Quando há uns quinze ou dezasseis anos o executivo municipal de então decidiu abrir uma porta na muralha fernandina em Évora, uns cem metros a norte da que agora se re-abriu, gerou-se uma intensa discussão em torno da utilidade, da conservação do património e dos temas paralelos do costume. Os argumentos a favor vingaram e, após este tempo todo, lá está a porta. Na minha opinião, feia e desenquadrada - o mármore das ombreiras desafia predisposições estéticas pelo contraste com o granito original - mas funcional e útil para milhares de pessoas que a cruzam. Note-se que as alternativas mais próximas localizam-se a centenas de metros (portas de Alagoa e Alconxel) e obrigavam a que milhares de pessoas que utilizam o eixo viário das piscinas se desviassem consideravelmente de um trajecto óbvio.
Sem pretender entrar no mundo perdido do conservacionismo e dos institutos que dele fazem a sua pseudo-existência, a polémica desta porta pode ser outra. É evidente que dentro de quinze anos haverão outras discussões com que o povo se entretenha. E os políticos de agora contam tanto quanto os de outrora com essa dinâmica tão previsível das comunidades... Ora, a polémica de agora pode ficar marcada, não pela existência prévia de uma porta (parto do princípio que o acesso não seja restringido aos moradores do novo condomínio) que se re-abre naquele local mas sim pela possibilidade de se re-abrirem muitas mais, tenham ou não existido no passado. E até pela prioridade de o fazer em outros troços da muralha.
Antes de avançar mais, devo dizer que o argumento das portas pré-existentes me parece algo pobre. Numa estrutura defensiva em tempo de guerra seria pouco vantajoso haver uma multiplicidade de portas, as quais aumentariam perigosamente os riscos de invasões e de traições, para além de obrigarem à multiplicação de guarnições... Mas se os peritos dizem que haviam portas, é porque haviam... mesmo que tivessem sido abertas em tempos históricos descoincidentes com o tempo de serviço de uma estrutura defensiva: uns bons séculos depois da construção original, em períodos históricos em que a muralha já não cumpria cabalmente a sua principal missão. Deixo o assunto aos especialistas da área.
Seja como for, re-abre-se uma porta num local que dista uns penosos cem metros a norte da porta recentemente re-aberta e a sul, da Porta de Alconxel.
Amanhã, quando terminar um condomínio que há-de começar a ser construído no interior da secção que une a Porta d'Aviz à Rampa do Seminário, não me parece que o executivo municipal tenha condições para rejeitar a re-abertura de uma porta a meio do troço porque uma observação minuciosa também há-de ali desencantar um par de portas que serviam na Idade Média (ou até na Antiguidade Clássica) para as pessoas estacionarem as carroças no lado de fora... Há até quem diga que não era muralha mas uma extensão externa das arcadas da Praça do Giraldo. Ou uns metros a mais que sobraram do aqueduto e foram aplicados à volta da cidade. Neste caso, a justificação para o fecho das arcadas foram as correntes de ar que afligiam os autóctones…
Umas portas adicionais a servir os hotéis Mar d’Ar Muralhas e Aqueduto, bem como o Quartel-General também não seriam mal pensadas. Afinal, como qualquer digestão, também esta leva o seu tempo. E seriam certamente mais úteis para muito mais gente.








