29 de janeiro de 2009

Saberes e poderes nos hospitais

A ministra da saúde, Ana Jorge, acusou que o problema dos hospitais é de organização. E os responsáveis são os administradores e os chefes de serviço. Contudo, parece que o problema partilha raízes mais antigas, do tempo em que o director do hospital não respondia perante um concelho de administração. Sem desresponsabilizar os pretensos agentes de que a ministra fala, parte do problema dá pelo nome de cultura organizacional. Conjunto de valores, normas e crenças específicas desenvolvidas e próprias dos hospitais. Com as respectivas relações de poder, tão estudadas em Portugal por Graça Carapinheiro. Saberes e poderes nos hospitais...

Pois bem, os agentes habituaram-se a reproduzir e transmitir determinados padrões culturais. Os hospitais cresceram, transformaram-se. As sociedades também sofreram transformações, assim como o próprio modelo economicista da gestão dos governos, complacente com a perfídia de manter um Serviço Nacional de Saúde de importância «dispensável» mas coexistente com um sector privado parasita.

26 de janeiro de 2009

Uma maqueta para o futuro

No sábado à noite, perguntei-me várias vezes de onde saíram tantos «putos». O concerto Vodafone dos Buraka Som Sistema na Arena d’Évora veio relançar uma questão fundamental: O que tem Évora para oferecer aos adolescentes? O que tem Évora para oferecer ao futuro? Eram aos magotes, faziam filas medonhas e depois do concerto, tinham três cenários: regressar a casa, andar para trás e para a frente no circuito das arcadas ou rumar a um dos bares cuja oferta se resume à venda de álcool.

Este é um problema que vem de trás, muito de trás.

Em primeiro lugar, é próprio dos adolescentes não frequentarem os espaços dos adultos. Portanto, aquilo que vale para uns não vale para outros. Em segundo lugar, os adolescentes não se contentam, legitimamente, com os divertimentos serôdios que nos ocupavam a nós e que se resumiam a umas festas e a saídas à noite com destino marcado. Isto não quer dizer que, hoje, as coisas sejam muito diferentes. Acontece que, há vinte anos atrás, o grande pólo de referência em termos de oferta era a área metropolitana de Lisboa. E um fosso abria-se entre aquela enorme mancha de luzes e o resto do país, só iluminado pontualmente aqui e ali. Hoje as coisas são diferentes.

Não chega haver espaços de diversão nocturna, geridos por empresários (nalguns casos pouco conscienciosos) ou por associações culturais pouco dadas a cultura de massas.

Na verdade, Évora nunca se preocupou muito com as gerações vindouras. Em parte, porque tem vivido obcecada pelo passado. Um passado glorioso, é certo, mas que se esvanece irremediavelmente se não for integrado numa estratégia em que o futuro se assuma como o capitão de um navio. E o futuro são estes «putos». Podemos gizar projectos magníficos, extraordinárias intenções e concretizar obras de vulto. Mas se não for a pensar neles, de que servem? Não basta projectar um futuro e dar-lhe a dignidade de uma maqueta. É preciso que as pessoas estejam no centro da maqueta e a mesma se desenvolva a partir delas.

Não há espaços de referência juvenil.

Refiro-me a estúdios e laboratórios de projectos nos quais esses jovens possam treinar competências profissionais, sociais e pessoais. Conheço alguém que esteve numa entrevista em Julho na CME para trabalhar na área do associativismo e juventude. Entre outras coisas, propôs um projecto de voluntariado jovem que treine competências, estimule a responsabilização e ajude a preparar os jovens para os desafios que lhes colocará a vida. Com as devidas contrapartidas. Por coincidência ou não, em Outubro surge o projecto V Jovem com características semelhantes, promovido pela autarquia. Não tendo sido coincidência, é de saudar a predisposição dos responsáveis para acolher novas ideias e, sobretudo, demonstra que as pessoas têm vontade de fazer. Tendo sido coincidência, é de lamentar a falta de atenção ou a ausência de um motor de arranque porque, na verdade, são ideias antigas e amplamente trabalhadas noutros locais.

Estou-me a referir também a espaços de sociabilidade, onde estes jovens possam desenvolver as imprescindíveis interacções que dão sentido à sua existência. É razoável pensar em tirar a consola da Playstation ou o comando da TV da mão dos miúdos e mandá-los vagabundear pela cidade ao fim-de-semana? Fazer o quê? Ir ao café? Ir à bola? Ver as montras? Dir-me-ão o seguinte: «ao fim-de-semana é para estudar». E eu respondo em coro com eles: «pois, também é»…

21 de janeiro de 2009

Jaime Isidoro 1924/2009


Sem Título, 2005, acrílico sobre tela (Jaime Isidoro)



As francesinhas tardias no "Snoopy" deram lugar à aguardente velha posta gentilmente na mesa pelo proprietário, um orgulhoso filho e amante do Pinhão. No dizer do homem, «uma das maravilhas do mundo». Para o provar, lançou mão de uma revista e lá estavam as fabulosas imagens daquelas escadarias vinícolas que se precipitam sobre o Douro. Poderia alguém desencantar prova mais esclarecedora e definitiva? Não! Pelo menos... não àquela hora, num simples restaurante da Avenida da Boavista, para lá das horas de fecho.


Se a garrafa viera, fizemos questão que com ela se sentassem os seus acompanhantes: o que comia e o que servia. Juntos à mesma mesa. Fosse pelo seu ritmo de vida, fosse pelo prazer da noite, o desconhecido que comia fazia-o no contra-ciclo da clientela normal. E deitava um olhar fugaz mas atento e ávido de contacto.

- Obrigado pela gentileza mas agora têm que se sentar connosco. Convidámos. Os dois homens aceitaram e depressa confirmámos que a deles era uma relação que ultrapassava a vulgar esfera comercial. Eram amigos. A minha suspeita foi confirmada mais tarde, quando o homem do Pinhão nos disse que lhe não cobra nada pelas refeições; ao outro, o que comia. A coisa ficava paga com umas pinturas oferecidas das quais, o que servia, dizia jamais se via a desfazer. Como se ali tivesse uma autêntica relíquia. Tê-la-á, certamente.

- Jaime Isidoro? Peço mil desculpas mas, de facto, somos uns verdadeiros ignorantes. Respondi embaraçado, quando o que servia tratava de apresentar convenientemente o que já não comia mas beberricava a sua aguardente, agora, com o do Pinhão e na companhia do casal de «mouros» desconhecedores de tanta coisa.

Foi assim que permanecemos sentados no “Snoopy” até às 3 da manhã, percorrendo décadas na vida intensa de um homem simples, extraordinariamente espirituoso e de uma sensibilidade aguçada. Particularmente tocante quando se referiu à companheira de sempre: a das letras.

Depois das despedidas e das incontornáveis promessas de visita, muito para lá da porta da rua, ouvimos um surdo mas inconfundível apelo, proveniente da penumbra. Olhámos para trás. Era o amigo Jaime que nos chamava. Saltitava desajeitadamente na nossa direcção, convidando a conhecer a sua galeria, situada a alguns metros de distância do “Snoopy”. Conhecemos, enfim, mais alguns retalhos da sua vida e, por que não, do percurso recente das artes plásticas em Portugal. Ficámos a saber como a idade e a experiência lhe trouxeram a autoridade suficiente para sintetizar tanto num só traço ou, simplesmente, numa mancha de tinta arremessada contra a tela.

Dele, guardamos a amizade. E um grande privilégio por o ter tido como mestre, ainda que, por apenas um par de horas. As suficientes para lhe dedicar este texto.

...Saiu do sonho de King

Ontem, enquanto um era vaiado e a sua saída era objecto de descompressão um pouco por todo o mundo, o outro tremelicava ironicamente a fazer aquilo que o mesmo mundo se habituou a reconhecer: discursar.
Mas, numa época por vezes atenta em demasia aos pormenores mais superficiais, não houve melindre e desculpa-se o nervoso de Barack Obama no momento do juramento porque as expectativas são grandes e porque é sangue novo. Talvez as expectativas sejam insustentavelmente altas para uma boa parte do mundo que ontem exultou, imaginando que um homem sozinho tem poderes para acabar com a pobreza e a injustiça praticada pelos seus próprios governantes. E teria, se o cinismo, a hipocrisia e a ganância não integrassem a natureza humana. Nada que o povo desse mundo não saiba. Mas, de algum modo, Obama deu-lhe esperança.

À pergunta de José Saramago no seu caderno virtual "donde saiu este homem?", talvez possamos responder que saiu de um sonho, do sonho de Martin Luther King, contado em 28 de Agosto de 1963, também em Washington.

Contudo, ou não terá a vida fácil domesticamente ou, depressa aprenderá que os discursos fluidos invocando os valores e os princípios só devem ser proferidos entre amigos. Os próximos anos permitirão perceber se o engasganço de ontem veio ou não para ficar.

19 de janeiro de 2009

Asilo político?!

O jornalista iraquiano que atirou desajeitadamente um par de sapatos ao presidente Bush, pretendendo assim manifestar o seu regozijo e expressar as boas-vindas ao visitante, requereu agora asilo político à Suíça. Não se compreende muito bem a razão desta escolha, já que o país helvético não é propriamente conhecido pela sua indústria de calçado, ao contrário de Portugal.

O cenário mais provável é que, com excepção das teocracias islâmicas, nenhum país esteja disposto a receber este jornalista iraquiano porque, como é do domínio público, a invasão americana do Iraque veio libertar o oprimido povo que, agora, vive livre e em democracia. Assim, não faz sentido que alguém se possa queixar de perseguição política. E não é disso que se trata porque, evidentemente, se alguém se pode queixar de perseguição política, esse alguém é justamente o presidente Bush que ainda hoje se interroga como se conseguiu esquivar. Embora o o sapato esquerdo não tenha passado muito longe...

Em contrapartida, o 44º presidente dos EUA tomará posse no dia 20 em clima de grande festa mundial, cujo epicentro ocorre precisamente um dia antes e assinala o derradeiro dia de George W. Bush, o pior da galeria, à frente da Casa Branca.

Bem vistas as coisas, seria útil para os cartoonistas e humoristas do mundo, se a República Independente do Atol da Mururoa concedesse asilo político ao jornalista e a Bush numa ilha deserta, inteiramente reservada para os dois. Portugal podia entrar com um par de sapatos. Para dividir… que a crise não está para luxos…

14 de janeiro de 2009

A diferença, está no chocalho...

D. José Policarpo foi certamente mal interpretado numa questão em que, claramente, ressalta o sábio conselho de um homem vivido e experimentado, às castas ovelhinhas do rebanho, ainda sem chocalho. O problema central reside, efectivamente, na natureza da explicação metafísica professada pelo sujeito proprietário do chocalho e, por sua vez, dono da ovelha. Além disso, claro - e este é um fortíssimo argumento que não deixaria nenhum pai descansado - que poderão elas esperar de pastores que, em vez de «trabalhar», se põem de cu para o ar à espera de sei lá o quê? E rezam com os pés, caso contrário, não os lavariam antes de ir lá para as missas deles.

13 de janeiro de 2009

As origens...

Para ler com atenção, particularmente nos dias que correm, "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt. Pode ser muito útil para quem pretenda montar negócio ou desfazer-se de um amigo. As coisas não são fáceis porque ninguém aparenta preocupar-se com as causas.

4 de janeiro de 2009

Ano novo, vida nova...

Bem sei que venho atrasado alguns dias mas isso não é nada, comparado com o atraso que tomei na abertura da garrafa de espumante. Já os foguetes se tinham esfumado por trás da cortina de névoa que desceu sobre a cidade e ainda a rolha não tinha explodido. Nem as desagradáveis passas. Por nada em especial. Apenas para ser diferente ou, talvez, porque a noite era apenas mais uma e pretendia-se muito descontraída. De tal forma descontraída que não houve ameaças de vizinhos, garrafas partidas, vómitos nem tentativas de suicídio. Prometo que me vou esforçar muito para que a vida seja mesmo nova. Num certo sentido, já iniciei esses trabalhos embora não creia que sejam tantos quanto os que Hércules se viu obrigado a cumprir. Porém, os meus são certamente mais difíceis porque ele é que é filho de deuses…

Bom ano.

27 de dezembro de 2008

Falta de originalidade?

«Yes we can» foi talvez o slogan político mais badalado no último ano. A sua mediatização e a carga simbólica que carrega são de tal ordem intensas que nem mesmo Jerónimo de Sousa foi capaz de lhe resistir. Naturalmente, a adopção deste discurso destemido e idealista pelo líder comunista não terá correspondência ideológica com o discurso original de Barack Obama. Mas fica a colagem, não pelo conteúdo mas sim pela forma, indicadora do desejo de mudança. Com a ligeira diferença dos níveis de ambição política, os quais são imensos num e noutro caso: o negro e inexperiente político protagoniza autenticamente o guião de um filme de Hollywood, vencendo tudo e todos mas… seria este desfecho possível se, além daqueles hadicaps, sofresse também do estigma comunista? Bom, de qualquer modo, é a América e não Portugal, a terra da oportunidade…

19 de dezembro de 2008

Estatuto Político Administrativo dos Açores

A confirmação da intentona em que consiste a aprovação do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, vem dar continuidade ao esvaziamento dos poderes presidenciais e, consequentemente, ao empobrecimento das suas competências de fiscalização. Apesar de autónoma, a região dos Açores continua a ser território português e é bom não confundir a figura das regiões com a das autarquias locais, antes de mais porque as primeiras têm competências legislativas.

O problema da centralização de poderes nem sequer se pode colocar porque, para além do presidente da república jamais ter usado o expediente de dissolução da Assembleia Regional, não faz grande sentido que tenha essa prerrogativa relativamente ao órgão legislativo mais importante do país – a Assembleia da República – e não disponha da mesma para dissolver um órgão de menor importância na hierarquia do Estado português.

Se o problema da centralização diz respeito à figura do presidente, então que o transformem num titular chief, cujas únicas competências passem a ser a representação do país em actos oficiais. E receber amigos exóticos no Palácio de Belém.

Não me parece que o problema da centralização dos poderes esteja nestas prerrogativas presidenciais. A dimensão mais nociva da centralização vem, em primeiro lugar, da própria organização do Estado português, no seu relacionamento paternalista com as autarquias locais.
Talvez mais importante do que este Estatuto Político Administrativo dos Açores será sem dúvida a verdadeira descentralização do Estado operada através da Regionalização e da criação de estruturas de poder intermédio. E, também, a reorganização político-administrativa das autarquias locais: há demasiadas freguesias e municípios, cujas respectivas afectações sócio-territoriais são, em muitos casos, inconsequentes, dispendiosas e ineficazes.

Finalmente, talvez seja bom recordar que um dos casos mais graves de centralização e abuso de poder vem, efectivamente, da Madeira. Com a patética condescendência de todos.

18 de dezembro de 2008

Superioridade moral

Ontem recebi uma comunicação do BPI na qual se informava os clientes que, a partir de Janeiro o banco passará a cobrar 4 euros acrescidos de 4% de imposto de selo por cada dia em que as contas à ordem permaneçam com saldo negativo.

A curiosidade não é a normal voragem, ainda que em tempos de aperto para a maioria dos clientes; nem a ameaça da pesada «coima» que sobre eles esvoaça sombriamente.

Aqui, a curiosidade tem que ver com o facto do sistema que reivindica dos seus clientes uma conduta em conformidade com o princípio da responsabilização individual é o mesmo sistema que parasitou durante anos esses clientes, estimulando descaradamente uma conduta em desconformidade com o princípio da responsabilização individual, retirando dessa conduta amplos lucros. Ou seja, em altura de aperto, o BPI – tal como todos os outros bancos – vem agora arrogar-se de uma superioridade moral que, devo dizê-lo, mete algum nojo.

Já que estamos em maré de curiosidades, a superioridade moral desta corja é afiançada pela venda de 10% do capital do BPI pelo BCP à filha do déspota angolano José Eduardo dos Santos. Portanto, neste momento, o BPI passa a ter também capital manchado de fome, corrupção, violência e tirania.

Em matéria de superioridade moral, estamos conversados.

16 de dezembro de 2008

Depois da tempestade, a bonança...

A promessa de encaixar 50 milhões de euros para as contas públicas à custa da presunção de informação dos cidadãos não era, afinal, um simples golpe baixo. A verdadeira golpada foi dada agora, com o inocente e solidário recuo das finanças para com os cerca de 50 mil contribuintes apanhados com as mãos nas calças.
A coisa tem contornos bem mais soturnos do que inicialmente se supunha. Porque é realizada em dois momentos: a tempestade e a bonança. Tudo isto, em época natalícia, para não cair no esquecimento. Num primeiro momento, surge a ameaça das notificações das finanças com o intuito de debicar nos depauperados bolsos da maioria dos visados, na sequência da, também, presunção de eficiência comunicacional do Estado*; e, na sequência de um procedimento eivado de má-fé: a acumulação de dois anos para começar a notificar os contribuintes. No segundo momento, a bonança trazida por um ministério que, afinal, é sensível às dificuldades dos contribuintes. Esta será, certamente, uma das acções com vista a contrabalançar as perdas de votos dos professores em 2009.

O carácter maquiavélico do segundo momento só seria expurgado se o ministério das finanças reconhecesse, pelo menos, o erro de não ter notificado os contribuintes imediatamente após a recepção da declaração de 2006. E se desse mostras de representar os interesses do Estado, logo, das pessoas que o integram. Não o fazendo, reconhece a má-fé da sua actuação.


* A comunicação do Estado acerca de alterações normativas ou regulamentares resume-se normalmente à publicação em Diário da República e site da DGCI, cuja orientação para os mais mobilizados, qualificados e curiosos faz destes recursos, instrumentos de dilatação da assimetria e exclusão. A respeito disto, ainda hoje foi publicado um estudo relativo à utilização das novas tecnologias pelos portugueses. O cenário é paupérrimo.

15 de dezembro de 2008

Confirma-se, o andebol iraquiano é fraco

Adorado nos quatro cantos do mundo, o enciclopédico presidente Bush assistiu a um congresso de andebol no distante Iraque. Os responsáveis da Federação Iraquiana de Andebol reservaram-lhe uma emocionante surpresa mas nem assim conseguiram convencer George Bush a interceder por eles junto da IHF (International Handball Federation).

12 de dezembro de 2008

O regresso do Estado?

Os senadores republicados inviabilizaram o acordo de ajuda aos construtores automóveis americanos, proposto pelos democratas. Nisto, pelo menos, são coerentes com os princípios do liberalismo económico: os mercados ajustam-se por si próprios sem a necessidade de intervenção pública. «Se o sector foi mal gerido, então que dê o tombo». Claro que os danos sociais imediatos são relativizados ou, no limite, completamente ignorados. São cerca de 2,2 milhões de postos de trabalho que estão em jogo. Se os estados não viabilizarem estas empresas, garantem que os gestores sejam responsabilizados. Isso é justo. Mas os prejuízos sociais e económicos serão imprevisíveis.

Há, por outro lado, uma animosidade popular muitas vezes associada à esquerda que não compreendo inteiramente porque, do ponto de vista ideológico, o «regresso do Estado» representa justamente os princípios marxistas herdados pela social-democracia (socialismo em Portugal) e pelo comunismo. Ainda que esse regresso seja feito em pezinhos de lã. Deviam, sobretudo, participar no reforço do poder de regulação do Estado que não passa unicamente pela «salvação» de empresas; mas também.

Seja como for, perante uma crise económica desta magnitude, não se pode proteger os direitos dos trabalhadores deixando cair os postos de trabalho criados pelas empresas. Não vejo como. Aplica-se o valor que custou a nacionalização do BPN em subsídios de desemprego que não criam riqueza? É essa a alternativa?

10 de dezembro de 2008

Uma promessa por cumprir

A Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) comemora hoje 60 anos. A lista dos abusos e do total desrespeito pelos direitos humanos continua tão extensa quanto em 1948. Seria penoso, para si e para mim, discriminá-la. Mas, dar-nos-íamos por satisfeitos se, pelo menos, a DUDH fosse respeitada nos países que deram à luz o ideário iluminista que lhe está na origem. Pelo menos, nas pessoas humanas.

Mas os progressos terão sido alguns. Há precisamente um ano, quando Kadhafy esteve acampado em Portugal por ocasião da Cimeira UE-África, o seu staff fez publicar, entre outras coisas numa página inteira do jornal Público, a seguinte frase enigmática: «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado na morte colectiva».

Espero, francamente, que toda esta abnegação esteja a dar resultados e que não se exagere no uso da metralhadora quando há necessidade de fazer umas limpezas colectivas. Certamente que os gajos no Darfur seguiram o apelo deste bom homem.

Hoje comemora-se o quê?!
Anexo: DUDH

A EPRAL distribuiu diplomas na Universidade de Évora

Tempos houve em que representantes do governo só apareciam no Alentejo quando se tratava de inaugurar «grandes» obras públicas para impressionar os gentios. Agora, desmultiplicam-se e até aparecem em eventos aparentemente mundanos. Mundanos, tendo em conta o contexto de animosidade em que se movem alguns dos intervenientes, nomeadamente num sector que está a ferro e fogo. Porque a pompa o exige, a cerimónia de entrega de diplomas da EPRAL, não só ocorreu no auditório da Universidade de Évora - talvez prenunciando um bom entendimento na fluidez do mercado educativo - como contou com a presença do Secretário de Estado da Educação, do Director Regional de Educação do Alentejo e da Governadora Civil de Évora que, coincidentemente, é também proprietária da escola profissional.
Segundo consta, os diplomas destinaram-se unicamente a alunos da EPRAL.

9 de dezembro de 2008

Afinal, temos recessão!

Titubeante e fiel à verdadeira imagem que a sua extemporaneidade revelou aos contribuintes portugueses, o Governador do Banco de Portugal veio dar o dito pelo não dito para desdizer o que não disse mas podia ter dito se as coisas não lhe corressem sempre ao contrário do que a sua natural predisposição para a letargia lhe aconselha. Há quem diga que isto pode acontecer a partir de uma certa idade. Com o ordenado e os carinhos que o Estado dá ao titular do cargo, não admira que a fila de pretendentes tolos e incapazes se adense.

Coacção legítima dos Estados

A aceitação da legitimidade do Estado em deter o monopólio dos instrumentos de coacção está associada ao reconhecimento de instituições que regulem as relações entre os cidadãos e rejeitem o livre arbítrio. Tendencialmente autónomas (da separação de poderes de Montesquieu), estas instituições/poderes nacionais são o garante de direitos e garantias dos cidadãos, consagrados constitucionalmente.

Amanhã comemora-se o sexagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH). Naturalmente que a DUDH é subsidiária do espírito emergente dos ideais iluministas, cujos primeiros exemplos serão certamente as constituições dos EUA (1787) e de França (1791).

Estes ideais estão na base da construção do Estado Moderno e foram vertidos para a Lei Internacional que rege as relações entre os povos. Embora não fosse universal, no sentido da aplicabilidade, a DUDH passou a ser universal enquanto desiderato a atingir. Foi subscrita e conservada por países como o Zimbabué, antes e depois da descolonização.

Para que a Lei Internacional fosse observada e os direitos dos povos garantidos, foi igualmente vertida para a ONU a figura da coacção legítima, neste caso, alimentada pelos Estados.

A meu ver, a ingerência nos assuntos dos Estados nacionais termina quando o povo de um país não encontra outra coisa no Estado senão repressão e a não satisfação de necessidades primárias se deve à acção directa e voluntária dos governantes.

8 de dezembro de 2008

Onde pára a ERC?

Para que fique bem claro, centenas de pessoas estiveram no funeral do mestre do barco que naufragou na Galiza. Independentemente das razões que levam centenas de pessoas ao funeral de alguém, o editor do Público online deve ter sido acometido por uma estupenda cólica mental.

Nem o neo-imperialismo vale àqueles desgraçados

Enquanto os líderes ocidentais pedem gentilmente que o déspota Mugabe se demita, à laia dos regimes democráticos, o povo zimbabueano continua a definhar às cruéis mãos de um regime totalitário. Esperar que o animal se demita é menos exequível do que ensinar um porco a falar. Repor a dignidade do povo que oprime é tarefa utópica.
Mas, distantes, os líderes ocidentais cumprem a mesma hipocrisia e indiferença com que lidaram com os regimes totalitários emergentes na Europa no início do século XX. Com uma agravante: não há já, no Zimbabue, nada que seja interessante defender. Só, talvez, eventualmente, a dignidade humana. Isto, claro, se esse conceito for extensível a nações cultural e geneticamente «inferiores».

5 de dezembro de 2008

Manuel João Varela 1913-2008

Sempre o conheci assim. Chapéu de feltro na cabeça, roupas escuras, motivadas por um luto dilacerante por resolver. O luto pelo mais novo de três irmãos que experimentaram a atrocidade das picadas africanas. Luto que só foi «resolvido» há cerca de quatro anos quando o caixão de chumbo foi exumado e se confirmou que a placa com o nome correspondia ao ocupante. Bastou o olhar emocionado de um pai para reconhecer o seu filho.

Sempre foi assim. Homem bondoso e sensato, portador daquela dignidade só reconhecível nos grandes. Desde os tempos do Monte Airoso em que, rapazola, se aventurava por aqueles cabeços, até à Rua da Parreira.

Quando a minha avó desistiu, depois de alguns anos em luta contra a solidão de Alzheimer, chorei. Chorei, impressionado por vê-lo chorar ao meu lado, inconsolável, enquanto assistia à deposição do corpo. Com um desconsolo talvez parecido ao meu, alguns dias mais tarde. Mas impediu-me de chorar, chorando ele em vez de mim, talvez querendo carregar com tudo quanto havia para carregar.

Sempre me habituei a ouvir palavras de estima e grande carinho sobre aquele velho afável. De desconhecidos. Não há muito tempo, fui abordado aqui em Évora por um cigano oriundo de Portel. Perguntou pelo meu avô e despediu-se batendo com a mão no peito. Depois dele, recebi o contacto da irmã. Falou-me da minha família. Transmiti esse orgulho ao meu pai e dei-lhe um abraço.

Hoje, o patriarca partiu. Os meus valores não são outros que os teus. Resta-me o teu filho mais velho, quiçá o melhor depositário do teu legado.

4 de dezembro de 2008

à tout propos (310)

Não querendo ser mordaz, sarcástico ou demolidor, uma das coisas menos agradáveis que se pode dizer a um artista é: «já vi coisas piores».

3 de dezembro de 2008

Ajuda ao sistema financeiro

à tout propos (309)

Oportuno, o imbecil que habitou a Casa Branca durante oito anos julga que será indultado pela História por imputar as responsabilidades pela invasão do Iraque aos seus próprios serviços secretos.

2 de dezembro de 2008

Fare il portoghese

Um dos grandes enigmas da confiança refere-se aos que, não confiando em si próprios, confiam nos outros. Ou seja, atribuem aos outros, qualidades que não identificam em si próprios enquanto grupo ou indivíduo.

Por vezes, aspectos desse enigma podem revelar-se falaciosos. Há uma expressão italiana usada para classificar algumas classes de burlas, como o clássico «entrar à borla», oportunamente invocado por um transeunte alegadamente habitué de In Tenui Labor e, ainda mais preocupante, masoquista sem rumo. A expressão fare il portoghese nasceu quando, na sequência de uma embaixada enviada por D. João V a Roma com o fito de exibir as conquistas africanas ao Papa Clemente XI, os romanos se fizerem passar por portugueses para poder aceder a eventos reservados aos lusos.

No decorrer dos séculos, esta expressão foi adquirindo contornos pejorativos que, gradualmente, se foram colando à idiossincrasia portuguesa. Hoje, o italiano médio terá exorcizado totalmente essa conduta condenável da sua própria história, contribuindo para reforçar a nossa tese do «chico-espertismo» lusitano.
Isto significa que, generosos, por vezes não só assumimos os nossos defeitos como também os dos outros.

Uma grande família

No dia em que se comemora a restauração da independência nacional ocorrida em 1640, é hábito do pretendente ao trono português, vago desde 1910, comunicar qualquer coisita ao povo. Nessa condição, D. Duarte de Bragança trata de legitimar a sua causa, enumerando a incontável série de virtudes da monarquia e lamentando os erros crassos da nossa história recente. Nada de novo.

Uma das novidades diz respeito à sua singular capacidade para estabelecer consensos e pontes entre os povos. De acordo com a sua complexa teia de parentesco, simultaneamente agnática e uterina, o homem diz-se descendente de Maomé (pela rainha Santa Isabel) e de David (pelo rei Afonso Henriques) conforme viaje para a Arábia Saudita ou para Israel. Isso traz-lhe óbvios benefícios, já para não falar da magnífica sala de troféus. Nesse campo, o ascendente monárquico é evidente pois não acredito que os presidentes da república tragam das suas viagens muito mais do que os tradicionais sapos.

Além disso, o facto de nunca se ter sujeitado a ser empregado de alguém, alega, é um garante de independência e liberdade de pensamento. Felizmente para ele porque, para a maioria, é uma garantia de definhamento, fome e exclusão social.

Mas, o mais sensacional é, naquela apologia frenética que faz ao feudalismo de subsistência pontificado por uma figura tutelar – o Rei – D. Duarte de Bragança coloca a causa monárquica e o PCP no mesmo patamar de patriotismo.

Um peculiar patriotismo pois, se o PCP é uma peça da engrenagem internacional que visa a adopção do comunismo sem fronteiras, a causa monárquica não prescinde daquela exogamia estratégica que sempre serviu para fortalecer casas reais e que, ele próprio confirma quando admite que as famílias reais existentes no mundo são "uma grande família".

Essa exogamia de pendor internacional é a mesma a que os judeus se sujeitaram durante séculos (por motivos ligeiramente diferentes) e que, com o advento do Estado-nação, foi particularmente posta em evidência: sem nação, os judeus só podiam ter como pátria a sua própria condição social e religiosa, à qual deveriam simultaneamente «enfatizar e renunciar» (Hannah Arendt).
Ora, famílias que sempre misturaram sangue em prol de vantagens políticas, refinações genéticas e sociais, gerando estruturas de consanguinidade exóticas, não deveriam resignar-se a reclamar uma pátria específica que coincida com uma só nação. A pátria do insigne pretendente é muito mais do que Portugal e pouco menos do que o Mundo. Portugal é apenas o pedaço de território onde o homem nasceu. Afinal, não são "uma grande família"?

28 de novembro de 2008

Desconfiança dos portugueses

Segundo o Inquérito Social Europeu, os portugueses estão entre os povos que menos confiam no próximo. Nem é estranho nem é apenas resultado de dinâmicas sociais que se caracterizam pelo aumento do individualismo, pela diminuição das relações face-a-face, pela implosão do núcleo familiar e pela degradação do Estado-nação.

Como é que se pode confiar em alguém, quando um simpático apresentador de televisão, um paternal director de instituição juvenil, um abnegado médico, um insuspeito diplomata, um justo advogado, um digno representante do povo e outros, são suspeitos de pedofilia?

27 de novembro de 2008

o sabor das coisas

Aos períodos de hipermania, sucediam-se outros de hipomania e assim sem termo, porque o termo das coisas era vulgarmente um estádio consagrado e outorgado heteronomamente. Logo, os inchaços e desinchaços sucediam-se com referência à doxa, o indexador da patologia. E... santo deus, como é saboroso o agridoce e coisa nenhuma a pairar nos céus com referência a nada. E agrilhoar-se em simultâneo ao sal e ao açúcar, sem os largar, sem os ultrapassar e sem os mesclar definitivamente.

Divagações sobre uma definição de cultura ii

Como é natural, há inúmeras definições de cultura, provenientes do mundo da filosofia, sociologia, antropologia, teologia, etc. Não interessa por agora estar a explorar essas definições. Estão nos livros nem me preocupei em retomá-los. Evidentemente, esta «divagação» não é satisfatória. Nem tem pretensões a sê-lo. É uma divagação tão lata quanto o Saara para um ocidental.

A cultura é contemporânea da satisfação de necessidades básicas. A utilização do sílex como utensílio de uso doméstico e de caça, por exemplo, representa uma inovação tecnológica com vista à satisfação de necessidades primárias de forma mais eficaz (um corte mais perfeito, uma melhor captura e com menos riscos para o caçador, quando o sílex foi acoplado a uma lança para arremesso). A utilização de cestos de verga na recolecção de alimentos, a adopção de peles de animais para combater o clima, etc., etc. Esta é, grosso modo, aquela parte da cultura que vulgarmente se designa «material».

Mas podemos admitir que, gerada pela natureza, a cultura opera entre outras coisas uma moldagem dos instintos humanos. Esta é a parte da cultura conhecida por «imaterial» e que implica um conjunto de referências, valores e normas sociais. O que é a obrigatoriedade de satisfazermos as nossas necessidades fisiológicas em determinados compartimentos específicos para o efeito, daí resultando uma clara repressão sobre a natureza? Como é bom de ver, é pouco ou nada razoável cagar fora do penico, sob pena de coacções, zombaria ou, pior, atribuição ortopedico-administrativa de uma condição psico-social pouco fascinante.

26 de novembro de 2008

Divagações sobre uma definição de cultura i

A cultura é aquilo que molda a natureza humana. A natureza humana em estado puro é instinto e obsessão pela satisfação de necessidades básicas de sobrevivência. Ou seja, ab origine, a cultura é aquilo que «escapou» à natureza, depois das necessidades básicas terem sido satisfeitas.

24 de novembro de 2008

O problema «corpo-mente»

Mãos cruzadas atrás das costas, pernas curtas atarracadas nas botas de cano alto da cavalaria e cintado pela farda impecável, o alferes parecia muito mais imponente do que a sua real dimensão aconselharia à avaliação de qualquer civil inexperiente nas coisas da tropa. O olhar sarcástico e sorridente foi subitamente enfeixado por uma exclamação enigmática e desafiadora. Inusitada, até porque já nos havíamos habituado a um registo de verbalização tão linear e directo quanto o prosaico raciocínio exibido até aí.

- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»

Enigmática, porque sugeria a dose de conhecimento empírico que todos esperaríamos não confirmar nas aptidões do alferes. E desafiadora, porque nos catapultava a nós próprios para uma dimensão de descoberta que talvez não fosse assim tão gratificante para alguns.

- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»

Passados 14 anos, sinto-me confortavelmente à vontade para declinar aquela viril e irreversível convicção, fantasiada certamente no decorrer de algum filme do Silvester Stallone.

- «Vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»

E a paciência que se tem que ter quando, dia após dia, confirmamos que afinal, a quadratura cerebral do oficial não era deformação da tropa. É sim, coisa dos homens! O ar que aflui ao cérebro não é suficiente, como tal, «vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»

Novas oportunidades

Para além das formações profissionais, dos imigrantes clandestinos que não contam para a segurança social mas contam para o PIB, da retenção de indivíduos jovens nas novas oportunidades e de outra trafulhice, os níveis de desemprego também podem ser minimizados com a saída de activos qualificados em busca de novas oportunidades... no estrangeiro: nalguns casos, libertam postos de trabalho e não entram nas estatísticas do IEFP.

23 de novembro de 2008

Conspiracy, she wrote

Quando o deputado socialista Paulo Pedroso foi libertado e recebido em apoteose na Assembleia da República, a democracia portuguesa protagonizou então um dos episódios mais degradantes da sua curta existência. A presunção de inocência não podia legitimar a clara tentativa de colagem da suspeita que recaía sobre Pedroso, à suposta cabala política que só as mentes mais engenhosas organizadas em loja maçónica poderiam ter levado a cabo. Naquela ocasião, Pedroso foi transformado em preso político libertado dos grilhões da ditadura e mostrado à populaça como demonstração da virtude e da reposição da justiça.
Não satisfeita, a democracia portuguesa está prestes a repetir o feito. Em Portugal, a separação de poderes é uma ficção de terceira categoria só comparável aos piores programas da TVI. Paulo Pedroso recebeu uma indemnização por «prisão ilegal» e, porque somos gentis, equidistantes e atenciosos, as vítimas também.

aggiornamento democrático

Normalmente, depois de constituídos e reconhecidos pelas instâncias internacionais, muitos países – normalmente assentes em nações, embora nem sempre coincidentes – adoptam formalmente a democracia e os seus princípios legais. Elaboram afinadas constituições, criam sistemas eleitorais virtuosos, instauram instituições exemplares, apelam à laicização do Estado e à separação de poderes. Enfim, dizem-se saídos da barbárie e totalmente comprometidos com o progresso, as liberdades e as garantias da democracia e o desenvolvimento económico. Papagueiam aos quatro ventos a sua nova condição mas, debalde, confirmam por que razão insistem os politólogos na ideia de democracia como um modelo em constante aggiornamento e não numa obra feita, acabada. Essa constante actualização expressa-se numa fase de consolidação democrática observável quando a cultura política de participação (suportada por normas, valores e princípios democráticos) é uma realidade concreta entre a maioria da população.

Hoje, no rescaldo das eleições guineenses, os partidários dos vencidos demonstraram cabalmente a dimensão da sua cultura democrática procurando afirmá-la em toda a sua plenitude através da tentativa de decapitação do poder em que consistiu o ataque à residência oficial do Presidente da República. Não é pelo Nino Vieira... mas em respeito pela vontade do povo. Na Guiné, tal como em Angola ou na Madeira, a consolidação democrática é fetal.

Em Portugal (continente e açores), a consolidação democrática tem dias. É como os adolescentes.

21 de novembro de 2008

Sofrer os mínimos danos

Depois de um Conselho de Ministros extraordinário e de um presumível puxão de orelhas, a ministra da educação não teve outra alternativa senão ceder. Como era esperado, não querendo assumir imediatamente o fracasso de uma iniciativa que já tresanda, a ministra trata agora de tentar perder pela diferença mínima: mostrou-se disponível para introduzir alterações no modelo de avaliação que, aos poucos, vai ficando descaracterizado.
Naturalmente que os sindicatos não estão pelos ajustes e, evidentemente, não acreditam na sobrevivência de uma manta de retalhos.
O governo podia ter-se poupado todo este esforço se fingisse acreditar mais na democracia e se este trabalho que a ministra anda agora a fazer junto das escolas e que não passa de show off mediático, tivesse sido o ponto de partida para a criação de um modelo de avaliação.

19 de novembro de 2008

Cultura política paroquial

Hoje, a FENPROF vai cumprir o que resta para desgraçar a ministra da educação.

Estoicamente isolada e visivelmente abatida por começar finalmente a compreender a dimensão do problema que arranjou (em particular, pelo elemento disfuncional que exige introduzir no sistema), Maria de Lurdes Rodrigues não vai ceder nas pretensões da FENPROF em suspender a avaliação, conduzindo ao esperado e imediato abandono da reunião pelos representantes dos professores.

Em contrapartida, depois das declarações de Manuela Ferreira Leite e da imediata condenação pelo PS, o governo ficou com a responsabilidade de demonstrar que em democracia é possível fazer reformas. Isso faz-se à mesa das negociações e, sobretudo, com boa-fé no desfecho das mesmas.

Como em tudo na vida, o mandato desta senhora à frente do ministério da educação tem um lado positivo: pela primeira vez neste país, a avaliação dos professores é vista como uma necessidade. Nesse caso, serão os professores quem ficará com o ónus e responsabilidade de implementar um modelo de avaliação sério e rigoroso. A opinião pública já não poderá tolerar mais deslizes.

Para os que têm dúvidas sobre a validade das declarações de Manuela Ferreira Leite, recordo todos os países da União Europeia, cuja consolidação democrática nunca os impediu de reformar e ter sistemas de educação com bons resultados. Talvez porque não têm uma cultura política paroquial como a nossa.

19 de Novembro


18 de novembro de 2008

Diferenças?!




Manuela Ferreira Leite propõe-se fazer em seis meses o que Salazar demorou anos a conseguir.
No fundo, criar um regime onde os inúteis, crápulas, incompetentes, falhados e estafermos possam coabitar no poder.
As declarações da líder do PSD não são infelizes: expressam apenas um desejo sincero recalcado durante anos a ter que tolerar as ideias dos outros.
Para memória futura, ficam as palavras da líder do principal partido da oposição, as quais, ao contrário do que foi dito em sua defesa por Marques Guedes, não foram produzidas com ironia: "e até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia".
taqueapariueaocabraodovelhoqueenterrouestamerdatodaaindamaisdoquejáestava!


Jamé (em português)

António Vitorino, respeitável aspirante a D. Sebastião no PS e insuspeito homem do establishment, sugeriu que fosse constituída uma espécie de conselho de notáveis, recrutados pelo seu conhecimento e experiência, para trazerem alguma ponderação e luz à necrosada relação entre ministério da educação e professores.


A ideia foi prontamente rejeitada por Augusto Santos Silva, ministro dos assuntos parlamentares e outrora bom escritor de livros de sociologia. De resto, eivada de bons sentimentos, a odiada ministra tem andado num périplo propagandista pelas escolas, apregoando as virtudes do seu modelo de avaliação e mostrando-se disponível para apoiar directamente a sua implementação, acocorada e vestida de fato-macaco. Nessa autêntica campanha de charme mongol, a ministra faz-se acompanhar de professores apoiantes e famintos que, arregimentados pelo PS da Buraca, não esperam outra coisa senão um tacho que os safe da medonha tarefa em que se transformou a leccionação.


Antes, já António Costa (presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-nº 2 do governo), havia deixado conselhos de prudência aos seus camaradas. Manuel, poeta alegre, também já sentenciou o que tinha para sentenciar e deu num 2º lugar nas presidenciais, à frente do candidato apoiado pelo PS, o histórico e ultimamente lúcido Mário Soares. A um ano das eleições, os avisos sucedem-se. Mas o governo, entrincheirado nas suas fantasias, não cede um milímetro, mesmo que deixe de haver escolas neste país. Esta pretensa despreocupação eleitoralista é louvável. Mas muito pouco eficaz.


Gostava de vos poder deixar com uma gracinha mas hoje, o melhor que me ocorre é o facto de ontem, dia mundial de qualquer coisa contra o fumador ou o tabaco, ter almoçado num restaurante onde é permitido fumar. E fiquei satisfeito porque haviam pessoas que fumavam, aparentemente com prazer, depois do repasto e antes de pagar. Nenhuma era o primeiro-ministro. Talvez porque o restaurante fica perto de uma escola. Ou talvez porque é muito mais punk subverter as normas a 30000 pés de altitude. Jamé, lá dizia o outro...

16 de novembro de 2008

A mania de complicar

O Estado-Providência tem normalmente três dimensões: políticas sociais, concertação social e regulação económica.

Nunca essas três dimensões coincidiram em simultâneo em Portugal. Na sequência desta crise financeira, há a promessa da terceira dimensão entrar na agenda política. De corpo estranho, o regresso do político ao mercado, surge agora como corpo messiânico. Mas só enquanto o sistema financeiro tiver fome dos recursos públicos, bem entendido. Mesmo de saída, o tonto [ainda] presidente dos EUA conseguiu garantir um fraco entendimento na cimeira dos G20 (decorreu este fim-de-semana em Washington) que, basicamente, deixa tudo na mesma. O mercado continuará intocável.

Com políticas sociais deficientes, mal integradas e frequentemente mal avaliadas, a Portugal já nem sequer resta a concertação social. O autismo do governo com respeito à educação é um exemplo de fraco entendimento democrático. Porque, ainda que os sindicatos dos professores possam ter subvertido a ideia de concertação social ao não honrarem os seus compromissos, sobra a realidade de, com ou sem interlocutores, a esmagadora maioria dos professores não quererem ser avaliados e muito menos segundo um modelo que os transforma em meros funcionários.

Antes de mais, o governo deveria ter-se assegurado se existiam condições socialmente não fracturantes para avançar com esta avaliação aos professores. E só depois negociar. A maioria absoluta terá levado os socialistas a caminhar precisamente ao contrário. Essa abordagem resultou bem nos governos da União Nacional mas actualmente não são muito populares.

E este governo não compreendeu bem qual a sua missão. Os interesses dos alunos não estão a ser salvaguardados e, ainda que os professores tivessem assimilado muito bem este modelo de avaliação próprio de um regime paternalista (a desconfiança que os professores suscitam no governo é evidente e esse é um péssimo ponto de partida), a qualidade do ensino continuaria a decrescer. Porque ao reduzir a educação a uma gestão racional económica, o governo reconhece que não está muito interessado em educar com qualidade. Isso está bem presente na obsessão com as novas oportunidades, no facilitismo ilusório com que uma criança progride actualmente até ao 9º ano de escolaridade, e na transformação das instituições geradoras e transmissoras de conhecimento - as universidades - em empresas privadas.

Independentemente de ser exigível uma gestão racional dos recursos públicos, a educação e a saúde não têm que dar lucro imediato. O seu «lucro» para a sociedade consiste em assegurar que os seus membros são cidadãos exemplares, empreendedores, qualificados profissionalmente e saudáveis para poderem assumir os seus compromissos e retribuir o investimento feito.

É possível que alguns membros do governo sejam suficientemente esclarecidos mas o que se observa é uma incompreensível tendência para complicar a simplicidade.



13 de novembro de 2008

«Desculpem lá, meus queridos!»

A ministra veio ao Parlamento e pediu desculpas aos professores por qualquer coisinha mas comportou-se como um adolescente que, espicaçado no seu orgulho, precipita teimosamente um desfecho sobre o qual não reflectiu. Chama-se a isso, inconsequência.

Inconscientemente, o primeiro-ministro só está a medir apenas os custos políticos imediatos: manter a unidade do grupo que o acompanha. Do ponto de vista mediato, essa toleima terá efeitos no expectável funcionamento das escolas durante o presente ano lectivo e, naturalmente, na própria avaliação eleitoral do próximo ano. De uma coisa não se livra: em arrogância, este governo só tem paralelo nos governos de Cavaco Silva. Mal das maiorias absolutas ou mal da idiossincrasia portuguesa, quiçá muito dada a estes e outros tiques autoritaristas.

Seja como for, mesmo o ser mais rasteiro e acéfalo compreende que os professores têm que ser sujeitos a um regime de avaliação sério e rigoroso. E creio que os professores reconhecem essa necessidade, particularmente os bons. Essa é a fórmula para salvaguardarem a qualidade do seu trabalho e do seu empenho.

Naturalmente que os professores têm responsabilidades na decrépita qualidade do ensino. Porém, não se lhes podem ser assacadas todas as responsabilidades sabendo que é o próprio ministério da educação quem oferece autenticamente novas oportunidades e estimula praticamente a passagem administrativa até ao 9º ano, desafiando a ética meritocrática que supostamente pretende instituir neste modelo de avaliação. Ainda restam as clivagens que o Estatuto da Carreira Docente veio trazer para um desestabilizado corpo docente.

Não é assim que é ser reformista. Mais uma vez, Manuel Alegre está coberto de razão.

Provavelmente, chegar-se-á a uma altura em que o governo reconhecerá o fracasso e tentará limpar a face, entabulando empenhadas negociações com os sindicatos. Nas actuais condições e socialmente exigível (depois de todo o mediatismo) que a avaliação seja rigorosa, o governo tem ao seu alcance a fenomenal manobra de «passar a batata quente» para as mãos dos sindicatos e pedir-lhes dentro de um prazo razoável, propostas funcionais de modelos de avaliação.

Porque a democracia, temos que aprender, não se faz só num sentido.

12 de novembro de 2008

à tout propos (308)

Numa gala promovida pelo Comité Olímpico Português, Nelson Évora foi distinguido com a Medalha de Ouro e Vanessa Fernandes com a de Prata. Na mesma cerimónia, o guarda-redes de futebol do Sporting - Rui Patrício - foi distinguido com uma Menção Honrosa.


A Antena 1 passou unicamente a reacção do jogador de futebol, como se a Medalha de Ouro tivesse sido afinal atribuída a ele.


O jornalista não justificou a falha com uma eventual recusa dos medalhados em Pequim. Isso permite concluir que dar primazia jornalística ao prémio menos importante dos citados se tratou de uma opção consciente.

à tout propos (307)

Quando confrontado com o convite formulado pelos partidos da oposição no sentido de se demitir do cargo, o Governador do Banco de Portugal, Vitor Constâncio, disse não ver razões para tomar tal decisão.

De resto, o raciocínio escorreito deste homem com tantos e valiosos trabalhos ao serviço da nação quantos os de Heracles, está absolutamente correcto: por que razão se haveria o homem de demitir de um cargo principescamente remunerado, recheado de benesses e com direito de antena neste Portugal de Pequeninos?

11 de novembro de 2008

A Bimby



Toda a gente sabe o que é a Bimby, n’est-ce pas? Toda a gente sabe que a Bimby existe há 30 anos e só agora chegou a Portugal, correcto? Toda a gente sabe que a Bimby é a cozinha mais pequena do mundo? De tal forma que a pode levar consigo de férias, para um piquenique ou para o trabalho?


Basta apenas uma saída de electricidade porque a Bimby, fiel amiga e dona de casa extremosa, encarrega-se das tarefas aborrecidas em menos de um farol. Picar cebola deixa de ser um sofrimento, fritar pastéis de bacalhau pode revelar-se uma tarefa descontraída, comprar sumos de néctar passa a ser coisa do passado e cozer reluzentes douradas a vapor torna-se uma realidade. Em suma, a Bimby confecciona eficientemente os mais deliciosos pratos, desde o bacalhau com natas aos bifinhos com cogumelos.


Prática e limpa, a Bimby dá todo esse conforto a uma família média por apenas 900 euros. Mas não se assuste! Este valor pode ser muito relativo porque… já pensou em todos os produtos que compra no supermercado e que a Bimby pode perfeitamente preparar sem o menor esforço e a um preço reduzido? Além disso, fique descansado/a porque os créditos pessoais da Cofidis e da Cetelem asseguram que o seu endividamento não diminua com o actual decréscimo das taxas de juro de referência.


É o momento ideal para comprar o seu melhor amigo na cozinha, para acolher no seio da sua família este maravilhoso e fantástico cúmplice na confecção de refeições diversificadas e saudáveis.


A Bimby é tudo isto e mais um par de botas. Claro que da cartilha não consta um plano de rentabilização do valor investido e, muito menos, o insubstituível prazer que pode dar preparar com carinho uma refeição. Nem as necessárias imperfeições que dão sabor às coisas. Ou as virtudes terapêuticas de cortar, demolhar, temperar, trocar tachos, limpar bancadas e… mexer o preparado com uma simples colher de pau.


Não, com a Bimby tudo é perfeito, monotonamente perfeito. Bom, em rigor nem tudo, porque no final da demonstração, o jantar tardio às 23h00 consistiu numa muito apresentável lasagna mas que, debalde, exibia aquele mesmo sabor que detesto nas carnes aquecidas pelo microondas. Imagino que para um italiano, uma lasagna preparada na Bimby esteja no mesmo patamar de heresia que para mim estaria uma açorda d’alho ou uma sopa de tomate.


Antes da lasagna, já tinha dado a minha sincera opinião à senhora, uma opinião simples e racional: «a maquineta, perdão, a Bimby, é muito útil e interessante mas não vou gastar 900 euros num objecto que não utilizarei».


Não foi certamente a apreciação que a senhora esperava, visto ser, ela própria, uma bimbymaníaca. Efectivamente, a mulher disserta sobre a sua Bimby como se fosse a resolução para os problemas do mundo. Igualmente agastada por não lhe ter fornecido contactos de pessoas sem lhes perguntar previamente; de cabeça perdida por – supostamente – ter sido a primeira vez que sai da casa de alguém sem uma Bimby vendida, a senhora acabou por se despedir com uma irritação compreensível. Na minha opinião, bastante mais compreensível do que a estratégia agressiva com que nos abordou desde o início.


O desapontamento foi evidente porque é óbvio que a senhora tinha previamente assumido que a demonstração culminaria com a venda. Jamais terá ponderado sequer um desfecho contrário às suas expectativas. É essa a realidade das vendas. Tratei ainda de lhe explicar que a perspectiva que ela e a empresa têm acerca da disponibilização de contactos de potenciais interessados é diferente da minha:

Em primeiro lugar, só posso recomendar convenientemente um Porsche a alguém se tive suficientes experiências com esse tipo de automóvel, como para me habilitar a tecer quaisquer considerações sobre o seu desempenho. Em segundo lugar, antes de dar contactos à senhora [algo a que não me vejo na obrigação de fazer], tenho que me certificar que se essas pessoas pretendem ser contactadas. É elementar.


Horas antes, de regresso de mais um dia de trabalho, mal sabia que seria confrontado com uma massiva construção artificial de necessidades. Era suposto que, no final, me visse envolto num mar de possibilidades e saudades de um bem de consumo com o qual tinha acabado de travar conhecimento. Uma paixão arrebatadora e, acto contínuo, cheque passado à empresa Vorwerk para gáudio de todos.


É possível que o conforto que uma maquineta destas dá a muitas famílias se repercuta em tempo livre adicional para… consagrar ao trabalho e a mais algum ao fim do mês, para alimentar a espiral de consumo. Ou, à mais alienante telenovela como alguém fez questão de frisar.
Eu, gosto de lutar pelas coisas. Por isso me dá tanto prazer perder tempo na cozinha, beberricar um copo de vinho e acender um cigarro quando o refogado vai ao lume. Mesmo que saia queimada, salgada ou picante, a dimensão da experiência é insubstituível. Por isso, também não me arrependo da demonstração de ontem.



PS I: se alguém estiver interessado numa demonstração, entre em contacto comigo. Consigo garantir que alguém vá a sua casa confeccionar uma refeição Bimby.


PS II: como não adquiri a Bimby, hoje, as castanhas serão assadas na brasa e a jeropiga vem de produtores da Beira Alta.

CEAI em destaque na imprensa nacional com a Estação Biológica do Garduncho


8 de novembro de 2008

A ministra da educação não tem condições, nem para governar a sua própria casa

Alguns meses depois da manifestação de cerca de 100 mil professores em Março em protesto contra a política de educação do governo (com particular incidência no sistema de avaliação), hoje estima-se que tenham marcado presença entre 110 e 150 mil. Independentemente dos números - os do governo e os dos sindicatos - a verdade é que em cerca de seis meses, os professores mobilizaram-se como poucas ou nenhumas vezes em duas ocasiões e deram um inequívoco sinal de repúdio ao governo.

É certo que numa primeira fase, o sistema de avaliação dos professores foi rejeitado liminarmente por estes para, agora, a contestação se centrar quase exclusivamente no modelo em si, ou seja, na forma como se espera que o processo decorra.

Os professores têm muita responsabilidade. Mas não se espere que carreguem com toda, sabendo que, regra geral, as universidades são cada vez menos exigentes, os pais são cada vez menos responsáveis, as dinâmicas sociais invadem cada vez mais a esfera das escolas: dos telemóveis que «emancipam» a criança com a condescendência dos pais ao alargamento do tempo que as crianças passam nas escolas em virtude das imposições profissionais e sociais dos pais. Bom, os pais… se há coisa mais irritante nesse assunto é a afirmação social pela aquisição e ostentação de bens materiais, consubstanciada naquela frase saloia: «eu quero que o meu filho tenha tudo aquilo que eu não tive oportunidade de ter». Esta super-protecção encontra o clímax na violência praticada sobre os professores por pais frustrados e empenhados em vingar as humilhações e contrariedades por que supostamente passaram quando eram, eles próprios, alunos.

Há dias, alguém me dizia que «isto só lá vai à porrada». Não estou de acordo. No próximo ano há eleições e 100 mil votos é muita fruta. Resta avaliar qual a coerência dessas pessoas no momento da votação, caso o governo não ceda e faça o mesmo que fez no ministério da saúde: recuou ligeiramente e substituiu o ministro, o homem que personificava as políticas de saúde. Disfuncionais, por sinal.

6 de novembro de 2008

Eleições antecipadas na SHE

A Sociedade Harmonia Eborense vai a eleições antecipadas no próximo dia 4 de Fevereiro. Aceitam-se comentários de sócios e outros amigos da Harmonia.

5 de novembro de 2008

Barack Obama venceu as eleições


Desde Jimmy Carter e apesar dos mandatos presidenciais de Bill Clinton, os últimos 27 anos de política externa americana têm sido extremamente desgastantes para o mundo. Como é evidente, o sentimento anti-americano que se generalizou um pouco por todo o mundo, particularmente entre as gerações mais jovens, foi bem alimentado pelos desempenhos dos republicanos Ronald Reagan, George Bush e George W. Bush. Com a eleição de Barack Obama, o mundo viu renovada a esperança. Veremos. Veremos de que forma se predispõem os EUA a intervir no mundo a partir daqui: se continuarão a privilegiar a decisão unilateral assente numa dominação hegemónica ou se retomarão o projecto da Sociedade das Nações, materializado na obsoleta ONU e no ignóbil Conselho de Segurança (ambos precisam de reformas urgentes).

A política externa dos EUA é a parte que nos diz directamente respeito. Depois, há os assuntos internos, dos quais também dependemos indirectamente.

Este homem surgiu messianicamente no espectro político nacional e internacional como se fosse um D. Sebastião. Representa, de algum modo, o projecto inacabado começado por Martin Luther King. Pelo menos do ponto de vista simbólico. Retomou o discurso americano dos valores, da democracia e dos ideais e criou expectativas em muitos. Num país onde existe a democracia mais antiga e onde, para debalde de alguns, o processo funciona relativamente bem, a vitória de Barack Obama é extraordinariamente importante porque é a que maior legitimidade política alcança nos últimos 100 anos. Com efeito, num país confrontado com as mais altas taxas de abstenção eleitoral, elemento crucial numa democracia representativa, Barack Obama tem o mérito de levar dois terços dos eleitores americanos às urnas. Mesmo que entre eles estivessem todos os simpatizantes do Ku Klux Klan.

Sai de cena o pior presidente americano de sempre, George W. Bush.

4 de novembro de 2008

O regresso das nacionalizações

Miguel Cadilhe, antigo ministro das finanças e actual presidente do falido BPN, insurgiu-se contra o Banco de Portugal e contra o governo por não terem atendido às suas pretensões, optando antes por retomar uma prática abandonada depois de 25 de Novembro de 1975: a nacionalização de uma entidade privada.

Miguel Cadilhe, homem supostamente vergado pela responsabilidade de ter sido ministro da república, pretendia nada mais que uma injecção de capital público, possivelmente para continuar a dar largas ao devaneio.

Miguel Cadilhe, economista, acusou o Banco de Portugal de passividade fiscalizadora (algo a que não nos opomos). Mas não percebemos muito bem qual o alcance da acusação porque, independentemente da altura em que foram detectadas as irregularidades, o certo é que elas existem. E quem, antes de mais, deveria ter conhecimento delas era justamente o presidente do BPN. Para delas dar conta o Banco de Portugal.

Seja como for, o regresso da nacionalização (esta e as que, contra as expectativas mais lunáticas, foram realizadas nos EUA) sugere desde logo várias leituras. Em primeiro lugar, permite confirmar que o actual sistema guiado pelo mercado não funciona nem dá garantias à democracia: as desigualdades persistem e o desrespeito pelos direitos humanos mantém-se. Além disso, como se viu no caso do BPN e do BCP, o princípio da boa fé é mera figura decorativa. Portanto, em matéria de responsabilidade cívica, a banca portuguesa é tão idónea quanto o pequeno transgressor. Em segundo lugar, estas medidas poderão ter um efeito dissuasor e didáctico por afirmarem que o desenvolvimento social, político e económico não respeita a linearidade com que muitos poderiam contar. Se for preciso nacionalizar, que se nacionalize. Mas sem dramatismos nem comichões ideológicas.

A direita acusa o governo de «capitalismo de Estado». Provavelmente a direita tem acções e poupanças em outros bancos, digamos, menos populares. Além disso, se dentro de algum tempo o Estado vier mesmo a lucrar com a venda das acções que detiver no BPN, óptimo! Talvez dê para compensar os milhões em que o Estado é espoliado anualmente pela banca.

3 de novembro de 2008

Estado dá o exemplo

Ao fim de largos anos de gravoso desmazelo, o Estado português parece finalmente querer dar mostras de alguma rectidão. O ministro das finanças anunciou ontem que as dívidas da Administração Central às empresas e autarquias locais vão ser finalmente liquidadas. A medida reporá certamente algum equilíbrio no achincalhamento que inúmeras empresas e autarquias têm sofrido ao longo dos tempos. Recordemos que se as empresas falham com o Estado, vêm o seu nome na lista de entidades devedoras e o seu património penhorado (em tese). Em contrapartida, se as autarquias falham, têm à perna o Tribunal de Contas. Por que razão não haveria o Estado ser «pessoa de bem» e dar, pelo menos nestas alturas, o exemplo?
É que, são tão poucas as vezes que um tipo até estranha...

à tout propos (306)

Luís Filipe Meneses até pode ter muitos defeitos mas o da desatenção não lhe conhecia. Numa crónica de opinião publicada no Diário de Notícias, o deposto presidente do PSD sugere à actual líder que se cale. Perguntamos ao senhor Luís Filipe Meneses se andou recolhido nos últimos meses em algum mosteiro tibetano porque se há coisa que tem caracterizado Manuela Ferreira Leite é, justamente... o silêncio.

31 de outubro de 2008

O Povo é?!

Eugène Delacroix, La Liberté guidant le peuple, 1830

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«O Povo unido jamais será vencido», é uma daquelas palavras de ordem utilizadas em todo o mundo e popularizadas – justamente – pela esquerda. Não me vou aqui referir ao povo enquanto entidade abstracta configurada pela ideia de nacionalidade: «o povo português, o povo angolano».

De resto, ou muito me engano ou nesta fórmula está contido um apelo à arregimentação dos mais fracos oprimidos pelas minorias dominantes. Portanto, numa primeira apreciação, temos o pressuposto da dominação que se articula com o critério da desproporcionalidade quantitativa, ie, uma maioria dominada por uma minoria.

Antes da Revolução Francesa, a divisão da sociedade em classes era mais clara. A estratificação social assentava, grosso modo, num critério dúplice: as actividades a que se dedicavam os indivíduos e a proximidade com Deus. Assim, regra geral, havia a nobreza, o clero e o povo (ou 3º Estado, se a memória não me falha, a despeito das aulas de história que vi perderem-se pelo cano da imaturidade…). Mais tarde havia também de aparecer a burguesia. Sem prejuízo para as restantes distinções – alta e baixa nobreza, o clero regular e o secular, a alta e a baixa burguesia – as classes sociais eram muito bem definidas. Sem embargo, «o Povo» era «o Povo». Ponto. Mais ou menos miserável, mas «Povo».

A estrutura social vir-se-ia a modificar e a transformar também o critério de distinção de algo tão difícil de analisar pela sociologia, como é o caso das classes sociais. Desta feita, o critério distintivo passa a assentar no status social e na posse de capital. Daí, a divisão em classe alta, média ou baixa.

Contudo… impõe-se a questão: quem é, afinal, o «Povo»?

Dada a amálgama social em que se vê actualmente o «Povo», a prolixa questão motiva uma resposta dos nossos tempos: complexa e ambígua!

Na Alemanha de Hitler, o «Povo» era a generalidade da população que o elegeu, apoiou e seguiu numa viagem de loucura colectiva, desenraizada de valores sociais básicos. Em Israel, o «Povo» diz ser eleito e diz ser um digno representante de uma geração vergonhosamente massacrada por outro «Povo». O «Povo» que elegeu George Bush é o mesmo que se prepara para eleger Barack Obama.
Tenho algumas dúvidas quanto ao seguinte exemplo. Nunca sei muito bem se o «Povo» norte coreano (enquadrado por um sistema político «popular»), vive na miséria ou na opulência, em liberdade ou em clausura. Há sempre muitas versões que se contradizem. Por fim, o «Povo» hutu é aquele que foi responsável pela chacina de, crê-se, cerca de 1 milhão de tutsis no Ruanda, em 1994.

Perante isto, deixo uma advertência: ponderem sempre muito bem na escolha do lado do «Povo» em que se quer estar. Os hutus uniram-se e, realmente, não foram vencidos. Tal como os sans-culottes que seguem a senhora de mamas ao léu com a bandeira francesa empunhada numa mão e a baioneta na outra.

27 de outubro de 2008

Nas trevas da redenção

Wanderer above sea from fog, 1818, Caspar David Friedrich
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Numa alegoria à revelação, este retrato romântico parece querer sublimar a ascensão triunfal do indivíduo após o turbilhão com que se debateu nas trevas da sua existência. No pico, tudo é nebuloso e incerto excepto a assombrosa clarividência de um homem.
Durante o caminho, é sovado por colossais vagas de ondas com 30 metros e sujeito às mais incríveis provações mas aguenta-se firme perante a ira dos deuses que, incompreensivelmente, estão todos contra si.
Fortalecido pela dura ascensão, o indivíduo está agora preparado para… contemplar inconsequentemente os picos, o objecto inacessível do seu desejo. Vejam a sua distinta pose, observando incólume por cima do nevoeiro terreno. Mas, na realidade, observa o quê, senão e apenas o mais frugal nevoeiro que se estende a seus pés? É tempo de recolher às trevas, pelo gosto de voltar a subir.
Ou então, é apenas uma alegoria à confusão, por não distinguir o mar do nevoeiro.

23 de outubro de 2008

Onde andam os sindicatos?

120 professores da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Vila Real, decidiram não enviar ao ministério da tutela os seus objectivos para a avaliação de desempenho. Depois das intensas e participadas manifestações no ano lectivo passado, eis que um grupo de professores decide finalmente afrontar o governo de forma concreta, lutando por aquilo que considera justo.

Razão para perguntar: onde andam os palradores sindicatos? Dito de outro modo... pertencerão estes professores a uma bolsa de resistência comunista no cavaquistão ou serão, apenas, professores?

De resto, o processo não é claro e, acima de tudo, surge como resultado de uma imposição de gabinete sobre a sala de aula. O governo insiste nesta sua birra como se tivesse encontrado a panaceia para a credibilização do sistema de ensino em Portugal. Naturalmente que o governo não pode esperar aumento da qualidade. Caso contrário, não teria assentado a sua política de educação em medidas grosseiras como o Programa Novas Oportunidades nem teria estimulado a conversão das universidades em fundações.

22 de outubro de 2008

«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas»

Os deputados socialistas à Assembleia da República interiorizaram facilmente a maioria absoluta e integraram-na com grande à vontade nas suas próprias personalidades. Talvez por isso alguns deles se sintam incomodados com o discurso de Jaime Gama nas jornadas parlamentares, o qual apelava ao empenho de todos e tratava de mobilizar as «tropas» com vista às eleições de 2009.
Para esses deputados - espero que nenhum tenha sido eleito pelo círculo eleitoral de Évora - o Orçamento de Estado para 2009 será certamente suficiente para vencer no próximo ano. O Orçamento e... a oposição.

17 de outubro de 2008

Olimpíadas da masturbação

Segundo um estudo do ICS, cerca de 40% dos jovens até aos 17 anos já iniciaram a sua vida sexual.

Este dado é, não só surpreendente como preocupante. No meu tempo, rapaz que dissesse não ter vida sexual aos 17 anos, corria sérios riscos de ser ostracizado para o resto da vida com aqueles risinhos trocistas ou com humilhantes fabulações do género: «lá vai o gajo que metia a pila no buraco do aspirador».

Em suma, o contributo das respostas masculinas seria o suficiente para igualar o rácio apresentado pelo ICS.

Depois, as miúdas. Determinações metafísicas inexplicadas pelo nosso entendimento determinavam que elas declarassem ter a sua virgindade intacta e, sempre que iniciavam novo namoro diziam muito pudicamente que com o Outro, nunca passaram a fronteira dos beijos e de uma ou outra mexida nas maminhas. Nada de marmelada grossa. Mas também haviam aquelas a quem eram perdoados todos os pecados…

O que era realmente extraordinário – do ponto de vista antropológico – eram as olimpíadas da masturbação. Tratava-se de uma coisa séria, organizada para treinar competências sexuais masculinas. Consistia fundamentalmente em dispor 4 ou 5 jovens (termo muito usado na altura, imortalizado por uma célebre frase «jovem, diz não à droga») sentados num sofá a exercitar a erecção dos seus pénis. Não era fácil porque exigia um grande controlo psicocomotor e perícia técnica. E às vezes, sem aquecimento prévio. Há quem diga que quem dominasse a respiração tinha a vitória assegurada. Outros, defendiam que o segredo estava em imaginar a irmã do Esteves a tomar duche no balneário depois de uma aula de ginástica.

Haviam duas competições: uma de velocidade e a outra de fundo. A primeira consagrava normalmente o mais rápido. O Ribeiro tinha o melhor tempo: uns assombrosos e polémicos 15 segundos porque ainda subsistem dúvidas sobre se a proporção de urina se sobrepunha à de sémen. Na outra competição, vencia aquele que, durante mais tempo, desse provas de maior disponibilidade sanguínea. Aí, era o Esteves o campeão. Talvez porque era o único a não imaginar a irmã nua. Mas as hérnias que tem hoje, ninguém lhas tira.

Haviam regras básicas e interditos. Um dos interditos relacionava-se com a presença de estranhos ao concurso. Por muito bizarro que possa parecer, às raparigas era completamente vedado o acesso. Hoje, acho essa regra infundada pois não estou certo se influenciaria o resultado final. A menos se fosse a irmã do Esteves. O mesmo se estendia, muito compreensivelmente, aos pais e irmãos. Apesar de tudo, na casa do Ribeiro tolerava-se a presença da avó. A ceguez, segundo nos dizia, era selada por uma surdez quase total. O aspecto inócuo da velha deixava-nos descansados e, de algum modo, aquela serenidade estimulava a nossa concentração.

Por fim, todos os concorrentes tinham que demonstrar estar aptos fisicamente para a exigência daquela competição, o que acontecia por volta dos 11, 12 anos com a fabulosa descoberta da verdadeira origem do requeijão. Prometemos nunca revelar o segredo a ninguém para não estragar o negócio do Sr. António da mercearia. Quando a prova era na minha casa, mandávamos o meu irmão mais novo passear o cão a troco de umas gomas e de uns cromos do Mundial.

Quanto às regras, coisas fundamentais como não olhar para o lado, ter sempre à mão algumas folhas de papel higiénico e não estimular outras zonas erógenas. Também era proibido tomar pau-de-cabinda. Mas como nunca ninguém conseguiu arranjar, essa regra ficou sem efeito. Havia uma regra que era sempre quebrada: antes da reunião, todos bebiam leite em casa.

Não sei ao certo quais as conclusões do estudo do ICS mas... naquilo que me diz respeito, acho que os miúdos de hoje são muito mais honestos do que nós.
Também nunca percebi porque é que o Esteves mandou aquele monumental bofetão ao Ribeiro.

16 de outubro de 2008

O Orçamento de Estado merece «duras» críticas da oposição

O Orçamento de Estado foi entregue na Assembleia da República e, estabilizadas [assumamos como certa essa realidade] as contas do défice e a messiânica convergência com o Pacto de Estabilidade e Crescimento, o governo propõe uma série de medidas ousadas, tendo em conta o período de intensa instabilidade que atravessamos - especulação diária nos preços do petróleo, crise financeira internacional que já começou a transbordar para a economia real com falências e nacionalizações - e a aproximação ao período eleitoral em 2009. Mas, a este respeito, convenhamos que também eu não deixaria os meus créditos por mãos alheias. O problema coloca-se quando se governa apenas para as eleições.

Entre as mais mediáticas, contabilizamos o maior aumento dos salários na função pública desde 2001 (acima da inflação prevista em 0.4 pontos percentuais, embora isso não signifique uma ténue recuperação que seja do poder de compra perdido), a adopção de escalões no IRC consoante a facturação das empresas, a criação do fundo imobiliário, entre outras. Ficam por resolver o enterro do Serviço Nacional de Saúde e a machadada autista que o governo está a dar na educação, muito para lá do ríspido puxão de orelhas que uma boa parte dos seus profissionais efectivamente se esforçou por merecer ao longo de anos de pagode.

Contudo, confrange olhar para a oposição e verificar que a sua grande preocupação tem a ver com o atraso com que receberam o documento. E mais uma ou outra lenga-lenga das habituais. Nos casos dos dois partidos que formaram entre 2002 e 2005, a embrulhada é ainda mais arrepiante porque se revelam tão inúteis na oposição quanto o foram no governo.

14 de outubro de 2008

Da ambivalência dos sistemas políticos

Há um livro de Herbert Marcuse denominado O Homem Unidimensional que perspectiva quase apocalipticamente os perigos do enterro da bidimensionalidade, isto é, a reflexão crítica que preside ao questionamento da realidade.

Nas suas deambulações analíticas às sociedades industriais contemporâneas, Marcuse acusava um determinado conceito de emancipação humana, concretizada pela satisfação de necessidades artificiais (correspondentes às secundárias, na tipologia de Maslow) induzidas pelo mercado – a sociedade feliz produzida pelo capitalismo. Acusava o capitalismo de extinguir a dimensão crítica e reflexiva das pessoas em detrimento de uma apologia mecânica, de uma afeição cega aos valores e conforto do capitalismo.

Atentemos agora na tríade dialéctica hegeliana, composta pela tese, antítese e síntese. Ora, aquela aceitação acrítica advogada por Marcuse significaria, in extremis, a aniquilação do processo lógico que permite às sociedades conduzir-se da tese e antítese à síntese, por meio de contradições sucessivas.

Mas, o que são os movimentos fundamentalistas islâmicos, o comércio justo, os novos movimentos sociais desencadeados na década de 60, a descolonização, a extensão do sufrágio universal e das democracias, as conquistas sociais e laborais, etc., senão exigências contestatárias (inputs) insufladas nos sistemas?

Tal como o capitalismo (modelo económico), o comunismo, as monarquias e as democracias (modelos políticos) caracterizam-se por não serem tipos puros mas tipos ideais (em linguagem weberiana). Em parte, porque são manipulados por seres humanos, os mais ambivalentes e imprevisíveis seres que podemos encontrar na natureza. Uma faca, tanto pode servir para facilitar a sobrevivência humana como para lhe pôr termo.

Assim, em tese, o capitalismo em si tanto pode ser posto em prática para beneficiar um grande número de pessoas como para beneficiar um pequeno número. Por seu turno, a democracia permite, também em tese, dar voz e poder de decisão à generalidade dos cidadãos. Nesse caso, podemos identificar várias conjugações de modelo capitalista mais ou menos regulado pelo Estado. A Suécia e os EUA são dois exemplos de países cuja conjugação dos modelos se consubstancia em paradigmas distintos. E é nessa tónica da intervenção estatal que está a actual discussão sobre a crise dos mercados financeiros.

Portanto, não há um modelo único e, sobretudo, qualquer um é susceptível de avaliações que confirmam a bidimensionalidade julgada perdida por Marcuse. As actuais nacionalizações operadas nos EUA não configuram apenas a ajuda do Estado ao sistema financeiro mas, por desleixo do Estado, uma ajuda a si próprio.

O que não me parece claro é o virtuosismo absoluto reivindicado pelas ideologias quando, na verdade, nenhuma delas pode ser levada à prática na sua mais pura acepção. Mas pode evidenciar inteligência quando demonstra capacidade em operar transformações que visem a rectificação dos erros. O desgaste e uma complexidade tremenda ditaram a ruína do fabuloso Império Romano, após séculos, conduzindo a Europa por um período incrivelmente medíocre. Mas o Império Romano durou séculos e não décadas.

13 de outubro de 2008

A raposice da alta finança

Como o sujeito guloso que anuncia uma rigorosa dieta após um ataque cardíaco para retomar os hábitos alimentares excessivos e desregulados logo que se sente melhor de saúde, todas estas medidas que vêm sendo anunciadas pelos países para conter a expansão da crise financeira correm o risco se revelar efémeras, assim que a confiança regresse aos mercados.

Isso significa que, neste momento em particular, a injecção de capital público, os anúncios de garantias estatais e outras medidas são muito bem-vindas pela alta finança. Mas, logo que os mercados estabilizem, esta cirurgia de matriz keynesiana tradicionalmente reivindicada pela esquerda será novamente preterida em detrimento da mão invisível e da voragem dos mercados. E os Estados nacionais lá estarão para estender o tapete vermelho e assistir à passerellle triunfal dos responsáveis pela crise.

12 de outubro de 2008

Há mamíferos que põem ovos

Afinal há hipóteses reais de o PS contribuir para a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo porque há mamíferos que põem ovos, como a equidna ou o ornitorrinco.