12 de agosto de 2007

Silly Season II

Será do tempo ou de outra coisa qualquer... e nem é coisa que espante, de verdade. A comunicação social é, por norma, criadora. Hoje, excepcionalmente, as redacções das televisões afinaram e engalanaram-se de estapafurdices. As boas notícias são não haver praticamente notícias, apenas curiosidades.

Registo de curiosidades:

Ficamos a saber que Portugal alcançou mais um feito histórico ao entrar para o Guinness Book of Records com a maior onda humana do mundo, ao passo que o Hospital de Castelo Branco deu um importante contributo ao choque tecnológico do governo ao adoptar um sistema informático implementado há um par de anos na maior parte dos hospitais portugueses; e nalguns nos EUA (esta é a curiosidade, o resto é desinformação). O casal McCann acha que as polícias europeias deveriam reagir mais cedo ao desaparecimento de crianças. Estariam certamente a pensar num alerta accionado a partir do quinto minuto e na transferência da tutela das crianças para outras entidades que não os progenitores. Por essa via, certificar-se-iam que pais potencialmente negligentes não o viriam a ser. Mas também vimos como um corpo harmonioso é um corpo nu, enquanto se informava que o Chelsea não perde há não sei quantos jogos em casa. Foi igualmente registado um sismo nos confins da cordilheira central que terá entrado clandestinamente em Portugal, desafortunadamente, sem expressão para ser considerado pelo Guinness Book of Records.

Registo de notícias:
O Sporting venceu a Supertaça, o italiano Grillo venceu a etapa da Volta e a Câmara Municipal de Sabrosa homenageou Miguel Torga no centenário do seu nascimento.

Registo de casos:
O governo não se fez representar nas comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga em Coimbra.

Registo de lamechices:
Visivelmente emocionda, a filha de Miguel Torga enalteceu os poemas que o poeta lhe dedicou em criança. A mão do jornalista que segurava o microfone ficou visivelmente trémula.

É este tempo incerto que, de mofo e bafiento, imprime desorientação nas pessoas e lhes tolda a lucidez com náuseas insuportáveis. Via-se na cara do pivot da RTP. E imagino, nos milhares de pessoas enterradas no sofá que viram assim defraudadas as suas expectativas quanto a notícias sobre centenas de mortos no Darfur, as cuecas do primeiro ministro, ataques à bomba no Terreiro do Paço ou uma sessão de bofetada no Bolhão, entre uma peixeira e Paulo Portas.

à tout propos (274)

Apetece fazer nada. Muito menos dizer. Ainda menos pensar. Não apetece e pronto! Porque a vida é feita de apetites e horas para os ter, hoje não se janta!

8 de agosto de 2007

Baiji


Apesar de, diariamente, os seres humanos se empenharem no extermínio da sua própria espécie, o objectivo parece ainda remoto. Apesar de tudo fazer para se aguentar no planeta, foi hoje declarado extinto o golfinho branco do rio Yangtze.

Uma perda irreversível para o planeta… efémero incómodo para uma Humanidade indiferente, irresponsável, alienada e demente, cuja expressão máxima coincide com a civilização industrial contemporânea.

7 de agosto de 2007

«Ali Só Há Pedras Soltas»

Em Portugal, no que toca à conservação e dignificação do património histórico, arquitectónico e cultural, há de tudo. É como na tropa. Mas são as intervenções, as que normalmente causam maior celeuma, acirram paixões e dividem «especialistas».

Recentemente, o IPPAR deu luz verde ao Município de Sines para reabrir uma porta no castelo local. Os populares não gostaram muito da ideia e é natural porque em alguns aspectos, a memória colectiva não alcança mais do que meia dúzia de décadas. Certo é que a dita porta, ali foi aberta e fechada uma série de vezes ao longo da história. Por razões de segurança para milhares de pessoas que ali permanecem durante a realização de um evento anual, mandou-se reabrir. E bem, quer pelo cuidado em envolver técnicos especializados e o próprio IPPAR, quer pela argumentação da edilidade, mais do que válida.

A mesma lógica instrumental relacionada com a adaptação a novas necessidades, esteve na origem na abertura de uma porta na cerca fernandina entre dois cubelos localizados entre as Portas de Alagoa e as Portas de Alconchel. Compreendemos a procura da contemporaneidade na decisão em rematar a porta com mármore (uma vez que se tratava de uma abertura absolutamente original), embora seja de difícil explicação o abandono do granito...

Entretanto, a Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz iniciou uma façanha arrojada em Monsaraz, não tanto pela intervenção em si mas pela forma encontrada: com maquinaria pesada, ao arrepio das regras e sem qualquer acompanhamento técnico, como acusa a ADIM (Associação de Defesa dos Interesses de Monsaraz). É interessante observar como os resquícios da calçada medieval – ladeiras de acesso à fortificação – estão a ser tratados e como impera recorrentemente entre alguns decisores – que não é o caso do exemplo de Sines nem, parcialmente, o caso de Évora, acima descritos – a incúria relativa ao que é de todos e o mais profundo desprezo por corpos de conhecimento validados cientificamente e pelo trabalho dos outros.


PS: Utilizei propositadamente a palavra «Resquícios» de calçada medieval quando me referia às ladeiras porque, como se sabe, no interior da fortificação e até há uma centena de anos atrás, os habitantes não pisavam mais do que terra batida. Só posteriormente foi instalada calçada. Para uns, medieval.

6 de agosto de 2007

Photo Finish Contra a Mudança


O devoto mais dogmático tem que acreditar temerosamente num mundo composto, no limite, por regularidades incontestáveis e balizas insuperáveis, criadas e governadas metafisicamente. Uns, pela mão invisível e outros, pela Invisível Mão. É a sua função neste mundo, crer na suprema predestinação dos homens e das coisas. Há um sentido para tudo, que se explica (i)rracionalmente com recurso à especulação metafísica. A Divina Providência encarregou-se de os prender a um lugar, a uma condição, contra a qual só os imbecis ousam lutar. Inutilmente. Ao primeiro, segue-se o segundo e a este, o terceiro. Na mesma ordem de chegada, uma e outra vez. E outra ainda. E as que forem necessárias. Sempre e intemporalmente: «já era assim no tempo dos antigos» … e assim permanecerá. O tempo histórico não passa assim, de puro solipsismo. E este é o reino da apatia, da irresponsabilidade e do conservadorismo mais fervoroso.

2 de agosto de 2007

Guloseimas Para as Tropas

Nuno Severiano Teixeira, insigne ministro da Defesa, deslocou-se hoje ao Líbano para dar guloseimas às tropas portuguesas ali estacionadas. Não se sabe se aguçou ou não apetites mas talvez fosse útil explicar ao senhor ministro que género de cobiça se poderá formar em alguns, ao ter diante de si um homem grisalho, vestido de camuflado militar e sem conter a insinuante gravata cor-de-rosa.

Bom Senso

Nos momentos cruciais da sua auto-reflexão enquanto empresa, a Vodafone tem revelado algum bom senso. Dada a qualidade das bandas contratadas, os concertos que esta empresa anda a fazer desaguar por esse país fora, não poderiam ser outra coisa senão «flash». Os gajos tocam uma ou duas, entram no autocarro e vão-se embora sem causar quase nenhum incómodo aos transeuntes, que lançam olhares de indiferença ao aparato.

30 de julho de 2007

Os Príncipes de Espanha não Phodem

A apreensão da revista espanhola «El Jueves» – ordenada por um juiz espanhol – que caricaturava os príncipes reais em pose sexual, visando satirizar por essa via a politica de natalidade do governo, configura não só um vulgar acto censório, como também, a defesa mais conservadora da moral e dos bons costumes da «realeza». Como se os príncipes não se soubessem defender. Mas na verdade, são os direitos da «realeza» a fornicar e não apenas a procriar, que estão em causa. O que o juiz queria mesmo, era dizer aos pobres dos príncipes que phoder não é para todos.
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PS: a purga foi de tal ordem que não encontro em lado nenhum [nos meandros da internet] a púdica caricatura.

Relações tensas entre os dois Estados

Segundo noticiou o jornal Público, a interrupção voluntária da gravidez (IVG) na República Popular da Madeira custaria ao respectivo governo, cerca de 230 mil euros/ano. Agastado com uma grave ingerência do Estado português, o Rei da ilha recusa-se a cumprir a lei, alegando que se trata de um encargo que não fora ratificado pela Assembleia Regional, desequilibrando de imediato as contas regionais, vulgo, mama. As relações entre os dois Estados estão agora mais tensas, com o representante da República Popular da Madeira a ameaçar cortar os fundos que recebe do Estado português.

Segundo parece ainda, este valor paga apenas 1 dos 8 minutos que são queimados no fogo de artifício que os populares do lado certo da ilha têm oportunidade de contemplar no início de cada ano.

26 de julho de 2007

Esquizofrenia e desenvolvimento, cap. 9

A indignação da população é inversamente proporcional à legitimidade que pensa ter. E o seu inverso, ou seja, não contestar a incompetência nem injuriar os incompetentes num país onde não existe economia paralela, onde há uma taxa de colecta fiscal irrepreensível e onde a população sacia os seus deveres cívicos em harmonia com as exigências democráticas. Mas não. A ignorância disfarça-se de soberba, a incompetência finge que é a mais caprichosa cólera e a mansidão dissimula-se de desilusão.

23 de julho de 2007

Silly Season

Um dos aspectos mais extraordinários da silly season dos blogues é a assombrosa capacidade de engordar ódios virtuais, de gerar déspotas das teclas e valorosos heróis anónimos (vide Mais Évora); sem que nada tenha sido dito, mesmo que não se vislumbre fio condutor, mesmo que nada haja para comentar. Findo o mergulho no universo bloguístico, tudo regressa à normal placidez e à frouxidão de quem nada tem para adiantar. Pensando bem… este costume não é exclusivo da seally season nem apanágio dos blogues.

13 de julho de 2007

à tout propos (273)

Vou de férias!

De-Talhes (GOLDEN ANT)


Utopia dourada… para dizer que o futuro é muito tempo.

De-Talhes (COISAS SIMPLES)


De coisas simples se tece a intrincada malha com que são feitas as vestes da vida. À semelhança do mundo concebido por uma criança, suspenso sobre si mesmo, que prescinde do acessório, do supérfluo, do dispensável. Enfim, prescinde do que não importa realmente para a concretização dos sonhos.

De-Talhes (LIBERDADES)


A sociedade é feliz, mesmo que não se tenham cumprido as nobres promessas da modernidade. Encaixados entre o sonho e a realidade, os homens procuram agora o prazer em forma de liberdade, incontida por guinchos provocados por descargas de adrenalina em locais próprios e aceitáveis para o efeito.

De-Talhes (LÁ FORA CÁ DENTRO)


Lá fora faz frio. A noite cai sobre a cidade, arrefecendo o sangue que lhe circula nas veias. Enquanto isso, os homens procuram comodidades artificiais, engendradas para teimar com a agreste impetuosidade do clima. «Um gin tónico, se faz favor, que o ar está abafado cá dentro». Os que passam esquivos ao largo, lançam olhares de soslaio para certificar quem não está e abandonam-se, encolhidos, ao anonimato da noite.

De-Talhes (MONTRA DE CULTURAS)


… hoje, é perfeitamente possível que um russo deguste uma iguaria belga, num restaurante de um marroquino em França, servido por um empregado grego. São estes os ares da maior globalização de que há memória, reflexivamente presentes no fundo de um prato.

De-Talhes (LUGARES)


Paralelamente, mesmo que entre uma e outra parte do mundo não distem mais do que um par de quilómetros, o sobejo e o desperdício produzidos confundem-se numa orgia de sabores, aromas, cores e ingredientes, confinada a um local circunscrito no espaço e no tempo, cujo acesso é filtrado pela força da carteira.

De-Talhes (JANELAS)


Paradoxalmente, estas crostas são habitadas por gente, por gente empenhada em afirmar a sua identidade, tingindo-a de matizes garridas e festivas. Na ausência de melhor sustento para o estômago, também nestes casos a existência é apaziguada por mecanismos que suavizam as dificuldades impostas pela realidade. Mas esta capacidade de adaptação, presente desde as tribos primitivas, continua a ser observável sempre que se transformam chapas de zinco em paredes habitacionais ou quando se improvisa uma antena de rádio com um simples arame. As periferias crescem a ver partir e chegar milhares de migrantes sem destino, errantes ao sabor da sorte e da variabilidade da força dos seus braços.

De-Talhes (NÃO-LUGARES)



Não obstante a prodigalidade da natureza e as conquistas da humanidade, são indisfarçáveis as inúmeras fragilidades de um gigante com pés de barro, sem saber o que fazer com as crostas inestéticas que lhe povoam a derme. Sem soluções, relega-as a um silenciado abandono, proliferando descontroladamente como metástases nos não-lugares; aqueles, para onde é útil não olhar.

11 de julho de 2007

De-Talhes (SÍSTOLE - DIÁSTOLE - SÍNCOPE?)


… para se entregarem de novo, rotineira e quotidianamente, às solicitações de uma sociedade dinâmica e altamente estruturada. Para que o sistema seja retroalimentado e não recue, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos e refluxos. Num vai e num vem, nalgum momento da vida, incompreendido e absurdo pelo ser imperfeito. Tal como as peças de Ionescu, embora aqui, são raras as vezes em que o pano encerra o último acto, resguardando os humanos de uma existência paradoxal.

De-Talhes (DO TRABALHO AO LAZER)


Os tempos são de progresso a um ritmo inaudito, criam-se estruturas para acolher os novos nómadas, cuja bagagem já não consiste nos artefactos de caça, recolecção, montagem e desmontagem de acampamentos. Multidões de pessoas movimentam-se constantemente para destinos longínquos, agora em busca do pão espiritual. Pontos de fuga de uma existência marcada pela complexidade quotidiana e pela necessidade de iludir a aborrecida norma.

De-Talhes (A SUPERIORIDADE DA CIÊNCIA)


E as crescentes necessidades do homem ordenam que, para sua comodidade, se façam alquimias, se levantem prédios, se cruzem rios e se desafiem as leis da natureza. Pasmado com tão assinaláveis conquistas, o homem anuncia a sua omnipotência, festejando-a com o domínio pela técnica e ciência, entrincheirando os instintos e os sentidos na imensa realização que são as civilizações humanas.

10 de julho de 2007

De-Talhes (TERRA - o pão não cai das árvores)


… para se deter numa qualquer pradaria complacente, olhar o horizonte e perceber que a mãe terra, não só é sua deusa e juiz mas também amante, fecundando-a na expectativa de daí retirar o seu pão. Agora, é a cultura que esgravata o chão, operando-lhe transformações ao ritmo dos desejos dos homens e não, como outrora, durante os ciclos e quantidades estipulados pela natureza que até aí votara as comunidades à caça e recolecção de alimentos.

à tout propos (272)

Talvez tivesse sido uma paragem de digestão, azia ou simplesmente atavismo. Daquele assim, digamos… prosaico, mesquinho e abespinhado com normalidades ultrapassadas há que séculos pela modernidade. Há sujeitos assim… ou melhor, predicados armados em sujeitos que se incomodam gravemente com, por exemplo, a música ambiente seleccionada para acompanhar a jantarada camone no nobre tabuleiro central da Praça de Giraldo. Para que estes senhores vindos lá do estrangeiro levem uma imagem de modernidade do país, nada como pregar-lhes com Enter Sandman dos Mettallica, a rufar pratos, talheres e com um bocadinho de sorte, a embelezar uma cena de pancadaria à antiga, para entreter a malta.

Mas para que nada faltasse, momentos depois, as cordas vocais dos do Teatro Regional da Serra do Montemuro e a atenção dos transeuntes eram postos à prova pelos automóveis, pelas motorizadas das pizzas e por galinhas vestidas com roupa de gente; pela tagarelice e pelo ruído, ou eram espanhóis ou galinhas. Disso tenho eu a certeza.

Felizmente, a Região de Turismo de Évora está muito atenta à qualidade, competências e profissionalismo dos operadores da restauração em Évora. Felizmente que a peça Splash do TRSM não foi exibida no separador central de uma auto-estrada.

9 de julho de 2007

De-Talhes (ATÉ AO FIM DO MUNDO)


… um caminho, ainda que por entre abissais gargantas de terra e vertiginosas cordilheiras, capaz de traçar estradas, romper barreiras e estender salpicos de civilização até aos píncaros mais inacessíveis e aos ermos mais trogloditas e desolados, só revelados pela intransigência humana.

De-Talhes (UM RUMO)


… guiando-os com mais ou menos acerto, rumo ao acolhedor regaço de um porto de abrigo. Como uma luz sinalizadora que lhes indica o melhor caminho a seguir. Esta busca de águas calmas, de compreender e domar o meio, pertence ao imaginário ancestral dos homens que ontem como hoje, lutam pela sobrevivência e reivindicam um percurso em permanente construção.

8 de julho de 2007

à tout propos (271)

É conhecido o mau-gosto da «generalidade» das pessoas. Eleger para melhor português de sempre um louco, responsável pelo afundamento da dignidade, emancipação e intelectualidade de um povo (o que restava), só pode ser uma escolha de mau-gosto. Compreende-se agora por que razão no concurso das 7 maravilhas de Portugal, não haviam portugueses em concurso ou, o povo em geral, enquanto entidade abstracta. É, no mínimo, triste, reduzir as maravilhas de um país a alguns monumentos históricos; antes a vizinha do 7º-A, o pão alentejano ou o pastel de nata...

De-Talhes (À CONQUISTA)


Desde tempos imemoriais, a necessidade e o medo e a crença, moldaram homens intrépidos, dispostos a arriscar a vida em aventuras contra o destino, as agruras e a – por vezes fatal – hostilidade do meio. Lançando-se temerariamente no desconhecido, a essas hordas de homens, sempre valeram o engenho, o sacrifício e a razão que os acostumaram a enfrentar e superar, permanentemente, o inevitável e decisivo desafio da sobrevivência.

7 de julho de 2007

De-Talhes (UM CAPRICHO?)



Ao contrário dos outros animais, o cérebro do ser humano está equipado com ferramentas racionais e sensíveis que lhe permitem transpor um cenário imaginado para uma dada realidade. Tais faculdades, permitem que um pintor cubra com neve uma qualquer paisagem desértica. Contudo, à semelhança de um estímulo sensorial que fornece uma informação errada ao cérebro (caso das visões no deserto), assim as alterações climáticas lançam a confusão meteorológica no planeta, invertendo a ordem natural das coisas.

6 de julho de 2007

De-Talhes (ÁGUA)


A alta montanha, os pólos e as zonas glaciares são importantíssimos reservatórios naturais de água. Aos primeiros raios de luz primaveril, os fios de água cristalina e fresca correm montanha abaixo em agitado frenesim, engrossando as ribeiras, rios e lagos, cuja biodiversidade conhece, nesses tempos, cíclicos rejuvenescimentos. Os degelos são fenómenos naturais desencadeados fundamentalmente pelo simples movimento de translação do planeta, o qual está na origem das estações do ano. Porém, têm vindo a agudizar-se nos últimos séculos, na medida da intensificação da intervenção humana, em quantidades e períodos substancialmente maiores.

5 de julho de 2007

De-Talhes (MUSA)


A natureza é generosa: dá alimento, segurança e bem-estar ao homem. Esse bem-estar indiciador de uma identidade [ab origine], que é consecutivamente reificada nos nossos jardins, no quadro de um pintor famoso ou no deleite proporcionado ao contemplar a sublime paisagem a partir de um miradouro. Mas sob o manto colorido e delicado, fonte de inspiração e confessor de amantes e artistas, homens e mulheres, oculta-se uma profusão de proveniências, denunciando as profundas transformações operadas pela cultura humana.

De-Talhes (MURALHA)


Qual poderoso exército de gigantes glaciais posicionados na linha da frente, o intransponível muro arruma a humanidade e a natureza nos respectivos compartimentos. Uma divisória. Contudo, o simples manuseamento de um utensílio de caça e os desenvolvimentos tecnológicos que se seguiram, viriam a criar pontes de diálogo entre aqueles dois mundos inicialmente apartados, posicionando-os numa relação de permanente e tensa interacção; por vezes destabilizadora dos equilíbrios estabelecidos.

4 de julho de 2007

De-Talhes (SÁBADO)


Madrugada. O sexto dia; aquele que Deus definiu para dar ao mundo quem o substituísse na criação de algumas coisas. Neste dia, Deus não foi sensível às queixas de Vinicius de Moraes, expressas no poema “O Dia da Criação” e acabou mesmo por agir como agiu. O mundo não mais seria o mesmo e, naquela madrugada, os céus agitaram-se revoltosamente por isso. Ao sexto dia, Deus brindou o mundo natural com um seu Alter-ego, capacitando-o como demiurgo do mundo cultural: o homem… e a mulher.

2 de julho de 2007

De-Talhes


A natureza e a cultura humana convivem em permanente dialéctica reconstrutiva, nem sempre sendo clara a destrinça destes dois mundos. De-Talhes propõe um olhar sobre este contínuo compromisso, procurando mostrar alguns talhes na natureza, tidos como inalterados e, outros, quotidianos, que suportam estilos de vida tal como os conhecemos hoje, profundamente alterados pelas trocas e enxertias da paisagem, das pessoas e dos hábitos. Da ideia de natureza aparentemente intacta, à representação de uma sociedade emancipada do mundo natural, De-Talhes sugere antes de mais, uma visita a algumas coisas simples que nos rodeiam e aos seus significados, sempre variáveis, sempre humanos…
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De-Talhes
Exposição de fotografia (2 a 23 de Julho)
Foyer do Centro Cultural de Redondo
... e aqui
Todas as fotos a apresentar aqui não reflectem inteiramente as fotos expostas no CCR: nem em resolução nem no corte.

26 de junho de 2007

Teorias de espaço público



O rapaz insistia em que não, que não se pode tirar fotos! Não, que ali quem manda é ele; e os seus. Com alguma diplomacia mas sem assinalável agilidade, lá ia apaziguando o ego do rapaz, redarguindo que ficasse descansado, que em atenção à senhora sua mãe e à sua imprevisível agitação - coisas que oportunamente simplifiquei com a palavra «respeito» - não tiraria mais fotografias. Mas lá lhe ia aborrecendo o juízo com um sorriso matreiro, tentando ensinar-lhe que aquilo era espaço público, com todas as implicações que isso tem. Ou não tem, no caso do rapaz, mais do que habituado a esgueirar-se do espaço público e do extenso normativo social e legal, que jamais entendeu. E que talvez nunca queira entender.

A vida destes rapazes é feita de desvios, de fugas a uma realidade desconhecida que não foi produto da sua acção concreta, é feita enfim, de vivências marginais e semi-nomadas aonde as estruturas sociais nem sequer têm a pretensão de chegar. Ele tinha a sua razão. Eu teria a minha.

Apertei-lhe a mão, devolvi-lhe as costas e regressei de imediato nos instantes seguintes para lhe perguntar: «e à minha namorada - que vai andar agora - posso tirar?». Sem o orgulho ferido, sem a sua autoridade posta em causa, assentiu, fazendo um gesto largo e generoso com a mão. Omnipotente. O canguru tornou-se dromedário e levou aquela gente toda a viajar. O rapaz, permaneceu petrificado de costas para a viagem.

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25 de junho de 2007

Um sistema eleitoral para os golias

Na passada semana, durante um jantar de «trabalho» dos deputados socialistas ocorrido no Convento de Cristo em Tomar, a reforma do sistema eleitoral foi assunto que se manteve arredado do debate. Nem levemente aflorado. Não foi certamente por isso que o líder parlamentar socialista olhou com reserva para uma proposta de reforma do sistema eleitoral, apresentada pelo PSD uns dias depois.

Contudo, não deixa de ser curioso notar este aparente desinteresse sobre uma matéria que andou desfraldada nas bandeiras do PS. Para além da criação de círculos uninominais no continente, o PSD propõe também a redução do número de deputados à Assembleia da República.

Com os círculos uninominais, a representação proporcional não é garantida, como tentamos ilustrar aqui e aqui. Por outro lado, o argumento segundo o qual, com este arranjo se pretende aproximar os deputados (eleitos ad hominem) dos eleitores, é um argumento falacioso.
Por duas razões: em primeiro lugar, são raros os deputados que, uma vez eleitos, mantém ligações com as populações dos distritos pelos quais foram eleitos e intervêm na Assembleia da República nessa condição; em segundo lugar, diz o n.º 2 do Artigo 152º da Constituição da República Portuguesa que “os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos”. Esta regra, convenhamos, tem sido muito útil para justificar o «abandono» dos círculos – sejam eles uninominais ou plurinominais – pelos deputados durante uma legislatura inteira, a não ser quando há presidências abertas ou campanhas eleitorais. Ora, como eles costumam dizer, o deputado está em permanente comunicação com os círculos através das concelhias dos partidos que os elegem. Nesse caso, nada muda em termos de aproximação entre eleitos e eleitores porque tudo está bem, ou seja, não há crise de representação que justifique uma reforma do sistema eleitoral.

Quanto ao emagrecimento da Assembleia da República, releva novamente a estocada na representatividade, uma vez que, à diminuição do número de deputados, corresponderá uma diminuição da representação proporcional dos círculos com menos eleitores. Em termos líquidos e porque a distribuição dos mandatos é feita tendo em conta um rácio calculado a partir do número de eleitores, o Distrito de Évora elegeria, por hipótese, 1 deputado, tanto quanto uma qualquer freguesia de Lisboa. Para que se tenha noção, actualmente aos 5,17% de cidadãos residentes no Alentejo, correspondem 3,48% dos deputados. Portanto, em matéria de equidade, equilíbrio territorial e solidariedade, estamos conversados…

Mas, subsiste ainda um aspecto que merece alguma atenção para memória futura. A estratégia do PS governamental tem passado muito pelo esgotamento da principal oposição através da invasão do espaço político tradicionalmente da direita. O silêncio do PS não descansa a democracia representativa nem o pluralismo democrático. E criticavam estes o «centralismo democrático» do PCP…

22 de junho de 2007

à tout propos (270)

Que tipo de justificação podem dar os apoiantes de Hugo Chavez, para as atitudes verdadeiramente autocráticas e fascistas como a que o levou a encerrar a Rádio Caracas Televisión, por exemplo? Não só estimula o culto do chefe enquanto figura messiânica, libertadora do jugo americano como decreta o unanimismo através da propaganda e censura. Verdadeiramente arrepiante, por exemplo, o programa televisivo que apresenta ao domingo. Terá a veleidade de, ele próprio, criar a sua própria religião que, de resto, andará arredada do comunismo que invoca abusivamente e em vão? Entretanto, quem libertará depois o povo venezuelano do jugo chavenho? Os americanos? Valha-nos deus...

21 de junho de 2007

Évora

ADVERTÊNCIA: Este post foi escrito na sequência de um artigo publicado em Diana FM. Para além disso… não creio que tenha linguagem obscena pelo que, qualquer um o pode ler.


Não restam grandes dúvidas sobre a vocação de Évora para o turismo. Nomeadamente, para o chamado turismo de qualidade – que não significa necessariamente turismo de luxo nem monocultura do turismo – o qual se confunde em parte com a dinamização cultural de um lugar. Cada vez mais, as rotas turísticas internacionais apontam para o casamento entre aquilo que poderemos chamar a cultura material (património arquitectónico, a gastronomia, o artesanato, etc.) e a denominada cultura imaterial (usos e costumes, desenvolvimento e manifestação de actividades artísticas de rua e nos teatros, auditórios, etc.).

Claro que, face à descoincidência entre aquelas duas dimensões e as estratégias, estamos pouco acima do groud zero em matéria de planeamento estratégico e articulação prática entre os diversos intervenientes culturais, hoteleiros, comerciais, institucionais e associativos.

Não obstante, Évora tem tudo. Tem uma cultura invejável, que é a do Alentejo e tem, também, infra-estruturas; embora por vezes tenhamos a tendência para obliterar esse facto, escudando-nos nas megalomanias disfuncionais e desérticas que proliferam por esse país fora.

Com efeito, dispomos de um dos mais belos teatros do país; de razoáveis auditórios na CCDR, Fundação Eugénio de Almeida e Universidade que, dão garantias para colóquios e seminários nacionais e internacionais; temos o Soror Mariana, as instalações da Academia de Música Eborense; temos galerias de arte e salas de exposições; temos um edifício monumental - Salão Central - que pode recuperar a dignidade de outrora, tal como a sede emprestada da Harmonia, localizada no coração da cidade; temos os ex-celeiros da EPAC onde associações como a Pé-de-Xumbo, A Bruxa Teatro e a Sociedade Harmonia Eborense desenvolvem regulares e notáveis actividades (peças de teatro, concertos, workshops); temos colectividades musicais, grupos corais e um renovado Convento dos Remédios; temos uma companhia profissional de teatro com reconhecidos méritos, algumas companhias de teatro amador, cineclubes e outros agentes culturais mais ou menos anónimos; temos a BIME, temos o FIKE; temos o Mercado Municipal; temos a Fábrica da Música e companhias de dança; temos salões de colectividades na cidade e nas freguesias rurais que nos dão garantias para descentralizar acções; temos um jardim público, temos praças deslumbrantes, temos igrejas onde podem ser apresentadas exposições, concertos, etc; temos o Convento do Carmo; temos hotéis para todos os gostos, carteiras e potencialidades; temos equipamentos desportivos de clubes e associações que podem muito bem ser rentabilizados como contrapartida pela contribuição pública que recebem; temos artesãos e as suas próprias galerias; temos uma instituição universitária que importa e é urgente apoiar, aproveitando justamente todo o potencial que os docentes e alunos têm, seja no domínio científico, seja no campo das artes performativas; e podia aqui enumerar tantos outros exemplos...

Temos, enfim, a cidade de Évora; temos todos nós porque, de um modo ou outro, nos pertence a todos. E é isto, precisamente tudo isto, que apaixona quem nos visita e que se pode revelar uma vantagem (para além das já estafadas argumentações das acessibilidades, do enquadramento geográfico, da segurança, do clima, etc).

E vamos ter também um novo pavilhão multiusos, capaz de albergar muitos espectadores e alguma variedade de eventos. Neste como em outros equipamentos municipais, é necessário encontrar sinergias entre todos, de modo a que todos estes equipamentos estejam abertos à população e visitantes e que, transpirem o bulício diário a quem os visita, esse bulício quotidiano da preparação cenográfica de uma peça de teatro, do workshop de cinema para crianças, do ensaio geral de uma orquestra ou da simples montagem de uma exposição de escultura para enriquecer uma mostra de produtos regionais.

Sem ponta de ironia, basta que tenhamos um pouco de imaginação para rentabilizar os espaços e o que é produzido pela sociedade civil através de associações, empresas, companhias, grupos e grupelhos.

Por conseguinte, não é falta de infra-estruturas que temos. Olhe-se para cidades europeias hiper atractivas do ponto de vista cultural como Praga ou Barcelona, onde antigas fábricas e oficinas dão lugar a salas de exposições, de concertos e colóquios.

Falta sim, um arranjo estratégico, um plano. Exequível, mobilizador, funcional e atractivo, cujas acções complementem a riqueza da paisagem, da monumentalidade e dos costumes desta terra. Que se aproveite o que há e, seja articulado organizadamente e, que se mostre ao mundo a dimensão de uma terra com as marcas de algumas das mais extraordinárias civilizações de que há memória.

Falta também um compromisso das entidades públicas e privadas com a execução desse plano. E rigor. Rigor, criatividade e simpatia, pois não é ração para bestas o que vendemos (com o devido respeito pelos vendedores de ração).

E tudo isto para quê? Para que as pessoas vivam melhor no futuro. Apenas.

20 de junho de 2007

Os amigos são para as ocasiões

A tendência de boa parte dos eleitores associar o seu sentido de voto nas eleições autárquicas à cor do governo, para daí, os seus lugarejos retirarem quaisquer tipo de favorecimentos, só reflecte essa ideia cancerígena e feudal que grassa, segundo a qual, os amigos são para as ocasiões… Não fica nada bem a Fernando Negrão invocar subliminarmente essa mesma ideia para justificar a sua desvantagem; nem a António Costa, servir-se dela para conquistar votos nas eleições intercalares de Lisboa. Nem um nem outro prestam um bom serviço à democracia. São regulares… mas isso também não é novidade. Novidade seria se, subitamente, o país interiorizasse a expressão: «amigo não empata amigo».
Se Costa ganhar, abrirá o caminho para a maior vitória política de Alberto João Jardim nos últimos 200 anos, porque não se aguentará com esta lei das finanças locais; a não ser que tenha bons e generosos amigos no governo...

Um mapa cor-de-rosa e laranja




Nem só os «Fatias de Cá» oferecem jantares no Convento de Cristo sempre que ali encenam peças de teatro; cansados de comer um pouco por todo o país, os deputados socialistas viraram-se ontem para os lados do Nabão e, segundo parece, apesar do farto e bem regado jantar, ainda terão conseguido articular alguns vocábulos. Noticia o jornal Público que num assunto não tocaram eles: na reforma do sistema eleitoral. Desconhecem-se as razões, que, desde a embriaguez até à estratégia do sigilo, poderiam ser imensas.

Regressando um pouco atrás, uma das mais controversas medidas da reforma do sistema eleitoral é precisamente a substituição dos actuais círculos plurinominais por círculos uninominais. Esta singular medida tem o poder de extinguir os partidos minoritários e cimentar decisivamente o bipartidarismo. As consequências são óbvias, nomeadamente engendrar a necessidade de alterar a própria Constituição da República Portuguesa. Apesar de no seu Artigo 149º serem previstos os círculos plurinominais e os círculos uninominais desde que seja assegurado o sistema de representação proporcional (a forma de conversão de votos em mandatos, de acordo com o Artigo 133º), há no entanto, que apelar ao Artigo 2º, cuja leitura é inequívoca quando invoca que «a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão…». E também a leitura dada pelo Artigo 113º, n.º 5: «É reconhecido às minorias o direito de oposição democrática, nos termos da Constituição e da Lei».

Ora, o pluripartidarismo é justamente o arranjo mais eficaz para garantir o pluralismo. Contudo, como se sabe, os círculos uninominais favorecem o bipartidarismo porque serão vencidos cronicamente pelos partidos mais representados, sem a possibilidade de, nesse círculo, haver um «segundo lugar». Ou seja, acabam as veleidades para blocos de esquerda, partidos comunistas, partidos populares, etc.

Não me parece que, nessa matéria, os exemplos dos EUA e da Inglaterra, sejam os mais adequados a Portugal por razões históricas e culturais que importa debater mas não aqui, neste momento.

Em suma, a reforma do sistema eleitoral que contemple a criação de círculos uninominais, serve ao PS e ao PSD e a um país que se vê a duas cores. Como a foto acima: tudo a branco e... encarnado.
Em todo o caso, é um bom indício que no Convento de Cristo não tenha sido abordado esse assunto. A credibilização do sistema político passa por ele e não pelo sistema eleitoral...

Textos complementares: Que arquitectura eleitoral? (21.4.2005)

19 de junho de 2007

... à tout propos (269)

As diferenças de opinião costumam gerar outras, frequentemente mais ricas se, pela síntese do conflito (no mínimo, para um dos interlocutores); ou, pelo menos, mais avisadas; ou, pelo menos ainda, mais... convictas.

à tout propos (268)

Sobram tapa-olhos de cristal opaco neste lugar opressor e empenhado no seu próprio torpor. É francamente maçador. Um mal geral de que não nos podemos queixar, mesmo se atinge democraticamente pobres e ricos, feios e belos, novos e velhos. Insuportável seria haver alguém simultaneamente belo, inteligente, sensível, rico, pragmático, idealista, carismático, solidário, fiel [...] e ainda, com uma visão periférica de 360º sem precisar para isso, do olho do cú. É o que há!

18 de junho de 2007

Novo look


Como poderei justificar a transformação de um template com quase 4 anos de existência, contemporâneo de In Tenui Labor, sem apelar para a suprema e urgente reivindicação que os tempos nos fazem quotidianamente? Uma necessidade de mudança, de adaptação aos tempos modernos em permanente e ritmada agitação - que já Chaplin, Orwell, Huxley, Ridley Scott e outros nos sugeriam. Cada um à sua maneira; uns, de forma pessimista, outros mais sagazes. E vale a pena aludir ao facto de serem precisamente essas demandas que [também] nos estagnam e apodrecem, que nos colocam à mercê da nossa própria resignação. Passos perdidos e desorientados, esmagados pela pesada mão da aceitação, do conforto e de nada.

As convicções são, com Nietzsche, um soturno túnel, escavado em direcção ao núcleo imemorial e demiúrgico do planeta, por não explorarem a tese e o seu contrário - a bidimensionalidade; ou, em contrapartida, representam uma salvação, um último reduto para os insatisfeitos, para os imperfeitos? Mas fará sentido falar de um «último reduto», mesmo sem que seja respeitada a condição essencial da auto-reflexão profunda e religiosa de todos e de cada um?

Havia uma música do Elliot Smith que, às tantas, dizia «I saw you at the perfect place / It's gonna happen soon, but not today / So go to sleep, and make the change / I'll meet you here tomorrow / Independence Day / Independence Day / Independence Day».

Entretanto, já a questão do template se eclipsou, se dissipou na escaramuça originada pelas promessas não cumpridas pela modernidade: a liberdade, a igualdade, a felicidade. A omissão foi «compensada» pela satisfação material, pela coisificação do ser, profundamente reptiliano, mecânico, autista. Como é da nossa natureza, de resto. Talvez por aquela razão, o imaginário de emancipação dos nossos contemporâneos seja povoado por ilhéus desérticos onde o sol cai a pique e os corpos são arrefecidos por uma piña colada... Puro hedonismo que cresce a par da insatisfação e a contém entre taipais invisíveis.

Enquanto isso, chusmas de gente amontoam-se diariamente em canais arteriais cinzentos e unidireccionais, sem um destino que não o destino do órgão que os atrai e repele, em fluxos sincopados. Num vai e num vem, incompreensível e absurdo. Tal como as peças de Ionescu.

O template está mais fixe assim, não está?

14 de junho de 2007

A Estupidez da Esquerda

O espanhol José Saramago, habitual concorrente nas listas do PCP e, sem embargo, apologista dos votos em branco, vem agora, aqui del rey, acusar a esquerda de estupidez; de portar a estupidez mais estúpida que ele conhece. Ora, não é ao PS que ele se está seguramente a referir porque, nas palavras do galardoado com o Nobel da Literatura, Portugal é governado por um partido de direita.
Mais. Terá ele pensado, durante a sua visita a Cuba e enquanto segurava a mão de Fidel Castro, qualquer coisa como «que gente tão estúpida, que país tão estúpido, governado de forma estúpida»? Terá ele, porventura, pensado nestes termos? Ou será que Fidel lhe fez a desfeita e não o convidou para viver em Cuba?

13 de junho de 2007

[Pausa]


Cá neste túgurio, nesta choça a que nos habituaram a chamar a «pátria»... nada de novo. Apenas a habitual lassidão, o inevitável torpor e a crueldade de uma realidade não existente para a chusma; assim, governamo-nos a todos. Se assim são os termos das coisas, que se deixem fluir e esperar, esperar, por uma espera sem termo e sem consequências, senão a engorda de satisfação com os nadas que os homens constroem.


4 de junho de 2007

Suspensão de Mandatos

Só não tendo esse hábito - de que falava em Hábitos Falhados - ou, não aceitando sujeitar a sua própria existência a tais práticas, é que se admite que aqui no reino, o reinador, coopte e esventre ciclicamente o poder local. E em consequência, o governo do povo.

Os autarcas que sejam constituídos arguidos vão passar a ter que, mecanicamente, suspender os seus respectivos mandatos, após dedução da acusação. Por tempo indeterminado, necessariamente, porque é na indefinição temporal que se esgota o horizonte da justiça portuguesa. Valha-nos isso, autênticos autos de fé numa cruzada contra a corrupção... na base.

Na idealização desta medida, os senhores deputados deverão ter considerado o tempo médio de cada processo judicial em Portugal, até transitar em julgado. Ou seja, de cada vez que um autarca seja constituído arguido, só ao cabo de 2 ou 3 anos [com recursos pelo meio] é que conhecerá a sua sentença, coincida ela com a vontade do acusador... ou não. Entretanto, a Câmara Municipal fica parcialmente anestesiada durante esse tempo, aguçando o apetite às oposições...

Este aspecto poderá revelar-se um bocadinho promíscuo, [apenas] por duas razões. Em primeiro lugar, porque a condição de arguido não dispensa um julgamento. E, nesse caso, um indivíduo poderá ter que suspender um mandato legitimado democraticamente pelo povo, correndo o «risco» de vir a não ser condenado, decepcionando os telespectadores. Em segundo lugar, os processos judiciais em Portugal são gerados a partir de elementos tão espúrios quanto o são as denúncias anónimas, calúnias, manchetes de jornais, documentos infantilmente forjados, excesso de zelo das autoridades e, até, imagine-se, de estratégias políticas. Provocar eleições intercalares (fonte de despesa e instabilidade política) ou desembaraçar-se politicamente de um adversário não serão aliciantes suficientes para os menos escrupulosos?

A promiscuidade dos elementos associados à suspensão de mandatos deixará de se colocar quando os tribunais forem realmente independentes, rigorosos e os processos forem céleres e ficarem concluídos em 2 ou 3 meses. Até lá, medidas como esta correm o risco de não passar de populismo barato para português ver…
Enquanto tal choque tecnojurídico não aconteça, seria útil que partisse dos partidos um processo de arregimentação de pessoas, mais consentâneo com os valores apregoados e exaltados a viva voz por esses mártires da moral e dos bons costumes...

26 de maio de 2007

Hábitos Falhados

Os valores sociais formam-se a partir de tipificações da vida quotidiana, que mais não são do que a interiorização intersubjectiva de hábitos postos em circulação historicamente. O hábito da vivência democrática, para além de contra-natura, não é atraente nem responde aos padrões hedonistas prometidos pela modernidade. Uma promessa falhada.

24 de maio de 2007

Um Deserto... Mental

O ministro das obras públicas tem um defeito. Não sabe estar calado. Mas é um homem de sorte. Em primeiro lugar, porque não tem como chefe a Directora Regional de Educação do Norte mas sim o próprio primeiro-ministro, sobre o qual está à vontade para zombar (pois não está inscrito na Ordem dos Engenheiros e é um desgraçado que veio dos campos de algodão para a grande capital). Em segundo lugar, porque não vive no deserto, onde há sempre muitos e terríficos perigos à espreita.

Por seu turno, o Presidente do PS, Almeida Santos, é um assombro. Desdramatizou as declarações infelizes do ministro mas lá veio recordando, numa lógica de causalidade directa, que construir o novo aeroporto de Lisboa na margem sul do Tejo leva à construção de uma ponte e, como se sabe, as pontes são uma grande guloseima para o terrorismo internacional, o qual se tem fartado de desenvolver atentados em Portugal.
Na minha humilde condição de calceteiro de alto mar, proponho que, antes que as bombas venham, impludamos a Ponte 25 de Abril, a Ponte Vasco da Gama, as pontes Dona Maria, D. Luís, Arrábida, Salgueiro Maia, Europa e todas as pontes que ligam Portugal a Espanha.
Assim, sozinhos e às escuras, veremos finalmente no aeroporto de Lisboa (na Ota), a grande ponte que nos liga ao mundo, a grande luz da nação.

Alguém que desdramatize as declarações senis de Almeida Santos.

PS: já agora, que sejam os lisboetas a pagar o mamarracho, que o construam na rotunda do Marquês de Pombal e que deixem o deserto em paz.

22 de maio de 2007

Doença Rara

A comunicação social insiste no chavão como se de uma patologia específica se tratasse. Quais os sintomas de doença prolongada? «O fulano morreu de doença prolongada»; como há outros que morrem com AVC's, acidentes de viação ou de diabetes. Doença prolongada é uma grave patologia que ocorre mais ou menos no abdómen, junto à cintura pélvica, mesmo abaixo do occipital e acima dos joanetes dos pés, blá, blá.

«- Olhe, deu-lhe assim uma doença prolongada de repente, comecei a vê-lo a estrebuchar e tombou, coitadito, era tão jovem». Ou então, «- Maria, acho que tenho o mesmo que o teu cunhado, é aqui no pulso, deve ser a tal doença prolongada». Mas o mais sinistro é um tipo sofrer de doença prolongada e os médicos não terem como estudar a patologia. Percorrem os manuais de uma ponta a outra e nem sinal dessa doença rara. Debalde, como tratar alguém que sofre de doença prolongada?

Mas, eureka, doença prolongada pode afinal significar algo próximo de doença crónica. Nesse caso, já podemos afirmar com grande propriedade que, quando, naquela mecânica que os caracteriza, os jornalistas dizem que alguém morreu de doença prolongada, estão-se a referir naturalmente ao fulano que morreu por obesidade, ao sicrano que morreu com doenças respiratórias e, a beltrano que soçobrou com uma hipoglicémia. De qual destas terá morrido o Sr. Felisberto do talho?

Um floco de neve no Verão (iv)

"…passados anos um filho, que já fora pai, voltou. Desta vez para tapar uma vala. Puxou da enxada e fez cair a terra sobre o fundo da vala. Entre o fundo e o que impedia a terra de lhe tocar, encontrava-se uma exígua caixa de madeira, recém depositada. O segundo homem observava de novo. Desta feita estava perto. Não pronunciou uma palavra, apenas observou. Sentiu aquela terra húmida e pesada cair em cima da caixa, e a enxada empunhada pelo homem, e aquela lâmina gasta a raspar na terra. Não pôde deixar de imaginar o que seria sentir aquela zoada dentro da caixa… e os flocos? Pensaram ambos. Durante o inevitável cigarro que se seguiu, conversaram. Das valas, das valas em que já viram caixas, depositadas, e que dentro das caixas iam outros Homens e outras Mulheres, e que por isso não estavam ali. Falaram ainda de valas com caixas que se avizinham. E dos Homens e das Mulheres que vestirão essas caixas. E das enxadas, e dos ruídos, e dos homens que hão-de vir. E de nada no fim. Ficou apenas o olhar para longe... trás e frente".
Anónimo

19 de maio de 2007

Um floco de neve no Verão (iii)

...e fumaram. Esse e outro cigarro. E mais outro. E outro ainda. Fumaram até os dedos grossos e inchados revolverem o fundo do maço e rasparem em nada. Nada que uma leve brisa de fim de tarde não consolasse e fizesse esquecer o vício. Aqueles fins de tarde eram deliciosos e as valas pareciam abrir-se sem esforço. E já sem cigarros para partilhar. Mas as picaretas continuavam a rasgar o chão e após alguns anos, o monte já lá não estava. Apenas um manto de flocos de neve e a escuridão da noite. E o homem virou a cara ao filho e disse: - vai sem mim rapaz, que se faz noite. Não discutas, vai e não voltes, a não ser com o teu filho, um dia, quando vires flocos de neve neste chão áspero. O rapaz foi.

Um floco de neve no Verão (ii)

"- Ebúrneo ou Cândido? - Nua ou despida?Continuou, o segundo homem. Numa clara tentativa de desviar a atenção do primeiro, de cavar a sua própria vala.-lá na minha terra, os homens, quando adivinham a sua morte próxima encarrega-se o filho mais velho de os carregar até ao cimo do monte mais alto para que ali, sozinhos se despeçam dos dias. De Inverno, de verão, de primavera, de, sim, de Outono. – ah! E, claro, das noites também.- deixa-te disso! Não me vais dissuadir do que pretendo fazer. A minha própria vala. – já não me bastava o maldito floco. Será que..? – ajuda-me a subir!- Um… cigarro? – toma. Eh eh… a puta da picareta está a fazer-me mossas nas mãos.- humm... é normal. Ao menos usavas umas luvas. – afinal – lume..? – quantas planeias cavar ainda..?- uma dúzia!! Eh eh.. – belo cigarro – não pá! Apenas mais uma ou duas. – isto no fundo é só para me distrair. Fumemos então."
Anónimo

16 de maio de 2007

Um floco de neve no Verão

Será possível que um exíguo e inofensivo floco de neve obscureça um dia de Verão? Será que o dia é de Verão? Ou aquela luz pintada de cinzento e suspensa num ar pesado é, afinal, o anúncio de um rigoroso Inverno?

Entre essas e outras interrogações, o homem continuou a cavar, em movimentos ritmados, a vala onde havia de descansar mais tarde. Só não sabia em qual delas. E isso deixara-o nervoso porque no fundo de cada uma das valas, discernia um frágil mas insidioso floco de neve. A sua visão não era dominada pelo negrume do fundo mas pelo deslocado ebúrneo dos cristais de gelo. Não obstante, as suas costas foram lentamente dominadas por uma compacta escuridão.

11 de maio de 2007

à tout propos (267)

Esta parece ser a máxima bradada pelas maternidades privadas. Claro que a qualidade de vida paga-se... mas os clientes saem satisfeitos, pois não têm que se cruzar com minorias étnicas ou desvalidos.
... além do mais, as maternidades privadas são locais onde há lugar para todos; necessariamente para os cirurgiões plásticos pois a tirania dos biquinis não perdoa.
Mas também há a outra versão: como não há subsídio de risco (expresso em unidades monetárias), os obstetras defendem-se assim do intolerável questionamento a que são sujeitos por pais descontentes porque o menino não trazia olhos azuis ou porque à idade de 13 anos descobriu ser sexualmente invertido...

8 de maio de 2007

Défice Zero

Bruxelas diz que Portugal não tem condições para cumprir o plano de redução do défice; Portugal, que sim!
Bruxelas diz que Portugal não tem condições para cumprir o plano de redução do défice; Teixeira dos Santos diz que Bruxelas não tem toda a informação sobre a economia portuguesa.
Estará ele a referir-se às receitas extraordinárias resultantes de alienação de capital, à integração de receitas a realizar no futuro, ao abandono do Sistema Nacional de Saúde, à subvenção dos privados que substituem o Estado, ao roubo de direitos sociais, à privatização do Ensino Superior e à manipulação de todo o género de estatísticas?
Bruxelas, de facto, não sabe o que se passa aqui...

3 de maio de 2007

Carmona, o Impio






Parece claro que o barco vai ao fundo, mesmo que sejam os seus próprios lugar-tenentes a apressar o afundamento. Mas em algo, Carmona inovou. Quando Pilatos, os seus acólitos e os restantes «notáveis» , babados de raiva, já afiavam as lâminas nas suas costas traçando cenários e repartindo as costas indefesas do autarca, eis que o arguido Carmona vem a público reivindicar duas coisas. Em primeiro lugar, que não foi declarado culpado em nenhum processo mas sim, arguido. Em segundo lugar, Carmona desafiou o céu e a terra ao respeitar nada mais nada menos do que, a democracia e os procedimentos democráticos. Ainda que, a este respeito, a fragilidade política do executivo camarário aconselhasse maior sensatez.


No fundo, a legitimidade democrática da Câmara Municipal, mantém-se. Embora muito custe aos partidos políticos, demasiado afeiçoados às suas lógicas instrumentalistas e pouco democráticas. Contudo, não é menos verdade que é a população quem poderá decidir sobre se retira ou não a confiança manifestada nas urnas em 2005, em particular, numa altura de crise política (e não só), como a que se vive em Lisboa. Ele sabe disso, ao colocar a sua cabeça no cepo, seguro pelas mãos dos seus vereadores; mas nunca ao alcance das mãos golumianas de Marques Mendes. A este, em nome da coerência com decisões assumidas no passado (quando retirou a confiança política a «notáveis» sociais-democratas como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro), não lhe restava outra alternativa.


Carmona sabe ao que vai. Não desconhece as implicações desta sua decisão. Sobretudo no seio do PSD, para onde não hesitou em apontar baterias e desferir o cirurgico golpe: «come-me», mas terei que sair por algum lado... Neste momento, resta-lhe essa luta.


29 de abril de 2007

A Homossexualidade é Contagiosa?

De acordo com o Instituto Português do Sangue, é!
Pelo menos, essa é a ilacção que se pode retirar da interdição de doar sangue, a que os homossexuais são sujeitos. Ao não o permitir, sem que exista qualquer fundamento técnico-científico e sabendo que actualmente, em matéria de doenças sexualmente transmissíveis, não faz sentido falar em grupos de risco, o Instituto Português do Sangue deverá ter em mente contribuir para a normalização sexual do mundo, eliminando por aí a possibilidade de contágio.
Não seria nada agradável que subitamente, após uma transfusão de sangue, um bom chefe de família com provas dadas, desatasse a cobiçar gulosamente a peitaça peluda dos colegas, lá na oficina.

28 de abril de 2007

Licenciamento Urbano

Sócrates anunciou ontem no Parlamento, a intenção em descomplicar os processos de licenciamento urbano. Ao fazê-lo, manifestou a opção pela descentralização e deu um sinal inequívoco de confiança às autarquias locais. Valorizou o poder local democrático, responsabilizando-o e reconhecendo simultaneamente a eficiência da sua actuação ao longo dos últimos 32 anos.

E não só! Bem aplicada, esta medida vem igualmente exigir uma conduta vigilante e participativa dos munícipes.
Se, por um lado, os planos municipais de ordenamento do território deixarão de carecer da aprovação pelo Conselho de Ministros (entidade galáctica, longínqua das populações locais e por essa razão, desfasada das realidades locais), eliminando um passo causador da morosidade autárquica, tantas vezes criticada injustamente pelos cidadãos, por outro lado, as CCDR deixarão de se preocupar com esse acompanhamento paternalista aos planos de pormenor e urbanização das autarquias. E muito bem, porque a inteligência desse controlo deve ser aplicada a jusante nos PDM’s, responsabilizando as autarquias pelo necessário enquadramento em PDM, dos restantes planos de ordenamento do território. Ou somos todos uns parvos que aqui andam?
Se as preocupações dos ambientalistas da Quercus poderão legitimar-se na permeabilidade crónica dos meios de fiscalização do Estado e dos interesses económicos instalados (cuja actuação é tanto mais viciosa quanta a capacidade de decisão de um organismo, veja-se o escandaloso licenciamento da urbanização Sonae na península de Tróia), as preocupações manifestadas por Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã são, no mínimo, sinistras. Para não dizer, esquizóides.

Sendo estes dois líderes, defensores confessos da descentralização, as respectivas intervenções de rejeição da medida vêm reflectir o preconceito e a má-fé com que é brindado o poder local neste país. Por Lisboa, claro. Em que ficamos? Contra o centralismo de um Estadão hobbesiano e simultaneamente contra o seu mesmo esvaziamento? Não há confiança nos autarcas, para continuar a servi-la em bandeja de ouro a todos quantos giram na órbita da Administração Directa do Estado? Ou será por manifesto ciúme visto contabilizarem não mais do que 33 autarquias em 308? Eles, que estão por dentro destas coisas da política, lá saberão melhor do que nós, ignorantes e distantes de certas lógicas geo-partidárias…
Com esta medida (a ser implementada, pois também restam dúvidas quanto a isso), os meios de combate à corrupção e à ilegalidade podem não ser mais ágeis e mais eficientes; mas essa é uma questão paralela, pois convém não esquecer que, até há bem pouco tempo, o monopólio da decisão pública estava concentrado no poder central e não nas autarquias locais, não sendo por isso que as desconfianças de corrupção se esfumaram. Porém, onde se registe idoneidade e apego pelos valores da democracia, esta medida representará seguramente uma positiva ruptura com o meter da mão em seara alheia, com essa intromissão permanente do Terreiro do Paço, desconhecedor do mundo existente para além do seu próprio umbigo.
Que se preocupe mais com a situação vivida na autarquia lisboeta, que não é exemplo para ninguém, apesar da estreitíssima proximidade com o Governo da República e Assembleia da República e mais um par de botas...

25 de abril de 2007

Despertar de um Sono Dogmático

Não suporto os dogmas. Causam-me pruridos as convicções inabaláveis e cegas em verdades absolutas e incontestáveis. Regularidades que se tornam leis em sociologia, só para positivistas, crentes e por quem não se preocupa em conhecer a polissemia da natureza e cultura humanas. Para Nietzsche, «as convicções são cárceres», e eu não discordo. Por essa razão tenho dificuldade em compreender que uma cartola contenha panaceias para todos os males. Seja ela ideológica, religiosa ou outra. A unidimensionalidade é tirânica, castra o pensamento crítico e a acção interventiva. E isso, os doutrinados não compreendem, não questionando por sua vez, os dogmas inculcados.

25 de Abril, Sempre!




Aqui no palhal, as coisas permanecem imperturbáveis. Uns, saudosistas do antigo regime e da escravatura e, outros, frustrados por não terem conseguido realizar o sonho de uma Albânia plantada no extremo ocidente do continente europeu, governado por algum Enver Hoxha à portuguesa. O país já era pouco miserável em 1974…

De resto… bom, de resto, tudo na mesma. Afinal, «o povo é sereno». Mas há, ainda, algo de que os uns e os outros não se querem convencer: o povo é quem mais ordena! Se a multidão de Lisboa não tivesse saído [espontaneamente e ansiosa pela mudança] à rua há precisamente 33 anos, o movimento anti-guerra colonial dos mal apetrechados militares de Abril, teria sido imediatamente esmagado nessas mesmas ruas ou, quanto muito, teria conseguido alcançar o grande objectivo de estancar o envio de tropas para África.
Também é certo que, por ser quem mais ordena, o povo português precisou de uma alavanca, caso contrário, permaneceria espoliado, subjugado e privado da sua liberdade durante mais uma década. Os partidos políticos podem ser essa alavanca, em particular os que são ideologicamente marcados por preocupações sociais, o elo mais fraco. Contudo, não são nem podem ser os partidos/elites políticas a ordenar seja o que for. Mal do povo seria...

Por ser quem mais ordena e por reconhecer a sua incapacidade em se autonomizar, o povo só aparenta dar-se bem no seio do lar, sob a alçada de um pai mandão que lhe dê umas vergastadas periodicamente para baixar as orelhas. E isso dá-lhe prazer. É o preço a pagar pelos créditos à habitação, pelos carros, pelas compras na IKEA, pelas viagens, pela liberdade de pensamento e de expressão, pelas férias pagas, pelos filhos doutores, pelos subsídios de desemprego, pela Internet e por toda a tralha que se carrega para casa, só porque é giro ou fica bem na estante [pensem na casa dos nossos avós e nas nossas]. A sociedade é feliz, coisifica-se o ser, como acusou Herbert Marcuse por mais de uma ocasião, nos idos da década de 70.

O povo é quem mais ordena. Bem ou mal. Por isso, neste regime letárgico, o povo ordena que se continue a dormir. Porque, apesar de espernear, a cama é fofa…


PS: só mais uma coisa... o 25 de Abril é do povo, não é propriedade de nenhum partido político. Que fastidiosa, esta constante apropriação de algo que só pode e deve existir em permanente reinvenção, dentro de cada um. Lá por um pai ter ajudado a criar um filho, não quer dizer que este seja um carro telecomandado do primeiro.



Edições passadas:
25 de Abril de 2005

24 de abril de 2007

Derrapanços no Túnel

A Associação Nacional de Bombeiros deu parecer negativo ao Túnel do Marquês e a Câmara Municipal de Lisboa ainda só gastou «4 a 5 milhões a mais» do orçamentado (18 milhões). Devagarinho vamos lá... com paciência há para todas as bocas...

23 de abril de 2007

Estarão Cansados?

Afinal, Ribeiro e Castro estava coberto de razão quando acusou Paulo Portas de querer aniquilar o CDS-PP. Com o posicionamento ao centro de um partido democrata cristão, Paulo Portas promete transformar-se numa borbulha do PSD.

20 de abril de 2007

Mutatis Mutandis

A sr.ª ministra da educação [la ley!...] não despachou a «permissão» para a reuniãozinha subversiva dos sindicalistas da FENPROF. E muito bem, porque a indecência manda neste país que essa gentalha deve toda andar a toque de caixa. E é assim que a concertação social deve andar neste país: a toque de caixa. Pois de uma coisa devemos estar cientes: «mudam os tempos...».

16 de abril de 2007

Só Neste País?...

Portugal deve ser o único país no mundo em que os cidadãos elegem ministros pelas classes profissionais a que pertencem. Esta circunstância faz de Portugal um país finalmente composto por um Estado Corporativo, concretizando as premissas ideológicas forjadas pelo Estado Novo...
Esgota, sem ideias e previsivelmente medíocre, a comunicação social portuguesa faz de tudo um assunto sério, contribuindo para o encantamento da população. Contribuindo também para as intrigas palacianas promovidas subversivamente pelos depauperados partidos políticos, incapazes de assumir seriamente os papéis de oposição e governo a que, ciclicamente, são acometidos.

31 de março de 2007

Jardins Suspensos


Aproxima-se a época dos bolbos, sementes, adubagens, podas, terras novas e transferências dos viveiros para outras paragens. Projectos de Abril em jardins, suspensos pela acção dos homens, naturalmente.

26 de março de 2007

Volta Paizinho, Estás Perdoado!



Se, na maioria dos casos, bastaram cinco ou seis anos de depuração no Brasil para que os nossos fascistas regressassem em glória e reassumissem as suas posições cimeiras, agora sob a égide da democracia, no caso de Salazar a realidade era bem diferente. Afinal de contas, simbolicamente, o tirano era o vértice de uma ruindade que se instalou em Portugal perdurando 48 longos anos. Muito para além desses anos, pois metade do nosso atraso estrutural actual, devemo-lo a esse período. A outra, devemo-la à beatice, toleima e prostração dos nossos monarcas do século XIX, apostados em manter o povo na obscuridade, numa altura em que a oportunidade de progresso dada pela Revolução Industrial foi aproveitada nos restantes países da Europa. Atraso estrutural num país, em suma, onde as elites políticas se confundem com a imbecilidade rota e decadente de quem se tem por pastor de um rebanho de carneiros. E o é, efectivamente.

Dadas as circunstâncias simbólicas, o saneamento de Salazar termina trinta e sete anos após a sua morte, ou melhor, três das gerações mais recentes sem contacto com o ditador. «Só» trinta e sete anos, porque este é o país onde a herança salazarista do analfabe(s)tismo, da heteronomia individual e boçalidade com tiques autoritários são pesadíssimos, denunciando a atracção, também ela estrutural, pelo cajado do pastor.

Os resultados desse programa de televisão promovido com capitais públicos – Os Grandes Portugueses, na RTP1 – só vêm revelar que, além desse masoquismo, o povo é estúpido, ignorante e não tem apego pelos valores democráticos. A este respeito, são suaves as interpretações de alguns insignes comentadores políticos, que vêem essa votação como um sinal de protesto dado pelo povo à classe política. Não, esse sinal pode ser dado nas urnas, votando massivamente no PCP, no BE ou no CDS-PP. Mas tal não sucede porque para além de boçal, masoquista e néscio, o povão é cobarde.

Consola o facto de a televisão, enquanto veículo de comunicação de massas, ser o órgão de comunicação privilegiado por esta chusma de obtusos portugueses para apreender «conhecimentos». Portanto, um meio de comunicação à medida da cretinice transpirada pela Direcção de Programas da RTP, evidente na simplicidade com que o formato televisivo trata questões essenciais, de natureza incomparável e, sobretudo, com um alcance desmesuradamente absurdo e nada inócuo ao nível da interiorização persuasiva de modelos de comportamento.

Finalmente, para dar sustento ao desiderato deste Portugal acanhado, mesquinho e mentecapto, resta que regresse um Salazar para que aí sim, se faça uma revolução séria e à séria, sangrenta e bárbara, que remova à cacetada as metástases deste descomunal cancro.

22 de março de 2007

A Fragilidade do Papel

Recordo-me quando Saddam Hussein ludibriou os cegos americanos em 1991, dispondo tanques de guerra erguidos em placas cartonadas e fazendo os invasores descarregar toneladas de bombas sobre tão ameaçadores armas. A alguns metros de distância eram autênticos e temíveis mas na verdade não passavam de tanques de papel.
Os tanques de papel continuam e mesmo que se grite por toda a parte que o rei vai nú, não importa, porque hoje é dia de festa...

7 de março de 2007

à tout propos (264)

É bom saber que andam juízes portugueses por esse mundo fora a dar «lições de democracia». Pena é que as não consigam dar em solo nacional.

à tout propos (263)

Vale a pena espreitar a comemoração dos 50 anos da RTP. É comovente, a felicidade incontida estampada naqueles rostos. É comovente também olhar para o país real, embora não tanto espectacular.

5 de março de 2007

Da Democracia na Lua

A instauração de um regime democrático em Timor, no Iraque ou no Afeganistão, representa para os locais o mesmo que vestir um gato com uma peça de roupa humana. Simplesmente, não serve. Não se ajusta ao corpo do gato, o qual, para além da resistência natural em vestir algo que não foi para si concebido, dispõe de uma roupagem que lhe é natural e vive bem com ela. Por que raio têm os humanos a estranha tendência de conceber um gato à sua semelhança?

28 de fevereiro de 2007

Out of England!

Normalmente não se conhecem medidas interessantes nem pensamentos consistentes a príncipes. As suas atribuições não passam muito por desbravar caminhos, delinear estratégias, viabilizar um país. A condição ornamental a que estão sujeitos mas que os sustenta luxuosamente, não lhes concede tanto o direito à opinião quanto o direito a férias permanentes em Chamonix, 500 empregados, uma dúzia de castelos e palácios, carros de luxo, jóias e tantos outros privilégios. Esse parece ser o acordo entre monarcas e republicanos: os príncipes reservam-se o dever à não interferência nos assuntos do país e o Estado trata-os… principescamente, pois claro.
Mas de quando em vez, lá surge algum desses inúteis de bandeirinha na mão, agitando a defesa de qualquer ideia exótica. Seja por birra seja por convicção, certo é que um tal Príncipe Carlos de Inglaterra veio agora publicamente defender uma excentricidade em prol da saúde pública dos seus súbditos: banir a cadeia alimentar Macdonald’s do país. Diminuiria certamente a implantação de bandas gástricas e os encargos com cuidados de saúde a vítimas de complicações cardio-vasculares. Porém, no imediato, esta tontice valer-lhe-á as próximas férias a bordo de um opulento iate nos mares do Sul, sem direito a paparazzi e o convés cheio de hambúrgueres.

27 de fevereiro de 2007

O Grave Problema da Coerência

O problema do mundo é o grave problema da coerência. Ou melhor, da incoerência. O lobo disfarça-se de cordeiro, para depois se esquecer porque raio é que é lobo e não um estorninho. Aparenta desconhecer a que se dedicavam os seus ancestrais antepassados nos tempos primordiais, quando o mundo ainda não era mundo, pelo menos para si. Caso contrário, não se disfarçaria de cordeiro. Para quê tanto aparato, quando no momento crucial, nesse preciso momento em que o frágil pescoço do cordeiro está alinhado pelo azimute dos poderosos caninos, o lobo se desinteressa da presa? Para sorrateiramente a lamber, guloso, aguardando em louca salivação que ninguém veja e lhe atire com a porra da incoerência… que incomoda. – Ou é, ou não é, gritam eles ao lobo.

Ao lobo, pede-se que seja lobo com dignidade e frontalidade, e não que subverta ou inverta os papéis. Tal como ao sacerdote se pede que seja sacerdote e sobretudo, ao pregador de ideias se pede que as beba ele também. E parece residir aí o problema da coerência, quando ideais e valores da cultura são inoculados artificialmente na natureza dos homens. – Tem que se nascer com eles, meu velho. – Ou então, insistir e persistir e perseverar e teimar. Se é para se ser lobo aculturado, nesse caso, que nem pestaneje ao passeio do cordeiro. – É isso, meu velho, achar-se animado por uma vontade inabalável em não quebrar sob as pauladas da incoerência.

Por essas dificuldades, quanto mais culturais são os homens, maior o risco de se assemelharem a lobos amnésicos, incoerentes. O problema da coerência é um problema imemorial, sempre existiu. Desde que os homens são homens e os lobos são esquizóides. De lobos que alardeiam falaciosos estatutos de predador e de pregadores de ideias que nem com elas conseguem conviver, de tão pesadas serem para a vida de um homem.

Mas também é verdade que um lobo é um lobo e um homem é um homem. E o que os distingue definitivamente, não é a razão mas sim a cultura. E é preciso muita, para se amar a solidariedade.

23 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo II



Por exemplo, o Zeca. Era homem de muitos tiques. Tiques disto e daquilo. Há vinte anos, não morreu por causa de nenhum, mas ainda hoje é recordado por ter sido um dos primeiros a cantar a liberdade em voz alta aos ouvidos de um povo, até então, troglodita, cavernoso. Tal como há trinta anos, a liberdade ainda hoje é um prodígio nebuloso para a maioria dos portugueses, uma coisa de ficção científica, uma incerteza, uma imprecisão ou um mal que o mundo deu à luz. E nós agora, com o bebé nos braços. Perceber isso era um dos talhes do Zeca para quem a felicidade resultaria da complexa ligadura entre liberdade, justiça, solidariedade e igualdade. As suas músicas estão repletas deles, dos seus tiques volvidos detalhes, prontos a serem colhidos como quem colhe laranjas da frondosa árvore no Inverno. Mas o principal tique de Zeca era saber e ousar dizê-lo a quem desconhecia ter asas. A quem esquece.

22 de fevereiro de 2007

Tiques Disto e Daquilo

Raios os partam a todos. Aos tiques. Fulano tem tiques nos olhos, beltrano no cabelo e sicrano tem tiques de pastor. Cada um com o seu. Os tiques de animal, os de ditador, os de ladrãozeco, os de galã e até os de visionário. Tiques disto e daquilo, detalhes idiossincráticos, detalhes comportamentais. O talhe... tirar-lhes o talhe é suprimir o prefixo de, concentrando a atenção nesses pequenos mas reveladores tiques. Houve alturas em que queria ser comediante mas a trágica comédia em que se meteu alertou-o de que talvez não fosse muito prudente afundar-se em avarias de procurar a auto-destruição pela ascese. Há os que, com uma disciplina férrea, conservam tiques desses até à abaladiça. São os tiques da coerência. Outros... não! Perante tal impossibilidade, talvez o melhor fosse anuir em que os tiques lhe davam verdadeiramente para fazer coisas e guiar toda uma existência. E davam mesmo, pois tiques daquele calibre, não são para qualquer um. Só que, quais seriam eles, se o prefixo que lhes tirava o talhe desapareceu nos confins do oráculo? Sem tiques nem talhes, de que serve viver? E assim, cada homem se lançou em busca do de-talhe perdido, quiçá para poder explicar o mundo a si próprio.

21 de fevereiro de 2007

Bazar

Não há saudosismo latente que resista a um desiderato profundo: desejar que o Salazar fosse vivo. Porque assim e aniquilada a esperança, o ser seria investido da realista convicção que a segunda melhor saída seria abandonar este país, no qual os seus médios habitantes representam um grave e desconcertante erro genético. A melhor saída, será sempre lutar contra o cruel destino.