11 de novembro de 2008

A Bimby



Toda a gente sabe o que é a Bimby, n’est-ce pas? Toda a gente sabe que a Bimby existe há 30 anos e só agora chegou a Portugal, correcto? Toda a gente sabe que a Bimby é a cozinha mais pequena do mundo? De tal forma que a pode levar consigo de férias, para um piquenique ou para o trabalho?


Basta apenas uma saída de electricidade porque a Bimby, fiel amiga e dona de casa extremosa, encarrega-se das tarefas aborrecidas em menos de um farol. Picar cebola deixa de ser um sofrimento, fritar pastéis de bacalhau pode revelar-se uma tarefa descontraída, comprar sumos de néctar passa a ser coisa do passado e cozer reluzentes douradas a vapor torna-se uma realidade. Em suma, a Bimby confecciona eficientemente os mais deliciosos pratos, desde o bacalhau com natas aos bifinhos com cogumelos.


Prática e limpa, a Bimby dá todo esse conforto a uma família média por apenas 900 euros. Mas não se assuste! Este valor pode ser muito relativo porque… já pensou em todos os produtos que compra no supermercado e que a Bimby pode perfeitamente preparar sem o menor esforço e a um preço reduzido? Além disso, fique descansado/a porque os créditos pessoais da Cofidis e da Cetelem asseguram que o seu endividamento não diminua com o actual decréscimo das taxas de juro de referência.


É o momento ideal para comprar o seu melhor amigo na cozinha, para acolher no seio da sua família este maravilhoso e fantástico cúmplice na confecção de refeições diversificadas e saudáveis.


A Bimby é tudo isto e mais um par de botas. Claro que da cartilha não consta um plano de rentabilização do valor investido e, muito menos, o insubstituível prazer que pode dar preparar com carinho uma refeição. Nem as necessárias imperfeições que dão sabor às coisas. Ou as virtudes terapêuticas de cortar, demolhar, temperar, trocar tachos, limpar bancadas e… mexer o preparado com uma simples colher de pau.


Não, com a Bimby tudo é perfeito, monotonamente perfeito. Bom, em rigor nem tudo, porque no final da demonstração, o jantar tardio às 23h00 consistiu numa muito apresentável lasagna mas que, debalde, exibia aquele mesmo sabor que detesto nas carnes aquecidas pelo microondas. Imagino que para um italiano, uma lasagna preparada na Bimby esteja no mesmo patamar de heresia que para mim estaria uma açorda d’alho ou uma sopa de tomate.


Antes da lasagna, já tinha dado a minha sincera opinião à senhora, uma opinião simples e racional: «a maquineta, perdão, a Bimby, é muito útil e interessante mas não vou gastar 900 euros num objecto que não utilizarei».


Não foi certamente a apreciação que a senhora esperava, visto ser, ela própria, uma bimbymaníaca. Efectivamente, a mulher disserta sobre a sua Bimby como se fosse a resolução para os problemas do mundo. Igualmente agastada por não lhe ter fornecido contactos de pessoas sem lhes perguntar previamente; de cabeça perdida por – supostamente – ter sido a primeira vez que sai da casa de alguém sem uma Bimby vendida, a senhora acabou por se despedir com uma irritação compreensível. Na minha opinião, bastante mais compreensível do que a estratégia agressiva com que nos abordou desde o início.


O desapontamento foi evidente porque é óbvio que a senhora tinha previamente assumido que a demonstração culminaria com a venda. Jamais terá ponderado sequer um desfecho contrário às suas expectativas. É essa a realidade das vendas. Tratei ainda de lhe explicar que a perspectiva que ela e a empresa têm acerca da disponibilização de contactos de potenciais interessados é diferente da minha:

Em primeiro lugar, só posso recomendar convenientemente um Porsche a alguém se tive suficientes experiências com esse tipo de automóvel, como para me habilitar a tecer quaisquer considerações sobre o seu desempenho. Em segundo lugar, antes de dar contactos à senhora [algo a que não me vejo na obrigação de fazer], tenho que me certificar que se essas pessoas pretendem ser contactadas. É elementar.


Horas antes, de regresso de mais um dia de trabalho, mal sabia que seria confrontado com uma massiva construção artificial de necessidades. Era suposto que, no final, me visse envolto num mar de possibilidades e saudades de um bem de consumo com o qual tinha acabado de travar conhecimento. Uma paixão arrebatadora e, acto contínuo, cheque passado à empresa Vorwerk para gáudio de todos.


É possível que o conforto que uma maquineta destas dá a muitas famílias se repercuta em tempo livre adicional para… consagrar ao trabalho e a mais algum ao fim do mês, para alimentar a espiral de consumo. Ou, à mais alienante telenovela como alguém fez questão de frisar.
Eu, gosto de lutar pelas coisas. Por isso me dá tanto prazer perder tempo na cozinha, beberricar um copo de vinho e acender um cigarro quando o refogado vai ao lume. Mesmo que saia queimada, salgada ou picante, a dimensão da experiência é insubstituível. Por isso, também não me arrependo da demonstração de ontem.



PS I: se alguém estiver interessado numa demonstração, entre em contacto comigo. Consigo garantir que alguém vá a sua casa confeccionar uma refeição Bimby.


PS II: como não adquiri a Bimby, hoje, as castanhas serão assadas na brasa e a jeropiga vem de produtores da Beira Alta.

4 comentários:

bida disse...

ingrato pa!!

malmequers disse...

á duas semanas passou-se igual cena lá para os lados de Arraiolos e, a lasanha deu para 3 dias...

vecinozito disse...

no compras la biby y yo tengo que seguir oyendo todo el ruido que haces cocinando!!!!!!!!

Anónimo disse...

Há quanto tempo eu não te lia.... e... por momentos assustei-me. Com o bem que cozinhas era agora o que te faltava.

Já te estava a ver a fazer uma exposição de "bimbes" no foyer do centro cultural!!!!!

"Bejus" da serra