27 de fevereiro de 2007

O Grave Problema da Coerência

O problema do mundo é o grave problema da coerência. Ou melhor, da incoerência. O lobo disfarça-se de cordeiro, para depois se esquecer porque raio é que é lobo e não um estorninho. Aparenta desconhecer a que se dedicavam os seus ancestrais antepassados nos tempos primordiais, quando o mundo ainda não era mundo, pelo menos para si. Caso contrário, não se disfarçaria de cordeiro. Para quê tanto aparato, quando no momento crucial, nesse preciso momento em que o frágil pescoço do cordeiro está alinhado pelo azimute dos poderosos caninos, o lobo se desinteressa da presa? Para sorrateiramente a lamber, guloso, aguardando em louca salivação que ninguém veja e lhe atire com a porra da incoerência… que incomoda. – Ou é, ou não é, gritam eles ao lobo.

Ao lobo, pede-se que seja lobo com dignidade e frontalidade, e não que subverta ou inverta os papéis. Tal como ao sacerdote se pede que seja sacerdote e sobretudo, ao pregador de ideias se pede que as beba ele também. E parece residir aí o problema da coerência, quando ideais e valores da cultura são inoculados artificialmente na natureza dos homens. – Tem que se nascer com eles, meu velho. – Ou então, insistir e persistir e perseverar e teimar. Se é para se ser lobo aculturado, nesse caso, que nem pestaneje ao passeio do cordeiro. – É isso, meu velho, achar-se animado por uma vontade inabalável em não quebrar sob as pauladas da incoerência.

Por essas dificuldades, quanto mais culturais são os homens, maior o risco de se assemelharem a lobos amnésicos, incoerentes. O problema da coerência é um problema imemorial, sempre existiu. Desde que os homens são homens e os lobos são esquizóides. De lobos que alardeiam falaciosos estatutos de predador e de pregadores de ideias que nem com elas conseguem conviver, de tão pesadas serem para a vida de um homem.

Mas também é verdade que um lobo é um lobo e um homem é um homem. E o que os distingue definitivamente, não é a razão mas sim a cultura. E é preciso muita, para se amar a solidariedade.

12 comentários:

um deus de uma guerra pacífica disse...

“O problema do mundo é o grave problema da coerência. Ou melhor, da incoerência.”

Um dos tiques que mais atormenta a alma, a (in)existência…
O impossível, o imperfeito, o subjectivo, o utópico “tique” da coerência
Há pessoas para as quais o tique se torna o fetiche, o vício, a doença
Por ele experimentam-se, por ele se castram, com ele dormem na cama
Acaba por se transmutar em nós, ao desejo que temos que o faça.
Nessa altura, apesar do peso das ideias, apesar do esforço, do trabalho, do suor, da raiva endurecedora, do caos, da desistência, da morte do próprio tique…
Rebenta o fruto – a liberdade, a resistência serena, os sorrisos e risos, as cores do mundo. A consciência tranquila.
Comê-mo-lo satisfeitos debaixo de um chaparro.
Mais tarde retornará de algum modo à terra…
Cíclica e imemorialmente.

(H)à coerência

malmequers disse...

Mas também pode ser verdade, que num mesmo espírito podem coabitar lobo e homem, pelo menos é o que pensa Hermann Hesse no seu “O Lobo das Estepes”.
Uma leitura perturbadora...


http://www.citador.pt/biblio.php?op=21&book_id=1753

ARV disse...

Ou seja, Malmequers, o resultado dessa coabitação é o homem incoerente?

Quer o lobo, o cordeiro, o estorninho ou o canguru não dispõem de instrumentos cognitivos para alterar decisivamente os seus comportamentos e instintos. O homem tem. Mas também tem a possibilidade de se afirmar e afirmar a sua individualidade, os seus princípios, moral, valores e atitudes, e agir em conformidade com eles. Tudo cultura...
Não estão em causa as capacidades de adaptação, imitação, criação, etc. Mas sim a (in)capacidade em (re)ligar ideias a acções, procurando diminuir os índices de hipocrisia. O homem incoerente é necessariamente hipócrita, ou não?

malmequers disse...

Na concepção de Hesse seria um louco, um homem verdadeiro; concepção na qual revejo coerência, pois nós não somos mais do que a luta constante entre a nossa dimensão racional e os nossos instintos.
Nessa perspectiva caro ARV, temo que possa associar incoerência a hipocrisia; mas poderei eu escrever estas palavras?
um abraço,

Margarida Azul (OGM) disse...

Não me parece que um homem incoerente seja necessariamente hipócrita, desde que se assuma como incoerente. Assim, por exemplo, quem nele "votar" sabe que votará na incoerência. A própria coerência desse homem reside precisamente na incoerência dos seus comportamentos, já que das ideias poderá considerar-se coerente. Julgo existirem pessoas que demoraram muito a ligar as ideias às acções.
Talvez a encontrarem-se e/ ou assumirem-se.
Escolherem-se.
A capacidade em ligar ideias com acções obtém-se, a meu ver, através da escolha individual. Considero-a fruto de uma profunda e constante introspecção, baseada não só em experiências vividas como procuradas, assim como na capacidade exigida ao observador-participativo. As acções iniciam-se à medida que as ideias vão tomando forma a partir da nossa estrutura base e em aquisição. Amar a solidariedade, implica ser solidário, genuinamente solidario, fundamentalmente solidário.Acredito que muitos de nós nascemos com a mesma capacidade para ser solidário como com a mesma capacidade para ser individualista. Depois, circunstancialmente somos empurrados mais para um lado ou mais para outro (não esquecendo o sexo, que é importante); segue-se a noção do que é uma coisa e outra; depois a escolha e o início da prática. Chega uma altura que ser solidário já não se distingue do nosso nome. É como tudo... Pressupõe uma forte noção de equilibrío entre muitas partes. Ser solidário; ser franco; ser honesto; Eu sou honesto, implica a noção de honestidade e a prática da honestidade; Eu sou incoerente, implica a noção de incoerência e a prática da incoerência.
E o raio da coerência é isto tudo e dá um trabalho dos diabos!
Mas é, de facto, um assunto fascinante, em teoria e em prática.

Boa tarde para voçês

Anónimo disse...

um deus de uma guerra pacífica disse que azul é a margarida. Mas não é coerente.

Ofensor Sensitivo disse...

Um deus que trava uma guerra pacífica, normalmente é um Deus coerente, principalmente na escolha das suas companhias e dos papéis que decide "encarnar".
Nem que a margarida, em circunstancia discursiva, artística, informativa, etc, tenha que aparecer injectada de azul...

As margaridas são belas enquanto flores naturalmente singelas e harmoniosamente aromáticas.

Para quê modificá-las se têem tudo?
Por uma rara côr, se perdem o cheiro? São flores, são coerentes.

Apenas os homens precisam de injecções de sentidos e de razão.

EQUILIBRIUM

:))

malmequers disse...

No seu estado mais puro, as flores são coerentes, contudo com as alterações climáticas essa pureza começa a apresentar alguns desvios.
Mas a pureza inicial existe e é possível. Afinal temos de acreditar em alguma coisa!

margarida azul disse...

Sim, malmequeres, a pureza inicial da natureza em estado selvagem existe.
Porém, em estreita analogia entre a tribo selvagem e a sociedade fortemente massificada pela informação, tecnologia, ciência, consumo, etc e tal, a pureza está, mas mal se vê. E às vezes orgulhosamente se nega, ou estranhamente se desconhece...
A adaptação por motivos de sobrevivência acaba por metamorfosear a natureza de cada um de nós (bichos, homens, plantas).
Aqui, a nocão de sobrevivência da espécie humana, abrange uma infinitude de conceitos associados, conforme as circunstâncias em que nos encontramos.
Aqui nasce a diferença entre o estar e o ser.
E uma das grandes diferenças entre quem se aceita como ser "selvagem"/biológico e ser cultural.
O que é certo é que o biofísico está sempre, onde quer que nos encontremos. Essa pureza existe, sim. A cultura estará, positivamente associada a este estar e logo estamos e somos equilibrados ou negando por completo esta existência e logo somente somos equilibrados, em julgamento cultural.

Cumprimentos

N.V. disse...

O Homem e a nossa cultura tem criado enormes ameaças na natureza, entre elas está a extinção do lobo, pelo menos, a extinção daquilo que ele foi em tempos. Adaptação a nós ... não se terá tornado o lobo num ser cultural? A coerência é cultural, a sobrevivência natural. Mas elas tocam-se!

Margazul disse...

Talvez seja isso. Por vezes também se confunde coerência com auto-disciplina e auto-disciplina com sobrevivência e sobrevivência com natureza. Nada se pode contra a incoerência dos homens. Apenas a coerência da natureza os poderá vir a "exterminar".
E a coerência dela tem sido a vontade de sobreviver até quase ao impossível.
Também são assim muitos indivíduos.
Terão sido assim as vivências dos judeus em guetos e campos de concentração?
Tocam-se muito, muito, muito. Natural
Mente

malmequers disse...

Sobrevivência, extermínio, auto disciplina... - cordeiro, lobo, homem...
Claro, como é que não percebi logo!