1 de junho de 2009
Nas Europeias joga-se afinal as Legislativas
31 de maio de 2009
Europeias continuam longe da Europa
Além do registo condenável, a 8 dias das eleições europeias, os candidatos parecem não ter compreendido inteiramente a que se candidatam e, possivelmente, andarão a fazer as contas sobre qual o quarto do Palácio de S. Bento que lhes caberá. A Europa é o quintal de trás, uma extensão da política corriqueira e imbecil que vigora. Mas também é possível que, como alguém acusou, todo este atoleiro em que se converteu uma simples campanha para a menos participada das eleições, faça parte de uma estratégia conjunta dos dois principais partidos para a descredibilizar, aumentando a abstenção eleitoral.
Seja como for, esta campanha funciona como o aperitivo do que está por vir com as eleições autárquicas e legislativas. E o que prenunciam não é nada de bom. Pelo menos para quem tem preocupações com a democracia.
A consolidação democrática defendida pelos politólogos até pode ser uma realidade do ponto de vista jurídico e entre alguns sectores da sociedade portuguesa. Mas certamente não o será no seio dos covis partidários.
30 de maio de 2009
A política portuguesa, sempre, no seu melhor
26 de maio de 2009
Quem quer ser mentiroso?
25 de maio de 2009
Moura Guedes desafia Marinho Pinto
Convence a entrega dos dois talentosos artistas. Sabedor das águas em que navegaria, Marinho Pinto não enjeitou o convite e participou com assinalável desenvoltura no talk-show de Manuela Moura Guedes. Não estranhamos a prestação de Marinho Pinto, conhecido por qualidades aparentemente inconciliáveis como a de espalha-brasas inconsequente e Bastonário da Ordem dos Advogados.
A decadente apresentadora foi ao chão no segundo round para não mais se levantar. Todavia, os objectivos da estação de televisão foram claramente superados. A estação de televisão que começou com ampla participação financeira de forças ligadas à Igreja está de parabéns por ter captado tão bem a natureza do povo que ajudou a criar.
Não obstante este sucesso da TVI, lamentamos que a Entidade Reguladora da Comunicação e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista continuem passivas perante o enxovalho que é dado na profissão de cada vez que a fulana escancara a boca viperina.
Mas só lamentamos um bocadinho pequenino porque depois vinham as acusações de fascismo e o diaboasete.
23 de maio de 2009
Missionário Sócrates
No essencial, nada de saliente excepto o vazio de conteúdo, facto que nos apraz registar pois não seria justo mimar os espanhóis com um registo socratiano que nos é estranho. Os militantes espanhóis aplaudem, não só porque foram para isso instruídos e porque são tipos normalmente simpáticos com os forasteiros. Mas também porque ficaram com a ideia errada de que aquele homem grisalho de aspecto simpático, embora excessivamente «gesticulante», era o empresário do Cristiano Ronaldo.
Finalmente, ficámos com a impressão de que a interpretação e solução dos problemas que faz e tem de e para Portugal aplicam-se em rigor a Espanha. Essa leitura é deveras preocupante. Mas estamos convencidos que ninguém percebeu. Valha isso aos nuestros hermanos.
22 de maio de 2009
A lata dos trabalhadores, segundo padre Belmiro
Belmiro de Azevedo veio alertar que não é possível continuar a reivindicar «regalias» num cenário em que a população de desempregados aumenta e está disposta a fazer seja o que for para recuperar um emprego. Ora, o que o patrão da Sonae disse não é mais do que um recado escudado pela tão desejada bolsa de desemprego apregoada pelo patronato. E que sabemos não passar de uma útil arma de arremesso. É de aproveitar agora e aplicar-lhes a chibata para ver se aprendem a amar o trabalho...
Não é a produção que está em causa mas sim o escoamento dos produtos. Ora, se não é a produção que está em causa mas sim o escoamento, nesse caso, a Autoeuropa podia simplesmente eliminar o turno do sábado para poupar dinheiro e para se adequar à procura no mercado automóvel. Acontece que, por trás da manutenção do turno do Sábado, parece estar escondida a intenção de prescindir de centenas de trabalhadores com vínculo precário. Com menos funcionários, aumenta-se a carga horária dos que ficam e paga-se menos por igual desempenho.
19 de maio de 2009
Senhoura doutoura!
O moralismo defeituoso e a ruindade expressas nas acusações e ameaças desta professora são de tal ordem escabrosas que nem alguns padres poderão continuar a viver debaixo do mesmo tecto que sobrinhas e afilhadas, sob pena de se precipitarem em queda livre para os braços abertos do demónio.
Ao que parece, só no 12º ano é que a senhora professora deu beijos «assim», presume-se que, naquele combate de duas línguas que interpretam o jogo de gato e de rato e a que dão, pasme-se, a mesma designação de um peixe [talvez seja linguado porque o ambiente é aquático e há paredes contra as quais é atirado mas, na minha opinião, deveria ser moreia, pelo ambiente aquático, cavernoso e pela própria morfologia dos intervenientes]. E o linguado da professora só terá acontecido, naturalmente, por violação de um sexagenário embriagado, porque o empregado do restaurante se enganou e confundiu a amêijoa com o linguado ou por insistência do pastor alemão da vizinha já que nem os prostitutos teriam apetite para tanto.
As poucas conclusões a que podemos chegar no imediato é que os anos que passou a estudar não foram suficientes para falar correctamente português, tem a sensibilidade de um cão e sofre de distúrbios compulsivos de autoritarismo.
Fora isso… a esta hora estão os alunos todos a fornicar indecentemente e ela com uma depressão em casa, lubrificando um vibrador com lágrimas. Cada um é para o que nasce e ela não nasceu para ser pedagoga, educadora ou o caralhoqueafoda.
13 de maio de 2009
Pontes dialogantes
6 de maio de 2009
O caldo entornado
30 de abril de 2009
Entulho de volta ao arrabalde
28 de abril de 2009
Caldo ma non troppo
27 de abril de 2009
Detidos à força
25 de abril de 2009
25 de Abril
Contam-se mecanicamente os anos que passam sobre os tempos em que um projecto doméstico de emancipação e esperança nos caiu do céu proveniente da Pontinha, de Santarém e lá dos confins de gerações oprimidas e desrespeitadas. Veio por avião e de barco desde África. Forjou-se pelo desejo de sermos iguais aos outros povos europeus porque nos identificávamos com eles. O desejo de termos direitos e garantias respeitados. E de nos ajudarmos mutuamente para o conseguir. Um desejo, enfim, matizado pela meta de melhorar a condição de um povo. Mas o projecto foi contaminado, pela inevitabilidade da cultura e pelo mau uso das ideologias. Hoje, é celebrado com um travo amargo de impotência, de incontida insatisfação e, por vezes, dispensando-lhe exéquias como a um defunto. As mesmas que, em clara afronta, são identificadas na atitude do presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão por decidir homenagear um ditador num dia de liberdade. Entre avanços e recuos, trinta e cinco anos mecanicamente contados, o projecto democrático continua a ser o mais razoável, cabendo-nos a todos zelar por ele. E entendê-lo muito para lá da exiguidade temporal das nossas existências. Muito para lá do frio que faz lá fora.
23 de abril de 2009
Antes vivo do que morto: uma excelente estratégia
20 de abril de 2009
CDU apresenta Eduardo Luciano
Há dias, escrevi que o PCP teria pela frente um duro desafio: o de apresentar um «desconhecido» aos eborenses porque, de facto, Eduardo Luciano não tem, por exemplo, o capital social de que gozava José Ernesto quando venceu Abílio Fernandes em 2001. José Ernesto tinha uma ampla base social de apoio maioritariamente construída durante anos no serviço de obstetrícia do Hospital Distrital de Évora.
Esta leitura pode ser liminarmente rejeitada pelos partidos políticos, para os quais é o capital do partido enquanto colectivo, assim como as conjunturas sociais e coincidência ideológica com os partidos de governo, que determinam a escolha dos eleitores.
Esses factores são fundamentais. Contudo, se inclusive nas eleições legislativas há uma personalização evidente da política, nas autárquicas essa personalização é ampliada. Aliás, ajuda a explicar as vitórias sucessivas de Abílio Fernandes apesar da viragem que a dada altura se verificou na eleição de deputados à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Évora. Abílio Fernandes adquiriu o estatuto de figura tutelar e paternal que os eleitores desejavam para a condução dos seus destinos.
Neste momento e perante as circunstâncias de enorme desgaste por que passa o actual executivo e os próprios partidos políticos, talvez a estratégia de ruptura do PCP tenha bons resultados: um desconhecido para deixar a ideia de renovação e aggiornamento. Mas também se pode ter dado o caso de não haver mais ninguém a apresentar e de todos os outros terem rejeitado o convite.
Para José Ernesto, a luta principal não se centra no exterior. O combate mais duro que José Ernesto tem pela frente, será travado no interior das suas próprias hostes e perante si próprio. Além disso, vê-se agora na posição em que se achava Abílio Fernandes em 2001: exigência de mudança, necessidade de afirmação da cidade, precariedade financeira do município, desgaste da governação.
Um bom presságio para os próximos capítulos pois a dramatização dos personagens principais é indubitavelmente mais rica do que a de há quatro anos atrás.
Quando o verniz estala
18 de abril de 2009
Ladrão que rouba ladrão... sem anos de perdão
17 de abril de 2009
Hugo Chavez ditador?
14 de abril de 2009
Autárquicas 09: o grande desafio do PCP em Évora
13 de abril de 2009
Nada de mini saias...
A coisa até podia não ser tão bizarra caso tivesse sido previamente estipulado que, aos postos de trabalho em causa, corresponde a obrigação de trajar de farda. Integralmente assegurada pela entidade empregadora, pois então.
Mas não, a coisa não é simples. Os ditos funcionários não só têm que receber lições de atavio e decoro (mas não de competência), como ainda se vêem na contingência de assegurar que «não passam das marcas» perante os concidadãos.
E quem define as marcas? A senhora secretária de estado da modernização administrativa? Francamente, causa-me menos náuseas cheirar um daqueles perfumes baratos de gente pobre com aroma patchouli do que ser atendido por uma fulana com as fronhas da mulher. Com o devido respeito pela fealdade da senhora. Que é realmente acentuada. Também não estou a ver nem de saias, quanto mais de mini-saias...
O paradoxo maior, sem dúvida: a obrigação de uma apresentação aburguesada e segundo os padrões de uns quantos… numa Loja do Cidadão. «Loja», bem entendido…
3 de abril de 2009
Este país não é para velhos
26 de março de 2009
O Leviatão partidário
As tradicionais questiúnculas sapateirais motivadas pelos mais abjectos interesses partidários, estão na origem de mais um triste episódio protagonizado pelos partidos. Desta feita, o PSD não validou o nome de Jorge Miranda para Provedor da Justiça por uma simples questão de “princípio”: não foi um nome avançado pelo PSD. E que princípio é esse? É o princípio da ladroagem institucional, uma transposição da ética da ralé para a ética dos partidos políticos.
E como são exímios em dar distinta solenidade ao mais profundo desprezo pela democracia e pelas instituições democráticas.
Nos grandes partidos, o mal não está na ideologia quando existe nem no debate ideológico que pode daí resultar. Antes pelo contrário. Não, nestes grandes partidos o mal está na falta de qualidade de muitos dos seus dirigentes – autênticos caciques medidos em votos – e na soturna cultura organizacional que vigora.
24 de março de 2009
Escrito a bílis
20 de março de 2009
Foram-se os dedos, ficaram os anéis
14 de março de 2009
200 mil são uma ninharia para o governo
Mas o que impressiona verdadeiramente foi a acusação à pretensa «instrumentalização» dos sindicatos pelos partidos de esquerda, como se os sindicatos que convocaram a manifestação tivessem caído no mais deplorável pecado, o pecado de fazer exactamente aquilo que lhes compete. E como se a UGT não fosse instrumentalizada pelo PS.
10 de março de 2009
Fantoches de S. Bento
9 de março de 2009
à tout propos (314)
6 de março de 2009
Promessas de seriedade
Ficaram pela promessa de uns emocionantes bofetões e de um arraial à antiga portuguesa. O povo ficou expectante: serão afinal, gente do povo que chega a roupa ao pêlo por dá cá aquela palha, bebe umas minis e coça os marros?
A coisa prometia. Em vão, porque os senhores deputados decidiram-se afinal pelo recolhimento, possivelmente quando se deram conta que não têm um único pêlo no peito para mostrar à audiência.
Uma coisa é certa: com sessões daquelas, os partidos tornar-se-iam muito mais interessantes e o número de militantes inscritos subiria em flecha. Sei de muitos que se haveriam de inscrever imediatamente em todos os partidos. Não fosse a coisa mais animada nuns sítios do que noutros. Conforme as noites.
3 de março de 2009
Kramer contra kramer
Ironia, porque a miserável normalidade da Guiné não resistiu jamais à pilhagem sem escrúpulos do país e do povo por homens como os que se assassinaram mutuamente em duelo marcado por um invulgar desfasamento horário.
28 de fevereiro de 2009
Desemprego para todos!
27 de fevereiro de 2009
Um escândalo!?
20 de fevereiro de 2009
Da vergonha ao carnaval
De carnaval a vergonha pública
A vergonhosa decisão foi tomada ao arrepio dos mais elementares direitos democráticos e denuncia a total ignorância da censora relativamente à cultura de que, eventualmente, também será portadora. Lá que não goste de carnaval e padeça de dolorosa perturbação que a faça sofrer pelos outros, isso é um problema dela…
Agora, às claras e com a autoridade que o Estado lhe outorgou indevidamente, esta senhora não dignificou a justiça nem a instituição da democracia. Pelo contrário, censurou de forma ímpia a brincadeira de pessoas em liberdade, cuja acção nem sequer fora do contexto do carnaval poderia ser objecto de actos desta natureza.
A ditosa senhora confirmou também que os actuais «arautos da desgraça» não são os tolos do costume.
19 de fevereiro de 2009
Circus sound
à tout propos (312)
18 de fevereiro de 2009
Amor em tempos de crise
Ecos de Pessoa em 1975
16 de fevereiro de 2009
Eu, Burguês!
Simplex eleitoral
13 de fevereiro de 2009
Entardecer...
12 de fevereiro de 2009
Fumo e homossexualidade
Neste assunto delicado para a própria Igreja e para a clausura a que se sujeitam alguns indivíduos em mosteiros, praticamente isolados do mundo não fora a fé e o companheirismo desinteressado… sobrevém uma analogia perniciosa e malandra com a interdição de fumar. Pois... quem são os mais bravos soldados da causa anti-fumo senão aqueles que passaram por essa «hedionda» e «asquerosa» experiência durante anos?
11 de fevereiro de 2009
à tout propos (311)
10 de fevereiro de 2009
Dentro da noite veloz: um balanço do FSM de Belém
6 de fevereiro de 2009
Malhar na [da] direita

"Eu cá gosto é de malhar na [da] direita, e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas…”
E gostará de malhar indistintamente porque, em rigor, tanto podia ser a da direita como a da esquerda.
PS: A inclusão do artigo definido «da» é da nossa responsabilidade, devendo a sua ausência ter ficado a dever-se a uma eructação involuntária do senhor ministro.
«Se eu fosse rei...»
29 de janeiro de 2009
Saberes e poderes nos hospitais
Pois bem, os agentes habituaram-se a reproduzir e transmitir determinados padrões culturais. Os hospitais cresceram, transformaram-se. As sociedades também sofreram transformações, assim como o próprio modelo economicista da gestão dos governos, complacente com a perfídia de manter um Serviço Nacional de Saúde de importância «dispensável» mas coexistente com um sector privado parasita.
26 de janeiro de 2009
Uma maqueta para o futuro
Este é um problema que vem de trás, muito de trás.
Em primeiro lugar, é próprio dos adolescentes não frequentarem os espaços dos adultos. Portanto, aquilo que vale para uns não vale para outros. Em segundo lugar, os adolescentes não se contentam, legitimamente, com os divertimentos serôdios que nos ocupavam a nós e que se resumiam a umas festas e a saídas à noite com destino marcado. Isto não quer dizer que, hoje, as coisas sejam muito diferentes. Acontece que, há vinte anos atrás, o grande pólo de referência em termos de oferta era a área metropolitana de Lisboa. E um fosso abria-se entre aquela enorme mancha de luzes e o resto do país, só iluminado pontualmente aqui e ali. Hoje as coisas são diferentes.
Não chega haver espaços de diversão nocturna, geridos por empresários (nalguns casos pouco conscienciosos) ou por associações culturais pouco dadas a cultura de massas.
Na verdade, Évora nunca se preocupou muito com as gerações vindouras. Em parte, porque tem vivido obcecada pelo passado. Um passado glorioso, é certo, mas que se esvanece irremediavelmente se não for integrado numa estratégia em que o futuro se assuma como o capitão de um navio. E o futuro são estes «putos». Podemos gizar projectos magníficos, extraordinárias intenções e concretizar obras de vulto. Mas se não for a pensar neles, de que servem? Não basta projectar um futuro e dar-lhe a dignidade de uma maqueta. É preciso que as pessoas estejam no centro da maqueta e a mesma se desenvolva a partir delas.
Não há espaços de referência juvenil.
Refiro-me a estúdios e laboratórios de projectos nos quais esses jovens possam treinar competências profissionais, sociais e pessoais. Conheço alguém que esteve numa entrevista em Julho na CME para trabalhar na área do associativismo e juventude. Entre outras coisas, propôs um projecto de voluntariado jovem que treine competências, estimule a responsabilização e ajude a preparar os jovens para os desafios que lhes colocará a vida. Com as devidas contrapartidas. Por coincidência ou não, em Outubro surge o projecto V Jovem com características semelhantes, promovido pela autarquia. Não tendo sido coincidência, é de saudar a predisposição dos responsáveis para acolher novas ideias e, sobretudo, demonstra que as pessoas têm vontade de fazer. Tendo sido coincidência, é de lamentar a falta de atenção ou a ausência de um motor de arranque porque, na verdade, são ideias antigas e amplamente trabalhadas noutros locais.
Estou-me a referir também a espaços de sociabilidade, onde estes jovens possam desenvolver as imprescindíveis interacções que dão sentido à sua existência. É razoável pensar em tirar a consola da Playstation ou o comando da TV da mão dos miúdos e mandá-los vagabundear pela cidade ao fim-de-semana? Fazer o quê? Ir ao café? Ir à bola? Ver as montras? Dir-me-ão o seguinte: «ao fim-de-semana é para estudar». E eu respondo em coro com eles: «pois, também é»…
21 de janeiro de 2009
Jaime Isidoro 1924/2009
Se a garrafa viera, fizemos questão que com ela se sentassem os seus acompanhantes: o que comia e o que servia. Juntos à mesma mesa. Fosse pelo seu ritmo de vida, fosse pelo prazer da noite, o desconhecido que comia fazia-o no contra-ciclo da clientela normal. E deitava um olhar fugaz mas atento e ávido de contacto.
- Obrigado pela gentileza mas agora têm que se sentar connosco. Convidámos. Os dois homens aceitaram e depressa confirmámos que a deles era uma relação que ultrapassava a vulgar esfera comercial. Eram amigos. A minha suspeita foi confirmada mais tarde, quando o homem do Pinhão nos disse que lhe não cobra nada pelas refeições; ao outro, o que comia. A coisa ficava paga com umas pinturas oferecidas das quais, o que servia, dizia jamais se via a desfazer. Como se ali tivesse uma autêntica relíquia. Tê-la-á, certamente.
- Jaime Isidoro? Peço mil desculpas mas, de facto, somos uns verdadeiros ignorantes. Respondi embaraçado, quando o que servia tratava de apresentar convenientemente o que já não comia mas beberricava a sua aguardente, agora, com o do Pinhão e na companhia do casal de «mouros» desconhecedores de tanta coisa.
Foi assim que permanecemos sentados no “Snoopy” até às 3 da manhã, percorrendo décadas na vida intensa de um homem simples, extraordinariamente espirituoso e de uma sensibilidade aguçada. Particularmente tocante quando se referiu à companheira de sempre: a das letras.
Depois das despedidas e das incontornáveis promessas de visita, muito para lá da porta da rua, ouvimos um surdo mas inconfundível apelo, proveniente da penumbra. Olhámos para trás. Era o amigo Jaime que nos chamava. Saltitava desajeitadamente na nossa direcção, convidando a conhecer a sua galeria, situada a alguns metros de distância do “Snoopy”. Conhecemos, enfim, mais alguns retalhos da sua vida e, por que não, do percurso recente das artes plásticas em Portugal. Ficámos a saber como a idade e a experiência lhe trouxeram a autoridade suficiente para sintetizar tanto num só traço ou, simplesmente, numa mancha de tinta arremessada contra a tela.
Dele, guardamos a amizade. E um grande privilégio por o ter tido como mestre, ainda que, por apenas um par de horas. As suficientes para lhe dedicar este texto.
...Saiu do sonho de King
À pergunta de José Saramago no seu caderno virtual "donde saiu este homem?", talvez possamos responder que saiu de um sonho, do sonho de Martin Luther King, contado em 28 de Agosto de 1963, também em Washington.
Contudo, ou não terá a vida fácil domesticamente ou, depressa aprenderá que os discursos fluidos invocando os valores e os princípios só devem ser proferidos entre amigos. Os próximos anos permitirão perceber se o engasganço de ontem veio ou não para ficar.
19 de janeiro de 2009
Asilo político?!
O cenário mais provável é que, com excepção das teocracias islâmicas, nenhum país esteja disposto a receber este jornalista iraquiano porque, como é do domínio público, a invasão americana do Iraque veio libertar o oprimido povo que, agora, vive livre e em democracia. Assim, não faz sentido que alguém se possa queixar de perseguição política. E não é disso que se trata porque, evidentemente, se alguém se pode queixar de perseguição política, esse alguém é justamente o presidente Bush que ainda hoje se interroga como se conseguiu esquivar. Embora o o sapato esquerdo não tenha passado muito longe...
Em contrapartida, o 44º presidente dos EUA tomará posse no dia 20 em clima de grande festa mundial, cujo epicentro ocorre precisamente um dia antes e assinala o derradeiro dia de George W. Bush, o pior da galeria, à frente da Casa Branca.
Bem vistas as coisas, seria útil para os cartoonistas e humoristas do mundo, se a República Independente do Atol da Mururoa concedesse asilo político ao jornalista e a Bush numa ilha deserta, inteiramente reservada para os dois. Portugal podia entrar com um par de sapatos. Para dividir… que a crise não está para luxos…
14 de janeiro de 2009
A diferença, está no chocalho...
13 de janeiro de 2009
As origens...
4 de janeiro de 2009
Ano novo, vida nova...
Bom ano.
27 de dezembro de 2008
Falta de originalidade?
19 de dezembro de 2008
Estatuto Político Administrativo dos Açores
O problema da centralização de poderes nem sequer se pode colocar porque, para além do presidente da república jamais ter usado o expediente de dissolução da Assembleia Regional, não faz grande sentido que tenha essa prerrogativa relativamente ao órgão legislativo mais importante do país – a Assembleia da República – e não disponha da mesma para dissolver um órgão de menor importância na hierarquia do Estado português.
Se o problema da centralização diz respeito à figura do presidente, então que o transformem num titular chief, cujas únicas competências passem a ser a representação do país em actos oficiais. E receber amigos exóticos no Palácio de Belém.
Não me parece que o problema da centralização dos poderes esteja nestas prerrogativas presidenciais. A dimensão mais nociva da centralização vem, em primeiro lugar, da própria organização do Estado português, no seu relacionamento paternalista com as autarquias locais.
Talvez mais importante do que este Estatuto Político Administrativo dos Açores será sem dúvida a verdadeira descentralização do Estado operada através da Regionalização e da criação de estruturas de poder intermédio. E, também, a reorganização político-administrativa das autarquias locais: há demasiadas freguesias e municípios, cujas respectivas afectações sócio-territoriais são, em muitos casos, inconsequentes, dispendiosas e ineficazes.
Finalmente, talvez seja bom recordar que um dos casos mais graves de centralização e abuso de poder vem, efectivamente, da Madeira. Com a patética condescendência de todos.
18 de dezembro de 2008
Superioridade moral
Ontem recebi uma comunicação do BPI na qual se informava os clientes que, a partir de Janeiro o banco passará a cobrar 4 euros acrescidos de 4% de imposto de selo por cada dia em que as contas à ordem permaneçam com saldo negativo.A curiosidade não é a normal voragem, ainda que em tempos de aperto para a maioria dos clientes; nem a ameaça da pesada «coima» que sobre eles esvoaça sombriamente.
Aqui, a curiosidade tem que ver com o facto do sistema que reivindica dos seus clientes uma conduta em conformidade com o princípio da responsabilização individual é o mesmo sistema que parasitou durante anos esses clientes, estimulando descaradamente uma conduta em desconformidade com o princípio da responsabilização individual, retirando dessa conduta amplos lucros. Ou seja, em altura de aperto, o BPI – tal como todos os outros bancos – vem agora arrogar-se de uma superioridade moral que, devo dizê-lo, mete algum nojo.
Já que estamos em maré de curiosidades, a superioridade moral desta corja é afiançada pela venda de 10% do capital do BPI pelo BCP à filha do déspota angolano José Eduardo dos Santos. Portanto, neste momento, o BPI passa a ter também capital manchado de fome, corrupção, violência e tirania.
Em matéria de superioridade moral, estamos conversados.
16 de dezembro de 2008
Depois da tempestade, a bonança...
O carácter maquiavélico do segundo momento só seria expurgado se o ministério das finanças reconhecesse, pelo menos, o erro de não ter notificado os contribuintes imediatamente após a recepção da declaração de 2006. E se desse mostras de representar os interesses do Estado, logo, das pessoas que o integram. Não o fazendo, reconhece a má-fé da sua actuação.
* A comunicação do Estado acerca de alterações normativas ou regulamentares resume-se normalmente à publicação em Diário da República e site da DGCI, cuja orientação para os mais mobilizados, qualificados e curiosos faz destes recursos, instrumentos de dilatação da assimetria e exclusão. A respeito disto, ainda hoje foi publicado um estudo relativo à utilização das novas tecnologias pelos portugueses. O cenário é paupérrimo.
15 de dezembro de 2008
Confirma-se, o andebol iraquiano é fraco
Adorado nos quatro cantos do mundo, o enciclopédico presidente Bush assistiu a um congresso de andebol no distante Iraque. Os responsáveis da Federação Iraquiana de Andebol reservaram-lhe uma emocionante surpresa mas nem assim conseguiram convencer George Bush a interceder por eles junto da IHF (International Handball Federation).
12 de dezembro de 2008
O regresso do Estado?
Há, por outro lado, uma animosidade popular muitas vezes associada à esquerda que não compreendo inteiramente porque, do ponto de vista ideológico, o «regresso do Estado» representa justamente os princípios marxistas herdados pela social-democracia (socialismo em Portugal) e pelo comunismo. Ainda que esse regresso seja feito em pezinhos de lã. Deviam, sobretudo, participar no reforço do poder de regulação do Estado que não passa unicamente pela «salvação» de empresas; mas também.
Seja como for, perante uma crise económica desta magnitude, não se pode proteger os direitos dos trabalhadores deixando cair os postos de trabalho criados pelas empresas. Não vejo como. Aplica-se o valor que custou a nacionalização do BPN em subsídios de desemprego que não criam riqueza? É essa a alternativa?
10 de dezembro de 2008
Uma promessa por cumprir
Mas os progressos terão sido alguns. Há precisamente um ano, quando Kadhafy esteve acampado em Portugal por ocasião da Cimeira UE-África, o seu staff fez publicar, entre outras coisas numa página inteira do jornal Público, a seguinte frase enigmática: «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado na morte colectiva».
Espero, francamente, que toda esta abnegação esteja a dar resultados e que não se exagere no uso da metralhadora quando há necessidade de fazer umas limpezas colectivas. Certamente que os gajos no Darfur seguiram o apelo deste bom homem.
Hoje comemora-se o quê?!
A EPRAL distribuiu diplomas na Universidade de Évora
Segundo consta, os diplomas destinaram-se unicamente a alunos da EPRAL.
9 de dezembro de 2008
Afinal, temos recessão!
Coacção legítima dos Estados
Amanhã comemora-se o sexagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH). Naturalmente que a DUDH é subsidiária do espírito emergente dos ideais iluministas, cujos primeiros exemplos serão certamente as constituições dos EUA (1787) e de França (1791).
Estes ideais estão na base da construção do Estado Moderno e foram vertidos para a Lei Internacional que rege as relações entre os povos. Embora não fosse universal, no sentido da aplicabilidade, a DUDH passou a ser universal enquanto desiderato a atingir. Foi subscrita e conservada por países como o Zimbabué, antes e depois da descolonização.
Para que a Lei Internacional fosse observada e os direitos dos povos garantidos, foi igualmente vertida para a ONU a figura da coacção legítima, neste caso, alimentada pelos Estados.
A meu ver, a ingerência nos assuntos dos Estados nacionais termina quando o povo de um país não encontra outra coisa no Estado senão repressão e a não satisfação de necessidades primárias se deve à acção directa e voluntária dos governantes.
8 de dezembro de 2008
Onde pára a ERC?
Nem o neo-imperialismo vale àqueles desgraçados
Mas, distantes, os líderes ocidentais cumprem a mesma hipocrisia e indiferença com que lidaram com os regimes totalitários emergentes na Europa no início do século XX. Com uma agravante: não há já, no Zimbabue, nada que seja interessante defender. Só, talvez, eventualmente, a dignidade humana. Isto, claro, se esse conceito for extensível a nações cultural e geneticamente «inferiores».
5 de dezembro de 2008
Manuel João Varela 1913-2008
Sempre foi assim. Homem bondoso e sensato, portador daquela dignidade só reconhecível nos grandes. Desde os tempos do Monte Airoso em que, rapazola, se aventurava por aqueles cabeços, até à Rua da Parreira.
Quando a minha avó desistiu, depois de alguns anos em luta contra a solidão de Alzheimer, chorei. Chorei, impressionado por vê-lo chorar ao meu lado, inconsolável, enquanto assistia à deposição do corpo. Com um desconsolo talvez parecido ao meu, alguns dias mais tarde. Mas impediu-me de chorar, chorando ele em vez de mim, talvez querendo carregar com tudo quanto havia para carregar.
Sempre me habituei a ouvir palavras de estima e grande carinho sobre aquele velho afável. De desconhecidos. Não há muito tempo, fui abordado aqui em Évora por um cigano oriundo de Portel. Perguntou pelo meu avô e despediu-se batendo com a mão no peito. Depois dele, recebi o contacto da irmã. Falou-me da minha família. Transmiti esse orgulho ao meu pai e dei-lhe um abraço.
Hoje, o patriarca partiu. Os meus valores não são outros que os teus. Resta-me o teu filho mais velho, quiçá o melhor depositário do teu legado.
4 de dezembro de 2008
à tout propos (310)
3 de dezembro de 2008
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2 de dezembro de 2008
Fare il portoghese
Por vezes, aspectos desse enigma podem revelar-se falaciosos. Há uma expressão italiana usada para classificar algumas classes de burlas, como o clássico «entrar à borla», oportunamente invocado por um transeunte alegadamente habitué de In Tenui Labor e, ainda mais preocupante, masoquista sem rumo. A expressão fare il portoghese nasceu quando, na sequência de uma embaixada enviada por D. João V a Roma com o fito de exibir as conquistas africanas ao Papa Clemente XI, os romanos se fizerem passar por portugueses para poder aceder a eventos reservados aos lusos.
No decorrer dos séculos, esta expressão foi adquirindo contornos pejorativos que, gradualmente, se foram colando à idiossincrasia portuguesa. Hoje, o italiano médio terá exorcizado totalmente essa conduta condenável da sua própria história, contribuindo para reforçar a nossa tese do «chico-espertismo» lusitano.




