10 de setembro de 2008

E se eu fosse uma cómoda?

Maltrato-me frequentemente com pensamentos desviantes que me jorram da fronte como calda de pêssego enlatado mas só raramente lhes concedo uma operação sintáctica, como podeis confirmar neste humilde espaço de auto-justificação existencial [risos].

Hoje, enquanto desmanchava um vitelo no trabalho passou-me pela ideia o que seria de mim se fosse uma cómoda. Duplopensar, em linguagem huxleyana ou, simplesmente, uma redundância. Uma cómoda, esse local pouco arejado ao qual associo um depósito de farturas e de cuecas de sexagenária, corroídas pelas traças e com cheiro a mofo. E se eu fosse uma cómoda? Claro que há milhares de referências a cómodas no dicionário. Mas ser uma cómoda, assim, de um pé para a mão… é coisa difícil de engolir. Sobretudo de for de Pau-Brasil porque, presumo, deverá arranhar a garganta como se alguém insistisse em me fazer passar umas calças de ganga pela glote. Acho que não tenho apetite para tanto. Adiante.

Uma cómoda é um corpo deveras estranho. Normalmente, tenho-a por um objecto capaz de acomodar de tudo um pouco: desde as cuecas da sexagenária até às memórias mais sórdidas embrulhadas em roupa interior suada e gasta que, por sua vez, escondem retratos a P/B de mulheres gordas com chapéu de caqui e penas, a mostrar as mamas e a volumetria de umas curvas amplas e arredondadas. Porém, sempre que bem acomodado, numa cómoda cabe quase tudo e mais um par de botas da tropa. Um bocado como a bagageira de um Fiat 600 ou a mala de viagem de um imigrante arménio. Serve para tudo e habitua-se facilmente a essa disforme condição de receptáculo sem fundo, sem precisar de protocolos ou memorandos para uma correcta utilização: «atira lá p’a dentro, pá, que depois se arruma no sótão!». Uma cómoda é, diríamos, a uma das maiores exaltações do entorpecimento que um objecto pode ter. Isso ou perder tempo a ver o Benfica na televisão.

Assim me senti eu. Acomodado no interior de mim próprio, prestes a chegar ao sótão. Cheio como um ovo, como se tivesse engolido um pão de kg com dois litros de água. Ou pior ainda: como se me sentisse nauseado por ver no espelho a imagem reflectida de um nababo inútil a arrotar porções de alho mal mastigado enquanto declamava Guerra e Paz, de Leão Tolstoi (felino das estepes entretanto desaparecido do Livro das Existências). Confortavelmente acomodado numa qualquer gaveta da sua [minha] existência. E com o sovaco a cheirar a bafio.

Para desagravar a coisa, devo recordar que há, naturalmente, outras referências como por exemplo, ter uma vida cómoda. Pensei sobre o assunto e cheguei à conclusão de que a nenhuma cómoda deveria poder ser concedida tal blasfémia. Onde é que já se viu uma cómoda ter uma vida cómoda? Só se não insistissem em me empanturrar com farturas. Já não aguento mais tanto frito.

Deixo um valioso conselho a todos os poetas que, como eu, vivem fustigados por pensamentos inúteis: quando virem farturas, não abram a gaveta! E fujam daí para fora a sete pés. Foi o que me disse o Kafka pouco antes de morrer na sua repartiçãozeca... cómoda.
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Palavras-chave: "cómoda", "vitelo", "farturas", "repartiçãozeca"

4 comentários:

Maria da Fonte disse...

O meu pai tinha uma fotografia dessas lá em casa. Bom, já não sei se era o meu pai, o pai dele ou... o meu marido...

Anónimo disse...

ah... já percebi!

Anónimo disse...

Uma cómoda pode conter um belo livro, uma bela lingerie, uma caneta bonita.

Anónimo disse...

tudo desorganizado