11 de maio de 2008

Fernado Pessoa, «pela simples qualidade da ironia»

Quase um século depois, a Europa reconheceu a importância de alguém que o seu próprio país ignorou: Fernando Pessoa. Segundo o Bureau Internacional das Capitais da Cultura, Fernando Pessoa encontra-se entre uma das 50 mais influentes personalidades europeias, ao lado de verdadeiros ícones como Leonardo da Vinci ou Albert Einstein. A distinção não é casual nem o enfoque na cultura enquanto elo de aproximação entre os povos, como bem o procurou demonstrar George Steiner.

Mas infelizmente, nós os portugueses - o povão - acha mais graça à selvajaria e à pequenez intelectual e social. Por isso não hesita em eleger como «grande português» um verdadeiro louco paranóico e encara com naturalidade a inversão dos valores e princípios que justamente distinguem a cultura europeia da pobre cultura americana.

Infelizmente também, suspeito que metade da população portuguesa corre o risco de confundir Fernando Pessoa com um cantor de variedades de cachucho, topete e camisa a cheirar a farturas.

Quanto desassossego…

Nisto, vale a pena retomar Bernardo Soares para com ele assentir que “o homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanchez, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a varia superfície da terra.”

1 comentário:

K. disse...

impecável!