10 de agosto de 2006

Arte e «Cultura», Consumo e Comercialização




O consumo de bens artísticos [comercializáveis] é nos nossos dias uma actividade tipicamente burguesa, enquadrável em sociedades oligárquicas e por vezes democráticas, onde o acesso é reservado exclusivamente às elites (raras são as vezes em que são elites tradicionais) ou, em sociedades de abundância e desperdício, mais democratizadas do ponto de vista quantitativo (maior dimensão do universo de consumidores, definida pela existência de uma classe média). A arte e a «cultura» tendem a ser convertidos em objectos de consumo em sociedades matizadas pela matriz consumista. Ou seja, presente em praticamente todos os países do mundo, inclusive aqueles que carregam a bandeira do socialismo.

Só havendo tempo livre e possibilidades de lazer (corpóreas e incorpóreas), recursos financeiros acima do limiar de sobrevivência e sociedades abastadas ou estratégias propagandísticas governamentais (…), é que se reúnem as condições básicas para a produção-comercialização artística. Para as massas nuns casos, para elites, noutros.

Em Portugal, estas duas realidades confundem-se conforme a visibilidade mediática, as epifanias de poder e o momentâneo estado de saúde da bolsa de cada um. Felizmente a tradicional condição sanguínea tem vindo a deixar de ser determinante, gerando amargos de boca entre os que viam a arte e a «cultura» como um património exclusivo dos «altos» da nação e da provinciana comarca… Quando a arte e a «cultura» são tidas como um apuro de superioridade social a que fica bem aderir [condição que o desporto (popular) jamais se poderia arrogar] torna-se clara a sintomatologia elitista ligeiramente submersa entre a decadente reacção ou o novo conservadorismo, personificado na malta que de um dia para o outro já tem afinal onde cair morta.

Mas num como noutro caso, falamos de um excedente individual com referência àquilo que é considerada a satisfação de necessidades primárias ou naturais dos indivíduos, excluído naturalmente toda e qualquer manifestação artística cujo acesso não carece de «dote» ou «preço da noiva»…

Esta perspectiva é naturalmente oposta àquela em que a teleologia artística se centra no objecto de criação do artista e não no retorno que isso lhe possa trazer, ou seja, quando o artista não tem consciência de si como «artista» e a fruição é realmente democrática e livre. Mas ninguém vive do ar e numa sociedade que supostamente individualiza o mérito, o artista vê-se frequentemente confinado às mesmas delimitações intelectuais e condicionantes sociais que os demais cidadãos. Vulgar e indiferente.

A democratização da arte e «cultura» implica a sua banalização e por vezes a espectacularização, significando na maior parte dos casos, um desinvestimento na qualidade? Não necessariamente, porque à semelhança do desporto, na arte e «cultura» também existem campeonatos estruturados por divisões, cujo acesso é definido pelo génio do artista e pelos apoios que consegue granjear. Ou seja, também aqui, a competição intensifica a qualidade, distendendo apenas o fosso entre o sublime e o francamente mau; e o acesso da alta e da baixa burguesia.

1 comentário:

N.V. disse...

"Não há dinheiro não há palhaços"~
Os próprios artistas vivem na precariedade,como se o acto criativo não fosse, também ele, produtivo, embora, sugeitos às leis de mercado.