15 de outubro de 2009

Início da legislatura

Com esta minoria relativa, com hipóteses de acordos parlamentares à esquerda e à direita e com uma ala direita que totaliza mais deputados do que o partido de governo (102 contra 97), as legislaturas que se seguem vão dignificar a governação semi-presidencialista de pendor parlamentar e, por isso, vão ser obrigadas a honrar a proporcionalidade prevista na Constituição. Para já, os partidos  - excepto o PS - não querem ouvir falar de coligações mas... dos acordos e negociatas não se livram. Contudo, com a aproximação da revisão constitucional, é possível que regressará ao seio dos dois principais partidos aquela atracção manhosa pelos círculos uninominais.

Ver a este respeito Que Arquitectura Eleitoral?


14 de outubro de 2009

A emenda pós-autárquicas

Depois de reunido o Comité Central do PCP, Jerónimo de Sousa veio a público emendar as primeiras declarações e refrear a análise a quente às autárquicas com uma aconselhável dose de sobriedade. De facto, com saldo negativo de quatro municípios, só fica bem ao secretário-geral do PCP admitir que os resultados foram insatisfatórios e demonstrar que o relativismo tem um termo.  Esse é o primeiro passo para que, com Bernardo Soares, a consciência se torne consciente. E Jerónimo de Sousa não é, em absoluto, uma pessoa para quem a clarividência seja uma entidade alienígena, mesmo em tempos de mobilização interna. Admitir uma derrota eleitoral não significa baixar os braços (não é previsível que isso venha a acontecer com Louçã) mas tem a enorme vantagem de permitir retirar ilações e melhorar. Porque, com Friedrich Nietzsche, as convicções [inquestionáveis] podem resultar em autênticos cárceres. Ou, por outras palavras, na detestável cegueira sobre a qual Saramago ensaiou.

De resto, uma emenda convergente com a coragem e determinação com que o desconhecido Eduardo Luciano se bateu pela reconquista de Évora (aos mouros? aos visigodos? aos cristãos?). Convergente também com a humildade com que o candidato comunista reconheceu a derrota eleitoral e, aqui sim, justificou com propriedade as restantes conquistas.

Joan as Police Woman no CC Redondo



Deplorável!

Se a queda de Fátima Felgueiras em Felgueiras inspirou um sentimento de primavera abrilista entre os inúmeros populares que surpreendentemente a apearam («só agora é que chegou o 25 de Abril a Felgueiras»), em Tarouca, as coisas estão muito mais atrasadas. O presidente da câmara municipal daquela terra decidiu transferir unilateralmente de serviço e funções os trabalhadores que publicamente apoiaram a oposição. Isto passou-se no dia seguinte ao acto eleitoral e sem aviso prévio. A «justificação» do plenipotenciário: ele é que é o presidente da câmara e apenas procedeu a reorientações internas no serviço.

Os trabalhadores visados têm agora fortes possibilidades de requerer o pedido de asilo político a qualquer país decente que os queira receber.

13 de outubro de 2009

Tributação das mais-valias em Bolsa

O BE e a CDU podem ver na divulgação das conclusões alcançadas pelo grupo de trabalho para o estudo da política fiscal, um gesto de aproximação e boa vontade do governo. Havendo alguma padronização crescente na zona euro e partindo do princípio da convergência em termos fiscais, Portugal tem óbvias condições para taxar em 20% as mais valias decorrentes das transacções financeiras. E taxar as grandes fortunas. E baixar o IVA. E o IRS. E o IRC. E o IA. Embora, como é evidente, a «governabilidade» invocada pelo PS possa vir a ser argumento de peso para  piscar o olho à direita e passar a refutar um parecer «lunático, desajustado e inibidor do investimento» apresentado por um grupo de trabalho nomeado num contexto de maioria absoluta.

12 de outubro de 2009

Escolas públicas continuam sub-avaliadas?

Elaborado com base nos exames nacionais dos 11º e 12º anos de escolaridade, o ranking de escolas agora publicado não é nada simpático para a escola pública. Restringida unicamente aos exames nacionais, esta avaliação expurga os desfasamentos que hipoteticamente resultariam de facilitismo na escola privada mas não desfaz as dúvidas estatísticas relativamente a estabelecimentos de ensino cujo universo de casos observados é quantitativamente irrelevante. Esse é o caso da escola pública melhor classificada (líder de uma lista em que as primeiras 20 escolas são privadas).

É certo que muitas destas escolas privadas são particularmente atraentes para os melhores docentes.
É certo que, pela via da selecção sócio-económica, expurgam focos de instabilidade.
É certo, ainda, que a sua raison d'être é a qualidade de ensino pelo que as metas de sucesso são muito claras (para os que cumprem e para os que não cumprem).

Ainda assim, o cenário de ruptura montado pela ministra da educação e pelo anterior governo (2005-2009) terá certamente contribuido para o abandono, insatisfação e desmotivação que grassam na escola pública. Seria absurdo se, à frente de interesses corporativos e interesses de gestão economicista, estivessem os interesses legítimos do Estado e, com ele, os interesses dos alunos?

Autárquicas 2009

É natural que o PS tenha a tendência de extrapolar resultados das eleições autárquicas para o plano nacional, procurando retirar daí alguns dividendos. Mas esse é um pressuposto errado porque a percentagem nacional não tem correspondência com a quantidade de maiorias registadas nos 308 concelhos e nas 4260 freguesias. Há, efectivamente, uma considerável subida do PS. Mas insuficiente para contrariar a primazia autárquica que PSD ainda detém. O BE perdeu porque não alcançou os seus objectivos e admitiu a derrota com humildade, ao contrário da CDU, incapaz de se desprender de uma leitura tornada costume mas que se perde no relativismo sem termo. Líder de um partido fidelizador de eleitorado, Jerónimo de Sousa tem boas razões para reflectir sobre a perda de 4 câmaras*, uma das quais para um movimento independente (Sines). O CDS, esse, não tem razões nenhumas para extrapolar resultados, embora a sua implantação autárquica em coligações com o PSD seja assinalável. 

No Distrito de Évora, a correlação de forças alterou-se e a consequência imediata deverá passar pela entrega do controlo da Associação de Municípios do Distrito de Évora ao PS.

A primeira nota de destaque neste distrito vai para os concelhos em que houve mudanças. Desde logo, em Viana do Alentejo e Vila Viçosa, ganhos pelo PS à CDU. E, também, aos concelhos em que os movimentos cívicos saíram vitoriosos (3 dos 7 movimentos em Portugal). Neste campo, Alandroal regista a vitória suada de um grupo de cidadãos saído de uma cisão socialista e, em Estremoz, o antigo autarca comunista re-conquista o concelho ao PS, agora sem o apoio da CDU. No Redondo, a população consagrou a «abaladiça» de Alfredo Barroso com uma subida de 10 pontos percentuais, convertendo eleitoralmente esta candidatura na mais bem sucedida do país.

A segunda nota de destaque vai para os concelhos cujos executivos não foram destronados porque, à excepção de Évora, todos eles subiram eleitoralmente, legitimando as linhas de intervenção seguidas durante o mandato que termina: Arraiolos, Vendas Novas, Montemor-o-novo, Mora (CDU), Redondo (MICRE), Borba, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Portel (PS). Este facto não deixa o autarca socialista José Ernesto d'Oliveira numa situação confortável à frente da principal câmara municipal do Alentejo.

Com o PSD galopante a acumular boas votações desde 2001 (de 8% subiu para 14% e, ontem, para 17%), fruto do «fenómeno» António Dieb e com a CDU a arrancar 2 pontos percentuais, o PS local não esconde o desgaste da governação e perdeu quase 4 pontos percentuais. A contestação popular tem subido timidamente de som num contexto macroeconómico difícil mas que não colhe validade para justificar a desaceleração iniciada logo após as eleições de 2001 (de 45% desceu para 43% e, ontem, para 39%).




*A CDU perdeu 7 câmaras municipais e conquistou 3, resultando num saldo negativo de 4 câmaras.
Informação adicional, motivada pela necessidade de clarificação na sequência de um comentário a este post 
(12/10/2009 - 15:00)



9 de outubro de 2009

Cinema de excelência




Tenho acompanhado com interesse mas com reserva a campanha eleitoral para as autárquicas em Évora. Mas esta notícia publicada no site de campanha do PS, para além de todos os argumentos, fantasias e estratégias veladas das campanhas eleitorais, é particularmente lunática pelo anacronismo que reflecte. E exasperante.

O cinema, em Évora, funciona numa sala vulgar e digna. Mas com deficientes condições de visualização e conforto, segundo os padrões actuais. É consensual.

E é exasperante porque o actual presidente da câmara municipal e candidato, optou por elogiar sem disfarce a insuficiência, enaltecendo a felicidade de ter este «bom» equipamento ao serviço da cidade. Um «bom» equipamento, de resto, muito inferior às salas de cinema inauguradas há mais de duas décadas no Centro Cultural Eborim, às salas de cinema existentes em boa parte das sedes de concelho limítrofes e ao Salão Central Eborense, de meados do século XX...



Obama vence Nobel por antecipação

O Comité do Nobel agraciou Barack Obama com o Prémio Nobel da Paz. Como é evidente, não foi pelo que fez mas pelo que disse. Contudo, a credibilidade dos prémios Nobel fica amarrada às promessas do premiado, tal e qual o voto de confiança que um comum eleitor dá ao partido A ou B em qualquer acto eleitoral. Ou seja, esta surpreendente decisão vem premiar aquilo que o actual Presidente dos Estados Unidos da América poderá vir a fazer no futuro, invertendo a lógica da «obra feita» pela a qual são normalmente distinguidos os indivíduos nas áreas da física, química, medicina, literatura e economia. Além disso, fica aberto o precedente para que as promessas passem a valer prémios e para que cada novo presidente da maior potência mundial receba, à cabeça, a medalha de ouro, o diploma e o prémio monetário.

8 de outubro de 2009

Síndrome da mão invisível?!

No PCP, é relativamente conhecida a cultura de coesão em torno de um projecto, mobilização fervorosa dos apoiantes e a inequívoca fidelização partidária. Esta é uma representação mental que não sofre grande contestação a sul do Tejo porque, a norte, vigora o espectro da perseguição herodeana das criancinhas com laivos de canibalismo às primeiras horas da manhã.

Contudo, esse pretenso conhecimento é posto em causa por invulgares e recentes ocorrências protagonizadas por militantes em circunstâncias de particular agitação eleitoral e, consequentemente, em momentos em que a urgência de cerrar fileiras entre os arregimentados é palavra de ordem ("assim | se vê | a força do pêcê").

Se, em 40 anos de militância, Domingos Lopes conseguiu acertar em cheio na campanha eleitoral das legislativas para anunciar a sua saída do PCP, ontem foi a vez de Carvalho da Silva colorir devidamente a campanha eleitoral para as autárquicas, com o apoio expresso ao candidato socialista à Câmara Municipal de Lisboa.

Atabalhoadamente, o Secretário-geral da CGTP tratou de esclarecer que apoia António Costa mas que o seu voto vai direitinho para a CDU. Compreende-se que, para Carvalho da Silva, o voto útil em António Costa seja um bálsamo perante o cenário de ver novamente Santana Lopes à frente dos destinos da capital. Mas, nesse caso, ao fazê-lo sem a orientação clara do Comité Central e com um candidato próprio que daqui sai francamente amolgado (Rúben de Carvalho), Carvalho da Silva mais parece ter sido atacado pelo mesmo síndrome da mão invisível que deu a José Sá Fernandes.

6 de outubro de 2009

Um exercício de duplipensar na SIC Notícias

O outrora sociólogo Augusto Santos Silva não só gosta de malhar na direita [e no que estiver à mão] como o gosta de fazer com ponta de sarcasmo. E algum prazer também. O discurso assente em antinomias racionais como o célebre duplipensar do 1984 de George Orwell ("guerra é paz | liberdade é escravidão | ignorância é força"), elevam este digno ministro do Ministério da Verdade, a um estatuto só reservado a notáveis como o mestre Goebbels ou Mohammed Saeed al-Sahhaf, o inusitado ministro  iraquiano da informação.

O estranho caso de Cavaco Button

O institucional Cavaco Silva decidiu não interferir na campanha eleitoral, resguardando a sua figura do mau olhado num dia como o das comemorações do 99º aniversário da Implantação da República. Como é evidente, a intervenção na ressaca das eleições legislativas e em plena campanha para as eleições autárquicas é da responsabilidade do recreativo Cavaco Silva.  

Governo PS, um caso de osteoporose?

Mário Soares, o histórico militante socialista, ex-governante, pai de João e marido de Maria, advertiu que o governo minoritário a formar pelo PS deverá ser mais maleável no futuro, naquele que é visto como o ataque de sobriedade do século. Não sendo possível reeditar as recomendações que o senhor doutor fez em 1978 e em 1983, talvez seja prudente malhar realmente na direita [para usar um termo popularizado por Augusto Santos Silva].


2 de outubro de 2009

Um presente envenenado

O que Roman Polanski desconhecia é que os países assinam, por vezes, acordos bilaterais de extradição. E que, provavelmente, uma boa parte dos clientes de bancos suíços são cidadãos americanos. Mas, ainda assim, devia ter desconfiado dos mimos provenientes de locais em que o sistema judicial está feito para funcionar.

Aqui, uma história bem contada.

1 de outubro de 2009

Cavaco tem fé no IEFP

Em estrito respeito pela constituição da república, o presidente terá uma janela de oportunidade para dissolver a Assembleia da República entre Abril e Julho de 2010 e, assim, ver-se livre de um governo inoportuno. Aí, já não terá que sofrer o vexame de posar para as câmaras de televisão e dizer coisas sérias com reduzido alcance. O período de tempo é curto mas se Sócrates não conseguir duplicar as vendas do Magalhães, corre o risco de ser demitido por não atingir os objectivos definidos conjuntamente com o seu avaliador directo.

29 de setembro de 2009

O discurso de Cavaco

Quando Cavaco Silva decidiu candidatar-se à presidência da república não tinha seguramente em mente a interpretação de um papel secundário. Afinal, não fora também ele uma vítima da coabitação divergente movida pelas constantes intervenções, fiscalizações sucessivas da lei, recados e esse mimo de desgaste do governo que foram as presidências abertas de Mário Soares?

Talvez com menos estilo e sentido de oportunidade, Cavaco reclamou sempre o protagonismo saboreado noutros tempos. O record de vetos presidenciais, o flop da comunicação ao país na sequência do Estatuto Político-Administrativo dos Açores e, agora, o tiro para as nuvens de hoje, configuram uma decepcionante necessidade de afirmação.

Mais uma vez, o Presidente da República convocou o país para mandar recados aos partidos e, francamente, não elucidou fosse o que fosse sobre a questão essencial: há ou não suspeitas de escutas à presidência da república ordenadas pelo governo?

Por que razão afastou um homem da sua confiança - Fernando Lima - da assessoria de imprensa, mantendo-o na Casa Civil? A meia dúzia de dias das eleições legislativas...com que objectivo? Não foi, certamente, por ingenuidade...

Como é evidente, por muita especulação que possa ser fantasiada pela comunicação social (especialista nessa matéria dos rumores e da irresponsabilidade), pelos comentadores, pelos políticos e por mim, o certo é que quem desviou as atenções foi Cavaco Silva, quando decidiu dar cobertura a uma notícia supostamente infundada (segundo a sua convicção) e quando, não a repudiando liminarmente, decidiu pronunciar-se sobre este assunto após as eleições. Com isso, manteve o tema a pairar durante as eleições, tramou o PSD e desgastou a sua própria imagem.


Uma no cravo, outra na ferradura


Se especialistas norte-americanos na área da toxicodependência apresentam Portugal como um modelo de sucesso após a introdução de medidas como a descriminalização do consumo ou o programa de troca de seringas, já no caso da saúde, talvez seja prudente que Barack Obama se inspire no modelo holandês. Porque, neste último caso, parecem ter sido os recentes governos portugueses quem se inspirou no modelo norte-americano. 

28 de setembro de 2009

Eleições legislativas 2009

Afinal, a reflexão imposta na véspera das eleições terá sido indigesta para os simpatizantes do PSD. O CDS-PP agradece, quer a Manuela Ferreira Leite, quer ao Presidente da República. E às peixeiras e aos velhos saudosistas do tempo em que os pretos estavam nas colónias e o Salazar era como um bom e justo pai.


Apesar de perder a maioria absoluta, o PS teve «uma vitória extraordinária», nas palavras de Sócrates. Afinal, a célebre reviravolta hermenêutica de Álvaro Cunhal após cada acto eleitoral [«o PCP venceu»] fez escola, confirmada por esta declaração de vitória.

Com este resultado, esfumam-se os cenários de coligações ou acordos à esquerda. Em contrapartida, não será de estranhar se o CDS-PP repetir em bloco a convergência limiana em Fevereiro de 2000 (com o deputado Daniel Campelo). Várias vezes. Também o PSD, cuja liderança deverá mudar no próximo congresso, poderá vir a viabilizar as opções governativas. Contudo, os votos têm o seu preço e a direita far-se-á pagar caro...

Em suma, apesar de um dos principais objectivos da oposição ter sido alcançado - a queda da maioria absoluta - paradoxalmente, a vitória vai inteirinha para a direita porque é com ela que o PS vai passar a tratar... para desespero dos socialistas à antiga.

27 de setembro de 2009

O dia de reflexão foi ontem

Instituíu-se a véspera como «dia de refelexão». E quem teve mais do que fazer?  Há os que aproveitam a solidão de um compartimento sem cores nem cheiros para reflectirem sobre as semelhanças entre um boletim de voto e um boletim do euromilhões. 

26 de setembro de 2009

Uma vitória estrondosa do administrador da TAP

Estima-se que as perdas da TAP resultantes da recente paralização dos pilotos, rondará os 10 milhões de euros. Aproximadamente menos dois milhões do que aquilo que custaria à transportadora aérea se atendesse às reivindicações de aumento salarial.

24 de setembro de 2009

Jovens e política: o papel da socialização na participação política [de onze jovens]



 Considerado um elemento fundamental da democracia representativa, o sufrágio universal é o meio que os cidadãos têm ao dispor para intervir directamente na escolha dos seus representantes nas instituições democráticas e, assim, expressar o seu apoio ou desacordo com as propostas políticas em «concurso». O decréscimo dos níveis de participação eleitoral observado nos últimos anos, independentemente da fase de consolidação democrática, é fonte de naturais preocupações para a própria legitimidade da democracia. Em particular, o tradicional e elevado abstencionismo observado entre os mais jovens suscita dois tipos de inquietações. Em primeiro lugar, a desmobilização geracional, um arrefecimento geral na participação eleitoral observado de geração em geração. Em segundo lugar, as especificidades próprias de uma fase de vida em que a política não parece ser particularmente entusiasmante.

As explicações do efeito geracional e do efeito dos ciclos de vida respondem muito bem a uma e outra inquietação, serenando alguns temores de crise: de um lado, a adesão a formas alternativas de participação política e, de outro, a convicção de a integração social com a entrada numa nova fase de vida [e o pacote de responsabilidades que a acompanha] favorecer um maior envolvimento político. Porém, interessa também identificar as diferenças que existem entre elementos pertencentes a um mesmo segmento etário. Para isso foram entrevistados onze jovens com vários perfis de integração e relacionamento com a política, interessando em particular, mapear os respectivos trajectos de vida, tendo como grande referência os mecanismos de transmissão de referências políticas. Neste caso, privilegiou-se o enfoque a partir da socialização política, esperando compreender o impacto que a socialização política pode ter na configuração de uma cultura política de participação e envolvimento políticos.

As diferenças observadas estão na base de tipos-ideais ou perfis de indivíduos construídos para dar expressão a diferenças fundamentais identificadas nos relacionamentos mantidos com a política. Desde logo, ao nível da participação política (convencional e não convencional) mas também ao nível do envolvimento e interesse pela política.

23 de setembro de 2009

Governar em minoria relativa?

Louçã disse afinal que não mas Jerónimo disse que talvez. Tanta indefinição vai acabar por espantar o noivo e enxotá-lo para outra banda. Portanto, se, depois de Soares e Alegre, os últimos dias forem marcados pela presença de sociais democratas como Jaime Gama ou Pina Moura, será caso para pensar que, o noivo, sozinho é que não! Almeida Santos, por seu turno, é homem pragmático. Em seu entender, o noivo deve permanecer solteiro e dar umas escapadelas sempre que for necessário para matar a fome. Seja com mulheres ou homens, o que interessa é que os ditos vão sendo aliviados. E, à boleia dessa ideia, até pode começar por apanhar boleia do Bloco de Esquerda e aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

22 de setembro de 2009

Quem de três, um tira?

Quando se previa - no limite - uma negociação pós-eleitoral a dois, eis que a CDU abandona aquela posição inicial de recusa peremptória ("coligações com o PS, só se esse partido rasgasse o seu programa eleitoral", disse Jerónimo no início da campanha) e, a escassos dias das eleições já vai admitindo que, afinal, «é cedo para falar de coligações». Com experiência em coligações, a CDU - Coligação Democrática Unitária entre PCP e PEV - pode muito bem dar uma mãozinha e entrar nesta corrida a três. E, dado o à vontade do BE com os temas não convencionais, três não são demais... Para o PS, mais conservador, é que pode ser uma escolha difícil entre a paixão arrebatadora e o noivado com a filha do caseiro.

Estratégia de desestabilização à convergência entre BE e PS ou namorisco do PS à CDU, uma coisa é certa: com a maioria absoluta perdida, não passa despercebida a crescente aparição de socialistas nos comícios do PS, como Manuel Alegre e Mário Soares.

Em todo o caso, também não é previsível que Sócrates rasgue o seu programa...

20 de setembro de 2009

«Sou poeta, a coerência não é o meu forte»

Manuel Alegre não se conteve e, perante o recuo da direita nas sondagens, deu o dito pelo não dito e apareceu ao lado de Sócrates no comício de Coimbra. «Pela união interna do partido», terá ele justificado à sua consciência... e aos seus apoiantes que andarão neste momento a vaguear sem rumo e de cabeça perdida jnas imediações das sedes do PCP e do BE.
Depois das críticas ferozes ao governo, da candidatura independente à presidência da república  e à revelia do partido (oferecendo o cargo a um político da direita) e, ainda, da sua exclusão das listas do PS às legislativas, Alegre reconsiderou e.... protagonizou um episódio semelhante ao de José Saramago quando, integrado nas listas da CDU às europeias, apelou ao voto em branco.

Mas, como tudo na política, a incoerência redime e, convenhamos, com Alegre no governo abrir-se-ão certamente novos horizontes no relacionamento do PS com a esquerda...

17 de setembro de 2009

Ingerências

Ao contrário da falta de entendimento entre os «partidos de poder» sobre estratégias estruturais para o país, em Espanha (da má memória para os espíritos mais tacanhos), socialistas e populares convergem e consentem na compreensão extra-terrestre do interesse nacional estar à frente dos mais mundanos interesses partidários. Sem pretender imiscuir-se nos assuntos internos portugueses e ao contrário da família ideológica portuguesa, Mariano Rajoy (presidente do PP e líder da oposição) lá foi atirando que o transporte em alta velocidade é prioritário. 
Nota minha: essa integração estratégica espanhola em torno das grandes obras é assinalável. Porém, o senhor Rajoy devia compreender definitivamente que a emancipação de mil cento e quarenta e três não foi uma casualidade. - Por isso, senhor Rajoy, não nos venha dar lições porque os nossos dirigentes estão formatados para «dispensar às aulas»...

Team work

Durão Barroso foi reconduzido no cargo de presidente da comissão europeia graças ao invulgar empenho dos portugueses e de uma solidariedade à prova de bala dos europeus. Os portugueses ficam a dever muito à direita europeia.

16 de setembro de 2009

Dizer mal está-lhes no sangue

José Sócrates chegou à conclusão que afinal «é possível fazer um comício sem dizer mal de ninguém». Um apenas. Sobretudo numa altura em que se afastam os adversários que, como a Manuela Moura Guedes, dizem mal de tudo e de todos.  Mas daí até que a moda pegue e chegue à Madeira...
Quem não parece estar pelos ajustes é Paulo Portas. Os insultos sucedem-se e, desta vez, afirmou-se mesmo preparado para ser primeiro-ministro. Quanto a isto, cumpre recordar que a perda de lucidez, num político, pode ser fatal. O povo, pelo menos, tem-se queixado muito...

Que bicho mordeu Domingos Lopes?

O homem esperou longos quarenta anos para, em plena campanha eleitoral, bater a porta com grande estrondo. Se é caso de faca e alguidar, cumpre-se o adágio e, nesta ocasião, a vingança serviu-se gelada. 

15 de setembro de 2009

O que é a democracia?

Por vezes tento explicar (sem grande esperança que a maria madalena afinal não se venha a arrepender) que em Portugal a revolução não foi feita por democratas. Alguns até podiam querer mudar o regime mas hoje vejo sobretudo que se tratava de uma transformação do status quo cujo principal ponto consistia na conquista do poder. Mais, vejo também o ódio destilado em alguns olhares prontos a legitimar as maiores atrocidades, assim como a identificação de muitos representantes dessa geração com as doutrinas que, justamente, nos privaram da liberdade. Mais ainda, vejo um bando de delinquentes no poder e outros que, por o terem perdido se converteram em acinte humano.
Até lá chegarmos, enquanto povo, é preciso percorrer algumas dezenas de anos de um caminho que não se faz a correr mas sim, a viver. Podemos, enfim, esperar mais alguns anos até que a democracia seja realmente incorporada nos sistemas de valores abençoados pela santa sociedade. Até lá, não vemos outra solução senão assistir ao envelhecimento de preconceitos instalados acerca da democracia, igualdade política, liberdade, autoritarismo, etc.

Os filhos de Sócrates bem o avisaram...

Depois dos debates sensaborões e francamente mal disputados, o regresso do Gato Fedorento à televisão num registo «grande entrevistadeiro» serviu para relaxar em plena campanha eleitoral. E para confirmar por que razão são os políticos uma classe tão dada à paródia. Desde tempos imemoriais que os humoristas, simplesmente não conseguem passar ao lado das questões sociais e políticas...
Como é evidente, perante a previsão de uma audiência record (1,3 milhões de portugueses), seria pouco inteligente recusar o convite, mesmo sabendo que ali, os martelinhos do S. João não batem a brincar...
Mais importante do que a paródia e o entretenimento de 1,3 milhões foi a oportunidade que José Sócrates não desperdiçou para mostrar aos portugueses que é, afinal, um homem sereno, normal, bem humorado, sem obsessões com o poder e bom pai de família, a avaliar pelos recados e conselhos que pretensamente recebeu dos filhos antes de ir para o estúdio...
E ainda teve tempo de sugerir as paixões estalinistas de Ricardo Araújo Pereira. Embora muito depois de lhe galar a elegância do fato...

14 de setembro de 2009

Cada um ao seu!?

Muito nos honra o amplo destaque que ontem teve o distrito de Évora nos canais televisivos, embora, debalde, se tenha devido à intensa corrida eleitoral protagonizada por três partidos (BE, PS e CDU) em luta por três lugares (de duzentos e trinta). Como é evidente, a curiosidade não passa disso e as verdadeiras lutas, essas, ficarão para o fim.

10 de setembro de 2009

As novas roupas do Kent


Kent, o dedicado namorado da Barbie, tem um conjunto novo de roupas para vestir consoante a ocasião. O tão aguardado modelo prison break deverá começar a ser comercializado proximamente para gáudio dos fans.

8 de setembro de 2009

O rendez-vous suspeito de Luís Amado



Dos britânicos já se esperava que não fizessem finca-pé por motivos éticos e valores morais: se há outros interesses mais apetecíveis, os britânicos não vêem por que não hão-de ser pragmáticos. Aconteceu em 1534 com a «extravagância» de Henrique VIII ao pretender anular o casamento para se casar em segundas núpcias com Catarina de Aragão, possivelmente uma febra muito apetitosa. A pretensão do monarca não foi satisfeita pelo Papa Clemente VII, valendo a separação da Igreja Anglicana de Roma. Aconteceu recentemente, também, com a libertação de Abdelbaset Ali Mohamed Al-Megrahi, o líbio condenado a prisão perpétua pelo atentado em Lockerbie que, em 1988, vitimou 270 pessoas. Desta vez, os interesses petrolíferos na região deverão ter sido razão suficiente para esquecer aquilo que, nesta altura, os políticos britânicos considerarão detalhes e pormenores insignificantes...

Mas do ministro dos negócios estrangeiros português, Luís Amado, confesso que esperava alguma seriedade que, de resto, tem-no caracterizado nesta sua passagem por um governo meio descabelado.

Kadhafi, líder de um regime autoritário [acusado por muitos de favorecer e financiar o terrorismo internacional e homem de um mau gosto memorável] comemorou os 40 anos do golpe de estado que transformou a Líbia numa oligarquia autoritária e popularucha de pendor monárquico.

Se a validade moral do interesse estratégico de Portugal na coutada de Kadhafi não me deixa confortável, não me lembro de nada mais adequado senão reproduzir a sentença proferida pela também socialista Ana Gomes: "a presença de Luís Amado envergonhou-nos (...) não há interesses económicos ou outros que o justifiquem".

Nestas questões não podem existir dilemas morais para o ministro nem para os portugueses! Caso contrário seria lícito aceitar o dinheiro de narcotraficantes ou de organizações terroristas para financiar programas educativos ou o equipamento de unidades de saúde. Salvar vidas com o dinheiro que resulta da matança de outras não é opção.

4 de setembro de 2009

Conspiração ou toleima?

O PS até podia não ter interferido directamente na suspensão do pasquim da Manuela Moura Guedes, consciente do impacto que uma notícia destas teria na opinião pública a três semanas das eleições. Mas também podia ter interferido, jogando justamente com a reacção da opinião pública àquilo que seguramente consideraria uma palermice do PS (para além de todas as acusações de cooptação das liberdades e garantias democráticas). Neste último caso, a teoria da sabotagem conspirativa serviria muito bem a estratégia de vitimização trilhada pelos dirigentes socialistas.

E também poderia ter sido, de facto, vítima de uma cabala engendrada por forças hostis e eventualmente afectas a outras sensibilidades políticas; ou pelo Manuel Alegre, cioso do seu socialismo.


Tenha ou não influenciado a suspensão do Jornal de Sexta, parece admissível a tese de um governo ter suficiente poder para o fazer num cenário em que é o princípio de mercado que norteia as restantes esferas, incluindo a massacrada deontologia do jornalismo.

A oposição, essa, está mais preocupada em explorar e aproveitar politicamente o caso sem que isso a conduza numa reflexão o «polvo» de que falava José Eduardo Moniz em entrevista aos meios de comunicação social.

Certo, certo é que ninguém no seu perfeito juízo suspenderia um programa líder de audiências e que nunca fez cerimónia com a sua linha editorial pecaminosa e parcial. Muito menos a três semanas das eleições legislativas e com o argumento da homogeneidade do programa após largos meses de pândega e excessos.


1 de setembro de 2009

O cabelo da Manela denuncia um certo conservadorismo

A JS acusou Manuela Ferreira Leite de ter parecenças com uma "professora primária conservadora do antigamente", como se a culpa fosse dela e não da sua cabeleireira. É natural que a verve, a transitoriedade e a irreverência características dos jovens, acrescidas por alguma imbecilidade das jotas, lhes instigue paixões acirradas pelos antípodas. Logo, é legítimo pensar que para eles, um professor moderno e sofisticado é representado pelo tipo relaxado, sempre disposto a aceitar umas valentes bolachadas de alunos e pais, e cujas preocupações qualitativas são esvaziadas pela obsessão com as sacrossantas estatísticas.
Simpatize-se ou não com a senhora, com as roupas bafientas e com o cabelo com topete e armação de laca, ainda se está para perceber a «profundidade» estratégica, semiótica e linguística do discurso dos rapazolas. Lá tamanho têm eles...
Aqui está uma amostra da escola política em Portugal, sendo certo que o problema de credibilidade que infesta a política e os políticos é, afinal, um problema de elementar educação.

30 de agosto de 2009

Chavez na descontra

Depois de escorraçar os meios de comunicação social independentes, Hugo Chavez desacelerou internamente e, agora, até tem substituído a t-shirt vermelha surrada por uma discreta gravata. Talvez a que usa para, diplomaticamente, ameaçar toda a América Latina com guerra. Defeito profissional ou apenas precaução, certo é que o investimento em armamento bélico tem vindo a aumentar substancialmente nos últimos anos...

26 de agosto de 2009

A-gosto

Apesar de sugestivo, A-gosto é assim mesmo, sensaborão. Neste mês em que o circo abranda e os fait-divers são primeira página dos jornais, valem-nos os incêndios, os casos de justiça popular e os acidentes de viação em França. Num ano normal, seria de facto assim... Caso não estivéssemos às portas de duplo acto eleitoral e caso o actual executivo não sentisse que afinal está a jogar nesta altura muito mais do que há quatro anos atrás poderia supor. Assim, sucedem-se as tolices que, não sendo de Verão, integram o vistoso escaparate a sortear nos próximos dias 27 de Setembro e 11 de Outubro. Há para todos os gostos.

20 de agosto de 2009

Hospital de S. João garante sangue impoluto

O Presidente da Administração Hospitalar do Porto jura a pés juntos que cumpre uma directiva do Ministério da Saúde ao impedir os homossexuais de dar sangue. A ministra diz que não, que o que conta são os comportamentos de risco e não a orientação sexual; que o que conta são critérios objectivos que distinguem o que é do que não é um comportamento de risco…

Por outras palavras, se um sujeito anda a fornicar com animais do mesmo sexo, reconhecida ou não a sua homossexualidade, é indiciador de um comportamento sexual doentio. Se, entre as mulheres a coisa ainda pode passar por «exploração adolescente e ingénua», no caso dos machos, a homossexualidade é uma prática asquerosa e punível com até 1000 anos a arder no inferno porque o cú foi feito para evacuar e não para fazer as vezes de uma vagina, de uma boca ou de uma mão. De um sovaco, no limite. Quanto muito, nos casos extremos de isolamento, admite-se a relação sexual com uma ovelha, desde que seja do sexo oposto.

Em suma, só aos homossexuais platónicos (os voyeurs, os contemplativos) é autorizada a dádiva de sangue. E, aceite-se, às lésbicas, desde que não incluam aventuras com «auxiliares de prazer», seja mecânico ou manual.

19 de agosto de 2009

Mutatis mutandis

Uma notícia do jornal Público dá conta das condições precárias em que metade dos emigrantes portugueses se encontram. Já estou a ver a revolta entre os crentes na superioridade lusa. Sem contrariar a solidariedade, esses pategos haviam de ver as condições precárias em que se encontram os imigrantes no nosso querido país. Pelo menos, antes de os condenarem à indigência eterna por «roubarem» empregos, produzirem riqueza, procriarem sem regra e, nalguns casos, fornicarem indecentemente com os nossos melhores baios...

Naif

Confesso que não morro de amores pela onda naif mas sinto-me emocionado pela paixão, sofreguidão, indignação e nfalrnfamção que evoca. Por vezes, chego a cortar os pulsos.

Provocações pré-eleitorais

Foi à conta de conspirações negras, reais e imaginárias, que sentia arrepiarem-lhe as costas sempre as voltava a alguém, que Ivan conquistou o cognome "O Terrível". Sem tanta subtileza, a casa civil do Presidente da República preparou-se para o pior mas do governo, «disparates de verão».

Orgulhosamente sós!

No artigo de opinião que assina no Público, Vital Moreira não foi homem de meias tintas. O outrora militante comunista, prefere entregar o poder à direita a vê-lo partilhado com comunistas e bloquistas. Esclarecedor. A expressão utilizada para intitular o artigo de opinião "Antes sozinho..." é, aliás, evocativa de um certo saudosismo...

Contudo, antes de mais este aprumo vitaliano, já Jerónimo de Sousa (PCP) e Fernando Rosas (BE) se tinham apressado a dizer mais ou menos o mesmo após o «desafio promíscuo» de Ferro Rodrigues, alegando diferenças ideológicas substanciais. E se há atitude que, por enquanto, não se viu nos dirigentes desses dois partidos foi aquela canina posição de bicos dos pés e olhos no poder, seja ele qual for.

17 de agosto de 2009

Caça aos grilos

Quem, na sua infância, não passou por uma vez que fosse, pela epopeica experiência de caçar grilos? Bom, pelo menos aqueles que tiveram o privilégio de viver ou brincar no campo ou ainda, em última análise, visitar familiares residentes em meio rural, puderam ter essa magnífica oportunidade.
Recordo que, normalmente, juntava a diversão com a concentração colocada na arte de enganar o bicho. Primeiro, com uma palhinha. Se não resultasse essa técnica da comichão, uma boa descarga de urina haveria de expulsar o artista do seu reduto. Aí, raramente me escapava. O destino dos grilos era invariavelmente o mesmo porque naquele tempo dava-se valor à cantoria, mesmo que fosse ininteligível.
Hoje, sem grilos na gaiola, continuo a dar valor à cantoria.

Ferro e a queda do Carmo e da Trindade




À esquerda! Se não der com esses, que se foda! À direita! Sozinhos é que não...
Quem não tem cão, caça com gato! Eles [Sócrates] que preparem três programas eleitorais, algum há-de dar...

14 de agosto de 2009

A fé do ministro

Homem de crenças metafísicas e muito dado à astrologia, o ministro do trabalho e da solidariedade social «não acredita que o desemprego atinja os 10%». É lá uma crença dele que, por simpatia, quis fazer o favor de partilhar com o povo. Nada de anormal. O Benfica também acredita, ano após ano, que «este ano é que é».

Mão dura nos canalhas do 31 da Armada

Mão dura nesses canalhas do 31 da Armada que, com o ímpio ataque à República (simbolicamente representada pela Câmara Municipal de Lisboa), abalaram os alicerces do regime. Não é tanto pela bandeira... é mais por se terem disfarçado de honestos trabalhadores numa missão de decoração da fachada municipal.

Entretanto, o Procurador Geral da República reza para que algum desses meliantes seja já arguido nalgum dos infindáveis processos de corrupção. Assim, talvez consiga meter alguém na prisão. Se a coisa der certo, sabemos que a PJ está a trabalhar num esquema secreto de produção de provas irrefutáveis para entregar ao Ministério Público: imagens manipuladas no photoshop, por exemplo, com a Fátima Felgueiras a hastear a bandeira da monarquia nos paços do concelho de Felgueiras.

Não tenho paciência

Dei uma curta volta por alguns blogues empenhados em mostrar o lado sofisticado e superior da cultura urbana, na qual campeiam as gentes com bom gosto e obcecadas pelas futilidades do costume, tipo «consciência social», os realizadores de cinema, os gostos dos outros, a última moda urbana, a poesia depressiva e outros tiques burgueses mascarados por um socialmente aceitável pós-materialismo.
Foda-se! E se fossem úteis?

13 de agosto de 2009

Chuva civil não molha militar!

Em Fátima não há um plano de contingência para combater a gripe A.

A passividade dos eclesiásticos é intrigante. Decerto têm algum milagre na manga...

12 de agosto de 2009

As ingerências intoleráveis da ERC

Titubeante e por vezes lambe-botas, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), emitiu recentemente uma directiva em que era sugerida a suspensão da colaboração dos opinion makers que são, simultaneamente, candidatos nos próximos actos eleitorais, sempre que não seja garantido espaço para todas as candidaturas. Apesar de não ser vinculativa, esta directiva acicatou os ânimos da Confederação das Empresas de Comunicação Social que se apressou a repudiar tal ingerência.

Como é evidente esta reacção fere de morte a garantia de pluralidade e igual acesso aos poderosos meios de comunicação social pelos diferentes candidatos, desvirtuando os critérios jornalísticos e o regular funcionamento do processo eleitoral.

Mas, acima de tudo, esta reacção é reveladora da colonização dos valores democráticos, sociais e profissionais pelo princípio de mercado. Por este andar, a definição das listas passará a privilegiar definitivamente os superstars da «socialite» e dos media em detrimento das competências dos candidatos. E, claro, essa gente faz-se pagar…



Ver Incompatibilidades de campanha

10 de agosto de 2009

Do desperdício de recursos

A Era industrial e a inequívoca complexidade social que acrescentou, com efeitos na super-especialização e na divisão social do trabalho, trouxe outros desperdícios para além daqueles que são massivamente produzidos pela sociedade feliz, conceito posto em circulação nos idos de 60 pelo filósofo americano Herbert Marcuse para designar o conforto material que está, debalde, na base das esperanças emancipatórias prometidas pela Modernidade. E foi por aqui que ficámos, sublinha Boaventura Sousa Santos.


Por conseguinte, ao desperdício material do lado da produção material, do mercado e da satisfação de necessidades primárias, a nossa civilização é também perita em desperdiçar talentos e recursos humanos.


Ao acantonar os indivíduos em compartimentos exíguos [apesar de, nalguns casos, frutuosos] como uma carreira profissional, esta nossa sociedade espera dos indivíduos pouco mais do que o compromisso dos recursos humanos com o processo produtivo, em estrito cumprimento do respectivo programa de treinos a que cada um foi sujeito na escola, no trabalho, no café. E, em muitos casos, sem uma orientação voltada para a qualidade, alternando os ritmos sufocantes das sociedades actuais com aquela sensibilidade medieval que, ainda há dias, era acusada por Paquete de Oliveira quando insinuava que grande parte dos nossos problemas foram criados por essa geração do pós-25 de Abril, mal preparada para lidar com o poder mas com uma capacidade inata para abusar dele e das liberdades entretanto conquistadas, contribuindo para o esvaziamento ideológico que hoje observamos tão amiúde...


Em suma, o que se aproveita dos indivíduos é invariavelmente uma ínfima parte das potencialidades com que foram bafejados por deus nosso senhor. E a culpa não pode ser, evidentemente, das novas gerações. Mas é a estas que lhe cabe arrumar a casa…


O desperdício de recursos tem reflexos na organização burocrática do Estado, um atoleiro convencido de que, à liberdade do sujeito, recordando Alain Touraine, basta um insuficiente consenso sobre a flexibilidade horária, a segurança laboral, os direitos sociais e sobre mais um par de bandeiras desfraldados à vez por sindicados e patronato. Mais, confirmando o seu estatuto de entidade não inteligente, a organização burocrática do Estado, central e local, rege-se segundo a crença «superior» de as regras definidas pela minoria que pastoreia a maioria serem fundamentais para a ambicionada auto-gestão dos serviços. Não são! Nem é para isso que tais minorias são pagas.


Em consequência, a tão alardeada optimização funcional não passa de uma avaliação grosseira dos recursos materiais, de cosmética barata e da incompetência celebrada pelos caprichos e vontades das elites. A exigência cumpre-se com a garantia dos serviços mínimos. E isso é francamente pouco. Como é evidente, a primeira responsabilidade é dos titulares de cargos públicos nos órgãos de Estado. Só depois é que se pode acusar os miseráveis funcionários públicos.

Para consolo de alguns e descanso de outros, há excepções.

6 de agosto de 2009

Hirollywood

Hoje [e, por que não dizê-lo, ontem e amanhã] tive a perfeita demonstração da incapacidade de organização mental dos factos quando o meu interlocutor teve a veleidade de comparar Hiroxima com Pearl Harbour, com o fito de combater qualquer sinal de anti-americanismo que eventualmente pudesse despontar em mim.

Se exceptuarmos o enquadramento militar de Pearl Harbour, o enquadramento civil de Hiroxima, a desproporção de vítimas, as sequelas, a empatia ocidental, o potencial de destruição dos canhões japoneses e de uma ogiva nuclear e a fantasia justiceira/romântica do direito à vingança, é tudo a mesma coisa. «Guerra é guerra», não obstante as convenções que a regulam, instituídas e defendidas pelo mundo dos bons rapazes de que nós, obviamente, fazemos parte. Mas que nem sempre cumprimos, esperando esse compromisso dos selvagens. Fiz questão de lhe fornecer estes novos dados, não esperando porém que contribuíssem para a sua salvação.

Mas esse é o risco de aprender a História Universal pelos filmes de Hollywood e não pelos livros.

Curiosamente, no dia em que se comemoram 64 anos sobre Hiroxima e no dia em que a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton exprimiu os seus lamentos sobre a não adesão do seu país ao Tribunal Penal Internacional.

A vontade, tudo alcança!

Estudos recentes sugerem que a prolactina, a conhecida «hormona do leite» que é produzida pela hipófise (glândula regulada pelo hipotálamo e não nenhum estado de adormecimento tântrico), pode ser influenciada pela vontade humana.

Talvez agora se faça luz sobre o mistério de uma mulher e de uma vaca charolesa que, no tempo da fome, deram de mamar à dúzia de famílias que constituíam a pequena comunidade de Aix-la-Seine. Não se sabe ao certo durante quanto tempo durou o prodígio mas é sabido que terminou quando os beneficiários decidiram, em plenário, matar a vaca para ser servida depois da Quaresma. Estima-se que a mulher tenha regressado desgostosa a Paris e sem vontade de produzir mais leite.

Há relatos de tentativas de reconstituição desse estranho caso, invariavelmente conduzidas por um Sr. Parker, botânico e criminologista. Porém, todas fracassaram.

5 de agosto de 2009

Adverbiamente

Onde é que a objectividade dos factos e as probabilidades estatísticas se enlaçam e se fundem num único e indissociável corpo? Onde é que esses dois elementos captados e criados pelos sentidos e razão produzem um significado autónomo? Contrariamente ao que se possa pensar, não é unicamente nessa relação primária entre o número de casos favoráveis e o número de casos possíveis em que se funda a Lei de Laplace, avó das teorias contemporâneas das probabilidades. Em rigor, também os podemos encontrar reproduzidos [mas aqui, sem qualquer sentido] num português deficiente e, infelizmente, vulgarizado pela frequência estatística acima da média, que admite namoros inúteis e transgressores entre dois advérbios, especialmente quando um é de afirmação e o outro, de dúvida: «efectivamente, provavelmente foi um resultado feliz…»

Pacheco Pereira, no seu canto de opinião na SIC Notícias, a partir do qual desfere ataques cerrados contra a incompetência e saberá ele mais o quê, diria que não foi uma expressão nada feliz e aproveitaria para exibir os seus conhecimentos aprofundados sobre morfologia, sintaxe, fonética, semântica, etimologia e lógica, para sentenciar com uma daquelas frases lapidares: «este é um vil ataque dos incultos para sepultar de vez a língua portuguesa!»
Agora, que os advérbios dão jeito, lá isso dão...

4 de agosto de 2009

AB (1975-2009)


Antes de te saber, um inexplicável mau presságio caiu-me, vindo sei lá de onde. Não dei, não dou importância. Boa viagem, amigo!

3 de agosto de 2009

Os amigos não se lixam uns aos outros

Como é evidente, Isaltino Morais será absolvido porque, entre pares, a primeira é de gesso. O recurso interposto no Tribunal da Relação dará razão aos que, como João Cravinho, exasperam com a tolerância institucional de que beneficiam os veículos da corrupção em Portugal.

1 de agosto de 2009

Um estranho caso de amnésia

Apesar da estreita afinidade entre o governo e o mundo da comunicação social, o secretário de Estado das Obras Públicas, Paulo Campos, desconhecia a existência do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência). Fosse por falta de leitura dos jornais ou por qualquer outra maleita inexplicável, o certo é que Paulo Campos também desconhecia que Joana Amaral Dias não era uma amiga com quem se fala sobre trivialidades por telefone. Afinal, é uma feroz militante do BE.

Depois do assédio da comunicação social nos últimos dias, Paulo Campos chegou à conclusão que nos últimos tempos da sua vida tem sido secretário de Estado das Obras Públicas. Também desconhece que foi claramente vítima da gula socialista - a Joana! Não queriam mais nada...

30 de julho de 2009

Depressing

A senilidade é contemporânea do adormecimento da alma. Antes de mais, quando o estado febril concede mais de uma hora de televisão por dia, em desafio às sensatas recomendações do senhor doutor.

Separar as águas

É importante que, por esta altura, os meios de comunicação social identifiquem claramente os intervenientes das notícias. Por esta altura, mais de metade das notícias que são publicadas tendo como actor o governo, são, na realidade, produzidas pelo PS.
É importante perceber que, em democracia, não é o governo que está em campanha eleitoral mas sim os partidos políticos pelo que não é aceitável que as promessas que agora proliferam tenham a chancela do governo. Para isso, recordamos que o programa eleitoral que há quatro anos e meio foi sufragado pela maioria dos eleitores portugueses tinha como horizonte os quatro anos e meio seguintes. Logo, as promessas que agora nascem nas árvores para o próximo ano pertencem, antes de mais, ao PS e têm como objectivo apenas e unicamente conquistar votos.

29 de julho de 2009

Próprio para adolescentes imberbes

Fernando Alvim, popular locutor da Antena 3, dj frequentador de locais de gosto duvidoso e apresentador de televisão com as mesmas expectativas de singrar na televisão que o Mantorras tem no Benfica, convidou para seu entrevistado Vasco Graça Moura. Seguindo uma temática com a qual o entrevistador está visivelmente pouco à vontade - a cultura - falou-se ainda da língua portuguesa, do acordo ortográfico, de mulheres [embora neste ponto não tenha sido perfeitamente clara a interpelação de Alvim] e de mais um par de parvoíces só capazes de entreter os amantes da conhecida série de «humor», Malucos do Riso. Por fim, não foi sem algum desprezo que Graça Moura desenevoou na cabeça de Alvim, a complexa diferença entre «escritor» e «poeta». Elucidativo quanto à situação financeira de Moura pois, que intelectual [como bem fez questão de frisar o entrevistador no início] no seu perfeito juízo, se sujeitaria a tamanho chorrilho?

23 de julho de 2009

Au delà de la confiance en soi-même...

Num rasgo de prepotência meio lunática e francamente ridícula, o primeiro-ministro profetizou que ainda está para nascer um primeiro-ministro mais competente no que ele no défice das contas públicas.
As marcas da motivação da população num cenário de crise foram assim definitivamente estioladas com a arrogante demarcação deste nosso Rei Sol.
Do ponto de vista daqueles que se dedicam a estudar o fenómeno político, a coisa é tanto mais interessante quanto o é a constatação de uma inexpugnável sensação de vitória antecipada que parece habitar a cabeça do senhor Eng.º José Sócrates. Para lá de todo aquele «charme» a que nem Santana Lopes resistiu, José Sócrates conta também com três aliados de peso: a fraqueza do PSD, as surpreendentes parecenças de Manuel Alegre com o lendário personagem Fausto e, finalmente, a bonomia do povinho.
Destes, só os governados têm aparentemente ao seu alcance a reversão da condição aparvalhada a que são votados por este senhor que foi empossado pelo presidente da república.

20 de julho de 2009

Num mundo troglodita

Os registos históricos que dão conta de uma alunagem há precisamente quarenta anos, não estão preocupados com a veracidade das fontes. Como em tudo, há partidários do sucesso da operação e há partidários da versão fraudulenta. Pouco importa se a Apollo 11 levou os três astronautas à lua ou se apenas os transportou de um estúdio de cinema ao restaurante. Estou convencido que a alteração desse dado pouco ou nada influiria na fome mundial e nas guerras.

Mas fico verdadeiramente alterado quando recordo a ignorância de uma estudante universitária há cerca de 10, 12 anos atrás. Mais do que ignorância, a renitência da rapariga em admitir que, historicamente, o «Homem aterrou na Lua», fê-la recuar mil anos, ao tenebroso arcaísmo intelectual da Idade Média. Não era um argumento político que afastava a dita estudante do facto histórico (desmentível ou não). Era, sim, uma troglodita manifestação de ignorância de alguém que, possivelmente, saiu debaixo de uma pedra directamente para uma instituição de ensino superior, na qual, possivelmente também, não lhe foram corrigidas falhas elementares. E isso é que é preocupante [pelo menos para mim, que não faço questão de sair do planeta] porque nos adverte a reflectir sobre como é possível que o sistema formal de ensino dê tantas e cada vez mais borlas a pessoas que o hão-de gerir no futuro...

Come fly with us

Sem grande pudor e levado pelo frenesim pré-eleitoral, o licenciado José Sócrates prometeu assegurar uns valentes milhares de postos de trabalho para recém-licenciados em instituições particulares de solidariedade social. O ministro do trabalho e da solidariedade social franziu a pêra com preocupação mas assentiu. Afinal, «promessas são promessas e toda a gente está careca de saber quais são as regras do jogo», pensou… «Se a coisa for para avançar, os recém-licenciados terão garantido, pelo menos, um lugar nas equipas dos programas ocupacionais para desempregados que servem a sopa dos pobres». Por outro lado, continuou o ministro nas suas cogitações, «com esta história das Novas Oportunidades, se calhar, o gajo quer transformar milhares de operários e senhoras da limpeza das misericórdias em psicólogas, engenheiras, professoras… Grande jogada! Este gajo é mesmo bom

18 de julho de 2009

Ensaio sobre o absurdo i


Quando a Gasosa convidou para a rubrica Gasosa Convida, fui levado a recusar por não me lembrar de ter sido convidado, por o carro não pegar e por uma cegonha fardada de Express Mail me ter batido à porta intimando-me a levantar a encomenda que estava no Depósito M-53 do Cegonhoporto local há cerca de 270 dias.

Encurralado, resolvi aceitar de boa vontade. Inicialmente, pensei em pregar-lhe com algumas suras do Corão ou outras tantas leis do fiqh ou, ainda, uma das 3573 máximas que trago decoradas sempre à mão para enfrentar qualquer circunstância com que me deparo no quotidiano. Mesmo em situações francamente embaraçosas como daquela vez em que o presidente da república me pediu um exemplar do Borda d’Água na casa de banho de uma loja da Mango em Alcabideche. Felizmente não era nada comigo e o homem era afinal um professor irado com a Maria de Lurdes Rodrigues por causa do cozido de grão que aquela terá deixado displicentemente ao lume.

Pensei igualmente em resolver o assunto enviando uma fotografia do Fernando Mendes a fazer o pino no lombo de um touro bravo. Mas o touro não colaborou e o aspirante a humorista conseguiu sair ileso da sala de desmanche antes que lhe cobrassem a entrada.
Assolado por tenebrosas e incapacitantes dúvidas, fui acometido por um terrível ataque diarreico quando lia o jornal e ocorreu-me a ideia de trabalhar em part-time num ensaio sobre o absurdo. Pensei, em jeito de desabafo, «absurdo ou cegueira, é tudo a mesma coisa», apesar de não viver numa ilha vulcânica coberta de cinzas onde não se topam mais do que calhaus menores de idade.

Como é do conhecimento geral, etimologicamente, absurdo deriva de uma norma incapacitante e defeituosa: «o surdo». Mas isso não interessa para o caso. Ora, neste mundo em que vivemos e numa perspectiva meramente metafórica, não ouvir é como não ver, logo, o ensaio está concluído e demonstrado.

Depois deste importante depoimento de um indivíduo com um notável percurso na apanha do tomate, entramos finalmente no assunto encomendado.

Era eu um pré-adolescente, imaturo e inconsequente quando os americanos deram guerra ao Iraque. O que tem isto a ver com o propósito deste texto? Nada! Mas achei que seria útil dizer que esse determinante facto histórico ocorreu paralelamente às minhas investidas na taberna ao lado da escola em busca de bagaços vespertinos e drops de frutas. In illo tempore, como se costuma dizer, não haviam mais do que três ou quatro motos com cilindrada superior a 125 cm³ em Évora e o Chico era o maior mentiroso do Alentejo. Fosse como fosse, passava os meus santos dias nas aulas com o rabo sentado num intenso formigueiro, as pernas orientadas para a porta de saída [ou para a janela, conforme os casos], e a cabeça estacionada em alguma parte da lua. Confesso que nunca me soube orientar naquele planeta estranho, talvez por ser tudo um bocado a preto e branco. No entanto, desse alongamento físico-espiritual se depreende a minha fisionomia de núbio, só traída pela estatura pigmeia de toda a minha família.

E a que me dedicava eu nesse frenesim? À pintura! Pode parecer estranho escrever um texto e não apresentar nada artisticamente relevante mas… sempre fui uma criança difícil e quase entrei para a Opus Dei, não fora a denúncia de orgasmo manualmente induzido a bispos irlandeses, feita por uma colega da escola a quem eu me esquecia de desejar «um bom fim-de-semana» à sexta-feira. À conta disso fui chamado à presença do director da escola a quem tive que explicar detalhadamente por que razão a sua mulher pedia sempre boleia ao professor de ginástica e não ao próprio marido. Era uma liberal e eu queria ser um pintor vagamente conhecido. Por isso, não dava para casarmos.

De regresso ao principal assunto, na esperança que eventualmente ainda pudesse entusiasmar algum leitor (assim eu me lembrasse do que estava a falar), a pintura e a reflexão conduziam-me em viagens epopeicas numa espiral que terminava em êxtase no centro da sala de aula a esvoaçar na companhia de imensas moscas sem GPS. Nessas viagens, perturbadas irritantemente por uma criatura que exigia ser chamado «professor», eu não me dedicava a nada em especial mas era feliz pelas pinturas que, por vezes, encontravam a glória nas gargalhadas dos colegas imediatamente sentados à frente e imediatamente sentados atrás. Isso, num primeiro momento porque, em rigor, alguns minutos depois acabava inexoravelmente na rua com falta a vermelho, conquistando um espaço de afirmação intelectual e artística só reservada às crianças brilhantes. Por isso é que nunca consegui passar do 9º ano.
Para além das pinturas eróticas e das cabalísticas, sempre manifestei um particular interesse pela aero-náutica. Por esse motivo, os meus desenhos reflectiam predominantemente um casamento entre a aviação e o surf-Presto. Por nenhuma razão em particular. Nos aviões a jacto era comum instalar um estendal de roupa preparado para se apeitar com velocidades supersónicas. Julgo que, simbolicamente, se trataria da representação das marés e ventos que lavam e secam a roupa, costume culturalmente muito relevante, embora não seja de descartar a minha sensibilidade ecológica já manifesta naquela altura. Com essa manifestação de castidade desencadeada por roupa impecavelmente lavada, seca e passada a ferro a 2G, o que eu pretendia era, nada mais e nada menos, comprovar a existência de Deus.

Naturalmente nunca o consegui mas aqueles desenhos, dos quais não guardo uma única cópia, revelavam antes de mais que não pode haver criatividade na unidimensionalidade. Ou, pelo menos, não é aceitável. Caso contrário, teríamos o mundo governado por albertos joões jardins.

Isto não tem piada nenhuma mas o objectivo foi cumprido e pró ano serei professor titular.
Originalmente publicado em Vai uma gasosa?