18 de julho de 2009

Ensaio sobre o absurdo i


Quando a Gasosa convidou para a rubrica Gasosa Convida, fui levado a recusar por não me lembrar de ter sido convidado, por o carro não pegar e por uma cegonha fardada de Express Mail me ter batido à porta intimando-me a levantar a encomenda que estava no Depósito M-53 do Cegonhoporto local há cerca de 270 dias.

Encurralado, resolvi aceitar de boa vontade. Inicialmente, pensei em pregar-lhe com algumas suras do Corão ou outras tantas leis do fiqh ou, ainda, uma das 3573 máximas que trago decoradas sempre à mão para enfrentar qualquer circunstância com que me deparo no quotidiano. Mesmo em situações francamente embaraçosas como daquela vez em que o presidente da república me pediu um exemplar do Borda d’Água na casa de banho de uma loja da Mango em Alcabideche. Felizmente não era nada comigo e o homem era afinal um professor irado com a Maria de Lurdes Rodrigues por causa do cozido de grão que aquela terá deixado displicentemente ao lume.

Pensei igualmente em resolver o assunto enviando uma fotografia do Fernando Mendes a fazer o pino no lombo de um touro bravo. Mas o touro não colaborou e o aspirante a humorista conseguiu sair ileso da sala de desmanche antes que lhe cobrassem a entrada.
Assolado por tenebrosas e incapacitantes dúvidas, fui acometido por um terrível ataque diarreico quando lia o jornal e ocorreu-me a ideia de trabalhar em part-time num ensaio sobre o absurdo. Pensei, em jeito de desabafo, «absurdo ou cegueira, é tudo a mesma coisa», apesar de não viver numa ilha vulcânica coberta de cinzas onde não se topam mais do que calhaus menores de idade.

Como é do conhecimento geral, etimologicamente, absurdo deriva de uma norma incapacitante e defeituosa: «o surdo». Mas isso não interessa para o caso. Ora, neste mundo em que vivemos e numa perspectiva meramente metafórica, não ouvir é como não ver, logo, o ensaio está concluído e demonstrado.

Depois deste importante depoimento de um indivíduo com um notável percurso na apanha do tomate, entramos finalmente no assunto encomendado.

Era eu um pré-adolescente, imaturo e inconsequente quando os americanos deram guerra ao Iraque. O que tem isto a ver com o propósito deste texto? Nada! Mas achei que seria útil dizer que esse determinante facto histórico ocorreu paralelamente às minhas investidas na taberna ao lado da escola em busca de bagaços vespertinos e drops de frutas. In illo tempore, como se costuma dizer, não haviam mais do que três ou quatro motos com cilindrada superior a 125 cm³ em Évora e o Chico era o maior mentiroso do Alentejo. Fosse como fosse, passava os meus santos dias nas aulas com o rabo sentado num intenso formigueiro, as pernas orientadas para a porta de saída [ou para a janela, conforme os casos], e a cabeça estacionada em alguma parte da lua. Confesso que nunca me soube orientar naquele planeta estranho, talvez por ser tudo um bocado a preto e branco. No entanto, desse alongamento físico-espiritual se depreende a minha fisionomia de núbio, só traída pela estatura pigmeia de toda a minha família.

E a que me dedicava eu nesse frenesim? À pintura! Pode parecer estranho escrever um texto e não apresentar nada artisticamente relevante mas… sempre fui uma criança difícil e quase entrei para a Opus Dei, não fora a denúncia de orgasmo manualmente induzido a bispos irlandeses, feita por uma colega da escola a quem eu me esquecia de desejar «um bom fim-de-semana» à sexta-feira. À conta disso fui chamado à presença do director da escola a quem tive que explicar detalhadamente por que razão a sua mulher pedia sempre boleia ao professor de ginástica e não ao próprio marido. Era uma liberal e eu queria ser um pintor vagamente conhecido. Por isso, não dava para casarmos.

De regresso ao principal assunto, na esperança que eventualmente ainda pudesse entusiasmar algum leitor (assim eu me lembrasse do que estava a falar), a pintura e a reflexão conduziam-me em viagens epopeicas numa espiral que terminava em êxtase no centro da sala de aula a esvoaçar na companhia de imensas moscas sem GPS. Nessas viagens, perturbadas irritantemente por uma criatura que exigia ser chamado «professor», eu não me dedicava a nada em especial mas era feliz pelas pinturas que, por vezes, encontravam a glória nas gargalhadas dos colegas imediatamente sentados à frente e imediatamente sentados atrás. Isso, num primeiro momento porque, em rigor, alguns minutos depois acabava inexoravelmente na rua com falta a vermelho, conquistando um espaço de afirmação intelectual e artística só reservada às crianças brilhantes. Por isso é que nunca consegui passar do 9º ano.
Para além das pinturas eróticas e das cabalísticas, sempre manifestei um particular interesse pela aero-náutica. Por esse motivo, os meus desenhos reflectiam predominantemente um casamento entre a aviação e o surf-Presto. Por nenhuma razão em particular. Nos aviões a jacto era comum instalar um estendal de roupa preparado para se apeitar com velocidades supersónicas. Julgo que, simbolicamente, se trataria da representação das marés e ventos que lavam e secam a roupa, costume culturalmente muito relevante, embora não seja de descartar a minha sensibilidade ecológica já manifesta naquela altura. Com essa manifestação de castidade desencadeada por roupa impecavelmente lavada, seca e passada a ferro a 2G, o que eu pretendia era, nada mais e nada menos, comprovar a existência de Deus.

Naturalmente nunca o consegui mas aqueles desenhos, dos quais não guardo uma única cópia, revelavam antes de mais que não pode haver criatividade na unidimensionalidade. Ou, pelo menos, não é aceitável. Caso contrário, teríamos o mundo governado por albertos joões jardins.

Isto não tem piada nenhuma mas o objectivo foi cumprido e pró ano serei professor titular.
Originalmente publicado em Vai uma gasosa?

2 comentários:

Alexandre disse...

Confesso alguma desilusão por ninguém ter assumido as despesas da discussão sobre as condições fisiológica e ontológica da Lua: planeta ou satélite?

Carlos disse...

Reparei mas pensei que fosses tu que andasses na Lua...