5 de julho de 2007

De-Talhes (MURALHA)


Qual poderoso exército de gigantes glaciais posicionados na linha da frente, o intransponível muro arruma a humanidade e a natureza nos respectivos compartimentos. Uma divisória. Contudo, o simples manuseamento de um utensílio de caça e os desenvolvimentos tecnológicos que se seguiram, viriam a criar pontes de diálogo entre aqueles dois mundos inicialmente apartados, posicionando-os numa relação de permanente e tensa interacção; por vezes destabilizadora dos equilíbrios estabelecidos.

4 de julho de 2007

De-Talhes (SÁBADO)


Madrugada. O sexto dia; aquele que Deus definiu para dar ao mundo quem o substituísse na criação de algumas coisas. Neste dia, Deus não foi sensível às queixas de Vinicius de Moraes, expressas no poema “O Dia da Criação” e acabou mesmo por agir como agiu. O mundo não mais seria o mesmo e, naquela madrugada, os céus agitaram-se revoltosamente por isso. Ao sexto dia, Deus brindou o mundo natural com um seu Alter-ego, capacitando-o como demiurgo do mundo cultural: o homem… e a mulher.

2 de julho de 2007

De-Talhes


A natureza e a cultura humana convivem em permanente dialéctica reconstrutiva, nem sempre sendo clara a destrinça destes dois mundos. De-Talhes propõe um olhar sobre este contínuo compromisso, procurando mostrar alguns talhes na natureza, tidos como inalterados e, outros, quotidianos, que suportam estilos de vida tal como os conhecemos hoje, profundamente alterados pelas trocas e enxertias da paisagem, das pessoas e dos hábitos. Da ideia de natureza aparentemente intacta, à representação de uma sociedade emancipada do mundo natural, De-Talhes sugere antes de mais, uma visita a algumas coisas simples que nos rodeiam e aos seus significados, sempre variáveis, sempre humanos…
_____________________
De-Talhes
Exposição de fotografia (2 a 23 de Julho)
Foyer do Centro Cultural de Redondo
... e aqui
Todas as fotos a apresentar aqui não reflectem inteiramente as fotos expostas no CCR: nem em resolução nem no corte.

26 de junho de 2007

Teorias de espaço público



O rapaz insistia em que não, que não se pode tirar fotos! Não, que ali quem manda é ele; e os seus. Com alguma diplomacia mas sem assinalável agilidade, lá ia apaziguando o ego do rapaz, redarguindo que ficasse descansado, que em atenção à senhora sua mãe e à sua imprevisível agitação - coisas que oportunamente simplifiquei com a palavra «respeito» - não tiraria mais fotografias. Mas lá lhe ia aborrecendo o juízo com um sorriso matreiro, tentando ensinar-lhe que aquilo era espaço público, com todas as implicações que isso tem. Ou não tem, no caso do rapaz, mais do que habituado a esgueirar-se do espaço público e do extenso normativo social e legal, que jamais entendeu. E que talvez nunca queira entender.

A vida destes rapazes é feita de desvios, de fugas a uma realidade desconhecida que não foi produto da sua acção concreta, é feita enfim, de vivências marginais e semi-nomadas aonde as estruturas sociais nem sequer têm a pretensão de chegar. Ele tinha a sua razão. Eu teria a minha.

Apertei-lhe a mão, devolvi-lhe as costas e regressei de imediato nos instantes seguintes para lhe perguntar: «e à minha namorada - que vai andar agora - posso tirar?». Sem o orgulho ferido, sem a sua autoridade posta em causa, assentiu, fazendo um gesto largo e generoso com a mão. Omnipotente. O canguru tornou-se dromedário e levou aquela gente toda a viajar. O rapaz, permaneceu petrificado de costas para a viagem.

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25 de junho de 2007

Um sistema eleitoral para os golias

Na passada semana, durante um jantar de «trabalho» dos deputados socialistas ocorrido no Convento de Cristo em Tomar, a reforma do sistema eleitoral foi assunto que se manteve arredado do debate. Nem levemente aflorado. Não foi certamente por isso que o líder parlamentar socialista olhou com reserva para uma proposta de reforma do sistema eleitoral, apresentada pelo PSD uns dias depois.

Contudo, não deixa de ser curioso notar este aparente desinteresse sobre uma matéria que andou desfraldada nas bandeiras do PS. Para além da criação de círculos uninominais no continente, o PSD propõe também a redução do número de deputados à Assembleia da República.

Com os círculos uninominais, a representação proporcional não é garantida, como tentamos ilustrar aqui e aqui. Por outro lado, o argumento segundo o qual, com este arranjo se pretende aproximar os deputados (eleitos ad hominem) dos eleitores, é um argumento falacioso.
Por duas razões: em primeiro lugar, são raros os deputados que, uma vez eleitos, mantém ligações com as populações dos distritos pelos quais foram eleitos e intervêm na Assembleia da República nessa condição; em segundo lugar, diz o n.º 2 do Artigo 152º da Constituição da República Portuguesa que “os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos”. Esta regra, convenhamos, tem sido muito útil para justificar o «abandono» dos círculos – sejam eles uninominais ou plurinominais – pelos deputados durante uma legislatura inteira, a não ser quando há presidências abertas ou campanhas eleitorais. Ora, como eles costumam dizer, o deputado está em permanente comunicação com os círculos através das concelhias dos partidos que os elegem. Nesse caso, nada muda em termos de aproximação entre eleitos e eleitores porque tudo está bem, ou seja, não há crise de representação que justifique uma reforma do sistema eleitoral.

Quanto ao emagrecimento da Assembleia da República, releva novamente a estocada na representatividade, uma vez que, à diminuição do número de deputados, corresponderá uma diminuição da representação proporcional dos círculos com menos eleitores. Em termos líquidos e porque a distribuição dos mandatos é feita tendo em conta um rácio calculado a partir do número de eleitores, o Distrito de Évora elegeria, por hipótese, 1 deputado, tanto quanto uma qualquer freguesia de Lisboa. Para que se tenha noção, actualmente aos 5,17% de cidadãos residentes no Alentejo, correspondem 3,48% dos deputados. Portanto, em matéria de equidade, equilíbrio territorial e solidariedade, estamos conversados…

Mas, subsiste ainda um aspecto que merece alguma atenção para memória futura. A estratégia do PS governamental tem passado muito pelo esgotamento da principal oposição através da invasão do espaço político tradicionalmente da direita. O silêncio do PS não descansa a democracia representativa nem o pluralismo democrático. E criticavam estes o «centralismo democrático» do PCP…

22 de junho de 2007

à tout propos (270)

Que tipo de justificação podem dar os apoiantes de Hugo Chavez, para as atitudes verdadeiramente autocráticas e fascistas como a que o levou a encerrar a Rádio Caracas Televisión, por exemplo? Não só estimula o culto do chefe enquanto figura messiânica, libertadora do jugo americano como decreta o unanimismo através da propaganda e censura. Verdadeiramente arrepiante, por exemplo, o programa televisivo que apresenta ao domingo. Terá a veleidade de, ele próprio, criar a sua própria religião que, de resto, andará arredada do comunismo que invoca abusivamente e em vão? Entretanto, quem libertará depois o povo venezuelano do jugo chavenho? Os americanos? Valha-nos deus...

21 de junho de 2007

Évora

ADVERTÊNCIA: Este post foi escrito na sequência de um artigo publicado em Diana FM. Para além disso… não creio que tenha linguagem obscena pelo que, qualquer um o pode ler.


Não restam grandes dúvidas sobre a vocação de Évora para o turismo. Nomeadamente, para o chamado turismo de qualidade – que não significa necessariamente turismo de luxo nem monocultura do turismo – o qual se confunde em parte com a dinamização cultural de um lugar. Cada vez mais, as rotas turísticas internacionais apontam para o casamento entre aquilo que poderemos chamar a cultura material (património arquitectónico, a gastronomia, o artesanato, etc.) e a denominada cultura imaterial (usos e costumes, desenvolvimento e manifestação de actividades artísticas de rua e nos teatros, auditórios, etc.).

Claro que, face à descoincidência entre aquelas duas dimensões e as estratégias, estamos pouco acima do groud zero em matéria de planeamento estratégico e articulação prática entre os diversos intervenientes culturais, hoteleiros, comerciais, institucionais e associativos.

Não obstante, Évora tem tudo. Tem uma cultura invejável, que é a do Alentejo e tem, também, infra-estruturas; embora por vezes tenhamos a tendência para obliterar esse facto, escudando-nos nas megalomanias disfuncionais e desérticas que proliferam por esse país fora.

Com efeito, dispomos de um dos mais belos teatros do país; de razoáveis auditórios na CCDR, Fundação Eugénio de Almeida e Universidade que, dão garantias para colóquios e seminários nacionais e internacionais; temos o Soror Mariana, as instalações da Academia de Música Eborense; temos galerias de arte e salas de exposições; temos um edifício monumental - Salão Central - que pode recuperar a dignidade de outrora, tal como a sede emprestada da Harmonia, localizada no coração da cidade; temos os ex-celeiros da EPAC onde associações como a Pé-de-Xumbo, A Bruxa Teatro e a Sociedade Harmonia Eborense desenvolvem regulares e notáveis actividades (peças de teatro, concertos, workshops); temos colectividades musicais, grupos corais e um renovado Convento dos Remédios; temos uma companhia profissional de teatro com reconhecidos méritos, algumas companhias de teatro amador, cineclubes e outros agentes culturais mais ou menos anónimos; temos a BIME, temos o FIKE; temos o Mercado Municipal; temos a Fábrica da Música e companhias de dança; temos salões de colectividades na cidade e nas freguesias rurais que nos dão garantias para descentralizar acções; temos um jardim público, temos praças deslumbrantes, temos igrejas onde podem ser apresentadas exposições, concertos, etc; temos o Convento do Carmo; temos hotéis para todos os gostos, carteiras e potencialidades; temos equipamentos desportivos de clubes e associações que podem muito bem ser rentabilizados como contrapartida pela contribuição pública que recebem; temos artesãos e as suas próprias galerias; temos uma instituição universitária que importa e é urgente apoiar, aproveitando justamente todo o potencial que os docentes e alunos têm, seja no domínio científico, seja no campo das artes performativas; e podia aqui enumerar tantos outros exemplos...

Temos, enfim, a cidade de Évora; temos todos nós porque, de um modo ou outro, nos pertence a todos. E é isto, precisamente tudo isto, que apaixona quem nos visita e que se pode revelar uma vantagem (para além das já estafadas argumentações das acessibilidades, do enquadramento geográfico, da segurança, do clima, etc).

E vamos ter também um novo pavilhão multiusos, capaz de albergar muitos espectadores e alguma variedade de eventos. Neste como em outros equipamentos municipais, é necessário encontrar sinergias entre todos, de modo a que todos estes equipamentos estejam abertos à população e visitantes e que, transpirem o bulício diário a quem os visita, esse bulício quotidiano da preparação cenográfica de uma peça de teatro, do workshop de cinema para crianças, do ensaio geral de uma orquestra ou da simples montagem de uma exposição de escultura para enriquecer uma mostra de produtos regionais.

Sem ponta de ironia, basta que tenhamos um pouco de imaginação para rentabilizar os espaços e o que é produzido pela sociedade civil através de associações, empresas, companhias, grupos e grupelhos.

Por conseguinte, não é falta de infra-estruturas que temos. Olhe-se para cidades europeias hiper atractivas do ponto de vista cultural como Praga ou Barcelona, onde antigas fábricas e oficinas dão lugar a salas de exposições, de concertos e colóquios.

Falta sim, um arranjo estratégico, um plano. Exequível, mobilizador, funcional e atractivo, cujas acções complementem a riqueza da paisagem, da monumentalidade e dos costumes desta terra. Que se aproveite o que há e, seja articulado organizadamente e, que se mostre ao mundo a dimensão de uma terra com as marcas de algumas das mais extraordinárias civilizações de que há memória.

Falta também um compromisso das entidades públicas e privadas com a execução desse plano. E rigor. Rigor, criatividade e simpatia, pois não é ração para bestas o que vendemos (com o devido respeito pelos vendedores de ração).

E tudo isto para quê? Para que as pessoas vivam melhor no futuro. Apenas.

20 de junho de 2007

Os amigos são para as ocasiões

A tendência de boa parte dos eleitores associar o seu sentido de voto nas eleições autárquicas à cor do governo, para daí, os seus lugarejos retirarem quaisquer tipo de favorecimentos, só reflecte essa ideia cancerígena e feudal que grassa, segundo a qual, os amigos são para as ocasiões… Não fica nada bem a Fernando Negrão invocar subliminarmente essa mesma ideia para justificar a sua desvantagem; nem a António Costa, servir-se dela para conquistar votos nas eleições intercalares de Lisboa. Nem um nem outro prestam um bom serviço à democracia. São regulares… mas isso também não é novidade. Novidade seria se, subitamente, o país interiorizasse a expressão: «amigo não empata amigo».
Se Costa ganhar, abrirá o caminho para a maior vitória política de Alberto João Jardim nos últimos 200 anos, porque não se aguentará com esta lei das finanças locais; a não ser que tenha bons e generosos amigos no governo...

Um mapa cor-de-rosa e laranja




Nem só os «Fatias de Cá» oferecem jantares no Convento de Cristo sempre que ali encenam peças de teatro; cansados de comer um pouco por todo o país, os deputados socialistas viraram-se ontem para os lados do Nabão e, segundo parece, apesar do farto e bem regado jantar, ainda terão conseguido articular alguns vocábulos. Noticia o jornal Público que num assunto não tocaram eles: na reforma do sistema eleitoral. Desconhecem-se as razões, que, desde a embriaguez até à estratégia do sigilo, poderiam ser imensas.

Regressando um pouco atrás, uma das mais controversas medidas da reforma do sistema eleitoral é precisamente a substituição dos actuais círculos plurinominais por círculos uninominais. Esta singular medida tem o poder de extinguir os partidos minoritários e cimentar decisivamente o bipartidarismo. As consequências são óbvias, nomeadamente engendrar a necessidade de alterar a própria Constituição da República Portuguesa. Apesar de no seu Artigo 149º serem previstos os círculos plurinominais e os círculos uninominais desde que seja assegurado o sistema de representação proporcional (a forma de conversão de votos em mandatos, de acordo com o Artigo 133º), há no entanto, que apelar ao Artigo 2º, cuja leitura é inequívoca quando invoca que «a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão…». E também a leitura dada pelo Artigo 113º, n.º 5: «É reconhecido às minorias o direito de oposição democrática, nos termos da Constituição e da Lei».

Ora, o pluripartidarismo é justamente o arranjo mais eficaz para garantir o pluralismo. Contudo, como se sabe, os círculos uninominais favorecem o bipartidarismo porque serão vencidos cronicamente pelos partidos mais representados, sem a possibilidade de, nesse círculo, haver um «segundo lugar». Ou seja, acabam as veleidades para blocos de esquerda, partidos comunistas, partidos populares, etc.

Não me parece que, nessa matéria, os exemplos dos EUA e da Inglaterra, sejam os mais adequados a Portugal por razões históricas e culturais que importa debater mas não aqui, neste momento.

Em suma, a reforma do sistema eleitoral que contemple a criação de círculos uninominais, serve ao PS e ao PSD e a um país que se vê a duas cores. Como a foto acima: tudo a branco e... encarnado.
Em todo o caso, é um bom indício que no Convento de Cristo não tenha sido abordado esse assunto. A credibilização do sistema político passa por ele e não pelo sistema eleitoral...

Textos complementares: Que arquitectura eleitoral? (21.4.2005)

19 de junho de 2007

... à tout propos (269)

As diferenças de opinião costumam gerar outras, frequentemente mais ricas se, pela síntese do conflito (no mínimo, para um dos interlocutores); ou, pelo menos, mais avisadas; ou, pelo menos ainda, mais... convictas.

à tout propos (268)

Sobram tapa-olhos de cristal opaco neste lugar opressor e empenhado no seu próprio torpor. É francamente maçador. Um mal geral de que não nos podemos queixar, mesmo se atinge democraticamente pobres e ricos, feios e belos, novos e velhos. Insuportável seria haver alguém simultaneamente belo, inteligente, sensível, rico, pragmático, idealista, carismático, solidário, fiel [...] e ainda, com uma visão periférica de 360º sem precisar para isso, do olho do cú. É o que há!

18 de junho de 2007

Novo look


Como poderei justificar a transformação de um template com quase 4 anos de existência, contemporâneo de In Tenui Labor, sem apelar para a suprema e urgente reivindicação que os tempos nos fazem quotidianamente? Uma necessidade de mudança, de adaptação aos tempos modernos em permanente e ritmada agitação - que já Chaplin, Orwell, Huxley, Ridley Scott e outros nos sugeriam. Cada um à sua maneira; uns, de forma pessimista, outros mais sagazes. E vale a pena aludir ao facto de serem precisamente essas demandas que [também] nos estagnam e apodrecem, que nos colocam à mercê da nossa própria resignação. Passos perdidos e desorientados, esmagados pela pesada mão da aceitação, do conforto e de nada.

As convicções são, com Nietzsche, um soturno túnel, escavado em direcção ao núcleo imemorial e demiúrgico do planeta, por não explorarem a tese e o seu contrário - a bidimensionalidade; ou, em contrapartida, representam uma salvação, um último reduto para os insatisfeitos, para os imperfeitos? Mas fará sentido falar de um «último reduto», mesmo sem que seja respeitada a condição essencial da auto-reflexão profunda e religiosa de todos e de cada um?

Havia uma música do Elliot Smith que, às tantas, dizia «I saw you at the perfect place / It's gonna happen soon, but not today / So go to sleep, and make the change / I'll meet you here tomorrow / Independence Day / Independence Day / Independence Day».

Entretanto, já a questão do template se eclipsou, se dissipou na escaramuça originada pelas promessas não cumpridas pela modernidade: a liberdade, a igualdade, a felicidade. A omissão foi «compensada» pela satisfação material, pela coisificação do ser, profundamente reptiliano, mecânico, autista. Como é da nossa natureza, de resto. Talvez por aquela razão, o imaginário de emancipação dos nossos contemporâneos seja povoado por ilhéus desérticos onde o sol cai a pique e os corpos são arrefecidos por uma piña colada... Puro hedonismo que cresce a par da insatisfação e a contém entre taipais invisíveis.

Enquanto isso, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos sincopados. Num vai e num vem, incompreensível e absurdo. Tal como as peças de Ionescu.

O template está mais fixe assim, não está?

14 de junho de 2007

A Estupidez da Esquerda

O espanhol José Saramago, habitual concorrente nas listas do PCP e, sem embargo, apologista dos votos em branco, vem agora, aqui del rey, acusar a esquerda de estupidez; de portar a estupidez mais estúpida que ele conhece. Ora, não é ao PS que ele se está seguramente a referir porque, nas palavras do galardoado com o Nobel da Literatura, Portugal é governado por um partido de direita.
Mais. Terá ele pensado, durante a sua visita a Cuba e enquanto segurava a mão de Fidel Castro, qualquer coisa como «que gente tão estúpida, que país tão estúpido, governado de forma estúpida»? Terá ele, porventura, pensado nestes termos? Ou será que Fidel lhe fez a desfeita e não o convidou para viver em Cuba?

13 de junho de 2007

[Pausa]


Cá neste túgurio, nesta choça a que nos habituaram a chamar a «pátria»... nada de novo. Apenas a habitual lassidão, o inevitável torpor e a crueldade de uma realidade não existente para a chusma; assim, governamo-nos a todos. Se assim são os termos das coisas, que se deixem fluir e esperar, esperar, por uma espera sem termo e sem consequências, senão a engorda de satisfação com os nadas que os homens constroem.


4 de junho de 2007

Suspensão de Mandatos

Só não tendo esse hábito - de que falava em Hábitos Falhados - ou, não aceitando sujeitar a sua própria existência a tais práticas, é que se admite que aqui no reino, o reinador, coopte e esventre ciclicamente o poder local. E em consequência, o governo do povo.

Os autarcas que sejam constituídos arguidos vão passar a ter que, mecanicamente, suspender os seus respectivos mandatos, após dedução da acusação. Por tempo indeterminado, necessariamente, porque é na indefinição temporal que se esgota o horizonte da justiça portuguesa. Valha-nos isso, autênticos autos de fé numa cruzada contra a corrupção... na base.

Na idealização desta medida, os senhores deputados deverão ter considerado o tempo médio de cada processo judicial em Portugal, até transitar em julgado. Ou seja, de cada vez que um autarca seja constituído arguido, só ao cabo de 2 ou 3 anos [com recursos pelo meio] é que conhecerá a sua sentença, coincida ela com a vontade do acusador... ou não. Entretanto, a Câmara Municipal fica parcialmente anestesiada durante esse tempo, aguçando o apetite às oposições...

Este aspecto poderá revelar-se um bocadinho promíscuo, [apenas] por duas razões. Em primeiro lugar, porque a condição de arguido não dispensa um julgamento. E, nesse caso, um indivíduo poderá ter que suspender um mandato legitimado democraticamente pelo povo, correndo o «risco» de vir a não ser condenado, decepcionando os telespectadores. Em segundo lugar, os processos judiciais em Portugal são gerados a partir de elementos tão espúrios quanto o são as denúncias anónimas, calúnias, manchetes de jornais, documentos infantilmente forjados, excesso de zelo das autoridades e, até, imagine-se, de estratégias políticas. Provocar eleições intercalares (fonte de despesa e instabilidade política) ou desembaraçar-se politicamente de um adversário não serão aliciantes suficientes para os menos escrupulosos?

A promiscuidade dos elementos associados à suspensão de mandatos deixará de se colocar quando os tribunais forem realmente independentes, rigorosos e os processos forem céleres e ficarem concluídos em 2 ou 3 meses. Até lá, medidas como esta correm o risco de não passar de populismo barato para português ver…
Enquanto tal choque tecnojurídico não aconteça, seria útil que partisse dos partidos um processo de arregimentação de pessoas, mais consentâneo com os valores apregoados e exaltados a viva voz por esses mártires da moral e dos bons costumes...

26 de maio de 2007

Hábitos Falhados

Os valores sociais formam-se a partir de tipificações da vida quotidiana, que mais não são do que a interiorização intersubjectiva de hábitos postos em circulação historicamente. O hábito da vivência democrática, para além de contra-natura, não é atraente nem responde aos padrões hedonistas prometidos pela modernidade. Uma promessa falhada.

24 de maio de 2007

Um Deserto... Mental

O ministro das obras públicas tem um defeito. Não sabe estar calado. Mas é um homem de sorte. Em primeiro lugar, porque não tem como chefe a Directora Regional de Educação do Norte mas sim o próprio primeiro-ministro, sobre o qual está à vontade para zombar (pois não está inscrito na Ordem dos Engenheiros e é um desgraçado que veio dos campos de algodão para a grande capital). Em segundo lugar, porque não vive no deserto, onde há sempre muitos e terríficos perigos à espreita.

Por seu turno, o Presidente do PS, Almeida Santos, é um assombro. Desdramatizou as declarações infelizes do ministro mas lá veio recordando, numa lógica de causalidade directa, que construir o novo aeroporto de Lisboa na margem sul do Tejo leva à construção de uma ponte e, como se sabe, as pontes são uma grande guloseima para o terrorismo internacional, o qual se tem fartado de desenvolver atentados em Portugal.
Na minha humilde condição de calceteiro de alto mar, proponho que, antes que as bombas venham, impludamos a Ponte 25 de Abril, a Ponte Vasco da Gama, as pontes Dona Maria, D. Luís, Arrábida, Salgueiro Maia, Europa e todas as pontes que ligam Portugal a Espanha.
Assim, sozinhos e às escuras, veremos finalmente no aeroporto de Lisboa (na Ota), a grande ponte que nos liga ao mundo, a grande luz da nação.

Alguém que desdramatize as declarações senis de Almeida Santos.

PS: já agora, que sejam os lisboetas a pagar o mamarracho, que o construam na rotunda do Marquês de Pombal e que deixem o deserto em paz.

22 de maio de 2007

Doença Rara

A comunicação social insiste no chavão como se de uma patologia específica se tratasse. Quais os sintomas de doença prolongada? «O fulano morreu de doença prolongada»; como há outros que morrem com AVC's, acidentes de viação ou de diabetes. Doença prolongada é uma grave patologia que ocorre mais ou menos no abdómen, junto à cintura pélvica, mesmo abaixo do occipital e acima dos joanetes dos pés, blá, blá.

«- Olhe, deu-lhe assim uma doença prolongada de repente, comecei a vê-lo a estrebuchar e tombou, coitadito, era tão jovem». Ou então, «- Maria, acho que tenho o mesmo que o teu cunhado, é aqui no pulso, deve ser a tal doença prolongada». Mas o mais sinistro é um tipo sofrer de doença prolongada e os médicos não terem como estudar a patologia. Percorrem os manuais de uma ponta a outra e nem sinal dessa doença rara. Debalde, como tratar alguém que sofre de doença prolongada?

Mas, eureka, doença prolongada pode afinal significar algo próximo de doença crónica. Nesse caso, já podemos afirmar com grande propriedade que, quando, naquela mecânica que os caracteriza, os jornalistas dizem que alguém morreu de doença prolongada, estão-se a referir naturalmente ao fulano que morreu por obesidade, ao sicrano que morreu com doenças respiratórias e, a beltrano que soçobrou com uma hipoglicémia. De qual destas terá morrido o Sr. Felisberto do talho?

Um floco de neve no Verão (iv)

"…passados anos um filho, que já fora pai, voltou. Desta vez para tapar uma vala. Puxou da enxada e fez cair a terra sobre o fundo da vala. Entre o fundo e o que impedia a terra de lhe tocar, encontrava-se uma exígua caixa de madeira, recém depositada. O segundo homem observava de novo. Desta feita estava perto. Não pronunciou uma palavra, apenas observou. Sentiu aquela terra húmida e pesada cair em cima da caixa, e a enxada empunhada pelo homem, e aquela lâmina gasta a raspar na terra. Não pôde deixar de imaginar o que seria sentir aquela zoada dentro da caixa… e os flocos? Pensaram ambos. Durante o inevitável cigarro que se seguiu, conversaram. Das valas, das valas em que já viram caixas, depositadas, e que dentro das caixas iam outros Homens e outras Mulheres, e que por isso não estavam ali. Falaram ainda de valas com caixas que se avizinham. E dos Homens e das Mulheres que vestirão essas caixas. E das enxadas, e dos ruídos, e dos homens que hão-de vir. E de nada no fim. Ficou apenas o olhar para longe... trás e frente".
Anónimo

19 de maio de 2007

Um floco de neve no Verão (iii)

...e fumaram. Esse e outro cigarro. E mais outro. E outro ainda. Fumaram até os dedos grossos e inchados revolverem o fundo do maço e rasparem em nada. Nada que uma leve brisa de fim de tarde não consolasse e fizesse esquecer o vício. Aqueles fins de tarde eram deliciosos e as valas pareciam abrir-se sem esforço. E já sem cigarros para partilhar. Mas as picaretas continuavam a rasgar o chão e após alguns anos, o monte já lá não estava. Apenas um manto de flocos de neve e a escuridão da noite. E o homem virou a cara ao filho e disse: - vai sem mim rapaz, que se faz noite. Não discutas, vai e não voltes, a não ser com o teu filho, um dia, quando vires flocos de neve neste chão áspero. O rapaz foi.

Um floco de neve no Verão (ii)

"- Ebúrneo ou Cândido? - Nua ou despida?Continuou, o segundo homem. Numa clara tentativa de desviar a atenção do primeiro, de cavar a sua própria vala.-lá na minha terra, os homens, quando adivinham a sua morte próxima encarrega-se o filho mais velho de os carregar até ao cimo do monte mais alto para que ali, sozinhos se despeçam dos dias. De Inverno, de verão, de primavera, de, sim, de Outono. – ah! E, claro, das noites também.- deixa-te disso! Não me vais dissuadir do que pretendo fazer. A minha própria vala. – já não me bastava o maldito floco. Será que..? – ajuda-me a subir!- Um… cigarro? – toma. Eh eh… a puta da picareta está a fazer-me mossas nas mãos.- humm... é normal. Ao menos usavas umas luvas. – afinal – lume..? – quantas planeias cavar ainda..?- uma dúzia!! Eh eh.. – belo cigarro – não pá! Apenas mais uma ou duas. – isto no fundo é só para me distrair. Fumemos então."
Anónimo

16 de maio de 2007

Um floco de neve no Verão

Será possível que um exíguo e inofensivo floco de neve obscureça um dia de Verão? Será que o dia é de Verão? Ou aquela luz pintada de cinzento e suspensa num ar pesado é, afinal, o anúncio de um rigoroso Inverno?

Entre essas e outras interrogações, o homem continuou a cavar, em movimentos ritmados, a vala onde havia de descansar mais tarde. Só não sabia em qual delas. E isso deixara-o nervoso porque no fundo de cada uma das valas, discernia um frágil mas insidioso floco de neve. A sua visão não era dominada pelo negrume do fundo mas pelo deslocado ebúrneo dos cristais de gelo. Não obstante, as suas costas foram lentamente dominadas por uma compacta escuridão.

11 de maio de 2007

à tout propos (267)

Esta parece ser a máxima bradada pelas maternidades privadas. Claro que a qualidade de vida paga-se... mas os clientes saem satisfeitos, pois não têm que se cruzar com minorias étnicas ou desvalidos.
... além do mais, as maternidades privadas são locais onde há lugar para todos; necessariamente para os cirurgiões plásticos pois a tirania dos biquinis não perdoa.
Mas também há a outra versão: como não há subsídio de risco (expresso em unidades monetárias), os obstetras defendem-se assim do intolerável questionamento a que são sujeitos por pais descontentes porque o menino não trazia olhos azuis ou porque à idade de 13 anos descobriu ser sexualmente invertido...

8 de maio de 2007

Défice Zero

Bruxelas diz que Portugal não tem condições para cumprir o plano de redução do défice; Portugal, que sim!
Bruxelas diz que Portugal não tem condições para cumprir o plano de redução do défice; Teixeira dos Santos diz que Bruxelas não tem toda a informação sobre a economia portuguesa.
Estará ele a referir-se às receitas extraordinárias resultantes de alienação de capital, à integração de receitas a realizar no futuro, ao abandono do Sistema Nacional de Saúde, à subvenção dos privados que substituem o Estado, ao roubo de direitos sociais, à privatização do Ensino Superior e à manipulação de todo o género de estatísticas?
Bruxelas, de facto, não sabe o que se passa aqui...

3 de maio de 2007

Carmona, o Impio






Parece claro que o barco vai ao fundo, mesmo que sejam os seus próprios lugar-tenentes a apressar o afundamento. Mas em algo, Carmona inovou. Quando Pilatos, os seus acólitos e os restantes «notáveis» , babados de raiva, já afiavam as lâminas nas suas costas traçando cenários e repartindo as costas indefesas do autarca, eis que o arguido Carmona vem a público reivindicar duas coisas. Em primeiro lugar, que não foi declarado culpado em nenhum processo mas sim, arguido. Em segundo lugar, Carmona desafiou o céu e a terra ao respeitar nada mais nada menos do que, a democracia e os procedimentos democráticos. Ainda que, a este respeito, a fragilidade política do executivo camarário aconselhasse maior sensatez.


No fundo, a legitimidade democrática da Câmara Municipal, mantém-se. Embora muito custe aos partidos políticos, demasiado afeiçoados às suas lógicas instrumentalistas e pouco democráticas. Contudo, não é menos verdade que é a população quem poderá decidir sobre se retira ou não a confiança manifestada nas urnas em 2005, em particular, numa altura de crise política (e não só), como a que se vive em Lisboa. Ele sabe disso, ao colocar a sua cabeça no cepo, seguro pelas mãos dos seus vereadores; mas nunca ao alcance das mãos golumianas de Marques Mendes. A este, em nome da coerência com decisões assumidas no passado (quando retirou a confiança política a «notáveis» sociais-democratas como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro), não lhe restava outra alternativa.


Carmona sabe ao que vai. Não desconhece as implicações desta sua decisão. Sobretudo no seio do PSD, para onde não hesitou em apontar baterias e desferir o cirurgico golpe: «come-me», mas terei que sair por algum lado... Neste momento, resta-lhe essa luta.


29 de abril de 2007

A Homossexualidade é Contagiosa?

De acordo com o Instituto Português do Sangue, é!
Pelo menos, essa é a ilacção que se pode retirar da interdição de doar sangue, a que os homossexuais são sujeitos. Ao não o permitir, sem que exista qualquer fundamento técnico-científico e sabendo que actualmente, em matéria de doenças sexualmente transmissíveis, não faz sentido falar em grupos de risco, o Instituto Português do Sangue deverá ter em mente contribuir para a normalização sexual do mundo, eliminando por aí a possibilidade de contágio.
Não seria nada agradável que subitamente, após uma transfusão de sangue, um bom chefe de família com provas dadas, desatasse a cobiçar gulosamente a peitaça peluda dos colegas, lá na oficina.

28 de abril de 2007

Licenciamento Urbano

Sócrates anunciou ontem no Parlamento, a intenção em descomplicar os processos de licenciamento urbano. Ao fazê-lo, manifestou a opção pela descentralização e deu um sinal inequívoco de confiança às autarquias locais. Valorizou o poder local democrático, responsabilizando-o e reconhecendo simultaneamente a eficiência da sua actuação ao longo dos últimos 32 anos.

E não só! Bem aplicada, esta medida vem igualmente exigir uma conduta vigilante e participativa dos munícipes.
Se, por um lado, os planos municipais de ordenamento do território deixarão de carecer da aprovação pelo Conselho de Ministros (entidade galáctica, longínqua das populações locais e por essa razão, desfasada das realidades locais), eliminando um passo causador da morosidade autárquica, tantas vezes criticada injustamente pelos cidadãos, por outro lado, as CCDR deixarão de se preocupar com esse acompanhamento paternalista aos planos de pormenor e urbanização das autarquias. E muito bem, porque a inteligência desse controlo deve ser aplicada a jusante nos PDM’s, responsabilizando as autarquias pelo necessário enquadramento em PDM, dos restantes planos de ordenamento do território. Ou somos todos uns parvos que aqui andam?
Se as preocupações dos ambientalistas da Quercus poderão legitimar-se na permeabilidade crónica dos meios de fiscalização do Estado e dos interesses económicos instalados (cuja actuação é tanto mais viciosa quanta a capacidade de decisão de um organismo, veja-se o escandaloso licenciamento da urbanização Sonae na península de Tróia), as preocupações manifestadas por Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã são, no mínimo, sinistras. Para não dizer, esquizóides.

Sendo estes dois líderes, defensores confessos da descentralização, as respectivas intervenções de rejeição da medida vêm reflectir o preconceito e a má-fé com que é brindado o poder local neste país. Por Lisboa, claro. Em que ficamos? Contra o centralismo de um Estadão hobbesiano e simultaneamente contra o seu mesmo esvaziamento? Não há confiança nos autarcas, para continuar a servi-la em bandeja de ouro a todos quantos giram na órbita da Administração Directa do Estado? Ou será por manifesto ciúme visto contabilizarem não mais do que 33 autarquias em 308? Eles, que estão por dentro destas coisas da política, lá saberão melhor do que nós, ignorantes e distantes de certas lógicas geo-partidárias…
Com esta medida (a ser implementada, pois também restam dúvidas quanto a isso), os meios de combate à corrupção e à ilegalidade podem não ser mais ágeis e mais eficientes; mas essa é uma questão paralela, pois convém não esquecer que, até há bem pouco tempo, o monopólio da decisão pública estava concentrado no poder central e não nas autarquias locais, não sendo por isso que as desconfianças de corrupção se esfumaram. Porém, onde se registe idoneidade e apego pelos valores da democracia, esta medida representará seguramente uma positiva ruptura com o meter da mão em seara alheia, com essa intromissão permanente do Terreiro do Paço, desconhecedor do mundo existente para além do seu próprio umbigo.
Que se preocupe mais com a situação vivida na autarquia lisboeta, que não é exemplo para ninguém, apesar da estreitíssima proximidade com o Governo da República e Assembleia da República e mais um par de botas...

25 de abril de 2007

Despertar de um Sono Dogmático

Não suporto os dogmas. Causam-me pruridos as convicções inabaláveis e cegas em verdades absolutas e incontestáveis. Regularidades que se tornam leis em sociologia, só para positivistas, crentes e por quem não se preocupa em conhecer a polissemia da natureza e cultura humanas. Para Nietzsche, «as convicções são cárceres», e eu não discordo. Por essa razão tenho dificuldade em compreender que uma cartola contenha panaceias para todos os males. Seja ela ideológica, religiosa ou outra. A unidimensionalidade é tirânica, castra o pensamento crítico e a acção interventiva. E isso, os doutrinados não compreendem, não questionando por sua vez, os dogmas inculcados.

25 de Abril, Sempre!




Aqui no palhal, as coisas permanecem imperturbáveis. Uns, saudosistas do antigo regime e da escravatura e, outros, frustrados por não terem conseguido realizar o sonho de uma Albânia plantada no extremo ocidente do continente europeu, governado por algum Enver Hoxha à portuguesa. O país já era pouco miserável em 1974…

De resto… bom, de resto, tudo na mesma. Afinal, «o povo é sereno». Mas há, ainda, algo de que os uns e os outros não se querem convencer: o povo é quem mais ordena! Se a multidão de Lisboa não tivesse saído [espontaneamente e ansiosa pela mudança] à rua há precisamente 33 anos, o movimento anti-guerra colonial dos mal apetrechados militares de Abril, teria sido imediatamente esmagado nessas mesmas ruas ou, quanto muito, teria conseguido alcançar o grande objectivo de estancar o envio de tropas para África.
Também é certo que, por ser quem mais ordena, o povo português precisou de uma alavanca, caso contrário, permaneceria espoliado, subjugado e privado da sua liberdade durante mais uma década. Os partidos políticos podem ser essa alavanca, em particular os que são ideologicamente marcados por preocupações sociais, o elo mais fraco. Contudo, não são nem podem ser os partidos/elites políticas a ordenar seja o que for. Mal do povo seria...

Por ser quem mais ordena e por reconhecer a sua incapacidade em se autonomizar, o povo só aparenta dar-se bem no seio do lar, sob a alçada de um pai mandão que lhe dê umas vergastadas periodicamente para baixar as orelhas. E isso dá-lhe prazer. É o preço a pagar pelos créditos à habitação, pelos carros, pelas compras na IKEA, pelas viagens, pela liberdade de pensamento e de expressão, pelas férias pagas, pelos filhos doutores, pelos subsídios de desemprego, pela Internet e por toda a tralha que se carrega para casa, só porque é giro ou fica bem na estante [pensem na casa dos nossos avós e nas nossas]. A sociedade é feliz, coisifica-se o ser, como acusou Herbert Marcuse por mais de uma ocasião, nos idos da década de 70.

O povo é quem mais ordena. Bem ou mal. Por isso, neste regime letárgico, o povo ordena que se continue a dormir. Porque, apesar de espernear, a cama é fofa…


PS: só mais uma coisa... o 25 de Abril é do povo, não é propriedade de nenhum partido político. Que fastidiosa, esta constante apropriação de algo que só pode e deve existir em permanente reinvenção, dentro de cada um. Lá por um pai ter ajudado a criar um filho, não quer dizer que este seja um carro telecomandado do primeiro.



Edições passadas:
25 de Abril de 2005

24 de abril de 2007

Derrapanços no Túnel

A Associação Nacional de Bombeiros deu parecer negativo ao Túnel do Marquês e a Câmara Municipal de Lisboa ainda só gastou «4 a 5 milhões a mais» do orçamentado (18 milhões). Devagarinho vamos lá... com paciência há para todas as bocas...

23 de abril de 2007

Estarão Cansados?

Afinal, Ribeiro e Castro estava coberto de razão quando acusou Paulo Portas de querer aniquilar o CDS-PP. Com o posicionamento ao centro de um partido democrata cristão, Paulo Portas promete transformar-se numa borbulha do PSD.

20 de abril de 2007

Mutatis Mutandis

A sr.ª ministra da educação [la ley!...] não despachou a «permissão» para a reuniãozinha subversiva dos sindicalistas da FENPROF. E muito bem, porque a indecência manda neste país que essa gentalha deve toda andar a toque de caixa. E é assim que a concertação social deve andar neste país: a toque de caixa. Pois de uma coisa devemos estar cientes: «mudam os tempos...».

16 de abril de 2007

Só Neste País?...

Portugal deve ser o único país no mundo em que os cidadãos elegem ministros pelas classes profissionais a que pertencem. Esta circunstância faz de Portugal um país finalmente composto por um Estado Corporativo, concretizando as premissas ideológicas forjadas pelo Estado Novo...
Esgota, sem ideias e previsivelmente medíocre, a comunicação social portuguesa faz de tudo um assunto sério, contribuindo para o encantamento da população. Contribuindo também para as intrigas palacianas promovidas subversivamente pelos depauperados partidos políticos, incapazes de assumir seriamente os papéis de oposição e governo a que, ciclicamente, são acometidos.

31 de março de 2007

Jardins Suspensos


Aproxima-se a época dos bolbos, sementes, adubagens, podas, terras novas e transferências dos viveiros para outras paragens. Projectos de Abril em jardins, suspensos pela acção dos homens, naturalmente.

26 de março de 2007

Volta Paizinho, Estás Perdoado!



Se, na maioria dos casos, bastaram cinco ou seis anos de depuração no Brasil para que os nossos fascistas regressassem em glória e reassumissem as suas posições cimeiras, agora sob a égide da democracia, no caso de Salazar a realidade era bem diferente. Afinal de contas, simbolicamente, o tirano era o vértice de uma ruindade que se instalou em Portugal perdurando 48 longos anos. Muito para além desses anos, pois metade do nosso atraso estrutural actual, devemo-lo a esse período. A outra, devemo-la à beatice, toleima e prostração dos nossos monarcas do século XIX, apostados em manter o povo na obscuridade, numa altura em que a oportunidade de progresso dada pela Revolução Industrial foi aproveitada nos restantes países da Europa. Atraso estrutural num país, em suma, onde as elites políticas se confundem com a imbecilidade rota e decadente de quem se tem por pastor de um rebanho de carneiros. E o é, efectivamente.

Dadas as circunstâncias simbólicas, o saneamento de Salazar termina trinta e sete anos após a sua morte, ou melhor, três das gerações mais recentes sem contacto com o ditador. «Só» trinta e sete anos, porque este é o país onde a herança salazarista do analfabe(s)tismo, da heteronomia individual e boçalidade com tiques autoritários são pesadíssimos, denunciando a atracção, também ela estrutural, pelo cajado do pastor.

Os resultados desse programa de televisão promovido com capitais públicos – Os Grandes Portugueses, na RTP1 – só vêm revelar que, além desse masoquismo, o povo é estúpido, ignorante e não tem apego pelos valores democráticos. A este respeito, são suaves as interpretações de alguns insignes comentadores políticos, que vêem essa votação como um sinal de protesto dado pelo povo à classe política. Não, esse sinal pode ser dado nas urnas, votando massivamente no PCP, no BE ou no CDS-PP. Mas tal não sucede porque para além de boçal, masoquista e néscio, o povão é cobarde.

Consola o facto de a televisão, enquanto veículo de comunicação de massas, ser o órgão de comunicação privilegiado por esta chusma de obtusos portugueses para apreender «conhecimentos». Portanto, um meio de comunicação à medida da cretinice transpirada pela Direcção de Programas da RTP, evidente na simplicidade com que o formato televisivo trata questões essenciais, de natureza incomparável e, sobretudo, com um alcance desmesuradamente absurdo e nada inócuo ao nível da interiorização persuasiva de modelos de comportamento.

Finalmente, para dar sustento ao desiderato deste Portugal acanhado, mesquinho e mentecapto, resta que regresse um Salazar para que aí sim, se faça uma revolução séria e à séria, sangrenta e bárbara, que remova à cacetada as metástases deste descomunal cancro.

22 de março de 2007

A Fragilidade do Papel

Recordo-me quando Saddam Hussein ludibriou os cegos americanos em 1991, dispondo tanques de guerra erguidos em placas cartonadas e fazendo os invasores descarregar toneladas de bombas sobre tão ameaçadores armas. A alguns metros de distância eram autênticos e temíveis mas na verdade não passavam de tanques de papel.
Os tanques de papel continuam e mesmo que se grite por toda a parte que o rei vai nú, não importa, porque hoje é dia de festa...

7 de março de 2007

à tout propos (264)

É bom saber que andam juízes portugueses por esse mundo fora a dar «lições de democracia». Pena é que as não consigam dar em solo nacional.

à tout propos (263)

Vale a pena espreitar a comemoração dos 50 anos da RTP. É comovente, a felicidade incontida estampada naqueles rostos. É comovente também olhar para o país real, embora não tanto espectacular.

5 de março de 2007

Da Democracia na Lua

A instauração de um regime democrático em Timor, no Iraque ou no Afeganistão, representa para os locais o mesmo que vestir um gato com uma peça de roupa humana. Simplesmente, não serve. Não se ajusta ao corpo do gato, o qual, para além da resistência natural em vestir algo que não foi para si concebido, dispõe de uma roupagem que lhe é natural e vive bem com ela. Por que raio têm os humanos a estranha tendência de conceber um gato à sua semelhança?

28 de fevereiro de 2007

Out of England!

Normalmente não se conhecem medidas interessantes nem pensamentos consistentes a príncipes. As suas atribuições não passam muito por desbravar caminhos, delinear estratégias, viabilizar um país. A condição ornamental a que estão sujeitos mas que os sustenta luxuosamente, não lhes concede tanto o direito à opinião quanto o direito a férias permanentes em Chamonix, 500 empregados, uma dúzia de castelos e palácios, carros de luxo, jóias e tantos outros privilégios. Esse parece ser o acordo entre monarcas e republicanos: os príncipes reservam-se o dever à não interferência nos assuntos do país e o Estado trata-os… principescamente, pois claro.
Mas de quando em vez, lá surge algum desses inúteis de bandeirinha na mão, agitando a defesa de qualquer ideia exótica. Seja por birra seja por convicção, certo é que um tal Príncipe Carlos de Inglaterra veio agora publicamente defender uma excentricidade em prol da saúde pública dos seus súbditos: banir a cadeia alimentar Macdonald’s do país. Diminuiria certamente a implantação de bandas gástricas e os encargos com cuidados de saúde a vítimas de complicações cardio-vasculares. Porém, no imediato, esta tontice valer-lhe-á as próximas férias a bordo de um opulento iate nos mares do Sul, sem direito a paparazzi e o convés cheio de hambúrgueres.

27 de fevereiro de 2007

O Grave Problema da Coerência

O problema do mundo é o grave problema da coerência. Ou melhor, da incoerência. O lobo disfarça-se de cordeiro, para depois se esquecer porque raio é que é lobo e não um estorninho. Aparenta desconhecer a que se dedicavam os seus ancestrais antepassados nos tempos primordiais, quando o mundo ainda não era mundo, pelo menos para si. Caso contrário, não se disfarçaria de cordeiro. Para quê tanto aparato, quando no momento crucial, nesse preciso momento em que o frágil pescoço do cordeiro está alinhado pelo azimute dos poderosos caninos, o lobo se desinteressa da presa? Para sorrateiramente a lamber, guloso, aguardando em louca salivação que ninguém veja e lhe atire com a porra da incoerência… que incomoda. – Ou é, ou não é, gritam eles ao lobo.

Ao lobo, pede-se que seja lobo com dignidade e frontalidade, e não que subverta ou inverta os papéis. Tal como ao sacerdote se pede que seja sacerdote e sobretudo, ao pregador de ideias se pede que as beba ele também. E parece residir aí o problema da coerência, quando ideais e valores da cultura são inoculados artificialmente na natureza dos homens. – Tem que se nascer com eles, meu velho. – Ou então, insistir e persistir e perseverar e teimar. Se é para se ser lobo aculturado, nesse caso, que nem pestaneje ao passeio do cordeiro. – É isso, meu velho, achar-se animado por uma vontade inabalável em não quebrar sob as pauladas da incoerência.

Por essas dificuldades, quanto mais culturais são os homens, maior o risco de se assemelharem a lobos amnésicos, incoerentes. O problema da coerência é um problema imemorial, sempre existiu. Desde que os homens são homens e os lobos são esquizóides. De lobos que alardeiam falaciosos estatutos de predador e de pregadores de ideias que nem com elas conseguem conviver, de tão pesadas serem para a vida de um homem.

Mas também é verdade que um lobo é um lobo e um homem é um homem. E o que os distingue definitivamente, não é a razão mas sim a cultura. E é preciso muita, para se amar a solidariedade.

23 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo II



Por exemplo, o Zeca. Era homem de muitos tiques. Tiques disto e daquilo. Há vinte anos, não morreu por causa de nenhum, mas ainda hoje é recordado por ter sido um dos primeiros a cantar a liberdade em voz alta aos ouvidos de um povo, até então, troglodita, cavernoso. Tal como há trinta anos, a liberdade ainda hoje é um prodígio nebuloso para a maioria dos portugueses, uma coisa de ficção científica, uma incerteza, uma imprecisão ou um mal que o mundo deu à luz. E nós agora, com o bebé nos braços. Perceber isso era um dos talhes do Zeca para quem a felicidade resultaria da complexa ligadura entre liberdade, justiça, solidariedade e igualdade. As suas músicas estão repletas deles, dos seus tiques volvidos detalhes, prontos a serem colhidos como quem colhe laranjas da frondosa árvore no Inverno. Mas o principal tique de Zeca era saber e ousar dizê-lo a quem desconhecia ter asas. A quem esquece.

22 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo

Raios os partam a todos. Aos tiques. Fulano tem tiques nos olhos, beltrano no cabelo e sicrano tem tiques de pastor. Cada um com o seu. Os tiques de animal, os de ditador, os de ladrãozeco, os de galã e até os de visionário. Tiques disto e daquilo, detalhes idiossincráticos, detalhes comportamentais. O talhe... tirar-lhes o talhe é suprimir o prefixo de, concentrando a atenção nesses pequenos mas reveladores tiques. Houve alturas em que queria ser comediante mas a trágica comédia em que se meteu alertou-o de que talvez não fosse muito prudente afundar-se em avarias de procurar a auto-destruição pela ascese. Há os que, com uma disciplina férrea, conservam tiques desses até à abaladiça. São os tiques da coerência. Outros... não! Perante tal impossibilidade, talvez o melhor fosse anuir em que os tiques lhe davam verdadeiramente para fazer coisas e guiar toda uma existência. E davam mesmo, pois tiques daquele calibre, não são para qualquer um. Só que, quais seriam eles, se o prefixo que lhes tirava o talhe desapareceu nos confins do oráculo? Sem tiques nem talhes, de que serve viver? E assim, cada homem se lançou em busca do de-talhe perdido, quiçá para poder explicar o mundo a si próprio.

21 de fevereiro de 2007

Bazar

Não há saudosismo latente que resista a um desiderato profundo: desejar que o Salazar fosse vivo. Porque assim e aniquilada a esperança, o ser seria investido da realista convicção que a segunda melhor saída seria abandonar este país, no qual os seus médios habitantes representam um grave e desconcertante erro genético. A melhor saída, será sempre lutar contra o cruel destino.

Maus Tratos

Desde que a sacrosanta comunidade legislativa passou a instituir hediondas categorias como os maus-tratos infantis, de súbito pulularam casos destes nas urgências hospitalares, nos tribunais e na imprensa. Trata-se obviamente da outorga formal de um fenómeno que era anteriormente tão difundido quanto tolerável entre as famílias típicas. Só que agora, mediatizado e por isso, condenável. A chapada, bem ou mal aplicada, dá hoje direito a prisão. E tudo o que pareça violento e execrável, excepto os doces, os hamburgers, as playstations, os DVD's e tudo o que possa distrair as pestes de levar um valente açoite. O amor prevalece, não obstante as categorias.

19 de fevereiro de 2007

Tirania da Maioria

O que move um homem, ditador-político, a anuir com eleições democráticas, a não ser o reforço da tirania, ourtorgado pela néscia fidelidade popular. A preocupante tirania da maioria, alertada por Alexis de Tocqueville cumpre-se carnavalescamente numa ilha. E perpetua-se, pelo amor servil da populaça ao mestre.

à tout propos (262)

Quando o povo se manifesta ao lado de autoridades, é porque algo vai realmente mal. O fecho de serviços de urgências é disso um sintoma. O ministro que se acautele...
Por outro lado, é interessante ver como as palavras de ordem comunistas «o povo/unido/jamais será vencido», são resgatadas da memória quando se dão usurpações de direitos conquistados, mesmo em terras galegas. Há, afinal, um legado patrimonial gerido consoante as conveniências ou consoante a total ignorância.

15 de fevereiro de 2007

Vandos

O verde musgoso da invernal paisagem alentejana foi subitamente borrifado por abundantes salpicos cinzento-escuros e brancos. São aos vandos. Certamente um sinal dos tempos, porque de bandos nada têm e de varas tampouco. Unidos por um insondável percurso comum, as alvas garças-boiadeiras pastam ao lado de porcos pretos. As aves renunciaram aos largos dorsos bovinos e às generosas bostas que as manadas largam atrás de si. E os cerdos partiram em debandada do chiqueiro, juntando-se à vara larga, às garças sem norte. Dominados talvez por uma força simbiótica, metafísica, estes vandos fundem-se na paisagem e deram origem a uma nova espécie endémica. Talvez a profecia se tenha cumprido e os porcos tenham finalmente ganhado asas.

13 de fevereiro de 2007

Quando a inconsciência se torna consciente

Naturalmente, a constatação é inimiga do desejo. E contemporânea da decepção. Por entre rios e riachos de fluxos lunares, o velho erguia a sua alma vivida, cuspindo com muda sapiência os destroços de uma erecção malformada.

12 de fevereiro de 2007

à tout propos (261)

Com a nova lei da interrupção voluntária da gravidez a ser regulamentada pela Assembleia da República, o aborto clandestino tenderá a desaparecer das instituições públicas de saúde, o que, por si só, é bastante vantajoso porque a partir de agora não há cão nem gato que não queira abortar. Pelo menos uma vez na vida.

11 de fevereiro de 2007

Aufklärung

Frontispício da Encyclopédie (1772) Charles-Nicolas Cochin


Há dias, o Primeiro-ministro deste ameno tugúrio afiançava peremptoriamente que agora sim, volvidos 32 anos de vivência em «democracia consolidada», o povo português exibia sinais claros de maturidade para manifestar a sua vontade, em consciência, numa consulta directa.

Esta inusitada afirmação, resgatada do baú do imemorial paternalismo dos governantes portugueses, encerra em si mesma uma contradição fundamental. Então, não significa a democracia – conceptual e etimologicamente – o governo do povo? Então e não é a democracia directa (de que o referendo é um instrumento), a mais genuína expressão desse governo, na sua génese praticada na ágora ateniense há 2500 anos?

Ora, se o Primeiro-ministro de um Estado democrático, regido pelas leis do direito, manifesta publicamente volições desta monta, talvez fosse mais honesto reformular conceitos e princípios. Desde logo, concedendo ao sistema de governação português, o estatuto de stick to the plan’s democratic working process. Ou seja, um estatuto de democracia embrionária, cuja observação no tempo se há-de prolongar até que o último cidadão português que não seja inimputável, interiorize de forma sólida os princípios e valores democráticos. Até que todo e qualquer português se sinta com competência subjectiva suficiente para manifestar a sua vontade em concordância com tais princípios e valores. Com bom-senso, razoabilidade e decência. Que é assim que deve ser...

Assim sendo, talvez o Sr. Primeiro-ministro pretendesse afirmar verdadeiramente que 32 anos após a queda de um regime usurpador das liberdades individuais, começam a verificar-se agora condições para que o país renegue o obscurantismo, supere as trevas e se lance no desafio da modernidade, da racionalidade e do conhecimento.

Todavia, tal não deverá suceder nas próximas décadas, a avaliar pela desenfreada corrida às urnas e pelo eterno apego a um atraso estrutural, reificado pelo dilecto adágio português, «deixar a coisa a marinar». Ad eternum… como é bom de ver também na democracia portuguesa.
PS: se não é pela praia, é pela chuva. Se não for nem uma nem outra, há-se ser uma coisa qualquer. Aufklärung...

8 de fevereiro de 2007

O Grande Lago Imenso

Cinco anos após a descida das enormes estruturas metálicas sobre o maciço de betão erguido em Alqueva, um monstrinho de água poluta e estagnada ali se aninhou, agigantando a sua informe massa na medida da voragem de terras aráveis, montado e explorações agro-pecuárias. Meia dúzia de anos após a hostilidade com que ambientalistas e outros cidadãos preocupados foram recebidos e apupados pelas populações locais, meia dúzia de anos depois de meio país ter receado por mais uma elefantada à portuguesa, diz-se por aí, os alentejanos estão descontentes.

Estão descontentes, diz-se também, porque o El Dorado com que sonharam, não passa afinal de mais uma forma de os pôr a vergar a mola. Bem ou mal pensada. Entretanto, lá se vão defendendo com as tradicionais deslealdades e manhosices dos espanhóis que invadiram a tão amada pátria. Lá se vão justificando também com as desfeitas de governos desinteressados.

Apesar do erro ambiental, Alqueva poderia efectivamente via a ser um projecto multivariado: turístico, agrícola, hidroeléctrico, de interesse estratégico em termos de reservas hídricas, etc. Mas não é nada. Ou é muito pouco. Excepção feita à especulação imobiliária e à panaceia do turismo de elites…

Mas não foi por falta de aviso. Fosse por técnicos do ministério da Saúde alertando para a fraca qualidade da água, fosse por economistas preocupados pela viabilidade económica, por ambientalistas inconformados com o duro revés sofrido por ecossistemas frágeis, por agricultores descontentes e por milhares de cidadãos indignados com o processo de tomada de decisão política, ancorado numa visão etérea e populista de gabinetes com vista para o rio Tejo.
O retorno do investimento público (nacional e comunitário) está à vista... do hubble.

à tout propos (260)

Esta não tem nada a ver, mas a Câmara Municipal de Redondo está a promover estágios profissionais com a duração de um ano, nas áreas de psicologia, economia e gestão, engenharia informática. Até 14 de Fevereiro...

6 de fevereiro de 2007

Descubra as Diferenças

Porque razão continua o país a encobrir uma realidade por demais esmiuçada e compreendida? Porque razão continuam os nossos governantes e os nossos tribunais a manter um pequeno tirano no poder? Terá algo que ver com o facto de se assumir sem grandes hipocrisias, revelando claramente o que é? E o que é, quiçá, a democracia portuguesa?...

Como outros na história, contemporiza-se com o culto da personalidade, o culto do chefe madeirense... o grande timoneiro xenófobo e totalitarista, cujas diferenças com Il duce hão-de residir mais na forma que no conteúdo. Um, altivo e o outro, arlequim. Meio século depois, a história há-de perdoar mais facilmente os italianos - deslumbrados pela grandeza nacionalista prometida - do que os portugueses, grandes mestres do estrabismo - essa arte que consiste em olhar deliberadamente para o lado, não vendo o que não se quer olhar.

2 de fevereiro de 2007

à tout propos (259)

Em Xangai, o excelso Primeiro-ministro José Sócrates enaltecia a extraordinária energia e vitalidade daquela cidade chinesa, evocando as similitudes entre os dois países e os resvaladiços laços que os unem. Um olhar atento que estilhace preconceitos sulcados e prudências parolas, permanentemente agastadas com a dimensão descomunal, recursos naturais e costumes chineses, abre as portas para seguir referencialmente tão sofisticado raciocínio exibido pelo Sr. Ministro-primeiro. Homem de rupturas. À luz deste princípio, as parecenças, entre Xangai e qualquer cidade portuguesa são cristalinas. Basta pensar na mão-de-obra barata. O ministro da economia há-de lembrar-se de mais. É dar-lhe tempo que o homem chega lá.

1 de fevereiro de 2007

Assembleia-geral da SHE

A participação directa em democracia é um fenómeno extraordinariamente curioso, dada a sua concomitância com o circense da coisa, com o sensacionalismo e, sobretudo, com a possibilidade de exacerbar sentimentos reprimidos, vociferar ódios, desenterrar vinganças latentes e até, projectar nas assembleias de ouvintes a representação imagética de uma sessão de psicoterapia. Por vezes, há inclusive os que participam com vista à prossecução do interesse público, procurando aplicar de forma razoável e sensata a equipagem racional com que a natureza os dotou. Assimetricamente, bem entendido.

Assim calhou ontem na Assembleia-geral de Sócios da Sociedade Harmonia Eborense. A fauna era diversificada, havia de todas as cores e feitios, para todos os gostos e desgostos. O bonacheirão perdido nas contas, nos estatutos e no convívio de Quarta à noite; o alarve a arrotar dentes d’alho pelos cantos da boca, ministrando impropérios contra os males instalados na sua própria memória; o imberbe revoltado apostado em fazer-se ouvir acerca dos seus nadas e dos seus quês primordiais, num turbilhão existencial profundo e piedoso; o apócrifo mensageiro da idoneidade volvida casacão, apelando insistente e solenemente à nobreza da legalidade, ao costume e à tradição da amada instituição numa inglória e peregrina reposição da verdade fugidia, julgando-a a mais digna representante da realidade feita propriedade privada de si e dos seus; os atacados na sua honrada existência exigindo reparos por danos morais e outros; o insistente e mentecapto embaixador da mais absurda masculinidade medieval; a chusma de lacaios mal ensaiados, acéfalos e saloios. Mas também, a douta personificação da sensatez e os que, como eu, estavam. Apenas.

Nunca lá tinha visto tanta gente... exortada pela Direcção a votar uma moção de confiança a si mesma, com base numa decisão executiva e perfeitamente enquadrável nas atribuições e competências que lhe assistem (consignadas nos Estatutos da colectividade), as quais dispensam tal consulta, a menos que esta seja requerida pelos sócios. E sem que, ao abrigo dessa moção de confiança fosse questionada a actuação geral do órgão executivo ao longo do mandato, porque é em função desse desempenho que uma Direcção poderá reforçar a legitimidade democrática escrutinada. Ou não.

Cuidado Casimiro, cuidado Casimiro,
Cuidado com as imitações, ó Casimiro,
Cuidado minha gente, cuidado minha gente,
Cuidado justamente com as imitações

Sérgio Godinho


30 de janeiro de 2007

à tout propos (258)

A campanha do referendo sobre o aborto começou hoje. O pontapé de saída, deu-o o Ministério Público ao promover uma conferência entre os pais adoptivo e biológico da menina «sequestrada», procurando definir a sua guarda. O Estado procura assim redimir-se dos seus sucessivos erros perpetrados por instituições como a Segurança Social e os seus irresponsáveis tribunais. O que não se teria evitado se a lei a referendar no próximo dia 11 de Fevereiro, tivesse sido aprovada há cinco ou seis décadas atrás...

26 de janeiro de 2007

Lisboa, um (des)Governo dos Pequeninos

Com um passivo de mil milhões de euros, a Câmara Municipal de Lisboa contribui com 1/5 da dívida das autarquias locais (308 municípios e 4261 freguesias), as quais concorrem por sua vez com 12,8% (Eurostat 2004) para o total da despesa pública (menos 14% da média europeia).
Ministérios, direcções regionais, institutos e comissões de coordenação consomem a maior parcela dos recursos do Estado. Estes valores só vêm confirmar os indícios da chacota europeia de que somos alvo, por ostentarmos um Estado centralizado, burocrático e balofo, com epicentro no Palácio de S. Bento. Alegremente estúpido!

Tal constatação, identificada pelos investigadores, remete para duas reflexões:

Em primeiro lugar, Palácio de S. Bento e Terreiro do Paço não confiam no povo português para se governar a si próprio, de forma local e directa. A vitória do Não no referendo à regionalização em 1998, mais do que uma expressão da sociedade civil, provou-se ser um conluio negociado entre os principais partidos. Um empecilho montado ingenuamente por um dos parceiros.
Aquela premissa decorre de uma outra, dando-nos conta de uma desconfiança generalizada dos portugueses em si próprios, atados pela aflição em ter que vir a ter que mandar na sua própria casa. Nesta, quem manda, manda bem. E esse é o santo pai, mesmo que a casa se transforme numa pocilga. As representações colectivas que o povo faz de si próprio, consistem numa amálgama indiferenciada que pasta em rebanho sob o olhar atento de um pastor, um pai, de varapau na mão quente e acostumada. E nem se importam se no rebanho coexistirem com um ou outro abusador. O povo concorda portanto com as análises funcionalistas de Marx, para quem a existência de um sistema judicial e policial só se justifica se houver bons e intangíveis criminosos pelo moderadamente longo braço da lei.
E convive bem com isso. Senão, nem as suas próprias mijadelas fora do traçado (stick to the plan) seriam toleradas pelo bom pastor. Assim, com umas carícias ao de leve, o pastor lá vai chegando a roupa ao pêlo com o varapau para mostrar que o sabe usar. Por seu turno, a chusma, se dá por isso, nem se importa e obedece com um sorriso amarelo. Mas sempre a sorrir, que a boca não foi feita só para engolir.

A segunda reflexão é clara pela recorrência com que é objecto de digladiação. O valor acrescentado por cada unidade monetária investida pela administração central e pela administração local. A representação que os nossos órgãos cognitivos fazem da realidade também, neste campo, parecem estar ajustados por um mesmo diapasão, em virtude de me parecer pouco profícua a discussão em torno dos conceitos de investimento e gasto e a sua associação tendencialmente concomitante com as autarquias locais e administração central, respectivamente. Salvaguardadas as devidas distâncias, excepções, casos de corrupção, leviandade. Certo é que, num cenário de poder democrático com acção exclusiva da administração central, Portugal seria um imenso descampado assinalado geograficamente por duas cidades em infantil disputa: Lisboa e Porto. Tudo o resto não teria resistido, sem a acção do poder local, pese embora todas as vicissitudes que lhe possam ser imputadas.

Mas também é claro que poder local e poder central não são duas realidades estanques nem a sua interpretação pode resultar de uma análise linear como a que foi exposta. Há descontinuidades, há fracturas, há esquizofrenias também.
Lisboa é um desses casos pois será o único órgão autárquico cujas semelhanças com a administração central me parecem incontornáveis. São-no ao nível da dimensão, do protagonismo e do despesismo, cujas raízes remontam à soberba umbigal dos intervenientes, à estreita ligação com a cúpula da administração central e também ao processo político-partidário. A Câmara de Lisboa é o governo dos pequeninos, a plataforma de lançamento de partidos e oportunistas vários. Outro nível, outro nível...

25 de janeiro de 2007

«Vou, mas não sem largar uma bufa mal-cheirosa»

Cravinho bem pode ir descansado para o banco europeu para a reconstrução e desenvolvimento (BERD), seguro de que as suas propostas não caem em saco roto porque os seus tradicionais opositores resolveram dar-lhe uma mãozinha na solitária luta contra a corrupção e contra os atávicos «rabos presos» do PS. Na oposição, o PSD sabe muito bem o que fazer, ao contrário dos tempos em que era governo…
Agora sim, Cravinho poderá aplicar as suas energias num genuíno combate à corrupção pois nas tarefas que lhe caberão enquanto administrador do BERD não lhe faltarão seduções, paixonetas e convites para declinar. De qualquer modo, nas congeminações do PS deverão estar agendadas grandes alterações no combate à corrupção. Caso contrário não se engalanariam para a festa. Resta saber com o dinheiro e favores de quem.

23 de janeiro de 2007

Você Sabe, Você Decide

Os subscritores do pedido de habeas corpus a requerer a libertação imediata do Sargento Luís Gomes ficaram perplexos com a mobilização de milhares de pessoas em torno da causa, que resultou na recolha de 10000 assinaturas, com vista à fundamentação de tal pedido.
E teriam realmente razões para isso, caso este acontecimento não revelasse contornos novelísticos tão ao gosto de beatas urdidoras enterradas entre as brasas e o tampo da camilha, em lamuriento pranto. E tantos outros. Por isso, é de esperar que nos próximos dias a turba acometa às ruas para vaiar o tribunal, linchar o progenitor da criança, extraditar a mãe biológica e glorificar aos céus o Sargento Luís Gomes & Esposa Lda. Neste argumento só são admitidos finais felizes porque infelizes, já bastam os da vida real.

Perante este tipo de reacção melodramática, talvez a mobilização futura de cidadãos em torno de debates e problemáticas que lhes são comuns, deva passar pela novelização dos temas, com enredos densamente imaginativos, personagens apaixonantes, catarses arrítmicas e desenlaces aplacantes de tanta tensão concentrada.

Para além disso e para que todos nos certifiquemos que o serviço público é efectivamente cumprido e garantido no debate sobre a interrupção voluntária da gravidez, há que exortar os apoiantes do Sim e do Não a criarem as suas próprias novelas. A da criança que havia de ter nascido e brincado com os seus irmãozinhos em harmonia, se não tivesse uma mãe má e ateia. E a da criança vítima de maus-tratos que um dia acabou dentro de um saco de plástico nas imundas e frias águas do Tejo.

22 de janeiro de 2007

PIOT's

Em matéria de planeamento e ordenamento do território, poucos povos há no mundo que nos batam aos pontos. Eventualmente as periferias urbanas das grandes cidades da Índia, China e as favelas do Rio de Janeiro. Se, perante a ausência de PMOT’s (Planos Municipais de Ordenamento do Território) e PROT’s (Planos Regionais de Ordenamento do Território), a proliferação clandestina junto da orla costeira e áreas protegidas era banal, agora que existem aos pontapés, a situação não é melhor.

É o próprio Estado o primeiro prevaricador ao anuir na construção de mamarrachos um pouco por todo o litoral, pois a santa vontade dos «investidores» não pode ser contrafeita. Assim, dentro de alguns anos, teremos mediáticas e onerosas acções de reforço do «cordão dunar» para salvaguardar os empreendimentos edificados na península de Tróia, na baía de Sesimbra e noutros locais pretensamente protegidos pelos nossos Planos Incontroláveis de Ordenamento do Território (PIOT’s).

18 de janeiro de 2007

à tout propos (257)

Anda um homem a esfalfar-se de sol a sol, convencido que vai deixar a sua marca como os cãezinhos fazem nas árvores, postes e tampas de madeira protectoras do chi-chi que o mais zeloso e idóneo português aplica nas rodas do carro, para uma cambada de beatos rastejantes, torpes e alarves lambões, menorizarem o homem, arguindo não ser o seu contributo “adequado e consistente”? O que seria então adequado para o grupo parlamentar socialista? A institucionalização desse fartar vilanagem cujo epicentro há-de estar localizado na mais distinta escola de crápulas do país?

17 de janeiro de 2007

Militares Portugueses Marcam as Populações Locais

Quando chegou ao aeroporto de Cabul, o ministro da defesa foi imediatamente confrontado com os mais rasgados elogios tecidos à actuação das tropas portuguesas. À cabeça da comitiva de boas-vindas estava a Associação de Taberneiros Afegãos, expressando a sua eterna gratidão pelo envio dos militares lusos. Pelo meio, aproveitaram para reivindicar o envio de mais portugueses. A comitiva ficou fechada com o Clube de Meretrizes de Cabul Oeste. Como é dos usos e costumes locais, o ministro beijou-os a todos e ainda teve tempo para abater um caça-bombardeiro americano enquanto encenava o já tradicional tiro comemorativo para o ar. São esperadas represálias sobre a Embaixada nacional.

Ladrão que Rouba Ladrão...

Como vem sendo recorrente e de algum modo aceitável nos tribunais, é o facto de serem habitualmente muito mal frequentados, por gente cuja maldade não se resume a um desaguisado com a regras dos homens. Mas esta inevitável constatação ganha contornos particularmente insólitos quando os vilões envergam impunemente a toga. As decisões são humanas mas os procedimentos são claros e rigorosos, em matéria processual e mesmo na construção de uma linha argumentativa norteada por um raciocínio minimamente compatível com a lógica. Sólida.
Aos juízes não se pede criatividade... Por essa razão é atroz quando se produzem condenações com base em nada, as quais já têm em vista encafuar os tribunais da relação e supremo com recursos que hão-de ter uma equivalência meramente administrativa na maior parte dos casos. São frequentes as condenações neste país puramente discricionárias, utilitaristas, arbitrárias e políticas, sem sustentação técnico-legal. Reveladoras do mais escabroso que há na espécie humana: a assunção do outro como um meio.

15 de janeiro de 2007

De Quem é Esta Culpa?

O cidadão de S. Teotónio (Odemira), vítima de acidente rodoviário, que tardou 7 horas em chegar ao hospital mais próximo com ventilador e serviço de neurocirurgia disponíveis – Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a escassos 200 Km de distância – ter-se-á afinal enganado no caminho, na sequência do incorrecto manuseamento do GPS. O Ministério da Saúde tenciona abrir um rigorosíssimo inquérito sobre se competia ou não, à vítima mortal e ao abrigo do plano de evacuação, a tarefa de indicar o caminho do hospital ao condutor da ambulância.
Caso se venha a apurar que essa responsabilidade cabia efectivamente à vítima, o ministro admite processar judicialmente o falecido pela sua própria morte. Caso contrário, a culpa é do condutor da ambulância, cuja pesada e exemplar sanção prevista é a inibição de condução de veículos de urgência quando não assinalam marcha de urgência.

No entanto, persistem ainda algumas dúvidas sobre a eventual deficiência do satélite e da informação geo-referenciada. Em todo o caso, o ministro não descarta a possibilidade de alguma confusão se ter instalado entre os operadores do INEM, uma vez que inicialmente terão ponderado o envio de um submarino (dos que Portas contratualizou para a armada portuguesa), para proceder à evacuação do homem.

Só 6 horas depois se terão dado conta de que afinal, os submarinos ainda não foram entregues pelo consórcio vencedor do concurso público, gerando-se uma acirrada e ordinária animosidade entre os telefonistas, pilotos de helicóptero, entre os padres das paróquias de Odemira e de Santa Maria a reivindicar a extrema-unção, entre polícias e bombeiros a reivindicar gratificados e ajudas de custo e entre os próprios candidatos à venda dos submarinos, que terão trocado ríspidos galhardetes sobre a celeridade na entrega dos mesmos.

Quem não está pelos ajustes é a insuspeita Dona Vanessa do Snack-Bar A Vanessa de Odemira, que vai entretanto pedir uma indemnização por danos morais ao Estado português, na sequência da reclamação movida pelo condutor da ambulância, segundo o qual, a sandes que comprou para a viagem já terá chegado «dura, mal-cheirosa e com pouco fiambre».

11 de janeiro de 2007

à tout propos (256)

Não há justiça salarial como na função pública. Nem tamanha obscenidade. Nada como começar por baixo... e por baixo terminar.
Mas há que dar ouvidos ao senhor patrão e assentir na bondosa e sábia fórmula, segundo a qual, «o dinheiro não é tudo na vida»...

9 de janeiro de 2007

A Bicha do Descontentamento

Gerou-se uma valente confusão quando a mariola sexagenária invocou perante os jornalistas da Antena 1, a lamentável insinuação da opção sexual dos funcionários do Metro de Lisboa, para descarregar nestes todo o seu desagrado:
«Olhe para esta bicha [presumivelmente apontando de modo indiscriminado para algum desses meliantes inveterados], para onde quer que uma pessoa se vire é só chouriças para um lado e para o outro». E sem estar pelos ajustes, a senhora mãe de alguém e avó de outro qualquer lá foi afiambrando com determinação por aquela bicha sem fim.
É capaz de por aí haver [entre os nossos idosos] algum fetiche anal, quiçá a sádica recriação de Eros reprimido por sucessivos maus-tratos e miseráveis pensões, projectada nos filhos, no governo, no cão e no gato...