11 de outubro de 2008

à tout propos (305)

Os EUA preparam-se para riscar a Coreia do Norte da sua lista de países terroristas, caso os líderes daquele país feudal se deixem de aventuras nucleares e anuam nas pretensões dos EUA em ali abrir uma sucursal da Macdonalds.
Podemos aproveitar esta boa vontade e dar-lhes o Vasco da Gama, o Cristiano Ronaldo e o Alberto João da Madeira (presidenciável) em troca da Microsoft.

Quando os mamíferos puserem ovos

Interrompo este longo silêncio para declarar que, invariavelmente, os argumentos dos opositores ao casamento entre homossexuais resvalam na torpe difamação ou no mais profundo obscurantismo intelectual. Acabo de assistir a um debate na televisão em que um se detém sobre a origem cronológica do casamento civil para queimar tempo e outro demonstra inequivocamente o seu restritíssimo entendimento sobre a natureza de um Estado laico. Quanto ao PS, representado num outro debate pelo deputado Jorge Strech, manifesta-se disponível para estender o direito matrimonial aos casais homossexuais quando os mamíferos puserem ovos. Felizmente não foi preciso tanto para banir a escravatura, caso contrário, ainda os nossos governantes estariam à espera de uma boa oportunidade para o fazer.

Fracturante em política

Um comentador do texto «Por via das dúvidas, PS impõe disciplina de voto», questionava-se sobre o que significa fracturante nas palavras do deputado socialista Jorge Strech, o qual terá afirmado o seguinte:

O PS assume aqui hoje a vontade de eliminar toda e qualquer a discriminação em função da orientação sexual. O PS considera no entanto que não o pode fazer de forma fracturante”.

Fracturante é um termo normalmente utilizado pelos políticos para designar aqueles temas que poderão significar uma alteração significativa na competição pelos votos ou beber whisky com peixe estufado e batatas a murro.

Neste caso, os socialistas que respeitaram a disciplina de voto consideraram que instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo poderia irritar profundamente os eleitores que são muito dados ao recato sexual, Sarah Palin e o Instituto Nacional de Estatística. Por outro lado, em matéria de políticas sociais, a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo significaria um claro recuo na intenção do governo em apoiar o aumento da natalidade.

Assim, sabe-se que o PS se prepara para apresentar uma proposta à Assembleia da República no sentido de permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo que, pelo menos uma vez na vida, tenham provado ser pais biológicos.

10 de outubro de 2008

Longe da vista... longe do coração

Afinal de contas, os projectos que vão hoje ser votados e chumbados na distinta Assembleia da República pelos nossos representantes distritais referem-se à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por isso é que o PS impôs disciplina de voto numa matéria de consciência individual. Está tudo explicado e normalizado. Está também ultrapassada essa dúvida quanto à arrogante austeridade com que se acusava o governo por este não querer discutir sequer um diploma cuja matéria não integra a sua agenda política.

Assim, o BE e a CDU só terão que corrigir o título dos respectivos projectos de lei, substituindo «entre pessoas do mesmo sexo» por «homossexuais». O elemento discriminatório é muito importante para a estabilidade emocional e axiológica de uma sociedade conservadora nas aparências.

Esta questão faz-me lembrar aquele autêntico eugenismo doméstico prosseguido pelos familiares de deficientes mentais que, ainda não há muito tempo, se esforçavam por os esconder longe dos olhares e do mundo. Em regime de clausura perpétua, só rompida pelas idas ao médico ou em outras circunstâncias muito particulares, os deficientes representavam o lixo que se varre para debaixo da cómoda. Está lá, mas não se vê.

6 de outubro de 2008

Por via das dúvidas, PS impõe disciplina de voto

Em Portugal, assim como na maioria dos países do mundo, o casamento entre casais homossexuais é um tabu. E a razão não é, certamente, de ordem moral (cultural). Se fosse, o valor objectivado da justiça social teria certamente prioridade sobre o repúdio de aspectos da natureza humana, ciclicamente aceitáveis pela cultura dominante. Ou será que se julga que o que a Igreja financiou no período da renascença era a mais ingénua arte sacra? Pois… os actores bíblicos todos de pelota…

Francamente, confesso que não acho muita piada quando o meu cão salta freneticamente para cima de outros cães, de língua caída e ar estouvado pelas convulsões ritmadas dos quadris. E não acho grande piada porque os outros cães podem ter donos desejosos de meter conversa comigo. E também não é lá grande piada porque raramente acerta no alvo e acaba por regressar a casa com os tintins a rojar no chão. Enfim, são coisas lá deles e eu não tenho nada a ver com isso.

É que a moral e a sexualidade confluem violentamente, de acordo com a doutrina da Igreja, nessa coisa hedionda que representa o hedonismo, o puro prazer instigado por Lúcifer e que dá, normalmente, em maravilhosas playmates mensais capazes de levantar a moral de um grupo de calceteiros marítimos. Adaptado à vida real, esse hedonismo é mais ou menos o mesmo que comprar um LCD, cervejas e um jogo de futebol com os amigos. Imoral!

A grande questão do casamento homossexual é saber se se pega.
Sim, pode ser uma doença transmissível por agentes aéreos. Não se sabe.

Desconfiado do cenário de contágio epidémico, o PS mostrou-se mais conservador do que o PSD e decidiu impor a disciplina de voto aos seus deputados sobre uma matéria que deveria, de acordo com os ideais liberais alardeados, ser do foro íntimo de cada um.

E é capaz de existir um fundamento científico, como aquele que foi ontem apresentado na televisão a respeito da diferente resistência à dor de crentes e não crentes [podiam muito simplesmente ter testado comunistas ortodoxos e católicos ortodoxos para chegar à conclusão que tanto uns como outros toleram a dor muito mais do que eu. Por isso é que fiquei durante muito tempo sem ver jogos do Benfica].

O fundamento é inquestionável: os sociais-democratas são incomparavelmente mais machos do que os socialistas. Um facto provado empiricamente: eles é que são forcados, não se emocionam com a pobreza social, acham que a mulher é para estar em casa a cuidar da prole e, por eles, a salvação da sociedade portuguesa consiste em evoluir para a poligamia marialva (sob a forma de poliginia livre, em que um homem tem direito a duas mulheres e quatro éguas).

A conclusão é simples: sendo mais machos que os socialistas, estão consequentemente mais imunes ao contágio de virem a casar com uma pessoa do mesmo sexo. Em contrapartida, as mulheres laranjas são muito mais femininas e não se armam em fufas. Pensemos na Manuela Ferreira Leite. É ou não é o lado feminino do Cavaco?

Os socialistas, com receio de que se pegue e se difunda pelo seu grupo parlamentar, impõem a disciplina de voto. E compreende-se. Seria realmente imoral e repugnante ver o Almeida Santos de fato de couro aos pulinhos na Assembleia da República, louca para depositar alguns bagos de uva nos grandes lábios do Teixeira dos Santos. Ou o Augusto Santos Silva a discursar para um bando de malucas, envolvendo delicadamente o microfone com uma das mãos, enquanto via os seus shorts curtíssimos serem sovados de tempos a tempos pela máscula mas carinhosa mão do Alberto Martins.

Assim, também nesta matéria, a próxima sexta-feira ficará marcada pela confirmação do «atraso» português. Embora não seja tão grave porque só 6 países no mundo consagraram esse direito aos – nas palavras de Zapatero, primeiro-ministro socialista da monarquia constitucional espanhola – «nossos vizinhos, colegas, familiares e amigos». Porque, adianta, não quer apenas uma Espanha «mais justa» mas também «mais feliz». Exactamente o mesmo que nós.

Eleições na mira do PCP

Afinal não, não é o BE que está na mira do PCP mas sim o que pode valer eleitoralmente. Isso mesmo foi definitivamente clarificado com a recusa peremptória de Jerónimo de Sousa em estabelecer coligações pré-eleitorais. A convergência, como se supunha, é meramente instrumental.

5 de outubro de 2008

BE na mira do PCP

Jerónimo de Sousa piscou o olho a Francisco Louçã. Veremos com que honestidade (de parte a parte). Até pode vir a dar em namoro mas não creio que dê em casamento porque será sempre uma daquelas relações instrumentais com uma teleologia própria. Business, para ser mais preciso. Juntos, representam quase 20% das intenções de voto uma aliança na esquerda, coisa rara e nunca vista? Totalizando 13,89% dos votos (corresponde a 9,6% dos mandatos na AR...), CDU e BE têm registado uma subida explicável pela insatisfação sentida por muitos socialistas de esquerda que não se revêem nas actuais políticas do governo. Acresce o fenómeno Manuel Alegre, capaz de arrastar consigo a asa canhota do PS, partido actualmente atarefado em esgotar politicamente a direita.
Porém, o dado mais interessante é a disponibilidade, ainda que mais táctica do que ideológica, de um partido historicamente pouco dado a partilhar o monopólio da esquerda que julga ser detentor.

Uma tal aliança a três seria um caso sério para a estrutura de partidos em Portugal e para a hegemonia do centro ideológico. Mas para que isso venha a acontecer, é preciso seriedade, determinação e verdadeira inteligência com um compromisso ideológico. Daquela inteligência dificilmente reconhecível no PCP e no BE e que consiste na convergência estratégica da esquerda.


4 de outubro de 2008

Dia dos animais

Hoje comemora-se o dia do animal. Uma comemoração importante para manter a motivação dos activistas em alta mas que, na verdade, tem merecido grande mobilização mundial. Talvez a maior conquista de todas seja a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Os animais têm direitos que nos cabe respeitar e alguns têm inclusive o privilégio de ser servidos nos mais finos restaurantes.

3 de outubro de 2008

Os abruptos e os outros

Após um interregno de alguns anos, tive ontem a oportunidade de re-ver o programa "Quadratura do Circulo" na Sic Notícias. Também vi o Benfica que, após muitos anos, apresenta um conjunto de jogadores que mais se assemelham a uma equipa. E um técnico que parece um treinador.

Bom, mas regressando ao Quadratura do Círculo, pouco foi alterado no figurino com a excepção de agora ser o presidente da Câmara Municipal de Lisboa - António Costa - quem faz as vezes de José Magalhães, pelo PS. Parece que também por lá andou Jorge Coelho, antes de abraçar um controverso mas rentável projecto profissional...
O abrupto Pacheco Pereira e o polido Lopo Xavier continuam, imperturbáveis.

Uma coisa que nunca percebi foi porque razão foram escolhidos representantes dos partidos de centro e direita, em vez de procurar assegurar nos debates a diversidade social que os partidos representam na Assembleia da República.
Talvez por causa do nome do programa: tem que haver um moderador, sobram três lugares que são distribuídos pelos 1º, 2º e… 4º partidos mais votados.

Ou, por ser uma imposição do dono da estação televisiva: «não quero lá comunistas porque só sabem dizer mal e não se sabem vestir». É legítimo, afinal de contas, estamos a falar da propriedade privada de um homem, na qual só entra quem ele quer. Os comunistas também não abrem as suas casas a qualquer um. Só aos irmãos da média-baixa burguesia que venham por bem. Eu também não gosto de gente emproada que me obrigue a lavar a loiça duas vezes antes de servir a refeição, nem de gente pouco habituada a ouvir e respeitar as opiniões dos outros.

Portanto, concluímos que a escolha do figurino não responde a critérios de representatividade partidária embora, paradoxalmente, lá tenham assento três representantes partidários.

Depois deste inútil prelúdio, devo dizer que Pacheco Pereira se arrogou o direito de se incluir, lui même, nos 0,1% de bloguistas que considera terem escrúpulos. Confesso que não os ando a espiar a todos mas a força da generalização pereiriana é alarmante. Em que lado da barricada me terá colocado ele? Será que gostou dos meus textos? Será que já falou deles aos amigos? Será que quer escrever um romance a meias comigo? Ou será que teve cólicas e passou a noite em dificuldades? Não sei, ele nunca mo disse directamente. Por isso é que depois daquela afirmação senti uma profunda perturbação durante dois segundos e meio. A seguir, mudei de canal, estava a dar o Goucha e percebi que não me vou abaixo com uma afirmaçãozeca qualquer.

1 de outubro de 2008

Mutualismo tributário

Há profissões que conseguem germinar um alto grau de mutualismo nos seus profissionais. Os funcionários dos serviços de finanças são um bom exemplo desse mútuo benefício. As irracionalidades do «legislador» que impõem o dever de se fazer cumprir pelos funcionários, assim como as irracionalidades agressivas e não raras vezes violentas do contribuinte que se sente lesado (porque é tratado como um número e não como um caso objectivo ou porque é objectivamente roubado), desenvolvem nos funcionários das finanças uma implacável casca: indiferente, inexpressiva e pouco orientada para dar solução aos problemas por si criados.
Em contrapartida, a máquina fiscal retira óbvios proveitos desse estrangulamento humano, conseguindo inclusive que, em muitos casos, o contribuinte seja tributado mais do que uma vez pelo mesmo processo.
O mais impressionante é a capacidade de manter a mesma cara de pau, mesmo em situações particularmente ameaçadoras. Fazem lembrar um bocado aqueles lunáticos asiáticos e sul americanos que, no fervor das comemorações pascais, se fazem crucificar com pregos de 15 cm cravados na palma das mãos.

25 de setembro de 2008

Malditos estrangeiros

O Secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança, Leonel de Carvalho advertiu que o aumento da criminalidade violenta é uma consequência directa da entrada de estrangeiros no país. O distinto argumento foi naturalmente forjado na sequência de um complexo processo indutivo: o brasileiro morto no assalto ao BES de Campolide foi o ponto de partida desta aturada investigação.

Depois desta revelação apoteótica, não sei como poderão continuar os emigrantes portugueses a viver em França, por exemplo, sendo certo que há uns ruins duns magrebinos e uns pretos que fazem trinta por uma linha.

Seria muito básico se viesse para aqui invocar argumentos primários como a sustentabilidade da segurança social, a produtividade nacional e a colecta fiscal. Ou, num plano menos instrumental, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Porém, se o brilhante argumento vinga, não tarda e seremos inundados por milhões de emigrantes portugueses escorraçados, preparados para nos vir roubar os empregos e sabe-se lá mais o quê.

Mas há sempre um lado positivo nas coisas. Se o brilhante argumento vinga, terão que ser novamente os portugueses de gema, brancos, a vergar a mola. E as prisões encher-se-ão de brancos porque não haverão pretos para meter dentro.

Nessa altura, teremos que expulsar todos os brancos também.

22 de setembro de 2008

Para quê comemorar o quotidiano...

Sendo o Dia Europeu sem Carros uma iniciativa francamente dependente da vontade dos municípios portugueses, a tendência de diminuição dos municípios aderentes só pode significar que as metas em matéria de transportes e sustentabilidade ambiental estão a ser amplamente atingidas. Valha-nos este país tão desprendido e concentrado em coisas realmente importantes.

17 de setembro de 2008

à tout propos (304)

A confusão instalada acerca dos papéis reservados aos governantes e aos governados é preocupante. Alguém faça o favor de esclarecer o Secretário-geral da APETRO (Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas) que, quando o ministro da economia expressou o seu desejo de redução dos preços dos combustíveis - acompanhando a descida do preço do crude - está a falar como governante e não como cidadão consumidor. É compreensível que alguém na família de Manuel Pinho também sinta as dificuldades financeiras resultantes da alta dos preços do combustível. E que se solidarize. Mas será demasiado leviano que seja acusado de não estar a falar enquanto governante por desejar a descida dos preços dos combustíveis. Em primeiro lugar, porque se está a reportar às tendências de mercado. Em segundo lugar, porque os prejuízos para uma economia refém dos combustíveis e condicionada por estes é francamente maior do que a redução dos lucros das empresas petrolíferas e francamente menor do que a colecta fiscal de um país inteiro a trabalhar.
Finalmente, convém também alertar o senhor Secretário-geral que o sector que representa não é a única clientela do governo.

11 de setembro de 2008

A importância das aspas

O rapaz permaneceu sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos. A postura rígida era contrariada de tempos a tempos pela mão que levava ao cabelo para ajeitar uma madeixa caída. Uma e outra vez. Para devolver a madeixa desalinhada ao convívio com as restantes. Grossos fios de suor caíam-lhe em barda do queixo, molhando o chão frio de cimento.

“Lá fora, o alvoroço cresce de intensidade.

Alguém lhe pendurou o chapéu na parede ao lado da porta, ao fim do corredor: «quantas vezes terei que dizer que não o quero ao lado da porta. Vê-se tudo». E a madeixa pedia insistentemente que ele a afagasse com os dedos e se demorasse em carícias antes de a devolver ao convívio com as restantes. À ponta de cigarro esmagada entre a sola e o cimento junta-se outra. E outra. E outra ainda.

O alvoroço continua a crescer, lembrando os tumultos ocorridos numa qualquer cidade do mundo há meses ou anos atrás.

A imprecisão da memória é um sintoma de ansiedade. Ele sabe disso. Por isso não quer o chapéu pendurado ao lado da porta. Precisa dele consigo para não perder a compostura. À medida que o tempo passa, o corredor vê-se dramaticamente afunilado como se a porta tivesse sido colocada umas centenas de metros à frente. As rótulas tremeram com a mão que lhe pousou no ombro, despoletando uma ténue reacção e o derradeiro cigarro só foi abandonado quando o chapéu subia à cabeça para disciplinar definitivamente a madeixa.

Ao rubro, a multidão exulta com a sua presença e começam os primeiros acordes”.

Nisto, o rapaz desliga o rádio e sai de casa, lembrando-se subitamente que, atrás de si, deixara abandonado no cabide um chapéu igualzinho.

10 de setembro de 2008

A verdadeira história de Kafka

Franz Kafka era um homenzinho cinzento de olhos negros esbugalhados e cabelo oleoso colado ao crânio. Trabalhava numa repartição pública e dedicava-se a compilar integralmente processos e requerimentos. Essas eram as suas funções, as quais eram desempenhadas com um zelo cirúrgico e um entusiasmo enervante. O alto grau de uniformização e equidistância que caracterizava o tratamento dado pela burocracia na altura, traduzia-se num completo alheamento de Kafka pelo que, era-lhe completamente indiferente se tivesse que compilar fielmente extensos manuscritos sobre regulamentos dos edifícios públicos ou pedidos urgentes de ajuda feitos por pessoas pobres para pagar viagens à Lua com o novo serviço da Virgin.

Ali chegava de tudo. Desde o tipo que se transformou em insecto gigante e as asas não lhe permitiam passar do quarto à casa de banho, ao agrimensor que, após alguns meses sem conhecer o patrão nem as tarefas consignadas, acabou por chamar o sindicato e conseguiu uma boa indemnização. Mas também há aquele caso do indivíduo que foi obviamente confundido com outro e só descobriu que não era ele quem os outros pensavam que era quando já tinha a corda ao pescoço e se estava a urinar todo. E isso, porque alguém na plateia lhe sorriu com olhar sórdido. Ficou a meio da mija.

Mas o diligente Kafka, no exercício das suas funções públicas, transcrevia tudo como se a sua máquina de escrever fosse a ferramenta copy/paste dos nossos pc’s.

Entretanto, parece que foi recentemente reconhecido como o maior arquivista de todos os tempos da Administração Pública. Ao menos isso porque jeito para escrever era coisa que não lhe sobrava.

E se eu fosse uma cómoda?

Maltrato-me frequentemente com pensamentos desviantes que me jorram da fronte como calda de pêssego enlatado mas só raramente lhes concedo uma operação sintáctica, como podeis confirmar neste humilde espaço de auto-justificação existencial [risos].

Hoje, enquanto desmanchava um vitelo no trabalho passou-me pela ideia o que seria de mim se fosse uma cómoda. Duplopensar, em linguagem huxleyana ou, simplesmente, uma redundância. Uma cómoda, esse local pouco arejado ao qual associo um depósito de farturas e de cuecas de sexagenária, corroídas pelas traças e com cheiro a mofo. E se eu fosse uma cómoda? Claro que há milhares de referências a cómodas no dicionário. Mas ser uma cómoda, assim, de um pé para a mão… é coisa difícil de engolir. Sobretudo de for de Pau-Brasil porque, presumo, deverá arranhar a garganta como se alguém insistisse em me fazer passar umas calças de ganga pela glote. Acho que não tenho apetite para tanto. Adiante.

Uma cómoda é um corpo deveras estranho. Normalmente, tenho-a por um objecto capaz de acomodar de tudo um pouco: desde as cuecas da sexagenária até às memórias mais sórdidas embrulhadas em roupa interior suada e gasta que, por sua vez, escondem retratos a P/B de mulheres gordas com chapéu de caqui e penas, a mostrar as mamas e a volumetria de umas curvas amplas e arredondadas. Porém, sempre que bem acomodado, numa cómoda cabe quase tudo e mais um par de botas da tropa. Um bocado como a bagageira de um Fiat 600 ou a mala de viagem de um imigrante arménio. Serve para tudo e habitua-se facilmente a essa disforme condição de receptáculo sem fundo, sem precisar de protocolos ou memorandos para uma correcta utilização: «atira lá p’a dentro, pá, que depois se arruma no sótão!». Uma cómoda é, diríamos, a uma das maiores exaltações do entorpecimento que um objecto pode ter. Isso ou perder tempo a ver o Benfica na televisão.

Assim me senti eu. Acomodado no interior de mim próprio, prestes a chegar ao sótão. Cheio como um ovo, como se tivesse engolido um pão de kg com dois litros de água. Ou pior ainda: como se me sentisse nauseado por ver no espelho a imagem reflectida de um nababo inútil a arrotar porções de alho mal mastigado enquanto declamava Guerra e Paz, de Leão Tolstoi (felino das estepes entretanto desaparecido do Livro das Existências). Confortavelmente acomodado numa qualquer gaveta da sua [minha] existência. E com o sovaco a cheirar a bafio.

Para desagravar a coisa, devo recordar que há, naturalmente, outras referências como por exemplo, ter uma vida cómoda. Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que a nenhuma cómoda deveria poder ser concedida tal blasfémia. Onde é que já se viu uma cómoda ter uma vida cómoda? Só se não insistissem em me empanturrar com farturas. Já não aguento mais tanto frito.

Deixo um valioso conselho a todos os poetas que, como eu, vivem fustigados por pensamentos inúteis: quando virem farturas, não abram a gaveta! E fujam daí para fora a sete pés. Foi o que me disse o Kafka pouco antes de morrer na sua repartiçãozeca... cómoda.
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Palavras-chave: "cómoda", "vitelo", "farturas", "repartiçãozeca"

9 de setembro de 2008

à tout propos (303)

Hajam governos como este que assumem as responsabilidades das coisas. O primeiro-ministro indexou o aumento do «sucesso» escolar a medidas do governo.
A meu ver, correctamente: os alunos são obrigados a passar de ano e as avaliações dos professores dependem directamente das performances dos alunos, o grau de exigência diminuiu brutalmente repondo a justiça das coisas (e irritando consideravelmente os bons professores que restam, definitivamente alinhados pela bitola baixa) e, além disso, vamos quintiplicar dentro de alguns anos o número de licenciados com as novas oportunidades. E, mesmo assim, vamos continuar a garantir ao investidor externo, mão-de-obra barata e desqualificada.

8 de setembro de 2008

Preocupações ambientais à parte

Troia Resort, um dos empreedimentos de Belmiro de Azevedo na península de Troia, será um exemplo acabado do efeito «mão invísivel», de Adam Smith, o qual serve de inspiração à direita liberal. Consiste basicamente na regulação dos mercados com uma intervenção mínima do Estado, concedendo ampla autonomia às dinâmicas da oferta e da procura (os meus amigos economistas e outros curiosos que me corrijam se estiver errado).

Vocacionado para um perfil de clientes caracterizado por passear de Ferrari ao fim-de-semana e por se mostrar muito sensível às questões ambientais – muito em moda – o empreendimento Troia Resort dedicar-se-á a um sem número de actividades de limpeza e conservação da biodiversidade do estuário do Sado para atrair e consolidar clientes. Em suma, as excentricidades destes indivíduos que até se costumam fazer transportar de avião, vestir as esposas e concubinas com visons e enfardar o bandulho com caviar de esturjão, é que serão o leit motif para uma preocupação da Sonae com o ambiente. Grosso e curto modo

Neste particular, a grande diferença entre a apologia de uma intervenção mais enérgica do Estado e o laissez faire dos mercados é que estes, quando levantam as fuças do dinheiro é para procurar mais dinheiro enquanto a primeira tem uma oportunidade real para actuar preventivamente com o enfoque na Humanidade.

à tout propos (302)

Sinto que, ultimamente, este espaço de auto-recreação tem sido alvo de ataques terroristas. Ao contrário de outros líderes mundiais, entre os quais o saudoso Calimero, reconheço que este terrorismo me faz rir. Sobretudo quando está de cócoras a comer um gelado.

6 de setembro de 2008

Democracias e Povo

Confesso que desconheço os fundamentos que levam algumas pessoas a questionar a democracia e a postular um outro regime político que, presumo, seja inaudito (porque aqueles com que temos sido historicamente brindados... vou ali e já venho...). Esta minha ignorância assenta numa dúvida crucial: a que regime «democrático» se referem essas pessoas?
Aos regimes tirânicos como o Zimbabwe ou Coreia do Norte, centrados na figura incontestável do chefe e numa hedionda máquina de repressão?
Aos regimes oligárquicos e totalitários como Cuba ou China, cuja pluralidade é registada na unidade do único partido admissível e a autoridade é conquistada por uma máquina de repressão eficaz?
Aos regimes oligárquicos e pró-totalitários como Angola ou Rússia, cuja pluralidade é garantida na unidade do único partido em condições de disputar eleições e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes cujas cúpulas são dominadas por estruturas de clãs como a India ou Paquistão e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes cuja ideologia dominante esgota quaisquer alternativas, como Israel ou os EUA e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes work-in-progress dos países ocidentais, incomomodamente apanhados entre o ser e o dever-ser e a autoridade é conquistada pelo conforto?
É que, todos sem excepção, utilizam o termo democracia para designar as respectivas estruturas políticas. Talvez porque, em cada um deles, o povo é distintamente personificado, seja numa pessoa, num grupo de pessoas ou numa sociedade.
Por cá, parece-me que o conceito de povo, ainda assim, abarca uma maioria considerável da população: aquela que sobrevive acima do limiar da pobreza. Em contrapartida, no Zimbabwe e na Coreia do Norte, o conceito de povo é capaz de incluir 0,5% da população.

De braços abertos

Depois de uma prisão preventiva, de um longo calvário com areia do deserto a ranger nos dentes e ainda, de uma indemnização no montante de 130 mil euros por danos morais (também servirá para ajudar a repor o bom nome e a honra e a dignidade do homem), Paulo Pedroso vai ser recebido de braços abertos pelos deputados socialistas na Assembleia da República. Não por todos. Pelo sim e pelo não, os deputados mais velhos deverão exibir alguma contenção nessa coisa dos «braços abertos»... para que não restem dúvidas. Por conseguinte, é previsível que desta vez, a chegada deste exilado político a S. Bento não seja tão apoteótica como quando foi liberto dos cárceres do opressor.

Resta saber a que instituição de solidariedade social entregará Paulo Pedroso o cheque. Afinal, para que precisa ele do dinheiro, agora que é um homem livre, talentoso, com tantos amigos e bonito?

5 de setembro de 2008

A democracia angolana está de «parabéns»

Hoje, em dia de eleições legislativas angolanas, apetece dizer que a democracia angolana é pródiga para com os seus filhos. Que o digam as inúmeras propriedades e acções de empresas detidas dentro e fora de Angola por alguns dos seus mais proeminentes mancebos.
A democracia angolana está de parabéns porque reduziu substancialmente a periodicidade de eleições para 16 anos;
A democracia angolana está de parabéns porque o dono do país tem uma invulgar capacidade de extorquir com avidez a população, combinada com um semblante representativo da mais profunda compaixão.
A democracia angolana está de parabéns porque conseguiu selar algumas urnas de voto. E, noutras, conseguiu inclusive colocar representantes de todas as forças políticas em concurso.

29 de agosto de 2008

American dreamers


No discurso que encerrou a mega mediática Convenção Democrata, Barack Obama defendeu o «sonho americano», ou seja, um modo de vida que tem resultado normalmente no «pesadelo» dos outros.
Se Barack Obama pretende ser a pedrada no charco da política americana, pode começar por pensar que, para lá das fronteiras americanas existem países com pessoas humanas e não apenas o quintal das traseiras. Na prática, é isso que tem representado o «american dream», materializado no «american way of life».

28 de agosto de 2008

Convenções à parte

Consta que, durante a convenção do Partido Democrata que confirma a candidatura de Barack Obama à Casa Branca, Hillary Clinton terá abençoado o homem. Embora não seja certo sobre quem abençoou quem.
Sabemos que Barack aproveitou para mandar a mulher e filhos comprar rebuçados antes de receber a senadora de Nova Yorque.
Resta também saber se o marido, Bill, estava ou não presente nessa circunstância. Acreditamos que não porque Barack Obama é um homem muito tradicionalista. De qualquer forma, é crível que Hillary ainda esteja irritada com o episódio da Sala Oval e se queira certificar que o peso social que pende na cabeça do marido seja maior que nela. Afinal, Bill é que foi o presidente...

26 de agosto de 2008

Qualquer dia, nem de gajas se pode falar...




As anunciadas fábricas de aviões e avionetas que se hão-de instalar em Évora ainda não passaram do papel e já estou com elas «por aqui» (indicando o extremo setentrional do crânio).


Ontem, lá em casa, preparámos uma tertúlia assim, sóbria, fina, tranquila. Uma experiência quase mística. Estávamos eu, o Patch Adams, o Samuelson e o Weber. Tudo malta bem disposta e divertida. A coisa estava amena e, se não me falha a memória, estávamos no início de uma deliciosa discussão sobre a temática da improbabilidade do ser e da inconstância do devir.


Foi por essa altura que me alertaram para a existência de um tipo vestido de marinheiro que esbracejava desaustinadamente na varanda de baixo. E, de facto, o homem parecia trajar uma daquelas fardas de grumete dos musicais americanos da década de 40, cujas calças comprimem as nádegas e forçam à exposta convivência debaixo do tirelene, um dos siameses e o humilhado pénis. Mas não, apesar do aspecto de parvo, o homem ostentava afinal as insígnias da aviação.


Exprimia-se com alguma dificuldade num castelhano pobre e, do que me foi dado entender, não estava nada de acordo com o tema da nossa conversa e exigia que a terminássemos ali, sob pena de alertar o GOE. Houve quem tivesse feito confusão com o GAL (Grupo Anti-terrorista de Libertação), porque de facto, o modo como articulava as frases tinha correspondência com a desordem da aparência. Apesar de se tratar de uma temática inócua e pontual, anuí pacientemente nas pretensões do sujeito, não começasse ele a voar por ali fora e se estatelasse desamparado no chão alguns metros abaixo. Ele, mais as suas asinhas de cera. Se estava tão ansioso por voar no dia seguinte...


A perplexidade instalou-se entre os convivas, tomados de assalto por uma indignação só comparável à que se sente quando de pisa um cagalhão. É natural que o indivíduo não se sinta à vontade com a complexidade do tema mas, como se disse, um dia não são dias. Para a próxima falamos de gajas e touradas. Pronto. Satisfeito?


Ora, o que me causa algum transtorno é verificar que, como se não bastasse o intenso zumbido diário com expoente nas manhãs de domingo a que somos expostos a bem da felicidade dos outros, ainda somos forçados a tolerar pessoas que vomitam palavras desconexas e têm mau gosto no vestir. É que, ao contrário da frequência das nossas conversas inacessíveis para brutos, o tipo veste-se sempre assim e não consta que tenha feito progressos no seu processo de integração social. Ali está, jogado ao desespero e à pequenez de uma emancipação que começa no carro equipado com o autocolante de um touro e termina no cock-pit de alguém.


Perante as cabais evidências e as insuperáveis demonstrações, resta-me concluir que a exígua ilha em que este barão vermelho vive é proporcional à dimensão do seu raciocínio. Agora que penso nisso, já não é o primeiro com que me deparo. Deve ser das asinhas…

25 de agosto de 2008

Sonhos «iróticos»

Por estranho que possa parecer, em vez duma ninfa escaldante ou de um cofre cheio de dinheiro, esta noite apareceu-me em sonhos um personagem bizarro: o primeiro-ministro José Sócrates. Do sonho (não foi suficientemente mau para passar à categoria de pesadelo), não deu para perceber muita coisa mas no final, o homem desapareceu a sorrir. Entretanto, hoje de manhã foi pré-anunciado que o Orçamento de Estado para 2009 prevê um aumento significativo de verbas para a ciência e ensino. Seria esse o motivo de tanta risota? Ou seria o facto da clausura cinzenta a que se remete a ministra da educação antever desde já a não execução dos montantes destinados ao seu ministério?
Em contrapartida, o anúncio de desinvestimento na administração interna promete pôr os nervos em franja à direita. Seria por isso que ele afinal sorria?

24 de agosto de 2008

23 de agosto de 2008

à tout propos (301)

Este é o milésimo post aqui publicado. Pela milésima vez... a galinha da vizinha é maior que a minha.

21 de agosto de 2008

Ouro para Évora!


Barajas também faz parte da realidade dos jogos olímpicos

Se todos os países que passam por acidentes como o de Barajas ou que se encontram envolvidos em conflitos bélicos ou que são vítimas de terrorismo ou de outro tipo de catástrofe, decidissem colocar as respectivas bandeiras nacionais a meia-haste nos jogos olímpicos, o alinhamento das bandeiras mais pareceriam as ameias de uma muralha.

Caso o Comité Olímpico Internacional condescendesse e anuísse nas pretensões espanholas em fazer descer a sua bandeira em sinal de luto pelas vítimas do terrível acidente de ontem, uma parte substancial dos países participantes deveria poder fazer o mesmo. A lista seria certamente extensa.

E isso podia ser feito… apesar do rude golpe que representaria admitir uma realidade contra a qual os jogos olímpicos têm lutado desde o seu renascimento em 1896.

19 de agosto de 2008

à tout propos (300)

Naide Gomes diz não ter palavras para explicar a sua eliminação. É melhor que assim seja, pois prevê-se que essa, seja a única forma de escapar à ira de Vicente Moura e à voragem da comunicação social.
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PS (1): Vicente Moura será o único que não apresenta resultados. Recordemos que estes jogos olímpicos foram aqueles onde houve [supostamente] maior investimento do Comité Olímpico Português.
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PS (2): Para evitar celeumas, o velejador Gustavo Lima já decidiu o abandono. Diz ele que os apoios são miseráveis e não contrabalançam minimamente os sacrifícios. Acreditamos mais nele do que em Vicente Moura.

à tout propos (299)

Ao contrário de todas as outras edições dos jogos olímpicos, este ano não ganhámos nenhuma medalha no desporto rei. O que é que se passa?

Uma constante: de mãos a abanar

Como tem acontecido [quase] sempre desde que há participação portuguesa nos jogos olímpicos, os atletas fazem milhares de quilómetros para dar três saltos ou correr uns metros ou outra coisa qualquer. Para regressar de mãos a abanar. Não é novidade.

Nesta edição das olimpíadas, a excepção confirma a regra. Mas só nestas olimpíadas é que o verniz estalou na sequência das justificações pretensamente amadoras dos nossos atletas.

Ora, uma atleta aparentemente intocável no que respeita ao brio e ao patriotismo, como é o caso de Naide Gomes (salto em comprimento), de quem se esperava tudo e mais um par de botas, acabou de ser traída pelo medo e não estará presente sequer na final. Depois de dois saltos nulos, Naide fez um salto ridículo para uma atleta de alta competição: abrandou vertiginosamente a velocidade e desenhou atabalhoados passinhos para conseguir fazer a chamada em condições. O resultado foi desastroso, tendo em conta os piores saltos da atleta (quase um metro a menos da sua melhor marca do ano).

E depois?

O desastre é primeiramente pessoal e não de Vicente Moura (presidente do Comité Olímpico Português). Como [quase] sempre no desporto português, Naide fez milhares de quilómetros para fazer um salto ridículo. Isso também é desporto, tal como são as justificações dos atletas. Se calhar, não teve leite Mimosa ao pequeno-almoço ou então, as meias não estavam completamente enxutas. Pode encontrar [ou não] as desculpas que quiser sem que isso signifique falta de brio ou de «educação», para utilizar os termos desadequados de Vicente Moura.

18 de agosto de 2008

Alguma água na fervura...

Algumas declarações de atletas olímpicos que tratavam de projectar parte dos respectivos desaires olímpicos para elementos estranhos – a hora, a pressão mediática, o estádio ou a previsibilidade de derrota - caíram mal no Comité Olímpico Português (COP). A celeuma foi levantada pelo seu presidente, Vicente Moura, e corroborada pelas medalhadas Vanessa Fernandes (hoje) e Rosa Mota. Quanto a estas, parece-me que são/foram infinitamente melhores atletas do que pensadoras.

Parece claro que algumas dessas declarações são profundamente infelizes e não mereciam o destaque dado pela comunicação social e pelos seus necrófagos hábitos. Talvez a celeuma só tenha sido levantada porque foram vários os atletas a desculparem-se. Mas, a este respeito, não me parece que as desculpas sejam indesculpáveis... Sobretudo, porque as razões do fracasso de atletas como Telma Monteiro (judo) ou Francis Obikwelu (atletismo) têm contornos diferentes das razões de Vânia Silva (atletismo) ou Tiago Venâncio (natação), quer pelas expectativas geradas quer pelas ilações a tirar junto das respectivas equipas técnicas e federações. No último caso, o nadador optou por cumprir um plano de treino à margem do plano estabelecido pelo COP. Certamente porque acreditou ter melhores condições. Teve um erro de cálculo.

Todas essas declarações foram recolhidas na ressaca dos acontecimentos e sem serem sujeitas ao exame da razão. Claro que não desculpam atitudes menos, digamos, olímpicas. Mas também não são razão para criticar atletas na praça pública. A não ser por manifesta ausência de espírito olímpico. Estes foram os casos de Jessica Augusto e Francis Obikwelu (atletismo). No primeiro caso, porque a meio-fundista se recusou a participar nos 5000 em face da «forte concorrência» e, no segundo caso, porque o brilhante atleta ponderou erradamente a sua não participação nos 200 metros depois de uma prestação fraca nos 100 metros.

As declarações foram, em todo o caso, honestas.

13 de agosto de 2008

à tout propos (298)

Michael Phelps




Este rapaz tem o hábito de comer medalhas de ouro ao pequeno-almoço.

12 de agosto de 2008

007, ordem para disparar?!

Se, no mediático assalto ao BES em Campolide, os dois assaltantes tiveram suficiente tempo para reflectir sobre as consequências dos seus actos e perceber que dali só sairiam presos ou mortos (neste caso, um foi preso e o outro morto pelo GOE), esta noite não houve tempo para nada. Os militares da GNR puseram-se aos tiros e atingiram mortalmente uma criança de 12 anos. Esta aparente utilização desproporcionada de força tem contornos semelhantes ao ocorrido em Évora há alguns anos, quando um polícia alvejou também mortalmente um jovem assaltante em fuga.
No primeiro caso, para memória futura fica o disparo de retaliação feito pelo assaltante (que posteriormente foi ferido e preso preventivamente), o qual, só por mero acaso não acertou no refém que tinha à sua guarda. Fora isso, a acção do GOE foi quase perfeita. E exemplar...
No segundo caso, é possível que fique para memória futura uma certa precipitação dos militares da GNR, os quais hão-de ser sempre «presos por ter cão e por não ter». Decidiram na hora, não beneficiando do rigor táctico amplamente treinado pelos homens do GOE.
Tenho dúvidas se um assalto a uma vacaria sem reféns justificaria tiroteio. Mas também recordo quando um agente da GNR foi «passado a ferro» por criminosos em fuga em Vila Real de Santo António, durante uma operação stop (se não me falha a memória).

10 de agosto de 2008

A Geórgia foi previsivelmente estúpida

Na Geórgia, o Presidente da República abocanhou e engoliu avidamente o isco lançado pelos russos. Agora, é o seu país e o seu povo quem está a pagar por isso. A Ossétia do Sul tem muito mais afinidades com a Federação Russa do que com a Geórgia. Esse tipo de raciocínio que dá corpo a uma nação a partir da preponderância que representa o território e o passado é uma falácia. Por muito que custe aos georgianos [e a tantos outros povos no mundo que disputam o preço do território e não o bem-estar das populações], em matéria de autodeterminação vale a vontade da maioria da população. E esta, neste caso, é maioritária e inequivocamente russa. Tal como era sérvia a lingua de território que defendia Karadzic com unhas e demasiados dentes...
Os alinhamentos políticos e territoriais do passado não têm que reflectir necessariamente no presente. Claro que isso não iliba a eterna e belicosa mãe Rússia, pátria do excesso de zelo que a caracteriza intemporalmente.
No que respeita às Nações Unidas, este conflito aberto entre Rússia e Geórgia serve uma vez mais para desacreditar um Conselho de Segurança que permite que partes interessadas sejam juízes em causa própria.

5 de agosto de 2008

Realidade virtual: eleições democráticas angolanas

Numa declaração de risível seriedade, o ditador angolano veio à televisão dizer que as próximas eleições legislativas poderão ser exemplares para o continente africano e para o mundo. Curiosamente, este «comunista» multimilionário não se estava a referir a matérias de perseguição política, como imediatamente somos levados a crer pelo seu longo historial. O exemplo que quer dar ao mundo é um exemplo de democracia. E o homem espera fazê-lo mesmo sem abdicar do poder, responder perante os tribunais e devolver o incontável património roubado ao povo angolano. Isto, sem contar com os milhares de angolanos a quem foi subtraída a vida e a esperança com duas décadas de guerra civil.

Talvez por isso é que as últimas eleições livres disputadas em Angola se realizaram há 16 anos, em 1992. Este longo período denota bem a preocupação dos responsáveis angolanos com a preparação de eleições democráticas e justas. Com tanto tempo de preparação, as eleições não podem dar «galo»… Nem que essas vozes «reaccionárias» e, necessariamente anti-democráticas, tenham que ser caladas. Em nome da democracia…

4 de agosto de 2008

Alexandre Soljenitsyne (1918-2008)

Alexandre Soljenitsyne, o escritor russo galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1970 e um dos mais destacados opositores do regime soviético, perdeu hoje a vida aos 89 anos.

1 de agosto de 2008

Marinho Pinto, o Justo!

Entre acertos, meias-verdades e a mais pura demagogia, o bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, ainda tem habilidade para fazer uma perninha no «chico-espertismo» disfarçado de arbusto. Diz ele que conhece pessoas que foram condenadas na sequência de apresentação de queixas à polícia por, naturalmente, não dominarem o tema jurídico.

A solução, lá vai atalhando o bastonário, passa por atribuir a exclusividade da formalização de queixas aos advogados. E justifica, apelando à adaptação do adágio popular: “se o barato sai caro, apresentar queixas sem advogados pode sair muito caro». Portanto, aconselha, nunca falar com a polícia sem a presença de um advogado.

Enternece esta preocupação com a carteira e tempo dos portugueses. E é absolutamente fascinante constatar como o homem que defende estóica e temerariamente a democracia e a justiça, advoga uma autêntica terraplanagem à autonomia dos cidadãos que, autênticas e ignorantes bestas, poderão encontrar na classe dos advogados uma protecção paternalista face ao monstro Leviatão.

Silêncio, que vai falar o Presidente da República

A aparição de ontem do Presidente da República nos telejornais nacionais foi decepcionante. Foi decepcionante pela oportunidade, pelo conteúdo e pela encenação.

Em primeiro lugar, em tempo de férias, os portugueses têm certamente melhores coisas que fazer do que ouvir os recados de S. Exa. Portanto, é bom que o assunto seja sério. Houve pessoas que atrasaram o jantar para ouvir o presidente. Inclusive alguns deputados.

Em segundo lugar, por muito importante que seja o assunto do Estatuto Político-administrativo da Região Autónoma dos Açores e as inconstitucionalidades apuradas pelo Tribunal Constitucional, não é, todavia, um assunto suficientemente forte como para justificar um comunicado presidencial em directo nas televisões. Um comunicado à população, acerca de uma matéria, sobre a qual já o Tribunal Constitucional se havia pronunciado, como em tantos outros casos. Além disso, se queria dar recados sobre outras normas duvidosas, que telefonasse directamente aos líderes das bancadas parlamentares.

Em terceiro lugar, a encenação dramática montada durante todo o dia pelo gabinete da presidência, pondo o país em suspense exigia, no mínimo, um tema correspondentemente quente e coerente com tanto secretismo e solenidade. Por exemplo, a demissão do governo ou uma declaração de guerra ao Irão. Nem uma coisa nem outra, apesar de ter dado a impressão que, a um ano de eleições legislativas, a coabitação cooperante com o governo possa sofrer alguns reveses.

Em suma, o Presidente da República transformou o Estatuto Político-Administrativo dos Açores numa intentona, num verdadeiro golpe de Estado dos Açores, o qual contou com o beneplácito da totalidade das forças políticas na Assembleia da República: «todos contra a Pátria, abaixo o Presidente». Mais parecia um comunicado dos tempos do PREC.
Com este comunicado, Cavaco Silva banalizou tanto a figura do Presidente da República quanto o faria a promulgação do diploma em causa.

28 de julho de 2008

O crepúsculo dos deuses...




... aninhados no paganismo de uma mitologia gasta e politicamente previsível.
Enfim, terminaram as férias.

3 de julho de 2008

à tout propos (297)

A um ano das eleições, o governo socialista pretende retirar o socialismo da gaveta.

Não se percebe

Em entrevista ao Canal 1, Sócrates sustentou que a descida do IVA em 1% visa relançar a economia. Coloca-se legitimamente a questão: se assim é, então por que razão não foi tomada a medida mais cedo, sabendo que uma economia mais pujante resulta em maiores receitas para o Estado?

30 de junho de 2008

Ao contrário de Cuba

Ao contrário de Cuba, a governação do Zimbabwe não assenta em pilares ideológicos, sejam eles amados ou odiados. Nem em outros pilares que não sejam a arregimentação de [alguns] apoios pelo medo e pelos privilégios de elites militares. Ao contrário de Cuba, o Zimbabwe não tem um projecto político, não tem um sistema judicial, de saúde ou de educação; não tem apoiantes genuínos e desinteressados nem tem vergonha na cara. Os americanos também não. Mas, ao contrário de Cuba, qualquer intenção de isolar Mugabe é defensável. Embora, à semelhança de Cuba, quem sofrerá com um eventual embargo são justamente aqueles que já sofrem às mãos do ditador sem escrúpulos.
PS: quanto ao embargo de armas, eventualmente nas cogitações americanas, bom... há sempre a hipótese dos industriais de armamento americanos abrirem sucursais nas ilhas Caimão...

27 de junho de 2008

à tout propos (296)

Quando, na altura, Jardim Gonçalves preparou a sua sucessão no BCP, abrindo caminho a Paulo Teixeira Pinto, ficou a pairar no ar um processo exemplar em que o poderoso accionista abdicava do poder em nome da renovação. Hoje, as coisas não parecem tão claras. Isso mesmo se pode depreender da queixa-crime que a Comissão do Mercados de Valores Mobiliários apresentou na Procuradoria Geral da República.

25 de junho de 2008

A ministra tem um problema temperamental. E de raciocínio.

A Associação Portuguesa de Matemática considerou os exames nacionais de matemática bastante fáceis, elegendo o do 9º ano como o mais fácil de sempre. Paulo Portas falou em facilitismo e acusou o governo de estar a trabalhar para as estatísticas que, de resto, não formam bons profissionais nem garantem a transmissão de conhecimento, necessária ao desafio do desenvolvimento do país.


Em vez de prometer averiguar o caso e mostrar-se solidária na defesa do rigor e exigência no sector que tutela, a ministra da Educação deu mais uma vez prova de grande e estúpida ferocidade. Perdeu nova oportunidade de recuperar algum respeito do sector que tutela, o qual poderia ser alcançado se mantivesse uma atitude motivante, um relacionamento de confiança e de solidariedade, servidos por uma vontade inequívoca em dar solução aos problemas. De forma construtiva, em conjunto com os restantes agentes do sistema educativo.

Estes exames são a resposta dos professores à prepotência da ministra: se o ónus da responsabilidade em haver maus alunos pode recair sobre os ombros dos professores através da avaliação a que serão sujeitos, também o inverso pode ser depreendido destas avaliações que transformam os meninos em «bons alunos». Daqui, saem os professores sem um beliscão reagindo, também eles de forma inconsequente, não obstante se lhes ter inflamado a peitaça de forma amplificada em todo este processo que já dura há demasiado tempo.

Mas, de um rótulo não se livra a manhosa criatura: o da incompetência porque há-de ser recordada como mais uma, entre tantos, que contribuíram para a falência do sistema educativo e, em consequência, para o embrutecimento de gerações de portugueses, ainda que doutores e engenheiros das já gastas e medíocres novas oportunidades. Em contrapartida, os professores, os bons, serão sempre recordados positivamente por quem conta.

24 de junho de 2008

Ao pé de Mugabe, Salazar era um menino de coro

Um governo que convida crápulas para a sua companhia e os recebe com honras de chefes de Estado, um governo que pactua com o aberto desrespeito pelos princípios democráticos (infame posição partilhada pela maioria dos países do mundo que nos habituaram a um mínimo de dignidade), ao tolerar relações com ditadores sanguinários, não tem legitimidade para exigir seja o que for em matéria de exercício da democracia e respeito pelo Estado de Direito. É que, por muito que custe a muita gente, ao pé de Mugabe, o repugnante Salazar foi um menino de coro. Lá, é tudo às claras e não se pense que a relação deste com Deus é diferente da de Salazar. Um foi retirado do poder pela acção de «Deus» e o outro já fez saber que não admite um desfecho diferente. Morgan Tsvangirai não é um Deus para o ditador mas para as suas vítimas, anda lá perto.

Enquanto um clima de repressão e terror se agrava, a comunidade internacional observa atónita, com a mesma perplexidade com que observou o Ruanda. É, também, nesse patamar de hipocrisia e lassidão que está o governo português o qual, na relação com o Zimbabwe, não tem a coragem de assumir peremptoriamente a rectidão e honra que, estou convencido, caracterizam o povo que o governo representa. Em situações como esta, é manifestamente improvável que alguém, guiado por princípios democráticos e humanistas, se reveja quer na diplomacia portuguesa quer na diplomacia europeia.

E, convém reafirmá-lo, nesta matéria a ONU é e continua a ser uma farsa.
A Morgan Tsvangirai não resta muito mais senão esperar por um apoio que não há-de chegar certamente da comunidade internacional. Essa está mais concentrada em resolver os probleminhas do seu pequeno mundo material.
Há 43 anos também Humberto Delgado acreditou que podia demitir o verme que des-governou Portugal durante 48 anos.

20 de junho de 2008

Medidas contra a crise

As medidas que o PCP propõe para enfrentar a crise não são demagógicas e têm a virtude de tomar a forma de propostas concretas, ao contrário dos arrazoados sem conteúdo a que nos habituaram alguns políticos quando na oposição.
Ainda assim, para financiar as medidas propostas pelo PCP, não chega a criação de um imposto sobre os lucros das empresas petrolíferas.
De qualquer forma, importa reter que a suposta perda de competitividade das empresas que os liberais costumam ter prestes a explodir na boca sempre que se lhes fala em impostos sobre lucros ou transações das empresas não tem paralelo com os custos socio-económicos de uma população a definhar, deprimida e desorientada. A este respeito, a paralisação dos transportadores rodoviários foi simultaneamente um aviso e uma lição.

à tout propos (295)

A boa notícia do dia: a União Europeia decidiu levantar as sansões a Cuba.
A outra boa notícia: Scolari vai ter mais tempo para preparar o Chelsea.
A má notícia: amanhã, muita gente vai andar de trombas.

19 de junho de 2008

Ainda o Tratado de Lisboa

A Europa que defende um Tratado no qual se advoga a centralidade do envolvimento cívico e a participação no processo democrático, é a mesma que, procurando escapar ao escrutínio popular, se escondeu atrás da Ratificação parlamentar (com excepção do caso irlandês).

16 de junho de 2008

Tratado de Lisboa: saídas para o futuro

Os irlandeses, cerca de 1% da população europeia, foram chamados a pronunciar-se sobre a adesão da Irlanda ao Tratado de Lisboa e responderam com um contundente «Não». Os responsáveis dos restantes países esperam que a Irlanda, através do seu primeiro-ministro, desbloqueie a situação, sem saberem muito bem, como. Este, por sua vez, devolve a batata quente aos companheiros continentais. Na ressaca do desaire, fica no ar a vontade de não deixar morrer o Tratado. Só que, como seria de esperar nestas coisas, não há plano B.

Na verdade, exigia-se um plano C porque este tratado já era, por si só, um plano B alternativo ao plano A: a Constituição Europeia, de Giscard d’Estaing recusada há três anos pelos referendos francês e holandês. Desta vez, para evitar o incómodo às pessoas, já nem se fizeram consultas populares nacionais, à excepção da Irlanda, por imposição constitucional. E deu no que deu.

Agora, certamente que não se vai perguntar novamente o mesmo aos irlandeses nem se lhes vai alterar a Constituição. Portanto, se não morreu, o Tratado está moribundo.

Entretanto, em declarações à TSF, Miguel Luís Júdice sugeriu uma hipótese de superação deste e de outros impasses futuros: os Estados nacionais que se adaptem e permitam que, nestes casos paradigmáticos, a consulta popular – que não se dispensa – seja apurada a partir de um único referendo à totalidade dos cidadãos europeus.

E faz sentido que assim seja uma vez que, para o bem e para o mal, a partir do momento em que nos mudámos para casa dos irmãos europeus, vivemos todos debaixo do mesmo tecto. Logo, nestas questões de fundo, tanto vale o voto do alemão como o do romeno. Aliás, nestas questões de fundo, não tem que haver nem alemão nem romeno, mas sim um conjunto imenso de pessoas sob o mesmo tecto. Desde que, uma vez debaixo dele, as condições básicas de fiscalidade e serviços públicos sejam efectivamente uniformizadas em todos os Estados membros…

Nesta linha, os referendos nacionais relativos a assuntos europeus devem ser a porta de entrada e a porta de saída dos países na família europeia. Aí sim, cabe às populações nacionais dizer se querem ou não ostentar a bandeirinha azul com as estrelas.

15 de junho de 2008

Halo industrial


Meios-universos ideológicos


No período que sucedeu à revolução de 1974, até à extinção do Conselho da Revolução, em 1982, o espaço político à direita tornou-se apertado para os seus inquilinos. Compreensivelmente. Ensombrado pelas reminiscências do fascismo, o universo ideológico português continuou formalmente comprimido [agora pela esquerda] e, em consequência disso, a direita conservadora e cristã passou a ser conhecida por um impreciso Centro Democrático Social (CDS).

Os que viveram o PREC – Processo Revolucionário Em Curso – assistiram à fusão do sonho emancipador com o regresso do delito de opinião num curto espaço de tempo e ao arrepio dos ideais. O mundo estava dividido ao meio: os revolucionários e os reaccionários.

Há episódios incríveis como, por exemplo, o Estatuto Editorial do Diário de Notícias, cuja linha informativa se devia confinar aos «objectivos do processo revolucionário em curso para a construção e defesa da sociedade socialista em que está solidariamente comprometido».
Um compromisso ideológico num jornal que se pretendia isento e democrático representa, por si só, uma contradição insuperável porque um dos pilares em que assenta a democracia é justamente o das liberdades e garantias, com a liberdade de expressão à cabeça. Ora, se existe um processo democrático, este pode ou não ser coincidente com o caminho para o socialismo. Mas não o «tem que ser» obrigatoriamente, sob pena de deixar de ser democrático.

O comprometimento do Diário de Notícias com o PREC, por um lado, e a exiguidade a que foi votada a direita, por outro, são expressos num editorial de 26 de Junho de 1975, assinado por José Saramago. Nele, o agora Nobel da Literatura não poupa Freitas do Amaral, depois de umas declarações deste a respeito da imagem «positiva, confiante e promissora» da revolução portuguesa no estrangeiro, dada pelo CDS. Declarações aparentemente inócuas.

Saramago considera contraditória a subscrição do Pacto MFA-Partidos pelo CDS, uma vez que o socialismo não é tido pelos democratas cristãos como uma via particularmente entusiasmante. O ataque seguinte, sob a forma de arrogante demonstração, é demolidor: “se não quer o socialismo e quer vir a ser governo, só o poderá ser apoiado numa força e contra todos os outros partidos, mais o MFA. Se conta com uma força, essa só pode ser a reacção, seja qual for a forma que esta revista. Logo, o Centro Democrático Social é um partido reaccionário que teve a franqueza de vir dizer-nos que esta democracia não lhe convém”.

De novo contraproducentemente, parece agora reduzir-se o espaço político à esquerda. Há a direita, há a «esquerda moderna» e há, também, o imenso casario da demagogia. Não obstante, o CDS (agora também PP), continua a ser uma força política com pouca expressão eleitoral, antes puxada para a esquerda, hoje empurrada para a direita.

13 de junho de 2008

E agora, Europa?

Os irlandeses preferiram o recato e a segurança do nacionalismo à diluição da pátria celta na imensidão de uma ideia de Europa, apesar da convicção de George Steiner. Não somos iguais e a tão propalada herança cultural comum não chegou para convencer um país que escalou vertiginosamente a escada do sucesso. Talvez por isso mesmo, não se revê nos latinos nem nos eslavos, bárbaros dos tempos de hoje.

Nós, por cá, temos a maior ponte da Europa e o maior lago artificial mas continuaremos arredados das grandes decisões. A Europa recusou ter como farol, um tratado com o nome de Lisboa, ainda que tenhamos sido nós quem lhes alargou o exíguo mundo em que se acotovelavam antes de saírem para o mar. A identidade europeia confunde-se, por estes dias, com o sucesso económico. Os irlandeses estão a viver o seu período de «pós guerra». Dentro de duas gerações também serão pós-materialistas como os alemães. E amigos dos pequeninos, claro. Nós, continuaremos subservientes e seguidistas, sem nada de novo a acrescentar, a não ser boas intenções.

12 de junho de 2008

à tout propos (294)

O governo pareceu compreender a tempo as implicações desta paralisação e embrulhou o recado relativo à capacidade de mobilização civil, neste caso de grupos profissionais. Fez o que tinha a fazer. Digam o que disserem os puristas quanto à legalidade desta acção. E pode muito bem apanhar a boleia para pôr fim a privilégios obscenos que o Estado continua a alimentar. Aí sim, dará um sinal claro aos governados a respeito de reformas que se tornaram bandeiras deste governo e não passaram do campo das intenções.

11 de junho de 2008

à tout propos (293)

O constitucionalista Bacelar Gouveia admite que o governo recorra ao estado de emergência, caso a paralisação dos camionistas prossiga, numa altura em que os stocks de combustível nas estações de serviço está à beira da ruptura. Não deveria(m) o(s) governo(s) ter(em) pensado nisso antes? Antes que a crise ameaçasse roer os calcanhares aos grandes e aos poderosos? Só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões...

Qual o lado da barricada do governo?

Os sinais de crise são evidentes e de natureza supra-nacional, isto é, nem o governo português nem outro governo qualquer têm responsabilidades directas na escalada dos preços dos combustíveis e dos cereais. Mas todos os que toleraram ao longo de décadas este modelo de desenvolvimento têm naturalmente a sua quota de responsabilidade. Este ponto é essencial para discernir a linha de fronteira das responsabilidades do governo.

Num plano doméstico, admite-se que o governo pondere sobre as repercussões nacionais e internacionais. Que perceba com que linhas poderá coser eventuais medidas para enfrentar as dificuldades. Mas há timmings que precisa respeitar, nomeadamente, aqueles em que tem que clarificar qual a sua posição. Já lá vamos.

Ora, em momentos de crise espera-se que o governo dê sinais claros de competência, por um lado, e de solidariedade, por outro, mostrando-se disponível para se colocar do lado de dentro do cinto que o povo vem apertando. E tem aqui uma boa oportunidade para moralizar as remunerações de gestores públicos e a promiscuidade das respectivas reformas, assim como racionalizar as despesas fúteis do Estado. Entre muitas outras medidas que atenuem o largo fosso entre os que têm e os que não têm, sem prejuízo para distinções de ordem profissional. Podem começar por defender os empregos, desapertando o laço que muitos dos empregadores têm ao pescoço.

É isso ou enfrentar graves convulsões sociais, caso esta crise tenha vindo para ficar. Perante a crescente precariedade laboral (da qual o governo também é responsável), o aumento da inflação e o endividamento das famílias portuguesas (induzido pela banca e pelo governo, convenhamos), o mais natural é que os instintos mais básicos de sobrevivência se manifestem seriamente. E caso esta crise tenha vindo para ficar, é melhor que o governo escolha qual o lado da barricada em que se quer meter.

9 de junho de 2008

Inconstitucional é a FOME!

O homem-que-sabe-tudo Marcelo Rebelo de Sousa considerou inconstitucional a acção de paralisação dos camionistas porque assume contornos de lock out. Pode parecer parvo mas, a menos que se prove que os motoristas agiram sob coacção dos patrões, quem tem conduzido este protesto são justamente os subordinados. Talvez porque tenham consciência que, tal como as coisas estão, ao fim do mês poderão não levar mais do que uma palmadinha nas costas em vez do tradicional cheque, ao contrário do senhor Marcelo que, independentemente de dizer coisas com ou sem interesse, é pago sobretudo para desbocar. E para isso, não precisa de meter combustível, já que o homem é um autêntico poço dele.
Inconstitucional seria se os patrões tivessem encomendado bloqueadores de trânsito à polícia e tivessem decorado os veículos com as desagradáveis fitinhas azul e brancas.
A reinvindicação partilhada entre «opressores e oprimidos», vulgo patrões e trabalhadores, é uma categoria nova que o senhor Marcelo terá que, futuramente, incluir na sua extensa cartilha, até aqui dominada pelos mais prosaicos conceitos da luta de classes.

7 de junho de 2008

Português de gema


A nacionalidade portuguesa do herdeiro da coroa portuguesa, D. Duagte Pio João Miguel Gabgiel Gafael de Bgagança, foi posta em causa por um sujeito - Rosário Poidimani - que diz ser ele o legitimo herdeiro depois de encerrado durante décadas numa masmorra na Baixa da Banheira com uma máscara de ferro cravada no crânio. Esta reivindicação é absurda e a prova da nacionalidade é irrefutável porque, conforme se pode ver na imagem, D. Duarte ostenta um bigode.


5 de junho de 2008

A esquerda moderna da direita

Há 34 anos, não havia espaço político para a direita em Portugal. Para sobreviver, o Centro Democrático Social envergou a fatiota do centro ideológico. Caso contrário, era tudo fascista. Hoje, as coisas parecem ter-se invertido e essa esquerda moderna socratiana mais não é do que uma reminiscência do passado, agora novamente ensombrado com o terrível espectro da esquerda. Para aqueles socialistas dos três costados que lutaram pela democracia, o actual PS é mais conservador e liberal do que o CDS de Jacinto Lucas Pires e de Freitas do Amaral. Compreensivelmente. A esquerda moderna dos homens modernos parece vestir Gucci e comer salmão fumado com tâmaras e ananás, remetendo as questões sociais para o caixote dos fait divers. Na esquerda moderna não há lugar para choramingas, nem para homens de esquerda.

Manuel Alegre, poeta e choramingas, é um dos depositários daquela herança socialista. E representa uma enorme chatice porque tem uma base social de apoio suficientemente forte como para irritar Sócrates e o resto da sua trupe. Por isso é que os partidários da esquerda moderna já começaram com os insultos e as calúnias. Enquanto isso, a inflação não desce, os salários não a acompanham, a precariedade não diminui, as assimetrias não cessam de aumentar e o país não deixa de meter água por todos os lados, a esta hora já só com os olhos postos em Cristiano Ronaldo e em N. Sr.ª de Fátima.

4 de junho de 2008

Israel continua à vara larga

Ainda que simpático e relativamente moderado, Barak Obama não esconde as suas fragilidades no plano da dúvida metódica ao não hesitar em apoiar incondicionalmente Israel. A falta de sensatez observada neste apego a concepções absolutas e binomiais causa perplexidade e tumultos em quem percebe claramente que cheques em branco não se passam a ninguém. A menos que no-los tenham passado a nós... Se é isto o menos conservador e humanista que a América tem... vou ali e já venho...

3 de junho de 2008

Alguém que dê um partido ao homem

Vitalino Canas lamuriou o incómodo e mal-estar causados pela decisão de Manuel Alegre em participar ao lado do Bloco de Esquerda no comício preparado para hoje à noite no Teatro da Trindade. O porta-voz socialista acusou ainda o seu camarada poeta de falta de solidariedade e afastamento do partido.

Porém, Manuel Alegre goza de toda a legitimidade para exprimir as mesmas preocupações e tecer as mesmas acusações relativamente ao afastamento da ideologia socialista empreendido nos últimos.

De um lado, o partido. Do outro lado, a ideologia. O partido é volátil, a ideologia está delimitada entre taipais conceptuais e axiológicos. Se a ideologia não serve, que se arranje outra mas com outro nome porque este do «socialismo moderno» não veste bem.

Por seu turno, Manuel Alegre parece desejar tudo em simultâneo como no tempo em que a esperança era o alimento da política: quer o partido sem prescindir da ideologia.

2 de junho de 2008

PPEC, Processo «Privatizador» Em Curso

A eleição de Manuela Ferreira Leite para a presidência do PSD abriu novas perspectivas para a política portuguesa. Pela primeira vez, um partido político em Portugal é liderado por uma mulher, circunstância apreciável num país manifestamente machista; pela primeira vez, um líder partidário predispõe-se a governar um país até ao limiar da sua longevidade intelectual e física, caso cumprisse um segundo mandato. Séria e competente, faltam-lhe o carisma e os excessos dos políticos. Não serve e não tem estofo para acompanhar a pedalada de Sócrates em 2009 (mesmo enfrentando um período de aguda crise pela qual não responde e a crescente contestação interna encabeçada por Manuel Alegre).

Ao colonizar o espaço político do PSD, o PS enxotou os sociais-democratas ainda mais para a direita, escorraçando por sua vez os populares para o talhão nacionalista e ultra-conservador. E Manuela Ferreira Leite aceitou inocentemente o desafio, manifestando desde logo o seu desejo de ver as responsabilidades sociais do Estado subordinadas à lógica contabilística de uma pequena empresa sem capital intelectual nem noção de investimento imaterial.
Contra a gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde e com reservas quanto ao carácter público das pensões, Manuela Ferreira Leite defende um progressivo esvaziamento do poder político do Estado, remetendo-o à sua capacidade legisladora, por não acautelar um único mecanismo de regulação cedível e alternativo ao do Estado em matérias tão primárias como a redução das assimetrias, a coesão nacional e a efectiva observação de direitos, liberdades e garantias.
Porque no tempo histórico-político que atravessamos não se conhece, de facto, mecanismo que substitua o poder regulador do Povo enquanto entidade abstracta, escrutinadora da acção dos seus próprios representantes. E convém frisar que, neste caso, uma entidade que pretende ver vertidos na acção política, os valores e princípios gerais que a guiam. Algo que em nenhuma parte do mundo foi efectivamente atingido por corporações tecnocratas e soluções empresariais.

A ambição de Pedro Santana Lopes obnubilou-lhe a réstia de capacidade para ler o que se passa à sua volta, levando-o a não respeitar [sequer] a fraca memória das pessoas. Pretendeu pegar na chaleira com as mãos a ferver. Um lamurioso terceiro lugar contra dois concorrentes fracos: Ferreira Leite e Passos Coelho. Patinha Antão não foi concorrente a nada.

1 de junho de 2008

As esperanças emancipatórias de um país

O mediatismo e a histeria colectiva que se respira em torno da selecção portuguesa de futebol e dos craques são, mais ou menos, comparáveis à missão da Apolo 11 em 1969. Hoje, os três canais de televisão em sinal aberto transmitiram um directo desde a recepção que o Presidente da República proporcionou à comitiva no Palácio de Belém, até à descolagem do avião em direcção à Suiça.

Que a chusma se preste a estas devoções messiânicas, agitando bandeiras e clamando pelos seus heróis, não é coisa que cause surpreendente novidade. Nem mesmo a opção editorial das estações de televisão privadas, obcecadas com a paralisia mental portuguesa.

O que constrange é a concepção de serviço público da RTP, amarrada a uma competição pueril e infecunda com os outros canais ao distender o tempo de reportagem, com todos aqueles meios e recursos envolvidos. E foi embaraçoso verificar a anulação profissional dos jornalistas, perdidos entre a oportunidade de um «furo» esvaziado de conteúdo e os comentários às bainhas das calças do Ronaldo ou às especulações sobre o teor da conversa entre Cavaco Silva e Scolari.

Depois disto, o «orgulho de Portugal» foi para a guerra tentar fazer dentro de um rectângulo relvado em 15 dias, o que o país inteiro não consegue fazer num ano. Como se aqueles rapazes estivessem prestes a operar a multiplicação dos pães.
As esperanças emancipatórias de um país resumem-se à deificação e sacralização desta rapaziada, por esta altura convertida em objecto de fé e peregrinação.
Aconteça o que acontecer, quando o sonho terminar, continuaremos a ser um dos países com as piores performances económicas e sociais da União Europeia.

31 de maio de 2008

Menezes apunhalado

Hoje, no dia em que os sociais-democratas escrutinam o seu próximo timoneiro, o líder demissionário Luís Filipe Menezes criticou duramente a «canalha» que lhe armadilhou o caminho. E prometeu ser diferente, desde logo, ao acanalhar os seus opositores.
Nesta matéria, contará sempre a solidariedade de Santana Lopes, crivado de apunhaladas laranjas logo em bebé.

30 de maio de 2008

Alguém viu os dossiês?

Entre Pedro Passos Coelho, Manuela Ferreira Leite e Santana Lopes, o que está mais habilitado para governar é, na convicção do último, ele próprio. Para justificar essa convicção, Lopes invoca a sua larga experiência governativa de três meses e, acima de tudo, «ter conhecimentos lá dentro». Ele diz conhecer os dossiês, que é como quem diz, tratá-los por «tu». Eu percebo que esta coisa da rede de contactos represente uma tábua de salvação para políticos como o Sr. Lopes. Mas, como ele bem sabe, a prática do regime tem sido a substituição de boys por outros boys, sendo certo que esses tais «dossiês» estão provavelmente a gerir uma empresa pública ou outra coisa do género. Isto de se chegar a primeiro-ministro tem muitos «ques» e «ses»...

29 de maio de 2008

Um prova de maturidade democrática

Na terceira sessão de discussão pública do Estudo de Enquadramento Estratégico do Centro Histórico de Évora, promovido pelo Grupo Pró Évora, foi convidado Fernando Nunes da Silva do Instituto Superior Técnico. Para além do forte contributo técnico e da desconstrução séria e pragmática ao documento, Nunes da Silva insistiu na clarificação política sobre o que se pretende para a cidade. Algo a que já tínhamos feito referência em post anterior. A orientação é política, as alternativas de intervenção pertencem ao for técnico e as decisões são políticas. Estes campos não são herméticos mas convém não os confundir.

Muito bem, o presidente da câmara municipal, José Ernesto de Oliveira, concluiu o debate com informações preciosas que nem o administrador da SRU, Jorge Pires, nem os responsáveis da Parque Expo, puderam fornecer. Também porque não lhes competia. O enquadramento desta hipótese de intervenção no plano de urbanização e nos planos de pormenor é fundamental para compreender uma visão de cidade. As estratégias não se fazem sem objectivos, independentemente dos modelos.

Compreendemos e concordamos com a urgência desta intervenção. Pelos motivos invocados: a necessidade de revitalizar o centro histórico e o timming dos fundos comunitários previstos no Quadro de Referência Estratégica Nacional. O executivo deu um sinal claro de abertura e, com certeza, terá todo o interesse em coligir o máximo destas sessões no sentido de limar os bicos encontrados.

Porém, também nos parece que a clarificação política que ontem o presidente da câmara realizou deveria ter acontecido antes da primeira sessão destes debates. Peca por tardia. Os debates teriam sido [ainda] mais ricos e objectivos. Por várias vezes tive a sensação que as pessoas estavam a comunicar em linguagens diametralmente opostas.

Continuo sem compreender qual o objectivo em termos de mobilidade e quais as formas para o atingir. Neste plano, a proposta é ambivalente. Em concordância com o Prof. Nunes da Silva, dá a sensação que, nesta matéria, elaborou-se um estudo do género catch all sceneries. Em política e na vida real, sabemos que não pode ser [sempre] assim. Discutíveis ou não, as opções políticas estão legitimadas pelo voto popular.

Pessoalmente, gostei muito de ver pessoas de matrizes ideológicas e profissionais distintas a discutir seriamente o futuro da cidade. Uma prova inequívoca que Évora é muito mais do que uma cidade património mundial transformada de tempos a tempos em campo de batalha partidário. São extremamente enriquecedores os contributos empíricos, ideológicos e cognitivos que aquelas pessoas desencadearam. Quem me dera a mim que pudesse ser assim todos os dias no meu trabalho e até, nos meus tempos livres.

É pela falta dessa interacção que se fazem e dizem asneiras irreflectidas. É esse um dos princípios da morte lenta e do acabrunhamento intelectual. Neste aspecto, infelizmente, sou juiz em causa própria.

24 de maio de 2008

Ideologias de meia tigela

Há motivos mais do que suficientes para que Santana Lopes descole na corrida à liderança do PSD, agora que este apelidou José Pinto de Sousa [eng.º em part-time], de «socialista de meia-tijela». Esta velada desconfiança quanto ao socialismo do primeiro-ministro pode significar uma radical alteração no rumo daquela competição interna e reunificar o PSD sob a mesma bandeira: todos contra o socialismo de meia tigela do eng.º.

Santana Lopes, com a minúcia do costume, atreveu-se novamente a colocar o seu dedo sujo na ferida dos outros. É um combatente infatigável, recordemos. E, fê-lo, ao eleger para o topo da sua agenda política uma ancestral discussão sobre a ontologia da tigela e dos decilitros que cada uma é capaz de albergar. Muito inteligente.

Porém, sem surpresas e para desilusão do candidato à liderança laranja, não há nem pode haver socialismo de meia tigela. Ou se é socialista de tigela inteira ou se é outra coisa qualquer. A tigela vazia é indício de que a coisa é saborosa. Bom, mas como em tudo, há excepções. A Zita, por exemplo, uma verdadeira comunista-liberal, de tigela… duplamente compartimentada, se quisermos… cheia dos dois lados...

Eu gosto da tigela do Pedro [Santana Lopes] e da sopa de letras que quase transbordam para a tigela do Paulo [Portas]. Também gosto da tigela do Jerónimo [Sousa], reforçada com taipais. Agora… quanto à tigela do eng.º. José Pinto de Sousa, creio que talvez o Pedro se tenha excedido…

Pode parecer mesquinho mas… dizer que um homem tem a tigela meia de qualquer coisa ideológica, não se compadece com os tempos de hoje em que se respira ideologia política em cada esquina. A começar pelo Pedro, homem profundamente obstinado com os valores e princípios liberais. Que o digam as esposas de alguns desonrados.
Bom, em todo o caso, há-os de todas as cores e, por vezes, até sabem que o cravo «é tipo, o símbolo», e a «direita é a dos ricos». Mas isso, depende da curvatura forjada pelo aconchego entre o corpo e as cuecas.

21 de maio de 2008

Estamos todos convocados... para pagar as indemnizações de José Pinto de Sousa

Depois do primeiro-ministro ter pedido desculpas ao país por ter fumado um par de cigarros no avião com destino à Venezuela para um rendez-vous com o seu bom amigo Hugo Chavez, era expectável que bastasse o mesmo redentor pedido de desculpas ao repórter José António Cerejo para [nos poupar, ao povo] uma onerosa multa. Mas não. Vai, que é como quem diz, vamos, ter que pagar 10 000 euros de indemnização ao jornalista, por apenas lhe ter chamado leviano, incompetente, louco e corrupto. Provavelmente os mais daninhos palavrões que se conhecem ao primeiro-ministro, fora da intimidade.
Isto porque, no linguajar escancarado de Alberto João da Madeira, aqueles opróbrios figuram entre o seu mais macio e cortês vocabulário. Mas a lei, daqui vai no Diário da República, é processada na Madeira e regressa ao continente sob a forma de bananas tortas para endireitar.