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28 de outubro de 2009
21 de outubro de 2009
Os maus costumes de Saramago
José Saramago acusou a Bíblia de ser um «manual de maus costumes», como se o que lá está contido não fosse um repositório cultural da moral judaico-cristã que o habilita, ao Nobel, a produzir juízos de valor com base em noções de bem e mal. E como se essa própria moral não tivesse resultado da transcrição das normas e referências axiológicas aceites e encorajadas nas sociedades passadas e contemporâneas a tal transcrição. Persiste o anacronismo que frequentemente está associado à secularização da sociedade, mas essas são outras cantigas... A Bíblia, assim como a Torá (motivada pelos maus costumes dos judeus na Babilónia) e o Alcorão, são códigos nos quais vigora alto nível de simbolismo e metaforismo, podendo dar lugar a variadas interpretações. A de José Saramago é certamente uma. Tal como a de Bento XVI, a dos judeus ortodoxos, a do Patriarca de Moscovo ou a de Bin Laden. As que motivaram as cruzadas ou a Inquisição têm que ser vistas à luz do tempo histórico em que ocorreram. Pelo meio e sem acesso aos meios mediáticos para alardear o que bem entenderem estão multidões de crentes.
Por isso, vale a pena reparar em alguns dos costumes exaltados pela mitologia grega, suporte de toda a civilização ocidental.
Por dar o fogo dos deuses aos homens, distinguindo-os de todos os outros animais, Prometeu foi mandado acorrentar por Zeus no alto do monte Cáucaso para que o seu fígado fosse gulosamente debicado por um corvo (águia? abutre?). Repare-se que Prometeu era neto de Oceanus, filho de Urano que, por sua vez, era filho da Terra. Ora, no fundo, entre os deuses clássicos e titãs e outros, vigoram relações endogâmicas e nalguns casos incestuosas. A este respeito, é fundamental compreender que o incesto é um tabu universal. Por isso está interdito aos homens, incluindo aos homens gregos. Mas não aos deuses… É, em linguagem antropológica, um interdito. Assim como a homossexualidade, embora neste caso não seja universal como o demonstra a sociedade grega [da Antiguidade Clássica] e, por exemplo, os rituais de felatio entre jovens Baruya na Papua Nova Guiné.
Mas, veja-se a promiscuidade da coisa – «maus costumes» - que, do ponto de vista sexual, está sempre presente nas aparições à socapa de Zeus na cama de toda a sorte de deusas e mulheres para conceber filhos ilegítimos (são também relatadas autênticas violações). E Afrodite, enfim, que nasce da fecundação dos testículos de Urano com o mar, depois de castrado pelo seu próprio filho, Cronos.
O agrilhoamento de Prometeu, Pieter Pauwel Rubens, 1610-11
Regressando a Prometeu, podemos aqui identificar a exaltação da racionalidade humana (o uso do fogo) por comparação com a irracionalidade dos outros animais. E o castigo de Zeus a Prometeu? Parece mais indiciar um «toma lá disto, para não te armares em espertinho...».
Ora, se os gregos tivessem desatado a reproduzir a conduta libertina e sanguinária dos seus deuses, dificilmente teriam dado ao mundo homens como Sócrates, Platão e Aristóteles. Ou Demócrito, Heraclito, Pitágoras, Diógenes, Solon, Fídias, Homero e Pericles. Nem nós teríamos dado à literatura o José Saramago.
Nota final: defender o multiculturalismo e a liberdade, vituperando a liberdade de outros tem correspondência com integrar as listas de um partido e apelar ao voto em branco. Independentemente dessas incoerências, Saramago tem obviamente direito à opinião.
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