Confesso que desconheço os fundamentos que levam algumas pessoas a questionar a democracia e a postular um outro regime político que, presumo, seja inaudito (porque aqueles com que temos sido historicamente brindados... vou ali e já venho...). Esta minha ignorância assenta numa dúvida crucial: a que regime «democrático» se referem essas pessoas?
Aos regimes tirânicos como o Zimbabwe ou Coreia do Norte, centrados na figura incontestável do chefe e numa hedionda máquina de repressão?
Aos regimes oligárquicos e totalitários como Cuba ou China, cuja pluralidade é registada na unidade do único partido admissível e a autoridade é conquistada por uma máquina de repressão eficaz?
Aos regimes oligárquicos e pró-totalitários como Angola ou Rússia, cuja pluralidade é garantida na unidade do único partido em condições de disputar eleições e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes cujas cúpulas são dominadas por estruturas de clãs como a India ou Paquistão e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes cuja ideologia dominante esgota quaisquer alternativas, como Israel ou os EUA e a autoridade é conquistada pela repressão económica?
Aos regimes work-in-progress dos países ocidentais, incomomodamente apanhados entre o ser e o dever-ser e a autoridade é conquistada pelo conforto?
É que, todos sem excepção, utilizam o termo democracia para designar as respectivas estruturas políticas. Talvez porque, em cada um deles, o povo é distintamente personificado, seja numa pessoa, num grupo de pessoas ou numa sociedade.
Por cá, parece-me que o conceito de povo, ainda assim, abarca uma maioria considerável da população: aquela que sobrevive acima do limiar da pobreza. Em contrapartida, no Zimbabwe e na Coreia do Norte, o conceito de povo é capaz de incluir 0,5% da população.