ana Maria Teodoro Jorge não é obviamente ingénua. O facto de ser médica ajuda a mitigar a oposição interna dos hospitais e da Ordem dos Médicos. A condição de apoiante de Manuel Alegre nas últimas presidenciais contra o candidato queimado deliberadamente por José Pinto de Sousa, vem apaziguar um foco de contestação interna (a ala esquerda do PS), amaciando o partido com vista às legislativas de 2009. Daqui a meia dúzia de meses já ninguém se lembra e Correia de Campos poderá integrar tranquilamente o conselho de administração de um qualquer instituto ou empresa pública. Desde que seja perto de um hospital central, não vá o diabo tecê-las e tenha que ser transportado pelos bombeiros no caso de adoecer...

31 de janeiro de 2008

Quebra da rotina

Desde que o ministério da saúde decidiu assumir este rol de reformas - umas penalizadoras dos bons e outras penalizadoras dos maus - não me lembro da paz quotidiana ser tanta vez rasgada pelos esgares angustiosos das ambulâncias do INEM e VMER. Essa é mais uma das consequências do fecho de urgências e de SAP's. Essa e, naturalmente, a quebra da monotonia nas estradas, vilas e cidades portuguesas. Bom, mas a malta sempre se desvia com mais vontade e elevado sentido de cooperação do que sendo surpreendida pelos batedores da BT ao serviço das pressas do Sr. ministro ou da impertinência dos jogadores de futebol.
Uma palavra para os bombeiros, enfermeiros e médicos que, para suprir as lacunas acentuadas, arriscam a vida no trânsito para cumprir as metas dos outros.
... lá vão eles de regresso ao hospital.

29 de janeiro de 2008

A política já não é séria

Pacheco Pereira é da opinião que Francisco Sá Carneiro não sobreviveria na mediatizada política actual porque era um homem sério. Talvez isso explique por que razão João Cravinho acusa ter-se deparado com uma muralha quando apresentou ao parlamento a sua proposta de medidas anti-corrupção. Não é que a corrupção não existisse no tempo de Sá Carneiro. Acontece que era uma coisa séria, com regras, disciplinada.

25 de janeiro de 2008

Estudos para a imperfeição das coisas v

"O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei»."

Bernardo Soares (2001), Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, pp. 165.

24 de janeiro de 2008

Raskolnikov e K são dissemelhantes

As diferenças entre Raskolnikov e este “K” são a natureza do crime cometido e as necessárias motivações, a montante.
O personagem russo reconhece o acto e ancora-o numa ideologia, enquanto o segundo sofre duplamente as externalidades desse acto. A derradeira atitude deste “K” aproxima-o da densidade psicológica de Meursault (O Estrangeiro, de Camus) quando este atinge mortalmente o árabe (é um ou o outro, ao contrário de Raskolnikov) e, posteriormente, quando se submete a uma execução sem se dignar ser defendido por ninguém que não a sua própria vontade. A partir do momento em que mata o árabe, Meursault passa finalmente a ser dono do seu destino, tal como este “K”, depois de se ver envolvido e condenado num processo que não compreende.

Duplo homicídio

Pior do que serem funcionários públicos ou, até mesmo, zelosos serviçais de governos em democracia, é a independência dos magistrados discricionários e os pulhas que defendem o livre-arbítrio da assimetria institucionalizada!

Entretanto, inconformado com a podridão
que envolveu O Processo, Kafka encontrou a solução para "K", indicando-lhe a única forma de ver devolvidas a humanidade e a dignidade impiamente roubadas por uma das mais sinistras e repugnantes faces das civilizações. Isto acontece quando e sempre que a justiça chã dos homens distorce a magna justiça das coisas.

22 de janeiro de 2008

Prémio... nobel da paz!

Numa altura em que o ex-caudilho indonésio está às portas da morte, Ramos Horta, ex-nobel da paz ex aequo com D. Ximenes Belo, vem, numa atitude de enfadonho beatismo, pedir ao povo timorense que perdoe os crimes do general Suharto. Infelizmente, esta demonstração de infinita santidade não constitui surpresa nem uma extraordinária capacidade de absolvição.

17 de janeiro de 2008

O grilo bem falante

Os árbitros europeus, sim, conhecem a fundo o valor da lusa Pátria. Elevaram a presidente do Comité de Arbitragem das Ligas Europeias, Vítor Pereira. Esta alta do futebol português há-de justificar esse grande feito de terem pregado com o impronunciável Olegário Benquerença como quarto árbitro no próximo europeu de futebol. Nem para bandeirinha... Este estrabismo a preto e branco tem paralelo na titubeante política nacional: um fala escorreitamente e o outro decide conforme o declive do relvado.

16 de janeiro de 2008

Das Caldas ao Aeroporto

Ser político degenerou numa profissão de risco. E ser autarca, ainda mais. Não satisfeito com a pesada cruz, o senhor Fernando Costa, insigne presidente da câmara municipal das Caldas da Rainha, enterrou definitivamente a questão no programa da Fátima. Cumprindo escrupulosamente o que não se lhe pedia, a nervosa criatura acabaria por incendiar os notáveis espectadores com humor do mais refinado, quando, desferindo um derradeiro e arrebatado ataque à idoneidade do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), se incluiu no lote dos que conhecem perfeitamente a secular arte de enviesamento de estudos ou viciação de pareceres técnicos. Um momento delicioso oferecido de borla aos telespectadores e, claro, aos investigadores da Polícia Judiciária.

Mas, em todo o caso, a coisa estava mal dividida porque se haviam dois do lado da Ota (o agiota encapuzado Henrique Neto e a ressabiada comunista Zita Seabra), não se percebe o que estava o ministro das obras públicas a fazer do lado de Alcochete. Infelizmente, não havia ninguém deste lado porque a pessoa que restava era o presidente do LNEC. De resto, o programa consistiu em certificar publicamente a declaração de idoneidade moral e técnica do LNEC. Tudo o resto, fait divers, com excepção daquele deleitoso esfregar de nódoas que Lino e Seabra tiveram oportunidade de trocar a respeito dos respectivos passados de aparente má memória.

Quanto ao desditoso Costa, deus o conserve vivo, pois daqueles, só nas Caldas.

14 de janeiro de 2008

Os argumentistas americanos on strike

De onde menos se espera, chegam-nos por vezes os mais surpreendentes exemplos. Multifacetados em todas as suas dimensões e manifestações, os Estados Unidos da América revelam-se frequentemente um melting pot atafulhado de contradições, tanto obscurantistas quanto emancipadoras.

Independentemente da legitimidade que tenham, e isto merece ser dito, os guionistas americanos exemplificaram à UGT e à CGTP que a luta não é à sexta-feira nem numa «ponte» entre feriado e fim-de-semana. Podemos agora dizer que são uns privilegiados entre milhões de compatriotas e que se trata de uma profissão atípica. Certo. Mas convém não esquecer que, neste capítulo, a cultura cívica americana está orientada para a acção de grupos de pressão, para as grandes acções de protesto com milhares de pessoas em torno das grandes e apaixonantes causas e não para a convocação de greves laborais. Por outro lado, é uma cultura marcada pelo ideário dos direitos, das liberdades e da realização humana.

Em contrapartida, também é conveniente não esquecer que em Portugal, as profissões atípicas são das que [talvez] menos se manifestam, estando na posse de uma das melhores armas: a sua imprescindibilidade.

Os guionistas americanos estão em greve há cerca de três meses e ontem mandaram abaixo os Globos de Ouro.
Por cá, a solidariedade dos seus pares tem a expressão de sessenta minutos que consistem em fazer nada. E eventualmente fumar dois cigarros a mais do que o habitual.

13 de janeiro de 2008

Regular, regular

Em política, a avaliação das performances é muitas vezes enublada pelas duas balizas temporais e conjunturais que marcam o início e o fim dos mandatos: os efeitos sentidos com o anúncio de uma nova linha de actuação e a melosa sedução cor-de-rosa dos períodos pré-eleitoriais. Normalmente não coincidem em estilo.

Bush, o cowboy, é uma excepção. Todos os seus índices de regularidade são enfadonhamente altos, acentuados pela promessa de terminar o reinado da mesma forma como o começou: em guerra.

11 de janeiro de 2008

Só para duros!

Explica a ministra que isto das novas oportunidades não é bem assim… diz ela que “confortável é estar a estudar na idade própria com todas as condições”, rejeitando uma certa ideia de laxismo facilitista que se instalou. Totalmente falsa e injusta.

Até porque, como toda a gente sabe e desejaria, confortável é estudar na idade própria, reprovar consecutivamente, receber um automóvel no décimo oitavo aniversário e, lá pelos trinta e cinco e muita estroinice, começar a trabalhar com ordenado de administrador. Infelizmente, não é para todos mas Maria de Lurdes Rodrigues, a ministra, prometeu corrigir eventuais assimetrias.

10 de janeiro de 2008

Há coisas fantásticas, não há?


Contra todas as expectativas, o governo deu o dito por não dito e anunciou a construção do novo e «faraónico» aeroporto na aridez que se estende a sul do rio Tejo. Lá estava na altura da epifania, bem comportado ao lado do senhor primeiro, o belicoso senhor ministro das obras públicas. Desta vez, convenientemente sedado. E convencido.

9 de janeiro de 2008

Do Tratado de Lisboa



A celeuma parece despropositada porque quando o senhor candidato pelo círculo eleitoral de Castelo Branco, José Pinto de Sousa, anunciou que um seu governo sujeitaria a ratificação popular o Tratado Constitucional Europeu, estava-se naturalmente a referir ao projecto constitucional então liderado por Giscard d’Estaing, sepultado pelos referendos francês e holandês alguns meses após as eleições legislativas portuguesas.

Numa democracia representativa, a legitimidade democrática do governo para aprovar a sua primadonna internacional por via parlamentar, não pode ser obviamente posta em causa. Em democracia, os 35,74% de abstenção não chegam...
Apesar de a nossa Constituição admitir uma forma de democracia directa através da consulta popular, não se compreende esta suposta hesitação do governo quando, em outras ocasiões, não se coibiu de afirmar peremptoriamente a sua posição. Afinal de contas, o Tratado de Lisboa é a sua master piece

Uma suposta ilegitimidade só se colocaria no plano legal, como no caso irlandês, cuja constituição não admite outra aprovação que não a que emane directamente do povo, neste caso, por via referendaria.

Admitindo a pressão dos restantes países para que não fosse Portugal a fazer desta vez o papel de franceses e holandeses em 2005, agravando a crise institucional europeia, Portugal e os portugueses teriam tido muito mais a ganhar se a população fosse consultada directamente e se este novo tratado tivesse sido parido antes das negociações do Quadro de Referência Estratégica Regional 2007-2013. Mas também foi por isso mesmo que só agora, durante a presidência portuguesa da União Europeia, se abriu espaço político para que Sócrates fizesse o brilharete.

7 de janeiro de 2008

Crise nos impropérios?

Vivemos numa época de prosperidade. O desafogo e a fartura é tanta que não há palavra que seja objecto das tradicionais poupanças familiares, não há frase que fique escondida na manga à espera de uma boa ocasião, em particular os mais néscios e vulgares palavrões. Se existe, que se gaste, parecem ser as palavras de ordem. Assim se esbanjam verbos e substantivos deficientemente articulados e jogados ao abandono do lixo. Sobretudo quando não são bem aplicados, pois é natural que o crescimento da injúria gratuita tenda a ocorrer na exacta proporção da vida lixada.


5 de janeiro de 2008

O tamanho conta...

Na democracia portuguesa e noutras suas congéneres, afirmar um ideal político é coisa de muitos porque as democracias não são anarquias espartilhadas por milhentas sensibilidades e pelas usuais birras, agrupadas em torno da meia dúzia de gatos-pingados do costume. Nada disso!
Por isso, ao abrigo da nossa Lei dos Partidos, foram consagrados os legítimos monopólios das ideologias e das diatribes partidárias: os comunistas registaram o comunismo, os socialistas ficaram com o socialismo e os sociais-democratas assenhorearam-se do liberalismo (caseiramente tratado como um socialismo liberal).
A marca dos cinco mil militantes passa a delimitar, para os opulentos cozinheiros da dita lei, a fasquia entre um partido político gorducho e um escanzelado movimento de pessoas, sem eira nem beira.

É isto a democracia, um regime político em que «o tamanho conta»...

4 de janeiro de 2008

Lisboa-Dakar, o quarto dos brinquedos

Depois do epopeico Paris-Dakar se ter transformado num comercial Paris-Barcelona-Dakar e, recentemente, num Lisboa-Dakar, a dimensão do risco, da imprevisibilidade e da aventura esgotou-se. Nesta dimensão, o maior e estimulante desafio consistia em pôr à prova as capacidades de cada um, das máquinas e recursos tão escassos quanto falíveis, num ambiente permanentemente inóspito.

De agora em diante, esta dimensão tende a ser arrecadada pelo entretenimento, pelos riscos controlados e pela glória partilhada por construtores e patrocinadores. A dimensão artesanal e romântica da coisa cedeu à contemporânea obsessão com o controlo dos riscos e externalidades.

Apesar de continuar a ser um desporto de elites, no actual Lisboa-Dakar, continuam a haver «aventureiros» de todos os timbres e feições. Contudo, o risco resume-se a uma noite mal dormida e aos inevitáveis acidentes de viação, cuja evacuação se faz por helicóptero em 20 minutos.

Por se ter transformado num evento à escala global, onde múltiplos interesses se conjugam, o governo francês entrou também na corrida, utilizando este evento como extensão instrumental da sua sobranceria. A morte de quatro franceses será razão suficiente para cancelar o circo. Enquanto isso, nas cidades de todo o mundo são diariamente assassinadas milhares de pessoas, ao passo que outros milhares sucumbem no mundo inteiro à intolerância, à guerra, a doenças e à fome.

3 de janeiro de 2008

Embrutecer

Pouco haverá pior no mundo do que morrer sem estar morto, envelhecer aprisionado num corpo jovem. Acocorar-se nas próprias fezes de lamentos e esperar pacientemente que se ensopem as calças desse torpor desprezível.
E dar por isso pouco antes de morrer.

2 de janeiro de 2008

Bom ano 2008!

Neste país apático e avesso a turbulências, é um grupo de gestores e aventureiros de alcatifa, quem diz a cada um o que deve fazer em sua casa. Há que admiti-lo.
Incapazes na sua imensa lassidão, a maioria dos proprietários dos estabelecimentos de restauração e hotelaria do país que acolheram com agrado a lei do tabaco, jamais tiveram a honestidade de proibir o fumo. Com convicção e frontalidade. Poucos, muito poucos, são dignos dessa respeitável atitude.
Considerando que a partir daqui, só serão fumadores passivos os familiares dos fumadores [cujos custos são diluídos no orçamento familiar] e aqueles que, tendo locais alternativos, frequentem a casa de amigos fumadores, é legítimo que se espere uma redução do imposto sobre o consumo de tabaco.
Ou, em alternativa, a extinção do imposto, isentando o Serviço Nacional de Saúde da responsabilidade sobre o tratamento de doenças associadas ao tabagismo. Mas a decisão reveladora de maior sensatez teria lugar se o grupelho eleito democraticamente os tivesse no sítio e incluísse o tabaco no lote dos produtos ilícitos. Essa é que é de homem!

Proibir também a alimentação em excesso, os hábitos de vida pouco saudáveis, os ritmos de vida exigidos pelo princípio de desempenho, o álcool, o trabalho para lá das 5h00 diárias, a circulação automóvel, as fábricas poluentes, o abate de árvores, as religiões, as paixões e outras grandes causas de morbilidade e mortalidade nesta região a que nos habituaram a chamar Portugal.

30 de dezembro de 2007

«É para arrancar, Sr. Doutor, tem cáries!»

Não se compreende muito bem, vindo de quem vem. Com a candidatura para a liderança do BCP do, até aqui administrador da Caixa Geral de Depósitos - Santos Ferreira – este governo deu mais um importante passo em direcção ao desmantelamento do Estado, prometido há dias pelo líder da oposição e do PSD – Luís Filipe Menezes. Num momento em que as populações andam em polvorosa porque lhes fecham os centros de saúde, maternidades e serviços de apoio permanente [num quadro geral de dificuldades: pesada carga fiscal, desemprego, diminuição das regalias sociais, baixos salários], Menezes veio a público prometer que, logo que chegue a primeiro-ministro, ocupar-se-á de «desmantelar o Estado». Até aqui não restam dúvidas: o homem é coerente.

Entretanto, sentindo-se ultrapassado pela genialidade de tão inteligente sugestão, o governo deu provas irrefutáveis de que está atento ao país, antecipando de imediato a jogada.

Porém, ao vir agora acusar o governo de tomar decisões quarto-mundistas, Luís Filipe Menezes, homem iluminado e sofisticado, revelou-se uma vez mais um mau perdedor, prestando a sua homenagem à escola santanista.

Daqui se conclui que esta ideia não era mais do que show off do social-democrata, talvez para competir com o outro. Daqui se conclui também, que o homem não queria desmantelar o Estado, coisa nenhuma. É só paleio…



Ionescu, esse, não faria melhor!

28 de dezembro de 2007

à tout propos (285)

O nosso corpo republicano de segurança, a GNR, alvitrou punições implacáveis aos infractores do código da estrada durante a tradicional «Operação Ano Novo». A promessa de esquartejamento das finanças familiars e do que resta à maioria dos portugueses para comprar comida, é particularmente ameaçadora para os condutores surpreendidos sob o efeito de álcool e drogas. Isto, claro, se excluirmos os carros diplomáticos, os deputados, os ricos, os primos, os tios, os amigos, as amantes e todos os colegas das forças policiais que, nessa altura, ostentam normalmente o cartão de identificação junto ao selo do seguro.
O normal, portanto.

26 de dezembro de 2007

Sacos diferentes

A taxionomia é a universal, desde o domínio eucariota, reino animal (...), passando pela classe dos mamíferos (…) até chegar à espécie do homo sapiens. Porém, insatisfeitos com esta classificação, há quem não dispense uma rotulagem mais precisa para assim verem facilitados os respectivos e acanhados raciocínios intelectuais. Depois da espécie, sucedem-se a raça, o género, a proveniência e uma série de rótulos morais para indexar aos bem e aos mal comportados. A dimensão moral é assim transversal à classificação biológica.

A coisa é audaciosa mas tem pernas para andar, bastando para isso que se encomendem as estrelas para a lapela.

A Alquimia do Sucesso

Atenção, lavradores! Estão aí novas oportunidades lançadas pelo governo... e veículos todo-o-terreno a estrear. Entretanto, também foi criado um programa muito útil para quem via vedado o seu acesso aos fundos comunitários por não ter habilitações literárias suficientes.

Em breve, Portugal deixará de ser habitado por analfabetos pobres, que se transformarão em doutores e engenheiros ricos. E eminentemente ignorantes.

19 de dezembro de 2007

Alegoria do túnel salvador

O ministro das obras públicas já nos habituou a tiradas fabulosas e a soirées bem passadas ao converter-se numa das principais referências dos gatos fedorentos. O «deserto» por exemplo, com que qualificou a margem sul do Tejo, franqueia a aguda boçalidade da criatura. Ou o célebre «jamé», para justificar a recusa da opção Ota na construção do novo aeroporto.

Na sua mais recente aparição, agora naquele registo «hollywoodesco» do político não alarmista, Mário Lino declarou a sua total confiança no túnel do Terreiro do Paço, sublinhando que, num cenário catastrófico, seria aquele o primeiro abrigo onde procuraria refúgio.

Podia ter dito que seria o segundo ou o terceiro local mas não, o homem nem pensaria duas vezes, tantas quantas pensou em toda a sua vida. Em vão.

Das duas… duas: se, por um lado, a sua patética verborreia não tem fim, por outro lado, já percebeu que não teria lugar no avião do Sócrates…
PS: jamé, do francês jamais (trad. portuguesa: jamais)

à tout propos (284)

Hoje não almocei. Fiquei à espera que alguém da ASAE me viesse explicar como me sentar sem tocar na cadeira.

18 de dezembro de 2007

Oxalá

A partir do dia 1 de Janeiro, Portugal será o país onde não se morre com cancro do pulmão, será o país onde se morre por doenças cardio-vasculares associadas à duvidosa alimentação exigida pela ASAE e aos estilos de vida impostos por essa corja de falsos moralistas que desgovernam o país. Será também o país onde a conflitualidade social e as neuras aumentarão. Mas para pagar os cuidados de saúde com neuroses, psicoses e depressões, já não haverá a importante receita fiscal do tabaco. Arranjar-se-á outra merda qualquer!

17 de dezembro de 2007

Apaziguar consciências

Natascha Kampusch, a rapariga austríaca que no ano passado logrou escapar de um longo cativeiro num anexo da cave de Wolfgang Priklopil, virou agora estrela de televisão. O canal Puls 4 anunciou que Natascha será anfitriã de um programa de televisão, no decurso do qual entrevistará personalidades austríacas e internacionais.

Esta, podia ser simplesmente uma história de sucesso, mau grado todas as vicissitudes passadas pela rapariga. Mas essa, seria a leitura mínima. Proponho duas leituras alternativas.

Em primeiro lugar, a da cadeia de televisão que se prepara para fazer um dinheirão à conta da dramática imagem de Natascha, explorando justamente essa dupla faceta de sobrevivente e de espoliada.
Em segundo lugar, no plano simbólico, esta acção também poderá ser interpretada como uma compensação por danos morais, causados pelo falhanço da sociedade austríaca, aqui acusada por não ter zelado convenientemente pela criança e por se permitir conviver com os monstros que o dever ser lhe diz para combater.

13 de dezembro de 2007

Canetas de prata?!

São conhecidas as distintas aptidões dos portugueses para a realização de eventos. De grandes eventos. A Expo 98, o Euro 2004, a Cimeira UE/África, a Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz, a Exposição do Mundo Português, as almoçaradas no tabuleiro da ponte ou, de má memória, a Cimeira das Lajes.

Mas era perfeitamente escusado associar essa inigualável capacidade a tão inóspito mau gosto: canetas de prata para oferecer aos primos europeus?!

Simbolicamente, não só exibe a classe de pessoas que governam um país desgastado pela mão pesada da carga fiscal sobre os magros rendimentos da maioria das famílias, como também é evocativo daquilo que, por vezes, somos em algumas ocasiões: saloios com complexos de inferioridade que têm na ostentação dos títulos, cargos e bens, o ovo de Colombo da emancipação humana.

11 de dezembro de 2007

O martírio dos sociólogos

Na esteira dos grandes estudos realizados em Portugal, a ANECRA (Associação Nacional das Empresas do Comércio e Reparação Automóvel) desenvolveu um documento de grande utilidade sobre o número de veículos automóveis per capita. Mais, apresentou-o publicamente. De resto, a complexa investigação consistiu em apurar o número de automóveis e dividi-los pelo número de cabeças existentes em cada Distrito.

Mas a excepcionalidade da coisa parece estar na análise do autor do estudo. Augusto Bernardo conclui que o Distrito de Leiria é aquele onde há mais veículos automóveis por habitante e remete a explicação para a pujança económica daquela zona do país. Dois mais dois…

Acontece que, não resistindo à tentação de considerar o vigor económico de uma região como a única variável potencialmente independente, Augusto Bernardo excluiu variáveis como as estruturas existentes de transportes colectivos, a dispersão dos lugares, a cultura do individualismo e da afirmação social, o congestionamento de tráfego, a rede de estradas, a taxa de mobilidade diária, a percentagem de despesas com carros no orçamento das famílias e numa perspectiva comparada, etc. Mas nada disto significa que o senhor se tenha precipitado nas conclusões retiradas. Nem o contrário.

10 de dezembro de 2007

Um murro no abastado estômago do Ocidente



A Cimeira UE-África patrocinada pela presidência portuguesa da União Europeia e que se realizou em Lisboa durante este fim-de-semana, teve alguns pontos altos, apesar do previsível fiasco. O Parque das Nações encheu-se de excêntricos, cujo exibicionismo rompeu com a habitual apatia da capital. Os hotéis atulharam-se contraditoriamente com pouca gente, facto que explicará a condescendência das autoridades relativamente ao campismo selvagem ocorrido em S. Julião da Barra.
Não obstante a cimeira ter sido eclipsada pelos luxuosos desfiles, convertendo-se num evidente fait-divers, durante este fim-de-semana fomos brindados com a sumptuosidade de inimitáveis pérolas exóticas a que certamente não estamos habituados no nosso desinteressante lufa-lufa quotidiano.

Uma das mais brilhantes pérolas, foi-nos generosamente oferecida pelo jornal Público no sábado que, à guisa de publicidade paga, nos fez chegar uma página completa com a mensagem do visionário líbio, Kadhafy.

Assente numa inovadora metodologia epistemológica, o Irmão Kadhafy sustenta inexoravelmente que “a análise intelectual é o código dos acontecimentos”, concluindo em seguida que “o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado na morte colectiva”.

Este dilecto sábio demonstra, pela sua longa experiência, estar consciente da gravidade da situação, reconhecendo com humildade os limites da utilização de armas de guerra. Mais, denunciando o exagero do seu manuseamento, o místico patriarca entroniza as virtudes de uma morte ocorrida na solidão e magnanimidade de Deus. Ímpios os que negam a privacidade na hora da morte aos que são crivados de balas a um passo de valas comuns.

Inundada por uma iconografia muito própria em que as sete imagens de Kadhafy alternam com imagens de soldados a disparar, a página do Público termina a gloriosa apresentação do site de Kadhafy na Internet com uma mensagem de esperança e de amor.
Isso mesmo é confirmado pela fotografia disposta no canto inferior esquerdo, em que um indivíduo surge serenamente montado na sua bicicleta alada, indiferente à catalítica coluna de fumo que se ergue nas suas costas.

Mas a fotografia ficaria desasada sem o apelo triunfante a rematar: “pela piedade humana há necessidade de apoiar o meu apelo para anular as armas metralhadoras exceptuando as outras armas convencionais”. Com esta frase, o bom e avisado Irmão parece postular um regresso às origens, ao corpo a corpo, à gravata colombiana e à secagem das tripas ao sol depois de um glorioso embate com calhaus, mosquetes, adagas e catanas. Um purista, portanto, saudoso dos tempos em que as guerras eram guerras e, cada tiro, um acto divino abençoado pelos céus.

Resta-nos agradecer à presidência portuguesa da União Europeia por estes momentos de memorável lazer e quebra da terrível monotonia que se abateu sobre este país. Resta-nos também a esperança que a União Europeia redobre as indemnizações aos países africanos pelos danos sofridos com o colonialismo e que passem a ser enviadas em remessas de armas convencionais, minas anti-pessoal, bombardeiros, ferraris adaptados à savana, mansões na Quinta do Lago e viagens à Europa. Para poupar no câmbio.

7 de dezembro de 2007

...Só andam para trás...



Hoje, no caminho para o trabalho, uma amiga comentava sobre os lugares de estacionamento criados em Aveiro, destinados exclusivamente às mulheres automobilistas. Os argumentos mais rebuscados para justificar tão miserável «discriminação positiva» não têm o dom de convencer pessoas que acumulem com a inteligência, a sensatez. No final, a referida amiga concluiu, em tom de desabafo, que “as coisas, em vez de andarem para a frente, só andam para trás”.

Essa expressão teve um eco em mim, desfasado no espaço e no tempo pois quando ela a pronunciou, fui de imediato invadido pela imagem da Cimeira UE-África e, em particular, pela ligeireza com que princípios fundamentais são escamoteados em detrimento das oportunidades económicas que o continente africano representa para o mundo inteiro.

Dois segundos depois regressei à realidade e constatei, para meu conforto, que se tais princípios e valores fossem um requisito, não haveria quem pudesse participar. Menos mal, apaziguou-se-me a consciência...

3 de dezembro de 2007

Democratas e democracias

O homem que hoje reconheceu sem pruridos a derrota, louvando a maturidade democrática demonstrada pela sociedade venezuelana, é o mesmo que extingue focos de oposição política com métodos fascistas e que se preparava para fazer aprovar uma reforma constitucional em que ele, a sua pessoa, seria elevada à estatura monárquica de um regime absolutista.

A Venezuela encontra-se assim na dilacerante fronteira entre a democracia de Chavez e a tirania de Chavez, cujo limbo assenta num tremendo equívoco conceptual e na consequente crise de identidade do presidente venezuelano: a democracia pode ser definida muito prosaicamente como uma forma de governo do povo, enquanto entidade abstracta e universal. Mas Hugo Chavez não é o povo, não é abstracto e, muito menos, universal.

2 de dezembro de 2007

à tout propos (283)

Ao anunciar a construção de uma autoestrada com portagem que ligará Sines a Beja, o governo deu provas de uma invulgar sapiência: anular de antemão a mais-valia que representaria para as transportadoras uma ligação do porto de Sines à Europa.

28 de novembro de 2007

Diz-me com quem andas...

Em trinta e três anos, o índice de desenvolvimento humano elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), desceu pela primeira vez em Portugal. A essa fatalidade não será certamente alheio o facto de, sob a égide da presidência da União Europeia, Portugal se disponibilizar para acolher com garbo provinciano, alguns dos tiranos mais execráveis de que há memória. Depois de Bush ou Hugo Chavez, Sócrates estenderá a mão a parasitas como Mugabe ou José Eduardo dos Santos. Atento a esta espécie de osmose ou simples mutualismo entre seres unicelulares, o PNUD viu-se num beco sem saída, apesar das ameaças de Scolari.

24 de novembro de 2007

Princípio da Inexplicabilidade

...E depois, há coisas inexplicáveis. Seja ou não observado o princípio da sobriedade. A dimensão do absurdo que as comporta é de tal forma imensurável que a sua explicação é, por assim dizer, inexplicável. O choque traumático provocado pela inesperada descarga de água gelada sobre alguém, causa na vítima uma sensação de perplexidade, a qual, só ao cabo de algumas fracções de segundo se desvanece.
Excluindo a loucura, o dia das mentiras ou a pura troça, não sei se alguma vez conseguirá alguém explicar a nomeação de Durão Barroso para Nobel da Paz, proposta por Ramos Horta.

23 de novembro de 2007

Princípio da Sobriedade

À semelhança de outras qualidades, também a sobriedade é assimetricamente distribuída pelos homens. E, tanto pelo registo das suas intervenções públicas como pelo seu percurso académico, José Manuel Pureza denota, não raras vezes, um espírito acutilante mas sóbrio e coerente.

Talvez por isso destaque mais se o vemos estoicamente agarrado a um único argumento, como Ulisses ao mastro do seu barco, enfrentando as vagas do mar e o canto das ninfas.

Segundo Pureza (hoje no Conselho Superior da Antena 1), a construção do novo aeroporto deve responder ao critério da territorialidade, supondo que dessa forma servirá mais comodamente a maioria da população. Nesse caso, não tem dúvidas quanto à implementação desta infraestrutura na margem norte do rio Tejo.

Contudo, esse princípio quantitativo merece tanta ponderação quanta a merecem o princípio do desenvolvimento estratégico e o princípio da gestão racional dos recursos.

Não escandalizaria se, devidamente ponderados estes princípios e uma mão cheia de variáveis (entre as quais, o TGV…), se chegasse à conclusão que a melhor localização do aeroporto fosse… Madrid.

20 de novembro de 2007

O «Deus-Juíz» ou a confusão entre autonomia e autismo

António Martins, Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, subiu ao palco mediático para, em estouvados bicos dos pés, sublinhar o estatuto dos magistrados enquanto garante da democracia e das instituições democráticas, desde que disponham de independência e autonomia. Em contrapartida, não devem ser confundidos com a condição de «juíz-funcionário público».

Acontece que esta condição preexiste aos juízes. Resulta da acção legislativa dos parlamentos nacionais pelo que, as normas nacionais regulam e sancionam administrativamente uma enorme parcela da vida quotidiana sem a necessidade de intervenção dos tribunais nem do «deus-juíz».

Não está minimamente em causa a independência dos juízes e, acima destes, de todo o sistema judicial. Porém, há regras às quais estes «deuses» se devem submeter, como a restante populaça. Para bem, justamente, da democracia.

Será um sinal dos tempos ou apenas uma má interpretação da autonomia, que adiante aparece metamorfoseada em puro e boçal autismo: contra dois pareceres científicos, o Tribunal da Relação de Lisboa concordou com o despedimento por justa causa de um cozinheiro infectado com o HIV pelo hotel onde trabalhava, alegando haver risco de contaminação para os clientes.

Quer se venha ou não a verificar tal contaminação. O risco [de que fala o acórdão] representa um perigo em potência, presente igualmente quando se atravessa uma passadeira, quando nos aquecemos à lareira, quando se vai ao estádio, quando se discute no trânsito com um automobilista mais impaciente ou, simplesmente, quando se ingere água de uma garrafa de plástico.

O Tribunal da Relação de Lisboa podia simplesmente, neste como em outros casos, dispensar pareceres que fossem potencialmente adversos ou contrários à interpretação dos «deuses-juízes», cuja leitura da realidade parece estar acima de quaisquer outras. Faria assim as vezes do governo e assumia definitivamente a tirânica arrogância dos deuses.
Para já, há muito a fazer. Logo a começar pelas escolas: explicar que, embora ligeiramente semelhantes morfologicamente, as palavras «autonomia» e «autismo» têm na verdade, significados distintos.

9 de novembro de 2007

Imaginações

Imagine que no caminho de casa, regressado das longas filas do IRS, o insigne leitor se deparava com três transeuntes que, com modos pouco cordatos, o convidavam a oferecer-lhes gentilmente a sua própria carteira, abençoado por estalos, bofetadas, um ou dois pontapés nas carnes e um dente estilhaçado. Por casualidade, mera, passava a banda de música em peso que assistira ao insólito acontecimento sem nada poder fazer senão tocar uma morna caboverdeana.

Acto contínuo, o senhor leitor mais a banda cumprem civicamente com os direitos e deveres, respectivamente, dando conta do sucedido às autoridades competentes, as quais, num registo Hill Street, lançam-se apaixonadamente no encalço dos meliantes, sulcando o empedrado com os derrapanços dos esforçados Fiat Marea.

Imagine também que, após a recuperação da estimada e inviolada carteira, lhe chega uma factura da polícia com o descritivo da despesa. Tudo ali, tintim por tintim, incluído o valor de cada tabefe disciplinador aplicado pelos senhores agentes aos mariolas detidos.

Imagine agora finalmente, a cara de alguns armadores portugueses, cujas tripulações foram resgatadas pela Força Aérea Portuguesa, no momento em que verificaram ser devedores ao Estado por operações de salvamento em alto mar. Taqueospariu, como diz o outro...

5 de novembro de 2007

Mais vale tarde do que nunca?

Foi hoje anunciada pelo ministro do ambiente, a intenção de desenvolver um plano para a criação de um centro de reprodução artificial de lince ibérico, a instalar durante o próximo ano em Silves. Para que tal venha a ser possível, o denodado ministro assinou um pacto com o seu congénere espanhol, que nos permitirá beneficiar do apoio técnico e de especimens que vêm sendo reproduzidos em Espanha.
Este apoio essencial não acontece por acaso. Há quase 9 anos, em Fevereiro de 1999, o governo espanhol aprovou a Estratégia para la conservación del lince ibérico (lynx pardinus), cuja elaboração contou com a participação de várias entidades, entre as quais o luso Instituto de Conservação da Natureza (ICN). Foi ao abrigo deste plano que os espanhóis iniciaram o seu programa de reprodução em cativeiro, com os frágeis resultados que são conhecidos: alguns dos quais a montante, porque os habitats se distribuem ao longo da linha de fronteira, tornando-se indispensável garantir medidas de protecção paralelas às instituídas em Espanha.
Mas convém salientar a dimensão deste medonho atraso estrutural a que nem a participação do ICN foi capaz de obviar. Considerado muito raro em 1965 e ameaçado em 1986, só em 2007 é que o governo português decide achar que tem condições para intervir e participar futuramente na conservação de uma espécie endémica na península, unindo-se a uma timida iniciativa espanhola que remonta a 1994, Aplicación de medidas de conservación del lince ibérico, servindo de elemento estruturante para a estratégia aprovada em 1999. Quanto a nós...

29 de outubro de 2007

Sem quartel...

O Sr. Pedro Santana Lopes, denodado e inextinguível guerreiro da política caseira, aproveitou a Linha da Frente que lhe é gentilmente cedida pela TSF para disparar o seu arcabuz, como lhe compete. Desta feita, contra a inconsequência e a imbecilidade evidenciada por sucessivos ministros da educação, para quem uma reforma do sector deverá forçosamente espelhar a linda cara de quem as anuncia. Reformas inconsequentes, tolas e arrogantes, pelo que a originalidade da intervenção do Sr. Lopes é prima da banalidade.

Mas o que ressalta verdadeiramente é a expressão utilizada pelo mesmo para, com elevado sentido de Estado, apelar ao bom senso dos partidos em torno deste desígnio nacional que é a educação, rogando àqueles para que renunciem ao «combate sem tréguas» que normalmente os anima.

Esta expressão é reveladora e, mesmo sem tomar disso consciência, o Sr. Lopes demonstrou inequivocamente qual a sua atitude de partida, a forma como vê o combate político. Uma regra [quebrada por esta excepção proposta pelo Sr. Lopes] a qual poderá ser naturalmente extensível a outras áreas e a outros comparsas do seu e de outros partidos. A regra é, por conseguinte, um combate sem tréguas, mesmo que isso implique o bombardeamento de civis…

22 de outubro de 2007

Quarto aniversário ITL

As coisas e os termos que as motivam sao históricos em virtude de um arranjo espacio-temporal que os cria, recria, condiciona ou anula. E porque sao históricos, há que marcar as coisas, arranjar-lhes uma simbologia adequada e enquadrá-las nos ciclos de tempo que coincidem com os ritmos da Terra. Apenas isso. O suficiente para motivar mais coisas e celebrá-las no tempo certo. Sempre assim, dentro dos carris do tempo. In Tenui Labor ou, a procura de sínteses cumpriu quatro anos de existência, com mais ou menos energia, com mais ou menos oportunidade e acerto. Mas sempre in tenui labor.

11 de outubro de 2007

O que nos calha do prejuízo americano?

São variadas, as maleitas sociais que afligem a sociedade norte-americana. Os sinais de doença são inequívocos. O caminho construído até aos indícios das primeiras flatulências ostensivas é desafiado por elementos de recuo, seja no plano do pensamento e da emancipação humana, seja no plano da afirmação de um país enquanto potência mundial arrogante e autista. E tudo isto se passa no quadro de uma transformação de valores operada por dinâmicas de amálgamas sub-culturais, étnicas e sub-urbanas, assentes numa nebulosa de abundância e degradação.

A frequência com que uma criança pega numa arma e «limpa» uma sala cheia de gente é sintomática, alarmante e indiciadora de graves patologias sociais e sociológicas. Mas a cultura da violência não se fica por aqui e manifesta-se ao nível da linguagem, das modas, da música e da própria cosmovisão do sucesso, alicerçada no paradigma original da conquista do oeste, representado pelas figuras do winner e do looser: em casa, no trabalho e nas escolas.

Acontece que no resto do mundo floresce a cultura hip hop, a alimentação é MacDonalds, a bebida é Coca-Cola, o cinema (a grande arma da ideologia capitalista) é de Hollywood e o software é Microsoft...
É também daí que vem Bush e a força que o elegeu.

9 de outubro de 2007

A maioria absoluta do PCP

Onde quer que o homem apareça, é vaiado, assobiado e apupado. Saia para onde saia, esteja com quem estiver. Este transtorno causado pela vivência democrática já o levou a acusar o Partido Comunista de desenvolver uma oculta e ignominiosa estratégia de desgaste da sua figura, com ataques pessoais, vis e rasteiros.
Que faça como o resto dos portugueses e recorra aos tribunais, se tal é a confiança...

Com o característico contradiscurso ideológico, Jerónimo de Sousa produziu uma tirada bestial, certamente a da semana: «se os manifestantes fossem todos comunistas, o PCP teria maioria absoluta».
Ora, mas se todos fossem honestos, reconheceriam serenamente que a CGTP tende a agir concertadamente com o PCP, sem complexos. Mais, complexos de quê e porquê se, afinal, a matriz ideológica é a mesma?

Todavia, essa afinidade não faz da intersindical um mero apêndice do PCP. Quando se trata da defesa de direitos e privilégios, não há esquerda nem direita que valham a quem os põe em causa. Por essa razão, Jerónimo de Sousa aventou a afirmação com tão grande à vontade. Nestes ajuntamentos, é natural topar um coveiro, bruto como o mar a espirrar insultos, barricado lado a lado com uma beata professora do Ensino Secundário pouco dada a aturar fedelhos.

É dever dos muitos, avaliar casuisticamente o sentido das reformas encetadas pelo governo e os famosos «ataques aos direitos adquiridos», que não é coisa para brincar. Se é ou não a melhor estratégia, é justo que se avalie. Porém, nenhum dos sectores visados pode ter a veleidade e a ousadia de negar o despesismo, o laissez faire, o marasmo e a delapidação dos recursos do Estado, demasiadas vezes em nome de interesses corporativos, partidários, económicos e… autopromocionais. Por má organização, por maus dirigentes e por maus políticos, da esquerda à direita que sempre viram nos funcionários públicos pouco mais do que boletins de voto.

Por fim, foi a democracia que legitimou Sócrates pelo que, no mínimo, é exigível que o primeiro-ministro digira democraticamente a contestação de que é alvo. Sem vitimizações e sem tiques autoritários.

Aragens e resfriados na saúde portuguesa

O insigne bastonário da Ordem dos Médicos torceu o nariz à declaração «insensata» (no dizer do Doutor Agostinho Lopes), pronunciada pelo não menos excelso ministro da Saúde. Esta pessoa afiançou a pretensão do governo de aumentar em 30% o número de vagas de medicina, contando com isso solucionar os problemas da saúde, da educação e da justiça, de uma só assentada. O Sr. ministro não as mede nem tem metas, isso é claro. Por seu turno, o Sr. Bastonário mostrou-se inquietado com o desemprego que tantos dos seus pares poderão vir a enfrentar, dado o desinvestimento público no Serviço Nacional de Saúde.

Enquanto isso, numa terra longínqua e distante do módico mundo destas criaturas, sucedem-se as «vagas carenciadas» a médicos estrangeiros e os «turbo-médicos». Tudo isto, num quadro em que se sucede, por sua vez, a abertura frenética de novos estabelecimentos privados de saúde. Em que ficamos, nós, os que cevamos generosamente a coisa?

Finalmente, sendo dois respeitáveis defensores do liberalismo económico, certamente não encontrarão inconveniente num certo desempregozinho estrutural, nessa aragem social transformada em precariedade laboral que gera um acréscimo de qualidade pela competitividade e engrossa os cabelos no peito.

6 de outubro de 2007

Da Divisão Tripartida dos Poderes...

A propósito dos ataques infundados ao funcionamento do sistema judicial português, qualquer membro do actual governo, qualquer antigo ministro da justiça ou deputado destacado para a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tem motivos mais do que suficientes para se regozijar com o trabalho desenvolvido ao longo de décadas na justiça e defesa dos direitos humanos. Sem com isso pregar cagadelas no caminho inglório do Eng.º João Cravinho. Um dos exemplos mais extraordinários é o tratamento correctíssimo dado a um caso que foi resolvido sem mácula há uns anos atrás pelos céleres tribunais e serviços de investigação criminal, um tal «Processo Casa Pia».

5 de outubro de 2007

O sistema educativo nos 97 anos da República

Nas comemorações do nonagésimo sétimo aniversário da implantação da República, Cavaco Silva centrou o seu discurso na educação e numa nova abordagem sobre a mesma, que a enquadre definitivamente na realidade e necessidades do país. Como o exigem as circunstâncias e o protocolo, Cavaco Silva leu um texto conciliador, sensato e de alento às tropas.

Do longo discurso, destacam-se duas ideias que, sem serem inovadoras, não foram escamoteadas como habitualmente. A primeira resulta da observação à acção das escolas ao longo dos últimos noventa e oito anos, a qual jamais conseguiu passar o patamar do sofrível. A segunda ideia resume-se pelas próprias palavras do Presidente da República, segundo o qual, «a educação em Portugal foi sempre tratada como um problema de governo e não de regime». Esta afirmação é uma farpa que assenta inteirinha e se acomoda no lombo dos que nos governam e dos que se lhes opõem.

O discurso foi bonito, de estadista, mobilizador e quase de ir às lágrimas. Digno de consensos alargados.

Porém, o que fazer com uma política educativa assente no pilar do saneamento financeiro sem outras contrapartidas? O que fazer com o excesso de professores irresponsavelmente formados pela também irresponsável gestão da autonomia universitária pelas universidades? O que fazer com a injusta e desmotivante condição de saltimbancos de Estado a que são votados os professores? O que fazer com a indignidade que caiu sobre o corpo docente, manietado por alunos, colegas, pais? O que fazer com os milhares de maus profissionais saídos das universidades, cujas aptidões foram analisadas à luz das receitas que cada cabeça de gado proporciona às instituições de ensino superior? O que fazer com a alarmante ocupação de postos de trabalho no ensino superior por indivíduos incompetentes na profissão mas competentes na amizade? O que fazer com alunos provenientes de famílias com fracos recursos financeiros, de famílias desestruturadas, de bairros problemáticos, cuja única motivação em ir à escola é a ditadura da escolaridade obrigatória e, em muitos casos, o lanche? O que fazer com um sistema de ensino que está organizado para as estatísticas a enviar para a União Europeia e não voltado para as reais necessidades académicas e profissionais do país? O que fazer com pais incompetentes, irresponsáveis e eminentemente irracionais? O que fazer com pais ausentes, obstinados com as suas carreirinhas profissionais ou domesticados pela opressão fomentada por patrões gananciosos? O que fazer com um país incapaz de compreender que não podem haver qualificações de primeira e qualificações de segunda? O que fazer com a classe de políticos que temos? O que fazer com o futuro do país, onde as reformas do sistema educativo se sucedem de tal forma que podem ser associadas ao nome do ministro que assinou o documento?

O que fazer com as crianças, frequentemente as últimas a serem ouvidas em qualquer processo, mesmo que seja o seu?

4 de outubro de 2007

No Mundo de Oz

O Sr. Eng.º José Crav(Oz)inho, ou é parvo ou então, faz-se. De tempos a tempos lá vem este malandro iludir o gentio idóneo e os moralistas republicanos com a conversa da corrupção. Mas a coisa agrava-se por insistir numa metodologia fracassada de tão ingénua. Em vez de sair decidido para a rua à catanada, não é que o homem insiste em levar areia para a praia? Que é o mesmo que largar a raposa no galinheiro? Não se faz… é parvo!

Alla Akbar

Asseverando uma autoridade moral inquestionável em assuntos metafísicos e científicos, o homem afirmou perante o auditóro da Antena 1, ser «cristão, apostólico, português, católico e português», parecendo querer dizer portanto, vejam lá com quem é que estão a falar. Esclarecedor para quem, como o governo, ataca impiamente a religião oficial de Estado ao pretender condicionar o serviço religioso nos hospitais. O homem disse também que era de Braga. Mas, apesar de tanta coincidência, não teria um cinto de explosivos atado à cintura.

3 de outubro de 2007

Pensar positivo

A crise de golos e exibições e atitude e de tudo no Benfica é alarmante. O Conselho de Ministros tocou a reunir de emergência para debater este caso verdadeiramente dramático para a identidade nacional. Será justo vituperar os atletas que, apesar de não cantarem o hino desesperadamente como a selecção de rugby, jamais aconselhariam a bola a não entrar? A culpa é do Camacho, naturalmente. Ele é que os manda manterem a posse da bola a todo o custo... é escusado pedir-lhes que, uma vez com a bola nos pés, se desfaçam dela. Como se não bastasse ser esférica.

2 de outubro de 2007

à tout propos (281)

Da esquerda à direita, todos acham que Portugal tem um sistema eleitoral democrático e justo que privilegia a igualdade política, saída da revolução de Abril. Típico, Portugal é um país de descobridores.

Chavez alcança 1º Lugar

Depois de destronar Jean-Marie Le Pen, Alberto João Jardim viu a sua posição ameaçada com a eleição de Luís Filipe Menezes mas acabou mesmo por ser ultrapassado no ranking do populismo, agora liderado por Hugo Chavez. O príncipe venezuelano lançou recentemente um CD, no qual interpreta grandes temas da canção venezuelana. Indefectível, o veterano Paulo Portas permanece no top ten do ranking, revelando a sua excessiva dependência de mercados do peixe em época de campanha eleitoral.

1 de outubro de 2007

à tout propos (280)

Como na vida há determinados acontecimentos que, por força da sua natureza, reificam obstinadamente o que os franceses designam pomposamente de dejà vu - ou, mais prosaico, «já visto» - uma farândola de militantes sociais democratas juntou-se à chusma do costume, nesse acto solene que se segue a uma vitória eleitoral: o beija-mão ao novo messias. Pelo sim, pelo não e antes que cheirem a terra, que se recolham os figos do chão.

29 de setembro de 2007

De cacete na mão

Houve eleições no país social democrata: as «bases» foram intimadas para se pronunciarem sobre qual o melhor padrasto. E a família levantou temerosamente os braços aos céus, invocou os deuses e, sem resposta satisfatória, ficou-se pelo arruaceiro.

27 de setembro de 2007

Santana, o Ímpio

Mais ou menos extemporaneamente, mais ou menos espectacularmente, mais ou menos justificadamente, Santana Lopes protagonizou um episódio memorável na SIC Notícias. Para utilizar uma terminologia jornalística, o episódio é um verdadeiro furo. Por essa razão, não se compreende aquele pranto delator de Ricardo Costa, irmão de ministro e, por casualidade, director da estação televisiva em causa. A SIC Notícias criou um caso que, por coincidência, vai justamente de encontro a essa condição necrófaga e sensacionalista de grande parte da comunicação social.

Os principais órgãos de comunicação social sofrem de um mal estrutural que se ancora necessariamente no frenesim em produzir notícias em série, estar em todo o lado e a qualquer hora. Dizer o que é, o que não é e, o pior de tudo, o que deveria ser. 'taqueospariu.

Santana Lopes tem razão, a chegada do Mourinho ao aeroporto de Lisboa é bem mais importante para o desenlace do Mundo do que qualquer outro assunto sobre o qual um político falhado se poderia pronunciar. Santana sabe-o e teve a coragem de o dizer. Se não fosse a chegada do Mourinho seria a cor das meias da mãe da Maddie. Ou a nova gravata do Herman José.

Infelizmente, Ricardo Costa também tem razão. É perfeitamente «normal» que situações como aquela interrupção aconteçam em televisão. E, francamente, estúpidas. Se há algo a lamentar é o estado a que chegou a construção social da normalidade.
'taqueverdadeiramenteospariuatodos!!

Get in the ring

O PSD não tem adicionado substanciais contributos à democracia, é pacifico. Mas transformar uma disputa de liderança numa brejeira luta de galos com tempo de antena, pode tornar-se saturante. Até para o governo e restante oposição, cada vez mais divididos entre compaixão e a perplexidade. Para que as coisas fossem perfeitas, Menezes e Mendes poderiam encetar uma nova forma de governação, assente na bicefalia. Ou convidar Santana Lopes para um triunvirato e, assim, garantir um verdadeiro freak show.

25 de setembro de 2007

As escolhas de Sócrates


O homem que hoje discursará em nome da União Europeia na Assembleia-geral das Nações Unidas, apelando à defesa dos direitos humanos e à abolição da pena capital, é o mesmo que se refere às divergências da Europa em relação a Mugabe como «questões laterais».


Mas esta obstinação de Sócrates tem uma justificação que radica na igualdade de tratamento concedida aos restantes ditadores que aqui se deslocarão para a cimeira enquanto nos seus países as populações definham com subnutrição, doenças e guerras.
A meu ver, Sócrates devia ser obrigado a escolher entre a realpolitik e a realhipocrisik.

Lições e Moral

No desmentido habitual, Mahmoud Ahmadinejad desmente ter desmentido que desmentiu a negação do Holocausto. Entre o Holocausto e a sua negação não vai mais do que a espessura de uma folha de alface. A que o líder iraniano depositaria pesarosamente no ground zero do World Trade Center em memória dos mártires árabes que cometeram a proeza de acertar em cheio num dos simbolos financeiros do capitalismo.
E Ahmadinejad desmente o que tiver que desmentir, conquanto a sua alteridade lhe seja contemporânea. De peito aberto, o eixo do mal entrou pela porta grande da América e, debalde, não aceita lições de ninguém. Muito menos de moral.

24 de setembro de 2007

Fait divers de uma geração à rasca

Quando Vicente Jorge Silva se referiu à geração dos nascidos entre finais da década de 60 e inícios da década de 70, como «geração rasca», jamais pressuporia que estaria na mira de um país em peso com tão infeliz afirmação. Ao fazê-lo, veio pôr em evidência as fragilidades da sua própria geração e das que a precedem, justamente por obrigar a dita «geração rasca» a viver no lodo criado e estimulado pelas antecessoras. As fiéis depositárias do poder, da moral pouco certeira e dos maus costumes que caberá aos rascas solucionar no futuro. Logo se vê...

Mas quando, muito justamente, nessa manobra de remissão colectiva que consistiu em apelidar afinal a referida geração de enrascada, eis que desponta a tropelia do costume ao dar o dito pelo não dito. O que aflige é afinal, constatar que nem sequer é verdadeiramente enrascada, porque, contrariamente às estatísticas invocadas, lá se vai anuindo com os maravilhosos cursos superiores que desdramatizam a realidade dos remediados e se exultam os exemplares casos de sucesso de uma minoria que singrou no mundinho dos pais. Tudo o resto são fait divers
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PS: a relação dos «casos» romantizados no artigo do semanário Visão, é inversamente proporcional às estatísticas: médicos TVI, actrizes TVI, autarcas e Secretários-de-estado?

18 de setembro de 2007

Código Penal

A polémica e obsessiva publicação do Novo Código Penal em tempo record pelo governo tem, para já, algumas consequências imediatas: recusa que sejam revistos e rectificados aspectos processuais mal formulados; incomodou os principais actores (Ministério Público, Magistrados e polícias) ao responsabilizá-los directamente pelos incompreensíveis prazos de prisão preventiva, habitualmente determinada para permitir a investigação e não para aguardar julgamento; permitiu um arrazoado especulativo de profissionais da comunicação social, uns menos sérios e outros menos expeditos, lançando a confusão deliberada sobre a população; e contribui para desacreditar o próprio governo, polícias e os tribunais portugueses perante a opinião pública mundial, em particular no contexto Maddie, que sujeita o país a uma exposição mediática invulgar.

17 de setembro de 2007

Inglês Amigo

Sócrates disse hoje ter sido recebido pelo líder de um país amigo. Isso foi antes de ter tido a oportunidade de se expressar naquele inglês que aprendeu na Universidade Independente, tão escorreito quanto o raciocínio do seu néscio interlocutor. Após o tempo de duração da conversa, Bush abandonou a sala com ar trocista.

O Hino tem Vitaminas...


Quando o Sr. Júdice, José Luís, se referiu na sua semanal crónica opinativa da Antena 1 (Conselho Superior), à denodada forma como entoam A Portuguesa os rapazes que disputam um honroso último lugar do Campeonato do Mundo de Rugby, fê-lo sob a batuta pedagoga de quem acha que berrar o hino com as carótides a rebentar a epiderme, resolve os problemas do país e, quiçá, do mundo.

Nesse caso, advertimos nós, se os empregados são burros, trauteie o hino enquanto esfrega a secretária; se a evasão fiscal não diminui, cantarole o hino aos funcionários das finanças; se o seu marido lhe for infiel, sussurre-lhe o hino aos ouvidos antes de lhe amputar o orgulho masculino; se o cão lhe deixou um presente, convide-o a cantar o hino consigo; se a polícia lhe fizer o teste do álcool, ponha-se em sentido e chore o hino; e, por exemplo, se for vítima de assalto, berre o hino a plenos pulmões, de tal forma que o Portugal entre mais uma vez no Guiness Book of Records com a fantástica marca do hino mais audível do mundo.

Em suma, sempre que houver azar neste país, ponha-se a cantar o hino: desanuvia e dá vitaminas...

Já viu o que aqui arranjou, Sr. Júdice?

PS: O que nós precisamos é de gente a cantar o hino. Mas a cantá-lo bem: «nobre pooovo, nação valente» e não «nobre povonação valente». Sr. leitor(a), olhe, aproveite e cante o hino à moçoila da foto que não parece ser particularmente sensível à patriótica letra de A Portuguesa. Mas cante-lho bem, como se fosse a sua última vez...

12 de setembro de 2007

Preparativos do 4º aniversário

Ainda é prematuro mas, no próximo dia 22 de Outubro, cumpre-se o 4º aniversário de In Tenui Labor. Será certamente uma óptima ocasião para que as 7 pessoas que já visitaram este espaço expressem o mais vivo repúdio, pois que, «para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio» (Albert Camus, O Estrangeiro, última página).

10 de setembro de 2007

Discursar para as massas

A eliminação no discurso sério e sem insinuações, de vocábulos como «talvez», a rejeição de métodos gnoseológicos como a «síntese», e a ausência de um exercício permanente de auto-reflexão alicerçada na busca da coerência, são um imperativo em qualquer comunicação política dirigida às massas.
Por essa via é garantida a bidimensionalidade mais primária – nós e os outros; o eixo do bem e o eixo do mal; os ricos e os pobres; os homens e as mulheres; os polícias e os ladrões; os explorados e os exploradores; os patrões e os trabalhadores; os fiéis e os infiéis – a opção pela exaltação de oposições binárias em que uma delas é, naturalmente, a correcta. À tese «deles», contrapomos «nós» com a antítese. E ponto final, para não dar parte fraca. Por vezes, observam-se nuances. Em particular quando há negociações envolvidas. Caso contrário, procuram-se as ideias fracturantes que definam pólos opostos, perfilados em formação militar napoleónica, numa delimitação clara: «nós aqui, vós aí»! Uma cisão bipolar do universo tido como real.

Mais ou menos prosaicamente, esta postela (seria naturalmente pretensioso chamar-lhe postulado), faz parte do «bê-a-ba» dos partidos ou de qualquer outra organização ou indivíduos que lutem pelo poder ou pela aceitação e difusão da sua doutrina. Cristo, estaria obviamente neste lote de indivíduos. Ou Guevara, Trotsky, Estaline, Hitler, Ghandi, Bush, Martin Luther King ou o gato das botas.

O discurso de Jerónimo de Sousa na rentreé política que o PCP organiza de forma impecável numa exemplar realização colectiva na Quinta da Atalaia (Festa do Avante, onde fui ontem pela primeira vez), denota claramente esta preocupação pela definição de circunscrições territoriais e ideológicas. Mas nem podia ser de outra forma porque qualquer liderança titubeante seria cilindrada pelas massas cegas e cretinas. O acto de explicar e discutir ampla e racionalmente uma realidade ou ideia, resulta em grupos pequenos de pessoas. Contrariamente, o acto de comunicar para as massas consiste frequentemente na eliminação de factores que possam obstruir a compreensão, gerar confusão, consubstanciando-se então numa tal comunicação bimodal e simplista: as massas reagem a estímulos sensoriais, são impulsivas, precipitadas e tendencialmente irracionais.

Não há outra forma de arregimentação directa das massas por meio do discurso, senão torná-lo claro, acessível, simples.

Falou-se da forma, justamente.

No conteúdo, na essência, o discurso de Jerónimo de Sousa não surpreendeu e justificam-se boa parte das críticas que desfere contra o governo de Sócrates, apesar dos tradicionais erros na leitura da contemporaneidade. Aquele, pelo contrário, escusou-se sempre a comunicar (deste o início da legislatura). Talvez tenha sido essa, a forma encontrada para se permitir o estilo ziguezagueante na governação. Sem um vínculo, uma verdadeira âncora ideológica, sem uma delimitação, o governo não arregimenta. Mas também não é cilindrado.



PS: A ASAE esteve na Festa do Avante e felizmente, em outros locais do país (para que não se alimente o conhecido síndrome da perseguição). Ao contrário do que as pessoas possam pensar, em nenhum momento dei por cheiros canabinóides. Nem ali, nem em nenhuma festa no país onde afluam hordas de jovens em busca de prazer e diversão.

8 de setembro de 2007

Programa de Sexta à Tarde

As multidões representam um perigo eminente para uma sociedade que luta com tenacidade pelo seu equilíbrio mental porque são cegas, potencialmente violentas, frequentemente cretinas e facilmente manipuláveis. Seja essa manipulação auto-induzida e alimentada pela própria chusma numa espiral de irracionalidade ou, simplesmente inoculada pelos meios de comunicação de massa. Ou ainda, doutrinalmente (embora não pareça ser este o caso).

Expectável era a saída à rua dos tradicionais molhos de brócolos a rosnar e a escumar cólera figadal, atiçados por uma vontade heterónoma que não conseguem dominar mas, ainda assim, exibindo uma faceta claramente enquadrável na natureza humana.

A rapaziada está saturada, quer festa e, por isso, qualquer um serve e em qualquer circunstância. Nem que para isso lhe baste que caia uma fagulha em cima de alguém. Em todo o caso, ficamos mais descansados por saber da existência de movimento pluralistas que reúnem desempregados, chulos, domésticas, reformados, vadios e outros especimens, em torno de uma causa comum.

Não consola saber que, se fosse em Inglaterra, a grosseria seria certamente superlativa.

6 de setembro de 2007

Luciano Pavarotti


Sujeito a mais ou menos mediatização que os seus predecessores, auxiliado por piores ou melhores orquestrações, olhado de soslaio por mais ou menos desvios ao canto lírico ortodoxo, mais ou menos polémico... de Luciano Pavarotti ficará a memória de uma voz radiante e plena de intensidade. Numa palavra: arrebatadora e, por isso mesmo, inesquecível.

Contra os argumentos dos «puristas», Pavarotti democratizou o canto lírico resgatando-o do mais pedante elitismo cultural, pretenso guardião do sublime. E fê-lo sem beliscar as virtudes do canto, sem o vulgarizar. Talvez essa simplicidade incomode alguns, mesmo no momento em que Pavarotti se despede do mundo.

4 de setembro de 2007

Queixas por tudo e por nada...



À chegada a Portugal após a conquista de uma vulgar medalha de ouro nos mundiais de Osaca, Nelson Évora deu corpo à lamúria habitual destes atletas de desportos inferiores, reivindicando uma pista coberta de atletismo para treinar no Inverno. Não se compreende. O nosso entendimento poderia eventualmente alcançar o propósito e oportunidade do queixume, caso em Portugal não existissem maravilhosos e amplos estádios de futebol, com capacidade para acolher milhares de espectadores, muito bem arejados e com relva fofa para o campeão do mundo de triplo salto aterrar em segurança. O Obikwelu pagaria para correr descalço naquele tapete verde. E a Vanessa Fernandes poderia inaugurar uma nova competição para rijos, os «setenta quilómetros bancadas».

… com estádios lindos como estes, que nós temos, até parece mal dizer coisas destas…

Só neste país é que as pessoas se queixam por tudo e por nada. A cereja no topo da blasfémia ocorreria se os praticantes de Boccia viessem agora também reclamar um bocciódromo

1 de setembro de 2007

E depois...

Exaspera a toleima e desonestidade intelectual, de quem usa as palavras como se fossem sacos de areia, com argumentos de «quarto-escuro» e sem conteúdo sério e auto-reflexivo. A coisa agrava-se quando, titubeantes e portadores de falsos moralismos, procuram legitimar-se, defendendo os camaradas de trepanço. Depois, dá-se o bombardeio indiscriminado...

31 de agosto de 2007

Efemérides

Para quem não sabe, Charles Baudelaire desapareceu há 140 anos, precisamente 130 anos antes de Diana Spencer. Desconhecido crítico e poeta francês, Baudelaire escreveu, entre outras coisas de somenos importância, Les Fleurs du Mal. Mas foi só isso, portanto: uma flatulência. Nada que se compare com os maravilhosos e inolvidáveis feitos da benemérita, filantropa, nobre e santa Diana, a rainha do povo que, entre anéis de 200 mil euros e uma vida de luxúria à conta do contribuinte inglês e dos media, se espatifou contra um pilar num túnel de Paris, em plena campanha contra a proliferação de minas anti-pessoal. Mas permanece no nosso coração, como uma singela chama numa velinha a lutar contra o vento.

O que esperará para o seu post-mortem, o esforçado mas ignoto cientista que descobre um tratamento contra uma patologia brutalmente mortífera como a malária? – No mínimo, um planeta do sistema solar rebaptizado com o seu nome.

Entretanto, não percebo por que razão não marcou presença o executivo português nas honrarias inglesas: afinal, Diana era tão-só a rainha do povo... estará o governo ainda melindrado com aquela falha imperdoável aquando das comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga?

Será que está tudo parvo? Será que o mundo foi assolado por uma embriaguez histérica e colectiva após a morte da senhora quando, só no Iraque, são assassinadas diariamente mais de 100 pessoas? quando, no Sudão há milhares de crianças a morrer à fome? quando, em todo o hemisfério sul (com especial incidência na África subsariana) doenças como a malária matam aos milhões? Quero lá saber em que condições se encontra a monarquia britânica. Isso é lá com eles, se acham bem prestar vassalagem a meia-dúzia de parasitas que reivindicam ter uma prega a mais no cú do que os outros. Putaqueospariuatodos

30 de agosto de 2007

29 de agosto de 2007

Pobrezas

Conforme noticia hoje o Diário de Notícias, 12,3% da população americana vive abaixo do limiar de pobreza definido pelo Banco Mundial.
O Banco Mundial define a pobreza extrema através de um indicador de referência: sobreviver com menos de 1 dólar por dia; paralelamente, a pobreza moderada cifra-se nos 2 dólares por dia. No dia 17 de Outubro de 2006, o mesmo jornal alarmava para a existência de 21% da população portuguesa a sobreviver nos limites desse limiar. Uma família de 4 pessoas em Portugal, em que os progenitores recebam ambos o equivalente ao ordenado mínimo, vive com aproximadamente 8 dólares (6 euros) por dia/per capita. Mas também se sabe que 2 dólares em Portugal não correspondem, na prática, a 2 dólares nos EUA ou na Etiópia… Assim sendo, temos vários cenários possíveis mutuamente exclusivos ou, por outro lado, cumulativos: os aglomerados familiares considerados serem compostos por mais do que cinco elementos; um quinto das famílias não auferir sequer o mínimo legislado; o desemprego afectar indiferentemente um quinto das famílias portuguesas; haver um desfasamento teórico-empírico e o limite não dispensar uma contextualização. Mas, nesse caso, convém salvaguardar que em alguns países, mesmo que alguém dispusesse de 50 dólares diários, não teria, ainda assim, o que comer…

27 de agosto de 2007

O Poder da Técnica

Ainda não há duas décadas, a ocasião dos jogos olímpicos e campeonatos de atletismo canalizava as esperanças dos portugueses em ver os seus alcançarem pódios, ao longo das passadas esforçadas mas ritmadas dos nossos fundistas e meio-fundistas. De António Leitão a Rosa Mota e de Fernanda Ribeiro a Carlos Lopes, o atletismo português erguia-se sobre o enorme coração destes atletas e pouco mais... Hoje, é Nélson Évora a conquistar brilhantemente o pódio, numa das disciplinas mais técnicas, o Triplo Salto. A Naide Gomes bate-se numa final do salto em comprimento e contamos ainda com a pré-anunciada medalha de ouro nos 200 metros, pelo extraordinário velocista Francis Obikwelu. Isto significa que hoje, em Portugal, há muito mais pessoas a compreenderem o atletismo. Mas também significa que se registou um salto imenso em condições de trabalho, quer ao nível da profissionalização dos atletas, quer ao nível das infraestruturas dos clubes. O salto qualitativo é notório. Só não se percebe em que curva se perderam os fundistas e os meio-fundistas.

24 de agosto de 2007

à tout propos (277)

No seguimento do post de ontem e porque hoje é o meu aniversário, ganhei o direito a dizer mais qualquer coisinha. Até há bem pouco tempo, vigorava uma aproximação de Estado-Providência, inspirado nos modelos escandinavos, embora adaptado à sacola do bando de monarcas que nos governam há séculos. Portanto, um Estado-Providência escandinavo, no pagamento de impostos; siciliano, na igualdade de acesso; americano, nos benefícios retirados; e, angolano, na corrupção. Perante o que temos visto, daqui para a frente é perfeitamente admissível que o nosso modelo passe a inspirar-se também na sub-cultura texana.

E entretanto, o manso povo sempre se tem mostrado solidário para pagar os desleixos, caprichos, mordomias e luxúrias das classes dirigentes, independentemente das ideologias mais libertadoras, igualitárias ou fraternas que publicamente defendam; esses que, alinhados na suprema defesa dos interesses dos respectivos partidos, lhe negam a liberdade e autonomia. Ao verdadeiro povo que desconhecem e não o povo romanticamente criado por burgueses de toda a espécie e pseuso-ideologias.
PS: outra coisinha. Ao rejeitar as conclusões do Tribunal Administrativo sobre o estabelecimento pelo governo, de serviços mínimos em época de exames, a FENPROF vem a público dar mostras de alguma boçalidade, revelando que se está perfeitamente a cagar para os alunos. Seria exactamente o mesmo que o pessoal da saúde abandonasse o serviço de urgência de um hospital, apenas para reivindicar os seus superiores interesses. Há muitas formas de luta que foram descobertas entretanto, mais sensatas e mais eficazes...

23 de agosto de 2007

Crédito Bonificado Para Estudar

O Estado português despe-se aos poucos dos escassos princípios que ainda o animavam, para se barricar esquizofrenicamente nos fins. Não importa como.

O argumento que justifica a asserção de um Estado-usurário é a magnânime, complacente e filantropa defesa do igual e livre acesso ao ensino superior. Por isso, o bom Estado prepara-se para afogar de vez, o já medíocre ensino superior, com a agiotagem que supostamente deveria regular.

A correcção das assimetrias que cabe ao Estado, através da atribuição de bolsas de mérito e de carência socio-económica, revelou-se um engulho para este governo: não só desinveste no futuro do país, como também o hipoteca. Desta forma, o nosso «Estado-Providência» demite-se das suas responsabilidades e leva ao extremo da leviandade o princípio do utilizador-pagador: queres estudar, pagas! queres caminhar por esta calçada, pagas! queres descansar, pagas! queres pagar-nos, pagas a dobrar!

O investimento na principal riqueza do país – os seus recursos humanos – ficará doravante, inteiramente à responsabilidade das populações, às quais compete o pagamento dos estudos dos seus filhos e ainda a liquidação de taxas de juro a um Estado incompetente, que serve de refeitório da extrema esquerda à extrema direita. Se, até aqui, os estudantes carenciados tinham acesso a bolsas de estudo – que, em todo o caso, eram desbaratadas por todo o género de chicos-espertos mas beneficiando sempre da cumplicidade incapaz dos serviços de controle do Ministério da Educação – no futuro, esses mesmos estudantes terão que pagar juros ao Estado pelos créditos bonificados engendrados com a banca.
Mais, com a disponibilização de créditos bonificados, há luz verde para o aumento das propinas. Este aumento significará um agravamento na carga fiscal sobre os rendimentos das famílias, degenerando no aumento do universo de potenciais alunos a recorrer à generosa ferramenta social disponibilizada pelo Estado.

Enquanto isso, ao abrigo do programa Novas Oportunidades, o governo distribui sem tino, diplomas gratuitos e reconhece competências virtuais. Compreende-se por que razão, as bolsas de mérito terão, a prazo, os seus dias contados...

22 de agosto de 2007

à tout propos (276)

Só se conhecem, neste momento, duas equipas que joguem pior futebol do que a equipa de Scolari: a selecção de rugby e a selecção da Arménia.

à tout propos (275)

Sei de alguém que já não vai para director de um instituto qualquer no Norte do país se o Menezes for a primeiro-ministro...

Luís Filipe Menezes, crónico candidato à liderança do PSD, viu o seu bom nome enxovalhado por essa corja dos defensores da originalidade e dos direitos de autor. Que diferença poderia haver, em fazer referência às fontes onde o social democrata e os seus assessores se poderão ter, digamos, «inspirado» para dar corpo a um blogue?
Como lhe competia, o assessor José Aguiar (possivelmente o gestor de conteúdos do blogue de Menezes), enviou um sms à imprensa, afirmando que "eventuais incorrecções na identificação da autoria serão corrigidas e devem ser, naturalmente, tidas como lapso" (in Publico online, 22-8-2007). É capaz disso...

21 de agosto de 2007

Corrupção e a Legitimidade Moral dos Partidos Políticos

O PSD foi apanhado com a boca na botija. Os restantes partidos também têm o rabo preso. Alguma condescendência com o PCP que, pelo menos, se financia parcialmente com a Festa do Avante, de forma clara e à vista de toda a gente. Entretanto, os proveitos que a Somague retirou desse investimento no PSD, dão para pagar todas as coimas que o Estado lhe venha a aplicar.
É assim, envoltos em promiscuidades várias e negócios duvidosos que, da direita à esquerda, os partidos exigem rigor e honestidade fiscal aos portugueses.

Adolfo Rocha


Como era de esperar, a não comparência de uma qualquer personalidade que fosse, em representação do governo nas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga, na sua casa museu em Coimbra, continua a ser um caso desta silly season. Inflamado e disparatado, como só os casos das silly podem ser.

Porque, lá por o governo não se ter feito representar no dia do nascimento do poeta, não quer dizer que não tenha apoiado a iniciativa nos restantes 364 dias que marcaram o centenário [não sei nem se sim, nem se não].
Por outro lado, o gentio tem que se decidir: ou aplaude e financia os passeios dos governantes ou repudia tanto passeio. Além disso, em concreto, o que poderia acrescentar a presença de um representante do governo, senão decoração?
Mais, Miguel Torga foi, indubitavelmente, um dos mais proeminentes poetas da contemporaneidade lusófona mas seria deselegante e um opróbrio para os restantes poetas, escultores, atletas, estadistas, monarcas, pintores, agricultores e vendedores de carpetes cujo centenário do nascimento ou da morte se comemoram neste ano, se o governo não se fizesse igualmente representar com as tradicionais honrarias, a pompa e o habitual dispêndio.

Infelizmente, quem recorre a este tipo de argumentação, revela a desorientação de quem não tem outros argumentos. A obra de Miguel Torga não poderá ter melhor homenagem senão ser lida em casa pelos indignados senhores ou ser estudada nas escolas. Mas tal raciocínio não parece estar ao alcance das avassaladoras e brilhantes mentes da oposição. Neste capítulo, Marques Mendes é um verdadeiro e espalhafatoso anão.
António Arnaut, por seu turno, começa agora a compreender a sua própria dimensão...


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