O rapaz permaneceu sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos. A postura rígida era contrariada de tempos a tempos pela mão que levava ao cabelo para ajeitar uma madeixa caída. Uma e outra vez. Para devolver a madeixa desalinhada ao convívio das demais. Grossos fios de suor caíam-lhe em barda do queixo, molhando o chão frio de cimento.
“Lá fora, o alvoroço cresce de intensidade.
Alguém lhe pendurou o chapéu na parede ao lado da porta, ao fim do corredor: «quantas vezes terei que dizer que não o quero ao lado da porta. Vê-se tudo». E a madeixa pedia insistentemente que ele a afagasse com os dedos e se demorasse em carícias antes de a devolver ao convívio das demais. À ponta de cigarro esmagada entre a sola e o cimento junta-se outra. E outra. E outra ainda.
O alvoroço continua a crescer, lembrando os tumultos ocorridos numa qualquer cidade do mundo há meses ou anos atrás.
A imprecisão da memória é um sintoma de ansiedade. Ele sabe disso. Por isso não quer o chapéu pendurado ao lado da porta. Precisa dele consigo para não perder a compostura. À medida que o tempo passa, o corredor vê-se dramaticamente afunilado como se a porta tivesse sido colocada umas centenas de metros à frente. As rótulas tremeram com a mão que lhe pousou no ombro, despoletando uma ténue reacção e o derradeiro cigarro só foi abandonado quando o chapéu subia à cabeça para disciplinar definitivamente a madeixa.
Ao rubro, a multidão exulta com a sua presença e começam os primeiros acordes”.
Nisto, o rapaz desliga o rádio e sai de casa, lembrando-se subitamente que, atrás de si, deixara abandonado no cabide um chapéu igualzinho.
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