18 de julho de 2009

Ensaio sobre o absurdo i


Quando a Gasosa convidou para a rubrica Gasosa Convida, fui levado a recusar por não me lembrar de ter sido convidado, por o carro não pegar e por uma cegonha fardada de Express Mail me ter batido à porta intimando-me a levantar a encomenda que estava no Depósito M-53 do Cegonhoporto local há cerca de 270 dias.

Encurralado, resolvi aceitar de boa vontade. Inicialmente, pensei em pregar-lhe com algumas suras do Corão ou outras tantas leis do fiqh ou, ainda, uma das 3573 máximas que trago decoradas sempre à mão para enfrentar qualquer circunstância com que me deparo no quotidiano. Mesmo em situações francamente embaraçosas como daquela vez em que o presidente da república me pediu um exemplar do Borda d’Água na casa de banho de uma loja da Mango em Alcabideche. Felizmente não era nada comigo e o homem era afinal um professor irado com a Maria de Lurdes Rodrigues por causa do cozido de grão que aquela terá deixado displicentemente ao lume.

Pensei igualmente em resolver o assunto enviando uma fotografia do Fernando Mendes a fazer o pino no lombo de um touro bravo. Mas o touro não colaborou e o aspirante a humorista conseguiu sair ileso da sala de desmanche antes que lhe cobrassem a entrada.
Assolado por tenebrosas e incapacitantes dúvidas, fui acometido por um terrível ataque diarreico quando lia o jornal e ocorreu-me a ideia de trabalhar em part-time num ensaio sobre o absurdo. Pensei, em jeito de desabafo, «absurdo ou cegueira, é tudo a mesma coisa», apesar de não viver numa ilha vulcânica coberta de cinzas onde não se topam mais do que calhaus menores de idade.

Como é do conhecimento geral, etimologicamente, absurdo deriva de uma norma incapacitante e defeituosa: «o surdo». Mas isso não interessa para o caso. Ora, neste mundo em que vivemos e numa perspectiva meramente metafórica, não ouvir é como não ver, logo, o ensaio está concluído e demonstrado.

Depois deste importante depoimento de um indivíduo com um notável percurso na apanha do tomate, entramos finalmente no assunto encomendado.

Era eu um pré-adolescente, imaturo e inconsequente quando os americanos deram guerra ao Iraque. O que tem isto a ver com o propósito deste texto? Nada! Mas achei que seria útil dizer que esse determinante facto histórico ocorreu paralelamente às minhas investidas na taberna ao lado da escola em busca de bagaços vespertinos e drops de frutas. In illo tempore, como se costuma dizer, não haviam mais do que três ou quatro motos com cilindrada superior a 125 cm³ em Évora e o Chico era o maior mentiroso do Alentejo. Fosse como fosse, passava os meus santos dias nas aulas com o rabo sentado num intenso formigueiro, as pernas orientadas para a porta de saída [ou para a janela, conforme os casos], e a cabeça estacionada em alguma parte da lua. Confesso que nunca me soube orientar naquele planeta estranho, talvez por ser tudo um bocado a preto e branco. No entanto, desse alongamento físico-espiritual se depreende a minha fisionomia de núbio, só traída pela estatura pigmeia de toda a minha família.

E a que me dedicava eu nesse frenesim? À pintura! Pode parecer estranho escrever um texto e não apresentar nada artisticamente relevante mas… sempre fui uma criança difícil e quase entrei para a Opus Dei, não fora a denúncia de orgasmo manualmente induzido a bispos irlandeses, feita por uma colega da escola a quem eu me esquecia de desejar «um bom fim-de-semana» à sexta-feira. À conta disso fui chamado à presença do director da escola a quem tive que explicar detalhadamente por que razão a sua mulher pedia sempre boleia ao professor de ginástica e não ao próprio marido. Era uma liberal e eu queria ser um pintor vagamente conhecido. Por isso, não dava para casarmos.

De regresso ao principal assunto, na esperança que eventualmente ainda pudesse entusiasmar algum leitor (assim eu me lembrasse do que estava a falar), a pintura e a reflexão conduziam-me em viagens epopeicas numa espiral que terminava em êxtase no centro da sala de aula a esvoaçar na companhia de imensas moscas sem GPS. Nessas viagens, perturbadas irritantemente por uma criatura que exigia ser chamado «professor», eu não me dedicava a nada em especial mas era feliz pelas pinturas que, por vezes, encontravam a glória nas gargalhadas dos colegas imediatamente sentados à frente e imediatamente sentados atrás. Isso, num primeiro momento porque, em rigor, alguns minutos depois acabava inexoravelmente na rua com falta a vermelho, conquistando um espaço de afirmação intelectual e artística só reservada às crianças brilhantes. Por isso é que nunca consegui passar do 9º ano.
Para além das pinturas eróticas e das cabalísticas, sempre manifestei um particular interesse pela aero-náutica. Por esse motivo, os meus desenhos reflectiam predominantemente um casamento entre a aviação e o surf-Presto. Por nenhuma razão em particular. Nos aviões a jacto era comum instalar um estendal de roupa preparado para se apeitar com velocidades supersónicas. Julgo que, simbolicamente, se trataria da representação das marés e ventos que lavam e secam a roupa, costume culturalmente muito relevante, embora não seja de descartar a minha sensibilidade ecológica já manifesta naquela altura. Com essa manifestação de castidade desencadeada por roupa impecavelmente lavada, seca e passada a ferro a 2G, o que eu pretendia era, nada mais e nada menos, comprovar a existência de Deus.

Naturalmente nunca o consegui mas aqueles desenhos, dos quais não guardo uma única cópia, revelavam antes de mais que não pode haver criatividade na unidimensionalidade. Ou, pelo menos, não é aceitável. Caso contrário, teríamos o mundo governado por albertos joões jardins.

Isto não tem piada nenhuma mas o objectivo foi cumprido e pró ano serei professor titular.
Originalmente publicado em Vai uma gasosa?

16 de julho de 2009

Filho de ministro

A diferença entre uns e outros reside simplesmente naquela relação ancestral que se expressa pelo tempo disponível e pela garantia de satisfação de necessidades. Há espaço para errar e nada de mal acontece. Ao filho de ministro é pedido que viva, ao filho de operário é exigido que sobreviva. Há, inclusive, aquela máxima que diz «o desemprego quando nasce, não é para todos».
Certamente consciente destas minudências, o ministro do trabalho e da solidariedade social, Vieira da Silva, anunciou a diminuição das assimetrias sociais com base numa suposta redução da pobreza entre os escalões etários mais idosos. Para isso, sustenta, muito contribuiu o Complemento Solidário de Idosos. E, quanto a nós, o desaparecimento daquela parcela de população rural que, com a reforma de Marcelo Caetano, passou a ter direito a uma espécie de esmola institucional. Ter-se-á esquecido certamente de referir que as assimetrias medem-se com referência a dois intervalos. E o intervalo superior, aquele dos porsche's, casas de luxo e aviões privados terá sido aquele que, lamentavelmente, ficou de fora das cogitações do ministro.

à tout propos (316)

Em matéria de democracia, Jardim da Madeira não recebe lições de ninguém, inclusive quando afirma reger-se por uma máxima que consiste em «proibir a proibição». Daí a sua proposta de inconstitucionalidade do comunismo. Semelhante à que vigora na sua ilha, com a única excepção de ter sido decretada uma espécie de tolerância para com «essa cambada de tolos».

14 de julho de 2009

Para quê, um novo partido?!...

O rescaldo para o futuro vaticinado em 2006, na sequência das eleições presidenciais, não se verificou um prognóstico suficientemente sólido ou, pelo menos, tão certeiro quanto as profecias do Bandarra. Estou-me a referir em concreto à possibilidade aventada de a candidatura independente de Manuel Alegre poder significar o desmame final do poeta em relação à esquerda moderna de Sócrates e dos seus correligionários.
Essa poderia não ser a intenção do autor de Praça da Canção, contudo, era um cenário apetecido pelos que, nessa circunstância, o apoiaram.
A premissa de partida revelou-se inteiramente errada porque, recordamos, era admissível que aquela candidatura envolvesse um ponto de ruptura dentro do PS e, mercê da base social de apoio que mereceu, era expectável que a ruptura fosse institucional e significasse algo novo. Um novo partido político, por exemplo, mais próximo do marxismo não ortodoxo que está na base do socialismo em Portugal e no mundo.

Mas não, a anunciada ruptura foi eminentemente estratégica e as tomadas de posição que foram sucessivamente assumidas por Manuel Alegre demonstram que o sentido utilitarista prevaleceu sobre o telos ideológico.

O agigantamento da esquerda nas últimas eleições e o avanço da direita ditaram um humilhante resultado para o PS e colocaram os seus dirigentes exactamente onde Alegre queria que estivessem, isto é, sob a periclitante corda bamba que ele, Alegre, julga poder estabilizar. Arauto do socialismo, Alegre lá foi avisando o PS na última semana com maior acutilância do que o costume. E Sócrates entendeu o recado, ao proibir que algum lacaio teça considerações que afugentem o eleitorado que sobra.
Neste negócio entre Sócrates e Alegre só falta mesmo o sacerdote. E nem sequer podemos entender o compromisso como uma novidade ou inflexão política. Para desilusão de alguns...

7 de julho de 2009

à tout propos (315)

O presidente da república vetou mais um diploma emanado da Assembleia da República. Desta vez foi a Lei do Segredo de Estado. Uma lei que havia merecido a concordância das bancadas parlamentares do PS e PSD. Mas, a avaliar pela pronta anuência de socialistas e sociais-democratas, Cavaco Silva deverá ter a razão toda do seu lado e, qualquer dia, o poder executivo…

3 de julho de 2009

Manel Pinho foi promovido


Este é o assunto da ordem do dia: a demissão do ministro da economia, Manuel Pinho. Com um desempenho algo apagado durante todo o mandato, decidiu sair do armário em vésperas de banhos. E de eleições. O excessivo protagonismo de Sócrates terá estado na origem desta necessidade de afirmação. É compreensível, todos fazendo os seus mitetes e o menino manel a interpretar o papel do marrão bem comportado durante quatro anos. O truque é relativamente simples. Basta encostar as costas de ambas as mãos às fontes e recolher os dedos à excepção dos indicadores. Estes, devem permanecer em riste, como que a visar alguém. Mas tem que ser com convicção. Diz que não caçou ninguém apesar de não constar que os comunistas sejam particularmente dados a touradas.

Ao escolher secar potenciais sombras com a escolha de políticos de duvidosa qualidade para ministros, Sócrates arriscou. E Manuel Pinho (aliás, como Vital Moreira, Augusto Santos Silva, Maria de Lurdes Modesto - perdão, Rodrigues - Mário Lino, etc.) fez-lhe a vontade. São célebres as hilariantes e insistentes intenções de suicídio político protagonizadas pelos membros do seu governo. Mas Manuel Pinho foi mais longe e, desgastado por quatro longos anos a ganhar mal, decidiu pedir ali mesmo a sua promoção.

Não obstante, o acontecimento com maior impacto na vida nacional (aquilo do Parlamento é vergonhoso mas habitual) veio directamente do Brasil e da ameaça de Maria João Pires, a pianista que deseja deixar de ser portuguesa e dar o berro do Ipiranga. Uma escolha acertada porque se teme que qualquer dia não restem brasileiros no Brasil. Há que povoar aquela terra. Porque é que acham que o Saramago foi viver para aquela terra desértica e árida no meio do Oceano Atlântico?

29 de junho de 2009

à tout propos (314)

Talvez por força da dimensão, a probabilidade das redes de conhecimentos e amiguismo nos EUA é certamente menor do que em qualquer país europeu, incluindo Portugal. Longe da perfeição, a menor permeabilidade da Justiça e a ética americana do bem e do mal fazem o resto. Aqui, não há «talvez», com todos os desacertos que sabemos haver. Como é evidente, a pena de morte e a necessidade obsessiva de produzir sentenças são o reverso da medalha, com indivíduos injustamente condenados num sistema onde os bons advogados são perfeitamente inacessíveis ao vulgo; onde a dureza das penas não estanca a violência nem resolve as suas causas.
Mas, para o bem e para o mal, casos como o de Madoff são exemplares. Não pela dureza da sentença mas pela equiparação do crime económico ao crime de sangue: ambos comportam sequelas que podem ser irreparáveis. Sem hesitações.

Poder Absoluto

Da aglutinação das palavras demo e kratos resulta a célebre fórmula «governo do povo». Será esta ideia condição suficiente para justificar alterações de humores com repercussões de fundo?


Na democracia representativa, forma de governação mais corrente nas democracias contemporâneas, espera-se que os cidadãos escolham entre propostas políticas alternativas de governação. Mas não se espera que questionem a totalidade do sistema político num determinado momento, sem reflexão e sem conhecimento cabal das consequências que advêm de uma dada decisão permeável à instabilidade climatérica. Em suma, em democracia não se espera que as transformações estruturais sejam decididas pelo povo de forma leviana e irresponsável, a quente, porque está em causa o bem-estar geral das actuais e das próximas gerações.


Em contrapartida, as revoluções que conduziram historicamente a alterações de paradigmas podem estar mais ou menos latentes na sociedade, podem incluir maior ou menor ruptura social, podem justificar mais ou menos derramamento de sangue. Mas são revoluções, processos dinâmicos de ruptura que se assumem como tal. Às claras. São transições. Coisas como «Revolução Islâmica» e «Revolução Cultural» deixam de o ser à medida que se consolidam as suas instituições e as populações interiorizam a nova ordem.


Mas na Venezuela ou nas Honduras, são desejadas transformações formuladas ad hominem que incidam primeiramente no status quo do líder, daí resultando uma fórmula estranhamente semelhante à adoptada por países como a Coreia do Norte. Nestes casos, assumindo a manipulação dos próprios instrumentos da democracia da forma mais populista ao recrutar para a barricada dos espoliados a parcela de população mais desfavorecida. Do outro lado da barricada estão os gatunos, os ladrões, em suma, os marranos da contemporaneidade.


Por «muito» que custe a esses líderes, na democracia não pode caber o culto «monárquico-fascista» da personalidade nem o roubo descarado. Esse é outro sistema político ou, no limite, um vão projecto democrático. E é justamente isso que Chavez e Zelaya procuram fazer através da utilização abusiva de instrumentos democráticos como o referendo, subjugando os princípios e valores democráticos à sua ambição de poder, aos seus caprichos pessoais. Para quê insistir então numa ideia de democracia?


O poder absoluto não é compatível com as aspirações a modelos de governação democrática, nem nesses países nem em qualquer outra parte do mundo. A esse respeito, o mesmo se pode constatar no Irão, Angola, Birmânia e tantos outros países, alguns deles, ocidentais. Embora o descaramento seja mais refinado no hemisfério norte e também seja aqui que os valores democráticos estão mais disseminados, pelo menos do ponto de vista formal…


A democracia não se exporta nem se transacciona como num mercado de frutas. Pratica-se! E esses indivíduos têm que fazer uma escolha que se cifra entre a adopção plena dos valores e princípios democráticos, e a revolução onde possam conquistar a legitimidade de ser aquilo com que mais fantasiam desde crianças. Uns, movidos pela vingança, outros pelo poder, outros pela fortuna, outros pelo lugar na história. Mas, geralmente, pelos piores motivos e com as piores consequências para aqueles cujos direitos dizem defender.



PS: Como é evidente, também não são solução as reacções dos militares hondurenhos ou as chacinas de presidenciáveis na Guiné-Bissau. Contudo, são mais coerentes com os respectivos regimes do que se possa imaginar à primeira vista.

26 de junho de 2009

Michael Jackson





A imagem do mulato com ar exótico a segurar o almofadado protótipo de felino acompanhar-me-ia para sempre, obnubilando os extravagantes e controversos episódios que se seguiram na vida de Michael Jackson. Lembro-me de percorrer a capa do álbum com o disco nas 33 rotações, deitado de barriga para baixo na carpete laranja do quarto que contrastava claramente com o luxuoso piso em que Jackson figurava naquela pose descontraída. Procurando perceber o que eram as lyrics e os chorus, aquelas foram possivelmente as minhas primeiras aulas de inglês. Ouvi aquele LP vezes sem conta, alternando-o com o Rio, dos Duran Duran. A pose confiante enfiada naquele olhar cândido (da capa) e, sobretudo, o tigre, transportavam-me para um mundo de sonho só desfeito pelo chamamento para o almoço e pelo teledisco do Thriller, algo impressionável para uma criança de 10 anos.


Michael, o rapaz maravilha dos Jackson Five, o Pelé da música, faleceu esta noite. Inigualável, o rei da Pop, deleitou gerações, deixou uma marca de enorme qualidade (musical, performativa, comercial), acirrou polémicas diversas (da vitiligo às acusações de abuso sexual de menores), suscitou paixões massivas e envolveu-se em intervenções de incontestável beneficência.

Mas de todas, fico com aquela imagem tutelar que também servia de quarteirão para os meus carrinhos. Bom, fico também com a imagem da sua primeira aparição no teledisco do We are the world, verdadeiramente excepcional.



23 de junho de 2009

Pérsia Livre ii

"Como é evidente, esta rapariga trabalha a soldo dos americanos com o objectivo de desestabilizar o tolerante e idóneo regime iraniano".

Há quem pense realmente assim e por essa via procure diabolizar os americanos e todo o mundo ocidental. Não se lhes pode negar esse direito. Faz parte de uma formatação mental que não se pode esperar tolerante, flexível ou autónoma. A mesma de que são acusados, com justiça, os agitadores do fantasma comunista.

Fundamental, fundamental, é pressentir que acontecerá a estes jovens o mesmo que aconteceu à geração da Primavera de Praga, cujo sonho seria concretizado vinte e um longos anos depois. O mesmo que sucede actualmente na China, vinte anos depois de Tiananmen. Protestos com esta violência e este tipo de repressão não são artificialidades das sociedades industriais. São próprios de regimes totalitários, aqui designados eufemisticamente por teocracias.

A dignidade humana não pode ser, evidentemente, cúmplice do fanatismo religioso e do domínio absoluto.

22 de junho de 2009

Antes a Chimay...

Na televisão, debatem Nuno Melo do CDS e João Semedo do BE. Os assuntos do costume: desemprego, têgêvê, rebéubéu pardais ao ninho. A Chimay Bleu fica-lhes à frente. Não por ser alcoólica mas por ajudar a reposicionar o mundo no seu devido lugar.

21 de junho de 2009

Pérsia livre

No Irão, território correspondente à antiga e saudosa Pérsia, pátria do conhecimento e de uma cultura universalizante, luta-se pela Liberdade. Luta-se pela secularização da sociedade.

20 de junho de 2009

As três vantagens de Durão Barroso

A grande vantagem de José [Durão] Barroso é não ser francês, inglês ou alemão.
A sua segunda vantagem é não ser espanhol, holandês, italiano ou polaco.
A sua terceira vantagem é não ser sueco, finlandês, dinamarquês, belga, luxemburguês, irlandês, grego, hungaro, bulgaro, romeno, estónio, letónio, lituano, checo, eslovaco, austríaco, esloveno, maltês, cipriota.

18 de junho de 2009

A natureza de Sócrates

Analistas políticos, jornalistas, competidores, curiosos e outros estimavam que o resultado das eleições europeias fizesse baixar a bola do primeiro-ministro. Ansiavam por uma demonstração de humildade e reconhecimento do fracasso de algumas políticas, de um certo estilo de governação, ainda que esse duro fardo não representasse mais do que uma encoberta estratégia de apaziguamento dos eleitores com vista ao próximo acto eleitoral.
Quando mais se aguardava por esse mascarado acto de contrição de Sócrates, este acabou por desiludir a assistência. Não se conteve e do cordeiro emergiu o lobo esfomeado. Atacou. Atacou a direita, procurando celebrar a política de esgotamento dos sociais-democratas que retirou da cartola em 2005. Tal como a anedota do escorpião e do elefante, o que é que se pode esperar... é da sua natureza ser assim...

17 de junho de 2009

O Pinto da Costa é que é o pilantra...

Luís Filipe Vieira, manda-chuva do Benfica, identificou a lacuna da nacionalidade para justificar o insucesso do treinador espanhol Quique Flores.
Esqueceu-se em contrapartida de identificar paradoxalmente a lacuna da nacionalidade para justificar o sucesso do treinador italiano Giuseppe Trapattoni, único vencedor do campeonato nacional pelo Benfica nos últimos 15 anos.
Parece que o nacional Jorge Jesus assinou por duas temporadas. No Benfica, espera-se que cumpra uma.
À margem desta destorcida leitura, Luís Filipe Vieira deu sinais de algum acerto quando disse que "dificilmente o Benfica vai perder algum jogador". O raciocínio parece correcto porque, com a época que fizeram, só terão os clubes da segunda divisão como potenciais interessados mas sem, contudo, poderem pagar o que o Benfica lhes paga.
Nesta novela, fica a última excelência deste senhor. Para impedir que um oponente se candidatasse às eleições, arranjou forma de marcar as eleições de forma a que se realizem antes do dito oponente cumprir os cinco anos necessários «na casa» que o autorizariam a candidatar-se.

16 de junho de 2009

Naquelas condições, eu também não queria

Como é evidente, reina entre a comunicação social uma esquizofrenia tão aguda como a que a tutela [da educação] levou às escolas e aos seus profissionais. Não é que não existisse antes com a multiplicação de reformas educativas ao sabor das aspirações políticas e sabe-se lá mais o quê dos anteriores titulares da pasta. Contudo, esta ministra demonstrou ser medonhamente obtusa, julgando-se na posse da fórmula secreta que haveria de mudar a educação neste país. Aqui del rey... Perfeitamente irresponsável, a ministra julgou de forma prepotente e com uma arrogância digna dos parvos que era superior aos outros e, acima de tudo, julgou ser possível impor modelos de avaliação [por validar] à totalidade de profissionais cuja avaliação assentava fundamentalmente na antiguidade. E não era por responsabilidade de classe mas sim por comodidade político-eleitoral que o anterior modelo vigorava. Pior ainda que este hiato entre o oito e o oitenta, julgar que poderia exigir dos outros aquilo que não exige dos seus pares: sobriedade. Deixou de a ter quando alimentou o extremismo. Como é evidente, já aqui o escrevi várias vezes, reformas em democracia exigem consensos e exigem a existência de instituições inteligentes, desprendidas de interesses puramente partidários, sindicais ou pessoais. Não tenho dúvidas que os bons professores desejam ser avaliados para poder ver o seu trabalho reconhecido. Mas isso não tem que ser à custa dos alunos, de critérios mirabolantes, nem das pessoas que dão o litro em prol de algo que a senhora ministra jamais poderá compreender. Nem sindicatos ou a generalidade dos políticos.
Sócrates, o avalizador das políticas desta ministra, continuará convencido da sua inevitabilidade e de um certo elan que julga ter, mesmo depois do sério aviso dos portugueses na últimas eleições europeias. Em democracia pode ter que se governar por vezes contra o vento mas não se pode governar contra o povo nem fazer desse, o estilo da governação.


PS: esta é uma questão que tem que ver com princípios, com os fundamentos da avaliação dos professores. Infelizmente, há outros casos na AP que se justificam pela mais incompreensível incompetência dos serviços e dos «profissionais» responsáveis.

Pura ingenuidade

O Banco de Portugal «aponta para contracção» da economia portuguesa em 2009. No calor do momento, podia ter-lhes dado para outra coisa qualquer à laia de opinião de café... mas não! Deu-lhes para «contracção». Talvez porque não estão atentos aos gastos supérfluos dos clubes de futebol ou simplesmente porque é feitio. Esta é seguramente a mesma ingenuidade que, num acto de contrição esfarrapada, serviu de justificação à inútil e deficiente supervisão de Vítor Constâncio ao BPN e a outros, os quais só por acaso não se chamam GD, BES, BPI ou Millennium BCP.

15 de junho de 2009

O socialismo é...

Mais do que nunca, o PS está dividido entre socialistas e arrivistas. Entre aqueles para quem o socialismo é uma heterodoxia do comunismo e aqueles para quem o socialismo é uma espécie de irmandade do poder.

12 de junho de 2009

Depois das eleições...

Bastou um sensato veto presidencial e a proximidade de dois importantes actos eleitorais (legislativas e autárquicas) para que a unanimidade parlamentar conquistada airosamente há um par de meses se escudasse timidamente atrás do pré-requisito do «consenso». Agastada com escândalos políticos, denúncias de corrupção, impunidade dos fortes, compadrio na justiça e a falta de pão na mesa, a opinião pública portuguesa não reagiu bem ao cenário do regresso dos sacos de dinheiro para os partidos.

A entrada à leão dá assim lugar ao carrossel da carneirada. Depois das eleições logo se vê...

9 de junho de 2009

Casas, peça a sua!

Segundo o jornal Sol, Rui Rio e Fernando Reis (autarcas do Porto e de Barcelos) terão concertado uma proposta que tem como destinatária a mãe biológica da menina Alexandra, protagonista do mais recente caso mediático oferecido pela incapaz instituição judicial portuguesa. A solução para os erros dos outros parece assentar no modelo da «cama, comida e roupa lavada», isto é, os dois autarcas pretenderão oferecer um apartamento e a concessão de um estabelecimento de restauração à senhora mãe, para que ela regresse da Rússia com a adorável criança.

Medidas populares e individualizadas para problemas globais podem até render votos mas se fosse por aí, já o PNR tinha decapitado todos aqueles que têm melanina a mais e não falam com o sotaque impoluto alfacinha.

Vetos vs fiscalização das leis

Em três anos, o presidente da república vetou por nove vezes diplomas emanados da Assembleia da República (maioria PS) ou do governo, preparando-se para ultrapassar o detentor do recorde, apesar de Jorge Sampaio, o seu antecessor, ter uma performance invejável: doze vetos em cinco anos.

Desta vez, o presidente vetou a lei dos partidos. Vetou um diploma que foi aprovado por unanimidade pelos partidos com assento na Assembleia da República. Bem vetado pois não é aceitável que enquanto uns são acossados pelas finanças e outros são arguidos por corrupção, outros continuem a alimentar este insuportável fartar vilanagem sob a capa da democracia.

Esgotada a relação amorosa - quase conjugal - mantida no início do mandato de Cavaco Silva com o governo, os vetos têm-se sucedido com a aproximação das eleições legislativas. Mas fica o estilo frontal de Cavaco Silva, contrastante com o estilo adoptado por Mário Soares, justamente quando o actual presidente da república era primeiro-ministro. Nessa época, Mário Soares caracterizou a sua presidência pelo desgaste que provocou no governo com o envio de diplomas ao Tribunal Constitucional, solicitando a fiscalização sucessiva em vez de a solicitar preventivamente. Primeiro, publicava os diplomas e depois, deixava calmamente que o Tribunal Constitucional desse ordem para os refazer... Engenhoso? Sem dúvida. Mas mais ardiloso, seguramente.

8 de junho de 2009

Homem-lapa

Sem condições políticas para continuar a exercer o cargo e apesar de olhado com legítima desconfiança pela população, Vítor Constâncio luta com unhas e dentes pela cadeira de governador do Banco de Portugal como se não houvesse amanhã. E como se a sua vida passasse doravante a ser uma sequência amorfa de dias sem a agitação e o frenesim da ribalta financeira. E como se, finalmente, o Estado português não lhe tivesse pago mais do que suficiente para abandonar o cargo de bico calado e dar graças a Deus por não ser um Cristão a sério, daqueles que, depois de um merecido tabefe, oferecem imediatamente a bochecha virgem para acolher uma sucessão deles exemplarmente aplicados.

Beato Loureiro

Afinal, nem tudo está perdido para os lados do ex-conselheiro de Estado, Dias Loureiro. O voto de pobreza que terá feito a dada altura da sua vida, desapossando-se dos seus bens e riquezas qual D. Nuno Álvares Pereira, pode fazer deste o próximo português a ser beatificado. Isso claro, se as suspeitas se confirmarem… Mas que importa isso se hoje é dia de festa para abstencionistas, bloquistas, sociais-democratas, comunistas e democratas-cristãos?...

Ai Jesus

Jesualdo, o treinador do FC Porto arrisca-se a ser alvo de uma contratação relâmpago pelo Benfica por proferir declarações como esta: "a minha principal qualidade é fazer equipas em curtos espaços de tempo". Todos nós sabemos que não é assim porque o homem conseguiu estar mais do que três meses no Benfica e acabou trucidado como todos os outros.

7 de junho de 2009

Quem semeia ventos colhe tempestades

A volumosa abstenção é preocupante mas não serve para explicar os resultados eleitorais nestas eleições europeias. A crise económico-social também não cumpre esse requisito, não obstante a compreensível vitimização do partido de poder. Este PS pode ou não tirar as ilações destas eleições. Tem mais alguns meses para a fazer mas isso. Não me parece é que tenha condições para continuar a tratar sobranceiramente a população como o tem feito até aqui. O fantasma da governabilidade pode ter tido aqui os seus dias contados pois foi inequívoco o sinal dos votantes relativamente a um cenário de nova maioria absoluta. A menos que o primeiro-ministro demita a ministra da educação, o ministro das obras públicas, o ministro da agricultura e o ministro das finanças. Ou, em alternativa, aceite uma coligação com o PSD, assumindo definitivamente a ligação ao universo ideológico com o qual mais se identifica.

Esta campanha eleitoral foi uma vergonha e isso sim, pode ajudar a explicar o desinteresse e descrédito que estão por detrás do aumento da abstenção eleitoral, a qual não é de modo nenhum exclusiva das eleições europeias. Nem aqui nem na Europa. Vital Moreira atreveu-se a sair das estantes de Coimbra para se revelar um militante com jeito para fazer fretes e da pior maneira. O PSD ganhou um potencial líder, embora se fique com a sensação deste resultado lhe ter caído no colo.

Os partidos mais desalinhados com a Europa totalizaram quase 20% dos votos mas porque nestas eleições se jogava o aquecimento para as legislativas [num total desprezo pela Europa], nem eles se vão lembrar dessa antipatia.

5 de junho de 2009

Campanha trauliteira

Os políticos não estão bem. Definitivamente. Desta campanha eleitoral fica uma sintomática necessidade fisiológica de disparar directamente uns sobre os outros, como forma de conquistar ténues vantagens políticas que lhes permitam ganhar alento para as eleições legislativas e autárquicas. Em contrapartida, as panças cheias de Europa redundaram no mais ímpio desprezo pelos eleitores e cidadãos deste país.

A respeito da campanha para as eleições legislativas, mascaradas de europeias, Sócrates acusa a oposição de só saber “falar mal do governo”. Dentro de limites éticos e legais, à oposição é reservado o direito de se opor, de criticar. Além disso, não me lembro de o candidato Vital Moreira ou o próprio Secretário-geral do PS terem, de algum modo, mimado os seus oponentes com piropos românticos. As acusações e insinuações de ligação do PSD a casos de corrupção ocuparam mais os dirigentes socialistas do que qualquer assunto relacionado com a integração europeia, o Tratado de Lisboa ou a adesão de novos países membros.

Paulo Rangel, candidato social-democrata, dispara com uma atoarda atordoante: «basta de socialismo na sociedade portuguesa». O homem revela ser um notável aluno de Manuela Ferreira Leite, ficando a curta distância da grande marca identitária anunciada pela própria anciã quando suspirou dizendo «a democracia devia fazer uma pausa de seis meses». A sageza do homem, encontramo-la na oportunidade que escolheu para fazer tal declaração, particularmente numa altura em que o desemprego sobe em flecha, as desigualdades sociais são agravadas e as tensões sociais começam a deixar de estar só latentes.

Francisco Louçã, por seu turno, termina uma campanha que até tinha sinal positivo, com uma paródia infantil e sem graça a um Paulo Rangel saído da cama aos pulinhos, de camisola laranja, trauteando «ninguém pára o Rangel». O veneno ressabiado que, por vezes, não se compreende.

Nuno Melo, convencido da sua inevitabilidade, exibiu a habitual prepotência e populismo em grande nível. Ao nível do grande trauliteiro de onde bebe tanta imbecilidade. Mas o melhor da sua campanha foi o trunfo que sacou da cartola a dado momento, provando junto da populaça aquilo que os tribunais é que têm competência para decidir: a negligência da supervisão do Banco de Portugal no caso BPN. Não se podia esperar mais e põe o Parlamento em maus lençóis.

A dada altura, o PCP esboçou uma vã tentativa de discutir a Europa mas cedo, tanto Ilda Figueiredo como o Secretário-geral cederam às pressões externas e à deriva ruidosa e inútil desta campanha eleitoral. Não mostraram ser diferentes.

A nós, resta-nos votar no domingo.

3 de junho de 2009

Uma Vergonha!

A carta de renúncia ao cargo de Provedor de Justiça entregue por Nascimento Rodrigues tem menos efeitos institucionais do que mediáticos. Como grande parte das coisas neste país. A justiça não se vai ressentir da «vacatura» do cargo, até porque os agentes políticos e judiciais, pouca atenção dão ao provedor. Mas a carta gera na arraia-miúda o mesmo sentimento que Nascimento Rodrigues acusou ter sido completamente vilipendiado pelos deputados: consenso.

Numa frase: uma vergonha!

É a qualidade da democracia que está em jogo e, infelizmente, muito para lá da compreensão instrumental e simplória dos políticos deste país.

2 de junho de 2009

Longa vida ao Rei!

Desde criança que acompanho com alguma curiosidade as monarquias exóticas que nasceram fora da Europa por causa do medievalismo que julgava caracterizar exclusivamente tal forma de governação. Eu era evidentemente muito mais ignorante do que penso ser hoje mas, figuras como o Rei Artur e Robin dos Bosques repousavam no meu imaginário infantil como figuras míticas alojadas num recanto das verdades insofismáveis.

Mais tarde, percebi que os monarcas sobreviveram a esse microclima medieval. Era a descoberta de uma parte da história universal que os filmes do Errol Flinn me escondiam. Recordo com nostalgia da aula em que a D. Fernanda, a professora, nos apresentou o grande conquistador, o grande líder, D. Afonso Henriques, estimulando ainda mais a nossa imaginação com os episódios de judiarias que armava à senhora sua mãe.

Mas a grande ruptura com esse medievalismo verificou-se quando a Princesa Diana se casou e só os noivos se faziam transportar de carruagem. E, também, quando assistia desalentado ao fecho diário das emissões da TVE, em que uma moderna família real espanhola posava para os súbditos com vários trajes e em várias ocasiões que iam das aulas de equitação das infantas, à apresentação do último grito da marinha pelo Príncipe das Astúrias.

A monarquia foi sendo, aos poucos, desmistificada. Poderia aqui jurar a pés juntos que foi com a idade. Contudo, acho que foi mais pela existência do D. Duarte de Bragança. Afinal, em que é que ele poderia ser melhor do que eu?!

Seja como for, este preâmbulo serve apenas para anunciar que a monarquia recuperou alguma dessa névoa primordial, justamente pela incrível dinâmica das monarquias exóticas de que falava. Uma das mais fascinantes é a da Coreia do Norte. E é possível que hajam novidades para breve. Não é fantástico?

Incompatibilidades de campanha...

Há, na legislação portuguesa, uma parafernália de proibições, incompatibilidades, sanções e toda a sorte de regras. Para além da norma jurídica, a nossa vida é regulada por normas éticas, morais e, em muitos casos, religiosas.

Apesar deste imenso e omnipotente edifício que parece não deixar nada fora da sua alçada, verificamos a existência de inúmeros pontos de incerteza cuja regra é a imunidade, a intocabilidade.

Os atrasos programados nalguma justiça, os pactos entre os fortes sobre as regras terrenas, a incompetência consciente do legislador e tantas outras façanhas que, por ingenuidade, considerávamos lapsos próprios da natureza humana, encontram-se entre os mais maravilhosos exemplos da incerteza. Encontram-se, por assim dizer, no alto de uma dissimulada ofensiva à universalidade das normas.

Talvez esta conversa seja excessiva e altamente rebuscada para o que vem a seguir. Para além de me ter excitado com a escrita e de hoje me calhar uma aula de banho do bebé, confesso que me dá comichão observar candidatos a órgãos de Estado que conservam as colunas de opinião na imprensa para ganhar vantagem política. Com tanta regra, não podiam ao menos tentar fazer a coisa menos óbvia? «Já agora, credibilizavam-se e credibilizavam a política junto dos portugueses», lá pensaria o sr. Presidente da República...

1 de junho de 2009

Nas Europeias joga-se afinal as Legislativas

A campanha eleitoral para as Europeias caracteriza-se por se preocupar unicamente com as eleições Legislativas que terão lugar no Outono. Este triste desígnio diz quanto baste sobre o entendimento que os principais partidos têm sobre a Europa. Um jogo em que se joga, enfim, o poder tacanho à escala de um quintal.

31 de maio de 2009

Europeias continuam longe da Europa

Vital Moreira não só assimilou a cultura política de José S. Pinto de Sousa como conseguiu dar alguns centímetros ao seu rival social-democrata, Paulo Rangel, ao mandar definitivamente a campanha para o mais repugnante lodo.

Além do registo condenável, a 8 dias das eleições europeias, os candidatos parecem não ter compreendido inteiramente a que se candidatam e, possivelmente, andarão a fazer as contas sobre qual o quarto do Palácio de S. Bento que lhes caberá. A Europa é o quintal de trás, uma extensão da política corriqueira e imbecil que vigora. Mas também é possível que, como alguém acusou, todo este atoleiro em que se converteu uma simples campanha para a menos participada das eleições, faça parte de uma estratégia conjunta dos dois principais partidos para a descredibilizar, aumentando a abstenção eleitoral.

Seja como for, esta campanha funciona como o aperitivo do que está por vir com as eleições autárquicas e legislativas. E o que prenunciam não é nada de bom. Pelo menos para quem tem preocupações com a democracia.

A consolidação democrática defendida pelos politólogos até pode ser uma realidade do ponto de vista jurídico e entre alguns sectores da sociedade portuguesa. Mas certamente não o será no seio dos covis partidários.

30 de maio de 2009

A política portuguesa, sempre, no seu melhor

Em plena campanha eleitoral para as eleições europeias, as quais terão lugar já na próxima semana, a performance dos candidatos é caracterizada por um estranho, quiçá estratégico, silêncio sobre a Europa. Este silêncio diz bem sobre a importância dada às eleições europeias pelos próprios partidos políticos. Exagero? Seria, eventualmente, caso o debate não estivesse centrado nas questiúnculas pessoais e políticas. Como é habitual. Neste particular é de realçar a socialização política a que tem sido sujeito o candidato socialista, Vidal Moreira: já acusa, chama os outros de aldrabões e diz que, a seguir ao guru Pinto de Sousa, é ele o melhor. Uma evolução verdadeiramente darwiniana, de simpático animador infantil a lobo.
Perante este triste cenário em que nem as questões da Constituição Europeia parecem ser suficientemente atraentes para fazer política séria, não me surpreendem comentários de cidadãos como o que ouvi ontem, en passage, acontecido numa conversa entre dois vizinhos anciãos: «são todos iguais, quando lá se apanham, são iguais aos que lá estão». Com muita pena minha, anui e segui o meu caminho porque se há coisa que os velhos têm, é experiência...

26 de maio de 2009

Quem quer ser mentiroso?

Oliveira e Costa é uma espécie de Vale e Azevedo da banca. Com a desvantagem de ter amigos como Dias Loureiro, o conselheiro de Estado...

25 de maio de 2009

Moura Guedes desafia Marinho Pinto

Convence a entrega dos dois talentosos artistas. Sabedor das águas em que navegaria, Marinho Pinto não enjeitou o convite e participou com assinalável desenvoltura no talk-show de Manuela Moura Guedes. Não estranhamos a prestação de Marinho Pinto, conhecido por qualidades aparentemente inconciliáveis como a de espalha-brasas inconsequente e Bastonário da Ordem dos Advogados.


A decadente apresentadora foi ao chão no segundo round para não mais se levantar. Todavia, os objectivos da estação de televisão foram claramente superados. A estação de televisão que começou com ampla participação financeira de forças ligadas à Igreja está de parabéns por ter captado tão bem a natureza do povo que ajudou a criar.

Não obstante este sucesso da TVI, lamentamos que a Entidade Reguladora da Comunicação e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista continuem passivas perante o enxovalho que é dado na profissão de cada vez que a fulana escancara a boca viperina.

Mas só lamentamos um bocadinho pequenino porque depois vinham as acusações de fascismo e o diaboasete.

23 de maio de 2009

Missionário Sócrates

Talvez fosse pelo adiantado da hora ou pelas saudades da fruta do Oeste, certo é que a palavra mais ouvida a José Sócrates no comício conjunto com o PSOE em Valência não foi «mudança», «progresso» ou «justiça social» mas sim, «pêro». Esta é a nota de destaque. O homem até se esforçou por falar espanhol mas, de castelhano, muito pouco lhe saiu. Afinal, na faculdade não precisou de ir além do «espanhol técnico».

No essencial, nada de saliente excepto o vazio de conteúdo, facto que nos apraz registar pois não seria justo mimar os espanhóis com um registo socratiano que nos é estranho. Os militantes espanhóis aplaudem, não só porque foram para isso instruídos e porque são tipos normalmente simpáticos com os forasteiros. Mas também porque ficaram com a ideia errada de que aquele homem grisalho de aspecto simpático, embora excessivamente «gesticulante», era o empresário do Cristiano Ronaldo.

Finalmente, ficámos com a impressão de que a interpretação e solução dos problemas que faz e tem de e para Portugal aplicam-se em rigor a Espanha. Essa leitura é deveras preocupante. Mas estamos convencidos que ninguém percebeu. Valha isso aos nuestros hermanos.

22 de maio de 2009

A lata dos trabalhadores, segundo padre Belmiro

Trabalhar provisoriamente aos sábados tendo como contrapartida a referência dos dias úteis, ao arrepio das leis laborais que consagram especificidade remuneratória às horas nocturnas e aos fins-de-semana. Essa era a proposta da Administração da Autoeuropa, rejeitada pela Comissão de trabalhadores.

Belmiro de Azevedo veio alertar que não é possível continuar a reivindicar «regalias» num cenário em que a população de desempregados aumenta e está disposta a fazer seja o que for para recuperar um emprego. Ora, o que o patrão da Sonae disse não é mais do que um recado escudado pela tão desejada bolsa de desemprego apregoada pelo patronato. E que sabemos não passar de uma útil arma de arremesso. É de aproveitar agora e aplicar-lhes a chibata para ver se aprendem a amar o trabalho...

Não é a produção que está em causa mas sim o escoamento dos produtos. Ora, se não é a produção que está em causa mas sim o escoamento, nesse caso, a Autoeuropa podia simplesmente eliminar o turno do sábado para poupar dinheiro e para se adequar à procura no mercado automóvel. Acontece que, por trás da manutenção do turno do Sábado, parece estar escondida a intenção de prescindir de centenas de trabalhadores com vínculo precário. Com menos funcionários, aumenta-se a carga horária dos que ficam e paga-se menos por igual desempenho.

19 de maio de 2009

Senhoura doutoura!

O moralismo defeituoso e a ruindade expressas nas acusações e ameaças desta professora são de tal ordem escabrosas que nem alguns padres poderão continuar a viver debaixo do mesmo tecto que sobrinhas e afilhadas, sob pena de se precipitarem em queda livre para os braços abertos do demónio.
Ao que parece, só no 12º ano é que a senhora professora deu beijos «assim», presume-se que, naquele combate de duas línguas que interpretam o jogo de gato e de rato e a que dão, pasme-se, a mesma designação de um peixe [talvez seja linguado porque o ambiente é aquático e há paredes contra as quais é atirado mas, na minha opinião, deveria ser moreia, pelo ambiente aquático, cavernoso e pela própria morfologia dos intervenientes]. E o linguado da professora só terá acontecido, naturalmente, por violação de um sexagenário embriagado, porque o empregado do restaurante se enganou e confundiu a amêijoa com o linguado ou por insistência do pastor alemão da vizinha já que nem os prostitutos teriam apetite para tanto.


As poucas conclusões a que podemos chegar no imediato é que os anos que passou a estudar não foram suficientes para falar correctamente português, tem a sensibilidade de um cão e sofre de distúrbios compulsivos de autoritarismo.
Fora isso… a esta hora estão os alunos todos a fornicar indecentemente e ela com uma depressão em casa, lubrificando um vibrador com lágrimas. Cada um é para o que nasce e ela não nasceu para ser pedagoga, educadora ou o caralhoqueafoda.

Na Harmonia


13 de maio de 2009

Pontes dialogantes


Como um longo estrado assente nas extremidades em dois enormes pistons hidráulicos, as saídas da ponte subiam e desciam à vez sem o deixar-se apear. Ali se quedou, deslizando para uma e para a outra ponta sem poder engolir algo mais do que golfadas de ar levadas à boca com as duas mãos. Karim estava exausto, o sonhado calaat estava cada vez mais longe. Talvez fosse da sua natureza ou, simplesmente, aquela surpreendente impotência teria sido obra dos guardiões dos céus. Mas as pontes pareciam não assegurar diálogo entre duas margens tão secas como o Kalahari, deserto que Karim jamais vira. Assim permaneceu, no limbo paradoxal de uma ponte.

6 de maio de 2009

O caldo entornado

Quando a doença se torna consciente e, das sessões ortopédicas transita para as tertúlias regulares, é que o caldo está entornado. Esse é seguramente um dos problemas da normalidade. E, seguramente, um dos maiores dilemas da História Universal do Serrão.
Por vezes, apetece dizer alguma coisa com jeito. Mas fico sempre na dúvida sobre se a normalidade da coisa se expressa em cálculos matemáticos.

30 de abril de 2009

Entulho de volta ao arrabalde

O país, este em que vivemos, não é muito diferente dos outros. Com excepção de muitas coisas. Mas nas más, conseguimos superar uma boa parte deles. Há alguma unanimidade quanto à colonização dos diversos domínios da vida pela lógica de mercado. Esse é, de resto, um dos pontos de chegada [ou súbitos ataques de consciência] que justificam estas reuniõzecas dos G-20. Triste mas previsívelmente, a meta central não consiste em dar solução à crise, mas sim em mais uma manobra de cosmética de efeitos imediatos. Nós, os de cá, queremos mostrar que, do fundo da pequenez, estamos empenhados em dignificar a prevalência do mercado. Por isso, dentro em breve, os pequenos prevaricadores ambientais vão passar a beneficiar de uma espécie de amnistia, desde que mostrem arrependimento pelos seus hediondos actos. Em nome da saúde financeira das pequenas e medíocres empresas, cuja dimensão se reporta tanto ao volume de negócios e de empregados como ao volume do raciocínio do patrão que, nesta matéria, conta com a total solidariedade do governo.
PS: certamente que as autarquias estarão muito receptivas para a recolha de entulho nos arrabaldes e taludes. E a população acolherá com legítima satisfação todos os atropelos ambientais nas «ribeiras dos milagres» cá do tugúrio. Como é que teria sido se, em vez de ministro do ambiente tivesse sido ministro das obras públicas?

28 de abril de 2009

Caldo ma non troppo

Em Évora, a campanha eleitoral para as autárquicas já começou e tem todos os ingredientes para crescer de intensidade à medida que as labaredas lambem freneticamente o tacho. A CDU procurou antecipar-se para dar a conhecer um candidato socialmente desconhecido e explorar o desgaste do actual executivo municipal. O PS parece estar a preparar um contra-ataque que se prevê forte. Com artilharia pesada. No entanto, apesar da situação vantajosa que é conferida pela posse do poder, o PS parece conhecer divisões internas e questiúnculas que são desmobilizadoras e dispersam as forças. Algumas delas explícitas, como é o caso da ameaça de apresentação de uma candidatura independente, oriunda de gente próxima do PS.

Quanto aos restantes… apesar da visibilidade do desempenho protagonizado pelo vereador social-democrata na mediação estratégica entre as duas forças políticas, cremos que o combate será centrado no PS e na CDU, atirando para fora desta aritmética o PSD. Por três razões: o desgaste de oito anos de governação marcados por grande instabilidade, voltam as atenções para o principal opositor; a candidatura comunista de um desconhecido que, sem embargo, não inspira a apreensão que há quatro anos inspirava a candidatura de João Andrade Santos; a conjuntura de crise económica e social, sugestiva de uma viragem à esquerda.
Cabe-lhes convencer os eborenses. Uma tarefa bem mais difícil do que há 30 anos. Se os candidatos afirmam gostar de desafios, ora aí têm um estimulante.

27 de abril de 2009

Detidos à força

Em que é que a justiça num Estado de Direito é compatível com objectivos formal ou informalmente assumidos pela polícia para a avaliação de desempenho dos agentes, sendo estes perigosamente atirados para a condição de juízes?

25 de abril de 2009

25 de Abril


Contam-se mecanicamente os anos que passam sobre os tempos em que um projecto doméstico de emancipação e esperança nos caiu do céu proveniente da Pontinha, de Santarém e lá dos confins de gerações oprimidas e desrespeitadas. Veio por avião e de barco desde África. Forjou-se pelo desejo de sermos iguais aos outros povos europeus porque nos identificávamos com eles. O desejo de termos direitos e garantias respeitados. E de nos ajudarmos mutuamente para o conseguir. Um desejo, enfim, matizado pela meta de melhorar a condição de um povo. Mas o projecto foi contaminado, pela inevitabilidade da cultura e pelo mau uso das ideologias. Hoje, é celebrado com um travo amargo de impotência, de incontida insatisfação e, por vezes, dispensando-lhe exéquias como a um defunto. As mesmas que, em clara afronta, são identificadas na atitude do presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão por decidir homenagear um ditador num dia de liberdade. Entre avanços e recuos, trinta e cinco anos mecanicamente contados, o projecto democrático continua a ser o mais razoável, cabendo-nos a todos zelar por ele. E entendê-lo muito para lá da exiguidade temporal das nossas existências. Muito para lá do frio que faz lá fora.
Edições passadas: 

23 de abril de 2009

160º Aniversário da Sociedade Harmonia Eborense

Antes vivo do que morto: uma excelente estratégia

Belmiro sustenta, alicerçado na rigorosa observação das estrelas que dão para a piscina com SPA do seu cão que, antes receber metade do ordenado do que ficar inactivo. O IEFP subscreve, naturalmente. Bem como a Administração Fiscal. A polícia também pois assim, as pessoas sempre se entretêm com alguma coisa. Evidentemente, os trabalhadores acolhem com agrado esta construtiva observação do magnata. Pelo menos, aqueles cuja metade dos vencimentos é muito superior ao respectivo subsídio de desemprego, o que, em Portugal, corresponde à abastada minoria em que Belmiro se inclui.
Seja como for, a dois dias de se comemorar o 35º aniversário do 25 de Abril, a observação de Belmiro de Azevedo não só é evocativa como parece ter germinado daquela estonteante máxima: «antes vivo do que morto». Resta saber a que patamar de existência se refere o ditoso senhor: ao estádio conquistador Mourinho ou ao estádio vegetativo Stephen Hawkins.
PS: vamos esquecer, por agora, o aumento da taxa de suicídio.

20 de abril de 2009

CDU apresenta Eduardo Luciano

Ontem, em cerimónia ocorrida do Teatro Garcia de Resende, a CDU apresentou a lista candidata às autárquicas 2009. Como se previa há já algum tempo e se dizia em surdina, Eduardo Luciano, advogado de 49 anos, será o cabeça de lista da CDU à câmara municipal. Abílio Fernandes repete a liderança de 2005 na corrida à assembleia municipal.

Há dias, escrevi que o PCP teria pela frente um duro desafio: o de apresentar um «desconhecido» aos eborenses porque, de facto, Eduardo Luciano não tem, por exemplo, o capital social de que gozava José Ernesto quando venceu Abílio Fernandes em 2001. José Ernesto tinha uma ampla base social de apoio maioritariamente construída durante anos no serviço de obstetrícia do Hospital Distrital de Évora.

Esta leitura pode ser liminarmente rejeitada pelos partidos políticos, para os quais é o capital do partido enquanto colectivo, assim como as conjunturas sociais e coincidência ideológica com os partidos de governo, que determinam a escolha dos eleitores.

Esses factores são fundamentais. Contudo, se inclusive nas eleições legislativas há uma personalização evidente da política, nas autárquicas essa personalização é ampliada. Aliás, ajuda a explicar as vitórias sucessivas de Abílio Fernandes apesar da viragem que a dada altura se verificou na eleição de deputados à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Évora. Abílio Fernandes adquiriu o estatuto de figura tutelar e paternal que os eleitores desejavam para a condução dos seus destinos.

Neste momento e perante as circunstâncias de enorme desgaste por que passa o actual executivo e os próprios partidos políticos, talvez a estratégia de ruptura do PCP tenha bons resultados: um desconhecido para deixar a ideia de renovação e aggiornamento. Mas também se pode ter dado o caso de não haver mais ninguém a apresentar e de todos os outros terem rejeitado o convite.

Para José Ernesto, a luta principal não se centra no exterior. O combate mais duro que José Ernesto tem pela frente, será travado no interior das suas próprias hostes e perante si próprio. Além disso, vê-se agora na posição em que se achava Abílio Fernandes em 2001: exigência de mudança, necessidade de afirmação da cidade, precariedade financeira do município, desgaste da governação.

Um bom presságio para os próximos capítulos pois a dramatização dos personagens principais é indubitavelmente mais rica do que a de há quatro anos atrás.

Quando o verniz estala

Depois da paixão, sucederam-se os arrufos. Agora, em período pré-eleitoral, o casalinho dá mostras de cansaço e de tensão. O período de confluência entre governo e presidência da república dá, assim, lugar a uma coexistência antagónica semelhante à vivida pelo primeiro-ministro Cavaco Silva com Mário Soares na presidência. É agora a vez de Cavaco vestir a pele do lobo. E assenta-lhe tão bem...

18 de abril de 2009

Ladrão que rouba ladrão... sem anos de perdão

Está a ser preparada uma proposta de lei pelo PS que visa taxar o enriquecimento ilícito, ou seja, os prevaricadores ficarão obrigados a partilhar 60% dos proveitos conquistados ilegalmente. O arranjo soa a cumplicidade, finda a qual, cada um às suas e «ala que se faz tarde».
Neste país, a vontade de legislar sobre tudo e sobre nada é tanta que, no final, as malhas da funcionalidade estão presas por nós cegos.
Neste caso, se calhar, era deixar como está ou adoptar uma solução dramática que retirasse ao prevaricador a totalidade dos ganhos ilícitos e o mandasse para a cadeia. Mas isso, se calhar, seria uma sobrecarga para as prisões e as relações pessoais no país poderiam deteriorar-se mais do que a relação entre um cão e um gato. 

17 de abril de 2009

Hugo Chavez ditador?

O presidente da câmara municipal da capital venezuelana chegou à conclusão que Hugo Chavez, plenipotenciário, «age como um ditador». Isto significará que apenas age como tal, na perspectiva do magoado presidente da câmara municipal.

De resto, esta mágoa resulta da transferência dos poderes municipais para uma figura administrativa criada unilateralmente por Chavez e controlada por este: Chefe de Governo de Caracas.
Para os apoiantes de Chavez, o que sucedeu não foi mais do que uma reorganização do poder local. Além disso, este tipo de actuação visará certamente libertar o povo do jugo de indivíduos ensandecidos que, por lapso, foram eleitos.
Portanto, a intervenção presidencial visa apenas corrigir os defeitos da democracia. Naturalmente...

14 de abril de 2009

Autárquicas 09: o grande desafio do PCP em Évora

Os sinais que foram sendo dados nos últimos tempos pelo PCP em colóquios e destaques a artigos de opinião assinados por «candidatáveis» à Câmara Municipal de Évora parecem confirmar-se. Com alguns meses de trabalho pela frente, ao PCP de Évora fica a caber também a tarefa de apresentar o homem aos eborenses. O desafio é, talvez, o maior dos últimos anos. Mas «apresentar o homem aos eborenses» significa algo mais do que dizer-lhes quem é o candidato...

13 de abril de 2009

Nada de mini saias...

As finas regras de cuidado com o atavio e boa imagem, que os funcionários da Loja do Cidadão de Faro deverão respeitar constituíram, provavelmente, o acontecimento político de maior relevância na semana passada, logo a seguir às novelas da Quimonda, do Procurador da Justiça e à incessante verborreia da maioria dos políticos.

A coisa até podia não ser tão bizarra caso tivesse sido previamente estipulado que, aos postos de trabalho em causa, corresponde a obrigação de trajar de farda. Integralmente assegurada pela entidade empregadora, pois então.

Mas não, a coisa não é simples. Os ditos funcionários não só têm que receber lições de atavio e decoro (mas não de competência), como ainda se vêem na contingência de assegurar que «não passam das marcas» perante os concidadãos.

E quem define as marcas? A senhora secretária de estado da modernização administrativa? Francamente, causa-me menos náuseas cheirar um daqueles perfumes baratos de gente pobre com aroma patchouli do que ser atendido por uma fulana com as fronhas da mulher. Com o devido respeito pela fealdade da senhora. Que é realmente acentuada. Também não estou a ver nem de saias, quanto mais de mini-saias...

O paradoxo maior, sem dúvida: a obrigação de uma apresentação aburguesada e segundo os padrões de uns quantos… numa Loja do Cidadão. «Loja», bem entendido…
Como é de brincadeira atrasada de Carnaval que estamos a falar, nem sequer merece a pena puxar dos galões da liberdade nem daquilo que é razoável, do ponto de vista social.

3 de abril de 2009

Este país não é para velhos

Este país é um fardo difícil para os competentes, ajuizados e honestos.
Só isso explica a nomeação de Domingos Névoa (recentemente condenado por tentativa de corrupção do vereador José Sá Fernandes no caso Braga Parques) para a administração de uma empresa intermunicipal.
Como é evidente, não é lapso ou descuido. É o mesmo fartar vilanagem que tolera coimas de 5000 euros num convite amistoso à corrupção.

26 de março de 2009

O Leviatão partidário

Depois de nove longos meses de gestação, ainda não foi desta que saiu a nomeação política do detentor de um cargo público cuja independência política é condição e não uma meta a atingir pelos partidos políticos.

As tradicionais questiúnculas sapateirais motivadas pelos mais abjectos interesses partidários, estão na origem de mais um triste episódio protagonizado pelos partidos. Desta feita, o PSD não validou o nome de Jorge Miranda para Provedor da Justiça por uma simples questão de “princípio”: não foi um nome avançado pelo PSD. E que princípio é esse? É o princípio da ladroagem institucional, uma transposição da ética da ralé para a ética dos partidos políticos.
E como são exímios em dar distinta solenidade ao mais profundo desprezo pela democracia e pelas instituições democráticas.

Nos grandes partidos, o mal não está na ideologia quando existe nem no debate ideológico que pode daí resultar. Antes pelo contrário. Não, nestes grandes partidos o mal está na falta de qualidade de muitos dos seus dirigentes – autênticos caciques medidos em votos – e na soturna cultura organizacional que vigora.
O Leviatão de Hobbes não é, no caso português, a simples analogia do monstro com o peso de uma administração pública asfixiante mas sim a triste coincidência com a sede de domínio total dos partidos sobre a vida quotidiana. Riquezas de uns e misérias de outros, como nos advertiria Aquilino Ribeiro.

24 de março de 2009

Escrito a bílis

As farturas e as «asgasturias» diferem somente na medida do líquido para frituras. No primeiro caso, recorre-se ao óleo uma e outra vez. E outra ainda. O segundo caso pode ocorrer como resultado do empanturramento de farturas e de quantidades indigestíveis de óleo. Uma hoje e outra amanhã. E uma redonda dose delas todos os dias. Isto ao fim de uns anos é capaz de fazer mossa, quanto mais não seja, na alteração provavelmente irreversível dos níveis de bílis produzidos pelo organismo. É conveniente não abusar.

20 de março de 2009

Foram-se os dedos, ficaram os anéis

Nascimento Rodrigues, titular cessante há quase um ano do cargo de Provedor da Justiça, incluiu no cardápio uma sopa de perplexidade. Convicto na defesa da despartidarização dos altos cargos públicos (apesar de não o parecer ser por motivos estritamente relacionados com a exigência de castidade estatal), o homem disparou em direcção ao governo PS, lamentando que este fartar vilanagem dê em desprestígio dos políticos.
Impõe-se a pergunta: mas onde é que raio identificou o excelso senhor, um pingo de prestígio nos políticos para que desse em preocupações com esvaziamento de virtudes?

14 de março de 2009

200 mil são uma ninharia para o governo

Um dia após 200 mil pessoas (cerca de 3,5% dos votantes nas eleições legislativas de 2005) se ter manifestado ostensivamente contra o governo, o engenheiro Pinto de Sousa desvalorizou a importância dos «números» que, na essência, representam a mesma ferramenta da legitimação eleitoral que lhe ofereceu uma ampla maioria na Assembleia da República.

Mas o que impressiona verdadeiramente foi a acusação à pretensa «instrumentalização» dos sindicatos pelos partidos de esquerda, como se os sindicatos que convocaram a manifestação tivessem caído no mais deplorável pecado, o pecado de fazer exactamente aquilo que lhes compete. E como se a UGT não fosse instrumentalizada pelo PS.

10 de março de 2009

Fantoches de S. Bento

A dona Rosa, quando chegou ao Parlamento para a limpeza diária, não só encontrou a imundice do costume, como também, os senhores deputados de todas as sensibilidades ideológicas cantando for he's a jolly good fellow a esse grande senhor do comunismo, o presidente angolano José Eduardo dos Santos. A dona Rosa ficou francamente baralhada, sem saber se tratavam de vender o Magalhães para o patriarca distribuir nas favelas em vez de pão ou se, pelo contrário, pretendiam fazer parte da nobreza angolana.

9 de março de 2009

à tout propos (314)

Os exemplos de duvidoso relacionamento entre o Homem e os outros animais (para além do relacionamento simbiótico previsto na cadeia alimentar) sucedem-se em todo o género de «civilização». Uma vez que nas Ilhas Faroe (Dinamarca), o frio é intenso e, já que a malta daqueles ermos desconhece a globalização que possibilita as trocas comerciais de produtos ali inexistentes como a gordura vegetal ou os agasalhos sintéticos da Qechua, toca de matar baleias-piloto à catanada. Passatempo ou necessidade?

6 de março de 2009

Promessas de seriedade

Ontem, os deputados Eduardo Martins (PSD) e Afonso Candal (PS), em boa hora, mimaram os portugueses com uma bela lição de civilidade e fineza de carácter. Mais, emprestaram uma nova e refrescante dimensão à cultura partidária portuguesa, tão sensaborona, desinteressante e, as mais das vezes, degradante.

Ficaram pela promessa de uns emocionantes bofetões e de um arraial à antiga portuguesa. O povo ficou expectante: serão afinal, gente do povo que chega a roupa ao pêlo por dá cá aquela palha, bebe umas minis e coça os marros?

A coisa prometia. Em vão, porque os senhores deputados decidiram-se afinal pelo recolhimento, possivelmente quando se deram conta que não têm um único pêlo no peito para mostrar à audiência.

Uma coisa é certa: com sessões daquelas, os partidos tornar-se-iam muito mais interessantes e o número de militantes inscritos subiria em flecha. Sei de muitos que se haveriam de inscrever imediatamente em todos os partidos. Não fosse a coisa mais animada nuns sítios do que noutros. Conforme as noites.

3 de março de 2009

Kramer contra kramer

Não pude deixar de notar a ironia da sentença quando o repórter televisivo tranquiliza os espectadores afiançando que a Guiné regressou hoje à normalidade. Ironia, porque a vingança traduzida na reciprocidade equidistante que tutela o assassinato de dois oponentes prometidos às profundezas do inferno, parece fazer parte da normalidade pretensamente interrompida.
Ironia, porque a miserável normalidade da Guiné não resistiu jamais à pilhagem sem escrúpulos do país e do povo por homens como os que se assassinaram mutuamente em duelo marcado por um invulgar desfasamento horário.

28 de fevereiro de 2009

Desemprego para todos!

No congresso, o grande líder elegeu o desemprego como grande prioridade. A honestidade devia ser recompensada porque, honra lhe seja feita, o homem conseguiu!

27 de fevereiro de 2009

Um escândalo!?

Leite, a do PSD, olhou para a hercúlea tarefa que a aguardava, sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha e estancou, pálida e impotente. No momento seguinte, torceu o pescoço a 90º e decidiu empurrar o assunto com a barriga, transformando em escândalo a opção do primeiro-ministro em participar no congresso do seu partido e não da cimeira europeia. O homem está farto de viajar e, nesta altura de crise, é impreterível que esteja junto dos seus. Solidariedade. Palavra cara a Leite, por não ser muito comum entre as suas hostes.

Talvez o termos escândalo tenha sido ligeiramente exagerado, tendo em conta o fartar vilanagem que campeia neste país. Tendo em conta, também, a «dura» mão da justiça portuguesa que multa os corruptores em cinco mil euros, mais ou menos o mesmo que roubar dois sacos de batatas e dar um merecido tabefe num desses senhores (variará consoante o preço da fatiota que envergam).

Exemplar! Um escândalo, dr.ª Manuela Ferreira Leite?! Oh... pelo amor de deus...

20 de fevereiro de 2009

Da vergonha ao carnaval

Afinal, o problema do Magalhães não estava na sátira ao governo mas sim no ignominioso conteúdo pornográfico apresentado no pequeno ecrã do laptop carnavalesco. Mas foi resolvido pela delegada do MP que concluiu não haver afinal o tal conteúdo pornográfico porque apenas se tratava de naturismo, ou seja, umas mamas e uns rabos.
 
Fica a pergunta: alguém acredita que um delegado do MP decide a proibição de um determinado objecto na sequência de uma denúncia sem o verificar?
 
Duas respostas:
1 – Não, só alguém absolutamente incompetente;
2 – Não, só alguém com absoluta má-fé.
Os de Torres Vedras têm agora mais um (neste caso uma) que se pôs mesmo a jeito...

De carnaval a vergonha pública

Em Torres Vedras, a plenipotenciária delegada local do Ministério Público, infectada com arrogante acinte, decidiu censurar incompreensivelmente um elemento alegórico de sátira ao Magalhães.

A vergonhosa decisão foi tomada ao arrepio dos mais elementares direitos democráticos e denuncia a total ignorância da censora relativamente à cultura de que, eventualmente, também será portadora. Lá que não goste de carnaval e padeça de dolorosa perturbação que a faça sofrer pelos outros, isso é um problema dela…

Agora, às claras e com a autoridade que o Estado lhe outorgou indevidamente, esta senhora não dignificou a justiça nem a instituição da democracia. Pelo contrário, censurou de forma ímpia a brincadeira de pessoas em liberdade, cuja acção nem sequer fora do contexto do carnaval poderia ser objecto de actos desta natureza.

A ditosa senhora confirmou também que os actuais «arautos da desgraça» não são os tolos do costume.