Os sinais que foram sendo dados nos últimos tempos pelo PCP em colóquios e destaques a artigos de opinião assinados por «candidatáveis» à Câmara Municipal de Évora parecem confirmar-se. Com alguns meses de trabalho pela frente, ao PCP de Évora fica a caber também a tarefa de apresentar o homem aos eborenses. O desafio é, talvez, o maior dos últimos anos. Mas «apresentar o homem aos eborenses» significa algo mais do que dizer-lhes quem é o candidato...
14 de abril de 2009
13 de abril de 2009
Nada de mini saias...
As finas regras de cuidado com o atavio e boa imagem, que os funcionários da Loja do Cidadão de Faro deverão respeitar constituíram, provavelmente, o acontecimento político de maior relevância na semana passada, logo a seguir às novelas da Quimonda, do Procurador da Justiça e à incessante verborreia da maioria dos políticos.
A coisa até podia não ser tão bizarra caso tivesse sido previamente estipulado que, aos postos de trabalho em causa, corresponde a obrigação de trajar de farda. Integralmente assegurada pela entidade empregadora, pois então.
Mas não, a coisa não é simples. Os ditos funcionários não só têm que receber lições de atavio e decoro (mas não de competência), como ainda se vêem na contingência de assegurar que «não passam das marcas» perante os concidadãos.
E quem define as marcas? A senhora secretária de estado da modernização administrativa? Francamente, causa-me menos náuseas cheirar um daqueles perfumes baratos de gente pobre com aroma patchouli do que ser atendido por uma fulana com as fronhas da mulher. Com o devido respeito pela fealdade da senhora. Que é realmente acentuada. Também não estou a ver nem de saias, quanto mais de mini-saias...
O paradoxo maior, sem dúvida: a obrigação de uma apresentação aburguesada e segundo os padrões de uns quantos… numa Loja do Cidadão. «Loja», bem entendido…
Como é de brincadeira atrasada de Carnaval que estamos a falar, nem sequer merece a pena puxar dos galões da liberdade nem daquilo que é razoável, do ponto de vista social.
3 de abril de 2009
Este país não é para velhos
Este país é um fardo difícil para os competentes, ajuizados e honestos.
Só isso explica a nomeação de Domingos Névoa (recentemente condenado por tentativa de corrupção do vereador José Sá Fernandes no caso Braga Parques) para a administração de uma empresa intermunicipal.
Como é evidente, não é lapso ou descuido. É o mesmo fartar vilanagem que tolera coimas de 5000 euros num convite amistoso à corrupção.
26 de março de 2009
O Leviatão partidário
Depois de nove longos meses de gestação, ainda não foi desta que saiu a nomeação política do detentor de um cargo público cuja independência política é condição e não uma meta a atingir pelos partidos políticos.
As tradicionais questiúnculas sapateirais motivadas pelos mais abjectos interesses partidários, estão na origem de mais um triste episódio protagonizado pelos partidos. Desta feita, o PSD não validou o nome de Jorge Miranda para Provedor da Justiça por uma simples questão de “princípio”: não foi um nome avançado pelo PSD. E que princípio é esse? É o princípio da ladroagem institucional, uma transposição da ética da ralé para a ética dos partidos políticos.
E como são exímios em dar distinta solenidade ao mais profundo desprezo pela democracia e pelas instituições democráticas.
Nos grandes partidos, o mal não está na ideologia quando existe nem no debate ideológico que pode daí resultar. Antes pelo contrário. Não, nestes grandes partidos o mal está na falta de qualidade de muitos dos seus dirigentes – autênticos caciques medidos em votos – e na soturna cultura organizacional que vigora.
O Leviatão de Hobbes não é, no caso português, a simples analogia do monstro com o peso de uma administração pública asfixiante mas sim a triste coincidência com a sede de domínio total dos partidos sobre a vida quotidiana. Riquezas de uns e misérias de outros, como nos advertiria Aquilino Ribeiro.
24 de março de 2009
Escrito a bílis
As farturas e as «asgasturias» diferem somente na medida do líquido para frituras. No primeiro caso, recorre-se ao óleo uma e outra vez. E outra ainda. O segundo caso pode ocorrer como resultado do empanturramento de farturas e de quantidades indigestíveis de óleo. Uma hoje e outra amanhã. E uma redonda dose delas todos os dias. Isto ao fim de uns anos é capaz de fazer mossa, quanto mais não seja, na alteração provavelmente irreversível dos níveis de bílis produzidos pelo organismo. É conveniente não abusar.
20 de março de 2009
Foram-se os dedos, ficaram os anéis
Nascimento Rodrigues, titular cessante há quase um ano do cargo de Provedor da Justiça, incluiu no cardápio uma sopa de perplexidade. Convicto na defesa da despartidarização dos altos cargos públicos (apesar de não o parecer ser por motivos estritamente relacionados com a exigência de castidade estatal), o homem disparou em direcção ao governo PS, lamentando que este fartar vilanagem dê em desprestígio dos políticos.
Impõe-se a pergunta: mas onde é que raio identificou o excelso senhor, um pingo de prestígio nos políticos para que desse em preocupações com esvaziamento de virtudes?
14 de março de 2009
200 mil são uma ninharia para o governo
Um dia após 200 mil pessoas (cerca de 3,5% dos votantes nas eleições legislativas de 2005) se ter manifestado ostensivamente contra o governo, o engenheiro Pinto de Sousa desvalorizou a importância dos «números» que, na essência, representam a mesma ferramenta da legitimação eleitoral que lhe ofereceu uma ampla maioria na Assembleia da República.
Mas o que impressiona verdadeiramente foi a acusação à pretensa «instrumentalização» dos sindicatos pelos partidos de esquerda, como se os sindicatos que convocaram a manifestação tivessem caído no mais deplorável pecado, o pecado de fazer exactamente aquilo que lhes compete. E como se a UGT não fosse instrumentalizada pelo PS.
Mas o que impressiona verdadeiramente foi a acusação à pretensa «instrumentalização» dos sindicatos pelos partidos de esquerda, como se os sindicatos que convocaram a manifestação tivessem caído no mais deplorável pecado, o pecado de fazer exactamente aquilo que lhes compete. E como se a UGT não fosse instrumentalizada pelo PS.
10 de março de 2009
Fantoches de S. Bento
A dona Rosa, quando chegou ao Parlamento para a limpeza diária, não só encontrou a imundice do costume, como também, os senhores deputados de todas as sensibilidades ideológicas cantando for he's a jolly good fellow a esse grande senhor do comunismo, o presidente angolano José Eduardo dos Santos. A dona Rosa ficou francamente baralhada, sem saber se tratavam de vender o Magalhães para o patriarca distribuir nas favelas em vez de pão ou se, pelo contrário, pretendiam fazer parte da nobreza angolana.
9 de março de 2009
à tout propos (314)
Os exemplos de duvidoso relacionamento entre o Homem e os outros animais (para além do relacionamento simbiótico previsto na cadeia alimentar) sucedem-se em todo o género de «civilização». Uma vez que nas Ilhas Faroe (Dinamarca), o frio é intenso e, já que a malta daqueles ermos desconhece a globalização que possibilita as trocas comerciais de produtos ali inexistentes como a gordura vegetal ou os agasalhos sintéticos da Qechua, toca de matar baleias-piloto à catanada. Passatempo ou necessidade?
6 de março de 2009
Promessas de seriedade
Ontem, os deputados Eduardo Martins (PSD) e Afonso Candal (PS), em boa hora, mimaram os portugueses com uma bela lição de civilidade e fineza de carácter. Mais, emprestaram uma nova e refrescante dimensão à cultura partidária portuguesa, tão sensaborona, desinteressante e, as mais das vezes, degradante.
Ficaram pela promessa de uns emocionantes bofetões e de um arraial à antiga portuguesa. O povo ficou expectante: serão afinal, gente do povo que chega a roupa ao pêlo por dá cá aquela palha, bebe umas minis e coça os marros?
A coisa prometia. Em vão, porque os senhores deputados decidiram-se afinal pelo recolhimento, possivelmente quando se deram conta que não têm um único pêlo no peito para mostrar à audiência.
Uma coisa é certa: com sessões daquelas, os partidos tornar-se-iam muito mais interessantes e o número de militantes inscritos subiria em flecha. Sei de muitos que se haveriam de inscrever imediatamente em todos os partidos. Não fosse a coisa mais animada nuns sítios do que noutros. Conforme as noites.
Ficaram pela promessa de uns emocionantes bofetões e de um arraial à antiga portuguesa. O povo ficou expectante: serão afinal, gente do povo que chega a roupa ao pêlo por dá cá aquela palha, bebe umas minis e coça os marros?
A coisa prometia. Em vão, porque os senhores deputados decidiram-se afinal pelo recolhimento, possivelmente quando se deram conta que não têm um único pêlo no peito para mostrar à audiência.
Uma coisa é certa: com sessões daquelas, os partidos tornar-se-iam muito mais interessantes e o número de militantes inscritos subiria em flecha. Sei de muitos que se haveriam de inscrever imediatamente em todos os partidos. Não fosse a coisa mais animada nuns sítios do que noutros. Conforme as noites.
3 de março de 2009
Kramer contra kramer
Não pude deixar de notar a ironia da sentença quando o repórter televisivo tranquiliza os espectadores afiançando que a Guiné regressou hoje à normalidade. Ironia, porque a vingança traduzida na reciprocidade equidistante que tutela o assassinato de dois oponentes prometidos às profundezas do inferno, parece fazer parte da normalidade pretensamente interrompida.
Ironia, porque a miserável normalidade da Guiné não resistiu jamais à pilhagem sem escrúpulos do país e do povo por homens como os que se assassinaram mutuamente em duelo marcado por um invulgar desfasamento horário.
Ironia, porque a miserável normalidade da Guiné não resistiu jamais à pilhagem sem escrúpulos do país e do povo por homens como os que se assassinaram mutuamente em duelo marcado por um invulgar desfasamento horário.
28 de fevereiro de 2009
Desemprego para todos!
No congresso, o grande líder elegeu o desemprego como grande prioridade. A honestidade devia ser recompensada porque, honra lhe seja feita, o homem conseguiu!
27 de fevereiro de 2009
Um escândalo!?
Leite, a do PSD, olhou para a hercúlea tarefa que a aguardava, sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha e estancou, pálida e impotente. No momento seguinte, torceu o pescoço a 90º e decidiu empurrar o assunto com a barriga, transformando em escândalo a opção do primeiro-ministro em participar no congresso do seu partido e não da cimeira europeia. O homem está farto de viajar e, nesta altura de crise, é impreterível que esteja junto dos seus. Solidariedade. Palavra cara a Leite, por não ser muito comum entre as suas hostes.
Talvez o termos escândalo tenha sido ligeiramente exagerado, tendo em conta o fartar vilanagem que campeia neste país. Tendo em conta, também, a «dura» mão da justiça portuguesa que multa os corruptores em cinco mil euros, mais ou menos o mesmo que roubar dois sacos de batatas e dar um merecido tabefe num desses senhores (variará consoante o preço da fatiota que envergam).
Exemplar! Um escândalo, dr.ª Manuela Ferreira Leite?! Oh... pelo amor de deus...
20 de fevereiro de 2009
Da vergonha ao carnaval
Afinal, o problema do Magalhães não estava na sátira ao governo mas sim no ignominioso conteúdo pornográfico apresentado no pequeno ecrã do laptop carnavalesco. Mas foi resolvido pela delegada do MP que concluiu não haver afinal o tal conteúdo pornográfico porque apenas se tratava de naturismo, ou seja, umas mamas e uns rabos.
Fica a pergunta: alguém acredita que um delegado do MP decide a proibição de um determinado objecto na sequência de uma denúncia sem o verificar?
Duas respostas:
1 – Não, só alguém absolutamente incompetente;
2 – Não, só alguém com absoluta má-fé.
Os de Torres Vedras têm agora mais um (neste caso uma) que se pôs mesmo a jeito...
De carnaval a vergonha pública
Em Torres Vedras, a plenipotenciária delegada local do Ministério Público, infectada com arrogante acinte, decidiu censurar incompreensivelmente um elemento alegórico de sátira ao Magalhães.
A vergonhosa decisão foi tomada ao arrepio dos mais elementares direitos democráticos e denuncia a total ignorância da censora relativamente à cultura de que, eventualmente, também será portadora. Lá que não goste de carnaval e padeça de dolorosa perturbação que a faça sofrer pelos outros, isso é um problema dela…
Agora, às claras e com a autoridade que o Estado lhe outorgou indevidamente, esta senhora não dignificou a justiça nem a instituição da democracia. Pelo contrário, censurou de forma ímpia a brincadeira de pessoas em liberdade, cuja acção nem sequer fora do contexto do carnaval poderia ser objecto de actos desta natureza.
A ditosa senhora confirmou também que os actuais «arautos da desgraça» não são os tolos do costume.
A vergonhosa decisão foi tomada ao arrepio dos mais elementares direitos democráticos e denuncia a total ignorância da censora relativamente à cultura de que, eventualmente, também será portadora. Lá que não goste de carnaval e padeça de dolorosa perturbação que a faça sofrer pelos outros, isso é um problema dela…
Agora, às claras e com a autoridade que o Estado lhe outorgou indevidamente, esta senhora não dignificou a justiça nem a instituição da democracia. Pelo contrário, censurou de forma ímpia a brincadeira de pessoas em liberdade, cuja acção nem sequer fora do contexto do carnaval poderia ser objecto de actos desta natureza.
A ditosa senhora confirmou também que os actuais «arautos da desgraça» não são os tolos do costume.
19 de fevereiro de 2009
Circus sound
Agora com o som instalado é que o circo está montado. Se é que ainda restavam dúvidas...
à tout propos (312)
Exposição de gravura de Célia Barros com textos de Alexandre Nunes de Oliveira, um dos quatro malucos do manicómio. Para ver, na cooperativa de actividades artísticas Árvore. no Porto.
18 de fevereiro de 2009
Amor em tempos de crise
Havia o que dizia ser a cannabis, a fonte do amor. Este não! Diz que são as palavras. Como o Neruda. É de amor que as pessoas precisam! Por isso, em tempos de crise, é amor que o homem de lata lhes dá. Porque a vida não se governa só com as míseras pensões do Estado e as insignificantes mesadas dos tiranos progenitores, ele alimenta multidões de gente com palavras íntimas e chegadas. E o exército de amazonas replica: que se foda a lata do governo, nós queremos é o homem de lata!
Ecos de Pessoa em 1975
Aos onze anos já mandava recados ao império colonial britânico, o qual havia de se desintegrar quarenta e oito anos depois, com a independência da Índia, em mil novecentos e quarenta e sete. As contas não enganam. Por isso, podemos conjecturar sobre se terá sido apenas em mil novecentos e vinte e sete que Fernando Pessoa começou a enviar recados semelhantes ao império colonial português.
16 de fevereiro de 2009
Eu, Burguês!
Classe social cuja ascensão é devida ao fortalecimento das trocas comerciais através da usura e do alargamento físico dos mercados – partilhando o risco das descobertas com os monarcas – os burgueses tornaram-se também um símbolo do novo sistema político-económico emergente: o capitalismo.
Actualmente, nos países ocidentais, a categoria é difusa pois parece corresponder inequivocamente à classe média, portanto, a essa imensa maioria social. Estatisticamente, a moda. Em contrapartida, as classes produtoras – na terminologia marxista, «exploradas» – são uma espécie quase em vias de extinção nestas sociedades ocidentais contemporâneas porque uma boa parte da produção de bens de consumo e extracção de matérias-primas é assegurada por países do hemisfério sul. Hoje, não é preciso ser proprietário de meios de produção para ser dono de uma ilha… basta um telemóvel, discrição e um conjunto de acções dispersas por aqui e por ali. O patrão está sempre fora e isso não significa «dia santo na loja».
Debalde, a classe dos trabalhadores parece hoje abarcar quase indistintamente uma paleta socioprofissional tão vasta quanto a paisagem lunar. Embora nos deixem muitas dúvidas, exemplos como o do motorista TIR que é proprietário do seu camião: trabalhador ou patrão?
Uma observação mais detalhada nos aspectos culturais também não me deixa confiante. Quem são, culturalmente, os burgueses? Aqueles que vestem à moda? Vão ao teatro? Passam férias no estrangeiro? Compram casas de milhares de euros a meias com o banco? Falam com a boca cheia em estouvado desafio às elementares regras da boa educação? Comem brócolos com whisky?
Se fizer o raciocínio ao contrário mas ainda dentro da segmentação dicotómica marxista, chego facilmente à conclusão que os burgueses não têm lugar nem à classe dos trabalhadores nem na classe dos explorados. Só lhes resta a condição de «exploradores». Daí até chegar aos jovens, pequenos comerciantes, funcionários públicos ou artistas, é um pequeno passo, a avaliar pelo acesso a bens culturais, lazer, crédito bancário e conforto material de que estes grupos dispõem. De facto, ao que parece, trata-se de sujeitos pouco dados ao trabalho. Por outro lado, como a maior parte é dona do seu nariz, também não caberá na categoria dos «explorados». Nesse caso, os estudantes universitários, funcionários públicos e outros, não só são preguiçosos como se dão também a esses ares da cultura e dos tempos livres, enquanto outros vergam a mola. De resto, o ócio é próprio das classes dirigentes, logo, dos «exploradores». Como é evidente, esses direitos todos consagrados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem só podia ter sido redigida por gente que nunca fez nenhum. Como eu.
Elegi algumas características que considero paradigmáticas para a conceptualização do homem burguês actual:
- Esvaziamento ideológico em detrimento da exaltação da superficialidade das modas, instigadas pela lógica de mercado. Exemplos disso são, por exemplo, a massificação comercial da imagem de Che Guevara e o consumo ávido da cultura dominante por «explorados» e «exploradores» (cinema, música, comida e, até, legislação…).
- Afirmação de um consumismo multicultural com a apologia de valores pós-materialistas, os quais são, em todo o caso, a expressão máxima de necessidades básicas satisfeitas. Trata-se de um tipo de consumismo pretensamente solidário mas que não deixa de reflectir a necessidade de auto-realização material dos jovens burgueses: as músicas do mundo, a comiseração solidária mas genericamente apática com o Terceiro Mundo, os tapetes de Caxemira e o exotismo gastronómico de países longínquos, a assunção da experiência tão burguesa do Grand Tour, agora espraiada no mais remoto país visitável.
- A expressão da individualidade e do individualismo. Sintomas disso são o abandono do sexo em grupo e o emagrecimento dos conselhos de administração das grandes multinacionais.
Perante isto, o que poderia eu ser senão um burguês? Dado a jantares e boémia com os amigos; preguiçoso compulsivo e desnaturado; proprietário de um bem imóvel, de automóvel e outros móvel; frequentador de manifestações de arte e outras coisas inclassificáveis mas que dão uma imagem de tipo interessado e inteligente; sempre em pulgas para viajar por países mais próximos do que distantes e contar mentiras a torto e a direito para impressionar; adepto de uma alimentação equilibrada; defensor do ambiente e das mães de Bragança; crente numa divindade monetária e no Aladino; indiferente ao direito das lagostas em morrer de morte natural e; criador de rolos de cotão no umbigo para exportação...
…. Que outra coisa poderia eu ser senão um cruel e imperdoável Burguês?!
Simplex eleitoral
O patriarca Hugo Chavez viu confirmado o seu íntimo desejo de ver recompensada a sua abnegação pública com um justificado mar de afectos populares que se deverá prolongar até à sua reforma. O referendo popular consagrou a alteração constitucional que, em rigor, estiola a limitação de mandatos. O homem terá sempre que se candidatar mas, como é evidente, quem está no poder parte com uma posição vantajosa. O próximo passo poderá vir ser o alargamento temporal dos mandatos porque as eleições desgastam recursos humanos, desperdiçam recursos financeiros e afectam a estabilidade política. E, a seguir, essa coisa bonita e harmoniosa que consiste em prescindir de outros partidos políticos porque a diversidade pode muito bem ser garantida entre as hostes do plenipotenciário patriarca.
A tudo isto diz o povo: Si, comandante!
PS: bom, numa coisa temos que concordar... pelo menos, não andam a saltar de poleiro em poleiro fazendo de conta que sabem fazer outras coisas.
13 de fevereiro de 2009
Entardecer...
Habituado a vestir peles de todas as cores, Jules sempre entendeu o fenómeno como elemento de aprendizagem contínua. À guisa das Novas Oportunidades, na vida, um gajo veste a pele de filho, de pai, de porteiro, de director, de jogador, de cozinheiro e, até, de estofador. E, por muitas peles que vista tornou-se um consolo vestir outra. E outra ainda. Por nenhum conforto em especial. Apenas porque nunca se entendeu bem com essa acomodação total do corpo à pele que se veste. Quando acontece, ala que se faz tarde!
12 de fevereiro de 2009
Fumo e homossexualidade
O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa considerou menor a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Portanto, excluídas as premissas de natureza moral que, em todo o caso, contaminam a produção legislativa pela sua ligação às fontes do direito (neste caso, o costume), estamos perante um conflito de poderes num Estado supostamente laico. Isto, presumindo a possibilidade de num país democrático como Portugal, um indivíduo poder ser, cumulativamente, ateu, homossexual, sportinguista e do PCP.
Neste assunto delicado para a própria Igreja e para a clausura a que se sujeitam alguns indivíduos em mosteiros, praticamente isolados do mundo não fora a fé e o companheirismo desinteressado… sobrevém uma analogia perniciosa e malandra com a interdição de fumar. Pois... quem são os mais bravos soldados da causa anti-fumo senão aqueles que passaram por essa «hedionda» e «asquerosa» experiência durante anos?
Neste assunto delicado para a própria Igreja e para a clausura a que se sujeitam alguns indivíduos em mosteiros, praticamente isolados do mundo não fora a fé e o companheirismo desinteressado… sobrevém uma analogia perniciosa e malandra com a interdição de fumar. Pois... quem são os mais bravos soldados da causa anti-fumo senão aqueles que passaram por essa «hedionda» e «asquerosa» experiência durante anos?
11 de fevereiro de 2009
à tout propos (311)
Mário Crespo, ícone histórico da televisão portuguesa e rosto do «60 minutos», sugere que façamos de conta que não há um ataque político ad hominem ao eng.º José Pinto de Sousa. Como se fosse uma coisa escabrosa e intolerável numa sociedade perfeitamente equivocada quanto aos valores da democracia. E em perfeita agonia causada por um potlach tão partidário quanto medíocre...
10 de fevereiro de 2009
Dentro da noite veloz: um balanço do FSM de Belém
Na ressaca de mais uma edição do Fórum Social Mundial que, nesta ocasião, decorreu em Belém (Brasil), as conclusões alcançadas transformam-se em propostas que já começam a sobrevoar os mares e a aterrar nos laptops de governantes e jornalistas de todo o mundo. Damos destaque ao artigo de opinião de Raphael Alvarenga por três razões: pela pontaria, pela amplitude cultural proporcionada pelas vivências no continente americano e no europeu e, também, pela amizade.
6 de fevereiro de 2009
Malhar na [da] direita

Numa soirée socialista, o insigne militante socialista e ministro dos assuntos parlamentares Augusto Santos Silva, levado pela emoção e, quiçá, pela mesma poção alcoólica que aflige tantas vezes o seu colega Mário Lino, confessou alguns gostos escaldantes:
"Eu cá gosto é de malhar na [da] direita, e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas…”
E gostará de malhar indistintamente porque, em rigor, tanto podia ser a da direita como a da esquerda.
PS: A inclusão do artigo definido «da» é da nossa responsabilidade, devendo a sua ausência ter ficado a dever-se a uma eructação involuntária do senhor ministro.
"Eu cá gosto é de malhar na [da] direita, e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas…”
E gostará de malhar indistintamente porque, em rigor, tanto podia ser a da direita como a da esquerda.
PS: A inclusão do artigo definido «da» é da nossa responsabilidade, devendo a sua ausência ter ficado a dever-se a uma eructação involuntária do senhor ministro.
«Se eu fosse rei...»
Ainda hei-de escrever uma tese sobre a democracia. Talvez quando for velhinho e já não houver tal coisa. É de tal forma complexa que é o único sistema de governação que assenta teórica e aproximadamente a base da decisão colectiva em milhões de pessoas. Nenhum outro foi tão longe. Há sessenta e cinco anos, os nazis exerciam o domínio total, eliminando milhões, de acordo com critérios étnicos (e uma dose de falência cerebral colectiva). Pela mesma altura, os soviéticos exerciam o domínio total, condenando milhões, de acordo com os seus critérios políticos (e uma dose de sociopatia). Há quinze anos, os hutus exerciam o terror total (máquina sem controlo nem organização), dizimando milhões de tutsis, de acordo com os seus critérios étnicos (e uma boa dose de livre arbitrio).
Dentro de uns anos, a democracia será realmente um bom tema. Sobretudo para explicar que, tal como em outros casos, também se trata de uma utopia. Menos espinhosa e mais proveitosa para uma larga maioria. Mas utopia.
...Como não sou rei e como não me dou bem com mandões...
PS: há um texto que quero apresentar aqui mas que, por circunstâncias adversas, ainda não foi possível apresentar. O título é «Eu Burguês!». Dedicado a todos nós que vivemos confortavelmente e que piramos se nos faltar a água canalizada durante dois dias seguidos.
29 de janeiro de 2009
Saberes e poderes nos hospitais
A ministra da saúde, Ana Jorge, acusou que o problema dos hospitais é de organização. E os responsáveis são os administradores e os chefes de serviço. Contudo, parece que o problema partilha raízes mais antigas, do tempo em que o director do hospital não respondia perante um concelho de administração. Sem desresponsabilizar os pretensos agentes de que a ministra fala, parte do problema dá pelo nome de cultura organizacional. Conjunto de valores, normas e crenças específicas desenvolvidas e próprias dos hospitais. Com as respectivas relações de poder, tão estudadas em Portugal por Graça Carapinheiro. Saberes e poderes nos hospitais...
Pois bem, os agentes habituaram-se a reproduzir e transmitir determinados padrões culturais. Os hospitais cresceram, transformaram-se. As sociedades também sofreram transformações, assim como o próprio modelo economicista da gestão dos governos, complacente com a perfídia de manter um Serviço Nacional de Saúde de importância «dispensável» mas coexistente com um sector privado parasita.
Pois bem, os agentes habituaram-se a reproduzir e transmitir determinados padrões culturais. Os hospitais cresceram, transformaram-se. As sociedades também sofreram transformações, assim como o próprio modelo economicista da gestão dos governos, complacente com a perfídia de manter um Serviço Nacional de Saúde de importância «dispensável» mas coexistente com um sector privado parasita.
26 de janeiro de 2009
Uma maqueta para o futuro
No sábado à noite, perguntei-me várias vezes de onde saíram tantos «putos». O concerto Vodafone dos Buraka Som Sistema na Arena d’Évora veio relançar uma questão fundamental: O que tem Évora para oferecer aos adolescentes? O que tem Évora para oferecer ao futuro? Eram aos magotes, faziam filas medonhas e depois do concerto, tinham três cenários: regressar a casa, andar para trás e para a frente no circuito das arcadas ou rumar a um dos bares cuja oferta se resume à venda de álcool.
Este é um problema que vem de trás, muito de trás.
Em primeiro lugar, é próprio dos adolescentes não frequentarem os espaços dos adultos. Portanto, aquilo que vale para uns não vale para outros. Em segundo lugar, os adolescentes não se contentam, legitimamente, com os divertimentos serôdios que nos ocupavam a nós e que se resumiam a umas festas e a saídas à noite com destino marcado. Isto não quer dizer que, hoje, as coisas sejam muito diferentes. Acontece que, há vinte anos atrás, o grande pólo de referência em termos de oferta era a área metropolitana de Lisboa. E um fosso abria-se entre aquela enorme mancha de luzes e o resto do país, só iluminado pontualmente aqui e ali. Hoje as coisas são diferentes.
Não chega haver espaços de diversão nocturna, geridos por empresários (nalguns casos pouco conscienciosos) ou por associações culturais pouco dadas a cultura de massas.
Na verdade, Évora nunca se preocupou muito com as gerações vindouras. Em parte, porque tem vivido obcecada pelo passado. Um passado glorioso, é certo, mas que se esvanece irremediavelmente se não for integrado numa estratégia em que o futuro se assuma como o capitão de um navio. E o futuro são estes «putos». Podemos gizar projectos magníficos, extraordinárias intenções e concretizar obras de vulto. Mas se não for a pensar neles, de que servem? Não basta projectar um futuro e dar-lhe a dignidade de uma maqueta. É preciso que as pessoas estejam no centro da maqueta e a mesma se desenvolva a partir delas.
Não há espaços de referência juvenil.
Refiro-me a estúdios e laboratórios de projectos nos quais esses jovens possam treinar competências profissionais, sociais e pessoais. Conheço alguém que esteve numa entrevista em Julho na CME para trabalhar na área do associativismo e juventude. Entre outras coisas, propôs um projecto de voluntariado jovem que treine competências, estimule a responsabilização e ajude a preparar os jovens para os desafios que lhes colocará a vida. Com as devidas contrapartidas. Por coincidência ou não, em Outubro surge o projecto V Jovem com características semelhantes, promovido pela autarquia. Não tendo sido coincidência, é de saudar a predisposição dos responsáveis para acolher novas ideias e, sobretudo, demonstra que as pessoas têm vontade de fazer. Tendo sido coincidência, é de lamentar a falta de atenção ou a ausência de um motor de arranque porque, na verdade, são ideias antigas e amplamente trabalhadas noutros locais.
Estou-me a referir também a espaços de sociabilidade, onde estes jovens possam desenvolver as imprescindíveis interacções que dão sentido à sua existência. É razoável pensar em tirar a consola da Playstation ou o comando da TV da mão dos miúdos e mandá-los vagabundear pela cidade ao fim-de-semana? Fazer o quê? Ir ao café? Ir à bola? Ver as montras? Dir-me-ão o seguinte: «ao fim-de-semana é para estudar». E eu respondo em coro com eles: «pois, também é»…
21 de janeiro de 2009
Jaime Isidoro 1924/2009
As francesinhas tardias no "Snoopy" deram lugar à aguardente velha posta gentilmente na mesa pelo proprietário, um orgulhoso filho e amante do Pinhão. No dizer do homem, «uma das maravilhas do mundo». Para o provar, lançou mão de uma revista e lá estavam as fabulosas imagens daquelas escadarias vinícolas que se precipitam sobre o Douro. Poderia alguém desencantar prova mais esclarecedora e definitiva? Não! Pelo menos... não àquela hora, num simples restaurante da Avenida da Boavista, para lá das horas de fecho.
Se a garrafa viera, fizemos questão que com ela se sentassem os seus acompanhantes: o que comia e o que servia. Juntos à mesma mesa. Fosse pelo seu ritmo de vida, fosse pelo prazer da noite, o desconhecido que comia fazia-o no contra-ciclo da clientela normal. E deitava um olhar fugaz mas atento e ávido de contacto.
- Obrigado pela gentileza mas agora têm que se sentar connosco. Convidámos. Os dois homens aceitaram e depressa confirmámos que a deles era uma relação que ultrapassava a vulgar esfera comercial. Eram amigos. A minha suspeita foi confirmada mais tarde, quando o homem do Pinhão nos disse que lhe não cobra nada pelas refeições; ao outro, o que comia. A coisa ficava paga com umas pinturas oferecidas das quais, o que servia, dizia jamais se via a desfazer. Como se ali tivesse uma autêntica relíquia. Tê-la-á, certamente.
- Jaime Isidoro? Peço mil desculpas mas, de facto, somos uns verdadeiros ignorantes. Respondi embaraçado, quando o que servia tratava de apresentar convenientemente o que já não comia mas beberricava a sua aguardente, agora, com o do Pinhão e na companhia do casal de «mouros» desconhecedores de tanta coisa.
Foi assim que permanecemos sentados no “Snoopy” até às 3 da manhã, percorrendo décadas na vida intensa de um homem simples, extraordinariamente espirituoso e de uma sensibilidade aguçada. Particularmente tocante quando se referiu à companheira de sempre: a das letras.
Depois das despedidas e das incontornáveis promessas de visita, muito para lá da porta da rua, ouvimos um surdo mas inconfundível apelo, proveniente da penumbra. Olhámos para trás. Era o amigo Jaime que nos chamava. Saltitava desajeitadamente na nossa direcção, convidando a conhecer a sua galeria, situada a alguns metros de distância do “Snoopy”. Conhecemos, enfim, mais alguns retalhos da sua vida e, por que não, do percurso recente das artes plásticas em Portugal. Ficámos a saber como a idade e a experiência lhe trouxeram a autoridade suficiente para sintetizar tanto num só traço ou, simplesmente, numa mancha de tinta arremessada contra a tela.
Dele, guardamos a amizade. E um grande privilégio por o ter tido como mestre, ainda que, por apenas um par de horas. As suficientes para lhe dedicar este texto.
...Saiu do sonho de King
Ontem, enquanto um era vaiado e a sua saída era objecto de descompressão um pouco por todo o mundo, o outro tremelicava ironicamente a fazer aquilo que o mesmo mundo se habituou a reconhecer: discursar.
Mas, numa época por vezes atenta em demasia aos pormenores mais superficiais, não houve melindre e desculpa-se o nervoso de Barack Obama no momento do juramento porque as expectativas são grandes e porque é sangue novo. Talvez as expectativas sejam insustentavelmente altas para uma boa parte do mundo que ontem exultou, imaginando que um homem sozinho tem poderes para acabar com a pobreza e a injustiça praticada pelos seus próprios governantes. E teria, se o cinismo, a hipocrisia e a ganância não integrassem a natureza humana. Nada que o povo desse mundo não saiba. Mas, de algum modo, Obama deu-lhe esperança.
À pergunta de José Saramago no seu caderno virtual "donde saiu este homem?", talvez possamos responder que saiu de um sonho, do sonho de Martin Luther King, contado em 28 de Agosto de 1963, também em Washington.
Contudo, ou não terá a vida fácil domesticamente ou, depressa aprenderá que os discursos fluidos invocando os valores e os princípios só devem ser proferidos entre amigos. Os próximos anos permitirão perceber se o engasganço de ontem veio ou não para ficar.
19 de janeiro de 2009
Asilo político?!
O jornalista iraquiano que atirou desajeitadamente um par de sapatos ao presidente Bush, pretendendo assim manifestar o seu regozijo e expressar as boas-vindas ao visitante, requereu agora asilo político à Suíça. Não se compreende muito bem a razão desta escolha, já que o país helvético não é propriamente conhecido pela sua indústria de calçado, ao contrário de Portugal.
O cenário mais provável é que, com excepção das teocracias islâmicas, nenhum país esteja disposto a receber este jornalista iraquiano porque, como é do domínio público, a invasão americana do Iraque veio libertar o oprimido povo que, agora, vive livre e em democracia. Assim, não faz sentido que alguém se possa queixar de perseguição política. E não é disso que se trata porque, evidentemente, se alguém se pode queixar de perseguição política, esse alguém é justamente o presidente Bush que ainda hoje se interroga como se conseguiu esquivar. Embora o o sapato esquerdo não tenha passado muito longe...
Em contrapartida, o 44º presidente dos EUA tomará posse no dia 20 em clima de grande festa mundial, cujo epicentro ocorre precisamente um dia antes e assinala o derradeiro dia de George W. Bush, o pior da galeria, à frente da Casa Branca.
Bem vistas as coisas, seria útil para os cartoonistas e humoristas do mundo, se a República Independente do Atol da Mururoa concedesse asilo político ao jornalista e a Bush numa ilha deserta, inteiramente reservada para os dois. Portugal podia entrar com um par de sapatos. Para dividir… que a crise não está para luxos…
14 de janeiro de 2009
A diferença, está no chocalho...
D. José Policarpo foi certamente mal interpretado numa questão em que, claramente, ressalta o sábio conselho de um homem vivido e experimentado, às castas ovelhinhas do rebanho, ainda sem chocalho. O problema central reside, efectivamente, na natureza da explicação metafísica professada pelo sujeito proprietário do chocalho e, por sua vez, dono da ovelha. Além disso, claro - e este é um fortíssimo argumento que não deixaria nenhum pai descansado - que poderão elas esperar de pastores que, em vez de «trabalhar», se põem de cu para o ar à espera de sei lá o quê? E rezam com os pés, caso contrário, não os lavariam antes de ir lá para as missas deles.
13 de janeiro de 2009
As origens...
Para ler com atenção, particularmente nos dias que correm, "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt. Pode ser muito útil para quem pretenda montar negócio ou desfazer-se de um amigo. As coisas não são fáceis porque ninguém aparenta preocupar-se com as causas.
4 de janeiro de 2009
Ano novo, vida nova...
Bem sei que venho atrasado alguns dias mas isso não é nada, comparado com o atraso que tomei na abertura da garrafa de espumante. Já os foguetes se tinham esfumado por trás da cortina de névoa que desceu sobre a cidade e ainda a rolha não tinha explodido. Nem as desagradáveis passas. Por nada em especial. Apenas para ser diferente ou, talvez, porque a noite era apenas mais uma e pretendia-se muito descontraída. De tal forma descontraída que não houve ameaças de vizinhos, garrafas partidas, vómitos nem tentativas de suicídio. Prometo que me vou esforçar muito para que a vida seja mesmo nova. Num certo sentido, já iniciei esses trabalhos embora não creia que sejam tantos quanto os que Hércules se viu obrigado a cumprir. Porém, os meus são certamente mais difíceis porque ele é que é filho de deuses…
Bom ano.
Bom ano.
27 de dezembro de 2008
Falta de originalidade?
«Yes we can» foi talvez o slogan político mais badalado no último ano. A sua mediatização e a carga simbólica que carrega são de tal ordem intensas que nem mesmo Jerónimo de Sousa foi capaz de lhe resistir. Naturalmente, a adopção deste discurso destemido e idealista pelo líder comunista não terá correspondência ideológica com o discurso original de Barack Obama. Mas fica a colagem, não pelo conteúdo mas sim pela forma, indicadora do desejo de mudança. Com a ligeira diferença dos níveis de ambição política, os quais são imensos num e noutro caso: o negro e inexperiente político protagoniza autenticamente o guião de um filme de Hollywood, vencendo tudo e todos mas… seria este desfecho possível se, além daqueles hadicaps, sofresse também do estigma comunista? Bom, de qualquer modo, é a América e não Portugal, a terra da oportunidade…
19 de dezembro de 2008
Estatuto Político Administrativo dos Açores
A confirmação da intentona em que consiste a aprovação do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, vem dar continuidade ao esvaziamento dos poderes presidenciais e, consequentemente, ao empobrecimento das suas competências de fiscalização. Apesar de autónoma, a região dos Açores continua a ser território português e é bom não confundir a figura das regiões com a das autarquias locais, antes de mais porque as primeiras têm competências legislativas.
O problema da centralização de poderes nem sequer se pode colocar porque, para além do presidente da república jamais ter usado o expediente de dissolução da Assembleia Regional, não faz grande sentido que tenha essa prerrogativa relativamente ao órgão legislativo mais importante do país – a Assembleia da República – e não disponha da mesma para dissolver um órgão de menor importância na hierarquia do Estado português.
Se o problema da centralização diz respeito à figura do presidente, então que o transformem num titular chief, cujas únicas competências passem a ser a representação do país em actos oficiais. E receber amigos exóticos no Palácio de Belém.
Não me parece que o problema da centralização dos poderes esteja nestas prerrogativas presidenciais. A dimensão mais nociva da centralização vem, em primeiro lugar, da própria organização do Estado português, no seu relacionamento paternalista com as autarquias locais.
Talvez mais importante do que este Estatuto Político Administrativo dos Açores será sem dúvida a verdadeira descentralização do Estado operada através da Regionalização e da criação de estruturas de poder intermédio. E, também, a reorganização político-administrativa das autarquias locais: há demasiadas freguesias e municípios, cujas respectivas afectações sócio-territoriais são, em muitos casos, inconsequentes, dispendiosas e ineficazes.
Finalmente, talvez seja bom recordar que um dos casos mais graves de centralização e abuso de poder vem, efectivamente, da Madeira. Com a patética condescendência de todos.
18 de dezembro de 2008
Superioridade moral
Ontem recebi uma comunicação do BPI na qual se informava os clientes que, a partir de Janeiro o banco passará a cobrar 4 euros acrescidos de 4% de imposto de selo por cada dia em que as contas à ordem permaneçam com saldo negativo.A curiosidade não é a normal voragem, ainda que em tempos de aperto para a maioria dos clientes; nem a ameaça da pesada «coima» que sobre eles esvoaça sombriamente.
Aqui, a curiosidade tem que ver com o facto do sistema que reivindica dos seus clientes uma conduta em conformidade com o princípio da responsabilização individual é o mesmo sistema que parasitou durante anos esses clientes, estimulando descaradamente uma conduta em desconformidade com o princípio da responsabilização individual, retirando dessa conduta amplos lucros. Ou seja, em altura de aperto, o BPI – tal como todos os outros bancos – vem agora arrogar-se de uma superioridade moral que, devo dizê-lo, mete algum nojo.
Já que estamos em maré de curiosidades, a superioridade moral desta corja é afiançada pela venda de 10% do capital do BPI pelo BCP à filha do déspota angolano José Eduardo dos Santos. Portanto, neste momento, o BPI passa a ter também capital manchado de fome, corrupção, violência e tirania.
Em matéria de superioridade moral, estamos conversados.
16 de dezembro de 2008
Depois da tempestade, a bonança...
A promessa de encaixar 50 milhões de euros para as contas públicas à custa da presunção de informação dos cidadãos não era, afinal, um simples golpe baixo. A verdadeira golpada foi dada agora, com o inocente e solidário recuo das finanças para com os cerca de 50 mil contribuintes apanhados com as mãos nas calças.
A coisa tem contornos bem mais soturnos do que inicialmente se supunha. Porque é realizada em dois momentos: a tempestade e a bonança. Tudo isto, em época natalícia, para não cair no esquecimento. Num primeiro momento, surge a ameaça das notificações das finanças com o intuito de debicar nos depauperados bolsos da maioria dos visados, na sequência da, também, presunção de eficiência comunicacional do Estado*; e, na sequência de um procedimento eivado de má-fé: a acumulação de dois anos para começar a notificar os contribuintes. No segundo momento, a bonança trazida por um ministério que, afinal, é sensível às dificuldades dos contribuintes. Esta será, certamente, uma das acções com vista a contrabalançar as perdas de votos dos professores em 2009.
O carácter maquiavélico do segundo momento só seria expurgado se o ministério das finanças reconhecesse, pelo menos, o erro de não ter notificado os contribuintes imediatamente após a recepção da declaração de 2006. E se desse mostras de representar os interesses do Estado, logo, das pessoas que o integram. Não o fazendo, reconhece a má-fé da sua actuação.
* A comunicação do Estado acerca de alterações normativas ou regulamentares resume-se normalmente à publicação em Diário da República e site da DGCI, cuja orientação para os mais mobilizados, qualificados e curiosos faz destes recursos, instrumentos de dilatação da assimetria e exclusão. A respeito disto, ainda hoje foi publicado um estudo relativo à utilização das novas tecnologias pelos portugueses. O cenário é paupérrimo.
15 de dezembro de 2008
Confirma-se, o andebol iraquiano é fraco
Adorado nos quatro cantos do mundo, o enciclopédico presidente Bush assistiu a um congresso de andebol no distante Iraque. Os responsáveis da Federação Iraquiana de Andebol reservaram-lhe uma emocionante surpresa mas nem assim conseguiram convencer George Bush a interceder por eles junto da IHF (International Handball Federation).
12 de dezembro de 2008
O regresso do Estado?
Os senadores republicados inviabilizaram o acordo de ajuda aos construtores automóveis americanos, proposto pelos democratas. Nisto, pelo menos, são coerentes com os princípios do liberalismo económico: os mercados ajustam-se por si próprios sem a necessidade de intervenção pública. «Se o sector foi mal gerido, então que dê o tombo». Claro que os danos sociais imediatos são relativizados ou, no limite, completamente ignorados. São cerca de 2,2 milhões de postos de trabalho que estão em jogo. Se os estados não viabilizarem estas empresas, garantem que os gestores sejam responsabilizados. Isso é justo. Mas os prejuízos sociais e económicos serão imprevisíveis.
Há, por outro lado, uma animosidade popular muitas vezes associada à esquerda que não compreendo inteiramente porque, do ponto de vista ideológico, o «regresso do Estado» representa justamente os princípios marxistas herdados pela social-democracia (socialismo em Portugal) e pelo comunismo. Ainda que esse regresso seja feito em pezinhos de lã. Deviam, sobretudo, participar no reforço do poder de regulação do Estado que não passa unicamente pela «salvação» de empresas; mas também.
Seja como for, perante uma crise económica desta magnitude, não se pode proteger os direitos dos trabalhadores deixando cair os postos de trabalho criados pelas empresas. Não vejo como. Aplica-se o valor que custou a nacionalização do BPN em subsídios de desemprego que não criam riqueza? É essa a alternativa?
10 de dezembro de 2008
Uma promessa por cumprir
A Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) comemora hoje 60 anos. A lista dos abusos e do total desrespeito pelos direitos humanos continua tão extensa quanto em 1948. Seria penoso, para si e para mim, discriminá-la. Mas, dar-nos-íamos por satisfeitos se, pelo menos, a DUDH fosse respeitada nos países que deram à luz o ideário iluminista que lhe está na origem. Pelo menos, nas pessoas humanas.
Mas os progressos terão sido alguns. Há precisamente um ano, quando Kadhafy esteve acampado em Portugal por ocasião da Cimeira UE-África, o seu staff fez publicar, entre outras coisas numa página inteira do jornal Público, a seguinte frase enigmática: «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado na morte colectiva».
Espero, francamente, que toda esta abnegação esteja a dar resultados e que não se exagere no uso da metralhadora quando há necessidade de fazer umas limpezas colectivas. Certamente que os gajos no Darfur seguiram o apelo deste bom homem.
Hoje comemora-se o quê?!
Mas os progressos terão sido alguns. Há precisamente um ano, quando Kadhafy esteve acampado em Portugal por ocasião da Cimeira UE-África, o seu staff fez publicar, entre outras coisas numa página inteira do jornal Público, a seguinte frase enigmática: «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado na morte colectiva».
Espero, francamente, que toda esta abnegação esteja a dar resultados e que não se exagere no uso da metralhadora quando há necessidade de fazer umas limpezas colectivas. Certamente que os gajos no Darfur seguiram o apelo deste bom homem.
Hoje comemora-se o quê?!
Anexo: DUDH
A EPRAL distribuiu diplomas na Universidade de Évora
Tempos houve em que representantes do governo só apareciam no Alentejo quando se tratava de inaugurar «grandes» obras públicas para impressionar os gentios. Agora, desmultiplicam-se e até aparecem em eventos aparentemente mundanos. Mundanos, tendo em conta o contexto de animosidade em que se movem alguns dos intervenientes, nomeadamente num sector que está a ferro e fogo. Porque a pompa o exige, a cerimónia de entrega de diplomas da EPRAL, não só ocorreu no auditório da Universidade de Évora - talvez prenunciando um bom entendimento na fluidez do mercado educativo - como contou com a presença do Secretário de Estado da Educação, do Director Regional de Educação do Alentejo e da Governadora Civil de Évora que, coincidentemente, é também proprietária da escola profissional.
Segundo consta, os diplomas destinaram-se unicamente a alunos da EPRAL.
Segundo consta, os diplomas destinaram-se unicamente a alunos da EPRAL.
9 de dezembro de 2008
Afinal, temos recessão!
Titubeante e fiel à verdadeira imagem que a sua extemporaneidade revelou aos contribuintes portugueses, o Governador do Banco de Portugal veio dar o dito pelo não dito para desdizer o que não disse mas podia ter dito se as coisas não lhe corressem sempre ao contrário do que a sua natural predisposição para a letargia lhe aconselha. Há quem diga que isto pode acontecer a partir de uma certa idade. Com o ordenado e os carinhos que o Estado dá ao titular do cargo, não admira que a fila de pretendentes tolos e incapazes se adense.
Coacção legítima dos Estados
A aceitação da legitimidade do Estado em deter o monopólio dos instrumentos de coacção está associada ao reconhecimento de instituições que regulem as relações entre os cidadãos e rejeitem o livre arbítrio. Tendencialmente autónomas (da separação de poderes de Montesquieu), estas instituições/poderes nacionais são o garante de direitos e garantias dos cidadãos, consagrados constitucionalmente.
Amanhã comemora-se o sexagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH). Naturalmente que a DUDH é subsidiária do espírito emergente dos ideais iluministas, cujos primeiros exemplos serão certamente as constituições dos EUA (1787) e de França (1791).
Estes ideais estão na base da construção do Estado Moderno e foram vertidos para a Lei Internacional que rege as relações entre os povos. Embora não fosse universal, no sentido da aplicabilidade, a DUDH passou a ser universal enquanto desiderato a atingir. Foi subscrita e conservada por países como o Zimbabué, antes e depois da descolonização.
Para que a Lei Internacional fosse observada e os direitos dos povos garantidos, foi igualmente vertida para a ONU a figura da coacção legítima, neste caso, alimentada pelos Estados.
A meu ver, a ingerência nos assuntos dos Estados nacionais termina quando o povo de um país não encontra outra coisa no Estado senão repressão e a não satisfação de necessidades primárias se deve à acção directa e voluntária dos governantes.
8 de dezembro de 2008
Onde pára a ERC?
Para que fique bem claro, centenas de pessoas estiveram no funeral do mestre do barco que naufragou na Galiza. Independentemente das razões que levam centenas de pessoas ao funeral de alguém, o editor do Público online deve ter sido acometido por uma estupenda cólica mental.
Nem o neo-imperialismo vale àqueles desgraçados
Enquanto os líderes ocidentais pedem gentilmente que o déspota Mugabe se demita, à laia dos regimes democráticos, o povo zimbabueano continua a definhar às cruéis mãos de um regime totalitário. Esperar que o animal se demita é menos exequível do que ensinar um porco a falar. Repor a dignidade do povo que oprime é tarefa utópica.
Mas, distantes, os líderes ocidentais cumprem a mesma hipocrisia e indiferença com que lidaram com os regimes totalitários emergentes na Europa no início do século XX. Com uma agravante: não há já, no Zimbabue, nada que seja interessante defender. Só, talvez, eventualmente, a dignidade humana. Isto, claro, se esse conceito for extensível a nações cultural e geneticamente «inferiores».
Mas, distantes, os líderes ocidentais cumprem a mesma hipocrisia e indiferença com que lidaram com os regimes totalitários emergentes na Europa no início do século XX. Com uma agravante: não há já, no Zimbabue, nada que seja interessante defender. Só, talvez, eventualmente, a dignidade humana. Isto, claro, se esse conceito for extensível a nações cultural e geneticamente «inferiores».
5 de dezembro de 2008
Manuel João Varela 1913-2008
Sempre o conheci assim. Chapéu de feltro na cabeça, roupas escuras, motivadas por um luto dilacerante por resolver. O luto pelo mais novo de três irmãos que experimentaram a atrocidade das picadas africanas. Luto que só foi «resolvido» há cerca de quatro anos quando o caixão de chumbo foi exumado e se confirmou que a placa com o nome correspondia ao ocupante. Bastou o olhar emocionado de um pai para reconhecer o seu filho.
Sempre foi assim. Homem bondoso e sensato, portador daquela dignidade só reconhecível nos grandes. Desde os tempos do Monte Airoso em que, rapazola, se aventurava por aqueles cabeços, até à Rua da Parreira.
Quando a minha avó desistiu, depois de alguns anos em luta contra a solidão de Alzheimer, chorei. Chorei, impressionado por vê-lo chorar ao meu lado, inconsolável, enquanto assistia à deposição do corpo. Com um desconsolo talvez parecido ao meu, alguns dias mais tarde. Mas impediu-me de chorar, chorando ele em vez de mim, talvez querendo carregar com tudo quanto havia para carregar.
Sempre me habituei a ouvir palavras de estima e grande carinho sobre aquele velho afável. De desconhecidos. Não há muito tempo, fui abordado aqui em Évora por um cigano oriundo de Portel. Perguntou pelo meu avô e despediu-se batendo com a mão no peito. Depois dele, recebi o contacto da irmã. Falou-me da minha família. Transmiti esse orgulho ao meu pai e dei-lhe um abraço.
Hoje, o patriarca partiu. Os meus valores não são outros que os teus. Resta-me o teu filho mais velho, quiçá o melhor depositário do teu legado.
4 de dezembro de 2008
à tout propos (310)
Não querendo ser mordaz, sarcástico ou demolidor, uma das coisas menos agradáveis que se pode dizer a um artista é: «já vi coisas piores».
3 de dezembro de 2008
à tout propos (309)
Oportuno, o imbecil que habitou a Casa Branca durante oito anos julga que será indultado pela História por imputar as responsabilidades pela invasão do Iraque aos seus próprios serviços secretos.
2 de dezembro de 2008
Fare il portoghese
Um dos grandes enigmas da confiança refere-se aos que, não confiando em si próprios, confiam nos outros. Ou seja, atribuem aos outros, qualidades que não identificam em si próprios enquanto grupo ou indivíduo.
Por vezes, aspectos desse enigma podem revelar-se falaciosos. Há uma expressão italiana usada para classificar algumas classes de burlas, como o clássico «entrar à borla», oportunamente invocado por um transeunte alegadamente habitué de In Tenui Labor e, ainda mais preocupante, masoquista sem rumo. A expressão fare il portoghese nasceu quando, na sequência de uma embaixada enviada por D. João V a Roma com o fito de exibir as conquistas africanas ao Papa Clemente XI, os romanos se fizerem passar por portugueses para poder aceder a eventos reservados aos lusos.
No decorrer dos séculos, esta expressão foi adquirindo contornos pejorativos que, gradualmente, se foram colando à idiossincrasia portuguesa. Hoje, o italiano médio terá exorcizado totalmente essa conduta condenável da sua própria história, contribuindo para reforçar a nossa tese do «chico-espertismo» lusitano.
Por vezes, aspectos desse enigma podem revelar-se falaciosos. Há uma expressão italiana usada para classificar algumas classes de burlas, como o clássico «entrar à borla», oportunamente invocado por um transeunte alegadamente habitué de In Tenui Labor e, ainda mais preocupante, masoquista sem rumo. A expressão fare il portoghese nasceu quando, na sequência de uma embaixada enviada por D. João V a Roma com o fito de exibir as conquistas africanas ao Papa Clemente XI, os romanos se fizerem passar por portugueses para poder aceder a eventos reservados aos lusos.
No decorrer dos séculos, esta expressão foi adquirindo contornos pejorativos que, gradualmente, se foram colando à idiossincrasia portuguesa. Hoje, o italiano médio terá exorcizado totalmente essa conduta condenável da sua própria história, contribuindo para reforçar a nossa tese do «chico-espertismo» lusitano.
Isto significa que, generosos, por vezes não só assumimos os nossos defeitos como também os dos outros.
Uma grande família
No dia em que se comemora a restauração da independência nacional ocorrida em 1640, é hábito do pretendente ao trono português, vago desde 1910, comunicar qualquer coisita ao povo. Nessa condição, D. Duarte de Bragança trata de legitimar a sua causa, enumerando a incontável série de virtudes da monarquia e lamentando os erros crassos da nossa história recente. Nada de novo.
Uma das novidades diz respeito à sua singular capacidade para estabelecer consensos e pontes entre os povos. De acordo com a sua complexa teia de parentesco, simultaneamente agnática e uterina, o homem diz-se descendente de Maomé (pela rainha Santa Isabel) e de David (pelo rei Afonso Henriques) conforme viaje para a Arábia Saudita ou para Israel. Isso traz-lhe óbvios benefícios, já para não falar da magnífica sala de troféus. Nesse campo, o ascendente monárquico é evidente pois não acredito que os presidentes da república tragam das suas viagens muito mais do que os tradicionais sapos.
Além disso, o facto de nunca se ter sujeitado a ser empregado de alguém, alega, é um garante de independência e liberdade de pensamento. Felizmente para ele porque, para a maioria, é uma garantia de definhamento, fome e exclusão social.
Mas, o mais sensacional é, naquela apologia frenética que faz ao feudalismo de subsistência pontificado por uma figura tutelar – o Rei – D. Duarte de Bragança coloca a causa monárquica e o PCP no mesmo patamar de patriotismo.
Um peculiar patriotismo pois, se o PCP é uma peça da engrenagem internacional que visa a adopção do comunismo sem fronteiras, a causa monárquica não prescinde daquela exogamia estratégica que sempre serviu para fortalecer casas reais e que, ele próprio confirma quando admite que as famílias reais existentes no mundo são "uma grande família".
Essa exogamia de pendor internacional é a mesma a que os judeus se sujeitaram durante séculos (por motivos ligeiramente diferentes) e que, com o advento do Estado-nação, foi particularmente posta em evidência: sem nação, os judeus só podiam ter como pátria a sua própria condição social e religiosa, à qual deveriam simultaneamente «enfatizar e renunciar» (Hannah Arendt).
Ora, famílias que sempre misturaram sangue em prol de vantagens políticas, refinações genéticas e sociais, gerando estruturas de consanguinidade exóticas, não deveriam resignar-se a reclamar uma pátria específica que coincida com uma só nação. A pátria do insigne pretendente é muito mais do que Portugal e pouco menos do que o Mundo. Portugal é apenas o pedaço de território onde o homem nasceu. Afinal, não são "uma grande família"?
28 de novembro de 2008
Desconfiança dos portugueses
Segundo o Inquérito Social Europeu, os portugueses estão entre os povos que menos confiam no próximo. Nem é estranho nem é apenas resultado de dinâmicas sociais que se caracterizam pelo aumento do individualismo, pela diminuição das relações face-a-face, pela implosão do núcleo familiar e pela degradação do Estado-nação.
Como é que se pode confiar em alguém, quando um simpático apresentador de televisão, um paternal director de instituição juvenil, um abnegado médico, um insuspeito diplomata, um justo advogado, um digno representante do povo e outros, são suspeitos de pedofilia?
Como é que se pode confiar em alguém, quando um simpático apresentador de televisão, um paternal director de instituição juvenil, um abnegado médico, um insuspeito diplomata, um justo advogado, um digno representante do povo e outros, são suspeitos de pedofilia?
27 de novembro de 2008
o sabor das coisas
Aos períodos de hipermania, sucediam-se outros de hipomania e assim sem termo, porque o termo das coisas era vulgarmente um estádio consagrado e outorgado heteronomamente. Logo, os inchaços e desinchaços sucediam-se com referência à doxa, o indexador da patologia. E... santo deus, como é saboroso o agridoce e coisa nenhuma a pairar nos céus com referência a nada. E agrilhoar-se em simultâneo ao sal e ao açúcar, sem os largar, sem os ultrapassar e sem os mesclar definitivamente.
Divagações sobre uma definição de cultura ii
Como é natural, há inúmeras definições de cultura, provenientes do mundo da filosofia, sociologia, antropologia, teologia, etc. Não interessa por agora estar a explorar essas definições. Estão nos livros nem me preocupei em retomá-los. Evidentemente, esta «divagação» não é satisfatória. Nem tem pretensões a sê-lo. É uma divagação tão lata quanto o Saara para um ocidental.
A cultura é contemporânea da satisfação de necessidades básicas. A utilização do sílex como utensílio de uso doméstico e de caça, por exemplo, representa uma inovação tecnológica com vista à satisfação de necessidades primárias de forma mais eficaz (um corte mais perfeito, uma melhor captura e com menos riscos para o caçador, quando o sílex foi acoplado a uma lança para arremesso). A utilização de cestos de verga na recolecção de alimentos, a adopção de peles de animais para combater o clima, etc., etc. Esta é, grosso modo, aquela parte da cultura que vulgarmente se designa «material».
Mas podemos admitir que, gerada pela natureza, a cultura opera entre outras coisas uma moldagem dos instintos humanos. Esta é a parte da cultura conhecida por «imaterial» e que implica um conjunto de referências, valores e normas sociais. O que é a obrigatoriedade de satisfazermos as nossas necessidades fisiológicas em determinados compartimentos específicos para o efeito, daí resultando uma clara repressão sobre a natureza? Como é bom de ver, é pouco ou nada razoável cagar fora do penico, sob pena de coacções, zombaria ou, pior, atribuição ortopedico-administrativa de uma condição psico-social pouco fascinante.
A cultura é contemporânea da satisfação de necessidades básicas. A utilização do sílex como utensílio de uso doméstico e de caça, por exemplo, representa uma inovação tecnológica com vista à satisfação de necessidades primárias de forma mais eficaz (um corte mais perfeito, uma melhor captura e com menos riscos para o caçador, quando o sílex foi acoplado a uma lança para arremesso). A utilização de cestos de verga na recolecção de alimentos, a adopção de peles de animais para combater o clima, etc., etc. Esta é, grosso modo, aquela parte da cultura que vulgarmente se designa «material».
Mas podemos admitir que, gerada pela natureza, a cultura opera entre outras coisas uma moldagem dos instintos humanos. Esta é a parte da cultura conhecida por «imaterial» e que implica um conjunto de referências, valores e normas sociais. O que é a obrigatoriedade de satisfazermos as nossas necessidades fisiológicas em determinados compartimentos específicos para o efeito, daí resultando uma clara repressão sobre a natureza? Como é bom de ver, é pouco ou nada razoável cagar fora do penico, sob pena de coacções, zombaria ou, pior, atribuição ortopedico-administrativa de uma condição psico-social pouco fascinante.
26 de novembro de 2008
Divagações sobre uma definição de cultura i
A cultura é aquilo que molda a natureza humana. A natureza humana em estado puro é instinto e obsessão pela satisfação de necessidades básicas de sobrevivência. Ou seja, ab origine, a cultura é aquilo que «escapou» à natureza, depois das necessidades básicas terem sido satisfeitas.
24 de novembro de 2008
O problema «corpo-mente»
Mãos cruzadas atrás das costas, pernas curtas atarracadas nas botas de cano alto da cavalaria e cintado pela farda impecável, o alferes parecia muito mais imponente do que a sua real dimensão aconselharia à avaliação de qualquer civil inexperiente nas coisas da tropa. O olhar sarcástico e sorridente foi subitamente enfeixado por uma exclamação enigmática e desafiadora. Inusitada, até porque já nos havíamos habituado a um registo de verbalização tão linear e directo quanto o prosaico raciocínio exibido até aí.
- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»
Enigmática, porque sugeria a dose de conhecimento empírico que todos esperaríamos não confirmar nas aptidões do alferes. E desafiadora, porque nos catapultava a nós próprios para uma dimensão de descoberta que talvez não fosse assim tão gratificante para alguns.
- «Vocês nem imaginam aquilo que um corpo humano é capaz de suportar…»
Passados 14 anos, sinto-me confortavelmente à vontade para declinar aquela viril e irreversível convicção, fantasiada certamente no decorrer de algum filme do Silvester Stallone.
- «Vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»
E a paciência que se tem que ter quando, dia após dia, confirmamos que afinal, a quadratura cerebral do oficial não era deformação da tropa. É sim, coisa dos homens! O ar que aflui ao cérebro não é suficiente, como tal, «vocês nem imaginam aquilo que uma mente humana é capaz de suportar…»
Novas oportunidades
Para além das formações profissionais, dos imigrantes clandestinos que não contam para a segurança social mas contam para o PIB, da retenção de indivíduos jovens nas novas oportunidades e de outra trafulhice, os níveis de desemprego também podem ser minimizados com a saída de activos qualificados em busca de novas oportunidades... no estrangeiro: nalguns casos, libertam postos de trabalho e não entram nas estatísticas do IEFP.
23 de novembro de 2008
Conspiracy, she wrote
Quando o deputado socialista Paulo Pedroso foi libertado e recebido em apoteose na Assembleia da República, a democracia portuguesa protagonizou então um dos episódios mais degradantes da sua curta existência. A presunção de inocência não podia legitimar a clara tentativa de colagem da suspeita que recaía sobre Pedroso, à suposta cabala política que só as mentes mais engenhosas organizadas em loja maçónica poderiam ter levado a cabo. Naquela ocasião, Pedroso foi transformado em preso político libertado dos grilhões da ditadura e mostrado à populaça como demonstração da virtude e da reposição da justiça.
Não satisfeita, a democracia portuguesa está prestes a repetir o feito. Em Portugal, a separação de poderes é uma ficção de terceira categoria só comparável aos piores programas da TVI. Paulo Pedroso recebeu uma indemnização por «prisão ilegal» e, porque somos gentis, equidistantes e atenciosos, as vítimas também.
Não satisfeita, a democracia portuguesa está prestes a repetir o feito. Em Portugal, a separação de poderes é uma ficção de terceira categoria só comparável aos piores programas da TVI. Paulo Pedroso recebeu uma indemnização por «prisão ilegal» e, porque somos gentis, equidistantes e atenciosos, as vítimas também.
aggiornamento democrático
Normalmente, depois de constituídos e reconhecidos pelas instâncias internacionais, muitos países – normalmente assentes em nações, embora nem sempre coincidentes – adoptam formalmente a democracia e os seus princípios legais. Elaboram afinadas constituições, criam sistemas eleitorais virtuosos, instauram instituições exemplares, apelam à laicização do Estado e à separação de poderes. Enfim, dizem-se saídos da barbárie e totalmente comprometidos com o progresso, as liberdades e as garantias da democracia e o desenvolvimento económico. Papagueiam aos quatro ventos a sua nova condição mas, debalde, confirmam por que razão insistem os politólogos na ideia de democracia como um modelo em constante aggiornamento e não numa obra feita, acabada. Essa constante actualização expressa-se numa fase de consolidação democrática observável quando a cultura política de participação (suportada por normas, valores e princípios democráticos) é uma realidade concreta entre a maioria da população.
Hoje, no rescaldo das eleições guineenses, os partidários dos vencidos demonstraram cabalmente a dimensão da sua cultura democrática procurando afirmá-la em toda a sua plenitude através da tentativa de decapitação do poder em que consistiu o ataque à residência oficial do Presidente da República. Não é pelo Nino Vieira... mas em respeito pela vontade do povo. Na Guiné, tal como em Angola ou na Madeira, a consolidação democrática é fetal.
Em Portugal (continente e açores), a consolidação democrática tem dias. É como os adolescentes.
21 de novembro de 2008
Sofrer os mínimos danos
Depois de um Conselho de Ministros extraordinário e de um presumível puxão de orelhas, a ministra da educação não teve outra alternativa senão ceder. Como era esperado, não querendo assumir imediatamente o fracasso de uma iniciativa que já tresanda, a ministra trata agora de tentar perder pela diferença mínima: mostrou-se disponível para introduzir alterações no modelo de avaliação que, aos poucos, vai ficando descaracterizado.
Naturalmente que os sindicatos não estão pelos ajustes e, evidentemente, não acreditam na sobrevivência de uma manta de retalhos.
O governo podia ter-se poupado todo este esforço se fingisse acreditar mais na democracia e se este trabalho que a ministra anda agora a fazer junto das escolas e que não passa de show off mediático, tivesse sido o ponto de partida para a criação de um modelo de avaliação.
19 de novembro de 2008
Cultura política paroquial
Hoje, a FENPROF vai cumprir o que resta para desgraçar a ministra da educação.
Estoicamente isolada e visivelmente abatida por começar finalmente a compreender a dimensão do problema que arranjou (em particular, pelo elemento disfuncional que exige introduzir no sistema), Maria de Lurdes Rodrigues não vai ceder nas pretensões da FENPROF em suspender a avaliação, conduzindo ao esperado e imediato abandono da reunião pelos representantes dos professores.
Em contrapartida, depois das declarações de Manuela Ferreira Leite e da imediata condenação pelo PS, o governo ficou com a responsabilidade de demonstrar que em democracia é possível fazer reformas. Isso faz-se à mesa das negociações e, sobretudo, com boa-fé no desfecho das mesmas.
Como em tudo na vida, o mandato desta senhora à frente do ministério da educação tem um lado positivo: pela primeira vez neste país, a avaliação dos professores é vista como uma necessidade. Nesse caso, serão os professores quem ficará com o ónus e responsabilidade de implementar um modelo de avaliação sério e rigoroso. A opinião pública já não poderá tolerar mais deslizes.
Para os que têm dúvidas sobre a validade das declarações de Manuela Ferreira Leite, recordo todos os países da União Europeia, cuja consolidação democrática nunca os impediu de reformar e ter sistemas de educação com bons resultados. Talvez porque não têm uma cultura política paroquial como a nossa.
Estoicamente isolada e visivelmente abatida por começar finalmente a compreender a dimensão do problema que arranjou (em particular, pelo elemento disfuncional que exige introduzir no sistema), Maria de Lurdes Rodrigues não vai ceder nas pretensões da FENPROF em suspender a avaliação, conduzindo ao esperado e imediato abandono da reunião pelos representantes dos professores.
Em contrapartida, depois das declarações de Manuela Ferreira Leite e da imediata condenação pelo PS, o governo ficou com a responsabilidade de demonstrar que em democracia é possível fazer reformas. Isso faz-se à mesa das negociações e, sobretudo, com boa-fé no desfecho das mesmas.
Como em tudo na vida, o mandato desta senhora à frente do ministério da educação tem um lado positivo: pela primeira vez neste país, a avaliação dos professores é vista como uma necessidade. Nesse caso, serão os professores quem ficará com o ónus e responsabilidade de implementar um modelo de avaliação sério e rigoroso. A opinião pública já não poderá tolerar mais deslizes.
Para os que têm dúvidas sobre a validade das declarações de Manuela Ferreira Leite, recordo todos os países da União Europeia, cuja consolidação democrática nunca os impediu de reformar e ter sistemas de educação com bons resultados. Talvez porque não têm uma cultura política paroquial como a nossa.
18 de novembro de 2008
Diferenças?!

Manuela Ferreira Leite propõe-se fazer em seis meses o que Salazar demorou anos a conseguir.
No fundo, criar um regime onde os inúteis, crápulas, incompetentes, falhados e estafermos possam coabitar no poder.
As declarações da líder do PSD não são infelizes: expressam apenas um desejo sincero recalcado durante anos a ter que tolerar as ideias dos outros.
Para memória futura, ficam as palavras da líder do principal partido da oposição, as quais, ao contrário do que foi dito em sua defesa por Marques Guedes, não foram produzidas com ironia: "e até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia".
taqueapariueaocabraodovelhoqueenterrouestamerdatodaaindamaisdoquejáestava!
Jamé (em português)
António Vitorino, respeitável aspirante a D. Sebastião no PS e insuspeito homem do establishment, sugeriu que fosse constituída uma espécie de conselho de notáveis, recrutados pelo seu conhecimento e experiência, para trazerem alguma ponderação e luz à necrosada relação entre ministério da educação e professores.
A ideia foi prontamente rejeitada por Augusto Santos Silva, ministro dos assuntos parlamentares e outrora bom escritor de livros de sociologia. De resto, eivada de bons sentimentos, a odiada ministra tem andado num périplo propagandista pelas escolas, apregoando as virtudes do seu modelo de avaliação e mostrando-se disponível para apoiar directamente a sua implementação, acocorada e vestida de fato-macaco. Nessa autêntica campanha de charme mongol, a ministra faz-se acompanhar de professores apoiantes e famintos que, arregimentados pelo PS da Buraca, não esperam outra coisa senão um tacho que os safe da medonha tarefa em que se transformou a leccionação.
Antes, já António Costa (presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-nº 2 do governo), havia deixado conselhos de prudência aos seus camaradas. Manuel, poeta alegre, também já sentenciou o que tinha para sentenciar e deu num 2º lugar nas presidenciais, à frente do candidato apoiado pelo PS, o histórico e ultimamente lúcido Mário Soares. A um ano das eleições, os avisos sucedem-se. Mas o governo, entrincheirado nas suas fantasias, não cede um milímetro, mesmo que deixe de haver escolas neste país. Esta pretensa despreocupação eleitoralista é louvável. Mas muito pouco eficaz.
Gostava de vos poder deixar com uma gracinha mas hoje, o melhor que me ocorre é o facto de ontem, dia mundial de qualquer coisa contra o fumador ou o tabaco, ter almoçado num restaurante onde é permitido fumar. E fiquei satisfeito porque haviam pessoas que fumavam, aparentemente com prazer, depois do repasto e antes de pagar. Nenhuma era o primeiro-ministro. Talvez porque o restaurante fica perto de uma escola. Ou talvez porque é muito mais punk subverter as normas a 30000 pés de altitude. Jamé, lá dizia o outro...
16 de novembro de 2008
A mania de complicar
O Estado-Providência tem normalmente três dimensões: políticas sociais, concertação social e regulação económica.
Nunca essas três dimensões coincidiram em simultâneo em Portugal. Na sequência desta crise financeira, há a promessa da terceira dimensão entrar na agenda política. De corpo estranho, o regresso do político ao mercado, surge agora como corpo messiânico. Mas só enquanto o sistema financeiro tiver fome dos recursos públicos, bem entendido. Mesmo de saída, o tonto [ainda] presidente dos EUA conseguiu garantir um fraco entendimento na cimeira dos G20 (decorreu este fim-de-semana em Washington) que, basicamente, deixa tudo na mesma. O mercado continuará intocável.
Com políticas sociais deficientes, mal integradas e frequentemente mal avaliadas, a Portugal já nem sequer resta a concertação social. O autismo do governo com respeito à educação é um exemplo de fraco entendimento democrático. Porque, ainda que os sindicatos dos professores possam ter subvertido a ideia de concertação social ao não honrarem os seus compromissos, sobra a realidade de, com ou sem interlocutores, a esmagadora maioria dos professores não quererem ser avaliados e muito menos segundo um modelo que os transforma em meros funcionários.
Antes de mais, o governo deveria ter-se assegurado se existiam condições socialmente não fracturantes para avançar com esta avaliação aos professores. E só depois negociar. A maioria absoluta terá levado os socialistas a caminhar precisamente ao contrário. Essa abordagem resultou bem nos governos da União Nacional mas actualmente não são muito populares.
E este governo não compreendeu bem qual a sua missão. Os interesses dos alunos não estão a ser salvaguardados e, ainda que os professores tivessem assimilado muito bem este modelo de avaliação próprio de um regime paternalista (a desconfiança que os professores suscitam no governo é evidente e esse é um péssimo ponto de partida), a qualidade do ensino continuaria a decrescer. Porque ao reduzir a educação a uma gestão racional económica, o governo reconhece que não está muito interessado em educar com qualidade. Isso está bem presente na obsessão com as novas oportunidades, no facilitismo ilusório com que uma criança progride actualmente até ao 9º ano de escolaridade, e na transformação das instituições geradoras e transmissoras de conhecimento - as universidades - em empresas privadas.
Independentemente de ser exigível uma gestão racional dos recursos públicos, a educação e a saúde não têm que dar lucro imediato. O seu «lucro» para a sociedade consiste em assegurar que os seus membros são cidadãos exemplares, empreendedores, qualificados profissionalmente e saudáveis para poderem assumir os seus compromissos e retribuir o investimento feito.
Nunca essas três dimensões coincidiram em simultâneo em Portugal. Na sequência desta crise financeira, há a promessa da terceira dimensão entrar na agenda política. De corpo estranho, o regresso do político ao mercado, surge agora como corpo messiânico. Mas só enquanto o sistema financeiro tiver fome dos recursos públicos, bem entendido. Mesmo de saída, o tonto [ainda] presidente dos EUA conseguiu garantir um fraco entendimento na cimeira dos G20 (decorreu este fim-de-semana em Washington) que, basicamente, deixa tudo na mesma. O mercado continuará intocável.
Com políticas sociais deficientes, mal integradas e frequentemente mal avaliadas, a Portugal já nem sequer resta a concertação social. O autismo do governo com respeito à educação é um exemplo de fraco entendimento democrático. Porque, ainda que os sindicatos dos professores possam ter subvertido a ideia de concertação social ao não honrarem os seus compromissos, sobra a realidade de, com ou sem interlocutores, a esmagadora maioria dos professores não quererem ser avaliados e muito menos segundo um modelo que os transforma em meros funcionários.
Antes de mais, o governo deveria ter-se assegurado se existiam condições socialmente não fracturantes para avançar com esta avaliação aos professores. E só depois negociar. A maioria absoluta terá levado os socialistas a caminhar precisamente ao contrário. Essa abordagem resultou bem nos governos da União Nacional mas actualmente não são muito populares.
E este governo não compreendeu bem qual a sua missão. Os interesses dos alunos não estão a ser salvaguardados e, ainda que os professores tivessem assimilado muito bem este modelo de avaliação próprio de um regime paternalista (a desconfiança que os professores suscitam no governo é evidente e esse é um péssimo ponto de partida), a qualidade do ensino continuaria a decrescer. Porque ao reduzir a educação a uma gestão racional económica, o governo reconhece que não está muito interessado em educar com qualidade. Isso está bem presente na obsessão com as novas oportunidades, no facilitismo ilusório com que uma criança progride actualmente até ao 9º ano de escolaridade, e na transformação das instituições geradoras e transmissoras de conhecimento - as universidades - em empresas privadas.
Independentemente de ser exigível uma gestão racional dos recursos públicos, a educação e a saúde não têm que dar lucro imediato. O seu «lucro» para a sociedade consiste em assegurar que os seus membros são cidadãos exemplares, empreendedores, qualificados profissionalmente e saudáveis para poderem assumir os seus compromissos e retribuir o investimento feito.
É possível que alguns membros do governo sejam suficientemente esclarecidos mas o que se observa é uma incompreensível tendência para complicar a simplicidade.
15 de novembro de 2008
13 de novembro de 2008
«Desculpem lá, meus queridos!»
A ministra veio ao Parlamento e pediu desculpas aos professores por qualquer coisinha mas comportou-se como um adolescente que, espicaçado no seu orgulho, precipita teimosamente um desfecho sobre o qual não reflectiu. Chama-se a isso, inconsequência.
Inconscientemente, o primeiro-ministro só está a medir apenas os custos políticos imediatos: manter a unidade do grupo que o acompanha. Do ponto de vista mediato, essa toleima terá efeitos no expectável funcionamento das escolas durante o presente ano lectivo e, naturalmente, na própria avaliação eleitoral do próximo ano. De uma coisa não se livra: em arrogância, este governo só tem paralelo nos governos de Cavaco Silva. Mal das maiorias absolutas ou mal da idiossincrasia portuguesa, quiçá muito dada a estes e outros tiques autoritaristas.
Seja como for, mesmo o ser mais rasteiro e acéfalo compreende que os professores têm que ser sujeitos a um regime de avaliação sério e rigoroso. E creio que os professores reconhecem essa necessidade, particularmente os bons. Essa é a fórmula para salvaguardarem a qualidade do seu trabalho e do seu empenho.
Naturalmente que os professores têm responsabilidades na decrépita qualidade do ensino. Porém, não se lhes podem ser assacadas todas as responsabilidades sabendo que é o próprio ministério da educação quem oferece autenticamente novas oportunidades e estimula praticamente a passagem administrativa até ao 9º ano, desafiando a ética meritocrática que supostamente pretende instituir neste modelo de avaliação. Ainda restam as clivagens que o Estatuto da Carreira Docente veio trazer para um desestabilizado corpo docente.
Não é assim que é ser reformista. Mais uma vez, Manuel Alegre está coberto de razão.
Provavelmente, chegar-se-á a uma altura em que o governo reconhecerá o fracasso e tentará limpar a face, entabulando empenhadas negociações com os sindicatos. Nas actuais condições e socialmente exigível (depois de todo o mediatismo) que a avaliação seja rigorosa, o governo tem ao seu alcance a fenomenal manobra de «passar a batata quente» para as mãos dos sindicatos e pedir-lhes dentro de um prazo razoável, propostas funcionais de modelos de avaliação.
Porque a democracia, temos que aprender, não se faz só num sentido.
12 de novembro de 2008
à tout propos (308)
Numa gala promovida pelo Comité Olímpico Português, Nelson Évora foi distinguido com a Medalha de Ouro e Vanessa Fernandes com a de Prata. Na mesma cerimónia, o guarda-redes de futebol do Sporting - Rui Patrício - foi distinguido com uma Menção Honrosa.
A Antena 1 passou unicamente a reacção do jogador de futebol, como se a Medalha de Ouro tivesse sido afinal atribuída a ele.
O jornalista não justificou a falha com uma eventual recusa dos medalhados em Pequim. Isso permite concluir que dar primazia jornalística ao prémio menos importante dos citados se tratou de uma opção consciente.
à tout propos (307)
Quando confrontado com o convite formulado pelos partidos da oposição no sentido de se demitir do cargo, o Governador do Banco de Portugal, Vitor Constâncio, disse não ver razões para tomar tal decisão.
De resto, o raciocínio escorreito deste homem com tantos e valiosos trabalhos ao serviço da nação quantos os de Heracles, está absolutamente correcto: por que razão se haveria o homem de demitir de um cargo principescamente remunerado, recheado de benesses e com direito de antena neste Portugal de Pequeninos?
De resto, o raciocínio escorreito deste homem com tantos e valiosos trabalhos ao serviço da nação quantos os de Heracles, está absolutamente correcto: por que razão se haveria o homem de demitir de um cargo principescamente remunerado, recheado de benesses e com direito de antena neste Portugal de Pequeninos?
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