José Saramago acusou a Bíblia de ser um «manual de maus costumes», como se o que lá está contido não fosse um repositório cultural da moral judaico-cristã que o habilita, ao Nobel, a produzir juízos de valor com base em noções de bem e mal. E como se essa própria moral não tivesse resultado da transcrição das normas e referências axiológicas aceites e encorajadas nas sociedades passadas e contemporâneas a tal transcrição. Persiste o anacronismo que frequentemente está associado à secularização da sociedade, mas essas são outras cantigas... A Bíblia, assim como a Torá (motivada pelos maus costumes dos judeus na Babilónia) e o Alcorão, são códigos nos quais vigora alto nível de simbolismo e metaforismo, podendo dar lugar a variadas interpretações. A de José Saramago é certamente uma. Tal como a de Bento XVI, a dos judeus ortodoxos, a do Patriarca de Moscovo ou a de Bin Laden. As que motivaram as cruzadas ou a Inquisição têm que ser vistas à luz do tempo histórico em que ocorreram. Pelo meio e sem acesso aos meios mediáticos para alardear o que bem entenderem estão multidões de crentes.
Regressando a Prometeu, podemos aqui identificar a exaltação da racionalidade humana (o uso do fogo) por comparação com a irracionalidade dos outros animais. E o castigo de Zeus a Prometeu? Parece mais indiciar um «toma lá disto, para não te armares em espertinho...».
Ora, se os gregos tivessem desatado a reproduzir a conduta libertina e sanguinária dos seus deuses, dificilmente teriam dado ao mundo homens como Sócrates, Platão e Aristóteles. Ou Demócrito, Heraclito, Pitágoras, Diógenes, Solon, Fídias, Homero e Pericles. Nem nós teríamos dado à literatura o José Saramago.
Nota final: defender o multiculturalismo e a liberdade, vituperando a liberdade de outros tem correspondência com integrar as listas de um partido e apelar ao voto em branco. Independentemente dessas incoerências, Saramago tem obviamente direito à opinião.











