10 de dezembro de 2009

Optimista

Por vezes, até o tempo gasto em reuniões inúteis pode constituir uma excelente oportunidade... para reflectir ou, se não for caso disso, para apreciar a decoração.

5 de dezembro de 2009

Como mel na boca de um urso

A coisa não podia ser mais evocativa e admirável, caso não fosse alarmante. Jorge Lacão, o ministro dos assuntos parlamentares, decidiu contemporizar com as exigências de decência a que os titulares de cargos públicos são sujeitos pelo sarnoso povo e anunciou que o governo está disponível para «debater um código de conduta contra corrupção».

Esta afirmação não é só idiota. E nem é só risível. É também ofensiva porque escamoteia as obrigações e deveres a que todos os funcionários e titulares de cargos públicos estão adstritos e porque faz mais uma vez tábua rasa do dever de fiscalização do Estado e das competências judiciais dos tribunais.

A partir de agora é que conta, a partir de agora vamo-nos todos portar bem. O país inteiro, incluindo esses arautos exemplares da idoneidade cujos belos discursos têm normalmente pálidas consequências...

Mas, em abono da verdade deste país... para quê insistir em mais pacotes legislativos contra a corrupção se as ferramentas que há são estioladas como mel na boca de um urso?

4 de dezembro de 2009

Houve ou não houve espionagem política?

Louçã insistiu e, após sucessivas vagas, simplificou: «houve ou não houve espionagem política»? Como o diabo foge da cruz, Sócrates evadiu-se do cerco à vista de todos e contra-atacou: «ainda não vi o Bloco de Esquerda a condenar a violação do segredo de justiça». Com esta evasiva, Sócrates decidiu continuar a carregar ao colo o ministro Vieira da Silva, responsável pela tirada da «espionagem política» a que o governo estará a ser sujeito no caso das escutas telefónicas. E que, em rigor, é mais uma tirada característica da irresponsável e torpe forma de fazer política em Portugal.

21 de novembro de 2009

Arquivamento das certidões

Meio país deve a esta hora andar a rebolar-se em lama de indignação pelo arquivamento das certidões com escutas telefónicas de diálogos entre o primeiro-ministro e Armando Vara. O procurador-geral da República entendeu não haver matéria probatória que desse origem a um processo-crime contra José Sócrates.
Esta decisão que será técnica e juridicamente correcta corporiza o questionamento difícil que nem sempre é feito pela maioria das pessoas: «e se não é verdade? E se, de facto, há uma cabala montada contra o primeiro-ministro?». Não o sabemos mas é certa a ingestão às golfadas de um discurso de verdade montado pelos media e por actos administrativos. Também é «conhecida» a falta de idoneidade com que, em muitos casos, tal discurso é construído por jornalistas e, neste caso, pelos agentes de investigação criminal e agentes judiciais.

13 de novembro de 2009

Bye-bye freeport

As autoridades inglesas decidiram arquivar o processo Freeport por falta de provas. Segundo o jornal Público, a maioria dos elementos com que os juízes ingleses trabalharam foram fornecidos pelo Ministério Público português...

12 de novembro de 2009

Guterres considerado o 64º homem com mais poder

Para quem passou por dificuldades na gestão do poder enquanto primeiro-ministro, ser o 64º homem com mais poder no mundo pode ser relativamente absurdo.

Água dura em pedra mole

Só por mera casualidade é que o PS se cruzou na vida de João Cravinho.

Compromissos com energias renováveis à parte

Relativamente à electricidade gerada a partir de energia solar, em 2006 Portugal produzia o equivalente a 0,05 GIGAWATT/hora por 100 000 habitantes. Porque as comparações são inevitáveis, vale a pena olhar para o lado e verificar que os espanhóis já garantiam a produção de 0,27 GIGAWATT/hora por 100 000 habitantes. Esse rácio era no Luxemburgo de 4,26 GIGAWATT/hora por também 100 000 habitantes. Energetimente dependente, o Luxemburgo fez uma aposta na energia solar apesar de ser incomparavelmente menos soalheiro que os seus vizinhos ibéricos. Em contrapartida, em 2006 o Reino Unido não ultrapassava os 0,011 GIGAWATT/hora por 100 000 habitantes. Compreende-se porquê... para além de não ser um país conhecido pelo sol, tem ainda muitos poços de petróleo por onde escolher...

11 de novembro de 2009

União civil registada

A palavra «casamento» devia queimar a lingua dos hereges que fornicam com pessoas do mesmo sexo e sem consentimento da Santa Igreja. Além disso, não fica giro dizer: "fui ao casamento da Maria e da Cláudia no fim-de-semana passado e, a propósito de casórios, sabe quem já marcou para o ano? O Carlos e o Anselmo, imagine !".

Fora a fonética engasgada - "a Maria e a Cláudia já são unidas e registadas civilmente" - e o mesmo conteúdo em termos de deveres e direitos, a proposta do PSD lembra o garoto que, não querendo dar o braço a torcer, contra-propõe aos amigos jogar futebol em vez de jogar à bola.

8 de novembro de 2009

Fumo com fogo?


Até que ponto esconde o fumo um foco de fogo? Nem sempre, como se sabe. Na indústria cultural, há máquinas próprias concebidas para proporcionar atmosferas diversas. Contudo, devido ao seu mediatismo e à sua responsabilidade institucional, os actores políticos portugueses parecem espalhar aquele odor característico da lenha a arder... O clã Soares e os diamantes de Angola, a insistência da localização do Aeroporto de Lisboa na Ota, o envolvimento de Paulo Pedroso no processo Casa Pia, as suspeições sobre Armando Vara na Junta Autónoma de Estradas e, recentemente, na vice-presidência do BCP, José Sócrates e o caso Freeport, Fátima Felgueiras e o «Saco Azul», a condenação de Isaltino Morais, a compra dos submarinos pelo então ministro da defesa Paulo Portas, o Caso Portucale e o pretenso favorecimento ao Grupo Espírito Santo...

Com tanto fumo é licíto que o povo português questione se estaremos perante a multiplicação de «cabalas» e «contra-cabalas» movidas por interesses económicos e políticos ou se estamos efectivamente na presença de indícios suficientemente fortes de fogo.

7 de novembro de 2009

Portas de diálogo

O governo voltou a frisar ontem - através do ministro da presidência Pedro Silva Pereira - que tomou posse para governar durante toda a legislatura, afastando o cenário de eleições antecipadas motivadas pela instabilidade política que uma oposição maioritária no Parlamento pode causar. Oportuno ou não, Marcelo Rebelo de Sousa pronunciou-se sobre a avaliação dos professores, mostrando-se contra a suspensão da dita. Ora aqui pode estar uma das portas de diálogo de que falava o primeiro-ministro no acto de tomada de posse. Uma porta que merece ser apoiada pelo próprio PS, uma vez que Marcelo não é homem para ir à luta em escaramuças das quais possa sair aleijado. Também serve ao Presidente da República. Há, evidentemente, outras Portas.

6 de novembro de 2009

Modelo da mão-de-obra barata ainda faz sentido... no Lesoto

Ludgero Marques (Associação Empresarial de Portugal), Francisco Van Zeller (Confederação Industrial Portuguesa) e outros comparsas representantes dos patrões portugueses, andaram décadas a defender um modelo de atracção de investimento estrangeiro assente na mão-de-obra barata e, consequentemente, desqualificada.
Talvez os ávidos horizontes dos patrões à portuguesa ajudem a explicar por que razão tem Portugal uma das mais fracas taxas de investimento estrangeiro da Europa. É que, neste restrito círculo de países, a competitividade assenta na qualificação, na diferenciação associada a medidas de alto valor tecnológico e científico que acrescentam valor. Assenta também num sistema de gestão profissional, no qual não cabe o patrão obeso e patético que gere a grande maioria das empresas portuguesas.

5 de novembro de 2009

Nenhuma ideia de justiça

De tempos a tempos os tementes ao Estado português são varridos por uma onda ilusória de esperança e emancipação cívica: "agora é que o combóio entra nos eixos", parece o povo dos «brandos costumes» consolar-se em jeito de acomodação tácita aos maus costumes dos homens seus vizinhos e amigos. Também de tempos a tempos, uns quantos desaparecem providencialmente para o Brasil, para África ou para uma quinta no Alentejo e aguardam que a poeira assente... nas redacções.  A impunidade patrocinada pela rede informal de amigos e pelo próprio sistema judicial encarregar-se-á de absolver indivíduos que, afinal, até demonstram desapego pelo poder e respeito pelas regras quando, sob suspeita, decidem demitir-se e renunciar [provisoriamente] às mordomias que o Estado lhes proporciona (as lícitas e as ilícitas). Mas, poder-se-á falar de impunidade num mundo em que a ideia de crime foi quase totalmente usurpada pelos delitos comuns, pelos crimes de sangue (e os hediondos socialmente como a pedofilia) e, sobretudo, afastada da delicadeza e nobreza de um colarinho branco?

Nã... cada macaco no seu galho... 

4 de novembro de 2009

O século das luzes em Portugal

Subitamente, o país foi iluminado por uma aurora que apanhou uns ilustres de calças na mão. Ou será que, como disse ontem o bastonário da Ordem dos Advogados, "este caso vem fazer esquecer o esquecimento em que cairam outros" como o da Casa Pia, Freeport ou o Apito Dourado?

3 de novembro de 2009

PS disposto a aceitar o pluralismo político?

A intenção expressa no programa eleitoral do PS (convertido em programa de governo) de não insistir na transformação dos círculos eleitorais na revisão da lei eleitoral é a notícia do dia para os pequenos partidos. E é, também, uma das melhores notícias para a democracia em Portugal. Não porque os sistemas maioritários não satisfaçam ou não favoreçam a emergência de diferentes sensibilidades internas... mas porque em Portugal, o abandono dos círculos plurinominais em detrimento dos círculos uninominais só contribuiria para acentuar a unidimensionalidade, dada a tendência latente na cultura política portuguesa em «dividir para reinar».

Um coro anti-corrupção ruidosozinho

Qualquer proposta de criminalização do enriquecimento ilícito de titulares de órgãos do Estado é anacrónica. Em primeiro lugar porque o argumento da conspiração gratuita contra eleitos não pode agrilhoar qualquer iniciativa anti-corrupção e, em segundo lugar, porque a passividade portuguesa a este respeito é proverbial. O absurdo ganha contornos grotescos num país em que o coro de vozes exasperadas com as práticas quotidianas de corrupção é ruidoso mas não o suficientemente como para ruir uma certa ordem instalada que, na verdade, é objecto de um amado desdém. Talvez por isso é que o socialista João Cravinho e o PCP têm visto as suas propostas embater naquilo que se pode designar, um odiado amor.


28 de outubro de 2009

As banalidades de Saramago, por Zimler



A opinião de Richard Zimler tem obviamente muito mais interesse do que a minha. A propósito da polémica criada por José Saramago e alimentada pelos crentes.

Novo governo iii



O Presidente da República asseverou ser homem com sentido de Estado e, vá lá, a prová-lo, está essa inusitada disponibilidade para cooperar com o governo num magnânimo gesto de boa-vontade. Como se fosse precisamente isso que se espera institucionalmente de um dos órgãos de soberania portuguesa. para com outro órgão de soberania. Tal como há quase cinco anos, a empatia de Cavaco Silva com Sócrates é comovente: também foi chefe de governo apoiado por uma maioria relativa na Assembleia da República e constantemente acossado por um Presidente da República belicoso (Mário Soares). Portanto, sabe bem o que é comer do pão que o diabo amassou. Porém, este entusiasmo pode tender a refrear ao longo do mandato... Após a reeleição em 2011, é previsível que Cavaco Silva retome a leitura das propostas de lei do governo e das maiorias de esquerda alcançadas no Parlamento e alterne como marcador de páginas, o selo do veto e o selo da fiscalização sucessiva da lei.
Isto, claro, sem esquecer a Revisão Constitucional que deverá acontecer no próximo ano...

26 de outubro de 2009

A dura caminhada da democracia

Na sessão de tomada de posse, o novo e antigo presidente da mesa da assembleia municipal de Évora terá assegurado (segundo o jornal Registo) que a sua reeleição aumenta a responsabilidade e exigência “na isenção, equidistância e condução dos trabalhos da forma mais democrática possível”. 

Isso quer dizer que, quando os trabalhos não puderem ser conduzidos da forma mais democrática possível entra em campo a forma menos democrática? E, a seguir, a outra sua vizinha? E que, se for caso disso, suspende-se a democracia?

Primeiro lince-ibérico cedido por Espanha



Há precisamente dois anos atrás, o ministro do ambiente anunciou a criação de um centro de reprodução artificial de lince-ibérico. O anúncio foi aplaudido e hoje, apesar de não ter sido empossado, Nunes Correia ficará para sempre ligado à reintrodução do lince-ibérico em Portugal.

Novo governo ii

Hoje será empossado o novo governo. Mas, segundo a generalidade da comunicação social, é esperada a ausência de mais de metade dos ministros. Jornalistas do país inteiro não se cansam de dizer que Cavaco Silva dará posse a um «governo minoritário», ilustres comentadores políticos insistem na fragilidade de um «governo minoritário» e até alguns políticos já se atreveram certamente a contar o número de ministros para o classificarem como «minoritário». Será isso?

Há, também, uma explicação muito menos rebuscada para esta sistematização do erro. Este epíteto «minoritário» pode afinal referir-se ao número de elementos da esquerda dentro do governo, se o estivermos a avaliar a partir da perspectiva de Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã. Ou ao número de elementos da direita, se o estivermos a observar a partir da perspectiva de Jaime Gama, Manuela Ferreira Leite ou Paulo Portas.

Há, finalmente, uma interpretação cujo acerto é tão remoto quanto as ilhas Trobriand o são para Portugal. O facto de, no Parlamento, o PS não ter conseguido a maioria absoluta e sim uma maioria relativa, leva toda essa gente a referir-se ao governo como sendo «minoritário». Só por defeito linguístico ou conforto conceptual  convertido em costume é que se pode adoptar essa terminologia. Talvez tenham sido ambas porque o mundo inteiro a convencionou...

À excepção dos governos coligados, em todas as democracias do mundo integradas no modelo consensual (na terminologia de Arend Lijpaart, em oposição ao modelo maioritário ou de Westminster) e, concretamente em Portugal, um governo é sempre maioritário porque é suportado por uma maioria na câmara legislativa, seja relativa ou absoluta. Claro que a dimensão quantitativa do partido que o suporta no Parlamento é fundamental para lhe dar força e autoridade. Assim sendo, por que não passar a chamar-lhe «governo introvertido» e «governo extrovertido» ou «governo autista» e «governo dialogante» ou «governo independente» e «governo dependente» ou «governo leão» e «governo gatinho»?


23 de outubro de 2009

Novo governo i

Foram precisos vários anos para que o potencial de Augusto Santos Silva pudesse emergir. Como ministro da Defesa, Augusto Santos Silva vai passar a controlar o monopólio de coerção legítima do Estado e, assim, passará a ter reais condições para malhar à direita! E à esquerda! E aonde bem lhe aprouver.

21 de outubro de 2009

Os maus costumes de Saramago




José Saramago acusou a Bíblia de ser um «manual de maus costumes», como se o que lá está contido não fosse um repositório cultural da moral judaico-cristã que o habilita, ao Nobel, a produzir juízos de valor com base em noções de bem e mal. E como se essa própria moral não tivesse resultado da transcrição das normas e referências axiológicas aceites e encorajadas nas sociedades passadas e contemporâneas a tal transcrição. Persiste o anacronismo que frequentemente está associado à secularização da sociedade, mas essas são outras cantigas... A Bíblia, assim como a Torá (motivada pelos maus costumes dos judeus na Babilónia) e o Alcorão, são códigos nos quais vigora alto nível de simbolismo e metaforismo, podendo dar lugar a variadas interpretações. A de José Saramago é certamente uma. Tal como a de Bento XVI, a dos judeus ortodoxos, a do Patriarca de Moscovo ou a de Bin Laden. As que motivaram as cruzadas ou a Inquisição têm que ser vistas à luz do tempo histórico em que ocorreram. Pelo meio e sem acesso aos meios mediáticos para alardear o que bem entenderem estão multidões de crentes.

Por isso, vale a pena reparar em alguns dos costumes exaltados pela mitologia grega, suporte de toda a civilização ocidental.

Por dar o fogo dos deuses aos homens, distinguindo-os de todos os outros animais, Prometeu foi mandado acorrentar por Zeus no alto do monte Cáucaso para que o seu fígado fosse gulosamente debicado por um corvo (águia? abutre?). Repare-se que Prometeu era neto de Oceanus, filho de Urano que, por sua vez, era filho da Terra. Ora, no fundo, entre os deuses clássicos e titãs e outros, vigoram relações endogâmicas e nalguns casos incestuosas. A este respeito, é fundamental compreender que o incesto é um tabu universal. Por isso está interdito aos homens, incluindo aos homens gregos. Mas não aos deuses… É, em linguagem antropológica, um interdito. Assim como a homossexualidade, embora neste caso não seja universal como o demonstra a sociedade grega  [da Antiguidade Clássica] e, por exemplo, os rituais de felatio entre jovens Baruya na Papua Nova Guiné.

Mas, veja-se a promiscuidade da coisa – «maus costumes» - que, do ponto de vista sexual, está sempre presente nas aparições à socapa de Zeus na cama de toda a sorte de deusas e mulheres para conceber filhos ilegítimos (são também relatadas autênticas violações). E Afrodite, enfim, que nasce da fecundação dos testículos de Urano com o mar, depois de castrado pelo seu próprio filho, Cronos.



O agrilhoamento de Prometeu, Pieter Pauwel Rubens, 1610-11


Regressando a Prometeu, podemos aqui identificar a exaltação da racionalidade humana (o uso do fogo) por comparação com a irracionalidade dos outros animais. E o castigo de Zeus a Prometeu? Parece mais indiciar um «toma lá disto, para não te armares em espertinho...».

Ora, se os gregos tivessem desatado a reproduzir a conduta libertina e sanguinária dos seus deuses, dificilmente teriam dado ao mundo homens como Sócrates, Platão e Aristóteles. Ou Demócrito, Heraclito, Pitágoras, Diógenes, Solon, Fídias, Homero e Pericles. Nem nós teríamos dado à literatura o José Saramago.




Nota final: defender o multiculturalismo e a liberdade, vituperando a liberdade  de outros tem correspondência com integrar as listas de um partido e apelar ao voto em branco. Independentemente dessas incoerências, Saramago tem obviamente direito à opinião.

20 de outubro de 2009

Futebol dá de comer a muito mais gente do que o vinho

No início deste Milénio, uma trupe de gente «mesquinha, pesarosa, provinciana e certamente mal intencionada», incapaz de ver para além da porta do quintal, criticou a construção de vários estádios de futebol. Uns velhos do Restelo... Para além dos custos exorbitantes, do investimento com retorno por apurar, da existência de outras prioridades quer na área do desporto quer na área do turismo, toda aquela contestação também tinha em vista defender de algum modo a dignidade da Federação Portuguesa de Futebol, frequentemente enxovalhada pelo comportamento servil do seu presidente perante a FIFA.

Hoje, o retorno do investimento ficou obviamente por explicar, incluindo nessa vertente turística em que a imagem de Portugal projectada por um miserável campeonato de futebol passaria a funcionar como chamariz de hordas de turistas. Um Portugal moderno, atraente e sofisticado mas que varre o lixo para debaixo dos móveis. Os milhões que foram gastos davam para vinte anos de promoção institucional do Galo de Barcelos no mundo inteiro. Mas isso não chega.

Admite-se que o crescimento do turismo (que já vinha de trás) possa ter sido impulsionado por grandes eventos como o Euro 2004 ou a Expo 98, Porto Capital da Cultura, etc., porém, há factores que não podem ser ignorados como o aumento do turismo interno, o sentimento de segurança num mundo fustigado pelo terrorismo internacional ou as próprias operadoras de Low Cost. Além disso, o abrandamento de entradas registado em 2005 (INE) sugere que o efeito futebol tenha realmente funcionado... em 2004, porque no ano seguinte, desvanece-se. Esta hipótese vem repor alguma justiça no trabalho contínuo que muitos operadores  turísticos e agentes do sector têm vindo a desenvolver desde a década de 80. Por outro lado, o investimento estrangeiro associado ao Euro 2004 também é um argumento que carece de algum realismo. No mínimo. A não ser que as fábricas de bolas na Índia se tenham deslocalizado para o Vale do Ave...

Enfim, hoje, as autarquias de Aveiro, Coimbra, Leiria, Faro, Guimarães e Braga estão endividadas e sem saber o que fazer aos estádios. Apesar de ser um cenário longínquo, em Aveiro admite-se a demolição. Em suma. à excepção do Boavista - praticamente defunto - os únicos que lucraram com o negócio foram Benfica, Sporting, Porto e Gilberto Madaíl.

Em contrapartida. continuam por construir equipamentos desportivos para apoio de clubes, associações e escolas por todo o país. Os praticantes de outras modalidades continuam a ser ignorados e a trabalhar em condições risíveis, o país continua na cauda da Europa em desempenho económico e no índice de desenvolvimento humano.

Mas Madaíl e estes arautos da «modernidade» não cedem na prepotência e preparam-se para entregar nova candidatura, agora em parceria com a Espanha, para realização de um Campeonato do Mundo que há-de ser, seguramente, o melhor de todos os tempos (segundo a bitola portuguesa).

19 de outubro de 2009

Sociologia online...


Pode-se concordar mais ou menos com a atribuição do Nobel a Obama. É lícito questionar os leitores e transeuntes de um jornal nacional como o Público sobre a justeza de uma tal decisão. Mas, condicionando a resposta através de uma categorização assimétrica (e tendenciosa) do questionário? A categorização deve ser mutuamente exclusiva, por isso, não bastaria apenas um «sim» e um «não»?

Biografia de um paraquedista

Nascido em Lisboa, João de Deus Pinheiro doutorou-se em Inglaterra, foi deputado, ministro, comissário europeu, deputado europeu, administrador de empresas públicas e reitor na Universidade do Minho (entre outros). Foi também pelo círculo eleitoral de Braga que foi eleito deputado recentemente. E tomou posse. Mas não aguentou a pressão de regressar à terra natal

Reflectiu demoradamente e, meia-hora depois, decidiu renunciar ao cargo para descanso de todos os eleitores que votaram no PSD. Para quem as «decisões da líder eram as suas», as quais se alicerçam numa «política de verdade», talvez devesse ter aguardado mais outra meia-hora para não dar tanto aquele ar de filhadeputice a que alguns os políticos deste país têm habituado os eleitores.

18 de outubro de 2009

GRANDE!

Na sexta-feira, o Centro Cultural de Redondo recebeu Joan as Police Woman para um concerto grande, muito grande. Com Timo Ellis, Joan apresentou o seu último álbum, "Cover". Nesta matéria, as palavras costumam atrapalhar, por isso, quem não esteve, estivesse...



 
 



16 de outubro de 2009

A conspiração anti-comunista

O anti-comunismo expressa-se por uma crítica gratuita aos fundamentos ideológicos do marxismo. Frequentemente com base em preconceitos, como aqueles que o Estado norte-americano disseminou no pós-guerra. Esse, é talvez o melhor exemplo de anti-comunismo de Estado. Em tese, nem sequer os socialistas puros podem assumir posições radicais de anti-comunismo porque o socialismo é, por definição, um marxismo não dogmático que considera a passagem pelo estádio do socialismo, previsto pelo próprio marxismo. A URSS não se chamava União das Repúblicas Socialistas Soviéticas apenas porque o nome era pomposo e comprido. Todavia, foi incapaz de realizar a transição que converteria finalmente a utopia em realidade.

Infelizmente, apesar do acesso universal à educação [também] proporcionado por homens que sofreram duras privações, chegando mesmo a perder a vida por ideais (dignos comunistas a quem faço uma homenagem), grassa por aí uma ignorância medieval que dá dó. Mais, o comunismo é a expressão doutrinária de um ideal cuja apropriação não é exclusiva de um partido, grupo ou indivíduo. Na verdade, foi tornado público em 1848 um Manifesto que proclama a universalidade do ideal, à luz da análise histórica, social e económica realizada por Karl Marx e Friedrich Engels às sociedades industriais. A Internacional nasce aí. Em todo o caso, O Capital é um interessante ponto de partida. Há livros de bolso, se a leitura se tornar penosa.

A livre convivência democrática, bem como o conjunto de direitos, liberdades e garantias que o PCP ajudou a construir, não podem aniquilar a Teoria Crítica aqui seguida (na tradição da Escola de Frankfurt, onde pontificam marxistas como Theodor Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse ou Jürgen Habermas) e em harmonia com os valores democráticos e liberais da liberdade de pensamento [e expressão]. Nesse sentido, é lícito analisar os temas com certo grau de liberdade e, em tom frequentemente desafiador, lançar mão de conceitos operativos trabalhados pelas Teorias do Conflito para reflectir seriamente sobre as opções dos dirigentes comunistas ou sobre as decisões do governo PS. Ou sobre o lenço de Santana Lopes. Ou sobre o descrédito generalizado em que a classe política se atolou.

A rubrica Desconstruções pretende realizar a dupla ruptura epistemológica, sobre a qual dissertou outro pensador marxista (Boaventura Sousa Santos) para assinalar um caminho na pesquisa científica: a ruptura com o senso comum e a ruptura com o discurso científico. E, dessa forma, contribuir humildemente para que a minha própria cultura política [aqui, estou a utilizar cinicamente a estratégia cartesiana de legitimação do discurso] se emancipe. Se for capaz.

Agradeço publicamente ao Blogger pela grande oportunidade que me deu.




15 de outubro de 2009

Início da legislatura

Com esta minoria relativa, com hipóteses de acordos parlamentares à esquerda e à direita e com uma ala direita que totaliza mais deputados do que o partido de governo (102 contra 97), as legislaturas que se seguem vão dignificar a governação semi-presidencialista de pendor parlamentar e, por isso, vão ser obrigadas a honrar a proporcionalidade prevista na Constituição. Para já, os partidos  - excepto o PS - não querem ouvir falar de coligações mas... dos acordos e negociatas não se livram. Contudo, com a aproximação da revisão constitucional, é possível que regressará ao seio dos dois principais partidos aquela atracção manhosa pelos círculos uninominais.

Ver a este respeito Que Arquitectura Eleitoral?


14 de outubro de 2009

A emenda pós-autárquicas

Depois de reunido o Comité Central do PCP, Jerónimo de Sousa veio a público emendar as primeiras declarações e refrear a análise a quente às autárquicas com uma aconselhável dose de sobriedade. De facto, com saldo negativo de quatro municípios, só fica bem ao secretário-geral do PCP admitir que os resultados foram insatisfatórios e demonstrar que o relativismo tem um termo.  Esse é o primeiro passo para que, com Bernardo Soares, a consciência se torne consciente. E Jerónimo de Sousa não é, em absoluto, uma pessoa para quem a clarividência seja uma entidade alienígena, mesmo em tempos de mobilização interna. Admitir uma derrota eleitoral não significa baixar os braços (não é previsível que isso venha a acontecer com Louçã) mas tem a enorme vantagem de permitir retirar ilações e melhorar. Porque, com Friedrich Nietzsche, as convicções [inquestionáveis] podem resultar em autênticos cárceres. Ou, por outras palavras, na detestável cegueira sobre a qual Saramago ensaiou.

De resto, uma emenda convergente com a coragem e determinação com que o desconhecido Eduardo Luciano se bateu pela reconquista de Évora (aos mouros? aos visigodos? aos cristãos?). Convergente também com a humildade com que o candidato comunista reconheceu a derrota eleitoral e, aqui sim, justificou com propriedade as restantes conquistas.

Joan as Police Woman no CC Redondo



Deplorável!

Se a queda de Fátima Felgueiras em Felgueiras inspirou um sentimento de primavera abrilista entre os inúmeros populares que surpreendentemente a apearam («só agora é que chegou o 25 de Abril a Felgueiras»), em Tarouca, as coisas estão muito mais atrasadas. O presidente da câmara municipal daquela terra decidiu transferir unilateralmente de serviço e funções os trabalhadores que publicamente apoiaram a oposição. Isto passou-se no dia seguinte ao acto eleitoral e sem aviso prévio. A «justificação» do plenipotenciário: ele é que é o presidente da câmara e apenas procedeu a reorientações internas no serviço.

Os trabalhadores visados têm agora fortes possibilidades de requerer o pedido de asilo político a qualquer país decente que os queira receber.

13 de outubro de 2009

Tributação das mais-valias em Bolsa

O BE e a CDU podem ver na divulgação das conclusões alcançadas pelo grupo de trabalho para o estudo da política fiscal, um gesto de aproximação e boa vontade do governo. Havendo alguma padronização crescente na zona euro e partindo do princípio da convergência em termos fiscais, Portugal tem óbvias condições para taxar em 20% as mais valias decorrentes das transacções financeiras. E taxar as grandes fortunas. E baixar o IVA. E o IRS. E o IRC. E o IA. Embora, como é evidente, a «governabilidade» invocada pelo PS possa vir a ser argumento de peso para  piscar o olho à direita e passar a refutar um parecer «lunático, desajustado e inibidor do investimento» apresentado por um grupo de trabalho nomeado num contexto de maioria absoluta.

12 de outubro de 2009

Escolas públicas continuam sub-avaliadas?

Elaborado com base nos exames nacionais dos 11º e 12º anos de escolaridade, o ranking de escolas agora publicado não é nada simpático para a escola pública. Restringida unicamente aos exames nacionais, esta avaliação expurga os desfasamentos que hipoteticamente resultariam de facilitismo na escola privada mas não desfaz as dúvidas estatísticas relativamente a estabelecimentos de ensino cujo universo de casos observados é quantitativamente irrelevante. Esse é o caso da escola pública melhor classificada (líder de uma lista em que as primeiras 20 escolas são privadas).

É certo que muitas destas escolas privadas são particularmente atraentes para os melhores docentes.
É certo que, pela via da selecção sócio-económica, expurgam focos de instabilidade.
É certo, ainda, que a sua raison d'être é a qualidade de ensino pelo que as metas de sucesso são muito claras (para os que cumprem e para os que não cumprem).

Ainda assim, o cenário de ruptura montado pela ministra da educação e pelo anterior governo (2005-2009) terá certamente contribuido para o abandono, insatisfação e desmotivação que grassam na escola pública. Seria absurdo se, à frente de interesses corporativos e interesses de gestão economicista, estivessem os interesses legítimos do Estado e, com ele, os interesses dos alunos?

Autárquicas 2009

É natural que o PS tenha a tendência de extrapolar resultados das eleições autárquicas para o plano nacional, procurando retirar daí alguns dividendos. Mas esse é um pressuposto errado porque a percentagem nacional não tem correspondência com a quantidade de maiorias registadas nos 308 concelhos e nas 4260 freguesias. Há, efectivamente, uma considerável subida do PS. Mas insuficiente para contrariar a primazia autárquica que PSD ainda detém. O BE perdeu porque não alcançou os seus objectivos e admitiu a derrota com humildade, ao contrário da CDU, incapaz de se desprender de uma leitura tornada costume mas que se perde no relativismo sem termo. Líder de um partido fidelizador de eleitorado, Jerónimo de Sousa tem boas razões para reflectir sobre a perda de 4 câmaras*, uma das quais para um movimento independente (Sines). O CDS, esse, não tem razões nenhumas para extrapolar resultados, embora a sua implantação autárquica em coligações com o PSD seja assinalável. 

No Distrito de Évora, a correlação de forças alterou-se e a consequência imediata deverá passar pela entrega do controlo da Associação de Municípios do Distrito de Évora ao PS.

A primeira nota de destaque neste distrito vai para os concelhos em que houve mudanças. Desde logo, em Viana do Alentejo e Vila Viçosa, ganhos pelo PS à CDU. E, também, aos concelhos em que os movimentos cívicos saíram vitoriosos (3 dos 7 movimentos em Portugal). Neste campo, Alandroal regista a vitória suada de um grupo de cidadãos saído de uma cisão socialista e, em Estremoz, o antigo autarca comunista re-conquista o concelho ao PS, agora sem o apoio da CDU. No Redondo, a população consagrou a «abaladiça» de Alfredo Barroso com uma subida de 10 pontos percentuais, convertendo eleitoralmente esta candidatura na mais bem sucedida do país.

A segunda nota de destaque vai para os concelhos cujos executivos não foram destronados porque, à excepção de Évora, todos eles subiram eleitoralmente, legitimando as linhas de intervenção seguidas durante o mandato que termina: Arraiolos, Vendas Novas, Montemor-o-novo, Mora (CDU), Redondo (MICRE), Borba, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Portel (PS). Este facto não deixa o autarca socialista José Ernesto d'Oliveira numa situação confortável à frente da principal câmara municipal do Alentejo.

Com o PSD galopante a acumular boas votações desde 2001 (de 8% subiu para 14% e, ontem, para 17%), fruto do «fenómeno» António Dieb e com a CDU a arrancar 2 pontos percentuais, o PS local não esconde o desgaste da governação e perdeu quase 4 pontos percentuais. A contestação popular tem subido timidamente de som num contexto macroeconómico difícil mas que não colhe validade para justificar a desaceleração iniciada logo após as eleições de 2001 (de 45% desceu para 43% e, ontem, para 39%).




*A CDU perdeu 7 câmaras municipais e conquistou 3, resultando num saldo negativo de 4 câmaras.
Informação adicional, motivada pela necessidade de clarificação na sequência de um comentário a este post 
(12/10/2009 - 15:00)



9 de outubro de 2009

Cinema de excelência




Tenho acompanhado com interesse mas com reserva a campanha eleitoral para as autárquicas em Évora. Mas esta notícia publicada no site de campanha do PS, para além de todos os argumentos, fantasias e estratégias veladas das campanhas eleitorais, é particularmente lunática pelo anacronismo que reflecte. E exasperante.

O cinema, em Évora, funciona numa sala vulgar e digna. Mas com deficientes condições de visualização e conforto, segundo os padrões actuais. É consensual.

E é exasperante porque o actual presidente da câmara municipal e candidato, optou por elogiar sem disfarce a insuficiência, enaltecendo a felicidade de ter este «bom» equipamento ao serviço da cidade. Um «bom» equipamento, de resto, muito inferior às salas de cinema inauguradas há mais de duas décadas no Centro Cultural Eborim, às salas de cinema existentes em boa parte das sedes de concelho limítrofes e ao Salão Central Eborense, de meados do século XX...



Obama vence Nobel por antecipação

O Comité do Nobel agraciou Barack Obama com o Prémio Nobel da Paz. Como é evidente, não foi pelo que fez mas pelo que disse. Contudo, a credibilidade dos prémios Nobel fica amarrada às promessas do premiado, tal e qual o voto de confiança que um comum eleitor dá ao partido A ou B em qualquer acto eleitoral. Ou seja, esta surpreendente decisão vem premiar aquilo que o actual Presidente dos Estados Unidos da América poderá vir a fazer no futuro, invertendo a lógica da «obra feita» pela a qual são normalmente distinguidos os indivíduos nas áreas da física, química, medicina, literatura e economia. Além disso, fica aberto o precedente para que as promessas passem a valer prémios e para que cada novo presidente da maior potência mundial receba, à cabeça, a medalha de ouro, o diploma e o prémio monetário.

8 de outubro de 2009

Síndrome da mão invisível?!

No PCP, é relativamente conhecida a cultura de coesão em torno de um projecto, mobilização fervorosa dos apoiantes e a inequívoca fidelização partidária. Esta é uma representação mental que não sofre grande contestação a sul do Tejo porque, a norte, vigora o espectro da perseguição herodeana das criancinhas com laivos de canibalismo às primeiras horas da manhã.

Contudo, esse pretenso conhecimento é posto em causa por invulgares e recentes ocorrências protagonizadas por militantes em circunstâncias de particular agitação eleitoral e, consequentemente, em momentos em que a urgência de cerrar fileiras entre os arregimentados é palavra de ordem ("assim | se vê | a força do pêcê").

Se, em 40 anos de militância, Domingos Lopes conseguiu acertar em cheio na campanha eleitoral das legislativas para anunciar a sua saída do PCP, ontem foi a vez de Carvalho da Silva colorir devidamente a campanha eleitoral para as autárquicas, com o apoio expresso ao candidato socialista à Câmara Municipal de Lisboa.

Atabalhoadamente, o Secretário-geral da CGTP tratou de esclarecer que apoia António Costa mas que o seu voto vai direitinho para a CDU. Compreende-se que, para Carvalho da Silva, o voto útil em António Costa seja um bálsamo perante o cenário de ver novamente Santana Lopes à frente dos destinos da capital. Mas, nesse caso, ao fazê-lo sem a orientação clara do Comité Central e com um candidato próprio que daqui sai francamente amolgado (Rúben de Carvalho), Carvalho da Silva mais parece ter sido atacado pelo mesmo síndrome da mão invisível que deu a José Sá Fernandes.

6 de outubro de 2009

Um exercício de duplipensar na SIC Notícias

O outrora sociólogo Augusto Santos Silva não só gosta de malhar na direita [e no que estiver à mão] como o gosta de fazer com ponta de sarcasmo. E algum prazer também. O discurso assente em antinomias racionais como o célebre duplipensar do 1984 de George Orwell ("guerra é paz | liberdade é escravidão | ignorância é força"), elevam este digno ministro do Ministério da Verdade, a um estatuto só reservado a notáveis como o mestre Goebbels ou Mohammed Saeed al-Sahhaf, o inusitado ministro  iraquiano da informação.

O estranho caso de Cavaco Button

O institucional Cavaco Silva decidiu não interferir na campanha eleitoral, resguardando a sua figura do mau olhado num dia como o das comemorações do 99º aniversário da Implantação da República. Como é evidente, a intervenção na ressaca das eleições legislativas e em plena campanha para as eleições autárquicas é da responsabilidade do recreativo Cavaco Silva.  

Governo PS, um caso de osteoporose?

Mário Soares, o histórico militante socialista, ex-governante, pai de João e marido de Maria, advertiu que o governo minoritário a formar pelo PS deverá ser mais maleável no futuro, naquele que é visto como o ataque de sobriedade do século. Não sendo possível reeditar as recomendações que o senhor doutor fez em 1978 e em 1983, talvez seja prudente malhar realmente na direita [para usar um termo popularizado por Augusto Santos Silva].


2 de outubro de 2009

Um presente envenenado

O que Roman Polanski desconhecia é que os países assinam, por vezes, acordos bilaterais de extradição. E que, provavelmente, uma boa parte dos clientes de bancos suíços são cidadãos americanos. Mas, ainda assim, devia ter desconfiado dos mimos provenientes de locais em que o sistema judicial está feito para funcionar.

Aqui, uma história bem contada.

1 de outubro de 2009

Cavaco tem fé no IEFP

Em estrito respeito pela constituição da república, o presidente terá uma janela de oportunidade para dissolver a Assembleia da República entre Abril e Julho de 2010 e, assim, ver-se livre de um governo inoportuno. Aí, já não terá que sofrer o vexame de posar para as câmaras de televisão e dizer coisas sérias com reduzido alcance. O período de tempo é curto mas se Sócrates não conseguir duplicar as vendas do Magalhães, corre o risco de ser demitido por não atingir os objectivos definidos conjuntamente com o seu avaliador directo.

29 de setembro de 2009

O discurso de Cavaco

Quando Cavaco Silva decidiu candidatar-se à presidência da república não tinha seguramente em mente a interpretação de um papel secundário. Afinal, não fora também ele uma vítima da coabitação divergente movida pelas constantes intervenções, fiscalizações sucessivas da lei, recados e esse mimo de desgaste do governo que foram as presidências abertas de Mário Soares?

Talvez com menos estilo e sentido de oportunidade, Cavaco reclamou sempre o protagonismo saboreado noutros tempos. O record de vetos presidenciais, o flop da comunicação ao país na sequência do Estatuto Político-Administrativo dos Açores e, agora, o tiro para as nuvens de hoje, configuram uma decepcionante necessidade de afirmação.

Mais uma vez, o Presidente da República convocou o país para mandar recados aos partidos e, francamente, não elucidou fosse o que fosse sobre a questão essencial: há ou não suspeitas de escutas à presidência da república ordenadas pelo governo?

Por que razão afastou um homem da sua confiança - Fernando Lima - da assessoria de imprensa, mantendo-o na Casa Civil? A meia dúzia de dias das eleições legislativas...com que objectivo? Não foi, certamente, por ingenuidade...

Como é evidente, por muita especulação que possa ser fantasiada pela comunicação social (especialista nessa matéria dos rumores e da irresponsabilidade), pelos comentadores, pelos políticos e por mim, o certo é que quem desviou as atenções foi Cavaco Silva, quando decidiu dar cobertura a uma notícia supostamente infundada (segundo a sua convicção) e quando, não a repudiando liminarmente, decidiu pronunciar-se sobre este assunto após as eleições. Com isso, manteve o tema a pairar durante as eleições, tramou o PSD e desgastou a sua própria imagem.


Uma no cravo, outra na ferradura


Se especialistas norte-americanos na área da toxicodependência apresentam Portugal como um modelo de sucesso após a introdução de medidas como a descriminalização do consumo ou o programa de troca de seringas, já no caso da saúde, talvez seja prudente que Barack Obama se inspire no modelo holandês. Porque, neste último caso, parecem ter sido os recentes governos portugueses quem se inspirou no modelo norte-americano. 

28 de setembro de 2009

Eleições legislativas 2009

Afinal, a reflexão imposta na véspera das eleições terá sido indigesta para os simpatizantes do PSD. O CDS-PP agradece, quer a Manuela Ferreira Leite, quer ao Presidente da República. E às peixeiras e aos velhos saudosistas do tempo em que os pretos estavam nas colónias e o Salazar era como um bom e justo pai.


Apesar de perder a maioria absoluta, o PS teve «uma vitória extraordinária», nas palavras de Sócrates. Afinal, a célebre reviravolta hermenêutica de Álvaro Cunhal após cada acto eleitoral [«o PCP venceu»] fez escola, confirmada por esta declaração de vitória.

Com este resultado, esfumam-se os cenários de coligações ou acordos à esquerda. Em contrapartida, não será de estranhar se o CDS-PP repetir em bloco a convergência limiana em Fevereiro de 2000 (com o deputado Daniel Campelo). Várias vezes. Também o PSD, cuja liderança deverá mudar no próximo congresso, poderá vir a viabilizar as opções governativas. Contudo, os votos têm o seu preço e a direita far-se-á pagar caro...

Em suma, apesar de um dos principais objectivos da oposição ter sido alcançado - a queda da maioria absoluta - paradoxalmente, a vitória vai inteirinha para a direita porque é com ela que o PS vai passar a tratar... para desespero dos socialistas à antiga.

27 de setembro de 2009

O dia de reflexão foi ontem

Instituíu-se a véspera como «dia de refelexão». E quem teve mais do que fazer?  Há os que aproveitam a solidão de um compartimento sem cores nem cheiros para reflectirem sobre as semelhanças entre um boletim de voto e um boletim do euromilhões. 

26 de setembro de 2009

Uma vitória estrondosa do administrador da TAP

Estima-se que as perdas da TAP resultantes da recente paralização dos pilotos, rondará os 10 milhões de euros. Aproximadamente menos dois milhões do que aquilo que custaria à transportadora aérea se atendesse às reivindicações de aumento salarial.

24 de setembro de 2009

Jovens e política: o papel da socialização na participação política [de onze jovens]



 Considerado um elemento fundamental da democracia representativa, o sufrágio universal é o meio que os cidadãos têm ao dispor para intervir directamente na escolha dos seus representantes nas instituições democráticas e, assim, expressar o seu apoio ou desacordo com as propostas políticas em «concurso». O decréscimo dos níveis de participação eleitoral observado nos últimos anos, independentemente da fase de consolidação democrática, é fonte de naturais preocupações para a própria legitimidade da democracia. Em particular, o tradicional e elevado abstencionismo observado entre os mais jovens suscita dois tipos de inquietações. Em primeiro lugar, a desmobilização geracional, um arrefecimento geral na participação eleitoral observado de geração em geração. Em segundo lugar, as especificidades próprias de uma fase de vida em que a política não parece ser particularmente entusiasmante.

As explicações do efeito geracional e do efeito dos ciclos de vida respondem muito bem a uma e outra inquietação, serenando alguns temores de crise: de um lado, a adesão a formas alternativas de participação política e, de outro, a convicção de a integração social com a entrada numa nova fase de vida [e o pacote de responsabilidades que a acompanha] favorecer um maior envolvimento político. Porém, interessa também identificar as diferenças que existem entre elementos pertencentes a um mesmo segmento etário. Para isso foram entrevistados onze jovens com vários perfis de integração e relacionamento com a política, interessando em particular, mapear os respectivos trajectos de vida, tendo como grande referência os mecanismos de transmissão de referências políticas. Neste caso, privilegiou-se o enfoque a partir da socialização política, esperando compreender o impacto que a socialização política pode ter na configuração de uma cultura política de participação e envolvimento políticos.

As diferenças observadas estão na base de tipos-ideais ou perfis de indivíduos construídos para dar expressão a diferenças fundamentais identificadas nos relacionamentos mantidos com a política. Desde logo, ao nível da participação política (convencional e não convencional) mas também ao nível do envolvimento e interesse pela política.

23 de setembro de 2009

Governar em minoria relativa?

Louçã disse afinal que não mas Jerónimo disse que talvez. Tanta indefinição vai acabar por espantar o noivo e enxotá-lo para outra banda. Portanto, se, depois de Soares e Alegre, os últimos dias forem marcados pela presença de sociais democratas como Jaime Gama ou Pina Moura, será caso para pensar que, o noivo, sozinho é que não! Almeida Santos, por seu turno, é homem pragmático. Em seu entender, o noivo deve permanecer solteiro e dar umas escapadelas sempre que for necessário para matar a fome. Seja com mulheres ou homens, o que interessa é que os ditos vão sendo aliviados. E, à boleia dessa ideia, até pode começar por apanhar boleia do Bloco de Esquerda e aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

22 de setembro de 2009

Quem de três, um tira?

Quando se previa - no limite - uma negociação pós-eleitoral a dois, eis que a CDU abandona aquela posição inicial de recusa peremptória ("coligações com o PS, só se esse partido rasgasse o seu programa eleitoral", disse Jerónimo no início da campanha) e, a escassos dias das eleições já vai admitindo que, afinal, «é cedo para falar de coligações». Com experiência em coligações, a CDU - Coligação Democrática Unitária entre PCP e PEV - pode muito bem dar uma mãozinha e entrar nesta corrida a três. E, dado o à vontade do BE com os temas não convencionais, três não são demais... Para o PS, mais conservador, é que pode ser uma escolha difícil entre a paixão arrebatadora e o noivado com a filha do caseiro.

Estratégia de desestabilização à convergência entre BE e PS ou namorisco do PS à CDU, uma coisa é certa: com a maioria absoluta perdida, não passa despercebida a crescente aparição de socialistas nos comícios do PS, como Manuel Alegre e Mário Soares.

Em todo o caso, também não é previsível que Sócrates rasgue o seu programa...

20 de setembro de 2009

«Sou poeta, a coerência não é o meu forte»

Manuel Alegre não se conteve e, perante o recuo da direita nas sondagens, deu o dito pelo não dito e apareceu ao lado de Sócrates no comício de Coimbra. «Pela união interna do partido», terá ele justificado à sua consciência... e aos seus apoiantes que andarão neste momento a vaguear sem rumo e de cabeça perdida jnas imediações das sedes do PCP e do BE.
Depois das críticas ferozes ao governo, da candidatura independente à presidência da república  e à revelia do partido (oferecendo o cargo a um político da direita) e, ainda, da sua exclusão das listas do PS às legislativas, Alegre reconsiderou e.... protagonizou um episódio semelhante ao de José Saramago quando, integrado nas listas da CDU às europeias, apelou ao voto em branco.

Mas, como tudo na política, a incoerência redime e, convenhamos, com Alegre no governo abrir-se-ão certamente novos horizontes no relacionamento do PS com a esquerda...

17 de setembro de 2009

Ingerências

Ao contrário da falta de entendimento entre os «partidos de poder» sobre estratégias estruturais para o país, em Espanha (da má memória para os espíritos mais tacanhos), socialistas e populares convergem e consentem na compreensão extra-terrestre do interesse nacional estar à frente dos mais mundanos interesses partidários. Sem pretender imiscuir-se nos assuntos internos portugueses e ao contrário da família ideológica portuguesa, Mariano Rajoy (presidente do PP e líder da oposição) lá foi atirando que o transporte em alta velocidade é prioritário. 
Nota minha: essa integração estratégica espanhola em torno das grandes obras é assinalável. Porém, o senhor Rajoy devia compreender definitivamente que a emancipação de mil cento e quarenta e três não foi uma casualidade. - Por isso, senhor Rajoy, não nos venha dar lições porque os nossos dirigentes estão formatados para «dispensar às aulas»...

Team work

Durão Barroso foi reconduzido no cargo de presidente da comissão europeia graças ao invulgar empenho dos portugueses e de uma solidariedade à prova de bala dos europeus. Os portugueses ficam a dever muito à direita europeia.

16 de setembro de 2009

Dizer mal está-lhes no sangue

José Sócrates chegou à conclusão que afinal «é possível fazer um comício sem dizer mal de ninguém». Um apenas. Sobretudo numa altura em que se afastam os adversários que, como a Manuela Moura Guedes, dizem mal de tudo e de todos.  Mas daí até que a moda pegue e chegue à Madeira...
Quem não parece estar pelos ajustes é Paulo Portas. Os insultos sucedem-se e, desta vez, afirmou-se mesmo preparado para ser primeiro-ministro. Quanto a isto, cumpre recordar que a perda de lucidez, num político, pode ser fatal. O povo, pelo menos, tem-se queixado muito...

Que bicho mordeu Domingos Lopes?

O homem esperou longos quarenta anos para, em plena campanha eleitoral, bater a porta com grande estrondo. Se é caso de faca e alguidar, cumpre-se o adágio e, nesta ocasião, a vingança serviu-se gelada. 

15 de setembro de 2009

O que é a democracia?

Por vezes tento explicar (sem grande esperança que a maria madalena afinal não se venha a arrepender) que em Portugal a revolução não foi feita por democratas. Alguns até podiam querer mudar o regime mas hoje vejo sobretudo que se tratava de uma transformação do status quo cujo principal ponto consistia na conquista do poder. Mais, vejo também o ódio destilado em alguns olhares prontos a legitimar as maiores atrocidades, assim como a identificação de muitos representantes dessa geração com as doutrinas que, justamente, nos privaram da liberdade. Mais ainda, vejo um bando de delinquentes no poder e outros que, por o terem perdido se converteram em acinte humano.
Até lá chegarmos, enquanto povo, é preciso percorrer algumas dezenas de anos de um caminho que não se faz a correr mas sim, a viver. Podemos, enfim, esperar mais alguns anos até que a democracia seja realmente incorporada nos sistemas de valores abençoados pela santa sociedade. Até lá, não vemos outra solução senão assistir ao envelhecimento de preconceitos instalados acerca da democracia, igualdade política, liberdade, autoritarismo, etc.

Os filhos de Sócrates bem o avisaram...

Depois dos debates sensaborões e francamente mal disputados, o regresso do Gato Fedorento à televisão num registo «grande entrevistadeiro» serviu para relaxar em plena campanha eleitoral. E para confirmar por que razão são os políticos uma classe tão dada à paródia. Desde tempos imemoriais que os humoristas, simplesmente não conseguem passar ao lado das questões sociais e políticas...
Como é evidente, perante a previsão de uma audiência record (1,3 milhões de portugueses), seria pouco inteligente recusar o convite, mesmo sabendo que ali, os martelinhos do S. João não batem a brincar...
Mais importante do que a paródia e o entretenimento de 1,3 milhões foi a oportunidade que José Sócrates não desperdiçou para mostrar aos portugueses que é, afinal, um homem sereno, normal, bem humorado, sem obsessões com o poder e bom pai de família, a avaliar pelos recados e conselhos que pretensamente recebeu dos filhos antes de ir para o estúdio...
E ainda teve tempo de sugerir as paixões estalinistas de Ricardo Araújo Pereira. Embora muito depois de lhe galar a elegância do fato...

14 de setembro de 2009

Cada um ao seu!?

Muito nos honra o amplo destaque que ontem teve o distrito de Évora nos canais televisivos, embora, debalde, se tenha devido à intensa corrida eleitoral protagonizada por três partidos (BE, PS e CDU) em luta por três lugares (de duzentos e trinta). Como é evidente, a curiosidade não passa disso e as verdadeiras lutas, essas, ficarão para o fim.

10 de setembro de 2009

As novas roupas do Kent


Kent, o dedicado namorado da Barbie, tem um conjunto novo de roupas para vestir consoante a ocasião. O tão aguardado modelo prison break deverá começar a ser comercializado proximamente para gáudio dos fans.

8 de setembro de 2009

O rendez-vous suspeito de Luís Amado



Dos britânicos já se esperava que não fizessem finca-pé por motivos éticos e valores morais: se há outros interesses mais apetecíveis, os britânicos não vêem por que não hão-de ser pragmáticos. Aconteceu em 1534 com a «extravagância» de Henrique VIII ao pretender anular o casamento para se casar em segundas núpcias com Catarina de Aragão, possivelmente uma febra muito apetitosa. A pretensão do monarca não foi satisfeita pelo Papa Clemente VII, valendo a separação da Igreja Anglicana de Roma. Aconteceu recentemente, também, com a libertação de Abdelbaset Ali Mohamed Al-Megrahi, o líbio condenado a prisão perpétua pelo atentado em Lockerbie que, em 1988, vitimou 270 pessoas. Desta vez, os interesses petrolíferos na região deverão ter sido razão suficiente para esquecer aquilo que, nesta altura, os políticos britânicos considerarão detalhes e pormenores insignificantes...

Mas do ministro dos negócios estrangeiros português, Luís Amado, confesso que esperava alguma seriedade que, de resto, tem-no caracterizado nesta sua passagem por um governo meio descabelado.

Kadhafi, líder de um regime autoritário [acusado por muitos de favorecer e financiar o terrorismo internacional e homem de um mau gosto memorável] comemorou os 40 anos do golpe de estado que transformou a Líbia numa oligarquia autoritária e popularucha de pendor monárquico.

Se a validade moral do interesse estratégico de Portugal na coutada de Kadhafi não me deixa confortável, não me lembro de nada mais adequado senão reproduzir a sentença proferida pela também socialista Ana Gomes: "a presença de Luís Amado envergonhou-nos (...) não há interesses económicos ou outros que o justifiquem".

Nestas questões não podem existir dilemas morais para o ministro nem para os portugueses! Caso contrário seria lícito aceitar o dinheiro de narcotraficantes ou de organizações terroristas para financiar programas educativos ou o equipamento de unidades de saúde. Salvar vidas com o dinheiro que resulta da matança de outras não é opção.

4 de setembro de 2009

Conspiração ou toleima?

O PS até podia não ter interferido directamente na suspensão do pasquim da Manuela Moura Guedes, consciente do impacto que uma notícia destas teria na opinião pública a três semanas das eleições. Mas também podia ter interferido, jogando justamente com a reacção da opinião pública àquilo que seguramente consideraria uma palermice do PS (para além de todas as acusações de cooptação das liberdades e garantias democráticas). Neste último caso, a teoria da sabotagem conspirativa serviria muito bem a estratégia de vitimização trilhada pelos dirigentes socialistas.

E também poderia ter sido, de facto, vítima de uma cabala engendrada por forças hostis e eventualmente afectas a outras sensibilidades políticas; ou pelo Manuel Alegre, cioso do seu socialismo.


Tenha ou não influenciado a suspensão do Jornal de Sexta, parece admissível a tese de um governo ter suficiente poder para o fazer num cenário em que é o princípio de mercado que norteia as restantes esferas, incluindo a massacrada deontologia do jornalismo.

A oposição, essa, está mais preocupada em explorar e aproveitar politicamente o caso sem que isso a conduza numa reflexão o «polvo» de que falava José Eduardo Moniz em entrevista aos meios de comunicação social.

Certo, certo é que ninguém no seu perfeito juízo suspenderia um programa líder de audiências e que nunca fez cerimónia com a sua linha editorial pecaminosa e parcial. Muito menos a três semanas das eleições legislativas e com o argumento da homogeneidade do programa após largos meses de pândega e excessos.


1 de setembro de 2009

O cabelo da Manela denuncia um certo conservadorismo

A JS acusou Manuela Ferreira Leite de ter parecenças com uma "professora primária conservadora do antigamente", como se a culpa fosse dela e não da sua cabeleireira. É natural que a verve, a transitoriedade e a irreverência características dos jovens, acrescidas por alguma imbecilidade das jotas, lhes instigue paixões acirradas pelos antípodas. Logo, é legítimo pensar que para eles, um professor moderno e sofisticado é representado pelo tipo relaxado, sempre disposto a aceitar umas valentes bolachadas de alunos e pais, e cujas preocupações qualitativas são esvaziadas pela obsessão com as sacrossantas estatísticas.
Simpatize-se ou não com a senhora, com as roupas bafientas e com o cabelo com topete e armação de laca, ainda se está para perceber a «profundidade» estratégica, semiótica e linguística do discurso dos rapazolas. Lá tamanho têm eles...
Aqui está uma amostra da escola política em Portugal, sendo certo que o problema de credibilidade que infesta a política e os políticos é, afinal, um problema de elementar educação.

30 de agosto de 2009

Chavez na descontra

Depois de escorraçar os meios de comunicação social independentes, Hugo Chavez desacelerou internamente e, agora, até tem substituído a t-shirt vermelha surrada por uma discreta gravata. Talvez a que usa para, diplomaticamente, ameaçar toda a América Latina com guerra. Defeito profissional ou apenas precaução, certo é que o investimento em armamento bélico tem vindo a aumentar substancialmente nos últimos anos...

26 de agosto de 2009

A-gosto

Apesar de sugestivo, A-gosto é assim mesmo, sensaborão. Neste mês em que o circo abranda e os fait-divers são primeira página dos jornais, valem-nos os incêndios, os casos de justiça popular e os acidentes de viação em França. Num ano normal, seria de facto assim... Caso não estivéssemos às portas de duplo acto eleitoral e caso o actual executivo não sentisse que afinal está a jogar nesta altura muito mais do que há quatro anos atrás poderia supor. Assim, sucedem-se as tolices que, não sendo de Verão, integram o vistoso escaparate a sortear nos próximos dias 27 de Setembro e 11 de Outubro. Há para todos os gostos.

20 de agosto de 2009

Hospital de S. João garante sangue impoluto

O Presidente da Administração Hospitalar do Porto jura a pés juntos que cumpre uma directiva do Ministério da Saúde ao impedir os homossexuais de dar sangue. A ministra diz que não, que o que conta são os comportamentos de risco e não a orientação sexual; que o que conta são critérios objectivos que distinguem o que é do que não é um comportamento de risco…

Por outras palavras, se um sujeito anda a fornicar com animais do mesmo sexo, reconhecida ou não a sua homossexualidade, é indiciador de um comportamento sexual doentio. Se, entre as mulheres a coisa ainda pode passar por «exploração adolescente e ingénua», no caso dos machos, a homossexualidade é uma prática asquerosa e punível com até 1000 anos a arder no inferno porque o cú foi feito para evacuar e não para fazer as vezes de uma vagina, de uma boca ou de uma mão. De um sovaco, no limite. Quanto muito, nos casos extremos de isolamento, admite-se a relação sexual com uma ovelha, desde que seja do sexo oposto.

Em suma, só aos homossexuais platónicos (os voyeurs, os contemplativos) é autorizada a dádiva de sangue. E, aceite-se, às lésbicas, desde que não incluam aventuras com «auxiliares de prazer», seja mecânico ou manual.