18 de junho de 2010

Execução [pouco ortodoxa] à morte

Ao terem permitido que o condenado escolhesse a forma da sua própria execução, as autoridades americanas validaram, pelo menos simbolicamente, o suicídio assistido: deixaram que houvesse interferência de Lee Gardner no processo de decisão. Assim, a partir do momento em que esta vontade em particular do indivíduo é respeitada, este passa a ser co-responsável directo pela sua própria morte (até aqui eram os seus actos os responsáveis pela condenação à morte). O suicídio não é da sua inteira responsabilidade porque apenas lhe foi permitida uma escolha que materializasse uma decisão exógena. No entanto, a opção pela forma específica de fuzilamento é da sua inteira responsabilidade.

Ao contrário do que defendem as associações de direitos humanos, não vejo francamente como é que se pode classificar como mais bárbaro o fuzilamento do que a injecção letal: ambos são bárbaros. Serrar longitudinalmente um indivíduo a partir do baixo-ventre em direcção ao peito parece-me francamente bárbaro. E doloroso. Tal como esperar 25 anos no corredor da morte, embora esse tempo seja muito superior ao que resta a muitos indivíduos quando lhes são diagnosticadas doenças crónicas e terminais. Enfim, a Humanidade é bárbara. Que o digam também as vítimas de Lee Gardner e os familiares. Para além de bem e mal. Mas este homem escreveu linhas na sua execução, o que a torna participada. Ao contrário de Sócrates, senhor do seu destino até à última gota de cicuta.

3 comentários:

Anónimo disse...

cicuta

silk disse...

grande texto.

Alexandre disse...

obrigado pelo reparo (cicuta)