18 de maio de 2006

«Pai João»

Como um trágico presságio, ele abandonou abruptamente os restantes para comprar cigarros. Quando regressou, nem a tragédia fora consumada nem a sua mulher estava na cama com outro.
Mas entre a saída e o retorno dos cigarros, decorrera o tempo equivalente a uma vida. Uma dimensão paralela, fora do real, do tempo e do espaço, da tragédia e das relações adúlteras. A tranquila sensação de paz na sua forma mais simples, na lucidez ambígua de um louco contemporâneo e tão autêntico quanto a condição humana. Poderia haver bebida pelo chão, móveis desarrumados, roupa espalhada. Nada. Mas no imenso espaço feito do saboroso chocolate «Mundo», os inexistentes cortinados esvoaçavam surpreendentemente ao ritmo dos poderosos roncos do «Pai João». Não lhe chegou a ver as trombas mas o momento comovente da partilha à luz de nada, na penumbra de um recanto arruinado, fizeram valer a cerveja derramada, os cigarros e o «fazer-se à vida».

8 comentários:

joaodaveiro disse...

muito bom.
se foste tu a imaginar. tens dose de escritor!ou tvz cineasta.

Anónimo disse...

;)

Anónimo disse...

filosofo...
lembra-me a lentidão de sepulveda

NachtEldar disse...

ARV:

Efectivamente, uma toada mais literária.
Relativamente ao teu post sobre S.Paulo, "A Ordem Natural das Coisas", gostaria de fazer duas observações:
-Revê a palavra apartheid
-O Modelo Social Oligárquico Generalizado (na medida em que se estende à esfera económica, ao acesso à saúde, educação e salvaguarda jurídica, à livre circulação e à livre opinião) está a implantar-se na Europa, de acordo com aquilo que a esmagadora maioria da população é levada a considerar sua "livre" escolha...
No aspecto político, este modelo assume-se inexoravelmente como criptocrático.

Um abraço

Anónimo disse...

...pensei kundera e escrevi sepulveda.

ARV disse...

Nacht, agradecido pelo comentário, como sempre.

E agradecido também pela detecção da gralha. Vou alterar.

Naturalmente, a palavra «apartheid» surge como a dramatização de uma realidade psico-social repressiva e «segregadora». Também simbolicamente. Neste caso não com base na raça mas com base nos recursos financeiros.

EM ROID HALL disse...

..."na lucidez ambígua de um louco contemporâneo e tão autêntico quanto a condição humana"...

Grande!!!!!!!

Diz-me, somos quase todos NÓS?

ARV disse...

Bom, não quero iniciar aqui uma religião mas... confesso que em última análise, a normalidade não existe na sua forma absoluta. Como nada na vida. Sem embargo, existe a necessidade de corrigir, disciplinar, aquilo que o meio envolvente e centrífugo sentencia como patologia, como se sabe, um conceito histórico. Como tal, evolutivo. Só isso justifica a escravatura bem como os direitos universais.