2 de dezembro de 2008

Uma grande família

No dia em que se comemora a restauração da independência nacional ocorrida em 1640, é hábito do pretendente ao trono português, vago desde 1910, comunicar qualquer coisita ao povo. Nessa condição, D. Duarte de Bragança trata de legitimar a sua causa, enumerando a incontável série de virtudes da monarquia e lamentando os erros crassos da nossa história recente. Nada de novo.

Uma das novidades diz respeito à sua singular capacidade para estabelecer consensos e pontes entre os povos. De acordo com a sua complexa teia de parentesco, simultaneamente agnática e uterina, o homem diz-se descendente de Maomé (pela rainha Santa Isabel) e de David (pelo rei Afonso Henriques) conforme viaje para a Arábia Saudita ou para Israel. Isso traz-lhe óbvios benefícios, já para não falar da magnífica sala de troféus. Nesse campo, o ascendente monárquico é evidente pois não acredito que os presidentes da república tragam das suas viagens muito mais do que os tradicionais sapos.

Além disso, o facto de nunca se ter sujeitado a ser empregado de alguém, alega, é um garante de independência e liberdade de pensamento. Felizmente para ele porque, para a maioria, é uma garantia de definhamento, fome e exclusão social.

Mas, o mais sensacional é, naquela apologia frenética que faz ao feudalismo de subsistência pontificado por uma figura tutelar – o Rei – D. Duarte de Bragança coloca a causa monárquica e o PCP no mesmo patamar de patriotismo.

Um peculiar patriotismo pois, se o PCP é uma peça da engrenagem internacional que visa a adopção do comunismo sem fronteiras, a causa monárquica não prescinde daquela exogamia estratégica que sempre serviu para fortalecer casas reais e que, ele próprio confirma quando admite que as famílias reais existentes no mundo são "uma grande família".

Essa exogamia de pendor internacional é a mesma a que os judeus se sujeitaram durante séculos (por motivos ligeiramente diferentes) e que, com o advento do Estado-nação, foi particularmente posta em evidência: sem nação, os judeus só podiam ter como pátria a sua própria condição social e religiosa, à qual deveriam simultaneamente «enfatizar e renunciar» (Hannah Arendt).
Ora, famílias que sempre misturaram sangue em prol de vantagens políticas, refinações genéticas e sociais, gerando estruturas de consanguinidade exóticas, não deveriam resignar-se a reclamar uma pátria específica que coincida com uma só nação. A pátria do insigne pretendente é muito mais do que Portugal e pouco menos do que o Mundo. Portugal é apenas o pedaço de território onde o homem nasceu. Afinal, não são "uma grande família"?

1 comentário:

Transeunte disse...

Com base no pensamento deste grande rei de Portugal podemos assumir que, ao contrario do que se tem verificado, em Portugal não temos uma elevada taxa de desemprego mas sim uma elevada taxa de independência e liberdade de pensamento, características essas que nos colocam na linha da frente quando se trata de pensar, livremente, em toda a fome e exclusão social que mencionaste, independentemente do resto.