No dia em que se comemora a restauração da independência nacional ocorrida em 1640, é hábito do pretendente ao trono português, vago desde 1910, comunicar qualquer coisita ao povo. Nessa condição, D. Duarte de Bragança trata de legitimar a sua causa, enumerando a incontável série de virtudes da monarquia e lamentando os erros crassos da nossa história recente. Nada de novo.
Uma das novidades diz respeito à sua singular capacidade para estabelecer consensos e pontes entre os povos. De acordo com a sua complexa teia de parentesco, simultaneamente agnática e uterina, o homem diz-se descendente de Maomé (pela rainha Santa Isabel) e de David (pelo rei Afonso Henriques) conforme viaje para a Arábia Saudita ou para Israel. Isso traz-lhe óbvios benefícios, já para não falar da magnífica sala de troféus. Nesse campo, o ascendente monárquico é evidente pois não acredito que os presidentes da república tragam das suas viagens muito mais do que os tradicionais sapos.
Além disso, o facto de nunca se ter sujeitado a ser empregado de alguém, alega, é um garante de independência e liberdade de pensamento. Felizmente para ele porque, para a maioria, é uma garantia de definhamento, fome e exclusão social.
Mas, o mais sensacional é, naquela apologia frenética que faz ao feudalismo de subsistência pontificado por uma figura tutelar – o Rei – D. Duarte de Bragança coloca a causa monárquica e o PCP no mesmo patamar de patriotismo.
Um peculiar patriotismo pois, se o PCP é uma peça da engrenagem internacional que visa a adopção do comunismo sem fronteiras, a causa monárquica não prescinde daquela exogamia estratégica que sempre serviu para fortalecer casas reais e que, ele próprio confirma quando admite que as famílias reais existentes no mundo são "uma grande família".
Essa exogamia de pendor internacional é a mesma a que os judeus se sujeitaram durante séculos (por motivos ligeiramente diferentes) e que, com o advento do Estado-nação, foi particularmente posta em evidência: sem nação, os judeus só podiam ter como pátria a sua própria condição social e religiosa, à qual deveriam simultaneamente «enfatizar e renunciar» (Hannah Arendt).
Ora, famílias que sempre misturaram sangue em prol de vantagens políticas, refinações genéticas e sociais, gerando estruturas de consanguinidade exóticas, não deveriam resignar-se a reclamar uma pátria específica que coincida com uma só nação. A pátria do insigne pretendente é muito mais do que Portugal e pouco menos do que o Mundo. Portugal é apenas o pedaço de território onde o homem nasceu. Afinal, não são "uma grande família"?








