25 de setembro de 2004

à tout propos (4)

À PROVA DE AMIZADES OU AMIZADES À PROVA

Há dias, desconciliei-me, creio que brevemente, com um amigo após uma breve discussão, rotineira e insignificante. Não interessam aqui as razões. Ambos cuidamos, cada um à sua maneira, das nossas visões das coisas.
Quanto a mim, procuro não perder de vista determinados valores e princípios de orientação, que considero fundamentais e dos quais não quero abdicar. Uma questão de conformidade com tais «faróis», sobretudo quando se trata de posições estritamente relacionadas com direitos humanos e justiça. Muito para além de bem e mal.

Mas, regressando à história, o ponto-chave da discussão foi o momento em que, após esgrimidos argumentos e mais argumentos, saturado de dar explicações sobre algo que considero pouco discutível porque do intímo das pessoas, mandei o amigalhaço às urtigas, que é o mesmo que lhe sugerir que se copulasse, admito, sem pensar muito bem como. Daquelas coisas mecânicas, sem o serem verdadeiramente.
A coisa não lhe agradou, evidentemente, e assim nos despedimos, sensaborões. Cada um às suas, com as não menos suas convicções e apesar do devido reparo da minha parte. Tem a espontaneidade de um homem, destas coisas.


Ora, tudo isto para dizer que, acima de tudo, devo ser honesto comigo e com ele. Em bom rigor, o reparo foi apenas contextual, pois que era exactamente aquele dito que eu desejava naquele momento que ele materializasse, em sentido figurado, pois claro, que de outra forma não creio ser humanamente concretizável. Por enquanto. Afinal de contas, o Darwin também tinha as suas razões.

A questão que se coloca, por ser recorrente em algumas relações de amizade, é a seguinte (e não tem que ser necessariamente homologável a este caso em particular): porque razão teremos por vezes que nos ocupar dos outros e das suas coisas como se fossem as nossas, como se se tratassem de reality shows e não de pessoas?
Não se compreende porque razão é por vezes a amizade tratada de forma indigente como um objecto de consumo permeável a modas, provas a superar, quando não se torna um lugar comum de superiorizações morais pueris ou de aconchego para afirmações de vontade despropositadas. É um desperdício de energia irracional, com tantas coisas onde a(s) empregar... a razão e a energia, evidentemente.
De acordo com a moral (podemos ou não, dar a saber aos outros qual o grau de conformidade aceitável para se entrar no céu), qual será de seguida a atitude mais correcta da minha parte?
Fico preocupado se alguém me pedir para escalar o Everest, mesmo que com oxigénio. Apesar de o BES saber que não há «amigos assim», também não estou muito disponível para contrair empréstimos. Matar um leão com um jovem Masai, também não me parece... os sacrifícios têm limites e os meus, condicionados por experiências passadas, são hoje muito mais curtos...

Como a memória não fala, mas sim a razão...

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