1 de setembro de 2009

O cabelo da Manela denuncia um certo conservadorismo

A JS acusou Manuela Ferreira Leite de ter parecenças com uma "professora primária conservadora do antigamente", como se a culpa fosse dela e não da sua cabeleireira. É natural que a verve, a transitoriedade e a irreverência características dos jovens, acrescidas por alguma imbecilidade das jotas, lhes instigue paixões acirradas pelos antípodas. Logo, é legítimo pensar que para eles, um professor moderno e sofisticado é representado pelo tipo relaxado, sempre disposto a aceitar umas valentes bolachadas de alunos e pais, e cujas preocupações qualitativas são esvaziadas pela obsessão com as sacrossantas estatísticas.
Simpatize-se ou não com a senhora, com as roupas bafientas e com o cabelo com topete e armação de laca, ainda se está para perceber a «profundidade» estratégica, semiótica e linguística do discurso dos rapazolas. Lá tamanho têm eles...
Aqui está uma amostra da escola política em Portugal, sendo certo que o problema de credibilidade que infesta a política e os políticos é, afinal, um problema de elementar educação.

30 de agosto de 2009

Chavez na descontra

Depois de escorraçar os meios de comunicação social independentes, Hugo Chavez desacelerou internamente e, agora, até tem substituído a t-shirt vermelha surrada por uma discreta gravata. Talvez a que usa para, diplomaticamente, ameaçar toda a América Latina com guerra. Defeito profissional ou apenas precaução, certo é que o investimento em armamento bélico tem vindo a aumentar substancialmente nos últimos anos...

26 de agosto de 2009

A-gosto

Apesar de sugestivo, A-gosto é assim mesmo, sensaborão. Neste mês em que o circo abranda e os fait-divers são primeira página dos jornais, valem-nos os incêndios, os casos de justiça popular e os acidentes de viação em França. Num ano normal, seria de facto assim... Caso não estivéssemos às portas de duplo acto eleitoral e caso o actual executivo não sentisse que afinal está a jogar nesta altura muito mais do que há quatro anos atrás poderia supor. Assim, sucedem-se as tolices que, não sendo de Verão, integram o vistoso escaparate a sortear nos próximos dias 27 de Setembro e 11 de Outubro. Há para todos os gostos.

20 de agosto de 2009

Hospital de S. João garante sangue impoluto

O Presidente da Administração Hospitalar do Porto jura a pés juntos que cumpre uma directiva do Ministério da Saúde ao impedir os homossexuais de dar sangue. A ministra diz que não, que o que conta são os comportamentos de risco e não a orientação sexual; que o que conta são critérios objectivos que distinguem o que é do que não é um comportamento de risco…

Por outras palavras, se um sujeito anda a fornicar com animais do mesmo sexo, reconhecida ou não a sua homossexualidade, é indiciador de um comportamento sexual doentio. Se, entre as mulheres a coisa ainda pode passar por «exploração adolescente e ingénua», no caso dos machos, a homossexualidade é uma prática asquerosa e punível com até 1000 anos a arder no inferno porque o cú foi feito para evacuar e não para fazer as vezes de uma vagina, de uma boca ou de uma mão. De um sovaco, no limite. Quanto muito, nos casos extremos de isolamento, admite-se a relação sexual com uma ovelha, desde que seja do sexo oposto.

Em suma, só aos homossexuais platónicos (os voyeurs, os contemplativos) é autorizada a dádiva de sangue. E, aceite-se, às lésbicas, desde que não incluam aventuras com «auxiliares de prazer», seja mecânico ou manual.

19 de agosto de 2009

Mutatis mutandis

Uma notícia do jornal Público dá conta das condições precárias em que metade dos emigrantes portugueses se encontram. Já estou a ver a revolta entre os crentes na superioridade lusa. Sem contrariar a solidariedade, esses pategos haviam de ver as condições precárias em que se encontram os imigrantes no nosso querido país. Pelo menos, antes de os condenarem à indigência eterna por «roubarem» empregos, produzirem riqueza, procriarem sem regra e, nalguns casos, fornicarem indecentemente com os nossos melhores baios...

Naif

Confesso que não morro de amores pela onda naif mas sinto-me emocionado pela paixão, sofreguidão, indignação e nfalrnfamção que evoca. Por vezes, chego a cortar os pulsos.

Provocações pré-eleitorais

Foi à conta de conspirações negras, reais e imaginárias, que sentia arrepiarem-lhe as costas sempre as voltava a alguém, que Ivan conquistou o cognome "O Terrível". Sem tanta subtileza, a casa civil do Presidente da República preparou-se para o pior mas do governo, «disparates de verão».

Orgulhosamente sós!

No artigo de opinião que assina no Público, Vital Moreira não foi homem de meias tintas. O outrora militante comunista, prefere entregar o poder à direita a vê-lo partilhado com comunistas e bloquistas. Esclarecedor. A expressão utilizada para intitular o artigo de opinião "Antes sozinho..." é, aliás, evocativa de um certo saudosismo...

Contudo, antes de mais este aprumo vitaliano, já Jerónimo de Sousa (PCP) e Fernando Rosas (BE) se tinham apressado a dizer mais ou menos o mesmo após o «desafio promíscuo» de Ferro Rodrigues, alegando diferenças ideológicas substanciais. E se há atitude que, por enquanto, não se viu nos dirigentes desses dois partidos foi aquela canina posição de bicos dos pés e olhos no poder, seja ele qual for.

17 de agosto de 2009

Caça aos grilos

Quem, na sua infância, não passou por uma vez que fosse, pela epopeica experiência de caçar grilos? Bom, pelo menos aqueles que tiveram o privilégio de viver ou brincar no campo ou ainda, em última análise, visitar familiares residentes em meio rural, puderam ter essa magnífica oportunidade.
Recordo que, normalmente, juntava a diversão com a concentração colocada na arte de enganar o bicho. Primeiro, com uma palhinha. Se não resultasse essa técnica da comichão, uma boa descarga de urina haveria de expulsar o artista do seu reduto. Aí, raramente me escapava. O destino dos grilos era invariavelmente o mesmo porque naquele tempo dava-se valor à cantoria, mesmo que fosse ininteligível.
Hoje, sem grilos na gaiola, continuo a dar valor à cantoria.

Ferro e a queda do Carmo e da Trindade




À esquerda! Se não der com esses, que se foda! À direita! Sozinhos é que não...
Quem não tem cão, caça com gato! Eles [Sócrates] que preparem três programas eleitorais, algum há-de dar...

14 de agosto de 2009

A fé do ministro

Homem de crenças metafísicas e muito dado à astrologia, o ministro do trabalho e da solidariedade social «não acredita que o desemprego atinja os 10%». É lá uma crença dele que, por simpatia, quis fazer o favor de partilhar com o povo. Nada de anormal. O Benfica também acredita, ano após ano, que «este ano é que é».

Mão dura nos canalhas do 31 da Armada

Mão dura nesses canalhas do 31 da Armada que, com o ímpio ataque à República (simbolicamente representada pela Câmara Municipal de Lisboa), abalaram os alicerces do regime. Não é tanto pela bandeira... é mais por se terem disfarçado de honestos trabalhadores numa missão de decoração da fachada municipal.

Entretanto, o Procurador Geral da República reza para que algum desses meliantes seja já arguido nalgum dos infindáveis processos de corrupção. Assim, talvez consiga meter alguém na prisão. Se a coisa der certo, sabemos que a PJ está a trabalhar num esquema secreto de produção de provas irrefutáveis para entregar ao Ministério Público: imagens manipuladas no photoshop, por exemplo, com a Fátima Felgueiras a hastear a bandeira da monarquia nos paços do concelho de Felgueiras.

Não tenho paciência

Dei uma curta volta por alguns blogues empenhados em mostrar o lado sofisticado e superior da cultura urbana, na qual campeiam as gentes com bom gosto e obcecadas pelas futilidades do costume, tipo «consciência social», os realizadores de cinema, os gostos dos outros, a última moda urbana, a poesia depressiva e outros tiques burgueses mascarados por um socialmente aceitável pós-materialismo.
Foda-se! E se fossem úteis?

13 de agosto de 2009

Chuva civil não molha militar!

Em Fátima não há um plano de contingência para combater a gripe A.

A passividade dos eclesiásticos é intrigante. Decerto têm algum milagre na manga...

12 de agosto de 2009

As ingerências intoleráveis da ERC

Titubeante e por vezes lambe-botas, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), emitiu recentemente uma directiva em que era sugerida a suspensão da colaboração dos opinion makers que são, simultaneamente, candidatos nos próximos actos eleitorais, sempre que não seja garantido espaço para todas as candidaturas. Apesar de não ser vinculativa, esta directiva acicatou os ânimos da Confederação das Empresas de Comunicação Social que se apressou a repudiar tal ingerência.

Como é evidente esta reacção fere de morte a garantia de pluralidade e igual acesso aos poderosos meios de comunicação social pelos diferentes candidatos, desvirtuando os critérios jornalísticos e o regular funcionamento do processo eleitoral.

Mas, acima de tudo, esta reacção é reveladora da colonização dos valores democráticos, sociais e profissionais pelo princípio de mercado. Por este andar, a definição das listas passará a privilegiar definitivamente os superstars da «socialite» e dos media em detrimento das competências dos candidatos. E, claro, essa gente faz-se pagar…



Ver Incompatibilidades de campanha

10 de agosto de 2009

Do desperdício de recursos

A Era industrial e a inequívoca complexidade social que acrescentou, com efeitos na super-especialização e na divisão social do trabalho, trouxe outros desperdícios para além daqueles que são massivamente produzidos pela sociedade feliz, conceito posto em circulação nos idos de 60 pelo filósofo americano Herbert Marcuse para designar o conforto material que está, debalde, na base das esperanças emancipatórias prometidas pela Modernidade. E foi por aqui que ficámos, sublinha Boaventura Sousa Santos.


Por conseguinte, ao desperdício material do lado da produção material, do mercado e da satisfação de necessidades primárias, a nossa civilização é também perita em desperdiçar talentos e recursos humanos.


Ao acantonar os indivíduos em compartimentos exíguos [apesar de, nalguns casos, frutuosos] como uma carreira profissional, esta nossa sociedade espera dos indivíduos pouco mais do que o compromisso dos recursos humanos com o processo produtivo, em estrito cumprimento do respectivo programa de treinos a que cada um foi sujeito na escola, no trabalho, no café. E, em muitos casos, sem uma orientação voltada para a qualidade, alternando os ritmos sufocantes das sociedades actuais com aquela sensibilidade medieval que, ainda há dias, era acusada por Paquete de Oliveira quando insinuava que grande parte dos nossos problemas foram criados por essa geração do pós-25 de Abril, mal preparada para lidar com o poder mas com uma capacidade inata para abusar dele e das liberdades entretanto conquistadas, contribuindo para o esvaziamento ideológico que hoje observamos tão amiúde...


Em suma, o que se aproveita dos indivíduos é invariavelmente uma ínfima parte das potencialidades com que foram bafejados por deus nosso senhor. E a culpa não pode ser, evidentemente, das novas gerações. Mas é a estas que lhe cabe arrumar a casa…


O desperdício de recursos tem reflexos na organização burocrática do Estado, um atoleiro convencido de que, à liberdade do sujeito, recordando Alain Touraine, basta um insuficiente consenso sobre a flexibilidade horária, a segurança laboral, os direitos sociais e sobre mais um par de bandeiras desfraldados à vez por sindicados e patronato. Mais, confirmando o seu estatuto de entidade não inteligente, a organização burocrática do Estado, central e local, rege-se segundo a crença «superior» de as regras definidas pela minoria que pastoreia a maioria serem fundamentais para a ambicionada auto-gestão dos serviços. Não são! Nem é para isso que tais minorias são pagas.


Em consequência, a tão alardeada optimização funcional não passa de uma avaliação grosseira dos recursos materiais, de cosmética barata e da incompetência celebrada pelos caprichos e vontades das elites. A exigência cumpre-se com a garantia dos serviços mínimos. E isso é francamente pouco. Como é evidente, a primeira responsabilidade é dos titulares de cargos públicos nos órgãos de Estado. Só depois é que se pode acusar os miseráveis funcionários públicos.

Para consolo de alguns e descanso de outros, há excepções.

6 de agosto de 2009

Hirollywood

Hoje [e, por que não dizê-lo, ontem e amanhã] tive a perfeita demonstração da incapacidade de organização mental dos factos quando o meu interlocutor teve a veleidade de comparar Hiroxima com Pearl Harbour, com o fito de combater qualquer sinal de anti-americanismo que eventualmente pudesse despontar em mim.

Se exceptuarmos o enquadramento militar de Pearl Harbour, o enquadramento civil de Hiroxima, a desproporção de vítimas, as sequelas, a empatia ocidental, o potencial de destruição dos canhões japoneses e de uma ogiva nuclear e a fantasia justiceira/romântica do direito à vingança, é tudo a mesma coisa. «Guerra é guerra», não obstante as convenções que a regulam, instituídas e defendidas pelo mundo dos bons rapazes de que nós, obviamente, fazemos parte. Mas que nem sempre cumprimos, esperando esse compromisso dos selvagens. Fiz questão de lhe fornecer estes novos dados, não esperando porém que contribuíssem para a sua salvação.

Mas esse é o risco de aprender a História Universal pelos filmes de Hollywood e não pelos livros.

Curiosamente, no dia em que se comemoram 64 anos sobre Hiroxima e no dia em que a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton exprimiu os seus lamentos sobre a não adesão do seu país ao Tribunal Penal Internacional.

A vontade, tudo alcança!

Estudos recentes sugerem que a prolactina, a conhecida «hormona do leite» que é produzida pela hipófise (glândula regulada pelo hipotálamo e não nenhum estado de adormecimento tântrico), pode ser influenciada pela vontade humana.

Talvez agora se faça luz sobre o mistério de uma mulher e de uma vaca charolesa que, no tempo da fome, deram de mamar à dúzia de famílias que constituíam a pequena comunidade de Aix-la-Seine. Não se sabe ao certo durante quanto tempo durou o prodígio mas é sabido que terminou quando os beneficiários decidiram, em plenário, matar a vaca para ser servida depois da Quaresma. Estima-se que a mulher tenha regressado desgostosa a Paris e sem vontade de produzir mais leite.

Há relatos de tentativas de reconstituição desse estranho caso, invariavelmente conduzidas por um Sr. Parker, botânico e criminologista. Porém, todas fracassaram.

5 de agosto de 2009

Adverbiamente

Onde é que a objectividade dos factos e as probabilidades estatísticas se enlaçam e se fundem num único e indissociável corpo? Onde é que esses dois elementos captados e criados pelos sentidos e razão produzem um significado autónomo? Contrariamente ao que se possa pensar, não é unicamente nessa relação primária entre o número de casos favoráveis e o número de casos possíveis em que se funda a Lei de Laplace, avó das teorias contemporâneas das probabilidades. Em rigor, também os podemos encontrar reproduzidos [mas aqui, sem qualquer sentido] num português deficiente e, infelizmente, vulgarizado pela frequência estatística acima da média, que admite namoros inúteis e transgressores entre dois advérbios, especialmente quando um é de afirmação e o outro, de dúvida: «efectivamente, provavelmente foi um resultado feliz…»

Pacheco Pereira, no seu canto de opinião na SIC Notícias, a partir do qual desfere ataques cerrados contra a incompetência e saberá ele mais o quê, diria que não foi uma expressão nada feliz e aproveitaria para exibir os seus conhecimentos aprofundados sobre morfologia, sintaxe, fonética, semântica, etimologia e lógica, para sentenciar com uma daquelas frases lapidares: «este é um vil ataque dos incultos para sepultar de vez a língua portuguesa!»
Agora, que os advérbios dão jeito, lá isso dão...

4 de agosto de 2009

AB (1975-2009)


Antes de te saber, um inexplicável mau presságio caiu-me, vindo sei lá de onde. Não dei, não dou importância. Boa viagem, amigo!

3 de agosto de 2009

Os amigos não se lixam uns aos outros

Como é evidente, Isaltino Morais será absolvido porque, entre pares, a primeira é de gesso. O recurso interposto no Tribunal da Relação dará razão aos que, como João Cravinho, exasperam com a tolerância institucional de que beneficiam os veículos da corrupção em Portugal.

1 de agosto de 2009

Um estranho caso de amnésia

Apesar da estreita afinidade entre o governo e o mundo da comunicação social, o secretário de Estado das Obras Públicas, Paulo Campos, desconhecia a existência do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência). Fosse por falta de leitura dos jornais ou por qualquer outra maleita inexplicável, o certo é que Paulo Campos também desconhecia que Joana Amaral Dias não era uma amiga com quem se fala sobre trivialidades por telefone. Afinal, é uma feroz militante do BE.

Depois do assédio da comunicação social nos últimos dias, Paulo Campos chegou à conclusão que nos últimos tempos da sua vida tem sido secretário de Estado das Obras Públicas. Também desconhece que foi claramente vítima da gula socialista - a Joana! Não queriam mais nada...

30 de julho de 2009

Depressing

A senilidade é contemporânea do adormecimento da alma. Antes de mais, quando o estado febril concede mais de uma hora de televisão por dia, em desafio às sensatas recomendações do senhor doutor.

Separar as águas

É importante que, por esta altura, os meios de comunicação social identifiquem claramente os intervenientes das notícias. Por esta altura, mais de metade das notícias que são publicadas tendo como actor o governo, são, na realidade, produzidas pelo PS.
É importante perceber que, em democracia, não é o governo que está em campanha eleitoral mas sim os partidos políticos pelo que não é aceitável que as promessas que agora proliferam tenham a chancela do governo. Para isso, recordamos que o programa eleitoral que há quatro anos e meio foi sufragado pela maioria dos eleitores portugueses tinha como horizonte os quatro anos e meio seguintes. Logo, as promessas que agora nascem nas árvores para o próximo ano pertencem, antes de mais, ao PS e têm como objectivo apenas e unicamente conquistar votos.

29 de julho de 2009

Próprio para adolescentes imberbes

Fernando Alvim, popular locutor da Antena 3, dj frequentador de locais de gosto duvidoso e apresentador de televisão com as mesmas expectativas de singrar na televisão que o Mantorras tem no Benfica, convidou para seu entrevistado Vasco Graça Moura. Seguindo uma temática com a qual o entrevistador está visivelmente pouco à vontade - a cultura - falou-se ainda da língua portuguesa, do acordo ortográfico, de mulheres [embora neste ponto não tenha sido perfeitamente clara a interpelação de Alvim] e de mais um par de parvoíces só capazes de entreter os amantes da conhecida série de «humor», Malucos do Riso. Por fim, não foi sem algum desprezo que Graça Moura desenevoou na cabeça de Alvim, a complexa diferença entre «escritor» e «poeta». Elucidativo quanto à situação financeira de Moura pois, que intelectual [como bem fez questão de frisar o entrevistador no início] no seu perfeito juízo, se sujeitaria a tamanho chorrilho?

23 de julho de 2009

Au delà de la confiance en soi-même...

Num rasgo de prepotência meio lunática e francamente ridícula, o primeiro-ministro profetizou que ainda está para nascer um primeiro-ministro mais competente no que ele no défice das contas públicas.
As marcas da motivação da população num cenário de crise foram assim definitivamente estioladas com a arrogante demarcação deste nosso Rei Sol.
Do ponto de vista daqueles que se dedicam a estudar o fenómeno político, a coisa é tanto mais interessante quanto o é a constatação de uma inexpugnável sensação de vitória antecipada que parece habitar a cabeça do senhor Eng.º José Sócrates. Para lá de todo aquele «charme» a que nem Santana Lopes resistiu, José Sócrates conta também com três aliados de peso: a fraqueza do PSD, as surpreendentes parecenças de Manuel Alegre com o lendário personagem Fausto e, finalmente, a bonomia do povinho.
Destes, só os governados têm aparentemente ao seu alcance a reversão da condição aparvalhada a que são votados por este senhor que foi empossado pelo presidente da república.

20 de julho de 2009

Num mundo troglodita

Os registos históricos que dão conta de uma alunagem há precisamente quarenta anos, não estão preocupados com a veracidade das fontes. Como em tudo, há partidários do sucesso da operação e há partidários da versão fraudulenta. Pouco importa se a Apollo 11 levou os três astronautas à lua ou se apenas os transportou de um estúdio de cinema ao restaurante. Estou convencido que a alteração desse dado pouco ou nada influiria na fome mundial e nas guerras.

Mas fico verdadeiramente alterado quando recordo a ignorância de uma estudante universitária há cerca de 10, 12 anos atrás. Mais do que ignorância, a renitência da rapariga em admitir que, historicamente, o «Homem aterrou na Lua», fê-la recuar mil anos, ao tenebroso arcaísmo intelectual da Idade Média. Não era um argumento político que afastava a dita estudante do facto histórico (desmentível ou não). Era, sim, uma troglodita manifestação de ignorância de alguém que, possivelmente, saiu debaixo de uma pedra directamente para uma instituição de ensino superior, na qual, possivelmente também, não lhe foram corrigidas falhas elementares. E isso é que é preocupante [pelo menos para mim, que não faço questão de sair do planeta] porque nos adverte a reflectir sobre como é possível que o sistema formal de ensino dê tantas e cada vez mais borlas a pessoas que o hão-de gerir no futuro...

Come fly with us

Sem grande pudor e levado pelo frenesim pré-eleitoral, o licenciado José Sócrates prometeu assegurar uns valentes milhares de postos de trabalho para recém-licenciados em instituições particulares de solidariedade social. O ministro do trabalho e da solidariedade social franziu a pêra com preocupação mas assentiu. Afinal, «promessas são promessas e toda a gente está careca de saber quais são as regras do jogo», pensou… «Se a coisa for para avançar, os recém-licenciados terão garantido, pelo menos, um lugar nas equipas dos programas ocupacionais para desempregados que servem a sopa dos pobres». Por outro lado, continuou o ministro nas suas cogitações, «com esta história das Novas Oportunidades, se calhar, o gajo quer transformar milhares de operários e senhoras da limpeza das misericórdias em psicólogas, engenheiras, professoras… Grande jogada! Este gajo é mesmo bom

18 de julho de 2009

Ensaio sobre o absurdo i


Quando a Gasosa convidou para a rubrica Gasosa Convida, fui levado a recusar por não me lembrar de ter sido convidado, por o carro não pegar e por uma cegonha fardada de Express Mail me ter batido à porta intimando-me a levantar a encomenda que estava no Depósito M-53 do Cegonhoporto local há cerca de 270 dias.

Encurralado, resolvi aceitar de boa vontade. Inicialmente, pensei em pregar-lhe com algumas suras do Corão ou outras tantas leis do fiqh ou, ainda, uma das 3573 máximas que trago decoradas sempre à mão para enfrentar qualquer circunstância com que me deparo no quotidiano. Mesmo em situações francamente embaraçosas como daquela vez em que o presidente da república me pediu um exemplar do Borda d’Água na casa de banho de uma loja da Mango em Alcabideche. Felizmente não era nada comigo e o homem era afinal um professor irado com a Maria de Lurdes Rodrigues por causa do cozido de grão que aquela terá deixado displicentemente ao lume.

Pensei igualmente em resolver o assunto enviando uma fotografia do Fernando Mendes a fazer o pino no lombo de um touro bravo. Mas o touro não colaborou e o aspirante a humorista conseguiu sair ileso da sala de desmanche antes que lhe cobrassem a entrada.
Assolado por tenebrosas e incapacitantes dúvidas, fui acometido por um terrível ataque diarreico quando lia o jornal e ocorreu-me a ideia de trabalhar em part-time num ensaio sobre o absurdo. Pensei, em jeito de desabafo, «absurdo ou cegueira, é tudo a mesma coisa», apesar de não viver numa ilha vulcânica coberta de cinzas onde não se topam mais do que calhaus menores de idade.

Como é do conhecimento geral, etimologicamente, absurdo deriva de uma norma incapacitante e defeituosa: «o surdo». Mas isso não interessa para o caso. Ora, neste mundo em que vivemos e numa perspectiva meramente metafórica, não ouvir é como não ver, logo, o ensaio está concluído e demonstrado.

Depois deste importante depoimento de um indivíduo com um notável percurso na apanha do tomate, entramos finalmente no assunto encomendado.

Era eu um pré-adolescente, imaturo e inconsequente quando os americanos deram guerra ao Iraque. O que tem isto a ver com o propósito deste texto? Nada! Mas achei que seria útil dizer que esse determinante facto histórico ocorreu paralelamente às minhas investidas na taberna ao lado da escola em busca de bagaços vespertinos e drops de frutas. In illo tempore, como se costuma dizer, não haviam mais do que três ou quatro motos com cilindrada superior a 125 cm³ em Évora e o Chico era o maior mentiroso do Alentejo. Fosse como fosse, passava os meus santos dias nas aulas com o rabo sentado num intenso formigueiro, as pernas orientadas para a porta de saída [ou para a janela, conforme os casos], e a cabeça estacionada em alguma parte da lua. Confesso que nunca me soube orientar naquele planeta estranho, talvez por ser tudo um bocado a preto e branco. No entanto, desse alongamento físico-espiritual se depreende a minha fisionomia de núbio, só traída pela estatura pigmeia de toda a minha família.

E a que me dedicava eu nesse frenesim? À pintura! Pode parecer estranho escrever um texto e não apresentar nada artisticamente relevante mas… sempre fui uma criança difícil e quase entrei para a Opus Dei, não fora a denúncia de orgasmo manualmente induzido a bispos irlandeses, feita por uma colega da escola a quem eu me esquecia de desejar «um bom fim-de-semana» à sexta-feira. À conta disso fui chamado à presença do director da escola a quem tive que explicar detalhadamente por que razão a sua mulher pedia sempre boleia ao professor de ginástica e não ao próprio marido. Era uma liberal e eu queria ser um pintor vagamente conhecido. Por isso, não dava para casarmos.

De regresso ao principal assunto, na esperança que eventualmente ainda pudesse entusiasmar algum leitor (assim eu me lembrasse do que estava a falar), a pintura e a reflexão conduziam-me em viagens epopeicas numa espiral que terminava em êxtase no centro da sala de aula a esvoaçar na companhia de imensas moscas sem GPS. Nessas viagens, perturbadas irritantemente por uma criatura que exigia ser chamado «professor», eu não me dedicava a nada em especial mas era feliz pelas pinturas que, por vezes, encontravam a glória nas gargalhadas dos colegas imediatamente sentados à frente e imediatamente sentados atrás. Isso, num primeiro momento porque, em rigor, alguns minutos depois acabava inexoravelmente na rua com falta a vermelho, conquistando um espaço de afirmação intelectual e artística só reservada às crianças brilhantes. Por isso é que nunca consegui passar do 9º ano.
Para além das pinturas eróticas e das cabalísticas, sempre manifestei um particular interesse pela aero-náutica. Por esse motivo, os meus desenhos reflectiam predominantemente um casamento entre a aviação e o surf-Presto. Por nenhuma razão em particular. Nos aviões a jacto era comum instalar um estendal de roupa preparado para se apeitar com velocidades supersónicas. Julgo que, simbolicamente, se trataria da representação das marés e ventos que lavam e secam a roupa, costume culturalmente muito relevante, embora não seja de descartar a minha sensibilidade ecológica já manifesta naquela altura. Com essa manifestação de castidade desencadeada por roupa impecavelmente lavada, seca e passada a ferro a 2G, o que eu pretendia era, nada mais e nada menos, comprovar a existência de Deus.

Naturalmente nunca o consegui mas aqueles desenhos, dos quais não guardo uma única cópia, revelavam antes de mais que não pode haver criatividade na unidimensionalidade. Ou, pelo menos, não é aceitável. Caso contrário, teríamos o mundo governado por albertos joões jardins.

Isto não tem piada nenhuma mas o objectivo foi cumprido e pró ano serei professor titular.
Originalmente publicado em Vai uma gasosa?

16 de julho de 2009

Filho de ministro

A diferença entre uns e outros reside simplesmente naquela relação ancestral que se expressa pelo tempo disponível e pela garantia de satisfação de necessidades. Há espaço para errar e nada de mal acontece. Ao filho de ministro é pedido que viva, ao filho de operário é exigido que sobreviva. Há, inclusive, aquela máxima que diz «o desemprego quando nasce, não é para todos».
Certamente consciente destas minudências, o ministro do trabalho e da solidariedade social, Vieira da Silva, anunciou a diminuição das assimetrias sociais com base numa suposta redução da pobreza entre os escalões etários mais idosos. Para isso, sustenta, muito contribuiu o Complemento Solidário de Idosos. E, quanto a nós, o desaparecimento daquela parcela de população rural que, com a reforma de Marcelo Caetano, passou a ter direito a uma espécie de esmola institucional. Ter-se-á esquecido certamente de referir que as assimetrias medem-se com referência a dois intervalos. E o intervalo superior, aquele dos porsche's, casas de luxo e aviões privados terá sido aquele que, lamentavelmente, ficou de fora das cogitações do ministro.

à tout propos (316)

Em matéria de democracia, Jardim da Madeira não recebe lições de ninguém, inclusive quando afirma reger-se por uma máxima que consiste em «proibir a proibição». Daí a sua proposta de inconstitucionalidade do comunismo. Semelhante à que vigora na sua ilha, com a única excepção de ter sido decretada uma espécie de tolerância para com «essa cambada de tolos».

14 de julho de 2009

Para quê, um novo partido?!...

O rescaldo para o futuro vaticinado em 2006, na sequência das eleições presidenciais, não se verificou um prognóstico suficientemente sólido ou, pelo menos, tão certeiro quanto as profecias do Bandarra. Estou-me a referir em concreto à possibilidade aventada de a candidatura independente de Manuel Alegre poder significar o desmame final do poeta em relação à esquerda moderna de Sócrates e dos seus correligionários.
Essa poderia não ser a intenção do autor de Praça da Canção, contudo, era um cenário apetecido pelos que, nessa circunstância, o apoiaram.
A premissa de partida revelou-se inteiramente errada porque, recordamos, era admissível que aquela candidatura envolvesse um ponto de ruptura dentro do PS e, mercê da base social de apoio que mereceu, era expectável que a ruptura fosse institucional e significasse algo novo. Um novo partido político, por exemplo, mais próximo do marxismo não ortodoxo que está na base do socialismo em Portugal e no mundo.

Mas não, a anunciada ruptura foi eminentemente estratégica e as tomadas de posição que foram sucessivamente assumidas por Manuel Alegre demonstram que o sentido utilitarista prevaleceu sobre o telos ideológico.

O agigantamento da esquerda nas últimas eleições e o avanço da direita ditaram um humilhante resultado para o PS e colocaram os seus dirigentes exactamente onde Alegre queria que estivessem, isto é, sob a periclitante corda bamba que ele, Alegre, julga poder estabilizar. Arauto do socialismo, Alegre lá foi avisando o PS na última semana com maior acutilância do que o costume. E Sócrates entendeu o recado, ao proibir que algum lacaio teça considerações que afugentem o eleitorado que sobra.
Neste negócio entre Sócrates e Alegre só falta mesmo o sacerdote. E nem sequer podemos entender o compromisso como uma novidade ou inflexão política. Para desilusão de alguns...

7 de julho de 2009

à tout propos (315)

O presidente da república vetou mais um diploma emanado da Assembleia da República. Desta vez foi a Lei do Segredo de Estado. Uma lei que havia merecido a concordância das bancadas parlamentares do PS e PSD. Mas, a avaliar pela pronta anuência de socialistas e sociais-democratas, Cavaco Silva deverá ter a razão toda do seu lado e, qualquer dia, o poder executivo…

3 de julho de 2009

Manel Pinho foi promovido


Este é o assunto da ordem do dia: a demissão do ministro da economia, Manuel Pinho. Com um desempenho algo apagado durante todo o mandato, decidiu sair do armário em vésperas de banhos. E de eleições. O excessivo protagonismo de Sócrates terá estado na origem desta necessidade de afirmação. É compreensível, todos fazendo os seus mitetes e o menino manel a interpretar o papel do marrão bem comportado durante quatro anos. O truque é relativamente simples. Basta encostar as costas de ambas as mãos às fontes e recolher os dedos à excepção dos indicadores. Estes, devem permanecer em riste, como que a visar alguém. Mas tem que ser com convicção. Diz que não caçou ninguém apesar de não constar que os comunistas sejam particularmente dados a touradas.

Ao escolher secar potenciais sombras com a escolha de políticos de duvidosa qualidade para ministros, Sócrates arriscou. E Manuel Pinho (aliás, como Vital Moreira, Augusto Santos Silva, Maria de Lurdes Modesto - perdão, Rodrigues - Mário Lino, etc.) fez-lhe a vontade. São célebres as hilariantes e insistentes intenções de suicídio político protagonizadas pelos membros do seu governo. Mas Manuel Pinho foi mais longe e, desgastado por quatro longos anos a ganhar mal, decidiu pedir ali mesmo a sua promoção.

Não obstante, o acontecimento com maior impacto na vida nacional (aquilo do Parlamento é vergonhoso mas habitual) veio directamente do Brasil e da ameaça de Maria João Pires, a pianista que deseja deixar de ser portuguesa e dar o berro do Ipiranga. Uma escolha acertada porque se teme que qualquer dia não restem brasileiros no Brasil. Há que povoar aquela terra. Porque é que acham que o Saramago foi viver para aquela terra desértica e árida no meio do Oceano Atlântico?

29 de junho de 2009

à tout propos (314)

Talvez por força da dimensão, a probabilidade das redes de conhecimentos e amiguismo nos EUA é certamente menor do que em qualquer país europeu, incluindo Portugal. Longe da perfeição, a menor permeabilidade da Justiça e a ética americana do bem e do mal fazem o resto. Aqui, não há «talvez», com todos os desacertos que sabemos haver. Como é evidente, a pena de morte e a necessidade obsessiva de produzir sentenças são o reverso da medalha, com indivíduos injustamente condenados num sistema onde os bons advogados são perfeitamente inacessíveis ao vulgo; onde a dureza das penas não estanca a violência nem resolve as suas causas.
Mas, para o bem e para o mal, casos como o de Madoff são exemplares. Não pela dureza da sentença mas pela equiparação do crime económico ao crime de sangue: ambos comportam sequelas que podem ser irreparáveis. Sem hesitações.

Poder Absoluto

Da aglutinação das palavras demo e kratos resulta a célebre fórmula «governo do povo». Será esta ideia condição suficiente para justificar alterações de humores com repercussões de fundo?


Na democracia representativa, forma de governação mais corrente nas democracias contemporâneas, espera-se que os cidadãos escolham entre propostas políticas alternativas de governação. Mas não se espera que questionem a totalidade do sistema político num determinado momento, sem reflexão e sem conhecimento cabal das consequências que advêm de uma dada decisão permeável à instabilidade climatérica. Em suma, em democracia não se espera que as transformações estruturais sejam decididas pelo povo de forma leviana e irresponsável, a quente, porque está em causa o bem-estar geral das actuais e das próximas gerações.


Em contrapartida, as revoluções que conduziram historicamente a alterações de paradigmas podem estar mais ou menos latentes na sociedade, podem incluir maior ou menor ruptura social, podem justificar mais ou menos derramamento de sangue. Mas são revoluções, processos dinâmicos de ruptura que se assumem como tal. Às claras. São transições. Coisas como «Revolução Islâmica» e «Revolução Cultural» deixam de o ser à medida que se consolidam as suas instituições e as populações interiorizam a nova ordem.


Mas na Venezuela ou nas Honduras, são desejadas transformações formuladas ad hominem que incidam primeiramente no status quo do líder, daí resultando uma fórmula estranhamente semelhante à adoptada por países como a Coreia do Norte. Nestes casos, assumindo a manipulação dos próprios instrumentos da democracia da forma mais populista ao recrutar para a barricada dos espoliados a parcela de população mais desfavorecida. Do outro lado da barricada estão os gatunos, os ladrões, em suma, os marranos da contemporaneidade.


Por «muito» que custe a esses líderes, na democracia não pode caber o culto «monárquico-fascista» da personalidade nem o roubo descarado. Esse é outro sistema político ou, no limite, um vão projecto democrático. E é justamente isso que Chavez e Zelaya procuram fazer através da utilização abusiva de instrumentos democráticos como o referendo, subjugando os princípios e valores democráticos à sua ambição de poder, aos seus caprichos pessoais. Para quê insistir então numa ideia de democracia?


O poder absoluto não é compatível com as aspirações a modelos de governação democrática, nem nesses países nem em qualquer outra parte do mundo. A esse respeito, o mesmo se pode constatar no Irão, Angola, Birmânia e tantos outros países, alguns deles, ocidentais. Embora o descaramento seja mais refinado no hemisfério norte e também seja aqui que os valores democráticos estão mais disseminados, pelo menos do ponto de vista formal…


A democracia não se exporta nem se transacciona como num mercado de frutas. Pratica-se! E esses indivíduos têm que fazer uma escolha que se cifra entre a adopção plena dos valores e princípios democráticos, e a revolução onde possam conquistar a legitimidade de ser aquilo com que mais fantasiam desde crianças. Uns, movidos pela vingança, outros pelo poder, outros pela fortuna, outros pelo lugar na história. Mas, geralmente, pelos piores motivos e com as piores consequências para aqueles cujos direitos dizem defender.



PS: Como é evidente, também não são solução as reacções dos militares hondurenhos ou as chacinas de presidenciáveis na Guiné-Bissau. Contudo, são mais coerentes com os respectivos regimes do que se possa imaginar à primeira vista.

26 de junho de 2009

Michael Jackson





A imagem do mulato com ar exótico a segurar o almofadado protótipo de felino acompanhar-me-ia para sempre, obnubilando os extravagantes e controversos episódios que se seguiram na vida de Michael Jackson. Lembro-me de percorrer a capa do álbum com o disco nas 33 rotações, deitado de barriga para baixo na carpete laranja do quarto que contrastava claramente com o luxuoso piso em que Jackson figurava naquela pose descontraída. Procurando perceber o que eram as lyrics e os chorus, aquelas foram possivelmente as minhas primeiras aulas de inglês. Ouvi aquele LP vezes sem conta, alternando-o com o Rio, dos Duran Duran. A pose confiante enfiada naquele olhar cândido (da capa) e, sobretudo, o tigre, transportavam-me para um mundo de sonho só desfeito pelo chamamento para o almoço e pelo teledisco do Thriller, algo impressionável para uma criança de 10 anos.


Michael, o rapaz maravilha dos Jackson Five, o Pelé da música, faleceu esta noite. Inigualável, o rei da Pop, deleitou gerações, deixou uma marca de enorme qualidade (musical, performativa, comercial), acirrou polémicas diversas (da vitiligo às acusações de abuso sexual de menores), suscitou paixões massivas e envolveu-se em intervenções de incontestável beneficência.

Mas de todas, fico com aquela imagem tutelar que também servia de quarteirão para os meus carrinhos. Bom, fico também com a imagem da sua primeira aparição no teledisco do We are the world, verdadeiramente excepcional.



23 de junho de 2009

Pérsia Livre ii

"Como é evidente, esta rapariga trabalha a soldo dos americanos com o objectivo de desestabilizar o tolerante e idóneo regime iraniano".

Há quem pense realmente assim e por essa via procure diabolizar os americanos e todo o mundo ocidental. Não se lhes pode negar esse direito. Faz parte de uma formatação mental que não se pode esperar tolerante, flexível ou autónoma. A mesma de que são acusados, com justiça, os agitadores do fantasma comunista.

Fundamental, fundamental, é pressentir que acontecerá a estes jovens o mesmo que aconteceu à geração da Primavera de Praga, cujo sonho seria concretizado vinte e um longos anos depois. O mesmo que sucede actualmente na China, vinte anos depois de Tiananmen. Protestos com esta violência e este tipo de repressão não são artificialidades das sociedades industriais. São próprios de regimes totalitários, aqui designados eufemisticamente por teocracias.

A dignidade humana não pode ser, evidentemente, cúmplice do fanatismo religioso e do domínio absoluto.

22 de junho de 2009

Antes a Chimay...

Na televisão, debatem Nuno Melo do CDS e João Semedo do BE. Os assuntos do costume: desemprego, têgêvê, rebéubéu pardais ao ninho. A Chimay Bleu fica-lhes à frente. Não por ser alcoólica mas por ajudar a reposicionar o mundo no seu devido lugar.

21 de junho de 2009

Pérsia livre

No Irão, território correspondente à antiga e saudosa Pérsia, pátria do conhecimento e de uma cultura universalizante, luta-se pela Liberdade. Luta-se pela secularização da sociedade.

20 de junho de 2009

As três vantagens de Durão Barroso

A grande vantagem de José [Durão] Barroso é não ser francês, inglês ou alemão.
A sua segunda vantagem é não ser espanhol, holandês, italiano ou polaco.
A sua terceira vantagem é não ser sueco, finlandês, dinamarquês, belga, luxemburguês, irlandês, grego, hungaro, bulgaro, romeno, estónio, letónio, lituano, checo, eslovaco, austríaco, esloveno, maltês, cipriota.

18 de junho de 2009

A natureza de Sócrates

Analistas políticos, jornalistas, competidores, curiosos e outros estimavam que o resultado das eleições europeias fizesse baixar a bola do primeiro-ministro. Ansiavam por uma demonstração de humildade e reconhecimento do fracasso de algumas políticas, de um certo estilo de governação, ainda que esse duro fardo não representasse mais do que uma encoberta estratégia de apaziguamento dos eleitores com vista ao próximo acto eleitoral.
Quando mais se aguardava por esse mascarado acto de contrição de Sócrates, este acabou por desiludir a assistência. Não se conteve e do cordeiro emergiu o lobo esfomeado. Atacou. Atacou a direita, procurando celebrar a política de esgotamento dos sociais-democratas que retirou da cartola em 2005. Tal como a anedota do escorpião e do elefante, o que é que se pode esperar... é da sua natureza ser assim...

17 de junho de 2009

O Pinto da Costa é que é o pilantra...

Luís Filipe Vieira, manda-chuva do Benfica, identificou a lacuna da nacionalidade para justificar o insucesso do treinador espanhol Quique Flores.
Esqueceu-se em contrapartida de identificar paradoxalmente a lacuna da nacionalidade para justificar o sucesso do treinador italiano Giuseppe Trapattoni, único vencedor do campeonato nacional pelo Benfica nos últimos 15 anos.
Parece que o nacional Jorge Jesus assinou por duas temporadas. No Benfica, espera-se que cumpra uma.
À margem desta destorcida leitura, Luís Filipe Vieira deu sinais de algum acerto quando disse que "dificilmente o Benfica vai perder algum jogador". O raciocínio parece correcto porque, com a época que fizeram, só terão os clubes da segunda divisão como potenciais interessados mas sem, contudo, poderem pagar o que o Benfica lhes paga.
Nesta novela, fica a última excelência deste senhor. Para impedir que um oponente se candidatasse às eleições, arranjou forma de marcar as eleições de forma a que se realizem antes do dito oponente cumprir os cinco anos necessários «na casa» que o autorizariam a candidatar-se.

16 de junho de 2009

Naquelas condições, eu também não queria

Como é evidente, reina entre a comunicação social uma esquizofrenia tão aguda como a que a tutela [da educação] levou às escolas e aos seus profissionais. Não é que não existisse antes com a multiplicação de reformas educativas ao sabor das aspirações políticas e sabe-se lá mais o quê dos anteriores titulares da pasta. Contudo, esta ministra demonstrou ser medonhamente obtusa, julgando-se na posse da fórmula secreta que haveria de mudar a educação neste país. Aqui del rey... Perfeitamente irresponsável, a ministra julgou de forma prepotente e com uma arrogância digna dos parvos que era superior aos outros e, acima de tudo, julgou ser possível impor modelos de avaliação [por validar] à totalidade de profissionais cuja avaliação assentava fundamentalmente na antiguidade. E não era por responsabilidade de classe mas sim por comodidade político-eleitoral que o anterior modelo vigorava. Pior ainda que este hiato entre o oito e o oitenta, julgar que poderia exigir dos outros aquilo que não exige dos seus pares: sobriedade. Deixou de a ter quando alimentou o extremismo. Como é evidente, já aqui o escrevi várias vezes, reformas em democracia exigem consensos e exigem a existência de instituições inteligentes, desprendidas de interesses puramente partidários, sindicais ou pessoais. Não tenho dúvidas que os bons professores desejam ser avaliados para poder ver o seu trabalho reconhecido. Mas isso não tem que ser à custa dos alunos, de critérios mirabolantes, nem das pessoas que dão o litro em prol de algo que a senhora ministra jamais poderá compreender. Nem sindicatos ou a generalidade dos políticos.
Sócrates, o avalizador das políticas desta ministra, continuará convencido da sua inevitabilidade e de um certo elan que julga ter, mesmo depois do sério aviso dos portugueses na últimas eleições europeias. Em democracia pode ter que se governar por vezes contra o vento mas não se pode governar contra o povo nem fazer desse, o estilo da governação.


PS: esta é uma questão que tem que ver com princípios, com os fundamentos da avaliação dos professores. Infelizmente, há outros casos na AP que se justificam pela mais incompreensível incompetência dos serviços e dos «profissionais» responsáveis.

Pura ingenuidade

O Banco de Portugal «aponta para contracção» da economia portuguesa em 2009. No calor do momento, podia ter-lhes dado para outra coisa qualquer à laia de opinião de café... mas não! Deu-lhes para «contracção». Talvez porque não estão atentos aos gastos supérfluos dos clubes de futebol ou simplesmente porque é feitio. Esta é seguramente a mesma ingenuidade que, num acto de contrição esfarrapada, serviu de justificação à inútil e deficiente supervisão de Vítor Constâncio ao BPN e a outros, os quais só por acaso não se chamam GD, BES, BPI ou Millennium BCP.

15 de junho de 2009

O socialismo é...

Mais do que nunca, o PS está dividido entre socialistas e arrivistas. Entre aqueles para quem o socialismo é uma heterodoxia do comunismo e aqueles para quem o socialismo é uma espécie de irmandade do poder.

12 de junho de 2009

Depois das eleições...

Bastou um sensato veto presidencial e a proximidade de dois importantes actos eleitorais (legislativas e autárquicas) para que a unanimidade parlamentar conquistada airosamente há um par de meses se escudasse timidamente atrás do pré-requisito do «consenso». Agastada com escândalos políticos, denúncias de corrupção, impunidade dos fortes, compadrio na justiça e a falta de pão na mesa, a opinião pública portuguesa não reagiu bem ao cenário do regresso dos sacos de dinheiro para os partidos.

A entrada à leão dá assim lugar ao carrossel da carneirada. Depois das eleições logo se vê...

9 de junho de 2009

Casas, peça a sua!

Segundo o jornal Sol, Rui Rio e Fernando Reis (autarcas do Porto e de Barcelos) terão concertado uma proposta que tem como destinatária a mãe biológica da menina Alexandra, protagonista do mais recente caso mediático oferecido pela incapaz instituição judicial portuguesa. A solução para os erros dos outros parece assentar no modelo da «cama, comida e roupa lavada», isto é, os dois autarcas pretenderão oferecer um apartamento e a concessão de um estabelecimento de restauração à senhora mãe, para que ela regresse da Rússia com a adorável criança.

Medidas populares e individualizadas para problemas globais podem até render votos mas se fosse por aí, já o PNR tinha decapitado todos aqueles que têm melanina a mais e não falam com o sotaque impoluto alfacinha.

Vetos vs fiscalização das leis

Em três anos, o presidente da república vetou por nove vezes diplomas emanados da Assembleia da República (maioria PS) ou do governo, preparando-se para ultrapassar o detentor do recorde, apesar de Jorge Sampaio, o seu antecessor, ter uma performance invejável: doze vetos em cinco anos.

Desta vez, o presidente vetou a lei dos partidos. Vetou um diploma que foi aprovado por unanimidade pelos partidos com assento na Assembleia da República. Bem vetado pois não é aceitável que enquanto uns são acossados pelas finanças e outros são arguidos por corrupção, outros continuem a alimentar este insuportável fartar vilanagem sob a capa da democracia.

Esgotada a relação amorosa - quase conjugal - mantida no início do mandato de Cavaco Silva com o governo, os vetos têm-se sucedido com a aproximação das eleições legislativas. Mas fica o estilo frontal de Cavaco Silva, contrastante com o estilo adoptado por Mário Soares, justamente quando o actual presidente da república era primeiro-ministro. Nessa época, Mário Soares caracterizou a sua presidência pelo desgaste que provocou no governo com o envio de diplomas ao Tribunal Constitucional, solicitando a fiscalização sucessiva em vez de a solicitar preventivamente. Primeiro, publicava os diplomas e depois, deixava calmamente que o Tribunal Constitucional desse ordem para os refazer... Engenhoso? Sem dúvida. Mas mais ardiloso, seguramente.

8 de junho de 2009

Homem-lapa

Sem condições políticas para continuar a exercer o cargo e apesar de olhado com legítima desconfiança pela população, Vítor Constâncio luta com unhas e dentes pela cadeira de governador do Banco de Portugal como se não houvesse amanhã. E como se a sua vida passasse doravante a ser uma sequência amorfa de dias sem a agitação e o frenesim da ribalta financeira. E como se, finalmente, o Estado português não lhe tivesse pago mais do que suficiente para abandonar o cargo de bico calado e dar graças a Deus por não ser um Cristão a sério, daqueles que, depois de um merecido tabefe, oferecem imediatamente a bochecha virgem para acolher uma sucessão deles exemplarmente aplicados.

Beato Loureiro

Afinal, nem tudo está perdido para os lados do ex-conselheiro de Estado, Dias Loureiro. O voto de pobreza que terá feito a dada altura da sua vida, desapossando-se dos seus bens e riquezas qual D. Nuno Álvares Pereira, pode fazer deste o próximo português a ser beatificado. Isso claro, se as suspeitas se confirmarem… Mas que importa isso se hoje é dia de festa para abstencionistas, bloquistas, sociais-democratas, comunistas e democratas-cristãos?...

Ai Jesus

Jesualdo, o treinador do FC Porto arrisca-se a ser alvo de uma contratação relâmpago pelo Benfica por proferir declarações como esta: "a minha principal qualidade é fazer equipas em curtos espaços de tempo". Todos nós sabemos que não é assim porque o homem conseguiu estar mais do que três meses no Benfica e acabou trucidado como todos os outros.

7 de junho de 2009

Quem semeia ventos colhe tempestades

A volumosa abstenção é preocupante mas não serve para explicar os resultados eleitorais nestas eleições europeias. A crise económico-social também não cumpre esse requisito, não obstante a compreensível vitimização do partido de poder. Este PS pode ou não tirar as ilações destas eleições. Tem mais alguns meses para a fazer mas isso. Não me parece é que tenha condições para continuar a tratar sobranceiramente a população como o tem feito até aqui. O fantasma da governabilidade pode ter tido aqui os seus dias contados pois foi inequívoco o sinal dos votantes relativamente a um cenário de nova maioria absoluta. A menos que o primeiro-ministro demita a ministra da educação, o ministro das obras públicas, o ministro da agricultura e o ministro das finanças. Ou, em alternativa, aceite uma coligação com o PSD, assumindo definitivamente a ligação ao universo ideológico com o qual mais se identifica.

Esta campanha eleitoral foi uma vergonha e isso sim, pode ajudar a explicar o desinteresse e descrédito que estão por detrás do aumento da abstenção eleitoral, a qual não é de modo nenhum exclusiva das eleições europeias. Nem aqui nem na Europa. Vital Moreira atreveu-se a sair das estantes de Coimbra para se revelar um militante com jeito para fazer fretes e da pior maneira. O PSD ganhou um potencial líder, embora se fique com a sensação deste resultado lhe ter caído no colo.

Os partidos mais desalinhados com a Europa totalizaram quase 20% dos votos mas porque nestas eleições se jogava o aquecimento para as legislativas [num total desprezo pela Europa], nem eles se vão lembrar dessa antipatia.

5 de junho de 2009

Campanha trauliteira

Os políticos não estão bem. Definitivamente. Desta campanha eleitoral fica uma sintomática necessidade fisiológica de disparar directamente uns sobre os outros, como forma de conquistar ténues vantagens políticas que lhes permitam ganhar alento para as eleições legislativas e autárquicas. Em contrapartida, as panças cheias de Europa redundaram no mais ímpio desprezo pelos eleitores e cidadãos deste país.

A respeito da campanha para as eleições legislativas, mascaradas de europeias, Sócrates acusa a oposição de só saber “falar mal do governo”. Dentro de limites éticos e legais, à oposição é reservado o direito de se opor, de criticar. Além disso, não me lembro de o candidato Vital Moreira ou o próprio Secretário-geral do PS terem, de algum modo, mimado os seus oponentes com piropos românticos. As acusações e insinuações de ligação do PSD a casos de corrupção ocuparam mais os dirigentes socialistas do que qualquer assunto relacionado com a integração europeia, o Tratado de Lisboa ou a adesão de novos países membros.

Paulo Rangel, candidato social-democrata, dispara com uma atoarda atordoante: «basta de socialismo na sociedade portuguesa». O homem revela ser um notável aluno de Manuela Ferreira Leite, ficando a curta distância da grande marca identitária anunciada pela própria anciã quando suspirou dizendo «a democracia devia fazer uma pausa de seis meses». A sageza do homem, encontramo-la na oportunidade que escolheu para fazer tal declaração, particularmente numa altura em que o desemprego sobe em flecha, as desigualdades sociais são agravadas e as tensões sociais começam a deixar de estar só latentes.

Francisco Louçã, por seu turno, termina uma campanha que até tinha sinal positivo, com uma paródia infantil e sem graça a um Paulo Rangel saído da cama aos pulinhos, de camisola laranja, trauteando «ninguém pára o Rangel». O veneno ressabiado que, por vezes, não se compreende.

Nuno Melo, convencido da sua inevitabilidade, exibiu a habitual prepotência e populismo em grande nível. Ao nível do grande trauliteiro de onde bebe tanta imbecilidade. Mas o melhor da sua campanha foi o trunfo que sacou da cartola a dado momento, provando junto da populaça aquilo que os tribunais é que têm competência para decidir: a negligência da supervisão do Banco de Portugal no caso BPN. Não se podia esperar mais e põe o Parlamento em maus lençóis.

A dada altura, o PCP esboçou uma vã tentativa de discutir a Europa mas cedo, tanto Ilda Figueiredo como o Secretário-geral cederam às pressões externas e à deriva ruidosa e inútil desta campanha eleitoral. Não mostraram ser diferentes.

A nós, resta-nos votar no domingo.

3 de junho de 2009

Uma Vergonha!

A carta de renúncia ao cargo de Provedor de Justiça entregue por Nascimento Rodrigues tem menos efeitos institucionais do que mediáticos. Como grande parte das coisas neste país. A justiça não se vai ressentir da «vacatura» do cargo, até porque os agentes políticos e judiciais, pouca atenção dão ao provedor. Mas a carta gera na arraia-miúda o mesmo sentimento que Nascimento Rodrigues acusou ter sido completamente vilipendiado pelos deputados: consenso.

Numa frase: uma vergonha!

É a qualidade da democracia que está em jogo e, infelizmente, muito para lá da compreensão instrumental e simplória dos políticos deste país.

2 de junho de 2009

Longa vida ao Rei!

Desde criança que acompanho com alguma curiosidade as monarquias exóticas que nasceram fora da Europa por causa do medievalismo que julgava caracterizar exclusivamente tal forma de governação. Eu era evidentemente muito mais ignorante do que penso ser hoje mas, figuras como o Rei Artur e Robin dos Bosques repousavam no meu imaginário infantil como figuras míticas alojadas num recanto das verdades insofismáveis.

Mais tarde, percebi que os monarcas sobreviveram a esse microclima medieval. Era a descoberta de uma parte da história universal que os filmes do Errol Flinn me escondiam. Recordo com nostalgia da aula em que a D. Fernanda, a professora, nos apresentou o grande conquistador, o grande líder, D. Afonso Henriques, estimulando ainda mais a nossa imaginação com os episódios de judiarias que armava à senhora sua mãe.

Mas a grande ruptura com esse medievalismo verificou-se quando a Princesa Diana se casou e só os noivos se faziam transportar de carruagem. E, também, quando assistia desalentado ao fecho diário das emissões da TVE, em que uma moderna família real espanhola posava para os súbditos com vários trajes e em várias ocasiões que iam das aulas de equitação das infantas, à apresentação do último grito da marinha pelo Príncipe das Astúrias.

A monarquia foi sendo, aos poucos, desmistificada. Poderia aqui jurar a pés juntos que foi com a idade. Contudo, acho que foi mais pela existência do D. Duarte de Bragança. Afinal, em que é que ele poderia ser melhor do que eu?!

Seja como for, este preâmbulo serve apenas para anunciar que a monarquia recuperou alguma dessa névoa primordial, justamente pela incrível dinâmica das monarquias exóticas de que falava. Uma das mais fascinantes é a da Coreia do Norte. E é possível que hajam novidades para breve. Não é fantástico?